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Neste ano, a IA deixou de ser “divertida” para se tornar uma ferramenta de trabalho cobrada por eficiência – Imagem: Paulo Silvestre

Esse foi o ano em que a IA encontrou o caminho do lucro

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Se 2023 foi o ano do espanto com a inteligência artificial e 2024 marcou a democratização do acesso a essa tecnologia, 2025 foi aquele em que ela deixou de ser uma “atração de circo”, capaz de criar poemas ou imagens divertidas, para se tornar uma ferramenta de trabalho séria, cobrada por eficiência, escala e resultados financeiros. A “mágica” foi substituída pelo início do retorno sobre os investimentos.

O mercado termina o ano com essa ideia consolidada, conforme me disseram, há alguns dias, executivos de algumas das principais empresas de tecnologia que operam no Brasil, todas diretamente envolvidas na construção da infraestrutura digital que sustenta empresas, governos e serviços críticos no país.

As corporações perceberam que ferramentas genéricas, como o ChatGPT, eram interessantes, mas insuficientes para resolver dores complexas de negócios. Foi necessário organizar dados e adotar sistemas que não apenas “falassem”, mas que “fizessem”. A busca por eficiência operacional em um cenário econômico desafiador empurrou a IA para dentro das engrenagens vitais das companhias, saindo dos laboratórios de inovação para o chão de fábrica e os departamentos financeiros.

No início de 2025, a aposta era de que a IA começaria a entregar resultados, o que, de fato, vem se confirmando. Agentes especializados ganharam espaço, a integração ao dia a dia avançou e o discurso ficou mais sóbrio. O que não aconteceu com a mesma velocidade foi a maturidade dos dados e a simplificação da adoção, ainda travadas por legados e decisões mal resolvidas do passado.

Contudo, ao integrar a inteligência artificial nos processos de decisão, as companhias descobriram que a tecnologia é a parte fácil do processo. O mais difícil acaba recaindo na cultura empresarial e na responsabilidade de delegar escolhas a uma máquina. Isso exige de nós ética, para não perdemos o controle dos rumos de nossas vidas.


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A necessidade de mudança de postura nas pessoas está clara para quem comanda essas transformações. Para Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, a IA saiu do “piloto” para a escala, com foco em produtividade, qualidade de decisão e retorno mensurável. “As empresas passaram a priorizar casos de uso integrados ao dia a dia, em finanças, compras, RH, supply chain, e não apenas projetos experimentais isolados”, destaca.

Marco Stefanini, CEO Global e fundador da Stefanini, corrobora a ideia. Para ele, o mercado deixou a fase de encantamento com os modelos generativos e entrou em outra, mais madura e pragmática. “Quando se parte de um problema concreto, com dados estruturados e metas claras, o valor aparece”, afirma. Por outro lado, “quando se parte da tecnologia pela tecnologia, os projetos emperram”.

Um dos principais motores dessa maturação da IA foram os agentes, sistemas capazes de planejar e executar tarefas específicas de maneira autônoma, monitorando o ambiente e tomando decisões para atingir objetivos com pouca ou nenhuma intervenção humana. No começo do ano, eles eram a grande aposta do mercado, que acabou se concretizando ao longo desses 12 meses.

Fabricio Lira, diretor de IA e Dados da IBM Brasil, explica que esses sistemas permitem que as empresas automatizem processos complexos sem intervenção humana constante. Não se trata de um chatbot que responde dúvidas, mas de um robô que planeja e executa ações em cadeias inteiras. “Isso impulsiona a produtividade em escala global, reduzindo custos operacionais em diversos setores, enquanto aborda desafios éticos por meio de frameworks de IA responsável”, explica.

Mas nada disso se sustenta sem uma base sólida. Sandra Vaz, presidente da Red Hat Brasil, lembra que o hype da IA foi importante para que empresas reforçassem o uso de tecnologias estruturais, como nuvem híbrida, automação e modelos de negócios abertos. “As lideranças precisam abandonar modelos rígidos e adotar uma cultura baseada em colaboração, experimentação e decisões orientadas por dados”, sugere.

A IA deixou de ser uma “solução procurando um problema” para se tornar a resposta estratégica para dores reais. Mas ela, por si só, não salva uma cultura organizacional tóxica ou obsoleta.

 

A importância dos dados

Ao longo do ano, falou-se muitíssimo da importância de dados de qualidade alimentando a IA. De fato, ela só funcionou bem onde houve informações organizadas e confiáveis. Sem elas, o discurso continuou maior do que o impacto. A IA começou a entregar, mas apenas para quem fez a lição de casa de organização e processos.

Terminamos 2025 com uma IA menos “mágica” e mais “operária”. Isso é bem-vindo, pois tira a discussão do campo da ficção científica e a coloca na mesa de reunião da diretoria, onde orçamentos e responsabilidades são definidos. A tecnologia começa a se tornar invisível e onipresente, como a eletricidade, um sinal de amadurecimento.

No entanto, precisamos ficar atentos a armadilhas ligadas a essa eficiência. Se os agentes autônomos estão tomando decisões, eles precisam ser auditados. O avanço técnico parece estar chegando, agora nossa ética precisa alcançá-lo.

Ao chegar ao fim do ano dessa forma, a IA deixa a lição incômoda e necessária de que não há tecnologia salvadora, nem atalho para maturidade digital. O que existe é trabalho duro, escolhas às vezes difíceis e responsabilidade compartilhada.

Para empresas, gestores e a sociedade como um todo, o ensinamento é que deve haver menos deslumbramento e mais critério. A IA não resolve tudo, mas diferencia quem fez os movimentos necessários de quem apenas acreditou no discurso.

Talvez a lição mais importante de 2025 seja que a IA só é transformadora quando conecta tecnologia, governança e humanidade, e precisa ser boa para todos. Enquanto executivos comemoram ganhos de produtividade e novos modelos de negócio, trabalhadores encaram uma requalificação acelerada e muitas vezes difícil.

A sociedade observa, ainda sem clareza, quem se responsabilizará quando decisões automatizadas falharem. De agora em diante, dependeremos menos da tecnologia em si e mais de como escolheremos usá-la. E isso, felizmente, ainda está em nossas mãos.

 

Para o CEO da OpenAI, Sam Altman, devemos chegar à IA Geral nos próximos anos: agentes são um possível caminho - Foto: reprodução

Líderes da IA começam nova corrida tecnológica

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A disputa para dominar a inteligência artificial anda tão acirrada, que se parece cada vez mais a uma corrida de cavalos, em que o ganhador vence “por um nariz”. Agora foi dada a largada para um novo páreo, o dos agentes de IA, e os principais nomes dessa indústria já estão na pista!

Isso não quer dizer que os agentes sejam uma novidade: eles já existem há anos em nossas vidas pessoais e profissionais. Mas até agora são soluções prontas dos fabricantes. Criar o próprio agente é uma tarefa complexa e que exige conhecimentos técnicos. O que Microsoft, OpenAI, Google e Anthropic prometem agora é tornar essa tarefa tão simples quanto conversar com um chatbot, como já nos acostumamos.

Um agente é um sistema que usa a IA para realizar tarefas específicas de maneira autônoma, com pouca ou nenhuma dependência de um ser humano. Ele age de maneira contínua, monitorando o ambiente e analisando dados para tomar decisões seguindo o que lhe foi pedido. Isso é bem diferente de um uso da IA generativa, como conversas com o ChatGPT, em que, por mais incríveis que seus resultados sejam, são atividades pontuais e totalmente dependentes da interação com o usuário.

Essas empresas agora prometem unir o melhor desses dois mundos, de modo que qualquer pessoa possa criar agentes sofisticados de maneira tão simples, quanto pedir que o chatbot escreva um texto. Ainda que isso não vá acontecer imediatamente, a simples abertura desse caminho pode ser realmente revolucionária.


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A Microsoft saiu na frente nessa nova etapa, com o lançamento do Copilot Studio. Ele permite criar agentes de IA com relativa facilidade, expandindo as funcionalidades do Copilot ao integrá-lo a bases de dados empresariais, gerando respostas a partir dessas informações, considerando cada contexto específico. Esses agentes podem ser distribuídos para pessoas dentro e fora da organização.

Já a Anthropic, startup de IA ligada ao Google e à Amazon, anunciou recentemente uma abordagem inusitada para sua plataforma Claude, batizada de “uso do computador”. Ainda na fase de testes, ela inova ao adaptar a IA para o uso de sistemas existentes, e não o contrário. Ela pode, por exemplo, assumir o controle de um computador como se fosse o usuário, para realizar tarefas de acordo com o que aparece na tela, até mesmo usando vários programas.

A OpenAI, que continua sendo a estrela mais brilhante do setor com seu ChatGPT, obviamente não quer ficar para trás. A empresa anunciou a versão de testes de um produto para desenvolvedores semelhante à solução da Anthropic. Ela deve ser liberada em janeiro.

O Google também “está dando seus pulos”. A empresa promete novidades na área de agentes ainda nesse ano! Vale lembrar que a empresa impressionou muita gente em 2019, quando ninguém ainda falava de IA generativa, com o lançamento do Google Duplex. Ele permite que o usuário peça que o Assistente realize tarefas simples, com a possibilidade de fazer ligações telefônicas, para, por exemplo, reservar uma mesa de restaurante, interagindo com atendentes humanos. Essas conversas são tão impressionantes, que muita gente se incomodou quando descobria que estava falando com um robô, e não com outra pessoa.

Os agentes que já estão disponíveis em nosso cotidiano se diferenciam de automações convencionais justamente pelas características da IA, especialmente de continuar funcionando se algo não sai como o esperado. Eles também melhoram com o uso, aprendendo coisas novas.

 

O futuro é dos agentes

Nas empresas, os agentes vêm sendo usados cada vez mais no atendimento automatizado a clientes. Eles também são muito úteis ao identificar movimentos do mercado e propor ações mais assertivas para as equipes comerciais, além de ajudar em negociações e de propor ideias aos gestores. Eles também são bastante usados pelo RH, em processo de contratação e até de demissão de profissionais.

Em nosso cotidiano pessoal, os agentes estão em nossos smartphones (no Google Assistente e na Siri) e em alto-falantes inteligentes, como o Amazon Echo. Nesse último, a Alexa pode, entre outras coisas, identificar compras recorrentes e auxiliar em novos pedidos, quando necessário. Relógios inteligentes e outros dispositivos podem monitorar a nossa saúde, e até eletrodomésticos, como aspiradores de pó robôs, realizam tarefas da casa de forma autônoma e cada vez melhor.

Quando a nova geração de agentes sair da fase de testes e chegar ao cidadão comum, ela poderá ampliar seus poderes consideravelmente. As pessoas não ficarão mais restritas aos agentes criados pelos fabricantes dos equipamentos.

Isso permitirá a definição de regras complexas, que combinarão recursos e informações de diferentes serviços aos que o usuário tem acesso. Por exemplo, será possível tirar automaticamente dinheiro de uma aplicação financeira que esteja com baixa rentabilidade para comprar ações de uma empresa com boas perspectivas.

É praticamente um consenso entre especialistas que os agentes representam o futuro da IA. Eles não apenas se tornarão mais diversificados e poderosos, como também serão mais fáceis de se criar. Além disso, veremos cada vez mais soluções complexas resultantes da combinação de vários agentes trabalhando em conjunto.

Muita gente acredita que esse seja o caminho para a Inteligência Artificial Geral (IAG), o “Santo Graal” dessa tecnologia. Quando (e se) estiver disponível, ela tomará decisões de maneira autônoma (ou seja, sem necessidade de comandos de alguém), sobre qualquer assunto e de maneira adaptável. É basicamente como nosso cérebro funciona, mas a IAG terá sobre nós a vantagem de analisar, com velocidade sobre-humana, uma quantidade de dados gigantesca, para tomar decisões mais assertivas.

Ainda existe muita especulação se chegaremos a isso algum dia. Especialistas de alto nível afirmam que a IAG é um conceito teórico inatingível. As big techs apostam fortemente no sucesso, dizendo que isso acontecerá ainda nessa década. Mas não podemos esquecer que elas têm interesses comerciais em afirmações como essas.

Qualquer que seja esse desfecho, devemos nos manter atentos às oportunidades que essa tecnologia oferece, apropriando-nos do que ela pode nos oferecer de bom e nos mantendo vigilantes contra eventuais armadilhas que desenvolvimentos descuidados e usos pouco éticos possam colocar em nosso caminho.

Esse é um trabalho de educação digital importantíssimo, envolvendo empresas, instituições de ensino, governos e outros atores da sociedade civil. As pessoas precisam entender e se apropriar conscientemente da IA e seus agentes, e isso deve chegar a todos.