Historicamente, o diploma de um curso superior era o passaporte para um emprego bem remunerado, que garantia um padrão de vida alto. Porém, mudanças no mercado de trabalho, novos interesses dos jovens e o avanço da inteligência artificial estão provocando questionamentos inéditos sobre dedicar anos à universidade.
Esse é um fenômeno global, mas com nuances locais. No Brasil, a universidade ainda guarda um forte valor simbólico e prático de ascensão social e profissional. Mas uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie revelou que o ensino superior precisa mudar para manter isso diante de jovens que buscam formações alinhadas a seus valores e conectadas às transformações sociais, culturais e tecnológicas.
Nos Estados Unidos, a situação é mais dramática. Um levantamento da plataforma de empregos Indeed indicou que 51% dos jovens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) consideram a universidade um “desperdício de dinheiro”, contra 41% dos millennials (entre 1981 e 1996) e 20% dos baby boomers (entre 1946 e 1964).
Não é para menos. Os custos dos cursos universitários na terra do Tio Sam dobraram desde o ano 2000, enquanto os salários cresceram muito menos. Muitos profissionais precisam trabalhar até 20 anos para pagar pela sua formação. E por lá, a diferença entre a média dos salários das pessoas com e sem ensino superior não para de cair.
A explosão da inteligência artificial generativa ampliou esse dilema. Cada vez mais profissionais acham que saber operar bem essa tecnologia pode dispensá-los de fazer uma faculdade. Por outro lado, empresas estão contratando menos profissionais recém-formados, pois os gestores acreditam que a IA pode fazer tudo que eles fariam.
Essa “tempestade perfeita” pode levar a uma sociedade cada vez menos crítica, com profissionais incapazes de descobrir algo novo e dependentes da IA. Mas há esperança, e ela passa justamente pela transformação das universidades.
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Para Ana Lúcia de Souza Lopes, pesquisadora do programa de Educação, Arte e História da Cultura, que participou da pesquisa do Mackenzie, muitos jovens da geração Z, que cresceram vendo a tecnologia desconstruindo profissões tradicionais, preferem ser influencers ou gamers, que não exigem longas formações. “Uma das coisas que nos chamou muita atenção é a questão do medo, da pressão, da confusão sobre o processo de aquisição de conhecimento e até de pensar em uma carreira”, explica.
A pressão por decidir o futuro ainda no Ensino Médio se choca com uma geração emocionalmente frágil, bombardeada por narrativas instantâneas e espetaculares nas redes sociais. Isso reforça os “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham. No Brasil, esse grupo se amplia em ritmo preocupante, refletindo uma realidade global de desalento profissional precoce.
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A reforma do Ensino Médio, já em sua terceira versão, ampliou o abismo entre alunos das redes pública e privada. Enquanto escolas particulares focam no vestibular, a educação pública foi fragmentada em itinerários formativos que deixaram alunos menos preparados para o ensino superior.
Com isso, temos jovens privilegiados que fazem múltiplas graduações, buscando formação interdisciplinar. Por outro lado, cresce uma massa que busca alternativas em cursos técnicos, certificações digitais ou simplesmente desiste.
A substituição de recém-formados pela inteligência artificial cria um perigoso paradoxo profissional. Afinal, para se tirar bom proveito dela, é preciso saber o que e como lhe pedir, algo que se aprende na universidade e com experiência profissional. Mas se as empresas não contratam mais esses jovens, como esperam ter profissionais experientes no futuro, para operar a IA? Ninguém nasce sabendo!
É mais uma miopia que engrossa esse caldo, ameaçando a trajetória das pessoas, a sobrevivência das empresas e o desenvolvimento da sociedade. Com isso, corremos o risco de ter, em alguns anos, não mais uma massa de desempregados, mas de “inempregáveis”, pessoas que não terão habilidades para realizar qualquer trabalho.
Para que serve a universidade
Lopes reforça o risco de se olhar para a universidade de forma apenas utilitarista. A sociedade está reduzindo a educação a uma transação comercial, em que se investe tempo e dinheiro para se receber um emprego. Mas quando essa equação não se sustenta, o sistema entra em colapso.
“A universidade tem toda uma dinâmica de vivência que contribui para a formação de quem é esse profissional”, afirma a pesquisadora. Para ela, “isso é muito importante na formação desse humano que pensa e que precisa entender a complexidade do mundo, enxergando os dilemas da sociedade”.
O fenômeno de desvalorização da universidade é, portanto, complexo e multifacetado. Há exagero e desinformação, ampliados por sensacionalismo nas redes sociais e por influenciadores que vendem a falsa ideia de que bastam carisma e um celular para enriquecer. Mas também há falhas reais, como currículos “engessados”, modelos pedagógicos ultrapassados e pouca conexão com os dilemas contemporâneos.
Isso pode nos levar a uma elite cada vez mais poderosa, conectada e formada globalmente, e a uma grande maioria deslocada, desorientada e sem as ferramentas básicas para se posicionar no mundo. E isso cria uma “bomba-relógio social”.
A sociedade precisa se unir para solucionar o problema. As universidades devem flexibilizar seus currículos, sem dispensar a profundidade crítica. Escolas precisam se reconectar com a realidade e formar cidadãos, não apenas candidatos ao vestibular. Empresas devem reavaliar o uso da IA, abrindo espaço para aprendizes e fomentando programas de desenvolvimento de talentos. Por fim, o governo deve garantir equidade no acesso ao ensino de qualidade, especialmente para os mais vulneráveis.
Paradoxalmente, a própria IA reforça a importância das competências desenvolvidas em um bom curso superior. Enquanto algoritmos executam tarefas repetitivas, humanos precisam definir estratégias, tomar decisões éticas e navegar por complexidades que máquinas não compreendem. Profissionais com formação sólida estão mais bem preparados para comandar a IA, e não serem comandados por ela.
A escolha não pode recair, portanto, entre fazer faculdade ou se apoiar na tecnologia, mas entre ser protagonista ou coadjuvante da própria carreira e da vida. Em um mundo em que máquinas fazem cálculos probabilísticos incríveis, humanos bem formados fazem a diferença ao definir quais desses cálculos realmente importam.





