A OpenAI anunciou que permitirá conteúdo adulto no ChatGPT, incluindo aplicativos eróticos na plataforma criados por empresas externas. Só que, disfarçada de liberdade criativa, a medida carrega riscos enormes, que vão muito além da exposição de adolescentes. A novidade insere tecnologia sofisticada em um campo carregado de estereótipos, manipulação e consequências sociais imprevisíveis, e isso afeta até quem não consome pornografia.
Desenvolvedores independentes e a própria OpenAI ganharão com a abertura de um mercado enormemente lucrativo até então inexplorado pela empresa. Do outro lado, adolescentes ficarão mais vulneráveis, assim como qualquer pessoa sujeita à naturalização de padrões sexuais distorcidos.
Na quarta passada (15), o CEO Sam Altman declarou que a OpenAI “não é a polícia moral eleita do mundo”, ao justificar a liberação. A frase parece uma defesa de princípios, mas é desonesta. Em agosto, ele dizia sentir orgulho por evitar “bots de sexo”, que dariam engajamento, mas seriam “desalinhados com o objetivo de longo prazo” da empresa. Agora, o negócio parece ter pesado mais do que a ética.
Esse recurso deve piorar, reforçar e perpetuar estereótipos já consolidados na pornografia. Mulheres e minorias podem ser retratadas de forma ainda mais degradante, e a tecnologia, em vez de corrigir distorções, tende a amplificá-las, criando novas camadas de objetificação.
Não é exagero dizer que isso pode alterar a maneira como as pessoas se relacionam entre si. Expectativas inatingíveis, comportamentos sexualizados distorcidos e uma compreensão enviesada do consentimento são consequências prováveis, pois este recurso reduzirá a necessidade de lidar com a complexidade de parceiros reais.
Mas gostem ou não, as pessoas precisam se relacionar com gente de verdade.
Veja esse artigo em vídeo:
Na prática, o novo recurso permitirá que adultos acessem conteúdos e experiências eróticas gerados pelo ChatGPT ou por aplicativos feitos para a plataforma. Esses aplicativos poderão oferecer interações de texto, histórias eróticas, sexting e até a geração controlada de imagens adultas. A liberação está prevista para dezembro.
O serviço também incluirá filtros opcionais e controle parental, mas a eficácia é incerta. A empresa quer consolidar uma “abordagem responsável”, mas deixa claro que a responsabilidade real será do usuário.
- Assine gratuitamente minha newsletter sobre IA, experiência do cliente, mídia e transformação digital
- Inscreva-se no meu podcast (escolha a plataforma): Spotify, Deezer, Apple Podcasts ou Soundcloud
Altman afirma que quer “tratar adultos como adultos”. Ele justifica a mudança dizendo que novos sistemas de detecção de idade e controles de saúde mental tornaram essa liberação viável. Mas, ao se afastar da imagem de “empresa moralista” e permitir esse tipo de material, a OpenAI assume riscos éticos, agradando investidores que despejaram bilhões no negócio. E eles esperam crescimento brutal e contínuo, sem se impressionarem com escrúpulos morais.
Altman provavelmente sempre soube que liberaria conteúdo adulto se quisesse que o ChatGPT se tornasse uma plataforma verdadeiramente aberta. A diferença é que ele antes resistia por orgulho moral, criando agora essa incoerência que tenta dissolver ao racionalizar o conflito com a retórica sobre não ser “paternalista”.
A ironia é que, sob o pretexto de dar liberdade para adultos, o público está sendo usado como laboratório social, enquanto a empresa testa limites éticos.
Negócio arriscado
A indústria pornográfica agradece por ser legitimada por uma das empresas mais poderosas da tecnologia. A OpenAI, por sua vez, expande seu modelo de negócios e atrai usuários insatisfeitos com restrições. Por fim, adultos que defendiam essa flexibilização conquistam o que pediam, sem se preocupar com consequências.
Crianças e adolescentes, por sua vez, estarão mais próximos da exposição precoce a esse tipo de conteúdo, deixando para as famílias enfrentarem um ambiente digital ainda mais difícil de gerenciar. Não se pode esquecer que sistemas de verificação de idade na Internet têm uma eficácia historicamente deplorável.
O risco se agrava justamente quando a sociedade exige plataformas digitais mais seguras para jovens. A própria OpenAI enfrenta acusações sobre impactos de seus sistemas sobre pessoas que se suicidaram depois de interagir com o ChatGPT. Adicionar conteúdo adulto antes de resolver essas vulnerabilidades é arriscado e negligente, até que se prove o contrário.
Essa abertura da plataforma também pode ser usada para crimes não previstos pela empresa, como a produção de deepfakes pornográficos sem consentimento, extorsão sexual, material de abuso infantil e tráfico sexual. A moderação prometida não se sustenta, pois identificar infrações em bilhões de interações é praticamente impossível, e os criminosos são rápidos em explorar vulnerabilidades de novas tecnologias.
Plataformas de IA que já permitem conteúdo adulto, como o Grok, enfrentam problemas semelhantes, como perda de controle, vazamento de material sensível, reforço de estereótipos e dificuldade de fiscalização. A OpenAI pode repetir os mesmos erros, mas em escala muito maior, graças à popularidade do ChatGPT.
Portanto, mesmo quem gosta de pornografia não pode encarar a decisão da OpenAI como bem-intencionada ou mesmo ingênua. Ela representa uma aposta consciente de que lucros e crescimento valem os riscos de fortalecer estereótipos prejudiciais, facilitar crimes sexuais e até prejudicar relacionamentos reais entre pessoas.
Sabemos que, como de costume, a empresa fará o que quiser, a despeito de protestos ou evidências de perigo. Resta à sociedade exigir transparência através de relatórios públicos sobre falhas, pressionar por auditorias independentes dos sistemas de proteção, cobrar leis que estabeleçam padrões mínimos de segurança e desenvolver educação digital que prepare pessoas, especialmente jovens.
Infelizmente conseguir isso talvez seja o mais difícil de tudo. Mas não dá para depender apenas das boas intenções da OpenAI.




