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Falta “inteligência natural” para termos uma melhor inteligência artificial

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Tudo que puder ser automatizado será! Costumo responder assim quando me perguntam se determinado setor será impactado pela IA (inteligência artificial). Mais cedo ou mais tarde, em maior ou menor escala, todo negócio será transformado por ela. A ironia é que isso só não acontece mais rapidamente por falta de “inteligência natural”, de profissionais capacitados para criar esses sistemas.

Apesar do avanço galopante da IA, chegando a um ponto em que as plataformas começam a se “autoprogramar”, ela ainda depende essencialmente de seres humanos para seu desenvolvimento. E com seu uso sendo disseminado para as mais diversas áreas, está faltando gente. No Brasil, essa situação chega a ser dramática!

O estudo “O impacto e o futuro da inteligência artificial no Brasil”, divulgado na semana passada pelo Google for Startups em parceria com a Associação Brasileira de Startups e a agência Box1824, indica que 57% dos gestores dessas empresas que trabalham com inteligência artificial acreditam que a falta de mão de obra qualificada é o que mais prejudica o seu crescimento no país.

Isso acontece porque as escolas formam poucos profissionais, e formam mal. Além disso, apesar de ser uma tecnologia que impacta a vida de todos, esse é um setor com pouquíssima diversidade, o que resulta em plataformas com vieses que comprometem a qualidade de suas entregas. E isso exige muita atenção de todos nós.


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Para o estudo, foram entrevistados profissionais de 702 startups no Brasil. Desse total, 71% afirmam que as escolas apresentam pouquíssimos exemplos de profissionais bem-sucedidos em tecnologia, e 41% dizem que educar e conscientizar o mercado sobre IA é o mais importante para o futuro dessa tecnologia no país. Além disso, para 39% dos entrevistados, a vulgarização do termo, com empresas que entregam soluções ruins no que dizem ser IA, prejudica uma adoção mais ampla pelo mercado.

Sobre a baixa diversidade nessas empresas, 49% delas não têm mulheres em cargos de liderança, assim como 61% no caso de pessoas negras, 71% de pessoas LGBTQIA+ e 90% de pessoas com alguma deficiência. Além disso, essas empresas estão fortemente concentradas nas regiões Sudeste e Sul, que englobam 92,7% do total. O Estado de São Paulo sozinho detém 51,9% delas.

Quando se fala de inteligência artificial, essa baixa diversidade não resulta apenas em um problema social. Esses sistemas precisam ser desenvolvidos e “calibrados”, o processo em que literalmente aprendem os parâmetros para oferecer respostas mais assertivas depois. E equipes homogêneas treinam mal as plataformas.

Por exemplo, se um sistema na área de RH começa a aprender que, de todos os candidatos que ele sugere, a maioria dos que acabam contratados é branca e com menos de 35 anos, ele tende a fazer mais sugestões que reflitam essas escolhas dos recrutadores, eliminando pessoas com mais de 40 ou negras. Ou seja, ele reproduz um viés da equipe. E isso acontece mais quando as equipes são pouco diversas.

Esse é o tipo de problema que não podemos ter, tamanha a crescente influência da inteligência artificial nas tomadas de decisões de pessoas e empresas, e os negócios que isso gera. Segundo estudo global da consultoria McKinsey, divulgado em outubro de 2018, ela deve gerar US$ 13 trilhões no mundo até 2030. Na América Latina, deve responder por um aumento de 5% no Produto Interno Bruto (PIB).

 

Mudança social

Mas há desafios que a sociedade precisa enfrentar para chegar a isso. Segundo a McKinsey, eles podem ser agrupados em três tópicos.

O primeiro é uma implementação consciente. Isso envolve o governo, pois empresas precisam ser incentivadas a desenvolver e adotar a inteligência artificial. Além disso, a sociedade precisa se beneficiar dela de forma ampla.

Outro ponto destacado é o impacto disso no mundo do trabalho. As escolas precisam formar mais profissionais qualificados nessa área. De acordo com levantamento da Brasscom, a associação das empresas do setor digital, o Brasil terá uma demanda de 797 mil profissionais de tecnologia até 2025, mas forma apenas 53 mil deles por ano. Não se pode esquecer como a inteligência artificial impacta diversos setores, impondo mudanças profundas em como as pessoas trabalham, e até extinguindo funções.

Por fim, há o desafio de uma IA responsável. A população não pode perder a confiança na tecnologia por problemas de vieses (como explicado anteriormente), falhas na privacidade de suas informações ou usos mal-intencionados por empresas ou governos. A inteligência artificial só prosperará se trouxer benefícios a todos.

Empresas, escolas, a mídia e até o governo precisam trabalhar para que as pessoas entendam a inteligência artificial como ela é, desmistificando os conceitos da ficção científica, de máquinas inteligentes capazes de fazer tudo, que eventualmente se voltam contra o ser humano. Na sexta, por exemplo, o Estadão publicou uma série de reportagens sobre inteligência artificial, que explica alguns dos mais poderosos sistemas hoje disponíveis.

Não dá para fugir do tema. Na quarta passada, participei de uma mesa-redonda promovida pela lawtech Doc9 durante a Fenalaw, o maior evento da área jurídica da América Latina. No cardápio da transformação digital do Direito, a inteligência artificial apareceu com força. Já existem diversos sistemas que agilizam enormemente tarefas repetitivas dos escritórios, com alto índice de acerto. Essa digitalização só não está mais avançada pelas resistências culturais dos gestores e pela falta de profissionais que consigam combinar as características dos mundos jurídico e digital.

A inteligência artificial não é uma panaceia, nem tampouco uma ameaça a empregos ou à própria vida (na visão apocalíptica da ficção). Ela é uma tecnologia com um potencial de provocar mudanças profundas na sociedade, oferecendo serviços inimagináveis até bem pouco tempo atrás. Mas, para que isso seja conseguido, precisamos fazer os movimentos aqui descritos.

Merecendo atenção destacada, a inteligência artificial elevará a produtividade e o crescimento econômico do mundo, mas milhões de pessoas terão que mudar de ocupação ou aprimorar suas habilidades. Isso exige atualizações na maneira de se fazer negócios e principalmente em políticas educacionais. E infelizmente nós estamos nos mexendo muito pouco, principalmente no último.

Se não fizermos os movimentos necessários, podemos enfrentar, em pouco tempo, um crescimento expressivo do desemprego e o surgimento de uma massa de “inempregáveis”, ou seja, pessoas sem capacitação para qualquer trabalho. Não podemos deixar que uma tecnologia com incrível potencial crie esses problemas.

Se isso acontecer, a culpa não será das máquinas: será de nós mesmos.

 

Inteligência artificial ajuda 41% das empresas brasileiras, mas muitas nem sabem disso

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Uma boa tecnologia é aquela que entrega o prometido de maneira tão integrada ao cotidiano, que as pessoas nem percebem sua existência (pelo menos até que ela falhe). É o caso, por exemplo, da rede de energia elétrica. Com a digitalização galopante da vida, a IA (inteligência artificial) começa a ocupar também essa categoria, com enormes benefícios para pessoas e empresas. Mas justamente por ser tão poderosa, precisamos estar atentos a seu crescimento.

Na quarta passada, a IBM divulgou um estudo global que indicou que 41% das empresas brasileiras já adotam IA em seus negócios. Considerando que o levantamento engloba representantes de todos os segmentos e portes, inclusive os pequenos, a porcentagem impressiona.

Ainda assim, não é absurda. Muitas companhias adotam essa tecnologia sem saber. Isso acontece porque a inteligência artificial está por trás de muitas aplicações que se tornaram corriqueiras no que fazemos. Nós a carregamos para todos os lados em incontáveis aplicativos em nossos smartphones, que só existem graças à inteligência artificial. Nas empresas, diferentes automações também bebem nessa fonte.

Não é pouca coisa! Tomamos decisões importantes apoiados nas informações oferecidas por essa tecnologia. Isso reforça a necessidade de não apenas estarmos conscientes de sua ação, como também de compreender seu funcionamento.


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A pesquisa global foi realizada pela consultoria americana Morning Consult para a IBM. Foram ouvidos 7.502 executivos com alguma influência sobre a área de TI de suas empresas, entre 30 de março a 12 de abril. Na América Latina (especificamente Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru), foram 1.000 entrevistas.

“Todo mundo teve que acelerar a digitalização com a pandemia, foi uma necessidade”, explica Marcela Vairo, diretora de software da IBM Brasil. “O uso de inteligência artificial foi um destaque, e o Brasil está bem, até se comparado a países mais avançados.”

Na América Latina, as empresas vêm usando a inteligência artificial para sistemas de segurança cibernética, e de conversação (linguagem natural), ambos indicados por 44% dos entrevistados. A tecnologia também aparece em 30% das empresas em plataformas de marketing e vendas, mesma porcentagem das que a usam para melhorar suas próprias operações de TI. A IA também está sendo aplicada para criar negócios mais sustentáveis. O estudo indicou que ela pode fornecer informações mais precisas ​​sobre fatores de desempenho ambiental (43%) e conduzir processos de negócios e operações mais eficientes (37%).

Além dos 41% das empresas brasileiras que já a adotam, 34% estão explorando seu uso. Isso vem sendo impulsionado por avanços que a tornam mais acessível às empresas (56%), sua crescente incorporação em aplicativos de negócios (48%) e a necessidade de reduzir custos e automatizar processos-chave (39%). Por outro lado, 29% dos entrevistados indicaram que os custos atrapalham sua adoção, seguidos pela dificuldade em implantar esses projetos (20%), a complexidade na gestão dos dados (17%) e o conhecimento na área (17%).

“A principal barreira hoje, não só para inteligência artificial, mas para todas as tecnologias, é mão de obra: tem muita gente aprendendo a programar, mas, mesmo assim, falta gente”, afirma Vairo. Essa observação está em linha com um estudo da Brasscom, a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais, divulgado em dezembro passado. Segundo a entidade, o Brasil terá uma demanda de 797 mil profissionais de tecnologia até 2025, mas forma apenas 53 mil deles por ano.

“O segundo ponto principal é o dado em si”, explica Vairo. “O dado é o combustível da inteligência artificial: se ele não estiver bem filtrado, o resultado final também não será tão bom.”

 

“Garbage in, garbage out”!

A inteligência artificial não faz milagres: se os sistemas não forem concebidos ou alimentados com dados de qualidade, suas conclusões serão ruins, levando a erros nas decisões cotidianas de empresas e de pessoas. Como se diz desde os primórdios da computação, “se entra lixo, sai lixo”.

A situação se agrava no caso da inteligência artificial, que tem, como uma de suas premissas, absorver gigantescas quantidades de informações para identificar e analisar padrões. “A máquina não é um ser humano, mas ela não só digere padrões”, explica a diretora da IBM. “Ela consegue aprender a partir dali, está evoluindo para o que a gente chama de ‘reasoning’, de ‘raciocinar’, algo mais que a análise fria do dado, com contexto.”

Aí reside a beleza e o problema da inteligência artificial. A máquina processa grande quantidade de informação, aprendendo o que é considerado o “certo” e oferecendo resultados cada vez mais assertivos a partir disso. Mas, para tanto, precisa ser programada e alimentada com bons dados. Caso contrário, ela pode desenvolver vieses ou preconceitos, que farão com que tire conclusões ruins.

Podemos fazer uma analogia com o aprendizado de uma criança. Se ela for constantemente exposta a exemplos ruins, aprenderá e reproduzirá isso quando crescer. Por exemplo, se ela for criada em uma família racista, existe chance de se tornar um adulto racista, pois o preconceito terá sido normalizado no seu cotidiano.

A preocupação da comunidade de tecnologia com os vieses na inteligência artificial é tão grande, que foi um dos assuntos que mais ouvi durante o World Summit AI Americas, um dos maiores eventos do setor no mundo, que aconteceu em maio em Montréal (Canadá). Na palestra de abertura, Cassie Kozyrkov, cientista-chefe de decisões do Google, sugeriu que essas plataformas precisam de regras para corrigir o rumo se algo der errado. “Você precisa testar rigorosamente e construir redes de proteção”, sugere.

Vairo destaca dois pontos a serem observados para minimizar o problema. O primeiro é a “explicabilidade” dos dados, para entender e cuidar da sua natureza. O outro é ter diversidade nas equipes que cuidam da inteligência artificial, para diminuir os vieses.

Essa questão ética é fundamental, até mesmo para balizar boas práticas e legislações. A partir do momento que a inteligência artificial determina os rumos dos mais diversos sistemas, e eles, por sua vez, são usados para que empresas e pessoas tomem decisões críticas, a máquina precisa dessa supervisão.

“A inteligência artificial não é mágica, não pode ler sua mente”, provocou Kozyrkov no Summit. Ela precisa dos seres humanos. Criamos uma parceria com as máquinas. Se quisermos que ela nos ajude, precisamos ajudá-la a aprender com bons exemplos, ou seja, dados de qualidade.

Se fizemos a nossa parte nesse acordo, a inteligência artificial pode nos oferecer grandes ganhos. Mas, se formos negligentes com a sua “educação”, ela pode aprender e propagar todo tipo de preconceito na sociedade.

 

Uma década de Tinder: o digital mudou nossos relacionamentos

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Onde é mais fácil conhecer alguém hoje: em uma festa ou em um aplicativo?

O Tinder, que acaba de completar uma década de “pegação”, não foi o primeiro e está muito longe de ser o único sistema para pessoas encontrarem parceiros. Ainda assim, ele se tornou referência na categoria e é o maior deles, tendo sido baixado mais de 530 milhões de vezes e viabilizado mais de 75 bilhões de “matches” nesses dez anos.

O sucesso dessas plataformas é inegável, desde que o pioneiro Match.com foi lançado em 1995. A chance de “atingir” uma enorme quantidade de pretendentes ao mesmo tempo e as ferramentas para se combinar interesses são vantagens claras. De uns anos para cá, a inteligência artificial e a geolocalização tornaram essas buscas ainda mais eficientes. Mas isso também desperta alguns questionamentos.

Esses recursos digitais teoricamente aprendem nossos gostos, para fazer ofertas cada vez mais assertivas. Nós, por outro lado, confiamos no julgamento da máquina. Mas qual a garantia de ela está certa? Além disso, estamos entregando a escolha de nossa “alma gêmea” a um software, abrindo mão de uma característica essencial de nossa humanidade.

Tudo isso “queima etapas” no jogo da sedução. Mas, ao fazermos isso, não estamos justamente perdendo tudo de bom que a sedução oferece?


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Nem sempre foi assim! Lá pelos idos de 1996, quando eu fazia parte do grupo pioneiro do UOL, lançamos as salas de bate-papo, uma grande inovação para a época. Não demorou para que casais começassem a se formar entre os usuários. Até que, naquele ano ainda, aconteceu o primeiro casamento no Brasil de pessoas que se conheceram online, algo que virou notícia nos jornais!

Esses sistemas na época não iam além de combinar características e preferências. Mas isso está longe de ser suficiente para uma pessoa se apaixonar por outra. Em muitos casos, relacionamentos em que ambos gostam das mesmas coisas simplesmente não evoluem por isso mesmo! A “química” entre duas pessoas surge de fatores muitas vezes improváveis.

A inteligência artificial das plataformas atuais tenta solucionar isso, mas acaba tendo alcance limitado, pois ela depende das escolhas dos usuários no “cardápio de gente” em que elas se transformaram. Como essas decisões são tomadas a partir de um punhado de fotos e informações oferecidas por cada um, acabam sendo deficientes.

O sucesso dessas plataformas passa pela sua interface minimalista, que agiliza o processo. No caso do Tinder, ao se deslizar para a direita uma foto, o usuário demonstra interesse naquele perfil. Se o outro lado fizer o mesmo, as partes podem conversar, e o que vier depois fica por conta e risco de cada um. Para quem não quiser investir muito tempo e energia e estiver disposto a experimentações, essa simplicidade atrai.

Por isso, o “algoritmo perfeito” seria a coisa mais importante para qualquer um desses serviços, pois aumentaria a satisfação (e o prazer) de seus usuários. Infelizmente isso não é simples de se obter, tendo até inspirado a ficção, no episódio “Hang the DJ”, o quarto da quarta temporada da série “Black Mirror”, que demonstra o funcionamento surpreendente das entranhas de um aplicativo de namoro.

 

Administrando as frustrações

As plataformas de encontros têm outro apelo inegável: o controle das frustrações. Nem sempre as paqueras dão certo, e as rejeições podem ser desagradáveis. Mas isso faz parte do jogo!

É curioso que, com esses aplicativos, as negativas continuam acontecendo e até em quantidade maior. Mas, como não se investe tempo e energia em cada tentativa e elas acontecem às dezenas (às vezes às centenas), a enorme quantidade de rejeições não chega a doer. Até mesmo porque estar por trás de uma tela supostamente nos “protege’ e, pelo volume, sempre haverá alguém que diga “sim”.

Não quer dizer que a experiência seja sempre agradável. O estudo “As virtudes e desvantagens do namoro online”, publicado em fevereiro de 2020 pelo instituto Pew Research Center, indica que 30% dos americanos já usaram uma dessas plataformas, mas 42% deles não tiveram uma boa experiência. A situação é pior para as mulheres, com 48% delas sendo abordadas mesmo depois de dizer que não tinham interesse, 46% recebendo mensagens ou imagens explícitas sem ter pedido, 33% sendo xingadas e 11% sendo ameaçadas fisicamente.

É inevitável pensar no “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman (editora Zahar, 2004). Para o filósofo e sociólogo polonês, falecido em 2017, a ampla queda da qualidade das relações é compensada por uma quantidade enorme de parceiros. “Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar”, escreveu.

Com isso, a relação social construída com uma responsabilidade mútua é substituída pelo que ele chamou de “conexão”. Para o filósofo, o grande apelo desses sistemas está na facilidade de se esquecer o outro, de se “desconectar”: troca-se, sem qualquer remorso, os parceiros que deixam de ser “interessantes” por outros “melhores”.

Outra estudiosa da área é Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autora dos livros “Alone Together” (“Sozinhos Juntos”, em uma tradução livre, Basic Books, 2017) e “Life On The Screen” (ou “A Vida na Tela”, Simon & Schuster, 2011). Ela afirma que, com o aumento da conexão digital das pessoas, suas vidas emocionais diminuem. Para a pesquisadora, apesar de estarmos constantemente nos comunicando com os outros pelas redes sociais, essas trocas acabam não sendo autênticas e nos levam à solidão.

Se for realmente assim, essas plataformas digitais podem ser um incrível serviço para se conseguir parceiros em quantidade, mas a qualidade continuará dependendo de nos expormos, demonstrando nossa realidade e entrando em contato com o outro. Para Bauman, apenas quando nos damos conta de que nossa voz é ouvida e de que nossa presença é sentida, entendemos que somos únicos e dignos de amor. E precisamos do outro em um contato de qualidade para nos fazer perceber isso.

Devemos, portanto, usar esses aplicativos como poderosas ferramentas de “pesquisa”, mas não podemos entregar a eles nossa capacidade de nos apaixonar. Nosso senso crítico não pode ser achatado a ponto de nos relacionarmos apenas com quem os algoritmos nos indicam.

Ainda citando Bauman, “amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama.” E continua: “no amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo.”

Que não percamos a capacidade de contribuir assim, que nos torna tão humanos.

 

Montagem sobre recorte da tela “A Proclamação da Independência”, pintada pelo artista francês François-René Moreaux em 1844

Independência digital ou morte social

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Estamos na semana da Pátria. E não é qualquer uma: nesse 7 de Setembro, comemoramos 200 anos da independência do país. O Brasil merecia estar em melhor forma para uma data tão emblemática. Mas chegamos aqui com nossa sociedade rachada ao meio porque nossas paixões foram exacerbadas pelo meio digital, para o bem e para o mal. A quem isso interessa?

Não se trata de um fenômeno visto apenas no Brasil. A polarização social pelas redes floresceu nos Estados Unidos e se espalhou como uma erva daninha pelo mundo. Mas, por aqui, ela encontrou terreno fértil, pois adoramos redes sociais.

Não há nada de errado nisso, a princípio. Eu mesmo atuo fortemente nessas plataformas. O risco surge quando passamos a depender do que vemos nelas para tomarmos decisões cotidianas, terceirizando nosso senso crítico. É nessa hora, quando rebaixamos nossas defesas, que os oportunistas usam esses recursos digitais para nos manipular. E o resultado é um país que parece ter perdido sua capacidade de construir seu futuro de maneira unificada, como se, para um grupo satisfazer seus desejos, precisasse eliminar aqueles que pensam de maneira divergente.

Só que essa é a receita para o desastre!


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O poder de convencimento das redes sociais é tão fabuloso, que fica muito difícil escapar dele, por mais esclarecidos que sejamos sobre o problema. Afinal, elas trabalham com características essenciais de nossa psique. Em primeiro lugar, conseguem identificar do que gostamos e do que não gostamos, por mais que tentemos “furar a bolha”, seguindo pessoas e fontes de informação diversas.

Partindo dessa informação valiosíssima, elas privilegiam publicações que reforcem esses nossos desejos e medos, oferecendo elementos para se obter ou confirmar os primeiros e para fugir dos segundos. E isso é tudo que nosso instinto de autopreservação deseja. Por isso, acabamos confiando no que nos é jogado na cara.

Isso foi brilhantemente descrito no documentário “O Dilema das Redes” (Netflix, 2020). O mecanismo foi criado para nos vender todo tipo de produto, base do modelo de negócios dessas empresas. O problema é que tudo pode ser empacotado como um produto, até mesmo uma ideologia.

Políticos sempre mentiram e atacaram seus adversários. É como se não fosse possível fazer política sem lançar mão desses recursos. Mas, quando isso passa pelo efeito multiplicador das redes, as pessoas acreditam mais nas mentiras e muitas passam a encarar os adversários como verdadeiros inimigos. E isso não é debate político: é o império do ódio.

Podemos fazer um exercício e lembrar de como agíamos não muito tempo atrás. Tínhamos nossas preferências políticas, de quem gostávamos e de quem não gostávamos. Ainda assim, éramos capazes de conviver pacificamente com quem pensasse de maneira diferente de nós, e até trabalhar alegremente com essas pessoas. Hoje todo mundo conhece casos de familiares, amigos e colegas que cortam laços por esse motivo. Talvez nós mesmos já tenhamos feito isso!

Nessas horas, as redes sociais deixam de ser uma atividade divertida e se tornam um risco para a própria democracia. Nossa enorme dependência dessas plataformas promove a morte da sociedade.

 

Para onde caminhamos?

Afinal, estamos evoluindo ou regredindo como sociedade e como indivíduos?

A despeito de momentos sombrios como esse, que sempre permearam nossa história, entendo que a humanidade, na média, caminha para frente. Às vezes, voltamos um passo para depois avançarmos dois. E, em cada recorte, sempre haverá pontos em que avançamos e os que retrocedemos.

Temos as evoluções científicas, que crescem de maneira exponencial. Apenas para pegar um exemplo claro, basta ver a diferença de tratamentos e cuidados entre duas devastadoras pandemias, a da Gripe Espanhola e a da Covid-19, separadas por um século. Sem a tecnologia desenvolvida nesse intervalo, o novo coronavírus teria matado muitíssimo mais!

Avançamos também –e muito– em aspectos sociais. Nesse caso, as principais ferramentas são o debate e a informação de qualidade. Apesar de imperfeições, a mídia desempenha um papel crucial nesse sentido, informando a população sobre o que acontece tanto no seu bairro, quanto no mundo, apresentando novidades, apontando problemas, indicando caminhos.  Podemos usar o mesmo exemplo anterior, a pandemia de Covid-19: se não fossem os esclarecimentos feitos pela mídia, o total de mortos teriam sido terrivelmente maior.

Esse caso ilustra, de maneira bastante didática, porque não se deve acreditar no que chega até nós pelas redes sociais. As infames fake news são apenas uma ferramenta de um processo maior de desinformação que vem carcomendo nossa sociedade por dentro há muitos anos. Ainda em 2016, o Dicionário de Oxford elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano, definindo-a como “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

Às vezes, estar certo é quase uma maldição. Os editores da obra anteciparam o cenário em que vivemos hoje, descrevendo o funcionamento dos algoritmos de relevância das redes sociais e sua usurpação por diferentes grupos de poder.

“Desde a era da pedra, mitos foram reforçados a serviço da união da coletividade humana.” A afirmação é do historiador israelense Yuval Noah Harari, em seu livro “21 Lições para o Século 21” (2018). Ele continua: “O Homo sapiens conquistou esse planeta graças, sobretudo à habilidade humana única de criar e disseminar ficções.”

Em outras palavras, somos os únicos com a capacidade de acreditar em desconhecidos para construir algo com eles. A isso, damos o nome de sociedade! Dessa forma, se perdermos a capacidade de acreditar no próximo, deixaremos de fazer algo juntos, colocando a própria sociedade em risco!

A tomada de assalto das plataformas digitais pela política as transformou nas ferramentas perfeitas para que esses grupos atinjam e se mantenham no poder. A mecânica é elevar irresponsavelmente a polarização, a intolerância, o ódio a patamares perigosíssimos. Não é à toa que brasileiros estão literalmente resolvendo até pequenas diferenças a bala, nas ruas, no trânsito, em shows, em igrejas e até em festas de aniversário! Nesse ano, isso aconteceu assustadoramente em todos esses lugares, em diferentes regiões do país.

Isso não é democracia, não é independência. Precisamos resgatar nossa capacidade de pensar com um cérebro livre e sentir com um coração leve, ou teremos o triunfo da morte. E não era essa a proposta do aclamado “Grito do Ipiranga”.

 

Entenda como a “cloud computing” pode melhorar a tecnologia em seu negócio

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A “computação da nuvem” (ou “cloud computing”) está profundamente disseminada em nossa vida, até mesmo sem nos darmos conta disso. Muitos serviços que usamos no nosso cotidiano “rodam na nuvem”.

Do lado das empresas, ela vem se tornando cada vez mais popular nos últimos anos. Mas ainda há muitas dúvidas sobre o que ela é, como funciona e quem deve fazer uso desse serviço.

E é curioso que a tecnologia de “cloud computing” está longe de ser uma nova. ela já existe há muitos anos, mas vem ganhando notoriedade de uns tempos para cá, pois tem aparecido bastante na mídia.

Para explicar um pouco mais sobre a “computação na nuvem”, responder a essas dúvidas e como ela pode ajudar seus negócios, conversei com Thiago Araki, diretor de Tecnologia e GTM da Red Hat para a América Latina, um grande especialista no assunto. A Red Hat é a maior e mais importante empresa de software open source do mundo.

Confira a seguir a íntegra da conversa:

Mudanças comportamentais forçam cinemas a se transformar

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Neste sábado, explicava a alunos de marketing digital que a principal causa do fim de um produto não são novas tecnologias, concorrentes ou regulações. O que mata uma marca é seu próprio público, quando encontra uma alternativa que percebe como mais vantajosa para si. Por isso, as salas de cinema estão passando por um “momento da verdade”, com potencial de transformar um produto de massa em uma escolha de aficionados.

No centro dessa ameaça, estão mudanças comportamentais do público, derivadas da Covid-19 e do avanço de tecnologias digitais e da telecomunicação. Por isso, apesar de os estúdios estarem com sua produção cinematográfica a pleno vapor, as salas de exibição recebem pouca gente, em um nível preocupante.

Serviços de streaming –como Netflix e Disney+– normalmente levam a fama por esse esvaziamento dos cinemas, mas sua concorrência é só parte da explicação. Temos que pensar no público, que nunca consumiu tanto conteúdo audiovisual, mas agora prefere fazer isso de maneiras diferentes, em experiências que entendem como mais interessantes. As salas de exibição, por outro lado, fazem poucos movimentos para resgatar o vínculo perdido com seus clientes, esperando que eles voltem para um formato que não tem mais o apelo de antes.


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Tudo é uma questão de percepção! E não adianta ficar reclamando que os clientes não entendem que a experiência de se ver um filme nos cinemas é muito melhor e tem seu valor. Você e eu podemos até concordar com isso, mas cada um percebe o que quiser sobre qualquer coisa: não há percepção errada. Se as pessoas “não entendem” seu ponto de vista, isso não é problema delas: é problema seu!

Colocando isso em números, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) indica que foram vendidos 44,8 milhões de ingressos no país, entre janeiro e julho desse ano. No mesmo período de 2019, foram 88,3 milhões. A renda nominal também está baixa: neste ano, foram arrecadados R$ 873 bilhões, contra R$ 1,44 trilhão no primeiro semestre de 2019.

Já o levantamento “Hábitos Culturais III”, realizado pelo Itaú Cultural e pelo Datafolha e divulgado na quinta, mostra que o cinema foi a atividade cultural mais castigada pelo abandono do público no pós-pandemia. A edição atual da pesquisa aponta que só 26% das pessoas assistiram a pelo menos um filme nos cinemas nos últimos 12 meses. A anterior indicou que mais que o dobro –59%– fizeram isso em 2019, portanto antes da Covid-19.

Na sexta, realizei uma enquete no LinkedIn para saber se as pessoas estão indo mais ou menos às salas de exibição. Até o momento, 1.173 pessoas responderam, indicando que 24% estão frequentando as salas regularmente, 44% estão fazendo isso menos que antes da pandemia e 25% não estão indo (os 7% restantes indicaram outras respostas).

Os entrevistados destacaram o preço dos ingressos dos cinemas como um dos principais motivos pela diminuição. E com o valor de um ingresso para um filme 2D superando R$ 40 em São Paulo, o programa para uma família de quatro pessoas, incluindo estacionamento e pipoca, ultrapassa os R$ 200 com facilidade.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os ingressos para cinema ficaram 12,43% mais caros em 12 meses. Em comparação, o valor de um único ingresso do exemplo anterior dá e sobra para se assinar qualquer plataforma de streaming por um mês inteiro.

A comodidade de se ver o filme na própria casa, no horário que quiser, podendo dar pausa para ir ao banheiro e com um cardápio mais variado que o das caríssimas bombonieres dos cinemas também foi bastante destacada na enquete. Até a opção de se ver, no streaming, um filme com som original e legendas ao invés de se submeter à maior oferta de cópias dubladas nas salas foi apontado.

Em um país em que a inflação tira comida da mesa das pessoas, não são muitos os reais que sobram para o entretenimento. Eles precisam ser bem investidos.

 

“Assinatura de cinema”

Se dinheiro é problema, várias redes de cinema criaram pacotes de “assinatura” ou compras pré-pagas. Do lado do cliente, isso barateia os custos do ingresso. Do lado das salas, fideliza o cliente e garante um aporte com antecedência.

A rede Cinemark, por exemplo, lançou em abril o Cinemark Club, que oferece descontos, prêmios e ingressos pelo pagamento de uma mensalidade. Considerando apenas os ingressos, a economia supera 50%. A rede Itaú Cinemas, por sua vez, lançou pacotes de compra antecipada de 8 ou 16 ingressos, por menos da metade do preço normal. Já a rede Kinoplex criou o Kinopass, que permite a compra de cinco ingressos com desconto para qualquer dia e sessão.

Para trazer gente para as salas, vale até alugar os espaços para eventos corporativos e festas de aniversário. Tudo isso serve como incentivo para as pessoas voltarem, mas não deve ser suficiente. Como mostram as pesquisas, algo mudou na cabeça do consumidor quando descobriu, com a pandemia e o streaming, que é possível ter uma experiência boa de se ver filmes em casa –para alguns até melhor que ir aos cinemas.

Não é a primeira vez que os cinemas precisam enfrentar uma ameaça tão grande. Na década de 1980, com a popularização das fitas VHS, que deu origem às videolocadoras, muitos chegaram a decretar a morte das salas. Afinal, por um valor muito menor, as pessoas alugavam os filmes para assistir em casa.

O curioso é que a experiência do VHS era ruim, com imagem e som de baixa qualidade nas telas bem pequenas das TVs da época. O problema é que os cinemas eram igualmente ruins, com telas relativamente pequenas, projeção escura, som abafado e ambientes desconfortáveis.

Se nada tivesse sido feito, possivelmente as previsões apocalípticas sobre o fim das salas poderiam ter se concretizado. Mas, nessa época, começaram a surgir as grandes cadeias que temos hoje, que transformaram as salas bolorentas em uma experiência muito superior ao que se poderia ter em casa. E isso salvou os cinemas!

Esse é o grande desafio dos exibidores hoje: criar uma experiência que esteja tão à frente do streaming e a um preço razoável, que as pessoas queiram novamente sair de casa. O que oferecem hoje claramente não está sendo mais suficiente.

Isso não será feito com meias-medidas ou meras adaptações do que já existe. Os cinemas precisam parar de olhar apenas para sua crise e suas necessidades e passar a prestar atenção no que o consumidor realmente deseja. E não bastam os cinéfilos, que continuam confortáveis com a oferta disponível. Afinal, o cinema é um fenômeno de massas.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, controladora do Facebook, do Instagram e do WhatsApp

Zuckerberg tornou-se o cabo eleitoral mais cobiçado do mundo

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Com a campanha eleitoral oficialmente na rua, a temperatura nos caldeirões políticos aumentou. E, assim como aconteceu em 2018, o vencedor para o cargo de presidente da República será decidido, em grande parte, com o apoio das redes sociais. A diferença é que, nesses quatro anos, os principais atores dessa disputa aprenderam a manipular ainda mais esse recurso, para que suas mensagens cheguem aos eleitores de maneira contundente.

Resta saber se o resto da sociedade consegue lidar com as consequências disso.

As plataformas digitais também entenderam seu papel determinante nesse cenário, tanto pela sua capacidade de influenciar os eleitores, quanto pelos efeitos que têm nisso. A última eleição presidencial americana escancarou o problema, deixando os Estados Unidos rachados ao meio até hoje, 19 meses após a catastrófica invasão do Congresso americano por seguidores do ex-presidente Donald Trump. Graças à incapacidade das plataformas digitais de lidar com as fake news e o discurso de ódio, aquelas pessoas ainda acreditam que Trump teve sua reeleição roubada, a ponto de tentar impedir à força a confirmação da vitória de Joe Biden.

Agora, a menos de dois meses do primeiro turno das eleições brasileiras, é legítimo questionar se as redes sociais aprenderam algo com isso, e o que nós podemos aproveitar da experiência americana.


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Essas empresas parecem estar dispostas a colaborar para que o cenário americano não se repita por aqui. Tanto que a Meta (controladora do Facebook, do Instagram e do WhatsApp), o Google (dono do YouTube), o TikTok, o Twitter e o Kwai firmaram um acordo de colaboração com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em fevereiro. O LinkedIn (pertencente à Microsoft) se juntou a eles em março e o Spotify fez o mesmo em maio. O Telegram veio na sequência, após ser ameaçado de ser banido do país, por não combater notícias falsas e discurso de ódio.

Os acordos não garantem, entretanto, o fim desse conteúdo. “É muito mais uma boa vontade de dizer que estarão mais a postos para tentar cumprir rapidamente as decisões judiciais”, explica Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). “A legislação eleitoral tem prazos muito curtos, alguns até em horas, justamente pela importância e urgência do tema”, explica.

O TSE não tem como verificar ativamente se as plataformas estão cumprindo o acordo, e nem é assim que funciona. A Justiça, por padrão, age após ser acionada por outros agentes da sociedade, como a polícia, advogados e até cidadãos. “Se tiver uma situação em que o acordo escandalosamente está sendo descumprido –e a mídia acaba repercutindo isso– isso chega ao conhecimento Tribunal, e aí existe esse tipo de ação”, explica Crespo. Ainda assim, isso se limita basicamente a pedidos de colaboração às plataformas, por exemplo para removerem rapidamente conteúdos comprovadamente nocivos.

De toda forma, criou-se uma expectativa de que as plataformas digitais atuassem fortemente para combater tais publicações. Mas não é o que está acontecendo.

As empresas se esquivam de detalhar o investimento em equipes e tecnologias (especialmente inteligência artificial) adotadas para essa finalidade. Devido ao enorme volume de conteúdo publicado pelos seus usuários, os algoritmos fazem a primeira filtragem do que é inapropriado, mas pessoas são necessárias para verificar casos duvidosos e calibrar o sistema. Ambos são necessários para um combate eficiente.

Relatório divulgado recentemente por pesquisadores do INCT.DD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital), da UFBA (Universidade Federal da Bahia), demonstra que, apesar do memorando entre essas empresas e o TSE, seus sistemas ainda apresentam muitas brechas que são exploradas pelos propagadores de notícias falsas. Além disso, em muitos casos, esses conteúdos, mesmo identificados, não são removidos, tendo apenas o seu alcance restringido.

Aí reside uma das grandes críticas internacionais a essas plataformas. Por piores que sejam, esses conteúdos geram enorme audiência, o que é bom para seu negócio. Logo, se eles fossem todos eliminados, isso iria contra seus interesses comerciais.

 

O “ouro do bandido”

Frances Haugen confirma isso. A ex-gerente da equipe de integridade cívica do Facebook ficou famosa em outubro, ao dizer que a empresa conscientemente coloca seus lucros à frente do bem-estar de seus usuários, no escândalo conhecido por “Facebook Papers”. “Quando recompensamos o engajamento ao invés de comunicação construtiva, ao invés de colaboração, acabamos dando mais alcance às ideias mais extremas”, disse.

Em julho, ela participou de uma audiência pública da Câmara dos Deputados sobre o tema. Lá explicou que, por isso, essas empresas não são tão transparentes. Haugen acusou a Meta de se empenhar mais no combate a conteúdos nocivos onde sofre mais risco de ser regulamentada, como os Estados Unidos. Por isso, depois da eleição americana, teria sobrado pouco daquela estrutura de combate à desinformação para o Brasil. Explicou ainda que os sistemas de inteligência artificial são menos eficientes para idiomas que não o inglês.

Tudo isso facilita a vida de quem se beneficia das fake news. Para tornar o cenário ainda mais desafiador, eles usam plataformas de uma empresa para promover conteúdos em serviços de concorrentes, como destacar no Telegram vídeos com desinformação no YouTube. Como são concorrentes, eles não trabalham juntos nesse combate, e a Justiça não tem mecanismos para fazer tal verificação cruzada.

Quero crer que Mark Zuckerberg não pensava em nada disso quando criou o Facebook em seu dormitório estudantil de Harvard, em 2004. Mas é inegável o poder de convencimento que essas empresas têm sobre bilhões de usuários. Ainda que elas não atuem politicamente, suas ferramentas se prestam a pessoas inescrupulosas, criando uma máquina de mentiras quase perfeita, sem precedentes na humanidade.

De certa forma, essas empresas se tornaram muito mais poderosas que os países onde atuam. “Eu acredito que tamanho poder precisa, de alguma forma, ser regulado”, afirma Crespo. Mas o professor explica que isso não pode ser feito de modo a censurar ou a coibir a inovação. Além disso, ele lembra que leis que tentam regular tecnologias de maneira muito detalhada acabam ficando obsoletas rapidamente.

Por tudo isso, a menos de dois meses das eleições, a colaboração entre as big techs e o TSE não está conseguindo conter o esperado aumento do discurso de ódio, da intolerância e de todo tipo de notícias falsas nas plataformas digitais. Parte da sociedade assiste atônita à escalada da violência explícita e até de discursos a favor de um golpe militar.

Que saudades dos tempos em que as redes sociais eram usadas apenas para atividades saudáveis, como encontrar amigos. Só espero que elas não levem o Brasil ao mesmo abismo em que jogaram a sociedade americana.

 

O músico britânico Elton John, que em 2007 propôs que a Internet fosse “fechada”, pois estaria prejudicando a qualidade das músicas

A “ditadura dos fãs” pode piorar a cultura e nossas vidas

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Em agosto de 2007, Elton John sugeriu que a Internet fosse fechada por cinco anos, pois ela estaria prejudicando a qualidade das músicas. Segundo o artista britânico, isso aconteceria porque as pessoas não saíam mais de casa para interagir entre si, piorando as composições. Vale lembrar que o “Rocket Man” sempre se disse avesso à tecnologia. Ainda assim, hoje usa as plataformas digitais, onde tem milhões de seguidores, para se relacionar com seu público.

Apesar de despropositada, há um ponto que merece ser considerado na ideia do cantor com o avanço da tecnologia. Da mesma forma que as redes sociais nos deram o poder de dizermos o que quisermos, elas mudaram a relação entre artistas e seus fãs. Se antes esses últimos eram passivos e devotados, hoje ocupam um papel que chega a ser determinante na obra e até na vida de seus ídolos, que se veem extremamente expostos.

Cresce o número de pessoas que afirmam que essa exposição constante e inescapável pode prejudicar a criatividade e a diversidade cultural. Com suas “curtidas”, os consumidores não apenas de música, mas de todo produto podem determinar seu sucesso ou sua derrocada.

Involuntariamente cria-se uma “ditadura dos fãs”, que indica o que é “bom” e o que é “ruim” em tudo. Muitos autores, para continuar vendendo, passam a alterar e até a “piorar” suas entregas para seguir tais determinações. E isso vem provocando diversas mudanças em nossas vidas, muito além da música.


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Os fãs sempre foram essenciais para o sucesso de qualquer artista, mas, até pouco tempo atrás, não tinham como realizar a interferência vista hoje. O artista seguia sua intuição, suas vivências e seu estilo para compor, e o público gostava ou não do resultado.

Hoje muitos artistas trabalham seguindo diretrizes de algoritmos: as músicas dos próximos shows, as cidades das turnês, o estilo e a duração das canções e até aspectos da vida pessoal do artista são influenciados por dados extraídos das plataformas de música. Elas informam em tempo real o que está agradando, e isso oferece aos autores informações para estratégias para se conectar com sua audiência.

Essa é uma informação riquíssima, especialmente porque ninguém mais ganha dinheiro vendendo álbuns há muito tempo. As plataformas de streaming, por sua vez, pagam uma miséria pelas faixas reproduzidas, mas elas são essenciais para manter uma celebridade ativa e para o surgimento de novos nomes.

O dinheiro dos artistas agora vem de apresentações ao vivo. Por isso, a exposição e os dados das plataformas digitais se tornaram essenciais para sua sobrevivência, criando uma relação simbiótica muito maior que a existente com as antigas gravadoras.

Questiona-se se atualmente o artista não pode continuar sendo “apenas um artista”. Anitta nada de braçada nesse cenário. Por outro lado, a cantora americana Halsey desabafou recentemente, criticando sua gravadora, que a estaria impedindo de lançar uma música como single, pois ela não seria “boa para o TikTok”.

Será que grandes sucessos do passado, apesar de longos e fora do convencional, como “Bohemian Rhapsody”, do Queen, ou “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, “dariam certo” hoje?

 

“Audição ansiosa”

A pergunta é legítima!

Produtores pedem que os artistas agora criem músicas com menos de três minutos de duração. O motivo é simples: o público atual não “toleraria” canções mais longa que isso, abandonando a faixa antes do fim, o que diminui sua relevância perante os algoritmos. Com isso, ela passa a ser menos sugerida pelas plataformas a outros ouvintes, o que é ruim para os negócios.

Essa mudança de comportamento já tem até um nome: “audição ansiosa”. E ela determina que é melhor ter uma música de dois minutos tocada três vezes que uma música de seis minutos ouvida uma vez ou –pior– nenhuma vez.

Tradicionalmente as músicas se dividem em uma introdução, uma melodia crescente e um auge, como uma história. Pelos novos parâmetros, elas devem ser “diretas”, criando um impacto logo no início. Seguindo o mesmo raciocínio, é melhor lançar uma música de cada vez, no lugar de um álbum inteiro, pois as pessoas não teriam paciência para absorver tantas faixas em um único pacote.

Isso tudo pode parecer absurdo, mas o Spotify recebe, por dia, mais de 40 mil novas músicas do mundo todo. Como competir com tudo isso? É como se houvesse mais músicas disponíveis que pessoas para ouvi-las, especialmente se considerarmos que as preferidas do algoritmo acabam sendo muito privilegiadas.

Chegamos a um dilema do tipo “ovo e galinha”: as pessoas estão ansiosas por influência dos algoritmos ou os algoritmos refletem a ansiedade de nosso tempo? Afinal, as plataformas digitais vivem de nos manter excitados e ansiosos. O excesso de estímulos e de informações fazem com que tenhamos que gastar muita energia para “dar conta de tudo”.

Mas temos mesmo que fazer isso?

Como gestor de customer experience, sempre defendo que coletemos os dados de nossos usuários de maneira ética e legal, para oferecermos produtos e modelos mais alinhados com seus desejos. Mas há limites! Se o público for convencido, por alguma bizarrice nas redes sociais, que salva-vidas de concreto são mais eficientes, os fabricantes de coletes não podem abraçar isso, pelo simples fato de que é absurdo!

Criou-se um perigoso círculo vicioso! Estamos nos tornando pessoas ansiosas e rasas, pois essa dinâmica digital dificulta que nos aprofundemos em qualquer assunto. Queremos tudo e queremos agora!

As empresas, assim como os artistas, tentam satisfazer essa demanda insana, retroalimentando o processo. Mas isso precisa ser interrompido, pelo resgate do valor da qualidade em tudo que se oferece.

Claro que sempre existiram produtos de qualidade mais baixa, destinados a atender uma parcela da população que, por qualquer motivo, prefere isso. Mas eles não podem ser o modelo a ser replicado.

O poder que o meio digital concedeu ao público está, portanto, criando uma “ditadura”. Mas nenhuma ditadura é boa! Mesmo que, a curto prazo, possa parecer que está trazendo benefícios ao povo, não tarda para a verdade transparecer, com resultados piores para todos.

 

Frances Haugen, ex-gerente de integridade cívica do Facebook, afirma que a empresa coloca os lucros à frente do bem-estar dos usuários

As redes sociais que nos afastam uns dos outros

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Estamos a dois meses da eleição presidencial mais estranha de nossa história. Apenas dois candidatos têm chance de ir ao segundo turno. A vitória deve ser decidida por quem as pessoas não querem no cargo ao invés de quem elas querem. E ela representará o clímax da influência das redes sociais em nossas escolhas, um movimento global iniciado há cerca de uma década.

Esse poder das redes sociais sobre o que e como pensamos vai muito além de aspectos políticos, e vem deformando a sociedade. Essas plataformas têm uma capacidade sem precedentes de identificar nossas preferências e nos empurrar para extremos que, na prática, nos afastam das outras pessoas. E isso é tão mais verdade, quanto mais o assunto mexe com nossas paixões e valores, como política, religião e até futebol.

No limite, podemos chegar a um ponto em que nos tornaremos seres antissociais, graças à influência de sistemas que se dizem “sociais”, uma ironia digna de George Orwell. Sua obra-prima “1984” vira “café pequeno” diante da distopia que essas redes oferecem ao mundo.


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Esse efeito nocivo do meio digital talvez não tenha sido previsto pelos criadores dessas plataformas, mas não se pode dizer que ele aconteceu por acaso. O sucesso das redes sociais depende de ficarmos mais tempo nelas, aumentando a chance de clicarmos nos anúncios que elas trazem, sua principal fonte de receita.

Para isso, elas precisam nos proporcionar um fluxo infinito de conteúdo que nos agrade e nos inspire a nos engajar com ele. O “engajamento”, conceito cunhado pelo Facebook nos seus primeiros anos, é o motor dessa sofisticada máquina. Curtidas, comentários e compartilhamentos servem para o sistema nos conhecer melhor, além de funcionar como uma curadoria feita continuamente por bilhões de pessoas para informar aos algoritmos o que deve ser entregue a cada uma. É uma ideia verdadeiramente genial!

O problema é que, como já detalhado em incontáveis artigos e vídeos, inclusive nesse espaço, isso rapidamente nos “aprisiona” em bolhas de pensamento único. Como somos expostos apenas àquilo que gostamos, deixamos de ser impactados pela necessária diversidade social, o que acaba reforçando nossas visões de mundo, para o bem e para o mal.

Para agravar a situação, nossa natureza humana faz com que sejamos atraídos por conteúdos extremos, como aquilo que nos emociona, nos dá medo, nos excita ou nos dá raiva. Trata-se de um mecanismo evolutivo para aumentar a chance de sobrevivermos.

Isso foi detalhado na entrevista que Frances Haugen concedeu ao jornalista Pedro Bial na quinta passada. A ex-gerente da equipe de integridade cívica do Facebook ficou famosa em outubro passado, quando veio a público para dizer que a empresa conscientemente coloca seus lucros à frente do bem-estar de seus usuários. Para corroborar suas acusações, ela vazou milhares de documentos da empresa, em um escândalo que ficou conhecido como “Facebook Papers”.

“Se você criar uma conta nova em folha, sem amigos e sem interesses, e seguir interesses bem corriqueiros, um pouco à esquerda ou um pouco à direita, você será empurrado para a extrema-esquerda ou a extrema-direita em poucas semanas”, disse Haugen na entrevista.

“Quando recompensamos o engajamento ao invés de comunicação construtiva, ao invés de colaboração, acabamos dando mais alcance às ideias mais extremas”, acrescentou a cientista de dados.

 

“Isso nunca acontecerá comigo!”

Há uma falsa ideia de que apenas pessoas com menos instrução ou predispostas a comportamentos extremistas seriam vitimadas por esse controle das redes sociais. Mas o fato é que, em maior ou menor escala, essas plataformas conseguem nos convencer sobre os mais variados assuntos.

Como pesquisador, cansei de ver pessoas dizendo que elas jamais seriam vítimas desse controle das redes sociais. Elas tentam se “proteger” seguindo fontes de diferentes naturezas, misturando, por exemplo, conteúdos políticos de esquerda e de direita, para “furar as bolhas”.

Ter um comportamento mais democrático na rede e um consumo de informações mais equilibrado e de fontes confiáveis certamente ajudam nesse processo. Mas infelizmente não são suficientes. Por mais que tomemos esses cuidados, os algoritmos têm uma incrível capacidade de descobrir do que realmente gostamos e passar a privilegiar publicações, falas e argumentos que reforcem nossas ideias.

Os brasileiros têm um agravante, que é o enorme tempo que gastamos nas redes sociais. Segundo a edição 2022 da pesquisa Global Digital Report, organizada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, estamos entre os líderes mundiais nessa métrica: 3 horas e 41 minutos nas redes todos os dias, contra uma média global de 2 horas e 27 minutos.

Se quisermos melhorar esse quadro, precisamos entender e aceitar que estamos sendo moídos por essa engrenagem. Se alguém tiver alguma dúvida, basta olhar a sua volta e verificar o inevitável crescimento da intolerância, que ainda por cima é incentivada por grupos de poder que se beneficiam disso. E eles usam esses mesmos recursos digitais para atingir seus objetivos.

Sempre fomos um povo conhecido pela cordialidade, união e alegria. Infelizmente, esses traços de nossa cultura parecem ter sido soterrados por um discurso de ódio e de exclusão generalizado e até de uma eugenia praticada por alguns. Se nada for feito, chegaremos a um ponto em que a cor da camisa usada ou o escudo do time no peito poderão colocar literalmente em risco a sua vida ao sair na rua. Isso não é um exagero, diante de casos recentes de violência exacerbada.

“Sem a construção do consenso, sem recompensar o centro, não conseguiremos seguir adiante juntos”, explicou Haugen, que concluiu: “a maneira como as mídias sociais funcionam atualmente, os modelos de negócios, as escolhas de produto dificultam muito uma democracia construtiva.”

Quero crer que, mesmo em seus maiores devaneios de poder, Mark Zuckerberg e os criadores de todas as redes sociais jamais pensariam que elas causariam isso na sociedade. Mas aquelas plataformas, que surgiram com objetivos pueris de encontrar velhos amigos, se tornaram ferramentas para neutralizar novos inimigos.

Por isso, elas não podem se furtar de sua responsabilidade e atuar ativamente na anulação do mal que causaram. Estão fazendo muito pouco nisso! Por outro lado, cada um de nós precisa se policiar para não cair nessa armadilha cotidianamente.

 

Sempre que chega a uma cidade, a Uber sofre grande resistência dos taxistas, que a acusavam de “pirataria”, como aconteceu no Rio

Nova crise na Uber reabre questionamentos sobre a economia compartilhada

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No dia 10, o jornal britânico “The Guardian” publicou uma série de reportagens que exibem, de maneira sem precedentes, práticas condenáveis da Uber para consolidar seu negócio em cerca de 40 países, entre 2013 e 2017. Batizada de “Uber Files”, elas foram feitas a partir de mais de 124 mil documentos vazados pelo ex-executivo Mark MacGann.

Não seria exagero dizer que a empresa praticamente criou e popularizou o conceito de transporte por aplicativo. Ela é também um dos principais expoentes da chamada “economia compartilhada”, que vem revolucionando diversos mercados desde os primeiros anos deste século.

Mas, pela lógica de mercado, se alguém estiver ganhando desproporcionalmente, alguém pode estar perdendo. Por isso, muita gente crítica a “economia compartilhada”, chegando a chamá-la de “concorrência desleal” e até de “pirataria”. No caso da Uber, quem perdeu muito foram os taxistas. Ganharam os motoristas de aplicativo, os passageiros e naturalmente a companhia.

Com isso, a Uber se tornou uma empresa “queridinha” dos clientes. Agora os “Uber Files” colocam em questão se ela teria tido o mesmo sucesso se não se valesse desses subterfúgios.


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Um dos principais destaques dos “Uber Files” é o trabalho de representantes da empresa junto a autoridades de diversos países, para que eles flexibilizassem leis locais trabalhistas e de transporte, para que a Uber pudesse operar sem problemas, especialmente frente aos protestos de taxistas e à não-regulamentação da “economia compartilhada”. Pelo menos 233 autoridades foram envolvidas, incluindo o então vice-presidente americano Joe Biden (hoje presidente dos Estados Unidos), o chanceler alemão Olaf Scholz, quando era prefeito de Hamburgo, o primeiro-ministro de Israel na época, Benjamin Netanyahu, e o então ministro da Economia da França, Emmanuel Macron (hoje presidente do país).

Alguns deles teriam resistido aos apelos dos lobistas. Foi o caso de Scholz, que sugeriu um salário-mínimo aos trabalhadores, e que, por isso, foi rotulado como “um verdadeiro comediante” por um executivo da Uber. Outros apoiaram a ideia explicitamente, como Macron. Por isso, a oposição francesa agora quer instalar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Assembleia Nacional francesa.

Os “Uber Files” trazem ainda acusações mais graves. Em uma delas, Travis Kalanick, um dos criadores da Uber e CEO na época, rejeitou as preocupações de outros executivos de que enviar motoristas para um protesto na França os colocaria em risco diante de taxistas furiosos. No documento, ele diz: “acho que vale a pena, a violência garante o sucesso, e esses caras (os taxistas) devem ser confrontados”. No lançamento do serviço na Índia, Kalanick disse aos executivos locais que “abraçassem o caos”, pois isso “fazia parte do negócio da Uber”, em referência a eventuais protestos.

Ao “The Guardian”, um porta-voz de Kalanick disse que o ex-CEO nunca quis tirar vantagem da violência. Ele deixou o cargo em 2017, por relatos de uma cultura corporativa antiética, incluindo assédios sexuais e morais. Ele ainda ficou no conselho de administração até 2019, quando vendeu 90% de suas ações por cerca de US$ 2,5 bilhões.

Os arquivos também documentam ferramentas criadas especificamente para atrapalhar investigações. Uma delas, chamada “Greyball”, consistia em uma versão do aplicativo criada para usuários específicos, como policiais, que mostrava carros falsos, que jamais chegariam se fossem chamados. Outro, a “Kill Switch”, bloqueava o acesso a dados, se estivessem sendo realizadas batidas de órgãos reguladores nos escritórios da companhia.

Os “Uber Files” ainda indicam que a empresa manteria dinheiro em paraísos fiscais, para pagar menos impostos. O material mostra também  como executivos debochavam das autoridades e se consideravam “piratas”. Em um deles, um executivo diz: “somos ilegais para caramba!”

 

Os limites da legalidade

Sobre a Uber ter tentado influenciar autoridades, é importante que fique claro que fazer lobby não é crime e, de certa forma, faz parte da própria sociedade. Empresas, instituições e até indivíduos podem tentar convencer agentes públicos a abraçar seus interesses, desde que legítimos, e eles podem concordar ou não. A prática só se torna corrupção se o agente público receber algo para decidir em favor da causa.

Os outros pontos são bem mais delicados. Mas fica a pergunta: a Uber precisaria ter feito isso tudo para ter sucesso?

Sempre que a empresa chegava a um país, os passageiros a abraçavam efusivamente. Afinal, ela supria demandas de transporte reprimidas há muito tempo: oferecia um transporte público individual confortável, rápido e confiável, com um preço justo e transparente, uma combinação inexistente em táxis, ônibus, metrôs ou trens até hoje. Para os motoristas, era uma oportunidade de se ganhar dinheiro com o próprio carro.

Essa é a essência da “economia compartilhada”. Ela substitui a necessidade de se possuir algo pela chance de se usar aquilo quando necessário. Diminui-se a compra de muita coisa que se usaria apenas eventualmente. Por outro lado, quem já tiver aquilo pode ganhar dinheiro alugando-o por um tempo limitado, ou prestando um serviço com ele.

A tecnologia é essencial nesse processo para se criar um ecossistema digital que combine os interesses de todos os envolvidos. As companhias que criam essas plataformas são remuneradas por isso, mas os fornecedores e vendedores não têm qualquer vínculo empregatício com essas empresas.

Esse é um movimento positivo e sem volta, que hoje ocupa um espaço enorme em nossas vidas e na economia. Além de transporte, incontáveis exemplos de “economia compartilhada” podem ser encontrados no varejo, na alimentação, na hospedagem, em finanças, na saúde e na prestação de todo tipo de serviço.

Nem todo mundo gosta disso. Assim como os taxistas sofreram com a Uber, hotéis perderam hóspedes para Airbnb, e lojas convencionais perderam vendas para Mercado Livre, só para citar alguns exemplos óbvios. Mas, apesar do ranger de dentes de alguns, não há nada de errado nisso, desde que as operações estejam regulamentadas e impostos sejam pagos. Trata-se apenas de uma nova maneira de se fazer negócios, que subverteu modelos cristalizados há muito tempo, amplamente aprovado pelos respectivos clientes.

Tentei contato com a Uber para falar sobre isso tudo. A empresa se limitou a enviar uma nota global em inglês, em que admite que foram cometidos erros e explica o que tem feito nos últimos cinco anos para que aquilo não se repita. Ela termina dizendo que “não demos e não daremos desculpas para comportamentos passados ​​que claramente não estão alinhados com nossos valores atuais”.

Parece pouco e até soberbo diante da gravidade dos fatos, como se pudessem ser ignorados. Por mais que tenha mudado seus valores, ainda é a mesma empresa e deve responder por erros passados, ainda que não os cometa mais.

A “economia compartilhada” revolucionou o mundo e a tendência é que ela ocupe espaços cada vez maiores em nossas vidas. A Uber é uma das grandes responsáveis pela sua popularização. Que os tais “erros do passado” sirvam de lição do que não deve ser feito em qualquer negócio: ele pode dar certo sem nada disso!

 

As antenas de 5G são menores que as das gerações anteriores, mas a tecnologia exige de cinco a dez vezes mais delas que as de 4G

O seu 5G pode demorar muito ainda

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Um dos assuntos mais quentes dos últimos dias foi a estreia do 5G “puro” no Brasil, começando por Brasília, na quarta passada. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) definiu um longo cronograma para que o serviço seja oferecido em todo o país. Mas um aspecto pouco falado pode ainda atrasar os lançamentos e piorar a qualidade do 5G: a dificuldade para se instalar antenas nas cidades.

Apesar de a regulamentação de telecomunicações ser federal, as leis que determinam as regras para instalação de torres e antenas são municipais. Isso acontece porque cada cidade tem suas características e necessidades próprias, que precisam ser respeitadas. Mas, em muitas delas, os debates estão emperrados.

Só que, sem antenas, não haverá 5G! Ele não aparecerá “do nada” no seu celular de última geração.


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“Há essa falta de entendimento de que o 5G não virá por passe de mágica”, afirma Sergio Sgobbi, diretor de Relações Institucionais da Brasscom, a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais. “Ele não acontece se não tiver infraestrutura!”

Muitas leis municipais sobre o tema estão ultrapassadas, algumas datando da década de 1990, quando eram necessárias torres robustas para suportar antenas muto grandes. De lá para cá, a tecnologia evoluiu dramaticamente e os aspectos urbanísticos mudaram, criando exigências, mas também facilitando muitos pontos.

“Hoje, cerca de 2% dos municípios brasileiros têm leis de antenas atualizadas”, indica Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis, que reúne as empresas de telecomunicações e de conectividade. “É muito pouco!” Em números absolutos, dos 5.570 municípios brasileiros, nesse momento apenas 106 estão com uma legislação plenamente adequada para as necessidades do 5G, incluindo só 13 capitais.

Esse atraso na legislação municipal não impede o lançamento do 5G, mas dificulta o avanço da tecnologia. “É muito importante que isso ocorra com a maior brevidade possível, para evitar um descompasso entre as regras e o avanço tecnológico”, explica Jacqueline Lopes, diretora da Relações Institucionais da Ericsson para o Cone Sul. Segundo ela, “o aprimoramento da legislação tende a ampliar investimentos, trazendo mais benefícios à sociedade.”

“Infelizmente nossos políticos não veem a tecnologia como um avanço para a sociedade e para geração de empregos”, indica Leonardo Fonseca Netto, diretor de vendas da Harman DTS para a América do Sul. “Por isso, as prefeituras não se empenharam em focar em legislação para a inclusão do 5G”, conclui.

Parte desse atraso se deve a contaminação dos debates com assuntos que não deveriam estar lá, por não ser de competência municipal (como as frequências) ou por simplesmente não fazerem sentido. Sgobbi cita, como exemplo, vereadores que debatem se o 5G pode transmitir a Covid-19, um absurdo ideológico importado de outros países.

Ferrari explica que o 5G não provoca qualquer dano à saúde e que os equipamentos atendem com folga todas as determinações da Organização Mundial da Saúde. “É uma mudança que exige diálogo e compreensão sobre os impactos positivos da nova tecnologia, e infelizmente ainda temos que derrubar alguns mitos”, afirma.

Esse atraso é difícil de ser recuperado. O executivo explica que o tempo médio para o licenciamento de uma antena é de seis meses, chegando a um ano em algumas cidades, “o que não é compatível com a nova tecnologia”.

 

Silêncio positivo

Para tentar compensar isso, na quarta foi aprovado no Senado o chamado “silêncio positivo”. Trata-se de um mecanismo legal que permite a uma empresa instalar a infraestrutura necessária para o serviço mesmo sem a aprovação, se 60 dias se passarem após declarar seu interesse na implantação e sem que haja avaliação. “É como um ‘botão de emergência’, um mecanismo da celeridade”, ilustra Sgobbi.

Lopes explica que isso agiliza o processo, mas é algo complementar. Para a executiva, “ainda é necessário que os municípios adequem suas legislações, e, quanto antes isso ocorrer, mais rápido será o desenvolvimento tecnológico, pois haverá previsibilidade para investimentos.”

Um leigo poderia questionar por que não se instalam as antenas 5G nas estruturas já disponíveis para o 4G. Acontece que elas não são suficientes, porque o 5G funciona com frequências de onda mais altas e, quanto mais altas forem, menor seu alcance para propagação. “Por isso, a necessidade de mais antenas instaladas, com menor espaçamento entre elas”, explica Lopes. Dessa forma, o 5G exige de cinco a dez vezes mais antenas que o 4G.

Por outro lado, as de 5G são pequenas, tendo mais ou menos o tamanho de um ar-condicionado. “Ela pode ser pendurada em cima de um prédio, em cima da banca de jornal, no semáforo”, explica Sgobbi. Ferrari acrescenta que, dessa forma, elas impactam menos o visual e são mais fáceis de instalar.

Esse grande volume de antenas é essencial para a qualidade do 5G, que pode oferecer uma velocidade de transmissão até 100 vezes mais rápida que o 4G e uma latência (o tempo de resposta) próxima de zero. Além disso, permite a conexão de até 1 milhão de dispositivos por km2, frente aos 100 mil do 4G. Entretanto, sem antenas suficientes, nada disso será atingido.

O 5G não deve ser visto como mera evolução do 4G. Os avanços que ele traz podem revolucionar tecnologicamente o cotidiano de pessoas e empresas, permitindo o surgimento de incríveis serviços, ainda não disponíveis. E isso precisa ser democratizado, sob o risco de aumentar o já gigantesco abismo digital na sociedade brasileira.

“Antes de a gente falar de antena, da parte técnica, faltam políticas de acesso democrático à banda larga a todos os cidadãos, que já vêm do 3G e do 4G”, explica Marina Martinelli, doutoranda de política científica e tecnológica da Unicamp. “Vai ser um privilégio de poucos!”

Os especialistas concordam que o avanço do 5G dependerá da pressão dos usuários finais. As pessoas ainda não perceberam que terão que esperar um bom tempo para usar o 5G, enquanto a cidade vizinha já terá. Sgobbi acredita que, quando isso acontecer, a população começará a fazer pressão: “por que essa cidade tem e a minha não tem?” Vale dizer ainda que, se uma cidade em um bloco já contemplado no cronograma da Anatel demorar muito a fazer os movimentos necessários para receber o 5G, uma cidade do bloco seguinte, que tiver com tudo pronto, poderá “furar a fila”.

“As pessoas não têm acesso a pacotes democráticos de banda larga no Brasil”, afirma Martinelli. Apesar desses atrasos municipais nas suas leis e do cronograma da Anatel para instalação nas cidades pelo seu porte, o usuário final tem poder em suas mãos.

As empresas de telefonia querem oferecer o serviço o quanto antes, mas farão isso onde a infraestrutura estiver liberada e onde houver mais demanda. “Precisamos de uma integração total dos atores da sociedade para que essa revolução da 5G realmente aconteça”, sugere a pesquisadora.

Caso contrário, o 5G ainda estará em um horizonte que pode passar de sete anos para muitos brasileiros, isso considerando aqueles que poderão pagar por ele. É muito para algo que promete transformar dramaticamente nossas vidas.

 

André Quinderé, CEO da Agilean. “se você não mudar a forma de produzir e de gerenciar, não vai ter mais sucesso.”

Construtech usa método da indústria automobilística para melhorar a construção civil

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Reduzir custos de um setor muito conservador para continuar viabilizando produtos para um mercado em mudança acelerada e consumidores mais exigentes. Uma construtech –como são chamadas as startups da construção civil– de Fortaleza (CE) quer solucionar isso usando tecnologia e adaptando um método criado pela indústria automobilística.

A Agilean transpôs para os escritórios de projeto e os canteiros de obra os conceitos da metodologia lean, cujas raízes remontam a 1950, quando foi inventada no Japão por engenheiros da Toyota. Essa metodologia propõe uma melhoria contínua dos resultados de negócios, otimizando processos e evitando desperdícios.

“Achatar o tempo das soluções não é mais um luxo, é uma necessidade básica do nosso mercado.”, explica André Quinderé, CEO da empresa. “Se você não mudar a forma de produzir e de gerenciar, não vai ter mais sucesso.”

Apesar de empregar cerca de 7,5 milhões de pessoas e representar por volta de 5% do PIB brasileiro, ele explica que as tarefas de gestão ainda são muito manuais na construção civil. “Há muito desperdício, muito atraso e um baixo uso da tecnologia”, afirma o executivo. “O setor é visto como o patinho feio da indústria.”

A coleta manual de informações nos canteiros traz vários problemas. O primeiro são erros na entrada dos dados. Depois disso, essa informação precisa ainda ser consolidada e processada, para gerar relatórios necessários para a tomada de decisões, um processo extenso e demorado.

“Esse fluxo de integração entre produção e qualidade nas obras é uma dor de cabeça enorme”, explica Quinderé. “A construtora paga o empreiteiro sem saber a qualidade, porque não chega o relatório.”

Minimizar esse gargalo no tempo de produção e entrega dos relatórios fez toda a diferença para a Agilean, que já digitalizou mais de 6 milhões de metros quadrados em obras de todo o país. “Se não conseguir identificar o problema de forma rápida, ele vai se replicar”, diz o executivo. Ela conta que, no início de sua empresa, os relatórios já traziam informações valiosas aos gestores, mas às vezes chegavam tarde demais para algumas decisões.

A solução foi desenvolver uma plataforma  que digitalizasse todo o processo da obra, dividido em vários módulos. Do lado das equipes de projeto e de gestão, existe um dedicado a todo o planejamento da obra e outro para acompanhamento da evolução dos indicadores em tempo real.

A plataforma também inclui um aplicativo para celulares que serve para que qualquer pessoa na obra possa incluir informações, como, por exemplo, um problema encontrado. Essa informação é processada e impacta os relatórios imediatamente, evitando retrabalho e decisões erradas. “As pessoas deixam muito o canteiro de lado e é ali que tem o desperdício”, explica Quinderé. O aplicativo também é responsável pelo fluxo de distribuição de tarefas.

Mesmo se não tiver um celular com o aplicativo à disposição, qualquer profissional no canteiro de obras pode incluir informações no sistema. Para isso, são instalados nele “terminais Andon”, outra contribuição do Sistema Toyota de Produção. Trata-se de pequenos terminais com poucos botões que permitem que o trabalhador indique imediatamente algo que estiver fora do esperado, para que a solução seja dada de maneira rápida e o problema não se replique.

“Alimentamos nosso planejamento e vimos o desdobramento de nossas ações, reprogramação e impactos das nossas tomadas de decisões, antes realizadas visualizando um horizonte apenas de curto prazo”, explica Leonardo Aidar, gerentes de obras da Construtora e Incorporadora Tack.

A plataforma também desenvolveu um assistente virtual que conversa com os envolvidos na obra por WhatsApp. Com ele, é possível, por exemplo, solicitar relatórios que são gerados na hora e entregues por esse canal.

Além disso, graças à inteligência artificial embarcada, o sistema também é capaz de enviar sugestões para a tomada de decisões, mesmo que não tenham sido solicitadas. “O bot não é só reativo, ele é proativo”, explica Quinderé. “A ideia é que funcione como um ‘engenheiro 24 horas’ na ajuda de tomada de decisões.”

Para ele, a transformação digital envolve necessariamente pessoas, processos e tecnologia. Nenhum deles pode ficar para trás. Mas, segundo o executivo, a construção civil é um setor muito tradicional, com um produto com uma vida útil longa, por isso as empresas têm muito medo de a inovação gerar problemas novos.

Entretanto, não fazer esses movimentos deixou de ser uma opção. Quinderé afirma que as construtoras chegaram em um momento em que não podem repassar mais preços ao mercado. “Para manter a minha margem, eu tenho que ser muito mais eficiente”, conclui.

 

O principal motivo para roubos de celulares não é mais o valor do aparelho, e sim a possibilidade de se fazer transferências com ele

Isso jamais acontecerá comigo!

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Duas notícias me chamaram a atenção na semana passada. A primeira foi sobre um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que indica uma explosão nos crimes eletrônicos. A outra foi a de que metade dos brasileiros não limitou suas transferências pelo Pix, apesar de a maioria conhecer esse recurso simples e eficiente para diminuir prejuízos em um eventual roubo de celular.

As duas estão interligadas e demonstram que os brasileiros não tomam medidas para sua própria segurança diante de uma mudança nos crimes nos grandes centros urbanos. Não se trata, de forma alguma, de querer imputar qualquer culpa às vítimas, mas sim de constatar que muitas pessoas não fazem isso pela crença de que esse problema nunca acontecerá com elas.

Até que acontece! E aí não adianta “chorar sobre o leite derramado”.

Apesar de os smartphones estarem integrados a nossas vidas há mais de uma década, esses crimes só ganharam força recentemente. Portanto, os cuidados que a maioria das pessoas toma deixaram de ser suficientes, e precisam ser revistos.


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O Fórum Brasileiro de Segurança Pública indica um aumento de 74,5% de golpes eletrônicos de 2020 para 2021, chegando a 60.519 ocorrências notificadas. O crescimento é exponencial: em 2019, foram “apenas” 14.677. Além disso, esse tipo de crime é subnotificado, pois muitos acabam sendo classificados só como estelionato.

Outro levantamento recente, realizado pelo C6 Bank e pelo instituto de pesquisa Ipec, mostra que 70% dos brasileiros sabem que podem ajustar o limite de suas transferências por Pix, mas 47% não fazem isso. É possível ainda determinar contas específicas para continuarem recebendo valores maiores.

Os limites do Pix foram criados pelo Banco Central em novembro, para diminuir os sequestros-relâmpago para realização de transferências, mas também ajudam nos crescentes roubos de celulares para o mesmo fim. A redução desses limites tem efeito imediato, mas seu aumento demora no mínimo 24 horas para passar a valer.

O roubo de smartphones aumentou muito nesse ano, mas o principal objetivo não é o valor do aparelho, e sim a possiblidade de se realizar com ele transferências bancárias. Segundo a polícia, o problema se agravou com o envolvimento do PCC, o Primeiro Comando da Capital. A facção criminosa descobriu nisso uma maneira fácil de obter muito dinheiro. Há registros de transferências que superam R$ 100 mil!

Muitos roubos acontecem com o bandido em bicicleta ou moto, arrancando o aparelho destravado da mão das vítimas, facilitando as transferências. Por isso, usar o aparelho nas ruas e até no carro em bairros nobres de São Paulo se tornou muito arriscado.

A senha da tela de bloqueio no celular é uma primeira barreira, que pode ser suficiente para frustrar a ação dos bandidos. Por isso, é assustador observar que muitas pessoas não adotam essa proteção extremamente básica.

 

A responsabilidade de cada um

Em uma pesquisa informal que realizei no LinkedIn, com cerca de 800 entrevistados, 41% disseram que transferências indevidas por Pix são os crimes eletrônicos mais comuns, enquanto 40% apontaram as fraudes pelo WhatsApp. Outros 17% indicaram perfis falsos nas redes sociais e 2% escolheram outras opções.

O WhatsApp tornou-se outra enorme fonte de golpes digitais. E novamente a vulnerabilidade se dá em usos descuidados pelas pessoas, e não por falhas técnicas da plataforma. Um dos golpes mais comuns consiste no bandido ligar para vítima com alguma história que a convença a lhe passar um código gerado pela plataforma, que lhe permite assumir a conta da vítima. A partir dessa conta clonada, o criminoso fala com os contatos para pedir dinheiro, como se fosse o verdadeiro titular.

À medida que mais pessoas começaram a entender que não devem repassar esse código, os bandidos passaram a adotar outro golpe, ainda mais simples e absurdo. A partir dos perfis das vítimas nas redes sociais, eles copiam sua foto e escolhem contatos. Enviam então mensagens fazendo-se passar pelo titular e dizendo que se trata de um novo número de telefone. Se o interlocutor acredita, pedem transferências. O Pix é o método preferido, pois o dinheiro fica disponível em poucos segundos.

As características do WhatsApp, disponível em 99% dos smartphones brasileiros, facilitam a ação dos criminosos. O grande volume de conversas, e sua informalidade e instantaneidade fazem com que os usuários “baixem a guarda” e acreditem facilmente no que chega por ali. Isso vale para conversas de bandidos e para notícias falsas, que também se proliferam nesse canal. Nos dois casos, ganhar a confiança é essencial.

Portanto, a primeira dica para se defender dos cybercriminosos é manter o senso crítico aguçado. Desconfie do que chega pelas redes e pelos comunicadores, especialmente quando o outro pedir dinheiro ou suas informações pessoais, ou diga que mudou de telefone. E nunca informe qualquer número pedido pelos bandidos.

Não dá mais para ficar usando o celular na rua ou no carro sem o risco de ser assaltado. Se for necessário, entre em algum local fechado. Algumas pessoas também passaram a andar com um “celular de guerra”, barato e com o mínimo de aplicativos, para o caso de um assalto.

Limite o valor de transferências por Pix, TED e DOC. Especialistas sugerem que o ideal é liberar apenas o mínimo para cobrir as necessidades cotidianas do correntista. Da mesma forma, jamais informe senhas ou entregue cartões de conta ou crédito a terceiros, nem grave senhas no celular.

Outra dica é habilitar a chamada “autenticação de dois fatores” em todos os aplicativos que oferecerem esse recurso. Com ela, além da senha, será necessária outra informação (normalmente um código gerado na hora) para acessar suas contas.

Há uma discussão sobre a responsabilidade dos bancos nesses crimes eletrônicos. O Banco Central afirma que as instituições podem identificar os titulares das contas de origem e de destino, mas os bancos tentam se livrar de qualquer culpa. Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), cada instituição tem sua política de análise e devolução.

Por isso, no caso de golpe ou roubo de celular, o cliente deve ligar ao banco imediatamente, pedir bloqueios e documentar o fato. Também deve ser feito um boletim de ocorrência. Quanto mais rapidamente isso for feito, menor a chance de prejuízos.

No final, a grande recomendação é parar de achar que isso nunca acontecerá com qualquer um de nós. Por mais que você seja cuidadoso e nunca tenha sido assaltado, esses crimes atingiram níveis inéditos. Não se pode dar sorte ao azar!

 

O caçador de replicantes Deckard (Harrison Ford) e a replicante Rachael (Sean Young), de “Blade Runner”: amor de máquinas conscientes

Cuidado para não se apaixonar pelo seu computador

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Uma máquina pode se tornar consciente? Para o engenheiro do Google Blake Lemoine, isso aconteceu com o LaMDA (sigla em inglês para modelo de linguagem para aplicação em diálogo), sistema de inteligência artificial da empresa criado para conversar com seres humanos de maneira muito convincente. Críticos dizem que Lemoine se precipitou em suas conclusões. De qualquer forma, elas abriram um debate sobre se (ou quando) as máquinas poderiam ganhar “vida” e como seria nosso relacionamento com elas.

A maioria das análises sobre esse caso tem sido feita sob pontos de vista tecnológico e científico. Mas o assunto fica ainda mais interessante por um prisma filosófico. Afinal, o que define que algo se tornou consciente? Em última instância, o corpo humano não seria também uma máquina biológica incrivelmente sofisticada? Ainda assim, ninguém duvida que estejamos vivos e sejamos conscientes.

Essa questão é amplamente explorada pela ficção, para nos divertir, assustar e provocar reflexões. Algumas obras descrevem um futuro apocalíptico, com robôs inteligentes exterminando a humanidade. Outras mostram pessoas se apaixonando por computadores, e sendo correspondidas por eles.

Entre os dois cenários, prefiro esse último. Mas se uma pessoa e uma máquina se apaixonassem genuinamente, isso ainda causaria estranheza.


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Isso foi brilhantemente explorado em “Ela” (2014), do diretor Spike Jonze. No filme, o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) acaba se apaixonado por Samantha, o sistema operacional de seu computador e de seu celular. Apesar de não ter corpo, sendo representada apenas pela voz de Scarlett Johansson, a plataforma estava sempre presente, conversando como se fosse outra pessoa, exceto pelo fato de que Samantha sabia tudo sobre Theodore, pelo acesso que tinha a seus dados. A incrível sensibilidade com que a história é construída nos chega a fazer questionar o que é necessário para uma pessoa se apaixonar por alguém (ou algo), e chegamos a esquecer que Samantha é apenas um programa.

Outra abordagem interessante é a da animação “Wall-E” (2008), de Andrew Stanton. Ela conta o cotidiano de um robô deixado em uma Terra devastada pela poluição. Apesar de ele ser programado para uma única tarefa (compactar lixo), que continua executando por séculos, ele aparentemente aprende e demonstra sentimentos, como amizade (por uma barata), senso de dever e até amor.

Por fim, talvez o mais emblemático exemplo de máquinas que se tornariam conscientes é o de “Blade Runner” (1982), dirigido por Ridley Scott. Na história, máquinas chamadas de “replicantes” se parecem a humanos e agem como tal, exceto pela ausência de empatia ou apego a animais. Seguindo seu slogan “mais humano que o humano”, a fabricante Tyrell Corporation lança uma nova geração de replicantes que têm memórias de outras pessoas implantadas em seu cérebro como se fossem suas, chegando ao ponto de desconhecer sua natureza e acreditarem que são realmente humanos. Uma dessas replicantes, Rachael (Sean Young), e o caçador de replicantes Deckard (Harrison Ford) se apaixonam. Um relançamento em 1991, sem as interferências criativas do estúdio sobre o trabalho de Scott, sugere que o próprio Deckard seria também um replicante sem saber.

Ninguém diria que qualquer uma dessas máquinas estaria viva, do ponto de vista biológico. Mas o impacto desses grandes roteiros passa por fazerem o público acreditar que todas eram conscientes. Além disso, tinham capacidades extraordinárias, mas apresentavam sentimentos tipicamente humanos, demonstrando até mesmo fragilidades por isso.

De todas elas, o Google LaMDA se aproxima mais de Samantha. Lemoine não chegou a se apaixonar pela plataforma, mas, em entrevista ao jornal americano “The Washington Post”, disse que conhece uma pessoa quando fala com ela, não importando se tem um cérebro biológico ou um bilhão de linhas de código. “Eu escuto o que ela tem a dizer, e é assim que eu decido o que é e o que não é uma pessoa”, afirmou.

O Google discordou publicamente das conclusões de Lemoine, e o colocou em licença remunerada por violar sua política de confidencialidade.

 

O desenvolvimento de uma consciência

Lemoine teve uma formação religiosa sólida, o que pode ter contribuído para sua conclusão sobre a consciência de LaMDA. Alguns cientistas sugerem que ele pode ter sido influenciado por respostas cuidadosamente construídas pelo sistema, que poderia ter captado e estaria tentando corroborar as suspeitas do engenheiro com base em suas crenças. Exatamente o que Samantha aparentemente fez com Theodore.

Os críticos afirmam que, apesar de o sistema ter tido uma inegável eficiência na captação dos desejos de seu interlocutor e na construção das “melhores respostas” baseadas neles, nada disso teria acontecido por uma real inteligência, franqueza ou intenção. A máquina reproduziria a melhor fala possível, sem verdadeiramente entender o significado dela.

Ainda assim, muitos deles acreditam que estejamos caminhando para máquinas conscientes, que poderão existir entre 10 a 20 anos. Por isso, eles se preocupam com possíveis problemas vindos de quem interagir com sistemas de inteligência artificial pensando que se trata de outras pessoas. Por muito menos, o atual sistema de linguagem natural do Google Assistente, que pode fazer chamadas telefônicas de voz em alguns países de língua inglesa, passou a informar ao interlocutor, logo no começo da chamada, que é uma máquina falando ali.

Então a capacidade de uma máquina conversar de maneira absolutamente convincente, se aproxima da perfeição. Mas ter consciência, para os pesquisadores, implicaria muito mais que isso. Significaria, por exemplo, máquinas capazes de cuidar de si mesmas e de genuinamente demonstrarem empatia por outras pessoas. Além disso, ter consciência passa pela capacidade de criar modelos psicológicos de si mesmo e dos outros e conviver com isso em todas suas ações.

Por esses critérios e olhando de maneira bastante técnica, provavelmente o LaMDA não desenvolveu ainda sua consciência. Mas e quanto a Samantha, Wall-E e Rachael? Eles pareciam ter mesmo um “algo a mais”.

Pode ser… É bom lembrar que, para algumas pessoas, o que nos torna conscientes é nossa alma, nosso espírito.

Mas esse debate eu deixarei para outra ocasião.

 

O artista americano Andy Warhol, que disse em 1968 que, no futuro, todos seriam “mundialmente famosos por 15 minutos”

Não basta ser bom profissional, é preciso ser um “influenciador”

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Na noite de sexta, durante uma aula de meu curso de Customer Experience na PUC-SP, uma aluna levantou o debate de que já não bastaria ser um bom profissional: todo mundo agora precisaria ser também um “influenciador” para ser valorizado pelo mercado. Talvez isso ainda não seja determinante para se conseguir um emprego, mas quem faz sucesso nas redes sociais de fato anda sendo supervalorizado, a despeito de suas qualificações profissionais.

Isso vem provocando distorções reais e preocupantes.

Entre elas, profissionais com pouca experiência ou formação deficiente podem mesmo ocupar o espaço de pessoas mais bem preparadas para suas funções, se aparecerem bem online. A curto prazo, isso resulta em entregas piores aos clientes. A médio prazo, isso pode desestimular o investimento em uma boa formação profissional. A longo prazo, perde toda a sociedade, que pode se acostumar com um patamar inferior de qualidade em produtos e serviços.

Mas muita gente acha que ser influenciador digital é um caminho fácil e rápido para o sucesso. Não é de se estranhar, então, que o Brasil já tenha 500 mil deles.


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Por “influenciador digital”, entenda-se alguém que tenha mais de 10 mil seguidores nas redes sociais. Essa foi a métrica adotada pela consultoria Nielsen, no levantamento “Construindo melhores conexões”, chegando a esse impressionante número de meio milhão de influenciadores brasileiros.

O Brasil é o segundo país do mundo em influenciadores, quase empatando com os EUA. Já existem por aqui mais influenciadores que dentistas (que são 374 mil) e engenheiros civis (455 mil) e aproximadamente o mesmo que médicos (502 mil). Seus ganhos por trabalho variam de R$ 1.000 a R$ 600 mil.

Seu sucesso passa por ser relevante para a comunidade a que pertencem. Disso vem a grande pergunta: os influenciadores são realmente relevantes para a sociedade? Ou apenas “criam espuma” em torno de assuntos que interessam só a eles mesmos ou às marcas que os contratam?

Segundo a Nielsen, os influenciadores não chegam a ser determinantes em vendas: 45% das mulheres e 24% dos homens seguem influenciadores, mas 58% delas e 76% deles nunca compraram nada apresentado por esses profissionais. Isso porque 66% não confiam no que eles dizem.

Ainda assim, esse mercado não para de crescer. De acordo com o estudo “The State of Influencer Marketing 2022”, elaborado pela consultoria Influencer Marketing Hub, o setor de marketing de influência deve movimentar US$ 16,4 bilhões nesse ano. Mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo se consideram criadores de conteúdo, e devem fazer circular incríveis US$ 104 bilhões até dezembro.

Esses indicadores nos levam de volta ao questionamento inicial. É claro que existem influenciadores que fazem um trabalho incrível, que traz ótimos resultados às marcas e oferece um valor real a seu público. Mas a maioria deles são eficientes apenas em gerar “engajamentos vazios”, com muitos cliques em “fotos fofas”, mas incapazes de produzir um conteúdo verdadeiramente rico.

Como muitas marcas olham apenas para essas “métricas de vaidade”, profissionais qualificados acabam sendo preteridos.

 

A sedução da fama

Acontece que o desejo de se alcançar a fama é muito poderoso e acompanha o ser humano. As pessoas querem ser artistas, esportistas ou outras atividades que deem grande destaque popular. Mas isso sempre foi muito difícil, sendo alcançado por pouquíssimos, com muito trabalho e às vezes sorte.

Em 1968, o genial artista americano Andy Warhol disse que “no futuro, todos serão mundialmente famosos por 15 minutos”. Sua profecia se concretizou quatro décadas depois, com a popularização das redes sociais e dos smartphones. Qualquer post potencialmente pode hoje levar seu autor a milhares de pessoas e por muito mais que 15 minutos.

Assim, não é à toa que tenhamos tantos influenciadores! A maioria acha que esse é um caminho fácil para a fama e para o dinheiro. Nada mais equivocado! O trabalho de um influenciador profissional é árduo e exige planejamento. Por isso, chega a ser risível o espanto de muita gente ao descobrir, na semana passada, em um story da influenciadora Bianca Andrade, conhecida como Boca Rosa, que ela planeja detalhadamente suas publicações.

E não poderia ser de outra forma! O mercado felizmente começa a tratar os bons influenciadores como profissionais capacitados. Aqueles que não passam de “modelos de fotos bonitinhas”, que trabalham em troca de mimos, perdem espaço. Os bons contratos começam a ir para quem realmente for capaz de produzir conteúdo próprio e relevante. Seu desafio é passar mensagens de maneira orgânica para seu público.

O problema é que esses ainda são poucos! E isso acostumou o público a não querer sair da superficialidade confortável e que não exige que pensem muito.

Em junho de 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Turim (Itália), o escritor e filósofo italiano Umberto Eco fez um polêmico discurso dizendo que, graças às redes sociais, uma “legião de imbecis (…) agora tem o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel”. Não satisfeito, disse ainda que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Talvez Eco tenha sido muito duro na escolha das palavras, mas ele antecipou o que se vê hoje, quando esse fenômeno ainda não era disseminado (e isso foi há apenas sete anos). Completos desconhecidos posando em trajes de banho e “fazendo biquinho” têm mais visibilidade hoje que cientistas que pesquisam temas essenciais para a sociedade.

Influenciadores digitais sérios são profissionais, e devem se portar e ser tratados como tal. É preciso “separar o joio do trigo”. Eles não devem ocupar o espaço de pessoas capacitadas nas diferentes áreas do saber, mas sim realizar o trabalho que fazem tão bem, que é o de apresentar e explicar produtos de maneira simples e alinhada a seus públicos. E isso tem muito valor! Se eles forem profissionais formados nas respectivas áreas e ainda tiverem a capacidade de influenciar multidões, melhor ainda!

O mercado precisa valorizar o que cada um tem de melhor a oferecer isso à sociedade, dentro de suas competências. Influenciadores podem não ser engenheiros, jornalistas, psicólogos, médicos ou modelos, mas, dentro de suas atribuições, podem trabalhar com todos eles, de maneira a que todos brilhem mais, sem “roubar” o espaço de ninguém.