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A Internet conhece você melhor que sua mãe

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Foto: Adam Mancini / Creative Commons

Nessa semana, fui apresentado a mais um sistema online que parece conhecer meus amigos melhor que eu mesmo, e é capaz de detectar traços da minha personalidade que talvez nem minha própria mãe saiba. Isso tudo sem responder a nenhuma pergunta, em poucos segundos. Quando me deparo com algo assim, sempre penso que vivemos na era do fim da privacidade, liquidada pela combinação de algoritmos astutos, enorme capacidade de processamento e nossa vida cada vez mais online.

Não se trata do primeiro serviço que faz isso. Facebook e Google, só para ficar nos mais óbvios, detêm uma quantidade inimaginável de informações parametrizadas sobre cada um de nós, que sabem como transformar em dinheiro. Nesse mesmo espaço, já discuti também sobre o Apply Magic Sauce, criado pela da Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido), capaz de realizar uma impressionante análise psicológica do usuário, tendo, como base, apenas suas “curtidas” no Facebook.

O que me chamou a atenção sobre o novo serviço, chamado Crystal, é que ele não precisa ter acesso à conta do Facebook, Google, Twitter, LinkedIn ou qualquer outra do indivíduo. Na verdade, você pode saber como a pessoa é sem sequer ser amigo dela. Basta digitar o seu nome e identificá-la entre possíveis homônimos. A “mágica” se dá pela análise de conteúdos públicos na Internet atribuídos ao indivíduo.

O sistema oferece uma estimativa de precisão, que cresce à medida que encontra mais informações na rede sobre o pesquisado. Se encontrar pouca coisa, informa que o relatório pode não ser confiável. Por outro lado, se atinge um patamar mínimo, ele sugerirá como você deve se comportar quando estiver conversando com a pessoa, enviando-lhe um e-mail ou trabalhando com ela. Ainda dirá o que é natural ou não para o pesquisado.

Sobre mim, o Crystal lembra que, ao falar comigo, não se deve perder o foco no todo, enquanto é aceitável usar emoticons em e-mails. Também é bem-vindo, por exemplo, usar tempo para explorar novas ideias quando trabalhar comigo. Acerta quando diz que falo sem rodeios e que não me ofendo com piadas de gosto duvidoso.

Tudo isso só a partir de um nome.

 

Somos livros abertos

Nunca a expressão “minha vida é um livro aberto” foi tão verdadeira. Só não é perfeita porque as informações hoje não são mais tão coletadas dos livros, e sim da Internet.

O problema é que nem sempre o “dono do livro” gostaria que ele estivesse assim escancarado. Mas, verdade seja dita, é um problema cada vez menor, pois as pessoas vivem um momento de deliberadamente se expor ao mundo, especialmente nas redes sociais, muitas vezes de maneira exagerada e até perigosa.

Mais sensível que isso é o fato de que aparentemente falta à população a consciência da amplitude desses seus atos. Embarcamos na superexposição por diferentes motivos: para “fazer parte do grupo”, para nos sentirmos queridos (ou vistos), para expressar nossos sentimentos e crenças (boas e ruins). Há também o compartilhamento de informações, às vezes íntimas, com aplicativos nos celulares ou nas redes sociais: abrimos mão da nossa privacidade pelo simples desejo de usar algo novo, desde uma incrível inovação, até um simplório brinquedinho.

Conscientemente ou não, espalhamos nossas pegadas digitais o tempo todo. Essa é a realidade posta, e não há volta disso. Crystal, Apply Magic Sauce e todos os recursos do Google e do Facebook são exemplos de como alimentamos o sistema, e dele recebemos algo em troca.

Não é tão ruim quanto as ficções distópicas de “1984” ou de “Matrix”, mas estamos sendo sempre vigiados nessa nossa relação simbiótica com o sistema. Mas nem mesmo Neo ou o Grande Irmão pensaria em algo tão complexo e eficiente.

A liberdade não pode ser vítima da guerra ao terror

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"A Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Delacroix - Imagem: reprodução

“A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix

O jornal Le Figaro divulgou ontem uma pesquisa que indica que 84% dos franceses estariam dispostos a aceitar restrições a sua liberdade para se sentirem mais seguros. Claramente impulsionados pelo medo causado pelos atentados terroristas de sexta passada, esses números escondem o enorme risco de uma população abrir mão de seus direitos em um momento de crise e isso se perpetuar depois.

A França é tradicionalmente um dos países que mais defendem as liberdades e a privacidade do indivíduo. Mas agora está ferida por um inimigo que ninguém sabe quando, onde ou como atacará de novo. Essa sensação de impotência é terreno fértil para o crescimento de abusos de toda natureza. Na mesma pesquisa, 74% se disseram favoráveis à prisão de suspeitos de terrorismo, enquanto a retirada da nacionalidade francesa desse grupo é aceita por 53% de integrantes da esquerda e por assustadores 94% da direita radical. Vale ressaltar que se tratam de suspeitos, não de casos confirmados. Por fim, 62% dos franceses se dizem contrários à entrada de imigrantes no país (eram 47% há um mês).

Naturalmente a tentativa de controle de tudo que trafega na Internet também está na pauta do dia. Afinal, os terroristas usam os meios digitais para se comunicar, de maneiras bastante criativas (cheguei a ouvir –não-confirmado– que estariam até mesmo usando o inocente game Super Mario Maker para distribuir coordenadas de ataques).

Esse controle é um desejo antigo de políticos, principalmente dos mais sujos e medíocres, que não vira lei em países que prezam o indivíduo justamente pela enorme rejeição da sociedade. Mas o que impedirá isso na França em um momento como esse?

A Internet finalmente será controlada?

 

Não devemos deixar a coisa ainda pior

Não seria a primeira vez que o medo do terror patrocinaria a tentativa de se controlar as vidas digitais dos cidadãos. Principalmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, o governo americano tentou emplacar várias leis que legitimariam a espionagem online do governo (e conseguiu algumas), como o PATRIOT Act.

Claro que o governo americano usou largamente a Internet para se intrometer nos negócios de pessoas, empresas e governos do mundo todo. As revelações de Julian Assange e de Edward Snowden estão aí para documentar isso largamente. Mas o fato de isso permanecer no campo da ilegalidade pelo menos dificulta que a prática se dissemine para qualquer nível de poder, até os mais medíocres.

Já usei este espaço para discutir anteriormente os riscos de governos controlarem a Internet. Mencionei, inclusive, projetos de lei que tramitavam no Congresso Nacional e que permitiriam a qualquer “autoridade competente” arbitrariamente censurar publicações que lhe desagradassem e punir seus desafetos.

Hoje mesmo uma aluna me questionou como fica a liberdade de expressão em um momento como esse. Mais que isso, terroristas poderiam usar, por exemplo, o YouTube para fazer a sua odiosa propaganda? Respondi que a liberdade de expressão é um direito inalienável do ser humano, mas que, na prática, isso é algo bem difícil de se manter e de se exercitar. Defendo-a por princípio e tenho certeza que ela nos traz muito mais benefícios que perdas, por mais que, em muitas ocasiões, seja usada para propagar ideias das quais discordemos ou até mesmo abominemos. Mas essa é a regra do jogo.

Nesse exemplo, o próprio YouTube deve remover o vídeo, pois ele viola os seus termos de uso. Mas e no caso de o vídeo estar hospedado em um servidor dos próprios jihadistas? Além disso, como a imprensa deve tratar esse material? Ele é notícia? Deve ser usado em uma reportagem? Mais ainda: a imprensa tem o direito de querer publicar isso?

Isso nos leva a outro ponto: o exercício de liberdades, inclusive de expressão, está sujeito a critérios morais de cada um. Portanto, do meu ponto de vista, sim, a imprensa tem o direito de reportar as barbaridades, assim como tem o direito de editar o conteúdo para preservar o seu público dos momentos mais crus da exibição (que, diga-se de passagem, seriam desnecessários para as pessoas compreenderem o que estava acontecendo). Da mesma forma, as pessoas têm o direito de serem informadas, mesmo de coisas horrendas.

É uma situação muito delicada, sem dúvida. “Na guerra, a verdade é primeira vítima.” A frase, atribuída ao dramaturgo grego Ésquilo, poderia ser complementada perfeitamente por “seguida pela liberdade”. Os terroristas têm, pela natureza de sua ação furtiva, uma vantagem sobre os Estados que combatem. A esses últimos, cabe o dever de enfrentar o agressor da melhor maneira possível, a despeito de tal vantagem. Mas não podemos permitir que, em nome desse combate, os governos firam seus próprios cidadãos ainda mais, tirando-lhes a liberdade e a privacidade.

Você é o que você gosta

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Home page do serviço "Apply Magic Sauce" - Imagem: reprodução

Home page do serviço “Apply Magic Sauce”

Seus pais provavelmente lhe falavam: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Mas em tempos de tecnologia ubíqua, o ditado, além de velho, parece ultrapassado. Para saber quem é você, o melhor é prestar atenção no que você gosta ou, mais especificamente, no que você “curte”.

Deixamos, o tempo todo, nossas pegadas digitais por aí, e elas são cada vez mais profundas e reveladoras. Há duas semanas, comentei aqui a crise causada pelo vazamento de informações dos assinantes do Ashley Madison, recomendando que pelo menos tentemos cuidar das informações pessoais que publicamos na Internet. O problema é que inadvertidamente fazemos pequenas ações que dizem muito sobre nós.

Quantas vezes você clica, todos os dias, no botão “curtir” do Facebook, seja nas páginas da própria rede social, seja naqueles que estão espalhados pelos mais diferentes sites? Não se sinta constrangido se a resposta for um número alto: essa ação inocente está tão integrada ao nosso cotidiano, que talvez nem saibamos responder a essa pergunta.

Mas não se engane: de inocente ela não tem nada. Mesmo quando “curtimos” uma pueril foto de gatinho ou uma piada tosca de um amigo, estamos afirmando um pouco do que somos. E a soma disso tudo pode ser surpreendente.

O Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido) criou, já há algum tempo, uma interessante ferramenta para demonstrar isso. Batizada de Apply Magic Sauce (algo como “Aplique o Molho Mágico”), o site faz, em poucos segundos, uma análise psicológica do usuário, incluindo os principais itens de sua personalidade, gênero, idade percebida, orientação sexual, inteligência, satisfação com a vida, orientação política e religiosa, educação e status marital. Detalhe importante: a única fonte de informação analisada são as suas “curtidas” no Facebook, nada mais. Nem mesmo o que você posta é considerado. E, mesmo o sistema estando calibrado para o idioma inglês, seus resultados têm uma precisão impressionante, quase assustadora.

Não é de se espantar que o nome da versão anterior da ferramenta era “You Are What You Like” (“Você é o que você gosta”).

 

Fazenda de dados

Imagem: reprodução

Se um instituto independente consegue tirar conclusões assim apenas a partir das “curtidas” do sujeito, que dizer então do verdadeiro “dono” da informação: o Facebook?

Mas a rede de Mark Zuckerberg está longe de ser a única empresa com esse poder. Seu maior rival, o Google, conseguiu colocar, no bolso da maioria de nós, um “rastreador” que carregamos alegremente. O Android, sistema operacional que dá vida à maioria dos celulares do mundo, é uma pequena maravilha na coleta de informações pessoais, de maneira quase inconsciente.

O “quase” acontece porque nós, de fato, autorizamos explicitamente essa coleta (e isso vale para qualquer sistema, não apenas o Android). Ao configurar um novo aparelho, respondemos afirmativamente várias perguntas que, na verdade, sequer entendemos do que tratam. E reafirmamos esse nosso “desprendimento” quando baixamos novos aplicativos. Eles invariavelmente listam toda informação pessoal a que terão acesso (muitas delas completamente desnecessárias para seu funcionamento). E nós graciosamente concedemos isso, ao clicar no botão “aceito”, quase sempre sem sequer ler a relação do que lhes repassaremos. A ânsia por baixar o novo aplicativo é tão grande, que o “aceito” do botão poderia ser perfeitamente substituído por um “me dá logo!”

É um fenômeno social maiúsculo o que vivemos. Grupos de proteção à privacidade pressionam governos para tentar limitar o acesso das corporações às informações pessoais. Por outro lado, as pessoas estão cada vez mais lenientes com o compartilhamento de seus dados em troca de serviços que efetivamente tornam suas vidas mais eficientes e divertidas.

Estou absolutamente certo que ninguém deixará de usar seu celular ou o Facebook só pelo que eu disse acima. Eu não deixarei! Mas precisamos estar cientes de que as empresas nos conhecem muito mais que nossas mães, talvez mais que nós mesmos! E, quem sabe, passar a ler a lista do que estamos dando antes de clicar “aceito”.

O que a “Green Dam” quer barrar

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Para o governo do premiê Wen Jiabao, a pornografia provoca "sérios desvios de conduta e de moral" nos jovens chineses, por isso, deve ser bloqueada

Para o governo do premiê Wen Jiabao, a pornografia provoca "sérios desvios de conduta e de moral" nos jovens chineses, por isso deve ser bloqueada, mas será só isso mesmo?

Hoje era a data definida pelo governo chinês para que todos os computadores domésticos vendidos no país viessem com o software “Green Dam-Youth Escort” pré-instalados. Pela explicação oficial, o programa impedirá que crianças e jovens tenham acesso a pornografia e outros “conteúdos impróprios” na Internet. Na prática, pode impedir que o internauta acesse qualquer tipo de conteúdo online que desagrade o governo, como sites que promovam a democracia, a libertação ao Tibete ou contrários ao Partido Comunista.

Desde que foi oficialmente anunciado no dia 9, o “Green Dam” (literalmente “barragem verde”) vem causado uma enorme gritaria. A única fabricante que confirmou que cumpriria a determinação foi a Acer. Os EUA, a Comunidade Européia e a OMC (Organização Mundial do Comércio) pediram que o governo chinês retirasse a exigência, que representaria um “sério risco à segurança, privacidade e direito de escolha do usuário”. Na sua véspera, a data-limite foi postergada, em data ainda não informada.

A pornografia é considerada crime na China. Ainda assim, estima-se que metade dos jovens consome algum tipo de pornografia online. O governo afirma que “graves desvios emocionais e de conduta” se devem a isso e ao uso de games violentos. Por isso, a “barragem” protegeria crianças e jovens.

Conversa fiada de ambos os lados! Privacidade, liberdade de expressão e de escolha são coisas que não existem na cabeça dos governantes de Pequim. Por outro lado, os 316 milhões de internautas chineses são um mercado em que qualquer empresa quer colocar as mãos. O que o indivíduo realmente quer pouco importa.

O usuário supostamente poderá desinstalar o “Green Dam”. Por outro lado, pais também poderão ampliar a lista de sites censurados para seus filhos. Mas, na prática, quantas pessoas são capazes de fazer isso?

Acho esse software mais uma aberração governamental contra as liberdades individuais. Sou fortemente contrário a ele, não por causa dessa conversinha dos EUA e da Europa, mas por um posicionamento filosófico, íntimo. Os chineses deveriam continuar navegando livremente, limitados apenas pela sua boa educação e moral. Mas receio que o seu governo prefira o jeito mais fácil –e confortável– e o “Green Dam” logo inundará os computadores do pais.

Uma ressalva final: não pensem que só o “gigante vermelho malvado” quer controlar a Internet. Nos anos 1990, o Congresso dos EUA, berço da liberdade e blá-blá-blá-etc., quase aprovou o “Ato de Decência nas Comunicações”, que, na prática, censuraria fortemente o conteúdo publicado na Internet. E, se quiser algo mais próximo e mais recente, olhemos para o nosso próprio umbigo, com o Congresso Nacional brasileiro tramitando aquela que é conhecida como “Lei Azeredo”, que determina várias ações que, no mínimo, ferem as liberdades individuais.

Pois é: liberdade e educação sempre amedrontam os donos do poder.