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Ian Wilmut, biólogo do Instituto Roslin (Escócia), e a ovelha Dolly, primeiro clone bem-sucedido de um mamífero - Foto: divulgação

Corrida pela inteligência artificial não pode driblar leis ou ética

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Diante do acalorado debate em torno do “PL das Fake News”, muita gente nem percebeu que outro projeto de lei, possivelmente tão importante quanto, foi apresentado no dia 3 pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG): o PL 2338/23, que propõe a regulação da inteligência artificial. Resta saber se uma lei conseguirá conter abusos dessa corrida tecnológica ou sucumbirá à pressão das empresas, como tem acontecido no combate às fake news.

Talvez um caminho melhor seria submeter o desenvolvimento da IA aos limites da ética, mas, para isso, os envolvidos precisariam guiar-se por ela. Nesse sentido, outro acontecimento da semana passada foi emblemático: a saída do Google de Geoffrey Hinton, conhecido como o “padrinho da IA”. Ele disse que fez isso para poder falar criticamente sobre os caminhos que essa tecnologia está tomando e a disputa sem limites que Google, Microsoft e outras companhias estão travando, o que poderia, segundo ele, criar algo realmente perigoso.

Em entrevista ao The New York Times, o pioneiro da IA chegou a dizer que se arrepende de ter contribuído para esse avanço. “Quando você vê algo que é tecnicamente atraente, você vai em frente e faz”, justificando seu papel nessas pesquisas. Hoje ele percebe que essa visão pode ser um tanto inconsequente.

Mas quantos cientistas e principalmente homens de negócios da “big techs” também têm essa consciência?


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Isso me lembrou do início da minha carreira, como repórter de ciência, quando o mundo foi sacudido, em fevereiro de 1997, pelo anúncio da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado com sucesso. Apesar de sua origem incomum, ela viveu uma vida normal por seis anos, tendo até dado à luz seis filhotes. Depois dela, outros mamíferos foram clonados, como porcos, veados, cavalos, touros e até macacos.

Não demorou para que fosse levantada a questão se seria possível clonar seres humanos. Ela rendeu até a novela global “O Clone”, de Glória Perez, em 2001. Em 2007, Ian Wilmut, biólogo do Instituto Roslin (Escócia) que liderou a equipe que criou Dolly, chegou a dizer que a técnica usada com ela talvez nunca fosse eficiente para uso em humanos.

Muitas teorias da conspiração sugerem que clones humanos chegaram a ser criados, mas nunca revelados. Isso estaria em linha com a ideia de Hinton da execução pelo prazer do desafio técnico.

Ainda que tenha se materializado, a pesquisa de clones humanos não foi para frente. E o que impediu não foi qualquer legislação: foi a ética! A sociedade simplesmente não aceitava aquilo.

“A ética da inteligência artificial tem que funcionar mais ou menos como a da biologia, tem que ter uma trava”, afirma Lucia Santaella, professora-titular da PUC-SP. “Se não os filmes de ficção científica vão acabar se realizando.”

 

A verdade irrelevante

Outro ponto destacado por Hinton que me chamou a atenção é sua preocupação com que a inteligência artificial passe a produzir conteúdos tão críveis, que as pessoas não sejam mais capazes de distinguir entre o que é real e o que é falso.

Ela é legítima! Já em 2016, o Dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como sua “palavra do ano”. Muito antes da IA generativa e quando as fake news ainda engatinhavam, esse verbete da renomada publicação alertava para “circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”. De lá para cá, isso se intensificou exponencialmente: as pessoas acreditam naquilo que lhes for mais conveniente e confortável. As redes sociais levaram isso às raias da loucura e a IA generativa pode complicar ainda mais esse quadro.

“Não é que a verdade não exista: é que a verdade não mais importa”, acrescenta Santaella. “Esse é o grande problema!”

Ter ferramentas como essas abre incríveis possibilidades, mas também exige um uso responsável e consciente, que muitos não têm. Seu uso descuidado e malicioso pode ofuscar os benefícios da inteligência artificial, transformando-a em um mecanismo nefasto de controle e de desinformação, a exemplo do que foi feito com as redes sociais. E vejam como isso está destruindo a sociedade!

Se nenhum limite for imposto, as empresas desenvolvedoras da IA farão o mesmo que fizeram com as redes sociais. É uma corrida em que ninguém quer ficar para trás, pois o vencedor dominará o mundo! Para tornar a situação mais dramática, não se trata apenas de uma disputa entre companhias, mas entre nações. Ou alguém acha que a China está parada diante disso tudo?

Eu jamais serei contra o desenvolvimento de novas tecnologias. Vejo a inteligência artificial como uma ferramenta fabulosa, que pode trazer benefícios imensos. Da mesma forma, sou um entusiasta do meio digital, incluindo nele as redes sociais.

Ainda assim, não podemos viver um vale-tudo em nenhuma delas, seja clonagem, IA ou plataformas digitais. Apesar das críticas ao “PL das Fake News” criadas e popularizadas pela desinformação política e resistência feroz das “big techs” (as verdadeiras prejudicadas pela proposta), ele oferece uma visão equilibrada de como usar bem as redes sociais. Mas para isso, essas empresas precisam se empenhar muito mais, inclusive agindo de forma ética com o negócio que elas mesmas criaram.

Não percamos o foco no que nos torna humanos, nem a capacidade de distinguir verdade de mentira. Só assim continuaremos evoluindo como sociedade e desenvolveremos novas e incríveis tecnologias.

Nesse sentido, o antigo lema do Google era ótimo: “don’t be evil” (“não seja mal”). Mas em 2015, a Alphabet, conglomerado que incorporou o Google, trocou o mote por “faça a coisa certa”, bem mais genérico.

Bem, a coisa certa é justamente não ser mal.

 

Cena do filme “Eu, Robô” (2004), baseado na obra de Isaac Asimov, em que as máquinas seguem as “Leis da Robótica”

ChatGPT põe fogo no debate sobre regulamentação da inteligência artificial

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O sucesso explosivo do ChatGPT deu novos contornos à discussão se a inteligência artificial deve ser, de alguma forma, regulada. Com 100 milhões de usuários em apenas dois meses, a plataforma da OpenAI tornou-se o produto com adesão mais rápida da história. Sua capacidade de gerar textos convincentes sobre qualquer assunto a partir de comandos simples colocou, em polos opostos, especialistas com fortes argumentos favoráveis e contrários ao controle dessa tecnologia.

De um lado, a turma que defende a regulação aponta que tanto poder computacional poderia causar severos danos ao tomar decisões potencialmente erradas em áreas sensíveis e diversas, como a saúde, a segurança pública ou até na condução de carros autônomos. Do outro, há os que argumentam que leis assim, além de que seriam difíceis de definir e aplicar, inibiriam o desenvolvimento de uma tecnologia que pode levar os humanos a um novo patamar de produtividade. Afirmam ainda que se penalizaria os sistemas, ao invés de criminosos que fizessem maus usos deles.

O fato é que criar um regulamento para uma tecnologia tão inovadora, abrangente e poderosa quanto a inteligência artificial é mesmo um desafio. Ela se desenvolve em uma velocidade estonteante e fica difícil imaginar como qualquer legislação pode acompanhar esse ritmo e o que representaria em um futuro breve.


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O Senado já se debruçou sobre o tema. Entre março e dezembro de 2022, uma comissão de 18 juristas debateu o assunto com membros da academia, da sociedade civil e de empresas. Ao final, elaborou uma proposta com 45 artigos e um relatório com mais de 900 páginas, que sugere restrições ao uso de reconhecimento facial indiscriminado por câmeras e a proibição de um “ranqueamento social” com base nas ações de cada pessoa, como acontece na China. Indica ainda que fornecedores ou operadores de sistemas de “alto risco” respondam por eventuais danos que causem.

Foram analisadas legislações aprovadas entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A União Europeia pretende chegar a um consenso de projeto regulador até março. Nos Estados Unidos, um comitê consultivo, criado em abril de 2022, espera apresentar uma lei nesse ano.

Mas vale dizer que tudo isso aconteceu antes do lançamento do ChatGPT, no dia 30 de novembro. E ele jogou por terra o que se sabia sobre IA para as massas. “Quando a gente fala em inteligência artificial, um dos grandes pontos sempre é como conseguir dar transparência, sem você violar a propriedade industrial ou intelectual”, explica Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Esse é um dos problemas das “inteligências artificias generativas”, como o ChatGPT. Elas produzem coisas incríveis, mas não contam de onde vieram as informações de que “aprenderam” cada tema. Também não fica claro o que acontece “debaixo do capô”, os mecanismos que lhes permitiram chegar a suas conclusões. Para Crespo, “ao invés de simplesmente dizer ‘regular’, deve ser ‘regular pensando no quê’”

Já Paulo de Oliveira Júnior, consultor de inovação e desenvolvimento do Machado Meyer Advogados, afirma que a regulamentação é essencial. “É importante para que a gente possa garantir que a tecnologia não venha a causar nenhum dano para a sociedade, seja ela no campo social, econômico ou político”, explica, concluindo que “é importante que se tenha mais previsibilidade, à medida que a tecnologia vai fazendo parte do nosso dia a dia.”

 

Prós e contras

Além dos motivos já citados, os defensores de uma regulamentação argumentam que ela é necessária para se ter uma garantia mínima de proteção aos dados pessoais usados pelas diferentes aplicações da inteligência artificial. Afinal, se as redes sociais já abusam de nossas informações para fazer dinheiro, com a inteligência artificial, isso ficaria ainda mais difícil de se compreender e controlar.

A legislação também seria necessária para minimizar um problema que vem incomodando em diferentes usos da IA há muitos anos: sistemas que desenvolvem vieses. Isso pode acontecer pelas informações que consome, ao incorporar preconceitos dos desenvolvedores e até aprendendo dos próprios usuários.

Curiosamente um dos argumentos daqueles que são contrários a uma regulação é que as plataformas não poderiam ser responsabilizadas por esse mau uso, e que as pessoas é que deveriam ser controladas e até punidas. Eles também afirmam que esse controle seria falho, pois suas definições seriam imprecisas, criando confusão ao invés de ajudar o mercado.

Esse é um ponto a se considerar. Diversos países do mundo, inclusive o Brasil, estão há uma década tentando regular as redes sociais, sem sucesso. Nós mesmos estamos passando por uma bem-vinda discussão sobre como minimizar os efeitos nocivos das fake news, mas ela falha no ponto essencial de definir o que é desinformação de maneira inequívoca. E isso pode, não apenas impedir os efeitos desejados, como ainda criar um mecanismo de censura.

De forma alguma, isso significa que uma regulamentação não deva ser avaliada. É exatamente o contrário: precisamos de muito debate, incluindo todos os diferentes atores da sociedade envolvidos, para que uma lei não seja criada de maneira enviesada ou incompleta. Isso, sim, seria péssimo!

Especialmente em um país como o Brasil, em que o tecido social foi esgarçado nos últimos anos pelo mau uso de plataformas digitais e onde a violência lidera as preocupações dos cidadãos, é fácil defender um discurso de “vigilantismo”. Não é disso que precisamos!

“A gente vai ter que caminhar para uma regulamentação mais abrangente, que garanta os preceitos éticos e seguros, e cada setor da economia vai ter que fazer sua regulamentação específica”, sugere Oliveira. Já Crespo traz a ideia de que cada produto de IA a ser lançado passe por uma espécie de “relatório de impacto”. “Ele incluiria o que é, quais os principais benefícios e quais os possíveis riscos embarcados, trazendo uma previsibilidade”, explica.

Talvez o melhor caminho seja algo assim mesmo. E a “lei geral da inteligência artificial” poderia ser as Leis da Robótica, propostas pelo escritor Isaac Asimov, em 1942. São elas: “um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal”, “um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei” e “um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.” Mais tarde, ele acrescentou a “Lei Zero”: “um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.”

Se conseguíssemos garantir que todas as plataformas de inteligência artificial cumprissem essas quatro diretrizes, já seria um bom começo!

 

Onde está a verdade e por que precisamos dela

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De tempos em tempos, uma pergunta me atormenta: por que parte da população se posiciona contra a imprensa, se ela é o melhor recurso que essas pessoas têm para se proteger de todo tipo de abuso dos mais diversos grupos de poder?

Como democrata, como pesquisador e como alguém que observa a atuação da imprensa em países de diferentes culturas, esse comportamento ainda me choca, mas há muito já não me surpreende. É relativamente simples de ser explicado e está intimamente ligado ao que é a verdade. Mas essa não é uma discussão acadêmica ou uma conversa que interesse apenas a jornalistas. Se não soubermos o que é a verdade e onde a encontrar, estamos condenados a uma vida miserável e cada vez mais servil.

Acontece que a verdade incomoda e é contrária aos interesses de quem precisa enganar para atingir seus objetivos. Por isso, os agressores da imprensa normalmente apoiam, de maneira consciente ou não, quem está “sentado no trono” no momento. Não é um fenômeno novo, mas acontece sempre e de maneira tão mais forte quanto mais autoritário for o governante.


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Há um versículo bíblico que vem sendo distorcido e usurpado à exaustão nos últimos tempos por esses governantes: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Oras, mas, afinal, o que é a verdade?

Ela não aparece facilmente. Precisa ser escavada e, em muitas ocasiões, só é encontrada ao se confrontar pontos de vista conflitantes sobre um mesmo assunto. Assim, a verdade surge das diferenças e, por isso, raramente está nas redes sociais. Afinal, seus algoritmos escondem de todos nós os pensamentos divergentes e reforçam os preconceitos.

É por isso que a imprensa se torna alvo desses grupos. Não estou aqui para fazer uma defesa inconsequente dela ou sugerir que seja perfeita: não é e nem tem a pretensão de ser. Entretanto, ao “ousar” ouvir os diferentes lados de um fato, o jornalismo pelo menos se aproxima do que está acontecendo no mundo, por mais incômodo que isso seja –e normalmente é para alguém.

Resgatando o versículo acima, a referida verdade que liberta implica na necessidade de vivermos conscientes do que nos cerca e da libertação que somente o conhecimento disso pode trazer. Não é de se admirar, portanto, que o Papa Francisco seja um defensor do jornalismo.

 

“Vem e verás”

No último dia 23, por conta da Jornada Mundial das Comunicações Sociais, que acontecerá no dia 16 de maio, o sumo pontífice publicou uma mensagem destacando a importância da imprensa na busca pela verdade. Mas afirmou que, para isso, os jornalistas precisam sair à rua, encontrar as pessoas, “gastar sola de sapato” (em suas palavras).

Para Francisco (e ele está certo), não se faz bom jornalismo apenas diante de uma tela: a verdade vem com a reportagem no local dos fatos. Segundo ele, “seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade”. Portanto, bom jornalismo dá trabalho e só acontece quando seu compromisso é com o público!

Pode-se argumentar que veículos de comunicação pertencem a empresas, e elas, como qualquer outra, têm seus interesses, inclusive econômicos. Mas uma empresa de comunicação, mesmo longe de ser uma entidade imaculada, não é uma empresa comum: a verdade é sua matéria-prima e a reputação é o seu maior ativo, que só existe se lhe for concedida pelo seu público. Sem reputação, um veículo deixa de existir.

Seguindo nesse raciocínio, há alguns dias, revi o ótimo filme “The Post: A Guerra Secreta” (2017). Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Meryl Streep e Tom Hanks, conta (com riqueza de detalhes) a história real do escândalo dos “Pentagon Papers”, documentos ultrassecretos vazados do Pentágono em 1971 e que demonstravam que o governo mentia descaradamente há anos aos americanos sobre a Guerra do Vietnã.

Os documentos geraram reportagens no New York Times e no Washington Post, que enfureceram o presidente americano da época, o republicano Richard Nixon. O mandatário tentou ao máximo desacreditar e intimidar os jornalistas. Até mesmo quis impedir, na Justiça, a continuidade das reportagens que diminuiriam a popularidade de um presidente que brilhava, mas que era sujo. Os jornais venceram na Suprema Corte, irritando ainda mais Nixon. No ano seguinte, o mesmo Washington Post publicou reportagens que deflagaram o escândalo de Watergate, que levaria à renúncia de Nixon dois anos depois.

 

O trabalho é continuar

Todo governo, mesmo o mais democrático, adoraria ter uma imprensa dócil. Mas, nesse caso, não seria jornalismo: seria propaganda!

A imprensa tem que fiscalizar o governo, qualquer governo! Consequentemente, quanto mais autoritário for o mandatário, mais ele tenta calar, desacreditar e, se possível, destruir a imprensa. Por isso, se um veículo é muito atacado por um governo, deve estar fazendo bom jornalismo. Essa é uma métrica que funciona!

No julgamento do caso dos “Pentagon Papers”, o juiz Hugo Black disse: “Os Pais Fundadores deram à imprensa livre a proteção que ela deve ter para cumprir seu papel essencial em nossa democracia. A imprensa deveria servir aos governados, não aos governantes.”

A Justiça deve, portanto, garantir essa proteção, ao contrário do que temos visto frequentemente no Brasil, com incontáveis casos de censura judicial. A imprensa, por sua vez, deve necessariamente defender os interesses da sociedade, não os dos grupos do poder e muito menos os seus, como empresas.

Katharine Graham, então dona do Washington Post, interpretada por Meryl Streep no filme, arriscou ir para a cadeia e ver seu jornal fechado ao confrontar Nixon. Ainda assim, fez o que era certo. E, após sua vitória, sacramentou: “Nem sempre acertamos. Nem sempre é perfeito. Mas acho que, se apenas continuarmos, esse é o trabalho”.

Quantos teriam a coragem de fazer o certo com a faca de um presidente no seu pescoço, como ela fez?

A imprensa erra de vez em quando. Mas precisamos aprender a tolerar os erros que fazem parte do processo de construção da verdade. O que é inadmissível são mentiras deliberadas, venham de quem vier.

O fato é que a democracia vem sendo atacada em várias partes do mundo por aqueles que a juraram defender. A bizarra invasão do Congresso americano, no dia 6 de janeiro, incentivado pelo então ainda presidente Donald Trump, só fracassou porque as instituições republicanas e os militares dos EUA funcionam e não abrem mão da democracia, mesmo diante da pressão do presidente. E o mesmo pode ser dito da maioria dos órgãos de comunicação do país, que promovem a verdade.

Na mensagem do dia 23, o Papa Francisco disse ainda que “o próprio jornalismo, como exposição da realidade, requer a capacidade de ir aonde mais ninguém vai: mover-se com desejo de ver, uma curiosidade, uma abertura, uma paixão.” E, de fato, é preciso paixão pela verdade no jornalismo.

Em um famoso discurso em 1996, o jornalista e Nobel de Literatura Gabriel García Márquez concluiu que “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir em uma profissão tão incompreensível e voraz, cujo trabalho termina a cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não garante um momento de paz até que recomece com mais ardor que nunca no minuto seguinte.”

Portanto, a única maneira de escaparmos desse poço de areia movediça política e moral no qual já afundamos como sociedade até o pescoço é acreditando na verdade e em quem a busca. E ela não vem de quem precisa ficar fazendo bravatas o tempo todo para se reafirmar.

Cada um acredita no que quiser! Isso não quer dizer que existam incontáveis verdades para cada indivíduo chamar de sua. A nossa sobrevivência como uma sociedade organizada depende de identificar e apoiar aqueles que pelo menos tentam buscá-la, lutando pelos interesses públicos. Os demais –políticos, empresas, instituições preocupadas apenas com suas necessidades– devem ser varridos para o mais obscuro rodapé da história.

Do contrário, em breve estaremos nas ruas fazendo justiça com nossas próprias mãos. Armadas!

A boa imprensa tem lado, opinião e age com responsabilidade

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Em uma semana com tantas notícias bombásticas que levaram à esperada vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, um acontecimento pode ter passado despercebido da maioria das pessoas. Na noite de quinta-feira, as três principais redes da TV aberta americana –ABC, CBS e NBC– e plataformas online de vários jornais do país literalmente cortaram no meio a fala ao vivo de Donald Trump. O motivo: para variar, ele estava despejando suas mentiras alucinadas. Dessa vez, atacava o sistema eleitoral americano pelo simples fato que sua derrota nas urnas era iminente.

Na hora, duas perguntas me vieram à cabeça.

A primeira é por que os veículos de imprensa nunca fizeram isso antes? Afinal, Trump é o “profeta do apocalipse das fake news” desde muito antes de ser presidente. E a imprensa sempre deu palco para esse maluco!

A segunda é: a imprensa pode fazer isso? Afinal, mesmo com Biden eleito, Trump ainda é o presidente, até que seu oponente vitorioso assuma o cargo, o que acontecerá apenas no dia 20 de janeiro.


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Em um primeiro momento, isso pode parecer só um dilema ético para jornalistas. Mas não é!

Todos nós, e não apenas os jornalistas, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual estamos esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Portanto, respondemos pelo que dizemos. Mais que isso: o que dizemos tem impacto real em quem está a nossa volta e, por extensão, na sociedade. Dessa forma, entender o papel e o poder da imprensa nos ajuda a entender o nosso.

Mesmo em tempos de domínio do Facebook e afins, a imprensa ocupa um papel de destaque nisso. Dessa forma, o jornalismo sério busca ser imparcial.

Mas, se é assim, as três grandes emissoras de TV americanas agiram certo ao cortar Trump? Isso seria censura?

A NBC, por exemplo, interrompeu a transmissão de Trump, e seu âncora Brian Williams disse “estamos aqui novamente na posição incomum de não só interromper o presidente dos Estados Unidos, mas também de corrigir o presidente dos Estados Unidos”.

E é exatamente isso que aconteceu!

Trump e todas suas cópias mal ajambradas pelo mundo, inclusive no Brasil, costumam bater no que chamam de “grande mídia”, dizendo que ela os censura, “calam o povo”, e que a verdade só existe nas redes sociais. Isso serve para usarem essas plataformas para mentir descaradamente sobre tudo, o tempo todo, para, assim, se manter no poder. E as pessoas que querem acreditar nisso, por qualquer motivo (além de um exército de robôs), legitimam seus crimes.

Ainda assim, se estamos em uma democracia, cortar Trump não é desrespeitar quem votou nele?

Essa é uma pergunta legítima. E eu a respondo com outra pergunta: o que você teria feito ao ver que o presidente da República estava usando você para espalhar mentiras perigosíssimas e ódio para a população, colocando em risco a própria sociedade?

 

O que é verdade?

Nesse ponto, podemos até mesmo questionar o que é a verdade. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse que “não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”

Realmente elas são raras! Estão, por exemplo, em leis da ciência. Mas, para chegar a ser lei, uma teoria científica tem um longo caminho a percorrer.

Em muitos casos, a “verdade” pode ser um ponto de vista, e ainda assim ser apresentada como incontestável, mesmo de boa-fé.

O jornalismo encontrou, há muitos anos, uma maneira de minimizar esse problema, definindo que os profissionais devem ouvir o máximo de lados possível sobre um assunto. A verdade possivelmente será a média de todos eles.

A imprensa sempre foi o gatekeeper, aquele que decide o que deve e o que não deve ser visto, com o poder e o dever de não apenas informar, mas também de formar o cidadão. Isso é um poder gigantesco, que só pode ser exercido com grande responsabilidade.

Com a ascensão das redes sociais, esse poder se diluiu. Portanto a pergunta anterior, sobre o que todos nós devemos fazer diante de uma mentira, é justa.

Devemos escolher muito bem o que publicamos na “pequena mídia” que somos. Como temos observado nos últimos anos, em que todos se tornaram mídia graças às redes sociais, a disseminação de notícias falsas e de ódio tem um amplo poder destrutivo. Ecoar essas ideias irrestritamente, ainda que em nome de democraticamente dar voz a todos, é uma falácia, com consequências potencialmente desastrosas. Temos que entender, portanto, que isenção e independência não podem ser confundidas com irresponsabilidade ou deslumbramento sobre o que se publica, mesmo se quem tenha dito a barbaridade seja um presidente da República democraticamente eleito.

Todos merecem e devem ser ouvidos, desde que não estejam cometendo crimes ou deliberadamente mentindo para atingir seus objetivos. Como disse o cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

 

Escolha responsável de lado

Ter um lado não significa não ouvir o outro, calar ou censurar. Ter um lado significa defender um ponto de vista dando também bom espaço a quem pensa de maneira diferente, desde que todos os lados sejam legítimos. Afinal crescemos ao sermos confrontados com a diferença. Quem tenta calar a diferença, quem trata o opositor como um inimigo que deve, se possível, ser destruído não é legítimo, pois faz de tudo para tornar quem está a sua volta menor, para se manter no topo com a sua própria pequenez.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos definir o que é legítimo: é o que defende valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Em sua fala de quinta (e em incontáveis outras), Trump feriu isso. Logo, os veículos de comunicação acertaram ao interromper o que dizia para restaurar os fatos. Escolheram um lado e agiram com responsabilidade.

Deveriam ter feito isso desde quando ele ainda era um pré-candidato à presidência dos EUA. Talvez nunca teria sido eleito, o que causou um dano gigantesco ao mundo todo, pela influência do cargo que ocupou por quatro anos. Em nome da democracia, deram espaço a suas ideias alopradas, talvez por que não achassem que aquele bufão pudesse ganhar qualquer coisa.

Mas ele ganhou! Até porque essa exposição permitiu que suas ideias ressoassem em grande parte da população, que “caíram no canto da sereia” e se viram representadas por ele.

Agora Donald Trump é o que os americanos chamam de “pato manco”: o presidente no período entre o resultado da eleição e a posse de seu sucessor. Ele ainda pode causar enormes danos aos Estados Unidos e ao mundo nesses dois meses e meio. Ficar dando palco a suas mentiras só permitirá que ele faça algo ainda pior.

A imprensa e todos nós devemos evitar isso!

Você pode dizer: “mas eu nem falo da eleição americana!” Correto! Ela foi apenas um gancho para esse debate.

O mesmo raciocínio se aplica ao cotidiano de cada um de nós. Não há nada de errado em escolhermos algo para defender. Muito pelo contrário! Mas devemos também dar espaço a ideias diferentes. Devemos acolhê-las, e não as silenciar! Caso contrário, usaremos esse grande poder que todos temos para nos tornarmos pessoas menores e também piorar a sociedade.

Isso ninguém quer. Precisamos escolher um lado, respeitar o outro e agir com responsabilidade.

 

Me engana, que eu gosto!

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Será que chegamos em um ponto em que o fim justifica os meios, qualquer meio? Vivemos em um mundo de aparências em que só se consegue vender algo “dourando a pílula” além do limite da responsabilidade?

Felizmente a resposta é não. Mas, se você, como eu, acredita ser possível vencer falando a verdade e fazendo o bem, precisa entender os mecanismos desse novo mundo, para não ser soterrado por ele.

Existe um ditado que diz que “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Isso talvez servisse na Roma Antiga. Na atualidade, esse conceito se transformou em outra coisa.

Agora, para muita gente, não é preciso ser honesto: basta parecer honesto. E as redes sociais depois legitimam qualquer pecado. O problema é que, com isso, estamos perdendo a capacidade de diferenciar verdade de ficção, ou simplesmente da mais deslavada mentira.


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Estou terminando de assistir à segunda temporada da série “The Boys”. Apesar de ser uma história de ficção, com pessoas comuns enfrentando seres superpoderosos, ela embute uma feroz crítica ao mundo real.

A princípio, seu roteiro se baseia em uma paródia de super-heróis da DC: eles têm suas versões do Super-Homem, do Batman, da Mulher Maravilha, do Flash, do Aquaman e muitos outros. Mas o que seria a Liga da Justiça, nesse universo é representado por uma empresa, chamada Vought, que agencia os tais personagens para faturar bilhões de dólares com a exploração de sua imagem. E os “supers”, de heróis, não têm nada: são indivíduos de fato incrivelmente poderosos, mas egoístas, extremamente violentos e narcisistas.

A opinião pública continua, entretanto, vendo esses personagens como maravilhosos, graças a uma cuidadosa estratégia de marketing, ações judiciais intimidatórias e um uso eficientíssimo das redes sociais.

E aí a coisa começa a se parecer a nossa realidade.

Hoje podemos vender qualquer coisa a qualquer um. É só apresentar isso do jeito que as pessoas desejam.

O pacote chega a ser mais importante que o produto!

Não por acaso, “pós-verdade” foi escolhida como a palavra do ano de 2016 pelo Dicionário Oxford. Pela sua definição, o termo é “relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”. Em outras palavras, as pessoas hoje acreditam muito mais em uma historinha bem contada, que as emocione por reforçar o que elas acreditam ou desejam.

Os superseres de “The Boys” são muito mais supervilões que super-heróis. Entretanto, graças à construção cuidadosa de sua imagem, a população os vê como seus benfeitores e protetores.

Já percebe semelhanças com o nosso mundo atual?

O ódio vende mais que o amor?

A série também se apropria de outra profunda mudança cultural do nosso mundo, que é a manipulação do ódio das pessoas para se atingir objetivos individuais.

Na sua primeira temporada, observa-se como a Vought investe milhões de dólares para fazer com que a população ame seu produto, ou seja, seus heróis. É uma estratégia de massificação da idolatria para se vender todo tipo de coisa, de filmes no cinema a copos dos personagens.

Ou seja, o bom e velho marketing, mais velho que bom.

Na segunda temporada, uma nova superser aparece, muito mais “antenada” com a sociedade. Ela percebe que não é mais possível conquistar toda um povo, e que obter o amor e a admiração das massas é cada vez mais difícil e pouco produtivo. Ao invés disso, descobre que é muito mais eficiente manipular o ódio de uma parcela menor da sociedade.

Como ela explica, é muito melhor ter soldados que fãs, que cinco milhões de pessoas com raiva são mais eficientes para vender qualquer coisa que cinquenta milhões que amam. Ela entendeu que não vivemos mais no mundo da cultura de massas, e sim da “viralização”.

Percebe alguma relação com a nossa realidade?

Trazendo para um produto real, que é consumido anualmente por milhões de pessoas, temos o Big Brother. Quando o programa estreou, há 20 anos, ele era dramaticamente diferente do que é hoje. Existia uma inocência quase pueril dos participantes das primeiras edições. Ela contrasta com movimentos friamente calculados dos atuais personagens. Sim, porque o que os competidores das edições mais recentes mostram, na “casa mais vigiada do Brasil”, não é o que eles realmente são, e sim imagens construídas para manipular o público.

Aliás, um dos critérios mais importantes para a Globo selecionar quem entra na casa nos últimos anos é justamente a capacidade que o jogador tem de trabalhar seu público nas redes sociais. Isso ficou escancarado na edição desse ano.

Eu me pergunto até quando essa manipulação pela pós-verdade é sustentável.

Difícil dizer.

Por um lado, as pessoas dão sinal de que estão cansadas dessas “formulinhas de lançamento”, que ficam “empurrando qualquer porcaria” sempre do mesmo jeito. Esse modelo começa a dar sinais de desgaste. Mas normalmente quem usa essas fórmulas são amadores, pessoas que têm um produto (na melhor das hipóteses) mediano e capacidade de comunicação limitada.

Aqueles que realmente dominam a capacidade de “viralização” de suas ideias e produtos estão muito à frente disso. Esses não param de crescer, o que demonstra que seu formato continua entregando o que as pessoas desejam ouvir, ressoando na parte mais primitiva de seus cérebros, aquela que cuida, por exemplo, de sua autopreservação. E isso não apresenta nenhuma indicação de enfraquecimento.

A única exigência é o “produto” conseguir sustentar sua imagem e suas ideias, porque, quando “a máscara cai”, o prejuízo é devastador e normalmente não tem volta. Então é preciso manter, o tempo todo, seus “soldados” aquecidos. É necessário estar em constante estado de alerta para manter o personagem vivo e seus ideais ativos junto ao seu público.

Pessoas de bem

Mas o que fazer se você não é nada disso, se você não topa fazer esse jogo sujo, se você quer vencer na vida dizendo apenas a verdade?

A narrativa das redes e seus algoritmos de relevância parecem invencíveis e inevitáveis, por isso são tão sedutores. O grande desafio de profissionais e de empresas que querem vencer sem usar esses métodos sórdidos é encontrar o seu caminho nessa realidade, para usar esses recursos para atender seu público.

Em primeiro lugar, é preciso ser honesto consigo mesmo. Ter apenas um produto incrível pode não ser mais suficiente para se ter sucesso: é preciso que esse produto atenda a necessidades de seus clientes.

Você conhece mesmo seus clientes, sabe quais são seus desejos e seus medos?

As mesmas redes sociais podem ajudar incrivelmente no processo de descoberta disso. E estou aqui falando de usos éticos e legais dessas plataformas.

Com essa informação, podemos saber onde as pessoas colocam valor no que fazemos: pode ser surpreendente descobrir que é em algo que nunca havíamos pensado. Com isso, podemos atualizar o nosso produto e criar comunicações mais eficientes.

Não estou dizendo para “abraçar o diabo”, e sim para aprender a jogar o jogo!

Não espere que as pessoas comprem de você apenas pelos seus lindos olhos. Isso não vai acontecer!

Você pode ter um produto incrível e morrer na praia com ele! Não cometa esse erro! Conquiste pela sinceridade e pela qualidade, mas também por uma entrega alinhada a seus clientes e uma comunicação eficiente. Então pare de olhar tanto para si mesmo, e comece a olhar para quem realmente importa, que é o seu público.

Você consegue fazer isso?

O digital lhe tornará um gênio ou uma besta: você decide

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A tecnologia está literalmente nos transformando, de maneiras que a maioria das pessoas sequer imagina! Mas nos converte em que: gênios ou bestas?

Incrivelmente, a decisão está em nossas mãos!

Tenho acompanhado o crescimento de desconfiança em relação ao meio digital, especialmente às redes sociais. Sistemas que nos rastreiam e coletam nossos dados continuamente, algoritmos de relevância que nos empurram goela abaixo todo tipo de informação e nos manipulam, incontáveis notificações que nos mantêm continuamente engajados, fake news, deef fake, filtros bolha… Tudo isso existe mesmo e chega a ser assustador!

Entretanto, ninguém deixará de usar as redes sociais, buscadores, smartphones e outros recursos do mundo digital, mesmo sabendo que esses sistemas estão o tempo inteiro nos rastreando e coletando informações de todo tipo sobre nós.


Veja esse artigo em vídeo:


Não temos como colocar o gênio de volta na lâmpada!

Os meios digitais nos garantem altas doses de dopamina enquanto os usamos! Nossas vidas ficaram muto mais fáceis e divertidas com todos esses sistemas. Pagamos com o nosso tempo e a nossa atenção aos anunciantes dessas plataformas.

Mas o buraco é mais embaixo.

A superexposição aos recursos digitais está nos provocando alterações até mesmo do ponto de vista fisiológico.

Em 2011, a pesquisadora em psicologia Betsy Sparrow realizou um estudo na Universidade Columbia (EUA), que identificou alterações em nosso cérebro pelo uso do Google e de outros buscadores. Ela concluiu que, graças a ele, nós passamos a memorizar muito menos informação.

O Google não quis criar isso. Mas acabou promovendo a mudança.

Responda a si mesmo: de quantas pessoas você sabe o número de telefone de cor? Provavelmente muito poucas, possivelmente menos que dez! Mas se eu lhe fizesse essa pergunta há 15 anos, você provavelmente saberia o telefone de muita gente e até de empresas.

O que aconteceu? Estamos ficando mais burros?

Não é nada disso! Acontece que nosso cérebro tem uma plasticidade incrível! Informações ou habilidades que ficam menos importantes para nossa vida abrem espaço nele para novos recursos, que estamos efetivamente usando.

A pesquisa de Sparrow demonstra que toda a informação que sabemos que pode ser facilmente encontrada (por exemplo na Internet) é eliminada de nossa memória. Em compensação, melhoramos nossa capacidade de encontrar pessoas, objetos e informações com os recursos que tivermos a nossa disposição. Ou seja, refinamos uma habilidade importantíssima, a de encontrar o que procuramos, mas memorizamos menos coisas.

Essa conclusão é muito importante para ajustarmos como levamos nossas vidas e até como aprendemos coisas novas.

A diferença entre informação e conhecimento

Não é de hoje que observo como os alunos já chegam na sala de aula com uma quantidade incrível de dados, que eles encontram na rede.

Como professor, se eu ficasse simplesmente passando informação, como os professores costumavam fazer (e infelizmente muitos ainda fazem), seria um enorme desperdício de tempo! Muito melhor é ajudar os alunos a juntar as informações que todo o grupo traz para o debate e construir um conhecimento novo e útil a partir disso.

Podemos também pensar no varejo, como exemplo. Hoje, quando o cliente vai a uma loja para comprar algo, muito provavelmente já pesquisou sobre aquele produto na Internet e talvez tenha mais informação sobre ele que o próprio vendedor. Se ele tentar convencer o consumidor simplesmente passando esses mesos dados, corre o risco de perder a venda. Precisa trazer algo novo e contextualizado para aquele cliente! E aí a tecnologia pode ser de grande ajuda, pois ele pode receber, em tempo real, muitas informações valiosas sobre a pessoa que estiver a sua frente, para que ele mostre como o produto a ajudará a satisfazer suas necessidades específicas, e não coisas genéricas.

Isso é bom não apenas para o varejista (porque vai aumentar suas vendas), mas também para o consumidor, que levará para casa um produto que realmente atende suas expectativas, e não qualquer outra coisa, resultado de uma compra ruim.

Infelizmente nem todos estão dispostos a usar esses recursos, essa informação, essa transformação de maneira positiva. Muitos, possivelmente a maioria da população, entrará “no modo automático” e se deixará levar pelos infames algoritmos das plataformas digitais.

E aí é para se ter medo mesmo! Pois essas pessoas já se tornaram massa de manobra de grupos políticos, ideológicos e econômicos. Na prática, terceirizaram seu senso crítico, sua habilidade de pensar criativa e construtivamente.

Esse é um dos maiores desafios dessa geração, pois os sistemas dessas plataformas estão cada vez mais eficientes, para que elas se tornem mais sedutoras. Por outro lado, a turma que quer manipular a população para atingir os seus objetivos –muitas vezes condenáveis– domina mais e mais esses recursos.

Temos que recuperar as rédeas de nossa vida, ou esse poder de transformação do meio digital pode nos converter em bestas, quando poderia nos tornar gênios!

No momento, o lado ruim de toda essa entrega tecnológica está ganhando. Você não precisa ir longe para comprovar isso. Basta olhar, nas redes sociais que você usa, o nível das publicações.

É assustador como elas são rasas e de uma mesmice atroz! Parece que, qualquer que seja o assunto, acabamos tendo apenas algo como meia dúzia de opiniões, que são replicadas indefinidamente pela massa.

Somos seres pensantes, e não gado! Aliás, essa é uma das coisas que mais nos diferenciam de todos os outros animais.

Entretanto, bem em linha com as transformações promovidas em nós pelo meio digital, aquela visão medíocre da vida que se vê nos posts nas redes sociais já invadiu o cotidiano das pessoas. Tudo que é profundo, que exige mais pensamento, perde espaço para aquilo que é mais que simples: simplório! As pessoas querem coisas cada vez mais fáceis, mais básicas, mais rápidas, mais baratas, para um consumo desenfreado e descartável, com as mesmas características.

Vejo isso na evolução da pós-graduação, com o crescimento dos cursos de curtíssima duração, com poucas horas, e o encolhimento da procura por cursos com mais de um ano, como especializações e MBAs. Que dizer então de mestrados e doutorados?

Não há nada de errado em se aprender uma habilidade específica para aplicá-la imediatamente no seu cotidiano. Mas, se estamos sempre reclamando que nosso país e o mundo estão ruins, precisamos colocar mais de nós mesmos para mudar essa situação. Temos que sair da zona de conforto! Temos que desafiar o status quo!

Temos que usar os recursos digitais para nos tornarmos pessoas melhores, e não o contrário!

O discurso, o diálogo, as entregas estão muito empobrecidos! As pessoas estão perdendo a sua capacidade de pensar, de criar, de se libertar! Se isso continuar, teremos, em breve, um futuro distópico em que poucos grupos terão ainda mais controle sobre toda a população.

Temos que usar a tecnologia para nos livrar disso, e não para nos levar a isso.

Quais serão os seus próximos passos com ela?

Já é hora de sair das redes sociais?

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Chegamos a um ponto em que deveríamos sair das redes sociais? Na verdade, dá para fugir de sua influência e da sua manipulação?

Cada vez mais, eu ouço pessoas se dizendo preocupadas com a quantidade de informações que todas as redes sociais coletam de nós e a crescente capacidade que elas têm de nos manipular. Sim, todas elas coletam uma quantidade obscena de informações de todos seus usuários.

Com isso, têm o poder de nos manipular ou pelo menos induzir sobre o que devemos ler, comprar, quem devemos seguir e até quem pode ser nosso novo melhor amigo. E isso é um poder sem precedentes na história da humanidade.

Há alguns dias, assisti ao documentário “O Dilema das Redes”, que estreou na Netflix no dia 9. Ele escancara como as redes sociais coletam continuamente as nossas informações, nos manipulam e até, de certa forma, como nos viciam.


Veja esse artigo em vídeo:


Como diz no documentário o professor da Universidade de Yale Edward Tufte, “existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software”.

Para quem estuda o tema há anos, como eu, o filme não chega a trazer nenhuma grande novidade. Mas é interessante ver ex-executivos de gigantes do mundo digital contando claramente as ações mais sórdidas e condenáveis de seus antigos empregadores.

As redes fazem isso para ganhar dinheiro vendendo um dos commodities mais valiosos do mundo: a atenção das pessoas. Ou seja, empresas pagam para as plataformas digitais para que elas mostrem para nós produtos que tenhamos grande chance de comprar.

Portanto, nós não somos clientes das redes sociais; somos seu produto! Nós somos vendidos para os verdadeiros clientes, que são os anunciantes.

Isso é possível graças ao chamado “capitalismo de vigilância”, em que as empresas continuamente nos monitoram, coletando nossos dados, observando nossas ações, nossas conversas. Esse oceano de dados e a inteligência artificial de seus algoritmos lhes permitem antecipar tendências, prever comportamentos, descobrir nossos desejos e medos. Daí, para nos vender qualquer coisa, é só escolher no portfólio quase infinito de ofertas de anunciantes aquela que mais nos satisfaz.

Para isso, as redes devem nos manter continuamente “engajados”, para usar um termo popularizado por essas plataformas. Além disso, é interessante que sejamos afastados de pessoas que pensem de maneira diferente de nós, para reforçar nossas crenças, o que facilita as vendas.

Isso parece muito maquiavélico para você? E é mesmo!

Então por que aceitamos isso?

Porque nos causa prazer!

Viciados nas redes?

Temos necessidades biológicas ligadas a socialização. Precisamos conhecer e conversar com pessoas, e obter aprovação delas.

As redes nos oferecem isso em grande quantidade, ainda que superficialmente, o que libera dopamina em nosso cérebro. Ou seja, não somos viciados nas redes sociais, mas na dopamina que ela nos dá.

O filme mostra que isso acontece até com aquelas pessoas que dizem usar as redes sociais todos os dias, mas “apenas de maneira recreativa” e, por isso, dizem não ser viciadas.

Evidentemente elas estão erradas em algum grau!

Pesquisa da consultoria britânica GlobalWebIndex aponta que os brasileiros são o segundo povo que mais usa redes sociais no mundo, atrás apenas dos filipinos. Ficamos, em média, 225 minutos em redes sociais todos os dias, e esse tempo cresce continuamente.

Esse é o problema: nós queremos isso!

As redes sociais são uma perigosa zona de conforto para todos, acomodados por suas doses de dopamina e pelos serviços e facilidades, mesmo que isso nos mantenha em um “curral digital” à disposição dos sistemas.

Isso me lembra do filme “Matrix”, de 1999, na cena em que o personagem Cypher trai seus amigos humanos para que seja reconectado à Matrix. Mesmo sabendo que, na realidade, ele seria transformado em uma bateria viva para alimentar uma máquina, na sua mente ele teria a ilusão de uma vida de prazeres. E ele considerava uma ilusão doce melhor que uma realidade dura.

Quantos não pensam assim no mundo atual?

Sherry Turkle, professora do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autora do livro “Alone Together” ( “Sozinhos Juntos” em uma tradução livre), afirma que, à medida que a conexão digital com as pessoas aumenta, nossas vidas emocionais diminuem. Seu argumento é que, apesar de estarmos constantemente nos comunicando com outras pessoas pelas redes sociais, essas trocas acabam não sendo autênticas, o que nos leva à solidão.

Daí, no documentário, Tristan Harris, ex-especialista em ética de design do Google, compara as redes a chupetas que usamos quando estamos tristes ou sozinhos. Só que, como estamos cada vez mais tristes e sozinhos, recorremos o tempo todo a elas.

O psicólogo social Jonathan Haidt explica que isso está relacionado ao enorme aumento de depressão, ansiedade, suicídio e autoflagelo entre adolescentes nos Estados Unidos. Segundo ele, essa geração, que começou a usar as redes sociais durante a pré-adolescência, está mais frágil e se arrisca menos na vida.

Nosso cérebro não é capaz de acompanhar tanta informação, tantas notificações, tantas interações com tanta gente ao mesmo tempo. A ironia é que, quando tudo isso foi criado, aparentemente essas empresas entendiam que estavam fazendo algo positivo aos usuários. Mas depois perceberam o incrível poder que tinham em suas mãos. E decidiram usar isso!

E tem mais: outras empresas e pessoas perceberam que poderiam usar esses recursos para vender seus produtos e impor suas ideias. O mais incrível é que elas não “hackeiam” o Facebook: apenas fazem uso das ferramentas da plataforma.

Em um exemplo extremo, temos a eleição de Donald Trump com presidente dos Estados Unidos em 2016, que contou com o apoio decisivo da empresa Cambridge Analytica. Ela roubou os dados de 87 milhões de usuários do Facebook para que depois os manipulasse em favor da campanha. Esse escândalo, aliás, é retratado em outro ótimo documentário da Netflix, chamado “Privacidade Hackeada”.

Desse mesmo saco podre, vêm, por exemplo, a polarização ideológica extrema, o negacionismo e outros comportamentos cancerosos de nossa sociedade retroalimentados nas redes sociais.

Sem escapatória

Não há como fugir disso totalmente. Mas podemos fazer algo!

Não temos como escapar do rastreamento. Mesmo que eliminemos nossas contas nas redes sociais, continuaremos sendo monitorados pelo smartphone e uma quantidade crescente de equipamentos em casa, no ambiente externo e até no que vestimos!

O que temos que fazer é “furar nossas próprias bolhas”, não acreditar em tudo que as redes sociais nos apresentam. E não basta seguir pessoas que pensam diferentemente de nós: o algoritmo sempre vai descobrir a nossa zona de conforto para tentar nos colocar de volta na “nossa bolha”.

Precisamos exercitar a toda hora o nosso senso crítico, por mais que isso exija energia. Temos que nos balizar por valores que não podem ser relativizados ou esquecidos, como o direito à vida, a democracia, a liberdade de expressão, uma sociedade mais justa e uma convivência construtiva com todos. E isso deve ser feito com nossos valores, e não com o que as redes nos jogam na cara.

Temos que ser donos de nosso próprio destino, por mais difícil que possa parecer!

“O Dilema das Redes” começa com uma frase do dramaturgo grego Sófocles: “nada grandioso entra nas vidas dos mortais sem uma maldição”.

Temos que ter essa visão crítica de tudo na vida! Caso contrário, se terceirizarmos nossa capacidade de decisão aos algoritmos, aí sim seremos apenas massa de manobra.

Ataques a reputações nas redes sociais colocam toda a sociedade em risco

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O uso crescente das redes sociais para destruir reputações de adversários começa a colocar em risco a própria sociedade. Isso acontece porque tais ataques se baseiam em uma eficiente manipulação dos algoritmos e em uma avalanche orquestrada de “fake news”.

Como resultado, a população começa a perder as referências para construção de confiança em pessoas, instituições e empresas. O risco para a comunidade existe porque, pela nossa natureza humana, só conseguimos construir algo com pessoas em quem acreditamos.

Oras, se não confiamos em mais nada e em mais ninguém, nos afastamos da nossa própria evolução! O mais triste é que isso acontece porque somos alegremente manipulados por grupos que promovem esse movimento para ampliar seus privilégios e aumentar seu poder.

Como exemplo, na semana passada, assistimos a tentativas nefastas de desmoralizar a ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, após sua participação na cúpula do clima da Organização das Nações Unidas.

Precisamos reforçar nosso senso crítico, para que não sejamos mais peões nesse xadrez político e econômico! Veja como no meu vídeo abaixo. E depois conte a todos o que faz para escapar das “fake news” e das manipulações.



Quer ouvir as minhas pílulas de cultura digital no formato de podcast? Basta procurar por “O Macaco Elétrico” no Spotify, no Deezer ou no Soundcloud. Se preferir, pode usar seu aplicativo de podcast preferido. É só cadastrar nele o seguinte endereço: http://feeds.soundcloud.com/users/soundcloud:users:640617936/sounds.rss

Garry Kasparov enfrenta o supercomputador da IBM Deep Blue, em 1997 — Foto: reprodução

Até onde podemos ser iludidos pela Inteligência Artificial

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Existe um ditado popular que diz, em tão jocoso, “me engana que eu gosto”. Ou seja, por qualquer tipo de conveniência, as pessoas podem acreditar em algo que sabem que não é verdadeiro. Entretanto, graças à Inteligência Artificial (IA), isso está ganhando novos contornos.

Com o avanço da tecnologia, sistemas hoje já conseguem se passar, de maneira convincente, por seres humanos, criando formas de interação bastante naturais com as pessoas oferecendo diferentes serviços. Entre os exemplos mais comuns estão os sistemas de atendimento ao público, os “chatbots”.


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Esqueçam as vozes metalizadas ou as interações do tipo “pressione 1 para cobrança; pressione 2 para crédito; pressiona 3 para falar com um de nossos atendentes”. Uma das características dos novos sistemas é a linguagem natural, que permite que os comandos sejam feitos em uma conversa livre, e as respostas sejam dadas da mesma forma: o sistema é capaz (ou pelo menos tenta) entender o que o cliente deseja, e busca lhe oferecer a melhor alternativa disponível, quaisquer que sejam as palavras usadas pela pessoa.

Em 2018, o Bradesco trouxe isso para um atendimento comercial de massa, com o lançamento da BIA, acrônimo para “Bradesco Inteligência Artificial”. Trata-se de um sistema de autoatendimento construindo a partir do Watson, da IBM, para atender, com linguagem natural, os clientes do banco. É possível até mesmo fazer perguntas que não têm a ver com transações bancárias (e algumas serão respondidas assim mesmo).

A equipe responsável levou três anos para “calibrar” a BIA, ou seja, oferecer a ela as informações e a capacidade de aprender suficientes para ser lançada comercialmente. E, graças à computação cognitiva da IBM, a BIA literalmente continua aprendendo, à medida que é usada pelos clientes do Bradesco.

Mas para se ter uma experiência bastante interessante disso, basta usar os assistentes virtuais de seu celular: a Siri (para iPhones) e o Google Now (para smartphones Android) já respondem a nossos pedidos em linguagem natural. E estão cada vez mais eficientes, tanto para entender o que queremos, quanto para nos responder.

Experimente dizer “eu te amo” à Siri ou perguntar “quando é o próximo jogo do Timão” ao Google Now.

De onde veio e para onde vai?

Os assistentes virtuais não são exatamente uma novidade. O primeiro deles data de 1966. Chamado de ELIZA, demorou dois anos para ser desenvolvido por Joseph Weizenbaum no laboratório de inteligência artificial do MIT (EUA), e buscava simular um psicólogo aconselhando seus pacientes por mensagens escritas. Apesar de bastante rudimentar, as pessoas necessitavam realizar várias trocas antes de perceber que não estavam conversando com outro ser humano.

De lá para cá, as pesquisas cresceram incrivelmente, seja por sistemas mais inteligentes, seja por equipamentos mais poderosos, que permitem a realização de milhões de combinações por segundo. E, como na maioria dos casos, o processamento se dá em servidores remotos e não no equipamento do usuário (como seus smartphones), o avanço das telecomunicações também é essencial.

Em maio de 2018, uma demonstração no Google I/O, congresso mundial de desenvolvedores da empresa, deixou muita gente de boca aberta. Tratava-se de uma evolução do Google Now, batizado de Google Duplex, que, por telefone e diante de todos, marcou um corte de cabelo e fez uma reserva em um restaurante, sem que os atendentes dos estabelecimentos se dessem conta que estavam falando com uma máquina. A linguagem natural usada pelo sistema era tão perfeita, que muitas pessoas duvidaram que aquilo seria real, apesar de a empresa afirmar categoricamente que sim. Em alguns casos, o sistema parecia falar melhor que os próprios interlocutores humanos com quem estava interagindo por telefone.

Em fevereiro de 2019, a IBM promoveu um debate público sobre educação entre seu sistema de IA Project Debater e o debatedor profissional Harish Natarajan. Apesar da natureza totalmente aberta do tema, para muita gente o sistema foi melhor que o ser humano.

A IBM, aliás, tem história em colocar seus sistemas de IA em confronto com pessoas. Nos anos 1990, seu supercomputador Deep Blue jogou xadrez com o então campeão mundial Garry Kasparov, em dois matches de seis partidas cada. O primeiro foi vencido por Kasparov e o segundo pelo Deep Blue. O campeão chegou a acusar a máquina de manipulação fraudulenta após ser derrotado.

A máquina tem ética?

O fato é que esses sistemas, cada vez mais parecidos com seres humanos em suas interações, são capazes de processar muito mais informações que nós, e têm acesso a muito mais dados do que qualquer ser humano. Isso levanta algumas questões éticas importantes: diante disso tudo, as máquinas poderiam se tornar capazes de nos convencer de qualquer coisa, muito além do que outra pessoa faria?

Afinal, se o nosso interlocutor parece ter o argumento definitivo para contrapor qualquer coisa que digamos, ele está em uma condição claramente vantajosa. Os computadores já têm isso há algum tempo, mas seu diferencial no convencimento desaparece diante do fato de que as interações não são naturais. Em outras palavras, subimos automaticamente nossas defesas para não sermos enganados por uma máquina.

Entretanto, diante dessa nova realidade em que nos encontramos, isso pode deixar de existir. O Google Duplex demonstrou que, por telefone, já não haveria como diferenciar as falas de uma máquina das de uma pessoa.  E quando isso acontecer também presencialmente, com robôs simulando convincentemente os corpos humanos?

O assunto é abordado exaustivamente pela ficção científica. Minha lembrança mais antiga disso é do primeiro “Blade Runner”, de 1982, com seus “replicantes”, robôs tão humanos que alguns nem sabiam da sua natureza artificial, achando que eram pessoas. Como dizia o slogan de seu fabricante, eram “mais humano(s) que o humano”.

Mais recentemente, o episódio “Volto Já”, o primeiro da segunda temporada (de 2013) da série “Black Mirror”, reacendeu o debate, quando a protagonista contrata o serviço de uma empresa que cria robôs capazes de simular o corpo e a mente de entes queridos falecidos. No caso da personagem, ela quase embarca na fantasia de que aquela máquina era seu marido morto. Só não fez isso porque o sistema, afinal, não conseguiu captar as sutilezas de sua personalidade.

Mas e se conseguisse? Ela teria se deixado enganar por aquela ilusão cibernética cuidadosamente elaborada? E, caso assim fizesse, ela poderia ser julgada por isso? Afinal, a máquina seria uma cópia praticamente fiel de seu finado esposo, e serviria para lhe aplacar a dor da perda.

O fato é que podemos estar muito perto de sistemas que sejam capazes de nos iludir e até mesmo manipular para atingir os objetivos de seus fabricantes, por terem sempre os melhores argumentos e se comportarem e parecerem com seres humanos. A máquina não tem ética e nem pode ser culpada se fizer algo que contrarie o que achemos correto. Quem precisa cuidar disso é seu fabricante.

Do nosso lado, precisamos ter esse debate sempre em dia, para que tenhamos esses recursos da tecnologia a nosso favor, tornando nossa vida mais produtiva, fácil, divertida. Podemos, sim, ser iludidos pelas máquinas, desde que seja o que deliberadamente queiramos, por mais que isso possa parecer paradoxal.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


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Videodebate: tem gente roubando seu lugar!

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Não olhe agora, mas tem um monte de “picaretas” roubando os seus clientes ou o seu trabalho!

É isso mesmo! Uns caras que sabem muito menos que você estão lhe dando uma rasteira! E, se duvidar, eles sabem tão pouco, que até colocam a vida das pessoas em risco!

E você fica aí, praguejando da “sorte” que os danados têm…

Muita calma nessa hora! Pela minha experiência, não existe essa tal de “sorte” no trabalho.

Sim, é verdade que essas criaturas existem mesmo, e estão ocupando um espaço indevido. Mas não é por acaso, e muito menos por sorte. Eles sabem muito bem como atingir seus resultados. De um jeito torto, mas sabem.

Digo mais: você também tem culpa nisso tudo! E não adianta ficar bravo.

Veja meu vídeo abaixo, e depois vamos debater aqui nos comentários: o que fazer para ocupar o espaço que é SEU?



 

A alegria do seu sucesso pode virar seu pior pesadelo, e de graça!

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Vídeo em que Nilson Izaías “Papinho” consegue fazer sua “slime”, que o transformou em uma estrela instantânea – Foto: reprodução

Vídeo em que Nilson Izaías “Papinho” consegue fazer sua “slime”, que o transformou em uma estrela instantânea

Imagine a cena: você está tocando sua vida normalmente, quando tem a felicidade de fazer algo inesperadamente incrível, que lhe garante uma grande fama instantânea! Subitamente você é catapultado de uma vida convencional para o estrelato, com milhões de pessoas acompanhando seus passos. A repentina exposição lhe garante muitos novos amigos, negócios e dinheiro. Grande alegria! Mas de repente, quando tudo parecia estar maravilhosamente bem, você se vê envolvido em uma lista de denúncias infundadas, que destroem a sua reputação. E aí toda aquela euforia legítima dá lugar a medo e depressão.

Está achando que isso é roteiro de filme B? Pois saiba que pode acontecer de verdade! E, em tempos de redes sociais, onde tudo é mais rápido e mais intenso, qualquer um pode ser uma vítima desse pesadelo, inclusive você, sua carreira, seu negócio. De uma hora para a outra, toda aquela euforia se transforma em um transtorno que pode ter sequelas graves.

Como isso é possível? Dá para se proteger?

Há poucos dias, um caso desses se tornou emblemático. Aconteceu com Nilson Izaías “Papinho”, que vive em Juquiá, município de menos de 20 mil habitantes a 170 km de São Paulo. O pacato aposentado de 72 anos criou, há 11 meses, um canal no YouTube, onde publica singelos vídeos domésticos de seu cotidiano, como o que come no café da manhã ou as frutas de seu quintal.

Há um mês, “Papinho” encarou um desafio: fazer, na frente da câmera, uma “slime” caseira, que são aquelas massas gelatinosas que fazem sucesso entre as crianças. Depois de quatro tentativas frustradas, no dia 22 de janeiro, ele publicou um vídeo de seu sucesso na empreitada. Tudo muito singelo e despretensioso. O vídeo, que pode ser visto abaixo (10’57’’) “viralizou” e já passou de dez milhões de visualizações! Antes dele, o canal tinha pouco mais de mil inscritos; hoje já são cerca de 4,4 milhões, que vieram no espaço de apenas duas semanas!


Vídeo relacionado:


Trata-se provavelmente do crescimento mais rápido do YouTube no Brasil! O “vovô da slime”, que até então tinha feito apenas 18 vídeos praticamente sem audiência, se tornou um fenômeno literalmente do dia para noite.

E aí começaram os seus problemas.

 

Por que isso acontece?

“Papinho” não tinha nenhuma pretensão de atingir fama ou ganhar dinheiro. Segundo ele, gravava seus vídeos para fazer novos amigos, e ficaria satisfeito se atingisse mil inscritos no canal.

Mas a grande fama veio. E, com ela, a grande infâmia!

“Papinho” começou a ser acusado de vários comportamentos inadequados e até de pedofilia, além de ter sua imagem violentada em “memes”. Subitamente, várias pessoas e perfis falsos apareceram nas redes sociais, com grandes teorias e histórias sobre o aposentado que, até havia alguns dias, só familiares e amigos conheciam. Pior que isso: “Papinho” viu seu nome e sua imagem usados em uma briga suja entre grupos políticos conservadores e liberais. Felizmente, ele recebeu o apoio de várias pessoas, que o ajudaram a passar por isso.

Por que alguém faria isso com um pacato aposentado, que ficou famoso ao fazer “slime” caseira?

Os primeiros nisso são os “trolls”, pessoas que se divertem criando e espalhando esse tipo de confusão. Motivados por inveja, discordância ou simplesmente falta do que fazer, não pensam duas vezes antes de destruir a imagem de alguém que nunca lhes fez nada. Há também um grupo ainda mais odioso, que são aqueles que usurpam a imagem de famosos para atingir seus próprios objetivos, não se preocupando se isso lhes causará problemas.

“Papinho” foi vítima de ambos.

 

Pode acontecer com todo mundo?

Claro que sim!

Convenhamos, se um singelo senhor que ficou famoso fazendo “slimes” foi vítima, qualquer um pode ser. E, quanto maior a sua influência, pior pode ser o estrago.

Sem desmerecer as qualidades humanas e a capacidade de gerar engajamento de “Papinho”, é pouco provável que o mau uso de sua imagem provoque grandes crises políticas ou econômicas. Mas, se a vítima for um grande empresário, por exemplo, muita gente pode embarcar nas “fake news” e tomar decisões muito ruins e equivocadas.

Mas uma coisa é comum a todos: seja “Papinho”, seja um grande empresário, esse tipo de atentado à reputação é sempre desagradável e um desrespeito inaceitável ao indivíduo, que se vê envolvido gratuitamente em uma trama com a qual não tem nada a ver.

E ainda tem que limpar a lama que lhe foi jogada de graça.

 

Como se proteger?

Não há proteção absoluta contra esse tipo de maldade. Mas podemos fazer coisas que podem ajudar bastante caso o abuso aconteça.

A primeira delas é não tocar tambor para maluco dançar! Em muitos casos, o ataque acontece apenas para desestabilizar a vítima, esperando que ela revide na mesma moeda. Jamais faça isso! Caso contrário, o agressor terá atingido seu objetivo de arranhar (às vezes profundamente) sua reputação. Fique no campo das ideias e do respeito.

Outra coisa que ajuda muito é construir previamente uma boa reputação. Partindo do princípio constitucional de que todos são inocentes até que se prove o contrário, ter uma boa imagem construída junto a seu público é um importante aliado contra esses ataques, pois as pessoas tendem a acreditar menos no agressor a até mesmo defender a vítima.

Por fim, cultive sempre bons relacionamentos na rede: converse com as pessoas, ajude-as no que puder, compartilhe conhecimento. Mas faça isso genuinamente! Essa doação é percebida por quem se beneficia dela. E acredite: amor com amor se paga!

Mas isso tudo tem que ser feito antes do problema acontecer. Dessa forma, eventuais ataques terão um impacto muito menor. Não passarão de “slime”, que não gruda e é descartável.


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Reflexão: que seu legado inspire o bom jornalismo

By | Jornalismo | No Comments

Estou profundamente entristecido com a morte do jornalista Ricardo Boechat, vítima de um acidente de helicóptero nesta segunda, por volta da hora do almoço.

Mais que um colega de profissão, Boechat era um dos melhores jornalistas do país, alguém que realizava “o melhor ofício do mundo” com ética e responsabilidade.

Em um tempo em que grupos políticos de diferentes vertentes se esforçam para desacreditar o jornalismo e seus profissionais, para que possam praticar seus desmandos sem oposição qualificada, espero que o legado de Boechat inspire novos e velhos jornalistas. Que realizem seu trabalho com a mesma seriedade dele, resistindo a essas pressões nefastas, defendendo a verdadeira democracia e buscando sempre a verdade, independentemente de viés político, ideológico ou econômico.

Você sabe proteger seus filhos da publicidade?

By | Educação | No Comments

Foto: Michael Christian Parker/Creative Commons

Crianças não têm poder de compra. Entretanto, elas têm grande influência nos gastos de uma família. Mas quem as influencia naquilo que elas desejam comprar? Apesar de a publicidade infantil estar virtualmente banida no Brasil desde 2014, não se engane: ela continua existindo, porém travestida de formatos novos e muito mais eficientes. Diante disso, você sabe como proteger as suas crianças dessa nova publicidade?

Estudos indicam que crianças até os seis anos não seriam capazes de diferenciar um conteúdo editorial, como um programa de televisão, de uma propaganda. Além disso, só após os 12 anos seriam capazes de compreender o caráter persuasivo da publicidade. Em outras palavras, crianças seriam vítimas indefesas de campanhas que diriam o que comer, com o que brincar, o que vestir e muito mais. Essa é uma das bases para as legislações contrárias à publicidade infantil.

O debate se aprofunda por todos os lados. Já participei inclusive do Jornal da Cultura Debate, em um programa destinado ao tema. A íntegra em vídeo pode ser vista abaixo (27 minutos):


Vídeo relacionado:


Defensores da publicidade infantil argumentam que ela é essencial para que empresas de produtos direcionados a crianças se mantenham, como qualquer outro negócio. Além disso, o fim da publicidade infantil também estaria eliminando programas de TV, revistas e outros conteúdos infantis, que não teriam como se viabilizar sem o dinheiro da publicidade. Por fim, os defensores argumentam que o papel de dizer “não” a um eventual consumo desenfreado dos filhos caberia aos pais, e que, com o fim da publicidade infantil, eles ficariam livres dessa obrigação.

É aí que a porca torce o rabo.

 

Pais despreparados

O argumento de que os pais têm a responsabilidade para educar seus filhos até mesmo no que diz respeito ao consumo é válido, mas ele esconde alguns problemas.

O primeiro deles é que os pais não estão preparados para isso. Ou -o que é pior- em muitos casos, não quere fazer isso! O outro é que as crianças são mesmo indefesas e elas podem encontrar maneiras de consumir determinado produto, de um jeito ou de outro.

No primeiro caso, muitos pais, devido à vida moderna, andam bastante permissivos. Portanto, não dão à paternidade a devida atenção. Como a atenção aos filhos é reduzida, têm dificuldade de dizer “não”.  Ou nem mesmo sabem como fazer isso: acham que amar os filhos significa evitar-lhes frustrações.

Portanto, sim, em um mundo ideal, os pais seriam os educadores que ensinariam a seus filhos até onde o consumo deve ir. Mas isso não acontece hoje em muitos -talvez na maioria- dos casos. Mas isso não os desobriga de aprender a fazer isso! Esse é o motivo por que esse assunto precisa ser debatido de novo e de novo e de novo em todos os fóruns possíveis. Até que o conceito finalmente seja compreendido por todos, por mais que demore.

Sobre o segundo caso, do ponto de vista cognitivo, as crianças são mesmo presas fáceis da propaganda. E, por mais que os pais tenham uma boa atuação doméstica, elas ganham relativa autonomia cada vez mais cedo, até mesmo para adquirir produtos. Logo, elas poderão comprar o que viram na propaganda por conta própria, quando não estiverem com os pais, como na cantina da escola.

E o poder de convencimento tem sido intenso!

 

Criança influencia criança

De qualquer forma, com a legislação vigente, se a publicidade não está terminantemente proibida, ela desapareceu por uma regulação do mercado.

Ou havia desaparecido.

De uns anos para cá, como aliás, pode ser visto no vídeo acima, a publicidade infantil invadiu o YouTube. E não da forma como existia antes. Agora temos os “youtubers mirins”, crianças que às vezes mal sabem falar, gravando vídeos recheados com todo tipo de produto (especialmente brinquedos) que são apresentados como uma criança mostrando a outra algo que acabou de ganhar. E isso seria algo legítimo: afinal, todo criança gosta de mostrar aos amigos seus brinquedos novos.

Mas, nesse caso, os “amigos” são legiões de seguidores no YouTube, que chegam a ser contadas aos milhões! E essas crianças ganham muitos, às vezes dezenas de brinquedos toda semana, que mostram alegremente em seus vídeos, em um fenômeno chamado de “unboxing” (tirar da caixa). Em alguns casos, isso é feito com a ajuda dos pais, pois as crianças são tão pequenas, que não conseguem abrir as caixas ou “perdem o foco”: resolvem brincar com um brinquedo mostrado, ao invés de continuar abrindo mais e mais caixas.

Os pais desses pequenos, aliás, estão no centro desse fenômeno, pois costumam atuar como equipe técnica e empresários dos filhos, junto às empresas, que descobriram uma maneira de burlar as restrições e ainda passar uma mensagem extremamente convincente a seu público. Afinal, uma criança brincando ou comendo algo “por si só” convence outra criança a fazer o mesmo de maneira melhor que o mais brilhante comercial de TV.

Alguns desses vídeos informam que foram criados por patrocínio de empresas, o que não resolve em nada o problema. Outros têm a desfaçatez de afirmar categoricamente que não são publicidade, o que chega a ser um escárnio ao bom senso em alguns casos. Tanto que o Google, dono do YouTube, foi acionado por uma ação civil pública do Ministério Público de São Paulo na virada do ano. A ação, movida pelo Instituto Alana, ONG que cuida do desenvolvimento de crianças, pede, entre outras ações, a retirada de 105 vídeos de sete youtubers mirins, que somam 13 milhões de inscritos em seus canais.

 

O que você pode fazer

Legislações e iniciativas com a acima são bem-vindas para melhorar essa situação. Mas vocês, como pais, avós, tutores ou educadores, têm um papel essencial nesse processo. E os ganhos são múltiplos: não apenas ajudarão suas crianças a lidar com essa situação, como melhorará -e muito- seu relacionamento com eles.

A primeira coisa a fazer é não proibir. Isso não funciona! Como diz o ditado, “tudo que é proibido é mais gostoso”! Então, diante disso, a criança encontrará meios de burlar a proibição, e o tiro sairá pela culatra.

Em segundo lugar, estabeleça, desde bem cedo um canal de diálogo franco com os pequenos. Mas, para que isso funcione, deve ser bilateral: as crianças devem ter abertura total para que confiem nos pais, mas os pais também precisam confiar nas crianças. E isso deve ser em tudo! Se for exigida confiança de apenas um dos lados, não funcionará.

Por fim, desenvolva o gosto de fazer junto com as crianças as coisas que elas gostam de fazer: brincar, contar histórias, ler livros, ver filmes e desenhos, participar de jogos e games e -claro- assistir a vídeos no YouTube (que não tem nada de errado por si só).

São três pilares simples de entender, mas admito que não tão simples de realizar, ainda mais para pais que trabalham fora. Mas, oras, a paternidade é isso! E essas tarefas não precisam consumir muitas horas do dia. Se bem feito, alguns minutos podem fazer a diferença entre crianças saudáveis, independentes, conscientes e felizes e pequenos tiranos, que crescerão como adultos irresponsáveis, sem limites, incapazes de ter uma vida saudável e construtiva na sociedade.

E qual dos futuros vale a pena investir seu tempo?

 

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A inteligência artificial pode ser a máquina perfeita de sedução

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O personagem Theodore, do filme “Ela”, e sua amada Samantha: o sistema do celular que carrega em seu bolso - Foto: divulgação

O personagem Theodore, do filme “Ela”, e sua amada Samantha: o sistema do celular que carrega em seu bolso

Você se apaixonaria por uma máquina? É uma pergunta séria! Portanto, antes de mandar um sonoro “não” como resposta, deixe-me fazer outras indagações: o que é necessário para se apaixonar por alguém (ou por algo), e quanto a inteligência artificial já pode influenciar nisso?

Acha tudo isso maluquice? Pois saiba que estamos bem próximos de isso se tornar realidade! E pode ter impactos incríveis em sua vida pessoal e profissional.

O tema já foi amplamente explorado pela ficção, em filmes e livros. Um dos melhores exemplos é o filme “Ela” (“Her”, 2013), em que o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) se apaixona pelo sistema operacional inteligente de seu computador e de seu celular (chamado de Samantha), personificado pela voz de Scarlett Johansson.


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O filme é construído com grande sensibilidade por Spike Jonze. Mas, apesar de Theodore estar passando por uma fase depressiva, o que o faz se apaixonar por Samantha não é sua carência. O que o conquista é o fato de que o sistema sabe tudo sobre ele, pois tem acesso a todo tipo de banco de dados sobre o sujeito. Mais que isso: os dois sempre conversan, e Samantha aprende continuamente do que ele gosta. Resultado: ela sempre oferece o que ele precisa, mesmo coisas inesperadas.

Trazendo para nossa realidade, qual foi a última vez que você foi seduzido por um sistema?

 

O vendedor perfeito

Não, não me refiro no sentido romântico ou sexual, mas, por exemplo, para comprar algo. Afinal, uma boa venda também é uma forma de sedução. E, se até então isso era privilégio dos bons vendedores, cada vez mais a tecnologia ocupa esse espaço, seja por sistemas de autoatendimento no e-commerce, seja como suporte para vendedores humanos.

Quem trabalha com CRM, sabe que os quatro pilares para conseguir uma boa venda combinam a oferta certa, para o cliente certo, no momento certo e no canal certo. Se qualquer um deles não for atendido, a venda ainda pode acontecer, mas será mais difícil. Por outro lado, se os quatro estiverem presentes, é quase certo que o consumidor fará a compra.

Os departamentos de marketing e comerciais sempre trabalharam duro para isso. Mas essa tarefa está cada vez mais complexa, porque nós, os consumidores, também estamos sendo modificados pela tecnologia, que nos dá um incrível poder de escolha e acesso ubíquo a informações e serviços. Em um fenômeno que está sendo chamado de “pós-consumidor”, queremos tudo do nosso jeito, na nossa hora, de um jeito fácil e, ainda por cima, barato.

A melhor (e possivelmente em um futuro próximo, será a única) maneira de se manter nesse jogo é usando a tecnologia para compreender esse consumidor. A exemplo do que Samantha fez com Theodore, tecnologias como machine learning, Internet das Coisas, big data, análises preditivas e linguagem natural já permitem que empresas conheçam, de maneira cada vez mais profunda, seus consumidores, para atender, com incrível precisão, os pilares do CRM acima.

Esse, aliás, foi o tema da minha apresentação no “Colóquio de Inteligência Artificial e Redes Sociais”, realizado no dia 13 de dezembro pelo grupo de pesquisa Sociotramas, do qual faço parte na PUC-SP. Se quiser assistir à minha fala de 15 minutos, ela está no ponto no vídeo abaixo (aproveite para ver também toda a íntegra do evento: discussões de alto nível).


Vídeo relacionado:


Discutimos, inclusive, alguns exemplos, como as “vitrines inteligentes” da SAP. Com esse sistema, câmeras captam a imagem de uma pessoa que estiver diante da vitrine de uma loja, tentando identificar algumas informações suas essenciais para a venda, como sexo, faixa etária, como se veste e até mesmo o humor do indivíduo. Toda essa informação é cruzada com diversas bases de informações, sejam estatísticas, vindas de big data, ou do próprio indivíduo, para sugerir a melhor oferta para ele.

Falei também da tecnologia de “remessa antecipada” da Amazon, em que a gigante do varejo tenta “adivinhar” o que um consumidor quer. O objetivo é ter o item no centro de distribuição mais próximo dele antes mesmo de o pedido ser feito, para que possa ganhar da concorrência no prazo de entrega.

Se a coisa for bem-feita, é um cenário em que todos ganham. Afinal, o consumidor receberá uma boa oferta de algo que quer, na hora que busca aquilo. Portanto, suas necessidades estarão sendo bem atendidas. Do lado do varejo, ao prestar esse ótimo atendimento, suas vendas tendem a crescer. Mais que isso: há uma boa chance de aquele consumidor ser ainda fidelizado.

Mas fica sempre a dúvida: as empresas não podem passar dos limites e invadir a nossa privacidade além do razoável –e permitido? Na verdade, no colóquio acima, foi perguntado para mim quem nos protege disso.

Quais são os riscos a que estamos expostos nessa história?

A privacidade morreu?

É claro que existem limites éticos e morais nisso tudo. Aliás, nesse ano foi sancionada a Lei Geral de Proteção de Dados , que trata do assunto.

Mas precisamos ter clara uma coisa: a privacidade como conhecíamos até havia bem pouco tempo, já não existe mais. Como disse no colóquio a minha orientadora Lúcia Santaella, a partir do momento em que tornamos públicas (e, na maioria das vezes, de maneira irrestrita) nossas informações pessoais, fica difícil querer exigir garantias de privacidade.

O que existem são boas práticas, tanto para empresas quanto para nós, consumidores. Para elas, a primeira recomendação é usar os dados das pessoas apenas para os fins concedidos. Ou seja, se o usuário lhe entregou dados para ganhar descontos nas farmácias, isso não deve ser usado para definir o preço de planos de saúde (ou ainda vender um carro!). Da mesma forma, esses dados não devem ser compartilhados com terceiros. Por fim, as empresas não devem enganar o usuário para coletar dados, como acontece muito nesses infames joguinhos no Facebook, que roubam um monte de nossas informações para, por exemplo, dizer apenas com qual celebridade nos parecemos.

Quanto a nós, o que precisamos fazer é aceitar que esse é o jogo atual. Somos continuamente rastreados, das mais diferentes formas, e não há como escapar disso. Mas precisamos ter, pelo menos, consciência de que isso está acontecendo, para não entregarmos alegremente tudo o que somos a qualquer um. Da mesma forma, considerando que estamos nessa “para valer”, aprendamos a aproveitar todos esses recursos para conseguirmos o que buscamos, com as melhores vantagens disponíveis.

Não vamos nos apaixonar pelo e-commerce, mas, se todos fizerem bem a sua parte, realmente é um cenário em que todos podem ganhar. No final, nossa vida fica melhor.

Só não estamos ainda na pele de Theodore.

Ainda.


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Videodebate: o que você causa nas pessoas

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Você tem UM GRANDE PODER nas mãos, mas talvez não saiba: o poder de influenciar as pessoas que estão a sua volta.
Com as redes sociais, ele ficou muito maior. E, junto com ele, você ganhou também uma grande responsabilidade!
Sim! Pois muita gente acredita no que publicamos nas redes, desde uma singela foto, até um artigo bastante analítico. E graças aos algoritmos de relevância das redes sociais, nosso conteúdo ganha públicos cada vez maiores.
Desnecessário dizer que, se dermos uma mancada, nossa reputação pode ir por água abaixo. Isso inclui escorregadas éticas, um caminho perigoso que muitos trilham, por parecer mais fácil para atingir seus objetivos.
Não caia nessa armadilha! Veja no meu vídeo abaixo como usar essa poderosa ferramenta para melhorar sua imagem, conseguir mais clientes ou aquele emprego tão sonhado!
Use esse poder para melhorar a sociedade ao seu redor. Que exemplos (bons e ruins) você tem para compartilhar conosco aqui nos comentários?