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A ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Brasileiros abraçam a IA, mas precisam vencer desafios para sua implantação plena

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Os brasileiros têm fama de abraçar novas tecnologias rapidamente, especialmente as digitais. Isso se vê, por exemplo, no amplo uso de smartphones e redes sociais no país, que sempre lidera rankings internacionais nisso. Também vem sendo observado no nosso uso entusiasmado da inteligência artificial. Mas essa euforia enfrenta severos obstáculos que podem prejudicar resultados, especialmente nos negócios.

A pesquisa “Inteligência artificial no mundo corporativo”, divulgada no dia 11 pela gigante de software alemã SAP, mostra que 52% dos gestores brasileiros têm percepção muito positiva sobre essa tecnologia e outros 27% a encaram de forma favorável, mas com ressalvas. Na América Latina, esses números são 43% e 38%.

Para 29% desses gestores, o maior desafio é não saber como incorporar a IA no negócio, enquanto 28% afirmam que não há profissionais qualificados para isso, problemas que caminham de mãos dadas. Mas o Brasil enfrenta outra grande barreira nesse setor: dependemos demais de tecnologias importadas.

A princípio, isso não pareceria tão grave. O Brasil historicamente consome tecnologia digital de fora, graças ao sucateamento de nossa indústria e de nossa ciência, principalmente a de base. Continuaremos fazendo isso com a inteligência artificial. Mas suas características tornam essa dependência mais perigosa.

O quadro piora com o posicionamento errático da administração Donald Trump, que já usa a IA como arma geopolítica. No dia 13, a OpenAI, criadora do ChatGPT, apresentou uma série de propostas ao governo americano para supostamente manter a liderança dos EUA no setor. Entre elas, sugere uma restrição de exportações da IA a países “democráticos” (conceito que varia com o vento nos cabelos de Trump).

Isso cria uma divisão geopolítica artificial, condicionando o acesso à IA à subordinação de nações a interesses americanos, reforçando essa dependência tecnológica e perpetuando desigualdades globais. Esse é um risco que o Brasil não pode manter.


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Sendo uma tecnologia altamente disruptiva, a IA já transforma diversos setores da economia. Para isso, requer infraestrutura avançada e capacitação de profissionais qualificados. Sem investimentos significativos, o Brasil pode ficar para trás em ambos, dificultando a absorção e o uso eficaz dessa tecnologia, o que pode também aumentar os riscos de segurança e privacidade, pois dados sensíveis ficam sujeitos a leis estrangeiras.

Isso também limita nossa capacidade de inovar e ajustar soluções às nossas necessidades, além de comprometer a autonomia tecnológica do país. Como a IA automatiza muitas funções, a falta de investimentos em capacitação impõe ao Brasil desafios adicionais no mundo do trabalho e na adaptação ao avanço tecnológico.

Diante desse cenário, as empresas se mobilizam. Segundo a pesquisa da SAP, 62% dos gestores locais já capacitam seu pessoal para sanar este gargalo e outras 35% pretendem fazer isso ainda em 2025. “As empresas brasileiras trazem inovação no seu DNA, tanto na geração de diferencial competitivo, quanto na otimização de processos”, afirma Rogério Ceccato, diretor de pré-vendas da SAP Brasil. “Isso se explica com a maior maturidade do mercado brasileiro no cenário latino-americano.”

A IA generativa pode ajudar a reduzir esse problema, dispensando os profissionais de dominarem aspectos técnicos da tecnologia. Ceccato explica que assistentes, como a Joule da SAP, ajudam um profissional de vendas, por exemplo, a criar agentes de IA sem apoio técnico, concentrando-se no seu conhecimento do negócio. “Soluções com estratégia low-code/no-code (sem programação) permitem que mais profissionais dominem a IA”, acrescenta.

Além disso, alguns exemplos internacionais recentes animaram empresários e pesquisadores brasileiros a investirem mais em inteligência artificial. O mais marcante foi o chinês DeepSeek, que em janeiro demonstrou ser possível desenvolver um LLM (modelo de linguagem de grande porte) com qualidade comparável aos melhores do mundo, como o ChatGPT, por uma pequena fração dos seus investimentos.

Criou-se, assim, um novo paradigma, que retirou das big techs o “direito a dominar sozinhas” esse mercado.

 

Investimentos brasileiros

Na época, a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos (foto), disse que o Brasil desenvolverá seu próprio modelo de IA, citando o DeepSeek como exemplo. Ela lembrou que existia a ideia de que os investimentos para competir nessa tecnologia seriam proibitivos para países emergentes, mas os chineses mudaram isso, mesmo impedidos pelos EUA de comprar processadores mais poderosos.

Antes disso, no dia 30 de julho, o governo brasileiro anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Ele detalha uma estratégia ambiciosa para os padrões brasileiros, com investimento de R$ 23 bilhões até 2028, para o desenvolvimento e aplicação ética e sustentável da IA no país.

O plano prevê a compra de um dos cinco supercomputadores mais avançados do mundo, que deve ser alimentado por energias renováveis. Também propõe o desenvolvimento de modelos de linguagem em português, treinados com conteúdo nacional, que contemplem nossas características culturais, sociais e linguísticas.

Sensível à falta de profissionais no setor, o projeto também destaca a capacitação em larga escala para atender a essa demanda. Por fim, reforça que o desenvolvimento da IA seja ético e responsável, promovendo a transparência algorítmica e a proteção de dados, itens críticos para o setor, mas pouco observados nos produtos americanos.

As propostas são interessantes e muito bem-vindas, mas a sociedade precisa acompanhar sua implantação, para que não se torne mais uma ideia populista que se perca na burocracia. A IA não pode ser mais uma revolução tecnológica que o Brasil apenas observe de longe.

Um esforço coordenado entre governo, academia e setor privado é imprescindível! Os programas já existentes precisam ser ampliados, especialmente para a formação de talentos e o desenvolvimento de propriedade intelectual nacional. Ainda podemos nos tornar protagonistas em nichos do ecossistema de IA.

As atuais restrições podem se traduzir em inovação acelerada. Mas, para isso, o Brasil precisará mobilizar recursos e talentos com a velocidade necessária para superar esse fosso tecnológico antes que se torne intransponível ou que eventuais restrições abalem decisivamente nossa transformação digital.

 

Como a conquista das crianças pelo YouTube pode impactar empresas e a educação

By | Educação | 5 Comments

Foto: Tobyotter/Creative Commons

Pergunte a uma criança onde ela vê seus programas preferidos. Há uma grande chance de o YouTube ser a resposta. Ele caiu de vez no gosto dos pequenos. Ótimo para o Google, dono da plataforma! Mas isso abre algumas interessantes questões educacionais e de negócios.

Um recente levantamento da ESPM Media Lab, conduzido pela pesquisadora Luciana Corrêa, jogou luz sobre isso. Suas observações combinam com o relatório “Children and Internet use: a comparative analysis of Brazil and seven European countries”, produzido a partir de estudos comparáveis dos países participantes. No Brasil, os dados foram levantados pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação).


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Para crianças e adolescentes, o YouTube já é muito mais que uma simples plataforma de vídeos: é a sua principal ferramenta de busca para qualquer assunto, ocupando o espaço que o próprio Google tem para os adultos. Tanto que a empresa lançou o YouTube Kids, um versão do serviço com recursos especiais para crianças (ainda não disponível no Brasil).

Naturalmente os vídeos de entretenimento são o principal atrativo da plataforma. Corrêa identificou que, dos 100 canais com mais audiência do YouTube, 36 abordam conteúdo direcionado a crianças de 0 a 12 anos. E, de 110 canais brasileiros analisados (que já renderam 20 bilhões de visualizações), a categoria mais comum é a de “games”, seguida pela de “programação infantil também disponível na TV”. Apenas um canal era “educativo”.

A segunda categoria me chamou muito a atenção. Para as crianças, não existe diferença entre o conteúdo no YouTube, em serviços pagos de vídeo sob demanda (como Netflix) ou nas TVs por assinatura ou aberta: tudo é vídeo! E isso acende uma grande luz vermelha para o negócio das emissoras de TV.

As crianças estão vendo TV fora da TV!

 

Tela do passado

Acontece que os pequenos cada vez menos usam o aparelho de TV. Para elas, a programação “nativa” na telona é uma coisa anacrônica com três características muito indesejáveis: existência de uma grade de programação (que as obriga a assistir aos programas em horários específicos), programação continuamente interrompida por comerciais e impossibilidade de ver o conteúdo com privacidade. Não é de se estranhar, portanto, que o dispositivo preferido para assistir a vídeos seja o celular, e a plataforma seja o YouTube: a combinação elimina, de uma só vez, esses três incômodos.

Esse comportamento também pôde ser observado em uma outra pesquisa, realizada no ano passado pela comScore e pela IMS, com latino-americanos que veem vídeos online, uma realidade cotidiana para 81% do público pesquisado, contra apenas 70% da TV aberta (no Brasil, os números foram 82% contra 73% respectivamente). E os mais jovens eram os que mais preferiam vídeos online à TV.

Chegamos a debater neste espaço como o lançamento do Globo Play não deve cativar os mais jovens. O produto tem um formato técnico e um modelo de negócios semelhantes aos da Netflix, mas falha ao se manter atrelado à grade de programação da emissora. Não é, portanto, suficiente para estancar a sangria desatada do público.

Os fabricantes de TV, que já perceberam os ventos da mudança há alguns anos, estão transformando os aparelhos em poderosos computadores, capazes de rodar todo tipo de aplicativo, inclusive o YouTube e a Netflix (não por acaso os mais populares em suas plataformas). Resta saber o que as emissoras de TV farão para evitar que seu negócio mingue por falta de público.

Até o momento, não vejo grande coisa.

 

YouTube babá?

Mas há outro aspecto importante a se analisar nesse fenômeno: as crianças estão ficando tempo demais no YouTube?

Curiosamente, há uns 20 anos, essa pergunta recaía sobre a própria TV, chamada pejorativamente então de “babá eletrônica”. As crianças passavam horas a fio assistindo à sua programação, e depois seus pais acusavam-na de “deformar” seus filhos. A bola da vez para esse “cargo” é a tecnologia digital, com o YouTube em destaque.

Quando uma criança deve ter acesso à tecnologia é um debate que parece não ter fim. Existem bons argumentos a favor e contra. Particularmente acho um grande erro querer privá-las disso por princípio, pois vejo falhas conceituais no que diz a “turma do não”. Além disso, vivemos em um mundo em que a tecnologia digital é cada vez mais ubíqua, e, por isso, as crianças devem aprender, desde cedo, a se apropriar dessas ferramentas em seu favor.

O que não quer dizer abandonar as crianças à sua própria sorte com seus gadgets. Pais que acusavam a TV e, depois dela, a Internet, os videogames, os smartphones, o YouTube por problemas com seus filhos estão tentando jogar em outro a culpa que é, na verdade, sua!

Como explica muito bem a psicóloga Katty Zúñiga, do NPPI (Núcleo de Pesquisas da Psicologia e Informática) da PUC-SP, os pais não devem vetar o acesso à tecnologia para seus filhos, pois eles acabarão encontrando maneiras de burlar a proibição, eliminando a chance de os pais construírem algo juntos com os filhos nesse ambiente. Por outro lado, os responsáveis devem oferecer e incentivar outras atividades aos pequenos, como livros, brincadeiras, atividades manuais, passeios, para que as ferramentas digitais sejam apenas “mais uma” das atividades disponíveis para a criança. Pois, se ela não tiver alternativa, usará o que estiver à mão, no caso, literalmente, o smartphone. Além disso, os pais devem se envolver e demonstrar interesse genuíno pelo que seus filhos fazem nos meios digitais. Tudo isso é o que pode ser considerado um uso consciente e construtivo da tecnologia pelas crianças.

Sim, o cotidiano é difícil, todos têm que trabalhar, estão sempre na correria, sobra pouco tempo para lazer. Mas –sinto muito– nada disso serve de desculpa para não dispensar às crianças o tempo e a atenção que elas necessitam e merecem. Isso é ser pai e mãe.

Portanto, antes de o uso intensivo do YouTube pelos pequenos ser a causa de algum problema, ele é um sintoma. A plataforma pode ser muito interessante por si só. Não há nada de errado nas crianças gostarem dele, desde que não seja por falta de alternativas ou orientação. Muito mais que as emissoras de TV, são os pais que devem estar atentos a isso.


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