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Quer saber como a Internet nasceu no Brasil? Pergunte a quem estava lá (e o que isso pode lhe ensinar)!

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O personagem Dino da Silva Sauro, de “A Família Dinossauro”: quem chega primeiro pode ter uma visão privilegiada dos fatos – Foto: divulgação

O personagem Dino da Silva Sauro, de “A Família Dinossauro”: quem chega primeiro pode ter uma visão privilegiada dos fatos

Esse é o depoimento de um dinossauro da Internet. Sim, eu estava lá quando o acesso à Grande Rede foi liberado à população em geral. Entretanto, apesar de 1994 parecer tão distante quanto o período Jurássico, algumas coisas que aprendi desbravando aquela atmosfera primitiva podem ser incrivelmente úteis a qualquer negócio hoje, inclusive o seu, em temas como inovação e gestão de negócios.

A primeira grande lição é acreditar e seguir seus instintos, mesmo quando a manada inteira diz não. E aprendi isso graças a uma certa impetuosidade minha. A Internet foi liberada em caráter experimental ao público brasileiro em novembro de 1994. Na época, eu era repórter da Folha de S.Paulo, meu primeiro emprego. Em janeiro de 1995, quem escrevia sobre Internet no jornal era a editoria de Ciência, onde atuava: o assunto estava ainda tão distante do cidadão comum, que nem era ainda domínio do caderno de Informática. Foi quando eu sugeri colocar a Folha na Grande Rede.


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Assista aos dois blocos da minha entrevista ao jornalista Fernando Rípoli, do Cidade Entrevista do SBT de Maringá, que foi ao ar no dia 14 de outubro


Isso só aconteceu alguns meses depois: a FolhaWeb, primeira experiência da Folha na Internet só foi ao ar no dia 9 de julho de 1995, com a página abaixo, cujo código eu editava em Word (!!!):

Primeira home page da Folha de S.Paulo na Internet - Imagem: reprodução

Depois de um mês fazendo a jornada dupla de fechar o jornal impresso e depois a versão online, decidi ficar só com a segunda. Foi quando uma coisa incrível aconteceu: meus colegas, com as melhores intenções, tentaram me demover da ideia. Ouvi de vários que eu estaria enterrando uma carreira brilhante no jornal, que estava decolando, para abraçar um “modismo”, pois “esse negócio de Internet não vai dar em nada!” Felizmente segui adiante, e construí minha carreira em cima do desenvolvimento de produtos digitais.

Temos que aprender a dar crédito a nós mesmos! Quando muita gente a nossa volta, especialmente pessoas que admiramos, diz não, é comum que abandonemos até mesmo nossos sonhos. E isso é um grande erro!

Primeiramente porque os sonhos dão cor e sabor à vida. Se ficarmos o tempo todo apenas “tocando a obra”, fazendo só “o que tem que ser feito porque sim”, vamos nos tornando cinzas. Enterramos a nossa parte mais nobre, capaz de transformar nossas carreiras e os negócios em que estivermos envolvidos em algo incrível, capaz de se destacar da concorrência.

Portanto, como profissional ou empreendedor, não esmoreça quando as pessoas a sua volta não compartilharem de seus sonhos. E, se você é gestor, incentive seu time a olhar além do óbvio.

 

Olhos abertos e orelhas em pé

Muitas vezes, a grande revolução de nossas vidas pode estar bem diante do nosso nariz e não a vemos. Foi exatamente o que aconteceu com a Internet naquela época.

A coisa estava ali, estava acontecendo e o potencial para mudar o mundo era imenso, como de fato mudou! Se você tiver mais que 30 anos, consegue se lembrar da sua vida antes da Internet? Como conversava, se informava, trabalhava, estudava, se divertia, comprava e até paquerava?

O fato é: o mundo mudou completamente desde 1994, e essa mudança se tornou dramática na última década, depois que o iPhone foi lançado, seguido pelos smartphones Android.

Mesmo assim, quase ninguém conseguia enxergar isso. Até mesmo Bill Gates, quando lançou a MSN em 1995, a concebeu como um serviço fechado, pois afirmava que a Internet era “uma moda passageira”.

Talvez por estar online desde 1987, em um sistema fechado (um BBS) da Telebrás chamado Projeto Ciranda, quando vi a Internet (primeiramente como estudante da USP, depois como repórter da Folha), aquilo me deixou louco! Como as outras pessoas não conseguiam enxergar o mesmo que eu?

É normal que, diante das tarefas do cotidiano, com trabalho, escola, família, a rotina diária, entremos em uma espécie de “modo automático”. Não paramos para olhar o que está a nossa volta. Não nos permitimos pensar de maneira pouco convencional. Ficamos na obviedade, porque não há tempo para olharmos tudo o que o mundo nos oferece.

E ele nos oferece muitas coisas o tempo todo!

Por isso, deixo aqui uma sugestão: se a rotina impede você de dar essa parada, coloque isso na sua agenda. Sim, encare esse momento de reflexão como uma tarefa a cumprir regularmente, se necessário for. Não precisa de muito, umas poucas horas por semana. E, se possível, chame as mentes mais inquietas a sua volta para participar. Coisas incríveis podem surgir desse ato simples.

 

Não pare a inovação

Não é exagero dizer que quem desbravou a Internet no Brasil foi a mídia. Nos primeiros anos da Internet comercial, os grandes nomes do mercado eram o UOL –que surgiu da FolhaWeb, propriedade da Folha e da Abril– e o ZAZ –cujo dono era a RBS, e que depois foi vendido à Telefonica para se tornar o Terra.

Um dos motivadores daquelas empresas era dominar a Internet, porque aquilo poderia “acabar com o impresso algum dia” (sim, ouvi isso incontáveis vezes desde aquela época). Mas curiosamente, apesar de essas operações online terem sido pioneiras nesse mercado, muitas das empresas que eram suas proprietárias não foram contaminadas com esse ímpeto de inovação. E hoje pagam um preço alto por essa imobilidade.

Duas lições que se podem tirar disso. A primeira é que a inovação é um caminho sem volta. A outra é que, uma vez que o público tem acesso à inovação, ele não aceita mais os antigos modelos.

As mesmas empresas de mídia que financiaram a popularização da Internet no Brasil, hoje sofrem por insistir em modelos de negócios que não se sustentam mais. Por exemplo, não adianta querer insistir que seus veículos de comunicação sobrevivam com a dobradinha “assinatura mais publicidade”. O público não quer mais isso e, sem audiência, a publicidade foge. Resultado: infelizmente (mas sem surpresa) vários títulos estão quebrando.

Não se pode ter medo de inovar. É claro que nem sempre dará certo, mas a inovação é o melhor caminho para se chegar lá. E, se já está trilhando esse caminho, não faz o menor sentido voltar para trás. Aliás, rejeitar a inovação, especialmente uma que nasceu dentro de casa, pode ter consequências terríveis.

A Kodak que o diga com a fotografia digital!

 

Aprender fazendo de tudo

Naqueles primórdios de FolhaWeb e UOL, tínhamos que fazer literalmente de tudo. Não havia modelos consolidados, não havia concorrência, não havia formação, não havia literatura, nada! Por isso, lidar profundamente com questões editoriais e técnicas era o básico do dia a dia. Mas também tínhamos que pensar quase tudo! Cheguei até mesmo a apagar de madrugada um incêndio na secretaria administrativa da Folha. E digo isso literalmente: incêndio com labaredas, e não apenas as urgências que apareciam na minha mesa.

Em um primeiro momento, isso pode passar uma sensação de desamparo: afinal, você precisa se desdobrar em coisas que vão muito além da sua formação. Não entre nessa onda! Isso é, na verdade, uma tremenda oportunidade para se desenvolver em áreas distintas da sua, além de permitir que se criem vínculos poderosos com outros profissionais. Além disso, permite que se desenvolva uma visão privilegiada do negócio como um todo. Como resultado, você se torna um profissional muito mais completo.

Além disso, o fato de ter participado de tudo isso no começo me permitiu ajudar da construção de alguns dos alicerces de toda essa indústria. Muita coisa que se vê hoje espalhada por sites e aplicativos em todo lugar surgiu daquela efervescência criativa contínua e incansável.

 

O valor da equipe

Naturalmente eu não fiz nada daquilo sozinho. Ainda que fôssemos poucos (e quase sempre incompreendidos), a turma que iniciou a FolhaWeb e o UOL –e alguns anos depois a AOL, onde também trabalhei e ajudei na sua vinda ao Brasil– era composta de um grupo multidisciplinar incrível. As pessoas ali sabiam realmente o que era trabalhar em equipe, pois –talvez até mesmo pelo descrito acima– todos estavam dispostos a oferecer seu melhor não apenas para suas tarefas pessoais, mas também para ajudar seus companheiros no que tinham que fazer.

Sim, aquilo era trabalho, mas não era “apenas trabalho”. Em maior ou menor grau, sabíamos que algo genial estava nascendo ali. Costumo dizer que, já na America Online, o grupo pioneiro de profissionais não ia ao escritório para trabalhar, mas sim para mudar o mundo um pouco a cada dia, todos os dias.

O fato é que nada daquilo teria acontecido se cada um resolvesse fazer apenas o seu. Nunca temos sozinhos todos os recursos necessários para fazer uma grande ideia alçar voos mais altos. Precisamos do outro e do que ele sabe. Temos que estar dispostos a falar e a ouvir, a dar e a receber.

Se não fosse assim, aquele começo da Internet teria sido muito mais difícil. E, quem sabe, aquilo que meus amigos disseram, que não passava de um “modismo”, ganhasse ares mais verdadeiros.

Ainda bem que escolhemos todos o melhor caminho. E você, que caminho quer escolher?


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Você acha que está seguro contra ataques cibernéticos até ser vítima de um deles

By | Tecnologia | 2 Comments

Imagem: Visual Hunt / Creative Commons

Nos últimos dois meses, o mundo foi vítima de dois ataques cibernéticos em massa, que pararam empresas, instituições e até governos. Nos dois casos, os hackers bloquearam os computadores e pediram resgates para devolver aos usuários o acesso aos seus dados. É o tipo de coisa que vemos no noticiário e achamos que só acontece com os outros. Mas a verdade é que você pode estar vulnerável a algo assim agora mesmo. Você sabe como se proteger disso?

Isso vale para megacorporações, pequenas empresas e até usuários domésticos. É um jogo de gato-e-rato interminável: empresas de segurança tentam fechar portas, enquanto hackers tentam encontrar novas brechas. E a extensão do problema é maior que o imaginado. John Chambers, presidente da Cisco, chegou a dizer em 2014 que existem dois tipos de empresas: as que já foram invadidas e as que ainda não sabem que foram invadidas.

Talvez um dos aspectos mais cruéis desses dois ataques dirigidos a tudo e a todos foi o impacto que tiveram em hospitais no mundo inteiro. Sem acesso a seus computadores, essas instituições foram obrigadas a suspender o atendimento a seus pacientes, até que pelo menos os sistemas essenciais fossem restabelecidos. O prejuízo à saúde pública é evidente, até mesmo colocando em risco a vida de pessoas.

No Brasil, não foi diferente. A principal vítima nessa categoria foi o Hospital de Câncer de Barretos, o mais importante centro de tratamento contra a doença no país. No dia 27, seus computadores foram atacados, o que provocou a suspensão de 3.000 consultas e exames.  Todas as unidades da instituição foram afetadas, inclusive oito filiais no interior paulista e no Mato Grosso do Sul, Bahia, Rondônia e Sergipe.

Além do atendimento gratuito à população, o hospital é um importante centro de pesquisas contra a doença, com parcerias com algumas das mais importantes instituições internacionais do segmento. Felizmente, apesar de o ataque ter prejudicado o atendimento, dados de pacientes e das pesquisas não foram perdidos. A instituição se recusou a pagar o resgate.

Mas por que esses dois ataques foram tão devastadores?

 

As duas principais vulnerabilidades

Invasões de hackers costumam atuar em dois pontos principais: brechas de segurança dos sistemas e os próprios usuários. E os últimos são os mais vulneráveis.

O motivo é simples. “Buracos” em sistemas (normalmente no sistema operacional, como o Windows) sempre existiram e continuarão existindo. E isso acontece porque os hackers muitas vezes se aproveitam de funcionalidades legítimas do software para suas práticas nefastas. Do outro lado, fabricantes dos programas, empresas de segurança digital e outras instituições estão continuamente tentando identificar essas brechas, corrigindo-as.

Portanto, o simples fato de manter o sistema operacional e o programa antivírus atualizados é crítico! É uma garantia total contra os ataques? Não! Mas resolve a maior parte desse problema, do ponto de vista técnico. Os dois ataques acima, por exemplo, só afetaram computadores rodando Windows que não estavam com as atualizações em dia. Parece simples: afinal, o Windows pode fazer isso automaticamente. Mas tem muita máquina por aí com esse recurso desabilitado.

Portanto, a primeira dica é sempre deixar que o sistema operacional e os programas de segurança façam todas as atualizações necessárias de maneira automática. Parece óbvio. Mas então por que tem tanta gente que não faz isso?

Aí justamente entra o segundo fator de risco.

 

Não saia clicando em qualquer coisa!

A verdade é que o elo mais fraco na segurança acaba sendo o usuário. Por desconhecimento técnico, desleixo e principalmente ingenuidade, é presa fácil da bandidagem cibernética.

Quer ver como é verdade? Vá na sua linha do tempo do Facebook e veja quantos de seus amigos participaram da brincadeira “com qual celebridade você se parece”, que faz uma combinação (para lá de questionável) da foto de perfil do usuário com uma foto de uma celebridade. Talvez você mesmo tenha feito isso.

Acontece que, para participar disso, o usuário tem que autorizar o Facebook a compartilhar com o desenvolvedor do aplicativo os seguintes dados pessoais: nome, foto do perfil, idade, sexo, idioma, país, lista de amigos, e-mail e fotos. Oras, para que a empresa precisa de tudo isso só para fazer uma brincadeira com a foto do perfil?

A resposta: não precisa! Mas ela depois usa essa informação para fazer promoção de produtos seus e de terceiros para o próprio usuário ou -o que é muito pior- em seu nome. Sem falar no risco de outras coisas muito mais graves, como distribuição de vírus e ataques digitais!

Você também já deve ter visto publicações de seus amigos vendendo produtos ou espalhando conteúdos esquisitíssimos pelo Facebook, sem que eles jamais tenham publicado tal coisa. Isso acontece porque eles compartilharam dados e concederam poderes de publicação a essas empresas mal-intencionadas. E cancelar os privilégios do aplicativo no Facebook não resolve totalmente o problema, pois as empresas continuam com os dados dos usuários.

A verdade é que raramente alguém lê a lista de dados e recursos que vai compartilhar com o desenvolvedor do aplicativo que está prestes a instalar no Facebook ou em seu smartphone. Clica logo nos botões “próximo” e “concordo”, sem medir as consequências.

“Ah, mas então não posso participar dessas brincadeiras no Facebook?” Desculpe ser o chato da história, mas não, não pode. Não posso afirmar que todos esses “brinquedinhos” no Facebook são de caras maus, mas, na dúvida, fique fora de todos eles! Ou pelo menos, se o desejo de participar for incontrolável, pelo menos leia a lista do que compartilhará com o desenvolvedor antes de aceitar.

E daí é por sua conta e risco.

 

Outros cuidados

Antes do Facebook, a maneira mais comum para espalhar pragas virtuais eram e-mails ou atualizações de programas que carregam os vírus para o sistema, os chamados “cavalos de Troia”. Na verdade, esse método continua existindo e os mega-ataques dos últimos meses também usaram esse recurso. De novo, a inocência do usuário foi essencial para o sucesso da bandidagem.

Portanto, outra dica é nunca clicar em mensagens suspeitas, como as cheias de erros de português ou com um visual tosco. No Brasil, alguns dos temas preferidos dos criminosos são simular comunicações de bancos ou cobranças de dívidas. Vale lembrar que bancos não costumam mandar links em suas comunicações, sejam e-mails ou SMS, justamente por problemas de segurança.

Outra dica óbvia, porém muito ignorada, se refere às senhas. Você já deve ter visto essas recomendações dezenas de vezes, mas nunca é demais repetir. As senhas devem ser difíceis de adivinhar, portanto nada de usar nomes de familiares, datas de nascimento, placas de carro ou coisas assim. Elas devem ser longas (pelo menos oito caracteres) e conter letras maiúsculas e minúsculas, números e símbolos. Use uma senha diferente para cada sistema que você usa: se não der para decorar tudo, guarde-as impressas em um lugar seguro. E, por fim, troque as senhas regularmente.

Tudo isso parece exagerado e muito chato? Acredite: não é! Quando se acostuma a realizar esses procedimentos, eles se tornam corriqueiros. E isso pode fazer toda a diferença na hora de proteger seus arquivos e até mesmo a sua conta bancária. Vai continuar dando mole?

 

Como você pode ajudar

No começo desse artigo, citei o ataque digital ao Hospital de Câncer de Barretos. Para quem não conhece, todo o atendimento da instituição é gratuito, e ainda assim é considerado o melhor centro do país no combate a essa doença terrível. Fazem 830 mil atendimentos por ano a pacientes de cerca de 2 000 municípios de todas as regiões do Brasil, além de pesquisas de ponta. Parte disso tudo é custeado pelo SUS, enquanto o resto vem de campanhas e doações.

Apesar de possuir uma equipe de TI dedicada e competente, acabaram sendo vítimas dos criminosos digitais. Nessa guerra, todo cuidado é pouco e toda ajuda é bem-vinda. Portanto, se você for profissional de TI ou responsável por uma empresa da área de segurança digital, e puder ajudar a instituição na preservação de seu importante trabalho, entre em contato com eles. O mesmo vale para colaborações na atualização de seus computadores (são milhares deles nas unidades espalhadas pelo país).

Quem quiser ajudar pode entrar em contato com os representantes da instituição pelos e-mails fescobar@portavoz.com.br e imprensa@hcancerbarretos.com.br . A causa é mais que nobre!


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Seu sucesso pode vir quando você tocar a vida de alguém

By | Educação | 8 Comments

Imagem: Visual Hunt / Creative Commons

Eu sei: a vida não está fácil; a crise não dá sinais de trégua. Nessas horas, o velho ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” ganha força! Uma multidão corre atrás do seu sucesso, tentando demonstrar sua competência, se especializando e, às vezes, até mostrando os dentes agressivamente. Mas minhas andanças nesses últimos tempos –e tenho andado cada vez mais vezes e mais longe como Top Voice– têm reforçado uma velha crença minha: seu sucesso pode vir dessas ações focadas em você, claro. Mas ele virá mais rapidamente e melhor quando você tocar a vida das pessoas. E as redes sociais podem ser ótimas para isso, desde que bem usadas.

O motivo é muito simples: nunca sabemos de onde virá o sucesso, assim como não dá para antecipar o próximo vídeo viral. Por mais que tracemos uma meta e trabalhemos duro para ela, não há nenhuma garantia que chegaremos lá, pois sempre há uma variedade de fatores externos que não estão sob nosso controle.


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Uma boa maneira de ampliar nossas chances é trazer mais gente boa para nosso barco. Não como funcionários, fornecedores ou mesmo clientes. O melhor tipo de companheiro nessa jornada é aquela pessoa que, mesmo não o conhecendo pessoalmente, saiba de seu propósito, seus valores, seus sonhos, e concorde com neles!

Como fazer isso? Falando com os outros, demonstrando empatia com pessoas e causas em que você acredite, estando genuinamente aberto para ajudar o próximo no que for possível. Não é doação financeira, não é trabalho voluntário (apesar de essas ações também serem muito positivas). É algo mais poderoso que isso: estar disponível e com o coração desarmado até para pequenas ações, como ouvir o que o outro tem a dizer, dar um conselho, compartilhar boas ideias.

Nesse tipo de alinhamento, existe uma combinação rara de conversa com o cérebro e com o coração do outro. Seu novo companheiro estará então com você promovendo o que você acredita e, de quebra, o que você é e o que você faz. Em outras palavras, o resultado disso é uma reputação consistente naquilo que você faz, algo inestimável no mundo atual dos negócios.

A essa altura do campeonato, alguns podem estar achando isso um tanto oportunista e até maquiavélico.

E é aí que você escolhe os bons companheiros de jornada.

 

Não existe gentileza falsa

Há muitos anos, meu chefe na época me disse algo que nunca mais esqueci: “não existe percepção errada”. Você pode criar um produto incrível, comunicá-lo da melhor maneira possível. Mas nada impede que seus clientes entendam tudo diferentemente. Eles terão percebido as coisas assim! E não é uma “percepção errada”, pois é a percepção deles.

Da mesma forma, não existe gentileza de mentira. Ou você é ou você não é. Quem fica se esforçando (talvez sofrendo) para ser gentil na verdade não é nada disso.

É por isso que, se você conseguir fazer o que propus de uma maneira leve e natural, você jamais estará sendo oportunista e muito menos maquiavélico. Por isso, não tenha medo de julgamentos.

E sabe o que é o mais interessante disso tudo? As pessoas percebem o que você realmente é!

Voltando ao campo dos negócios, não há melhor propaganda que essa! Pelo simples fato de que não é publicidade: ninguém está pagando nada a ninguém. É uma troca genuína de ideias e de propósitos, que pode render novos clientes e até novos mercados para os envolvidos.

Esse tipo de comportamento precisa de incentivo e de divulgação, seja dentro da empresa para clientes, fornecedores, parceiros e o público em geral. As redes sociais, e o LinkedIn particularmente, são provavelmente as melhores ferramentas para essa nobre tarefa. Pois elas propagam ideias muito, muito além de nossos limites pessoais. E de uma maneira mais convincente que qualquer propaganda.

Tem que espalhar!

 

Ouça mais, fale menos

Em outra experiência profissional que tive há muitos anos, em uma empresa de alta tecnologia que respirava valores típicos do Vale do Silício, os funcionários começaram a pedir para conversar com o presidente para lhe exporem suas ideias para o negócio e suas percepções (de novo elas) sobre a empresa. Acontece que, naquele momento, o presidente era alguém com uma visão mais conservadora de gestão. Por isso, sua resposta a esse clamor generalizado foi colocar uma caixinha de sugestões com o logo da empresa no saguão do andar da diretoria.

Sabe de nada, inocente!

Nem uma única sugestão jamais entrou na tal caixinha! Os funcionários se sentiram desprestigiados e o presidente ainda virou motivo de chacota. Pois ele não entendeu nada! E não entendeu porque, no fundo, ele não queria ouvir coisa alguma daquelas pessoas.

Para infelicidade geral, ele foi o presidente que conduziu a empresa ao encerramento de suas operações, algum tempo depois.

Quando queremos construir um relacionamento de qualquer natureza, pessoal ou profissional, precisamos estar preparados para ouvir o que o outro tem a dizer. E, nesses tempos acelerados, essa é uma virtude cada vez mais difícil de se encontrar. Pois todos parecem ter algo a dizer, inclusive para demonstrar como são competentes e que, assim, merecem uma chance de atingir o sucesso.

Só que o mais sábio não é aquele que tem muito a dizer, é aquele que sabe ouvir mais que falar, e, com isso, construir algo positivo para todos.

Parece óbvio. Aliás, muitos podem pensar que esse texto está cheio de obviedades. E está mesmo.

Mas então por que tão pouca gente age assim?

Ser gentil, demonstrar empatia, viver com humildade estão entre as coisas mais nobres e valiosas que qualquer um pode oferecer ao outro. Esse alto valor vem justamente da sua raridade. O que é uma pena, pois tem um grande poder de transformação pessoal e social.

Então, se a crise está feia e a necessidade de alcançar o sucesso nunca pareceu tão importante, comece a prestar mais atenção a quem está a sua volta, ainda que virtualmente nas redes. Ouça o que têm a dizer. Retribua! Ofereça algo de coração a todos. Esse é o melhor caminho para o sucesso hoje.


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Por que colaborar é melhor que competir, até entre concorrentes

By | Educação, Tecnologia | 3 Comments
Cena de “The Wall”, ópera rock do Pink Floyd: escolas massacrando alunos, matando sua criatividade e colaboração, e promovendo a competitividade – Imagem: reprodução

Cena de “The Wall”, ópera rock do Pink Floyd: escolas massacrando alunos, matando sua criatividade e colaboração, e promovendo a competitividade – Imagem: reprodução

Se você costuma me acompanhar aqui no LinkedIn, provavelmente sabe que estive em Boston (EUA) na semana passada, participando do Red Hat Summit. Quando me perguntam qual foi a coisa mais bacana que vi lá, eu respondo: o conceito de colaboração que permeava o evento. Fiquei impressionado como até mesmo concorrentes podem fazer isso com grande sucesso! Então eu lhe pergunto: você e sua empresa conseguiriam fazer isso hoje?

Não chega a ser uma surpresa ver tanta colaboração em um evento de uma companhia que é a líder mundial em software open source. Mas o que me chamou a atenção é como essa filosofia transcendeu o desenvolvimento de software e está modificando a maneira como empresas de qualquer ramo fazem seus negócios, de uma maneira mais moderna, ágil e eficiente.


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Para quem não sabe o que open source, trata-se de uma modalidade de desenvolvimento em que alguém baixa um software cujo código-fonte está “aberto” (pronto para ser editado), realiza modificações no produto e o republica para que outros possam fazer outros incrementos a partir dessa versão melhorada. Entre as vantagens disso, estão produtos com mais recursos e muito mais estáveis, pois, ao invés de ser desenvolvido apenas pela equipe de uma empresa, é melhorado por uma boa parte de toda a comunidade de seus usuários. O exemplo mais emblemático dessa modalidade é o Linux, um sistema operacional que rivaliza com o Windows, especialmente em servidores corporativos.

No caso de negócios, a colaboração pode surgir de diferentes maneiras, como, por exemplo, no compartilhamento de recursos. Um exemplo interessante é o do Estadão e da Folha, que entregam seus jornais com os mesmos caminhões já há alguns anos. Concorrentes ferozes nos anos 1990, inclusive para ver quem chegava primeiro às bancas, a crise dessas empresas fez com que elas percebessem que era muito mais vantajoso juntar forças nessa questão operacional e continuar concorrendo naquilo que é realmente o seu negócio: a produção de conteúdo.

Aliás, a concorrência cada vez mais acirrada é hoje uma grande impulsionadora para a colaboração. Mas nem sempre foi assim. O ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro” explica o pensamento ainda dominante no mundo empresarial, que preconiza que, se o mercado está pequeno, se os recursos são escassos, o melhor a fazer é pisar na cabeça do concorrente e, se possível, tirá-lo do negócio.

Nada mais equivocado!

 

Colabore no essencial, concorra no diferencial

Empresas que já aprenderam a surfar nesse novo mundo colaboram até mesmo no desenvolvimento de seus produtos. E, como disse anteriormente, isso é viável até mesmo entre concorrentes! Isso é possível porque produtos semelhantes costumam ter características básicas iguais entre si. O que os diferencia é o refinamento que surge acima disso.

Apesar disso, em muitos casos, a construção desse alicerce comum acaba tomando a maior parte do tempo e dos recursos de desenvolvimento. Oras, se ele é indiferenciado entre concorrentes, por que então não juntarem suas forças nessa etapa?

Os benefícios imediatos são uma considerável redução nos custos e aumento na agilidade no desenvolvimento. Além disso, o produto final será potencialmente melhor que se fosse feito individualmente por cada empresa, pois ele será resultante de companhias diferentes, o que minimiza potenciais vícios empresariais de cada participante, que podem limitar bastante o escopo do produto. Além disso, cresce a base de clientes dessa solução e suas demandas, o que o torna mais atraente do ponto de vista comercial.

Claro que será necessária a criação de mecanismos para evitar que segredos industriais e comerciais vazem. Mas isso já faz parte do negócio, e a criação de processos bem definidos pode eliminar esse risco.

Mas há quem vá ainda além.

 

Negócios abertos e compartilhados

Algumas companhias vão além disso e adotam o conceito de “open business”. Derivado do “movimento open”, essas companhias possuem uma gestão colaborativa, onde funcionários e até mesmo consumidores participam da tomada de decisões em uma escala inimaginável para empresas tradicionais. Até mesmo as finanças são apresentadas de maneiras transparente.

Parte desses conceitos podem ser encontrados em empresas da chamada economia compartilhada, que tem no Uber e no AirBnB algumas de suas maiores estrelas. Essas companhias e seus modelos de negócios disruptivos estão redefinindo alguns pilares do capitalismo.

Talvez a mudança mais dramática que isso promova seja a construção de uma consciência de que não é mais necessário ter algo para usufruir de seus benefícios. O exemplo clássico disso é a furadeira. Quem tem uma em casa sabe que ela é usada muito, muito raramente. Então por que precisamos comprar uma?

O Uber partiu desse princípio para criar um negócio com milhares de pessoas que têm um recurso ocioso (no caso, um carro) e decidem ganhar algum dinheiro com isso. Por outro lado, um número ainda maior de consumidores pode usufruir de um serviço de transporte diferenciado sem precisar comprar um automóvel. Só para ficar no exemplo dos carros, quem quiser conseguir um sem motorista, pode recorrer ao PegCar, em que indivíduos colocam seus veículos para alugar. Bom para os clientes, bom para os donos dos carros. Ruim para as locadoras convencionais.

 

Mundo exponencial

A verdade é que hoje vivemos em um mundo exponencial. Quem tem mais de 30 anos aprendeu a pensar de uma maneira linear: fazemos uma coisa, depois outra, depois outra, todas elas encadeadas e com uma relação de dependência entre si. Fomos educados dessa forma!

É como construir um muro colocando um tijolo ao lado do outro, até completar uma linha, e só então partir para a de cima. Mas o que se vê, cada vez com mais força, são empresas e pessoas (especialmente entre as mais jovens) que descobriram maneiras melhores para se levantar esse muro. E isso acontece de uma maneira que poderia ser considerada anárquica pelos métodos convencionais, pois vários indivíduos trabalham no muro juntos, ao mesmo tempo, cada uma colocando o tijolo onde acha melhor. Em alguns casos, cada um traz o seu próprio tijolo! Mas longe de ser uma bagunça, isso representa a inventividade e a capacidade de colaboração, resultando em um muro melhor e concluído mais rapidamente.

É interessante observar que as crianças nascem colaborativas. Elas gostam de fazer coisas com outras crianças (e até adultos). Mas então por que, quando ficam mais velhas, as pessoas não são mais assim?

A resposta provavelmente está nos bancos escolares. Nosso sistema educacional tem uma estrutura que é essencialmente a mesma desde o século XIX. As escolas ainda formam indivíduos com a cabeça na Revolução Industrial, onde, mais importante que questionar ou inovar, era obedecer e executar. Uma visão digna da ópera-rock “The Wall”, do grupo Pink Floyd, que ilustra esse artigo.

E isso é um crime contra as crianças e contra toda a sociedade!

 

Escolas e iniciativas do futuro

Felizmente, muitas escolas, inclusive no Brasil, estão conseguindo se libertar dessas amarras com o passado e promovendo uma revolução no ensino, formando cidadãos capazes de viver no mundo atual de uma maneira construtiva e colaborativa. Em alguns casos, a mudança é realmente imensa, como no da escola nova-iorquina Quest to Learn, em que todas as aulas acontecem a partir de jogos, com resultados acadêmicos impressionantes! Aqui mesmo, neste espaço, falamos sobre ela, criando um ótimo debate.

Mas não só as escolas podem ajudar a incentivar as habilidades de colaboração e inventividade de crianças e adultos: as empresas também podem fazer isso. Nessa minha visita à Boston, tive a oportunidade de conhecer o projeto Co.Lab, realizado pela mesma Red Hat. Resumidamente, trata-se de uma iniciativa para aproximar meninas da tecnologia e de conceitos de colaboração. Para isso, elas montaram suas próprias câmeras digitais usando um Raspberry Pi, um pequeno computador de apenas US$ 35 que também incorpora o “modelo open” em sua concepção. Depois elas tiveram oportunidade de sair pelas ruas da cidade e fotografar tudo que elas quisessem para, posteriormente, criar colaborativamente uma releitura de um poema de Emily Dickinson. O vídeo logo no início desse artigo traz detalhes dessa bela iniciativa.

Se pensarmos bem, o que estamos fazendo exatamente aqui também é um bom exemplo de colaboração. Um dos maiores prazeres que tenho no LinkedIn é justamente fomentar debates em torno de temas que sejam importantes para a sociedade.

Vejam que eu disse “debate”, pois os artigos e atualizações que publico aqui são modestamente apenas pontos de partida para discussões. Elas são construídas com a colaboração de centenas de pessoas, que generosamente oferecem parte do seu tempo para tecer comentários com informações que enriquecem ainda mais o conteúdo já existente. E o resultado disso fica disponível para todos.

Portanto, diante de tudo isso, se os negócios estão difíceis, eu sugiro fortemente que você considere a possibilidade de trabalhar com outras empresas, mesmo que sejam concorrentes. Essa divisão do fardo pode deixar todos mais ágeis. E aí todo mundo ganha: as próprias empresas, seus funcionários e a sociedade, que fica mais moderna e humana.


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Pare de se SABOTAR e comece a INOVAR!

By | Educação | 14 Comments
O incrível e maluco Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd, à esquerda) tenta usar uma invenção em Marty McFly (Michael J. Fox), no filme “De Volta para o Futuro” – Imagem: divulgação

O incrível e maluco Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd, à esquerda) tenta usar uma invenção em Marty McFly (Michael J. Fox), no filme “De Volta para o Futuro”

Inovar se tornou um mantra para sucesso de empresas e na carreira. Algumas das companhias mais admiradas do mundo –como Google, Apple, Facebook, Microsoft– são reconhecidas pela constante inovação, e seus funcionários parecem ter essa capacidade em seu DNA. Mas se inovar goza desse consenso, por que vemos tão poucas empresas e profissionais inovando?

A resposta é simples, porém dura: nós inovamos pouco porque nós nos sabotamos o tempo todo! Não porque ficamos malucos ou masoquistas, mas porque o nosso sistema de ensino forma, ano após ano, jovens com uma visão de mundo que talvez ainda funcionasse bem há uns 50 anos, mas que hoje freia a evolução de cada um de nós.


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Aprendemos a valorizar conquistas do passado, tradição e solidez de marcas e empresas e a tentar proteger ganhos existentes. Damos enorme atenção à “cash cow”, mesmo quando ela estiver cercada de vários bezerrinhos promissores. Afinal é ela quem dá o leite, até para os tais filhotes.

Nada mais equivocado! Era assim que a Kodak pensava: afinal tinha uma vaca muito gorda e bem estabelecida nos filmes fotográficos. Nunca deu muita bola para aquele bezerro da fotografia digital, que nasceu meio desengonçado no seu próprio curral.

Mas o bezerro renegado cresceu e engoliu a Kodak com leite!

 

Competitividade X inovação

Nossa educação também nos ensina a sermos muito competitivos, de preferência os melhores da sala, da escola. Quando deixamos os bancos escolares, continuamos querendo ser os melhores, inclusive os melhores da empresa. Muitos de nós podemos achar isso bacana, mas essa prática embute algo terrível para o processo de inovação: se estivermos muito ocupados sendo competitivos, esqueceremos de sermos colaborativos.

Grandes ideias cada vez mais são resultado do trabalho de muitas mentes e muitas mãos. Por mais que exista um gênio criativo, sempre existe alguém para complementar suas habilidades. Mesmo nas megacompanhias acima, as grandes ideias vieram de duplas (apoiadas por seus times): respectivamente Larry Page e Sergey Brin, Steve Jobs e Steve Wozniack, Mark Zuckerberg e (heh!) Eduardo Saverin, Bill Gates e Steve Ballmer.

Há ainda uma terceira e perversa característica que nossas escolas plantam em nossos corações para que nos sabotemos mais tarde: a Intolerância a falhas. Em sistemas de avaliação compostos de provas e trabalhos que punem severamente os erros com a perda de nota, os estudantes aprendem a não ousar, pois isso aumenta implicitamente a chance de cometer algum deslize. Ao invés disso, procuram fazer apenas o essencial e “seguro” para garantir a aprovação. Não precisa ser gênio para perceber que isso envenena as sementes da inovação no momento em que elas cogitavam germinar.

O guru da administração Tom Peters costuma dizer que “o fracasso é uma medalha de honra”, pois ele demonstra que se tentou. E conclui: a única maneira de não fracassar em algo é não tentar. Mas essa também é a garantia de que não se atingirá o sucesso em nada.

Então como podemos inovar diante de um cenário desses?

 

Olhe para frente!

Conduzir um negócio ou a própria carreira dessa forma é como dirigir um carro olhando para o retrovisor. Confiamos no que já passou e esquecemos de olhar para onde realmente importa: a estrada à nossa frente.

Os pontos negativos citados acima precisam ser substituídos por coragem, curiosidade e a vontade de aprender! Ou seja, temos que cortejar a vontade de correr riscos, pois “o fracasso é ingrediente do sucesso”, novamente citando Peters.

Todos nós já passamos por isso, especialmente na nossa infância e adolescência. Quem não se lembra daquele frio na barriga, misto de medo e excitação, antes de entrar em uma montanha russa pela primeira vez? Ou antes do primeiro beijo? É verdade que muitos acabaram desistindo na primeira vez, talvez até nas seguintes também. Mas em algum momento aquele beijo teve que acontecer! E isso só se deu quando a coragem superou o receio, a curiosidade foi maior que a dúvida e a vontade de aprender nos levou a explorar ainda mais o mundo.

Não podemos aceitar que isso ficou enterrado em algum momento na nossa adolescência. Mas a maioria dos adultos age exatamente dessa forma! Nós nos acomodamos naquilo que conhecemos e dominamos: nos encastelamos ali como senhores da verdade.

Mas longe de ser uma fortaleza, isso é uma vulnerabilidade, pois impede que enxerguemos o novo à nossa volta. E não se engane: a mudança sempre chegará!

Isso me lembra uma experiência profissional que tive. Eu era responsável pela criação dos produtos digitais do grupo. Modéstia à parte, minha equipe e eu propúnhamos algumas coisas realmente interessantes e inovadoras. Mas quando as apresentávamos ao conselho de acionistas, invariavelmente acontecia um diálogo mais ou menos assim:

“Isso não vai ameaçar os nossos principais produtos?”

“Sim” –eu respondia.  “Mas, se nós não fizermos isso, alguém fará.”

“Ah, mas se é assim, não podemos fazer isso, não.”

A ideia era arquivada. E, como eu suspeitava, mais cedo ou mais tarde, alguém tinha a mesma ideia e fazia.

Dos tais “principais produtos”, dois já morreram e o que restou respira por aparelhos.

 

Seja honesto e aprenda a ouvir

Outro resquício da nossa educação que permeia empresas e profissionais é que devemos estar sempre “bonitos na foto”, coisa que, aliás, está bem na moda. Como dizia o meu pai, “come frango e arrota peru”.

Mas nem sempre acertamos. Nossa natureza humana é a garantia de que, de vez em quando, é o “frango” mesmo que aparecerá –ou algo ainda pior.

Profissionais e empresas precisam aprender que isso não é nenhum demérito. E que eventuais críticas podem ser uma oportunidade de ouro de vermos nossas imperfeições por um outro ângulo, para que aprendamos a melhorar.

A tecnologia está deixando o mundo cada vez mais transparente. Por isso, empresas que tentam encobrir suas falhas e até mesmo apagar comentários negativos podem, na melhor das hipóteses, passar por ridículas e, na pior, sofrer duríssimos golpes nos seus negócios.

Não basta ser honesto e transparente apenas para fora, com consumidores, governo e opinião pública. A inovação acontece de maneira mais rápida e natural em companhias que agem dessa forma sincera também para dentro, com seus funcionários, sem demagogia ou cortinas de fumaça. É preciso mudar não apenas as palavras, mas também as ações, inclusive na cultura da companhia.

Relembrando novamente a empresa que mencionei acima, de que adiantava o CEO nos dizer que deveríamos “pular no abismo” (no sentido de inovar), se o Conselho nos agarrava pelos pés?

Inovação é um processo incrível e libertador! Não se inova coletando mais informação, aplicando novos e eficientes processos, implantando tecnologia de ponta. Esses todos são elementos, ferramentas que podem ajudar.

Mas a inovação só acontece mesmo quando aceitamos que somos vulneráveis e que sempre podemos aprender algo novo. Aventure-se!


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Rubem Paulo Saldanha, gerente de educação da Intel Brasil, fala no seminário de Tecnologia Educacional da Interdidática

Rubem Paulo Saldanha, gerente de educação da Intel Brasil, fala no seminário de Tecnologia Educacional da Interdidática

“Frente a um mundo cada vez mais colaborativo, protagonista e autor, na escola o aluno ainda recebe as informações como ouvinte, passivo, memorizando mecanicamente os conteúdos, depositando-os divididos em caixas de acordo com a matéria do momento, sem fazer relação entre elas e entre estas e a realidade do seu dia a dia, numa autêntica educação bancária.”

A frase acima, retirei da palestra de Rubem Paulo Saldanha, gerente de educação da Intel Brasil, que aconteceu no segundo dia do seminário de Tecnologia Educacional da Interdidática. Mas a fala não é dele, e sim de Paulo Freire. Diante dela, fiquei pensando, pensando… Obviamente Freire não estava se referindo ao uso das TICs quando escreveu isso em 1983. Mas, se antes ela era uma afirmação essencialmente teórica, com base em suas observações e propostas, hoje ela ganha uma enorme força justamente pelos recursos que a tecnologia coloca à disposição dos professores. Com ela, o aluno pode deixar de ser “ouvinte, passivo, memorizando mecanicamente os conteúdos”, como observava Freire, para ser “colaborativo, protagonista e autor”, exatamente o que vive cada vez mais na Internet. E o professor, antes senhor absoluto do conhecimento, que o despejava uniformemente a todos os seus alunos, passa também a aprender, podendo dar aulas –pelo menos parcialmente– personalizadas para seus diferentes alunos.

Corte para ontem, quando caiu na minha mão um artigo do economista Claudio de Moura Castro, publicado na Veja de 21 de abril. Com o título “construtivismo e destrutivismo”, o autor afirma que “o construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula”, mas aponta o que chama de “quatro tipos de equívoco”: “pensar que teria o monopólio da verdade”, “achar que todo o aprendizado requer os andaimes mentais descritos pelo construtivismo”, “aceitar uma teoria científica como verdadeira” e “supor que, como cada um aprende do seu jeito, os materiais de ensino precisam se moldar infinitamente”.

O economista bate forte nos quatro, às vezes de uma maneira que chega a ser quase tão intransigente quanto aqueles que ele critica no seu texto. Mas, a grosso modo, ele apresenta bons argumentos, particularmente no último dos “equívocos”. De fato, observo professores cada vez mais compelidos a produzir o seu próprio material didático em detrimento dos produzidos “em massa” pelas editoras. Mesmo quando um livro didático é adotado, a aula é complementada pela produção interna da escola, que supostamente estaria mais alinhada ao momento de seus alunos.

Existe certa “crueldade” ao se cobrar essa produção dos professores. Assim como diz Castro, por mais que estejam bem intencionados e sejam bons educadores, eles têm pouco tempo e não foram preparados especificamente para produção de material didático. Não são autores e não têm o apoio editorial necessário. Logo, esse tiro pode sair pela culatra.

Por outro lado, as editoras têm culpa no cartório, pois não conseguem se livrar de suas fórmulas, que são consagradas, porém cada vez mais dissociadas das necessidades desses professores e principalmente dos alunos “colaborativos, protagonistas e autores”. A própria tecnologia é usada mínima e negligentemente por essas casas editoriais. E isso é uma pena, pois já temos todo o arcabouço intelectual, técnico e de infra-estrutura para produzir materiais didáticos digitais que satisfariam Paulo Freire, Claudio de Moura Castro e até o mais “fundamentalista” construtivista. O que falta às editoras é coragem para correr riscos e sair de sua zona de conforto.