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Quer saber como a Internet nasceu no Brasil? Pergunte a quem estava lá (e o que isso pode lhe ensinar)!

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O personagem Dino da Silva Sauro, de “A Família Dinossauro”: quem chega primeiro pode ter uma visão privilegiada dos fatos – Foto: divulgação

O personagem Dino da Silva Sauro, de “A Família Dinossauro”: quem chega primeiro pode ter uma visão privilegiada dos fatos

Esse é o depoimento de um dinossauro da Internet. Sim, eu estava lá quando o acesso à Grande Rede foi liberado à população em geral. Entretanto, apesar de 1994 parecer tão distante quanto o período Jurássico, algumas coisas que aprendi desbravando aquela atmosfera primitiva podem ser incrivelmente úteis a qualquer negócio hoje, inclusive o seu, em temas como inovação e gestão de negócios.

A primeira grande lição é acreditar e seguir seus instintos, mesmo quando a manada inteira diz não. E aprendi isso graças a uma certa impetuosidade minha. A Internet foi liberada em caráter experimental ao público brasileiro em novembro de 1994. Na época, eu era repórter da Folha de S.Paulo, meu primeiro emprego. Em janeiro de 1995, quem escrevia sobre Internet no jornal era a editoria de Ciência, onde atuava: o assunto estava ainda tão distante do cidadão comum, que nem era ainda domínio do caderno de Informática. Foi quando eu sugeri colocar a Folha na Grande Rede.


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Assista aos dois blocos da minha entrevista ao jornalista Fernando Rípoli, do Cidade Entrevista do SBT de Maringá, que foi ao ar no dia 14 de outubro


Isso só aconteceu alguns meses depois: a FolhaWeb, primeira experiência da Folha na Internet só foi ao ar no dia 9 de julho de 1995, com a página abaixo, cujo código eu editava em Word (!!!):

Primeira home page da Folha de S.Paulo na Internet - Imagem: reprodução

Depois de um mês fazendo a jornada dupla de fechar o jornal impresso e depois a versão online, decidi ficar só com a segunda. Foi quando uma coisa incrível aconteceu: meus colegas, com as melhores intenções, tentaram me demover da ideia. Ouvi de vários que eu estaria enterrando uma carreira brilhante no jornal, que estava decolando, para abraçar um “modismo”, pois “esse negócio de Internet não vai dar em nada!” Felizmente segui adiante, e construí minha carreira em cima do desenvolvimento de produtos digitais.

Temos que aprender a dar crédito a nós mesmos! Quando muita gente a nossa volta, especialmente pessoas que admiramos, diz não, é comum que abandonemos até mesmo nossos sonhos. E isso é um grande erro!

Primeiramente porque os sonhos dão cor e sabor à vida. Se ficarmos o tempo todo apenas “tocando a obra”, fazendo só “o que tem que ser feito porque sim”, vamos nos tornando cinzas. Enterramos a nossa parte mais nobre, capaz de transformar nossas carreiras e os negócios em que estivermos envolvidos em algo incrível, capaz de se destacar da concorrência.

Portanto, como profissional ou empreendedor, não esmoreça quando as pessoas a sua volta não compartilharem de seus sonhos. E, se você é gestor, incentive seu time a olhar além do óbvio.

 

Olhos abertos e orelhas em pé

Muitas vezes, a grande revolução de nossas vidas pode estar bem diante do nosso nariz e não a vemos. Foi exatamente o que aconteceu com a Internet naquela época.

A coisa estava ali, estava acontecendo e o potencial para mudar o mundo era imenso, como de fato mudou! Se você tiver mais que 30 anos, consegue se lembrar da sua vida antes da Internet? Como conversava, se informava, trabalhava, estudava, se divertia, comprava e até paquerava?

O fato é: o mundo mudou completamente desde 1994, e essa mudança se tornou dramática na última década, depois que o iPhone foi lançado, seguido pelos smartphones Android.

Mesmo assim, quase ninguém conseguia enxergar isso. Até mesmo Bill Gates, quando lançou a MSN em 1995, a concebeu como um serviço fechado, pois afirmava que a Internet era “uma moda passageira”.

Talvez por estar online desde 1987, em um sistema fechado (um BBS) da Telebrás chamado Projeto Ciranda, quando vi a Internet (primeiramente como estudante da USP, depois como repórter da Folha), aquilo me deixou louco! Como as outras pessoas não conseguiam enxergar o mesmo que eu?

É normal que, diante das tarefas do cotidiano, com trabalho, escola, família, a rotina diária, entremos em uma espécie de “modo automático”. Não paramos para olhar o que está a nossa volta. Não nos permitimos pensar de maneira pouco convencional. Ficamos na obviedade, porque não há tempo para olharmos tudo o que o mundo nos oferece.

E ele nos oferece muitas coisas o tempo todo!

Por isso, deixo aqui uma sugestão: se a rotina impede você de dar essa parada, coloque isso na sua agenda. Sim, encare esse momento de reflexão como uma tarefa a cumprir regularmente, se necessário for. Não precisa de muito, umas poucas horas por semana. E, se possível, chame as mentes mais inquietas a sua volta para participar. Coisas incríveis podem surgir desse ato simples.

 

Não pare a inovação

Não é exagero dizer que quem desbravou a Internet no Brasil foi a mídia. Nos primeiros anos da Internet comercial, os grandes nomes do mercado eram o UOL –que surgiu da FolhaWeb, propriedade da Folha e da Abril– e o ZAZ –cujo dono era a RBS, e que depois foi vendido à Telefonica para se tornar o Terra.

Um dos motivadores daquelas empresas era dominar a Internet, porque aquilo poderia “acabar com o impresso algum dia” (sim, ouvi isso incontáveis vezes desde aquela época). Mas curiosamente, apesar de essas operações online terem sido pioneiras nesse mercado, muitas das empresas que eram suas proprietárias não foram contaminadas com esse ímpeto de inovação. E hoje pagam um preço alto por essa imobilidade.

Duas lições que se podem tirar disso. A primeira é que a inovação é um caminho sem volta. A outra é que, uma vez que o público tem acesso à inovação, ele não aceita mais os antigos modelos.

As mesmas empresas de mídia que financiaram a popularização da Internet no Brasil, hoje sofrem por insistir em modelos de negócios que não se sustentam mais. Por exemplo, não adianta querer insistir que seus veículos de comunicação sobrevivam com a dobradinha “assinatura mais publicidade”. O público não quer mais isso e, sem audiência, a publicidade foge. Resultado: infelizmente (mas sem surpresa) vários títulos estão quebrando.

Não se pode ter medo de inovar. É claro que nem sempre dará certo, mas a inovação é o melhor caminho para se chegar lá. E, se já está trilhando esse caminho, não faz o menor sentido voltar para trás. Aliás, rejeitar a inovação, especialmente uma que nasceu dentro de casa, pode ter consequências terríveis.

A Kodak que o diga com a fotografia digital!

 

Aprender fazendo de tudo

Naqueles primórdios de FolhaWeb e UOL, tínhamos que fazer literalmente de tudo. Não havia modelos consolidados, não havia concorrência, não havia formação, não havia literatura, nada! Por isso, lidar profundamente com questões editoriais e técnicas era o básico do dia a dia. Mas também tínhamos que pensar quase tudo! Cheguei até mesmo a apagar de madrugada um incêndio na secretaria administrativa da Folha. E digo isso literalmente: incêndio com labaredas, e não apenas as urgências que apareciam na minha mesa.

Em um primeiro momento, isso pode passar uma sensação de desamparo: afinal, você precisa se desdobrar em coisas que vão muito além da sua formação. Não entre nessa onda! Isso é, na verdade, uma tremenda oportunidade para se desenvolver em áreas distintas da sua, além de permitir que se criem vínculos poderosos com outros profissionais. Além disso, permite que se desenvolva uma visão privilegiada do negócio como um todo. Como resultado, você se torna um profissional muito mais completo.

Além disso, o fato de ter participado de tudo isso no começo me permitiu ajudar da construção de alguns dos alicerces de toda essa indústria. Muita coisa que se vê hoje espalhada por sites e aplicativos em todo lugar surgiu daquela efervescência criativa contínua e incansável.

 

O valor da equipe

Naturalmente eu não fiz nada daquilo sozinho. Ainda que fôssemos poucos (e quase sempre incompreendidos), a turma que iniciou a FolhaWeb e o UOL –e alguns anos depois a AOL, onde também trabalhei e ajudei na sua vinda ao Brasil– era composta de um grupo multidisciplinar incrível. As pessoas ali sabiam realmente o que era trabalhar em equipe, pois –talvez até mesmo pelo descrito acima– todos estavam dispostos a oferecer seu melhor não apenas para suas tarefas pessoais, mas também para ajudar seus companheiros no que tinham que fazer.

Sim, aquilo era trabalho, mas não era “apenas trabalho”. Em maior ou menor grau, sabíamos que algo genial estava nascendo ali. Costumo dizer que, já na America Online, o grupo pioneiro de profissionais não ia ao escritório para trabalhar, mas sim para mudar o mundo um pouco a cada dia, todos os dias.

O fato é que nada daquilo teria acontecido se cada um resolvesse fazer apenas o seu. Nunca temos sozinhos todos os recursos necessários para fazer uma grande ideia alçar voos mais altos. Precisamos do outro e do que ele sabe. Temos que estar dispostos a falar e a ouvir, a dar e a receber.

Se não fosse assim, aquele começo da Internet teria sido muito mais difícil. E, quem sabe, aquilo que meus amigos disseram, que não passava de um “modismo”, ganhasse ares mais verdadeiros.

Ainda bem que escolhemos todos o melhor caminho. E você, que caminho quer escolher?


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“Onde fica essa tal de Internet?”

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Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995 - Imagem: reprodução

Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995

Há exatos, 20 anos, eu colocava no ar a FolhaWeb, primeira iniciativa da Folha na então recém-nascida Internet comercial. Aquilo foi um caldeirão de inventividade sem limites, muito trabalho e diversão, e algum risco.

“Você vai enterrar sua carreira nisso!” “Internet é só um modismo que não vai pegar!”

Ouvi frases como essas aos montões de colegas do jornal, que viam a Internet como uma bobagem de nerds que nunca deveria ter deixado os limites das universidades. Quando eu propus a entrada da Folha na Web, em janeiro de 1995, eu era repórter de Ciência. Quando decidi deixar o jornal para cuidar apenas do rebento digital, que já tinha completado um mês no ar, era editor-interino. Poderia ter mesmo continuado cuidando da minha carreira no impresso, que estava decolando. E, naquela época, quem diria que os jornais chegariam à situação que enfrentam hoje?

Felizmente não dei atenção àqueles colegas, e fui em frente!

Mesmo porque não havia sido fácil conseguir publicar aquele pequeno site, e não queria perder o pouco que tinha conseguido. Eu e meu editor, Claudio Cssillag, ficamos sovando a direção do jornal por meses para conseguir a autorização para a iniciativa. Enquanto ouvíamos perguntas do tipo “onde fica essa tal de Internet” ou “para quem terei que pagar para publicar na Internet”, todos os jornalões brasileiros publicavam suas versões online primitivas.

O pulo do gato para conseguirmos a liberação foi a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que, naquele ano, aconteceria no Rio de Janeiro. A Folha cobriria o evento, como fazia todos os anos. Meu editor teve então a brilhante ideia de propor a “primeira cobertura online do Brasil”. Entendam: isso não tinha, nem de longe, qualquer semelhança com uma cobertura online de hoje. Basicamente eu publicava à noite as notícias sobre o evento que estariam no jornal do dia seguinte. Mas o uso da palavra “primeira”, muito apreciada no jornal, foi um golpe de mestre do meu colega.

Além disso, alguns dias antes, a Folha havia dado ampla cobertura à Parada LGBT que havia acontecido no Rio de Janeiro, uma das primeiras do gênero no Brasil. “Já que demos tanto espaço aos gays, vamos dar agora aos cientistas”, ouvi na época. E assim o projeto foi liberado.

Assim, depois de realizar minhas tarefas diárias no jornal, ia até a sala do então gerente técnico da Agência Folha, Lelivaldo Marques Filho, parceiro no desenvolvimento das primeiríssimas páginas, que também contaram com a ajuda técnica de Sérgio Esteves, analista de sistema da Folha. Tudo sob a batuta de Marion Strecker, diretora da Agência na época. E, como previsto, no dia 9 e julho, há 20 anos, as matérias enviadas por Ricardo Bonalume Neto, repórter da Folha na reunião da SBPC, foram para o ar na espartana página vista acima. A criação do logo ficou a cargo de Cássio Leitão. Elas estavam acompanhadas por alguns outros conteúdos, como o noticiário das editorias de Ciências e de Informática, e a coluna Netvox, da Maria Ercilia, uma das primeiras pessoas a escrever sobre Internet no Brasil.

O trabalho era artesanal. O código HTML de cada página era editado na mão, em Word. A princípio, uma ferramenta inadequada para o trabalho, mas eu havia criado nele macros que transformavam os comandos do sistema de publicação do jornal em equivalentes na linguagem da Internet. Isso agilizava bastante o trabalho de importação do conteúdo do jornal.

A Folha possuía outra iniciativa de digitalização correndo em paralelo, no Banco de Dados, porém não visava criar um site na Web. Esse grupo, capitaneado por Rodrigo Santaliestra e Margot Pavan, uniu-se à FolhaWeb poucas semanas depois.

Além dos dois e das pessoas citadas anteriormente, que já trabalhavam na casa, a FolhaWeb começou a contratar gente especificamente para o projeto: Thania Thadeu, Luciana Saito e Kerly Tanaka, todas reforços editoriais. E a salinha onde trabalhávamos definitivamente ficou pequena…

Foram meses intensos, quase selvagens. É muito raro ter a oportunidade de participar da criação de não apenas um produto, mas um verdadeiro novo meio de comunicação, especialmente um que foi o de mais rápida adoção pelas pessoas e provavelmente o que alterou suas vidas de maneira mais dramática em apenas poucos anos. Ter participado da gestação da FolhaWeb foi um ópio, uma experiência arrebatadora em que tudo se podia, pois não havia parâmetros, não havia literatura, não havia concorrentes, nada! E ter feito tudo isso com as pessoas citadas foi um privilégio.

Antes que o ano acabasse, Caio Túlio Costa já estava no barco, preparando a transformação da FolhaWeb no Universo Online, que se concretizaria no dia 28 de abril de1996. Mas essa é outra história…