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“Degradação” do conteúdo de uma imagem por repetidas interações com a IA – Ilustração: Paulo Silvestre

IA ameaça modelo que sustenta a Internet e a própria existência da tecnologia

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As primeiras plataformas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, se aproximam de seu terceiro aniversário. Em tão pouco tempo, conseguiram a proeza de mudar a maneira como buscamos informação. Mas apesar de suas vantagens inegáveis, elas ameaçam seriamente a maneira como a Internet se organizou e ironicamente a própria sobrevivência desses sistemas.

Nos últimos 30 anos, redes sociais e buscadores construíram seus impérios de mídia com conteúdo alheio. Apesar de alguns produtores desse material, especialmente veículos de comunicação, contestarem o modelo, essa usurpação sempre foi justificada com essas plataformas encaminhando seus usuários aos sites dos autores, que faturam com publicidade.

Como a IA entrega respostas completas, as pessoas não precisam mais clicar nos links para se aprofundar. Isso está achatando a audiência e as receitas dos criadores de conteúdo, que tentam fazer com que as big techs paguem pelas informações. As empresas de mídia são as vítimas mais visíveis, mas o problema afeta todo mundo.

Os caminhos abertos pela inteligência artificial não têm volta. Mas a ganância sem limites e o desrespeito aos direitos autorais das gigantes de tecnologia podem, em médio prazo, matar sua “galinha dos ovos de ouro”, pois a IA precisa continuamente de novas informações confiáveis para continuar funcionando bem.

Se os atuais produtores de conteúdo quebrarem e novos não surgirem pelo risco de terem seu trabalho roubado por essas empresas, não haverá mais nada para alimentar a besta digital. E então o modelo pode entrar em colapso.


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Pela característica de dispensar os usuários de procurar em uma infinidade de sites o que precisam, o ChatGPT foi rapidamente apelidado de “assassino do Google”. Obviamente era um exagero, mas essa concorrência fez o gigante de buscas se mexer, passando a iniciar as suas páginas de respostas com informações geradas pela sua própria IA. E isso agravou ainda mais a situação dos criadores de conteúdo.

Não é pouca coisa. A consultoria de tráfego online Similarweb estima que as pesquisas em buscadores desabaram 15% de janeiro a junho. Os sites de ciência e educação viram 10% de seus visitantes sumirem. No caso dos serviços de referência (como a Wikipedia), a queda foi de 15%, enquanto páginas de saúde perderam 31%. Por outro lado, desde que o Google incluiu textos da IA nas suas respostas, as buscas relacionadas a notícias que não resultam em cliques aumentaram de 56% para 69%.

Grandes empresas de mídia têm feito acordos com as big techs para licenciar seu conteúdo para treinarem a IA. Outras estão processando os gigantes digitais. Mas grande parte do conteúdo que a alimenta vem de uma infinidade de autores sem condições de lutar por seus direitos. De todo jeito, juízes americanos, influenciados pelo presidente Donald Trump, cada vez mais favorecem as companhias do Vale do Silício.

A situação dos produtores de conteúdo deve piorar ainda mais com o plano nacional de inteligência artificial anunciado por Trump no dia 23. Embora não mencione explicitamente direitos autorais, ele endossa a ideia de que as plataformas de IA tenham acesso irrestrito a conteúdos para treinar seus modelos. Trata-se de uma flexibilização implícita das leis de copyright, favorecendo as big techs.

Antes disso, no dia 10 de maio, Trump já havia demitido Shira Perlmutter, chefe do Escritório de Direitos Autorais, após a publicação de um relatório do órgão que questionava o treinamento de IAs com materiais protegidos por direitos autorais. O documento concluiu que isso ultrapassa os limites do uso justo na maioria dos casos.

Outra dor de cabeça criada pela IA para os autores deriva da facilidade de qualquer um produzir todo tipo de conteúdo. Um exemplo emblemático vem das plataformas de streaming de música, que estão sendo inundadas com novas músicas de baixa qualidade geradas por robôs. Cerca de 20 mil dessas trilhas são enviadas diariamente ao Deezer, 18% de todo o conteúdo recebido atualmente e o dobro do visto no início do ano. Como são feitas para agradar aos algoritmos que sugerem músicas aos usuários, elas tiram audiência e dinheiro dos músicos humanos.

 

Todos perdem, menos a IA

Os usuários também perdem muito com esse movimento, e isso começa por consumirem mais conteúdo de baixa qualidade, sejam texto, imagens ou músicas. Isso acontece porque, ao contrário das respostas convencionais de um buscador, em que as pessoas visitam sites criados com curadoria humana, a crescente produção da IA segue apenas os critérios da máquina.

Isso se complica com essas plataformas usando cada vez mais conteúdos gerados pela própria IA no seu treinamento. Assim, algo ruim criado por robôs leva a versões ainda piores no futuro. Para entender isso, basta fazer o exercício de pedir que a IA elabore uma imagem a partir de um original, depois uma terceira a partir da sua criação, e assim sucessivamente. A cada interação, a qualidade se degrada e se afasta da informação original.

Há outro problema ainda mais grave: a IA erra muito no que produz, mas as pessoas não percebem essas falhas. Já ficou comum dizer que é necessário fazer boas perguntas para se obter boas respostas dos robôs, mas pouca gente entende que precisa também ser capaz de analisar a qualidade do que eles entregam.

Aceitamos passivamente o que a IA nos empurra. Isso faz com que usemos mais informações erradas no nosso cotidiano, pois estamos nos tornando preguiçosos para verificar as informações e –pior– elaborar raciocínios e estratégias.

Claro que não proponho que a IA deixe de ser usada, pelo contrário! Mas ela deve ser bem utilizada. E os produtores daquilo que é apropriado para saciar sua fome infinita por informação devem ser remunerados de forma justa. Se as big techs quiserem continuar usando conteúdo alheio para viabilizar seu negócio multibilionário, deveriam, no mínimo, pagar a eles o que estão deixando de faturar graças à IA.

Em vez disso, essas gigantes preferem usar o poder do governo americano para aniquilar quem busca essa relação mais justa. Assim, os autores devem encontrar outras formas de remuneração, e então decidir se querem bloquear o acesso dos robôs ao que fazem.

Essa é uma questão ética, que impacta todas as pessoas seriamente na qualidade do conteúdo que consomem e em como pensam. Em um mundo ideal, os humanos poderiam obter informações gratuitamente, enquanto as plataformas de IA pagariam uma fortuna por elas. Ou então as big techs deveriam oferecer seus melhores produtos gratuitamente a todo mundo.

Mas isso elas jamais farão!

 

Download de filmes: legal, mas caro (e, por isso, tolo)

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A Saraiva largou na frente no download de filmes no Brasil, mas os preços altos podem matar a bela iniciativa

A Saraiva largou na frente no download de filmes no Brasil, mas os preços altos podem matar a bela iniciativa

A Livraria Saraiva anunciou hoje um serviço inédito no Brasil, que permite aos internautas fazer downloads de cópias legais de filmes com qualidade de DVD. Batizado de Saraiva Digital, imita serviços internacionais (mais notadamente o iTunes) e permite que o usuário alugue ou compre os filmes. A diferença entre as duas modalidades, além do preço (entre R$ 3,90 e R$ 6,90 no caso de aluguel), reside no fato de que, no modelo de aluguel, o filme não roda mais depois de 24 ou 48 horas e apenas a modalidade de compra permite queimar o filme em um disco.

Parabenizo a Saraiva pela iniciativa: acho que estão no caminho certo! Mas esses preços… Acompanhem o meu raciocínio:

O usuário será obrigado a baixar o filme, o que, de cara, já exige uma banda (bem) larga e muitas horas de download. Até aí, tudo bem, especialmente para aqueles que já são adeptos dos torrents da vida, baixando filmes ilegalmente. Depois, se quiser gravar em disco, precisa somar o custo da mídia. No final, ficará com um DVD com aspecto de pirata, sem extras, encarte, caixinha, nada.

Pois bem: entrei no novo serviço e vi o filme Juno, belíssima história. O download para compra sai por R$ 34,90. A Saraiva.com me entrega o DVD original, com tudo o que o download não me dá, no dia seguinte por… R$ 34.90. Ok, vamos ver outro filme: O Homem de Ferro, aventura com um dos super-heróis mais cafajestes (pelo menos o seu alter-ego) e divertidos que existem. Na Saraiva Digital, a compra me custa R$ 39,90, enquanto, na Saraiva.com, sai por… R$ 39,90! Procurei então na Americanas.com, concorrente direta da Saraiva.com. E esse mesmo DVD me era oferecido por R$ 19,90.

Aí fica difícil, né? Não sou tão desesperado a ponto de PRECISAR ver o filme imediatamente, sem poder esperar até o dia seguinte para a entrega do DVD e todas as suas vantagens sobre o download. Isso sem falar que a segundo opção não é instantânea, pois ela vai levar umas cinco horas fácil para ser concluída.

Uma das razões do sucesso do iTunes, que o transformaram no maior vendedor de músicas do mundo (superando o Wall Mart), é que o usuário pode comprar, com muita facilidade, apenas as faixas musicais que ele quer, sem precisar levar o álbum inteiro. Além disso (e isso é crítico), cada uma sai por míseros US$ 0,99. Esse valor é baixo o suficiente para “sair na urina” do cartão crédito.

Como disse, a Saraiva mandou bem com a iniciativa. Mas tem que ficar mais barato. Não apenas que a concorrência, mas que ela própria.

Pirataria: questão política ou de mercado?

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Será que os "piratas" do The Pirate Bay são piratas mesmo?

Será que os "piratas" do The Pirate Bay são piratas mesmo?

A Justiça sueca condenou nesta sexta Frederik Neij, Gottfrid Svartholm Warg, Carl Lundstrom e Peter Sunde, ligados ao site The Pirate Bay, a um ano de prisão e ao pagamento de uma multa de US$ 4,5 milhões. Eles eram acusados de violação de direitos autorais pelo site, o mais importante do mundo no quesito troca de arquivos de áudio e de vídeo, a maioria protegidos por direitos autorais.

Os quatro ainda têm direito a recorrer da sentença de primeira instância, mas já declararam que não pagarão a multa. “Mesmo que eu tivesse dinheiro, eu preferiria queimar tudo o que tenho e não lhes daria nem as cinzas”, disse Sunde, que classificou a sentença de “bizarra”. Eles se defendem argumentando que os servidores do site não guardam sequer um arquivo protegido por copyright, apenas os torrents que ajudam os usuários a encontrá-los pela Internet.

Os representantes da indústria fonográfica comemoraram o resultado, como um exemplo para desencorajar a pirataria, uma guerra cada vez mais inglória, que começou com o processo que soterrou o Napster -o primeiro de todos os compartilhadores de arquivos- em 2001. A queda nas vendas de CDs caem abruptamente desde então, abrindo espaço para lojas virtuais, cuja mais famosa é o iTunes, da Apple, e para a pirataria de CDs nos camelôs. Nesse cenário, quem está se tornando obsoletas são as gravadoras e as grandes distribuidoras de discos (isso sem falar das lojas físicas).

Rickard Falkvinge, líder do Piratpartiet, partido político sueco que é contra o copyright, classificou o julgamento como político, e não criminal. “Os eventos de hoje fazem do compartilhamento de arquivos uma questão política quente e nós vamos levar isso ao Parlamento Europeu”, prometeu.

Não estou colocando em questão que produtores de conteúdo de qualquer natureza deixem de ser remunerados: eu mesmo sou produtor de conteúdo e tenho que garantir o leitinho das crianças. O que vem acontecendo -primeiramente com a indústria de entretenimento e mais recentemente com a mídia- é que modelos de negócios consagrado estão morrendo. Está claro que, quanto mais os detentores desses direitos apertam os “piratas” (na verdade, seus consumidores), mais seu controle da situação se esfarela por entre seus dedos.

É o fim dos direitos autorais então? Produzir conteúdo só poderá ser algo feito como hobby? Claro que não! Mas temos que ter coragem de olhar para uma nova realidade, sairmos de nossa zona de conforto e descobrir como nos reposicionarmos, pois os novos modelos já estão por aí.

Só para ficar na indústria do entretenimento, que motivou a prisão da turma do The Pirate Bay, quem já descobriu um modelo alternativo e está se dando muito bem com ele são as bandas do chamado “tecnobrega”, cujo maior expoente é a Calypso. A banda paraense, originária de uma região de alto índice de pirataria, produz e vende diretamente seus CDs a preços popularíssimos, eliminando assim a pirataria de seus álbuns quase completamente. Afinal, por que comprar um CD pirata se o original custa o mesmo? Com seus CDs assolando o mercado, a banda arrasta multidões ensandecidas que lotam seus shows no Brasil inteiro.

Como dizem na música “Chama Guerreira”, “o que eu mais quero dessa vida é ver meu povo feliz cantar”. Eles estão no caminho certo: um caminho mais perto do The PIrate Bay que das grandes gravadoras.