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O premiado cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que teve o cartaz de seu novo filme, “Madres Paralelas”, censurado pelo Instagram

As pessoas podem emburrecer a inteligência artificial

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Nesse exato momento, um sistema de inteligência artificial pode estar tomando uma decisão em seu nome! Mas, apesar de sua incrível capacidade computacional, não há garantia de que esteja fazendo a melhor escolha. E, em muitos casos, os responsáveis pela falha são outros usuários.

Vivemos isso diariamente e o exemplo mais emblemático são as redes sociais. Essas plataformas decidem o que devemos saber, com quem devemos falar e sugerem o que devemos consumir. E são extremamente eficientes nesse propósito, ao exibir sem parar, em um ambiente em que passamos várias horas todos os dias, o que consideram bom e ao esconder o que acham menos adequado.

Alguns acontecimentos recentes reforçam isso, demonstrando que esses sistemas podem tirar de nós coisas que, na verdade, seriam muito úteis para nosso crescimento. Não fazem isso porque são “maus”, e sim por seguirem regras rígidas ou por estarem sendo influenciados por uma minoria de usuários intolerantes. E pessoas assim podem ser incrivelmente persistentes ao tentar impor suas visões de mundo, algo a que esses sistemas são particularmente suscetíveis.

No final das contas, apesar de a inteligência artificial não ter índole, ela pode desenvolver vieses, que refletem a visão de mundo das pessoas a sua volta.


Veja esse artigo em vídeo:


Um exemplo recente disso foi a censura pelo Instagram do cartaz do novo filme do premiado diretor espanhol Pedro Almodóvar. O pôster de “Madres Paralelas” traz um mamilo escorrendo uma gota de leite dentro de um contorno amendoado, dando ao conjunto a aparência de um olho derramando uma lágrima. O autor da peça é o designer espanhol Javier Jaén.

O algoritmo do Instagram identificou o mamilo, mas não foi capaz de interpretar a nuance artística envolvida. Como há uma regra nessa rede que proíbe fotos em que apareçam mamilos, para combater pornografia, a imagem foi sumariamente banida da plataforma. Depois de muitos protestos, incluindo de Almodóvar e de Jaén, o Facebook (que é dono do Instagram) se desculpou e restaurou os posts com o cartaz, explicando que, apesar das regras contra a nudez, ela é permitida “em certas circunstâncias, incluindo quando há um contexto artístico claro”.

Não é de hoje que o Instagram cria polêmicas ao bloquear imagens e até suspender usuários por decisões equivocadas de seus algoritmos. Um caso recorrente há anos são fotos de mulheres amamentando. Oras, amamentação só é pornografia na cabeça de pervertidos… e de alguns algoritmos.

O sistema é bastante inteligente para identificar um mamilo entre milhões de fotos, mas muito burro para interpretar os contextos. Ironicamente vemos baldes de fotos com proposta altamente sexualizada no mesmo Instagram, que “passam” porque os mesmos mamilos são cobertos, às vezes com rabiscos grosseiros sobre a foto.

Ou seja, quem age naturalmente, com algo que está dentro do que a humanidade considera normal e até positivo pode ser punido. Por outro lado, quem “joga com o regulamento debaixo do braço” (como se diz nos torneios esportivos) pode driblar o sistema para atingir seus objetivos impunemente.

 

Ferramenta de intolerância

Em um programa de computador convencional, o desenvolvedor determina que, se uma condição A acontecer, o sistema deve executar a ação B. Nesse modelo, o profissional deve parametrizar todas as possibilidades, para que a máquina opere normalmente.

Na inteligência artificial, não se sabe de antemão quais condições podem acontecer. O sistema é instruído a tomar ações seguindo regras mais amplas, que são ajustadas com o uso.

A máquina efetivamente é capaz de aprender o que seus usuários consideram melhor para si. Com isso, suas ações tenderiam a ser mais eficientes segundo o que cada pessoa aprova e também pela influência do grupo social que atende.

O problema surge quando muitas pessoas que usam um dado sistema são intolerantes ou têm valores questionáveis. Nesse caso, elas podem, intencionalmente ou não, corromper a plataforma, que se transforma em uma caixa de ressonância de suas ideias.

Um dos exemplos mais emblemáticos disso foi a ferramenta Tay, lançada pela Microsoft em março de 2016. Ela dava vida a uma conta no Twitter para conversar e aprender com os usuários, mas ficou apenas 24 horas no ar.

Tay “nasceu” como uma “adolescente descolada”, mas, depois de conversar com milhares de pessoas (muitas delas mal-intencionadas) rapidamente desenvolveu uma personalidade racista, xenófoba e sexista. Por exemplo, ela começou a defender Adolf Hitler e seus ideais nazistas, atacar feministas, apoiar propostas do então candidato à presidência americana Donald Trump e se declarar viciada em sexo.

A Microsoft tirou o sistema do ar, mas o perfil no Twitter ainda existe, apesar de ser agora restrito a convidados, não ter mais atualizações e de os piores tuítes terem sido excluídos. A ideia é promover a reflexão de como sistemas de inteligência artificial podem influenciar pessoas, mas também ser influenciados por elas.

 

Tomando decisões comerciais

Em maio de 2018, o Google deixou muita gente de boca aberta com o anúncio de seu Duplex, um sistema de inteligência artificial capaz de fazer ligações para, por exemplo, fazer reservas em um restaurante. Na apresentação feita no evento Google I/O pelo CEO, Sundar Pichai, a plataforma simulava com perfeição a fala de um ser humano e era capaz de lidar, em tempo real, como imprevistos da conversa.

O produto já foi integrado ao Google Assistente na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos, na Nova Zelândia e no Reino Unido. Mas, diante da polêmica em que muita gente disse que se sentiria desconfortável de falar com um sistema pensando que fosse outra pessoa, agora as ligações do Duplex informam ao interlocutor, logo no começo, que está falando com uma máquina.

No final de 2019, fui convidado pela Microsoft para conhecer o protótipo de um assistente virtual que ia ainda mais longe, sendo capaz até de tomar decisões comerciais em nome do usuário. Muito impressionante, mas questionei ao executivo que a apresentou qual a certeza que eu teria de que a escolha feita pelo sistema seria realmente a melhor para mim, sem nenhum viés criado por interesses comerciais da empresa.

Segundo ele, o uso de uma plataforma como essa implicaria em uma relação de confiança entre o usuário e ela. O sistema precisa efetivamente se esforçar para trazer as melhores opções. Caso contrário, se tomar muitas decisões erradas, ele tende a ser abandonado pelo usuário.

Essa é uma resposta legítima, e espero que realmente aconteça assim, pois o que vi ali parecia bom demais para ser verdade, apesar da promessa de que estaria disponível no mercado em um horizonte de cinco anos. Mas infelizmente o que vemos hoje nas redes sociais, que nos empurram goela abaixo o que os anunciantes determinam, coloca em xeque a capacidade de as empresas cumprirem essa promessa.

O fato é que a inteligência artificial está totalmente integrada ao nosso cotidiano, e isso só aumentará. Com seu crescente poder de influência sobre nós, os desenvolvedores precisam criar mecanismos para garantir que esses sistemas não abandonem valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade e o respeito ao próximo, por mais que existam interesses comerciais ou influências nefastas de alguns usuários.

Quanto a nós, os humanos que se beneficiam de todos esses recursos e que têm o poder de calibrá-los para que nos atendam cada vez melhor, precisamos ajustar nossos próprios valores, para que não caiamos nesse mesmo buraco moral.

Pare de se SABOTAR e comece a INOVAR!

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O incrível e maluco Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd, à esquerda) tenta usar uma invenção em Marty McFly (Michael J. Fox), no filme “De Volta para o Futuro” – Imagem: divulgação

O incrível e maluco Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd, à esquerda) tenta usar uma invenção em Marty McFly (Michael J. Fox), no filme “De Volta para o Futuro”

Inovar se tornou um mantra para sucesso de empresas e na carreira. Algumas das companhias mais admiradas do mundo –como Google, Apple, Facebook, Microsoft– são reconhecidas pela constante inovação, e seus funcionários parecem ter essa capacidade em seu DNA. Mas se inovar goza desse consenso, por que vemos tão poucas empresas e profissionais inovando?

A resposta é simples, porém dura: nós inovamos pouco porque nós nos sabotamos o tempo todo! Não porque ficamos malucos ou masoquistas, mas porque o nosso sistema de ensino forma, ano após ano, jovens com uma visão de mundo que talvez ainda funcionasse bem há uns 50 anos, mas que hoje freia a evolução de cada um de nós.


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Aprendemos a valorizar conquistas do passado, tradição e solidez de marcas e empresas e a tentar proteger ganhos existentes. Damos enorme atenção à “cash cow”, mesmo quando ela estiver cercada de vários bezerrinhos promissores. Afinal é ela quem dá o leite, até para os tais filhotes.

Nada mais equivocado! Era assim que a Kodak pensava: afinal tinha uma vaca muito gorda e bem estabelecida nos filmes fotográficos. Nunca deu muita bola para aquele bezerro da fotografia digital, que nasceu meio desengonçado no seu próprio curral.

Mas o bezerro renegado cresceu e engoliu a Kodak com leite!

 

Competitividade X inovação

Nossa educação também nos ensina a sermos muito competitivos, de preferência os melhores da sala, da escola. Quando deixamos os bancos escolares, continuamos querendo ser os melhores, inclusive os melhores da empresa. Muitos de nós podemos achar isso bacana, mas essa prática embute algo terrível para o processo de inovação: se estivermos muito ocupados sendo competitivos, esqueceremos de sermos colaborativos.

Grandes ideias cada vez mais são resultado do trabalho de muitas mentes e muitas mãos. Por mais que exista um gênio criativo, sempre existe alguém para complementar suas habilidades. Mesmo nas megacompanhias acima, as grandes ideias vieram de duplas (apoiadas por seus times): respectivamente Larry Page e Sergey Brin, Steve Jobs e Steve Wozniack, Mark Zuckerberg e (heh!) Eduardo Saverin, Bill Gates e Steve Ballmer.

Há ainda uma terceira e perversa característica que nossas escolas plantam em nossos corações para que nos sabotemos mais tarde: a Intolerância a falhas. Em sistemas de avaliação compostos de provas e trabalhos que punem severamente os erros com a perda de nota, os estudantes aprendem a não ousar, pois isso aumenta implicitamente a chance de cometer algum deslize. Ao invés disso, procuram fazer apenas o essencial e “seguro” para garantir a aprovação. Não precisa ser gênio para perceber que isso envenena as sementes da inovação no momento em que elas cogitavam germinar.

O guru da administração Tom Peters costuma dizer que “o fracasso é uma medalha de honra”, pois ele demonstra que se tentou. E conclui: a única maneira de não fracassar em algo é não tentar. Mas essa também é a garantia de que não se atingirá o sucesso em nada.

Então como podemos inovar diante de um cenário desses?

 

Olhe para frente!

Conduzir um negócio ou a própria carreira dessa forma é como dirigir um carro olhando para o retrovisor. Confiamos no que já passou e esquecemos de olhar para onde realmente importa: a estrada à nossa frente.

Os pontos negativos citados acima precisam ser substituídos por coragem, curiosidade e a vontade de aprender! Ou seja, temos que cortejar a vontade de correr riscos, pois “o fracasso é ingrediente do sucesso”, novamente citando Peters.

Todos nós já passamos por isso, especialmente na nossa infância e adolescência. Quem não se lembra daquele frio na barriga, misto de medo e excitação, antes de entrar em uma montanha russa pela primeira vez? Ou antes do primeiro beijo? É verdade que muitos acabaram desistindo na primeira vez, talvez até nas seguintes também. Mas em algum momento aquele beijo teve que acontecer! E isso só se deu quando a coragem superou o receio, a curiosidade foi maior que a dúvida e a vontade de aprender nos levou a explorar ainda mais o mundo.

Não podemos aceitar que isso ficou enterrado em algum momento na nossa adolescência. Mas a maioria dos adultos age exatamente dessa forma! Nós nos acomodamos naquilo que conhecemos e dominamos: nos encastelamos ali como senhores da verdade.

Mas longe de ser uma fortaleza, isso é uma vulnerabilidade, pois impede que enxerguemos o novo à nossa volta. E não se engane: a mudança sempre chegará!

Isso me lembra uma experiência profissional que tive. Eu era responsável pela criação dos produtos digitais do grupo. Modéstia à parte, minha equipe e eu propúnhamos algumas coisas realmente interessantes e inovadoras. Mas quando as apresentávamos ao conselho de acionistas, invariavelmente acontecia um diálogo mais ou menos assim:

“Isso não vai ameaçar os nossos principais produtos?”

“Sim” –eu respondia.  “Mas, se nós não fizermos isso, alguém fará.”

“Ah, mas se é assim, não podemos fazer isso, não.”

A ideia era arquivada. E, como eu suspeitava, mais cedo ou mais tarde, alguém tinha a mesma ideia e fazia.

Dos tais “principais produtos”, dois já morreram e o que restou respira por aparelhos.

 

Seja honesto e aprenda a ouvir

Outro resquício da nossa educação que permeia empresas e profissionais é que devemos estar sempre “bonitos na foto”, coisa que, aliás, está bem na moda. Como dizia o meu pai, “come frango e arrota peru”.

Mas nem sempre acertamos. Nossa natureza humana é a garantia de que, de vez em quando, é o “frango” mesmo que aparecerá –ou algo ainda pior.

Profissionais e empresas precisam aprender que isso não é nenhum demérito. E que eventuais críticas podem ser uma oportunidade de ouro de vermos nossas imperfeições por um outro ângulo, para que aprendamos a melhorar.

A tecnologia está deixando o mundo cada vez mais transparente. Por isso, empresas que tentam encobrir suas falhas e até mesmo apagar comentários negativos podem, na melhor das hipóteses, passar por ridículas e, na pior, sofrer duríssimos golpes nos seus negócios.

Não basta ser honesto e transparente apenas para fora, com consumidores, governo e opinião pública. A inovação acontece de maneira mais rápida e natural em companhias que agem dessa forma sincera também para dentro, com seus funcionários, sem demagogia ou cortinas de fumaça. É preciso mudar não apenas as palavras, mas também as ações, inclusive na cultura da companhia.

Relembrando novamente a empresa que mencionei acima, de que adiantava o CEO nos dizer que deveríamos “pular no abismo” (no sentido de inovar), se o Conselho nos agarrava pelos pés?

Inovação é um processo incrível e libertador! Não se inova coletando mais informação, aplicando novos e eficientes processos, implantando tecnologia de ponta. Esses todos são elementos, ferramentas que podem ajudar.

Mas a inovação só acontece mesmo quando aceitamos que somos vulneráveis e que sempre podemos aprender algo novo. Aventure-se!


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Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto?

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Imagem: reprodução

No Estadão de ontem, Eugênio Bucci se baseou em uma charge que tem circulado pelo Facebook para fazer uma interessante análise sobre como a atividade jornalística deveria ser financiada. Ele defende algo que já foi tratado aqui no dia 7 de novembro: para uma imprensa realmente livre, o financiamento deve vir de seu público.

Mas não é apenas com dinheiro que esse financiamento pode ser feito, como o próprio jornalista explica. E justamente aí entra a charge, reproduzida acima e publicada originalmente no site Geek and Poke (sem a pertinente crítica ao Facebook). Resumidamente, se você não está pagando em cash pela notícia, está aceitando que o veículo venda uma parcela da sua atenção aos anunciantes. E aí você deixaria de ser o cliente e passaria a ser o produto.

Isso não é nada novo: toda a TV aberta (e não apenas seus produtos jornalísticos), com seus custos de produção altíssimos, sempre foi mantida pela publicidade. Nesse caso, o público sempre foi o produto, consciente disso. A novidade é que esse modelo está extrapolando suas formas tradicionais.

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto? Temos, por exemplo, o Positivo, fabricante de computadores que se firmou no mercado com uma imagem de equipamentos com preços baixos. Como forma de ampliar os seus ganhos, a empresa agora quer colocar anúncios na área de trabalho do Windows de seus consumidores e até nas caixas de seus computadores.

A gigantesca Microsoft também embarcou nessa onda, inspirada no seu rival Google, que espalha seus microanúncios pelos seus produtos. O Office Starter, versão light do seu pacote de escritórios com apenas o Word e com o Excel, vem pré-instalado em computadores e pode ser usado gratuitamente, desde que o usuário não se importe com os anúncios que exibe.

Aplicativos para smartphones, mesmo os que custam um mísero US$ 1, também costumam oferecer uma versão completamente gratuita, subsidiada pela exibição de anúncios. Pagando pelo produto, os anúncios desaparecem.

O fato: em maior ou menor grau, as pessoas parecem não se importar muito com essa invasão publicitária, principalmente em produtos que foram concebidos com a presença dos anúncios. Dessa forma, se incomodam mais com os anúncios ocupando espaço na sua tela do Word que com anúncios em produtos jornalísticos.

Será esse o caminho que o jornalismo deve seguir para se sustentar?

Separação Igreja-Estado

É uma possibilidade a ser considerada, com serenidade. Outros modelos já discutidos aqui, como o “soft paywall” do The New York Times, também podem render frutos. Mas as empresas de comunicação precisam aceitar o fato de que o público resiste em desembolsar seus cobres pelo noticiário.

Caso decidam ampliar o caminho da publicidade, os publishers precisam reforçar o conceito da “separação Igreja-Estado”. Ou seja, decisões comerciais não podem influenciar o noticiário, e vice-versa. Dessa forma, a Redação deve ter liberdade para criticar uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante.

Bucci explica o motivo em seu artigo: mesmo em um ambiente financiado por publicidade, o público deve ser considerado como o verdadeiro cliente, pois é apenas por causa dele que os anunciantes colocam dinheiro nos veículos. Dessa forma, tem o direito de receber um produto jornalístico isento e focado em seus interesses.

As empresas estão dispostas a fazer isso? No mundo ideal, sim; na prática, poucas são capazes de levar esse conceito até o fim.

Os publishers devem avaliar esses dois conceitos –maneiras criativas de financiamento por publicidade e a garantia da independência editorial– com muita atenção. O mundo quer o público como produto e as próprias pessoas parecem topar essa situação. Mas os jornalistas nunca devem deixar de encará-las como os seus verdadeiros clientes. Qualquer que seja o modelo de financiamento, a essência do jornalismo passa por garantir um noticiário isento.

Tirem os advogados, tragam os engenheiros

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A bandeira pirata hasteada à frente da sede da Apple em 1983

A bandeira pirata hasteada à frente da sede da Apple em 1983

A Apple acaba de ganhar mais um round contra a Samsung: dessa vez, impediu que sua filial alemã distribua o Galaxy Tab 2, de 10,1 polegadas. Apesar de provavelmente não trazer muitos efeitos práticos, pois os aparelhos poderão ser trazidos de outras partes do mundo para ser vendidos na Alemanha, é mais um capítulo de uma guerra travada por advogados das duas empresas. A Samsung contra-ataca com processos contra a Apple, também por violação de patentes.

Ninguém sugere que uma companhia não defenda seus investimentos milionários em pesquisa, mas não deixa de ser irônico ver a Apple tentando impedir que outras companhias lancem produtos que, digamos, se pareçam muito aos seus.

Vale aqui uma pequena aula de história da indústria de microinformática. No início dos anos 1980, quando a Apple atingiu o topo pela primeira vez, com seu Apple II, a empresa investiu em uma nova tecnologia: a interface gráfica, que viabilizou o seu Apple Lisa e, logo na sequência, o primeiro Macintosh.

A referida ironia está no fato de que a primeira interface gráfica e o mouse não terem sido inventados pela Apple, e sim por um grupo de pesquisa da Xerox. Os executivos dessa última não deram a menor bola para a criação de seus engenheiros. Pior que isso: abriram caminho para que Steve Jobs e sua turma literalmente se apropriassem dessa tecnologia e praticamente assumissem a sua paternidade. Não é de se espantar que, à frente da sede da Apple, a bandeira pirata estilizada (acima) ficasse hasteada.

Logo depois, a Apple provou do próprio veneno, quando a Microsoft se “inspirou” no Mac para lançar o seu Windows. Esses dois “roubos”, o da Apple e o da Microsoft, estão magistralmente representados no vídeo abaixo, um trecho do filme “Piratas da Informática” (“Pirates of the Silicon Valley”, no original):

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JDPQABGyId4]

A Apple sempre acusou a Microsoft de ter copiado o sistema operacional do Macintosh para criar seu Windows. Felizmente nunca conseguiu impedir que a turma de Bill Gates seguisse adiante com sua própria interface gráfica. Pois, se a Xerox inventou e a Apple refinou o conceito, foi indubitavelmente a Microsoft quem o popularizou, tornando o computador finalmente algo acessível às massas.

De volta a 2011: a Apple agora quer impedir o crescimento do Android, apontando sua artilharia principalmente para os produtos da linha Galaxy, os principais concorrentes do iPhone e do iPad. O fato é que o hardware do Galaxy Tab 2 é superior ao do iPad 2. O Android também chegou lá, na sua versão 3: é um produto maduro e sofisticado. Pesam a favor do iPad várias vantagens por ter sido lançado muito antes (pelo menos para os padrões dessa indústria alucinada).

Afinal, qual o problema com a turma de Cupertino? Seus produtos são excepcionais, e a Apple se parece mais a uma religião que a uma empresa, com uma (crescente) legião de fieis. Mas eu darwinianamente acredito que a diversidade e as interações entre as espécies levam à evolução. Tentar frear isso em tribunais é muito triste, para dizer o mínimo. Além disso, ter uma concorrência forte é a receita para uma empresa continuar inovando, e já passou da hora de a Apple ser confrontada de verdade. Por isso, espero que as empresas tirem logo seus advogados de cena e deixem seus engenheiros trabalhar. É aí que está a centelha criativa. É aí que os usuários e as próprias empresas ganham.

Mais vale um Twitter na mão que dois na concorrência

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O mercado acredita que o passarinho do Twitter pode cair em breve na arapuca do Google

O mercado acredita que o passarinho do Twitter pode cair em breve na arapuca do Google

Esquentam os rumores de que o Google estaria prestes a fazer uma oferta pelo Twitter. O TechCrunch já colocou até um preço: US$ 250 milhões em dinheiro ou equivalente. O mesmo post afirma que o passarinho já recusou uma oferta de US$ 500 milhões feita pelo Facebook há alguns meses, mas havia a diferença de que, naquele caso, boa parte do pagamento seria feito em ações, que poderiam estar com seu valor inflado.

Você usa o Twitter? Se nem sabe o que é, recomendo que veja o vídeo que pode ser disparado da home page do serviço. Não estou sugerindo que, se não usa, você está por fora da revolução tecnológica. Na verdade, o produto é mais um dos sucessos estrondosos da Internet que a mídia explora à exaustão, como aconteceu com o Second Life há uns três anos. Mas há uma pergunta a ser feita aqui: o que faria o Google despejar quarto de milhão de dólares em algo que muita gente acha que não passa de um hype? Por que não compraram também o Second Life então?

A resposta é que o Twitter tem algo que muito interessa ao Google que o Second Life não tem: informações reais sobre pessoas reais, em tempo real. E é justamente organizando quantidades astronômicas de informação que o Google ganha dinheiro. Eles são capazes de extrair dinheiro ao avaliar os movimentos não apenas do mercado, mas do mundo, da vida cotidiana das pessoas e das empresas. Os caras têm a mão no pulso do planeta. E é exatamente o que o Twitter oferece.

Será que o Google vai pegar esse passarinho? Se conseguir, será mais um golpe na sua concorrência direta: Microsoft e Yahoo!