A sociedade brasileira hoje difere muito do que era há 20 anos. Sempre tivemos divisões enraizadas em nossa cultura, algumas profundamente nocivas para determinados grupos sociais e prejudiciais ao desenvolvimento da sociedade como um todo. Mas em tempos sem smartphones e principalmente sem redes sociais, aparentávamos viver em harmonia, ainda que mais frágil do que acreditávamos.
A completa disseminação desses produtos digitais criou, nos anos seguintes, uma profunda rachadura na sociedade que inviabiliza o debate entre aqueles que se posicionam nos extremos opostos. Caiu por terra o mito do brasileiro cordial e colaborativo, dando lugar à intensa polarização.
As causas disso sempre estiveram entre nós, nutridas no íntimo de extremistas antes contidos pelas regras da civilidade. Os algoritmos das redes sociais destravaram essas forças ao juntar quem tem os mesmos valores, e os smartphones passaram a reforçar essas ideias o tempo todo. Não demorou para que políticos de várias ideologias se apropriassem dessa polarização, criando uma espiral destrutiva da qual não saímos.
Resta algo que ainda une os brasileiros? Nem a seleção de futebol, antes uma unanimidade, consegue fazer isso hoje.
Nesse cenário, as absurdas exigências do presidente americano ao Brasil, feitas na semana passada, merecem atenção. Apesar de ter provocado forte indignação na maioria dos brasileiros, nem Donald Trump conseguiu unir a todos nós.
Ainda assim, vale analisar aquelas que defendem os interesses das big techs e atacam conquistas tecnológicas e de proteção aos cidadãos do Brasil. Afinal, o Pix, criticado por Trump, é uma unanimidade nacional.
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De fato, do ponto de vista econômico e político, não há justificativa racional para as grotescas agressões do americano, algo sem precedentes nos 200 anos de boas relações entre os dois países. E a proteção explícita das plataformas digitais, que fere severamente a soberania brasileira, não vem ao acaso, amplificando as reclamações de empresas que não querem ver seus enormes privilégios ameaçados.
Não se trata apenas dos ganhos bilionários. Smartphones, redes sociais e agora inteligência artificial permitem profunda manipulação das massas, influenciando fortemente a geopolítica. Esses setores estão prestes a ser regulados no Brasil, a exemplo do que já acontece em outras partes do mundo. Por isso, o lobby de empresas como Meta, Google e Amazon busca convencer o governo americano de que um país lhes impor regras significa um ataque aos interesses americanos.
Elas sabem que são estratégicas para a economia dos EUA. Por outro lado, o Brasil é um mercado muito importante para as essas plataformas, pela quantidade de clientes e pelo comportamento digital do brasileiro, que lhes garante receitas monumentais. Por isso, limitações ou regulamentações por aqui podem influenciar outros países a adotarem legislações similares, restringindo a atuação global dessas companhias.
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Isso explica por que as ameaças americanas também miraram a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Elas afirmam que a proteção aos dados dos cidadãos brasileiros atrapalha “objetivos comerciais de rotina” das empresas americanas, exigindo que aceitemos os padrões de privacidade dos EUA como “adequados”.
Mas a LGPD não é um entrave, e sim um selo de qualidade que posiciona o Brasil como um parceiro sério na economia digital. Enfraquecê-la seria renunciar a uma conquista civilizatória compatível com as melhores práticas globais e, aliás, uma das poucas defesas do cidadão frente ao poder dos algoritmos e da vigilância digital.
Mas talvez o que mais tenha chocado foram os ataques ao Pix, rotulado de “prática desleal nos serviços de pagamento eletrônico”. Novamente, buscam proteger os interesses de gigantes americanas, como Visa, Mastercard, Google, Apple e Meta, contra os da população brasileira.
Orgulho nacional
Trump reclama que o Pix foge do controle dessas companhias e é gratuito, o que as prejudica, pois dependem de taxas de transação para lucrar. E ele teme que o sistema brasileiro evolua para uma plataforma de transações internacionais, servindo como alternativa ao dólar em determinados contextos comerciais.
O Pix é um caso de inovação tecnológica brasileira que é referência mundial. Ele funciona, é eficiente e é nosso. Por isso, evoca um sentimento de orgulho nacional baseado em competência, não em símbolos vazios. Acabar com ele ou mesmo desincentivá-lo seria um retrocesso absurdo, pois ele é um instrumento de inclusão financeira, de modernização do Estado e de democratização do acesso bancário.
Não é de se estranhar, portanto, que as bravatas de Trump tenham aumentado a união dos brasileiros, ainda que circunstancialmente. Precisamos garantir essas conquistas e avançar na regulamentação das big techs. Isso não busca censura ou tecnofobia, mas garantir que os direitos humanos, o debate público saudável e a integridade das instituições democráticas sejam preservados em um ambiente digital que foi sequestrado pelo engajamento e pelo lucro a qualquer custo.
Ironicamente, esse embate internacional pode nos ajudar a entender que precisamos resgatar a escuta de quem pensa diferente, sem ataques. E isso começa em cada um de nós. A polarização só se sustenta se houver plateia para o confronto.
Nosso engajamento político, cultural e social deve sair do automático. A educação midiática precisa ser um projeto nacional. Sem isso, as tentativas de regulamentação podem parecer autoritárias para uma população que não entende por que isso importa.
O que ainda pode nos unir são valores compartilhados que sobrevivem à polarização, como o desejo de viver com dignidade, a rejeição à corrupção, o orgulho por inovações locais e o carinho por símbolos culturais. Paradoxalmente, as mesmas redes sociais que nos dividem podem reconstruir contatos. Mas isso exige que deixemos de ser meros usuários e passemos a ser cidadãos digitais conscientes.
A união nacional não virá “de cima”, de instituições, empresas ou governos, nacionais ou estrangeiros. Ela deve surgir de nós mesmos, quando soubermos olhar para o outro sem medo e sem ódio. E então poderá acontecer até ao defendermos juntos algo pontual, como o Pix, ou algo complexo, como a democracia.



