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Jared Horvath no Senado americano: “nossos filhos são cognitivamente menos capazes do que nós éramos na idade deles” – Foto: reprodução

Afirmar que a Geração Z é menos inteligente que as anteriores embute uma perigosa generalização

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No dia 15 de janeiro, o neurocientista Jared Horvath declarou no Senado americano que “nossos filhos são cognitivamente menos capazes do que nós éramos na idade deles”. Talvez pela sua contundência e por um estilo um tanto performático, a frase inundou as redes sociais, atropelando o debate acadêmico e sendo ampliada para afirmações mais alarmistas, como a de que “a Geração Z seria a primeira geração menos inteligente do que a anterior”.

Os senadores americanos investigam o impacto da tecnologia no desenvolvimento cognitivo e bem-estar de crianças e adolescentes. Horvath defende firmemente que a tecnologia digital prejudica o aprendizado nas escolas. Mas ele mesmo explica que isso não pode ser confundido com menos inteligência.

Como pesquisador, defendo a tecnologia como uma ferramenta capaz de ampliar nossa capacidade de pensar, mas isso só acontece se for conscientemente usada com esse propósito, o que acontece pouco. Ao mesmo tempo, apoio a restrição de telas na escola a atividades estritamente acadêmicas e sob orientação de professores.

O problema se agrava quando os jovens usam esses recursos fora da escola, pois normalmente fazem isso sem orientação e até supervisão de um adulto capacitado. Isso conversa com as recentes proibições de redes sociais a crianças e adolescentes na Austrália e na França, movimento que pode ser replicado na Espanha, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido. No Brasil, o ECA Digital começa a valer no dia 18 de março, restringindo o uso de redes sociais por menores, mas sem barrar as plataformas.

Dizer simplesmente que os jovens são menos inteligentes que seus pais é como fogo em mato seco nas redes sociais. Mas essa informação, além de imprecisa, contamina um debate já muito polarizado entre pais, educadores e as big techs. Não se podem negar os gravíssimos impactos do meio digital em crianças e adolescentes, que vão muito além da educação, mas soluções eficientes exigem equilíbrio e racionalidade.


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Há sinais de transformação nas capacidades cognitivas por mudanças educacionais, culturais e tecnológicas. Mas transformar esse fenômeno complexo em um diagnóstico simplista empobrece o debate e obscurece a questão central de como lidar com uma geração que pensa de forma diferente, sem confundir mudança com decadência.

O ponto de partida é o chamado “Efeito Flynn”. O pesquisador americano James Flynn identificou, ao longo do século XX, um aumento consistente de três pontos por década nos resultados de testes de QI em diversos países. Isso foi associado a melhorias em nutrição, escolarização, saúde e ambiente cognitivo, e não a uma evolução biológica. Essas mudanças favoreceram, portanto, certas habilidades medidas pelos testes.

Porém, a partir da década de 1990, pesquisadores começaram a observar uma estagnação nesse crescimento e, em alguns aspectos, uma queda, o que foi chamado de “Efeito Flynn Reverso”. Novamente, a causa não seria biológica, e sim transformações educacionais, hábitos culturais e padrões de leitura.

É preciso entender que testes de QI não medem inteligência. Se medissem e se esses índices cresceram três pontos por década, isso indicaria que a população dos anos 1900 seria composta majoritariamente por indivíduos com deficiência intelectual, enquanto hoje seríamos todos gênios, o que não é verdade em nenhum dos dois casos.

Vale notar também que pesquisas indicam que o desempenho dos adolescentes atuais em testes altamente visuais e externamente guiados continua crescendo, mas diminui nos que dependem de linguagem, memória e manipulação mental sem apoio visual. Isso sugere uma dependência crescente desses estímulos.

O próprio Flynn defendia que eventuais altas e quedas seriam explicadas por fatores ambientais complexos, e não por um único elemento. Para ele, as pessoas melhoravam nos testes porque estavam sujeitas a mais escolarização, pensamento abstrato e tecnologias simbólicas, que “treinam” o que os testes cobram. Por isso, afirmava que diferentes épocas produzem diferentes perfis cognitivos, adaptados às ferramentas e problemas predominantes no momento.

Há evidências crescentes de que os mais jovens apresentam dificuldade em leitura profunda e compreensão, fluência verbal, atenção sustentada, resiliência e raciocínio numérico e verbal. Por outro lado, destacam-se em proficiência tecnológica, multitarefa, criatividade, empreendedorismo, aprendizado contínuo e raciocínio espacial.

 

Como e o que aprendemos

Há uma forte correlação entre esses ganhos e essas perdas e o uso de recursos digitais pelos mais jovens. Isso sugere que a tecnologia impacta não a nossa inteligência, mas como e o que aprendemos.

Redes sociais não são criadas para informar ou educar. O objetivo das big techs é manter o público engajado, aumentando seus lucros. Isso normalmente é feito com estímulos que privilegiam a superficialidade e o imediatismo, com microdoses contínuas de dopamina. Os smartphones surgem como aliados perfeitos, pois entregam esses estímulos a qualquer hora e em qualquer lugar, de uma maneira muito mais sedutora que a escola.

Agora, o uso inadequado da inteligência artificial pode empobrecer processos mentais, quando ela substitui etapas de reflexão, investigação e verificação, por não apenas fornecer dados, mas organizar argumentos, produzir sínteses e concluir. Novamente, o risco não é “ficar menos inteligente”, mas deixar de exercitar competências essenciais, como formulação de hipóteses e pensamento crítico.

“Em vez de determinarmos o que queremos que nossos filhos façam e direcionarmos a educação para isso, estamos redefinindo a educação para que ela se adapte melhor à ferramenta”, disse Horvath aos senadores. “Isso não é progresso, é rendição”, decretou.

Apesar do debate em torno dos mais jovens, tudo isso se aplica a pessoas de qualquer idade. A imersão digital é inevitável, e talvez aí resida o grande desafio. Os adultos não conseguem resistir à sua sedução, mesmo quando é nociva. Assim, fracassam em orientar os mais jovens para que usem a tecnologia para que aprendam mais e pensem melhor.

Nossa inteligência sempre evoluiu com ferramentas. Temos que garantir que as tecnologias digitais não nos escravizem pelos interesses de magnatas do Vale do Silício. Pelo contrário, devem ampliar nossas capacidades cognitivas. Mas só teremos sucesso com seriedade no debate, ações construtivas e responsabilização de todos.

 

“Medo do ChatGPT” não pode impedir o avanço tecnológico

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Tecnologias muito inovadoras costumam gerar igualmente expectativa e temor, diante de suas possibilidades. Por ainda não dominarmos totalmente seus recursos, não temos real dimensão do que podem provocar em nossas vidas. Diante disso, há sempre o grupo dos “deslumbrados” –que abraçam o novo como se não houvesse amanhã– e o dos “resistentes” –que evitam seu uso tanto quanto possível.

Não dá para segurar o futuro, mas ele precisa ser bem compreendido!

A “bola da vez” nesse cenário é o ChatGPT. Desde que foi lançado, no dia 30 de novembro, a plataforma de inteligência artificial ocupa o centro do debate tecnológico. Sua incrível capacidade de produzir textos complexos a partir de comandos simples impressiona e vem provocando questionamentos até sobre o futuro de profissões que antes se sentiam “seguras” contra uma eventual substituição por máquinas.

O que o torna tão único é que sua automação avança sobre o campo cognitivo, capaz de criar conceitos e de responder de maneira convincente praticamente qualquer pergunta. Com isso, muitos temem que ele abra portas para um “emburrecimento” da humanidade, com pessoas preguiçosas demais para pensar, ficando ainda mais dependentes das máquinas.

Para muita gente, isso jamais acontecerá! Mas esse medo propõe um debate válido.


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Nessa hora, não dá para não lembrar da animação “Wall-E” (2008). Na história, a Terra se tornou inabitável no futuro pela quantidade de lixo que a humanidade produziu. As pessoas então abandonam o planeta, passando a viver em gigantescas espaçonaves, onde até suas mínimas necessidades eram atendidas por robôs. Nem andar precisavam, pois passavam o tempo todo sobre cadeiras móveis.

Tanta comodidade teve efeitos nefastos, porque várias gerações viveram nesses gigantescos “cruzeiros espaciais”. Sem perceberem, passaram aos poucos a serem dominadas pela inteligência artificial. Até andar ficava difícil, pois nunca abandonavam suas cadeiras, ganhando muito peso e ficando com músculos atrofiados.

Não é o que está acontecendo agora, naturalmente. Mas se passarmos a ter máquinas que façam tudo por nós (até “pensar”), isso pode, sim, levar a consequências indesejadas. Afinal, máquinas são ferramentas que devem nos ajudar a realizar nossas tarefas, e não que façam tudo por nós.

Por outro lado, essa hipótese indesejável não pode servir de motivo para “impedirmos o futuro”. Como cantava Elis Regina, “o novo sempre vem”. O que temos que fazer é entendermos tudo que chega com ele, para aproveitarmos o que traz de bom e contornarmos o que for indesejável.

“O ChatGPT ainda é um assunto muito novo, mas o medo das mudanças tecnológicas já é bem tratado”, explica Rodrigo Guerra, doutorando do Departamento de Políticas Científicas e Tecnológicas da Unicamp. “Ele deixou mais concreta a visão de que a inteligência artificial pode substituir o homem agora no trabalho cognitivo”, acrescenta.

Existe um fator ético associado a esse medo. Em muitas ocasiões, empresas como a OpenAI, criadora do ChatGPT, lançam produtos sem um debate com a sociedade e sem avaliar adequadamente possíveis consequências disso. Fazendo outro paralelo com “Wall-E”, o que tornou a Terra inabitável foi um consumismo desenfreado das pessoas, promovido pela megacorporação Buy-n-Large. Ironicamente, as naves que “salvaram” a humanidade (mas provocaram todos aqueles “efeitos colaterais”) também eram da empresa, indicando que o problema se perpetuava.

“Aí entra a importância do pensamento crítico e da capacidade do ser humano de gerar narrativas próprias para pensar eticamente essas tecnologias”, sugere Marina Martinelli, doutoranda em 5G pela Unicamp. Para ela, “temos que pensar nessas ferramentas disruptivas para que funcionem de forma que a sociedade evolua e caminhe para frente”.

 

A dor da mudança

Costumamos olhar para o lado bom de tecnologias estabelecidas, mas raramente pensamos nos problemas que muitas delas provocaram quando surgiram. O exemplo mais emblemático disso foi a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII.

Ninguém sequer cogita um mundo sem indústrias. Mas quando as primeiras fábricas surgiram, elas levaram a dolorosas mudanças sociais, com artesãos ficando sem trabalho, enquanto multidões operavam as máquinas nas fábricas, com jornadas de trabalho extenuantes e sem qualquer cuidado.

Eventualmente a sociedade encontrou um equilíbrio para que aqueles problemas fossem controlados, restando benefícios cada vez mais para todos. “Depois que a transição acaba e entra na fase mais estável, todo mundo aproveita”, explica Guerra.

É natural que busquemos máquinas que tornem nossas vidas mais fáceis. Um carro permite que percorramos grandes distâncias rapidamente e com conforto, muito mais que a cavalo ou andando a pé. Mas não por isso deixamos totalmente de andar! Pelo contrário, hoje a sociedade combate conscientemente os riscos do sedentarismo.

Nesse sentido, o medo de tecnologias como o ChatGPT levarem pessoas a pensar menos não é de todo infundado. E, sendo claro, muitas pessoas farão isso tanto quanto puderem, assim como deixam de fazer contas quando têm acesso a uma calculadora.

Nosso papel é evitar que isso aconteça de maneira descontrolada, levando a esse temido “embrutecimento mental”. Essa e outras tecnologias continuarão chegando, cada vez mais fantásticas e cada vez mais acessíveis. Mas elas não podem deixar de ser vistas como ferramentas!

Ironicamente, a melhor maneira para isso é ampliar o uso dessas plataformas, ao invés de proibi-las, como algumas pessoas propõem. E isso deve ser feito com o apoio e, se possível, a supervisão de professores, que expliquem como usar tanto poder para expandir nossas possibilidades mentais, ao invés de comprometê-las.

Como seria a vida de alguém hoje, que não soubesse usar, ainda que minimamente, um computador ou um smartphone? Essa pessoa provavelmente teria até dificuldade para conseguir um emprego, mesmo básico!

Em muito pouco tempo, a inteligência artificial será tão popular em nosso cotidiano quanto esses equipamentos. Estamos naquele momento doloroso de mais uma transição tecnológica, mas para Martinelli, todo esse barulho em torno do ChatGPT “é muita fumaça e pouco fogo”.

Essa é a hora em que temos justamente que abraçar a novidade sem medo, mas também sem deslumbramento. Como na maioria das coisas da vida, o melhor caminho é aquele que se afasta de qualquer extremo. Não abrace nem os “deslumbrados” e nem os “resistentes”.