Bill Gates

Para Bill Gates, a IA pode levar a uma semana de trabalho de apenas três dias - Foto: Philippe Buissin - União Europeia/Creative Commons

IA não salvará o brasileiro de moralismos sobre como trabalha

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Na esteira dos debates sobre a extinção da jornada de trabalho 6×1, alçada pelo governo como sua principal bandeira neste ano eleitoral, reportagens publicadas no fim de fevereiro na Veja e na Folha provocaram indignação de parte do público. Os textos transpareciam ideias de que o brasileiro já trabalha pouco, não é suficientemente esforçado e que o descanso semanal é um custo.

No centro da polêmica, está o conceito de “produtividade”. E, de fato, geramos muito menos riqueza por hora trabalhada do que profissionais de nações desenvolvidas. O problema se agrava quando, diante dos números, as análises incorporam moralismo, como se isso fosse um traço da cultura brasileira, e catastrofismo, que sugere que melhorar as condições de vida das pessoas levaria a economia a um colapso.

Correndo por fora, a inteligência artificial surge como uma força que magicamente melhoraria a nossa produtividade. Economistas e empresários, com destaque para Bill Gates, argumentam que os ganhos trazidos por essa tecnologia poderiam viabilizar semanas com quatro e até três dias de trabalho apenas.

A redução da jornada de trabalho é um tema naturalmente popular, mas que não permite leituras apressadas ou populistas de nenhum lado. E a inteligência artificial, a despeito de todo o seu poder, não muda nada quando o debate já nasce enviesado.

É preciso abandonar as promessas fáceis, as acusações e as ameaças para entender como aumentar nossa produtividade, como a tecnologia pode nos ajudar nisso e o que mais precisa ser feito para sairmos dessa histórica situação trabalhista subalterna.


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A simples adoção de tecnologia não aumenta produtividade, não redistribui renda e não permite trabalhar menos. Pela lógica capitalista, a tecnologia por si só desloca renda do trabalho para o capital, concentrando a riqueza e gerando multidões que laboram insanamente para ganhar pouco em empregos precarizados. Esse é o cenário atual, que pode ser exemplificado pelos entregadores de aplicativos.

Muita gente acusa Gates de ter uma visão utópica e até inocente nessa sua proposta. Mas ela é mais complexa do que a maioria sabe. O fundador da Microsoft especula que a sociedade continuará funcionando mesmo que trabalhemos apenas três dias por semana, graças aos ganhos da IA. Mas ele afirma que isso deve necessariamente vir acompanhado de políticas fiscais e de bem‑estar, para evitar a queda de renda.

Gates propõe, por exemplo, a criação de “impostos sobre a automação”, que financiariam a redução da jornada de trabalho, evitando o desacoplamento entre produção e emprego. Caso contrário, afirma que pode haver desemprego em massa.

Vários economistas alertam sobre um possível paradoxo. À medida que tecnologias se tornam mais eficientes, cresce a pressão por produtividade individual. Ferramentas que prometem “economizar tempo” muitas vezes acabam elevando expectativas de desempenho, e passamos a entregar mais no mesmo tempo.

A IA se encaixa nisso. Se um profissional consegue gerar um relatório em minutos com apoio dela, o que antes era uma tarefa semanal pode se tornar uma atividade diária. O ganho de eficiência é absorvido pela expansão das expectativas.

Isso pode ainda reforçar a desigualdade, outra dor histórica do Brasil. Mesmo que a economia como um todo gere novos empregos, os ganhos de produtividade podem se concentrar em poucas empresas, setores e regiões. Isso pode criar períodos de transição dolorosos, com desemprego intenso e ainda mais pressões salariais.

 

Entre o marketing político e o alarmismo empresarial

A divergência entre visões otimistas e céticas não está apenas na tecnologia, mas na interpretação da história econômica. A expectativa de menos trabalho parte da ideia de que produtividade elevada libera tempo para a sociedade. A visão alternativa sugere que as economias modernas quase sempre responderam a esses ganhos expandindo produção e consumo.

A inteligência artificial não é uma utopia tecnológica, a despeito da excitação alimentada em torno dela. Suas potencialidades e limitações estão profundamente ligadas ao trabalho, por isso ela não deve ser sequestrada pelo marketing político ou pelo alarmismo empresarial, cada um com sua agenda limitante.

Adotar amplamente essas plataformas não significa aumento de produtividade. Se a IA faz bem as tarefas de um profissional, então ele realmente se tornou dispensável.

Uma boa produtividade vem necessariamente de uma educação melhor e para todos, da educação básica à pós-graduação. Em um mundo mais complexo e competitivo, erra quem acredita que cursinhos de curta duração garantirão seu emprego.

As empresas devem ser incentivadas a usar a IA para qualificar profissionais e redesenhar processos, em vez de demitir pessoal. Isso inclui acordos coletivos que troquem ganho de produtividade por tempo de estudo, e mudanças em encargos trabalhistas alinhadas a investimento em capital humano.

A redução da jornada de trabalho deve vir associada ao aumento de produtividade, não por decreto isolado. Mas essa premissa não pode ser usada para demonizar o tema, garantindo a concentração de riqueza às custas de trabalho mais precarizado.

Devemos ter muito cuidado com discursos de que demitir pessoas pela adoção da IA em tarefas rotineiras vem de uma “modernização inevitável” ou de que a baixa competitividade vem de uma suposta “preguiça” do trabalhador. Pelo contrário, eliminar ou piorar as condições de trabalho para se produzir o mesmo com menos custo demonstra uma visão tacanha de que o cenário atual é suficiente.

Isso diz muito mais sobre a baixa produtividade do brasileiro, que trabalha com uma formação ruim, com apoio tecnológico mal direcionado e insuficiente, além de condições extenuantes. Por isso, o verdadeiro debate não é se “trabalhamos pouco” versus “dá para trabalhar menos”, e sim quem se apropria do tempo e dos ganhos que a tecnologia oferece.

Por isso, devemos analisar de maneira desapaixonada e construtiva as previsões de que a automação levaria naturalmente a jornadas muito menores. Para que isso ocorra, a tecnologia não basta. É preciso que instituições, políticas públicas e escolhas sociais direcionem os ganhos de produtividade para essa redução, algo que historicamente quase nunca ocorre de forma espontânea.

Sem isso, a IA será a nova justificativa para trabalharmos mais sob o pretexto de que poderíamos, talvez um dia, trabalhar menos.

 

Estamos vendo o fim da TV, pelo menos como a conhecemos

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Wagner Moura como Pablo Escobar, na série "Narcos", lançada recentemente pelo Netflix - Foto: divulgação

Wagner Moura como Pablo Escobar, na série “Narcos”, lançada recentemente pelo Netflix

No dia 24 de novembro, “A Estrada do Futuro”, primeiro livro de Bill Gates, completará 20 anos. Como todo exercício de futurologia, apenas algumas de suas previsões se concretizaram, e nem sempre como se esperava. Mas uma delas está colocando em xeque algo que faz parte de nossas vidas há mais de meio século: a televisão.

Gates antecipou em seu livro o surgimento do vídeo sob demanda, termo técnico que define serviços online em que o consumidor assiste à programação que quiser, na hora que quiser, cujos dois maiores expoentes são o YouTube e o Netflix. Mas talvez ele não tenha imaginado que a popularização desse recurso ameaçaria o modelo de negócio das emissoras e redefiniriam o uso do aparelho de TV como se vê hoje.

O fato é que a tecnologia mudou a maneira de nos relacionarmos com qualquer tipo de conteúdo, e as empresas de comunicação demoraram muito a perceber a chegada desse tsunami. Agora que a onda as atingiu, estão se debatendo em uma tentativa atabalhoada de se salvar.

A primeira e decisiva mudança é que, com um smartphone, o cidadão comum abandonou a sua condição milenar de consumidor de mídia para se tornar produtor. Não chega a surpreender, portanto, que a câmera seja um dos recursos mais usados dos celulares: fotografamos compulsivamente tudo (inclusive nós mesmos, o fenômeno das selfies) e criamos nossos próprios programas, que compartilhamos não apenas com nossos amigos, mas com o mundo todo. E, quando alguém deixa de assistir à Globo para ver nossas produções, passamos a ser concorrentes da Vênus Platinada.

Aliado a isso, o vídeo sob demanda acabou de vez com o monopólio das emissoras sobre o que vemos. Por que eu tenho que assistir a uma novela só porque “é o que está passando agora”? Eu quero ver um filme nesse momento! Ou uma série ou desenho animado. Ah, eu também quero ver a novela, mas na hora que eu quiser! E tem mais: quero ver três capítulos na sequência.

Trocando em miúdos, a grade de programação, algo essencial no modelo de negócios das emissoras, está com os dias contados. Graças a ela, os executivos criam os espaços para a publicidade e controlam a liberação dos conteúdos seguindo seus interesses. Por isso, o novo consumidor ameaça não apenas a TV aberta, mas também a TV por assinatura.

Os números são impactantes e ilustrativos. Estudo recente do ConsumerLab, divisão da Ericsson que estuda o comportamento dos consumidores, feito com 22.500 pessoas de 20 países, indica que 36% do tempo diário em que os brasileiros assistem a vídeos é destinado a conteúdo sob demanda, 1% a mais que média mundial. E 66% dos brasileiros entrevistados afirmaram que não encontram nada interessante para assistir na TV tradicional, o que justifica o crescimento dos serviços de vídeo sob demanda.

 

O consumidor paga pelo conteúdo que lhe interessa

Engana-se quem acha que esse fenômeno é motivado pelo desejo de se consumir conteúdo de graça. Essa premissa, usada por executivos das mais diferentes “mídias tradicionais” (música, imprensa, TV, entre outros) é absolutamente falsa! O consumidor paga, sim, por conteúdo de toda natureza, desde que esse produto lhe traga um benefício claro. De fato, a pesquisa do ConsumerLab mostra também que 22% dos consumidores que nunca pagaram por uma TV por assinatura já estão pagando por serviço de vídeo sob demanda. E aí o Netflix mostra o caminho a ser seguido.

Apesar de a empresa não divulgar a quantidade de assinantes no Brasil (são 65 milhões no mundo), o mercado estima que esse número deve variar entre 2,5 milhões e 4 milhões. Colocando isso em dinheiros, a receita da empresa para esse ano por aqui deve variar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. Na hipótese mais conservadora, o Netflix faturaria mais que a Band e a Rede TV!, quarta e quinta maiores emissoras nacionais; na mais arrojada, empataria com o SBT. Os números foram debatidos no congresso da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura), no início de agosto, cujos membros afirmam que o Netflix é um concorrente desleal.

Não precisa ser gênio para juntar os números do Netflix e de outros serviços com conclusões de estudos como o do ConsumerLab e entender o que está acontecendo. A tecnologia deu ao consumidor o poder de escolha, abrindo-lhe os olhos para perceber que não é obrigado a consumir uma programação de qualidade rasteira em um formato que não lhe convém.

O aparelho de TV cada vez mais é um poderoso computador conectado à Internet (e os fabricantes estão investindo nisso), diminuindo a importância de sua histórica função de receptor de imagens empurradas goela abaixo do telespectador. Permite que a escolha do usuário agora vá muito além dos canais acionados pelo controle remoto.

Além disso, a TV não é mais o único equipamento para se assistir a vídeos: ela ocupa apenas uma fatia do tempo do consumidor para esse fim. Uma fatia cada vez menor, diga-se de passagem, que vem sendo substituída pelo crescente uso dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones. No caso de conteúdo sob demanda, 61% do total já é consumido nas pequenas telas, segundo o ConsumerLab.

 

Observem as crianças

É muito interessante observar as crianças, pois elas entendem e se apropriam de novas tecnologias com grande facilidade e velocidade. Por isso, são excelentes indicadores de como será o futuro breve. E, no assunto que aqui discutimos, elas têm um comportamento muito interessante: quando querem assistir sozinhas a um vídeo, fazem isso no seu smartphone, mesmo que estejam em casa. Por outro lado, quando se trata de uma experiência com outras pessoas, como a família, o melhor lugar para o YouTube e o Netflix é a smart TV da sala. Claro, faz todo o sentido!

Pago mensalmente um adicional de R$ 30 para ter os canais da HBO no meu plano de TV por assinatura. Quis usar o aplicativo de vídeo sob demanda HBO GO, incessante promovido em seus comerciais, mas não consegui, pois a minha operadora de TV a cabo não permite. Devo dizer que fiquei com uma vontade enorme de pagar os R$ 30 mensais diretamente à HBO, e não à operadora, que deixou de ser uma facilitadora para se tornar uma dificultadora.

Essa empresa e seus pares precisam urgentemente repensar seus modelos, assim como as emissoras precisam melhorar sua programação. Ou, em muito pouco tempo, as crianças de hoje enterrarão a TV como a conhecemos, transformando sua tela em uma ferramenta de liberdade e qualidade em que nenhuma dessas empresas fará parte.