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Por que não podemos abrir mão de uma BOA imprensa para vivermos

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Equipe do “Washington Post”, com Bradlee (de azul com copo na mão) e Grahams (à direita dele), no filme “The Post” - Foto: divulgação

Equipe do “Washington Post”, com Ben Bradlee (de azul com copo na mão) e Katharine Graham (à direita dele), no filme “The Post”

Você acha que o noticiário anda um saco, e que está ficando difícil saber o que é verdade em um mundo de versões que atacam ou defendem tudo e todos, a toda hora? Você deveria então assistir a “The Post – A Guerra Secreta” e refletir, afinal, qual é o papel de cada um de nós nessa bagunça, e por que temos -todos- que fazer algo além de ficar reclamando, se não quisermos ver o país (e nós mesmos) afundando cada vez mais na lama.

Sim, cada um e todos nós!

Ele não é, portanto, um filme só para jornalistas, e sim para qualquer pessoa que se preocupe como grupos políticos, econômicos ou ideológicos manipulam, cada vez mais, a população, para fazer valer seus objetivos. E também para entender como uma BOA imprensa é essencial para escaparmos dessa situação dantesca. Se você ainda não se preocupa com isso, deveria começar agora mesmo. Explico.


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Peguemos o caso, por exemplo, das odiosas “fake news”, as “notícias” falsas que parecem mais verdadeiras que o noticiário de fato. Talvez, lá atrás, elas tenham surgido como molecagem de alguns, mas uma turma do mal rapidamente percebeu que elas eram uma poderosíssima ferramenta de manipulação pública.

O sórdido processo é relativamente simples. Primeiramente, cria-se a “notícia” misturando fatos verdadeiros a distorções e uma pitada de mentira deslavada. Tudo bem arquitetado para se atingir o objetivo do grupo. Identificam-se então pessoas comuns (mas que sejam pequenos formadores de opinião) que gostariam que aquilo fosse mesmo verdade, qualquer que seja o seu motivo pessoal. “Planta-se a notícia” para essas pessoas, que rapidamente começam a espalhar a novidade. Pela sua posição de relativo destaque, a mentira cai nas graças dos algoritmos das redes sociais, que passam a fazer o trabalho sujo de espalhar as “fake news” explosivamente.

Como se pode ver, a coisa começa com os grupos que criam essas versões e terminam nos algoritmos das plataformas digitais. Mas a peça essencial para seu sucesso são as pessoas, que acreditam, espalham e se engajam com a porcaria.

Mas há ainda um outro ator crítico: a mídia.

 

Onde está a boa imprensa?

Esse não é um artigo para atacar ou defender a mídia, ultimamente bastante alvejada por conservadores e liberais (os termos “direita” e “esquerda” perderam seu significado no Brasil há muitos anos). Em muitos casos, isso é com razão. Da mesma forma, existem bons e maus exemplos de veículos em todas vertentes, seja na “mídia tradicional”, seja na “nova mídia”.

Não vou entrar muito no mérito dos maus exemplos, veículos jovens ou com décadas de estrada que envergonham o jornalismo, criando um conteúdo claramente alinhado com agendas de grupos econômicos, políticos ou ideológicos. A esses, deixo meu desprezo. E, pelo jeito, não estou sozinho, dada sua situação econômica ladeira abaixo de muitos títulos.

Claro: as pessoas não são trouxas!

O que quero tratar aqui é a falta que faz um noticiário de alta qualidade para se contrapor às “fake news”. Pois, por mais que elas sejam bem construídas, só estão fazendo sucesso porque ocupam o espaço que deveria ser do noticiário de fato. Mas este está com uma qualidade sofrível, rasteira, previsível, quando não deliberadamente comprometida. Está parecendo novela, que, mesmo que fiquemos dias sem a assistir, conseguimos retomar sem nenhuma novidade, pois os capítulos são todos iguais e desimportantes: puro enchimento de linguiça!

É aí que “The Post” pode ensinar algo a todos nós. Resumidamente o filme conta a história real de como The Washington Post arriscou tudo em 1971 ao publicar documentos ultrassecretos que escancararam à opinião pública americana como o governo lhes mentia escandalosamente há décadas sobre o conflito no Vietnã. Mas isso só foi possível graças ao profissionalismo da Redação capitaneada por Ben Bradlee (vivido por Tom Hanks) e pela coragem da publisher Katharine Graham (Meryl Streep).


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O esforço de reportagem foi árduo, os dois poderiam ter terminado na cadeia, tiveram que lutar contra toda a diretoria da empresa, e o jornal poderia até mesmo ter quebrado. Tudo por causa de uma reportagem! Mesmo assim, foram em frente, prestando um grande favor a seu país, batendo alguns pregos (mas não os derradeiros) nos caixões do governo Nixon e da Guerra do Vietnã.

 

Quem tem coragem e estômago para isso agora?

Há duas semanas, escrevi aqui outro artigo mencionando como as mudanças recentes no algoritmo do Facebook podem piorar o jornalismo. Parte do problema se deve ao fato de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos “fáceis”, que não as tirem de suas zonas de conforto. Decorrente disso, vem outra parte, pois a mídia, para tentar fazer com que as pessoas continuem compartilhando o que produz, pode começar a dar anda mais atenção a “fofuras”, em detrimento do jornalismo mais denso e necessário. Tragédia anunciada!

É claro que podemos postar e curtir coisas divertidas de vez em quando: isso também nos torna humanos. Mas não podemos interagir apenas com isso! Precisamos nos acostumar e incentivar quem estiver a nossa volta a também interagir a valer com o noticiário que nos tire da zona de conforto e que nos torne cidadãos melhores!

Mas, para isso, esse noticiário de alta qualidade tem que existir. E, de maneira geral, ele é tanto melhor quando mais difícil for sua produção. A imprensa precisa, portanto, fazer por merecer, e parar de ficar apenas comendo na mão de grupos políticos (conservadores ou liberais), econômicos ou ideológicos, seja por preguiça, seja por incompetência ou -pior- porque está “vendida” mesmo. E resistir à tentação de ficar proliferando “conteúdo fácil”.

Em resumo, precisamos de mais Ben Bradlees e de mais Kat Grahams: esse não é um negócio para amadores ou para frouxos.

Quanto a nós, precisamos parar de acreditar piamente no que aqueles que gostamos nos dizem. Também temos a obrigação de sair da nossa zona de conforto e perceber que o mundo não é preto e branco, e desconfiar saudavelmente até do nosso guru. Esse é o nosso papel para construirmos um mundo melhor para nossos filhos.

Mãos à obra todos!


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Ajude a NÃO transformar as redes sociais na nova Inquisição: pode existir uma fogueira reservada para cada um

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Catherine Deneuve no filme “A Bela da Tarde” (1967); a atriz francesa assinou o manifesto de mulheres defendendo a “liberdade de importunar dos homens” - Foto: divulgação

Catherine Deneuve no filme “A Bela da Tarde” (1967); a atriz francesa assinou o manifesto de mulheres defendendo a “liberdade de importunar dos homens”

No dia 14, William Waack publicou na Folha de S.Paulo um artigo onde conta a sua versão dos fatos que levaram a sua saída da Globo. Foi a única vez que li sua posição, desde que o escândalo de racismo inundou as redes sociais no dia 8 de novembro, culminando em sua demissão da emissora, no dia 22 de dezembro. Longe de ser uma curiosidade entre jornalistas, esse desequilíbrio entre acusação e defesa me chamou a atenção, pois é reflexo de um preocupante comportamento impulsionado pelos meios digitais: todos ganharam o direito de ser juízes e algozes de qualquer caso, mas também podem se tornar vítimas num piscar de olhos.

O caso acima começou quando um ex-funcionário da Globo vazou um vídeo em que Waack aparece cochichando ao comentarista Paulo Sotero uma frase racista, quando estavam fora do ar. A gravação se espalhou feito rastilho de pólvora, tanto pelas redes sociais, quanto pela própria imprensa. No mesmo dia, a emissora afastou o jornalista de suas funções e publicou uma nota dizendo ser “visceralmente contra o racismo”. Seis semanas depois, Waack foi demitido. Poucas pessoas se posicionaram em sua defesa, e essas também foram veementemente desqualificadas nas redes.

Waack errou? Sim. Sua punição foi adequada? Há controvérsias. Ele merecia ter sua reputação jogada na lama por um julgamento sumário nas redes sociais? Certamente não!

Analisemos um outro caso recente: o dia 9 de janeiro, a francesa Catherine Deneuve, uma das atrizes mais respeitadas do mundo e ícone de sua geração, publicou no prestigiado Le Monde, junto com outras 99 mulheres artistas e intelectuais do país, uma carta em que criticam o “puritanismo” de campanhas contra assédio sexual, e defendem o que chamaram de “liberdade de importunar” dos homens, considerada pelo grupo como “indispensável para a liberdade sexual”.

“O estupro é crime. Mas o flerte insistente ou desajeitado não é um delito, nem o cavalheirismo uma agressão machista”, afirmaram no manifesto. Elas também disseram que “não se sentem representadas por esse feminismo que, além das denúncias dos abusos de poder, adquire uma face de ódio aos homens e sua sexualidade”.

Resultado: as signatárias do documento foram apedrejadas nas redes sociais, sendo inclusive acusadas de fazer apologia ao estupro. Oras, elas disseram exatamente o contrário disso na carta! Mas, em um mundo cada vez mais intolerante, viabilizado pelas redes sociais, “se você não está comigo, você está contra mim”.

Isso é perigosíssimo, pois a vida não é preta e branca: tem incontáveis nuances de cinza.

 

Não misturemos os canais

De forma alguma, estou aqui defendendo racismo, assédio sexual ou moral, ou qualquer outra forma de crime, contravenção ou atitude condenável. Mas não podemos entrar nessa onda de ódio e intolerância que vem tomando as redes e a sociedade como um todo, em que pessoas são acusadas, julgadas, condenadas e executadas em ritos sumários, sem a menor possibilidade de defesa. Especialmente porque, em muitos casos, a origem é apenas a palavra de uma pessoa que se sentiu, de alguma forma, ofendida ou desprestigiada pelo suposto agressor, sem qualquer prova, ou porque discorda de algo que alguém disse de forma legítima.

Isso é uma afronta e um seríssimo risco a uma sociedade organizada! Se todo mundo que se sentir incomodado tiver o poder de um canhão para alvejar seus desafetos, viveremos um cenário de caça às bruxas! Mas como prevê a Constituição Federal (e o bom senso), todos são inocentes até que se prove o contrário.

Fico muito preocupado com o fato de estarmos iniciando um ano eleitoral. Com base no que vi há dois anos, nas eleições para prefeitos e vereadores, temo que as redes sociais se transformem em um banho de sangue, cheias de insultos, destruições de reputação, “fake news” e amigos de longa data se tornando inimigos viscerais. Apenas porque agora todos podem emitir suas opiniões e os algoritmos de relevância agruparão os que tiverem os mesmos preconceitos em uma mesma bolha de ódio.

Que caminho estamos trilhando?

 

Poder sem responsabilidade

Todo fã de histórias de super-heróis conhece a icônica frase “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, dita por Ben Parker, tio de Peter, o Homem-Aranha, pouco antes de ser assassinado, na gênese do herói mais amado da Marvel.

É tudo o que não temos visto nas redes sociais!

O conceito foi brilhantemente explorado no episódio “Odiados pela Nação”, o último da terceira temporada da série “Black Mirror”. No roteiro, pessoas passam a ser misteriosamente mortas depois que seus nomes são associados à hashtag #DeathTo no Twitter. A pessoa com mais “votos” no dia acabará morta. Cria-se então um perverso jogo em que qualquer um pode literalmente determinar a morte de alguém que não goste, qualquer que seja o motivo, simplesmente twittando seu nome.

(AVISO: se não quiser saber o fim dessa história, pule para o parágrafo seguinte). As investigações acabam descobrindo que as mortes estão sendo causadas por abelhas-robôs espalhadas por todo Reino Unido, que foram hackeadas para encontrar e atacar a vítima do dia. Mas a grande surpresa que a história reserva para o final é que, quando um comando for acionado, todas as pessoas que participaram do jogo, votando em alguém para ser morto, acabarão também assassinadas pelas abelhas. Isso resulta na morte de mais de 300 mil pessoas em poucas horas, no melhor estilo de que “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

Ou seja, as palavras têm grande poder, por isso, precisamos usá-las com critério. Reitero: coisas como racismo, assédios e outras práticas criminosas ou imorais são condenáveis e devem ser combatidas. Mas não se pode usá-las como desculpa ou cortina de fumaça para se atingir outros objetivos, alguns igualmente condenáveis.

Quando a massa ganha um poder sem limites para expor suas insatisfações, legítimas ou não, resultando em condenações sumárias que lhes agradam, rumamos para o fascismo. O exemplo máximo disso foi o nazismo! Apesar de ter surgido de mentes doentias, ele só prosperou porque a população alemã da época o abraçou e praticou. Não fizeram isso por alguma espécie de surto psicótico coletivo, mas sim porque -por mais absurdo que fossem- os valores pregados pelo partido pareciam então legítimos e corretos. E porque todas as ações tomadas em seu nome, mesmo as mais irracionais, eram apoiadas amplamente.

As redes sociais deram voz a todos, e isso é maravilhoso! Mas não podemos usar esse direito para criar uma nova versão dos tribunais da Santa Inquisição. Ou em breve estaremos queimando mulheres em praça pública apenas por serem ruivas. E, assim como acontecia naqueles tempos sombrios, quem em um dia condena poderá ser queimado no dia seguinte. Basta um desafeto lançar uma suspeita.

E os inquisidores nem tinham as redes sociais ao seu dispor.


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Como o Facebook pode piorar o jornalismo e deixar as pessoas na ignorância

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Foto: Venkat Mangudi/Creative Commons

Na quinta passada, o Facebook anunciou mais uma mudança no seu algoritmo de relevância: os usuários passarão a ver mais o que seus amigos e familiares postarem, e menos o que vier das páginas que curtem. Parece uma bobagem, mas isso terá impactos significativos em muitos negócios e -pasmem!- em como a humanidade se informa. Você está pronto para isso?

Não é um exagero! Qualquer ação, por menor que seja, de algo que tem mais de 2 bilhões de usuários ativos, sendo que mais de 60% deles acessam o sistema todos os dias, tem um impacto social profundo. É como um elefante querendo coçar as costas em uma árvore: por mais que queira só se coçar, pobre árvore!


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No caso do anúncio da turma do Mark Zuckerberg, a justificativa oficial é “aproximar mais as pessoas”. Justo! E isso pode acontecer mesmo, mas, quanto disso é o real objetivo, quanto é só um discurso bonito, só eles sabem. Mas algumas transformações imediatas acontecerão.

A primeira coisa é que realmente a audiência das fan pages despencará. E isso será muito ruim para empresas que dependem muito do Facebook para seus negócios. Você pode até dizer que é a “hora da verdade” para esse pessoal, que até agora surfou na bonança criada pela rede. Pode ser! Mas isso demonstra o poder de “vida ou morte” desse “dono da bola”.

Restará às empresas duas alternativas. A primeira mais simples -e cara: pagar ao Facebook para “impulsionar” suas publicações. Isso é muito bom para o negócio da rede social, e bastante fácil no seu entendimento.

A segunda alternativa é tentar convencer as pessoas a elas mesmas distribuírem o conteúdo dessas empresas, por sua própria iniciativa. No mundo perfeito da justificativa oficial do Facebook, isso é bacana, pois, se a pessoa estiver fazendo isso, é porque tal conteúdo lhe é interessante.

E é aí que o elefante -ou a porca- pode torcer o rabo com força!

 

Jogo de interesses

Mesmo naquele mundo perfeito, é pouco provável ver pessoas compartilhando produtos. Com exceção dos apaixonados por marcas como Apple, convenhamos: não é normal, certo? Então, de cara, o varejo que vá preparando o seu espírito.

Entretanto a coisa muda bastante de figura quando pensamos em conteúdo editorial, em notícias, em entretenimento. No cenário idílico acima, os usuários compartilhariam conteúdos que fossem relevantes, provocando debates positivos. Até mesmo poderia ser uma ferramenta bacana para informar todos eficientemente.

Só que desgraçadamente isso não vai acontecer.

E o motivo é muito simples: quem disse que as pessoas querem criar debates em torno de temas que sejam realmente importantes? As pessoas querem falar sobre aquilo que lhes dê prazer imediato, e de preferência fácil, mesmo que seja a mais rotunda porcaria! E não estou fazendo aqui nenhum julgamento moral. Todos nós fazemos isso uma hora ou outra: faz parte da nossa natureza humana!

Para piorar, a recíproca é válida. Muitas informações que são realmente importantes para nosso desenvolvimento como indivíduo, cidadão, profissional vêm carregadas de um esforço para serem digeridas. Em muitos casos, elas são chatíssimas e exigem que abandonemos a nossa zona de conforto. Mas precisamos que alguém nos traga isso!

Essa é tradicionalmente a função da (boa) imprensa. Os jornais não nos mostram só coisas que gostamos: eles nos mostram também o que precisamos saber. Pois além de informar, eles precisam também formar o cidadão, mesmo que isso seja “chato” às vezes.

E aí chegamos à ironia dos fatos! Os veículos de comunicação hoje dependem pesadamente do próprio Facebook para gerar audiência para suas propriedades digitais. Na média, dá para falarmos em metade disso vindo dos algoritmos de Zuckerberg. Junte esse gosto pelo “conteúdo fácil” e os veículos sendo obrigados a implorar que os usuários compartilhem seu conteúdo, o que pode acontecer?

Um mundo cada vez mais dominado pelo jornalismo rasteiro, “fake news” e pessoas mantidas na ignorância.

 

Samba do crioulo doido

O Facebook pode ter criado uma forca, e os veículos podem estar alegremente colocando seu pescoço na corda. Não podemos deixar esse nó apertar, mesmo que isso seja chato!

Assim como Stanislaw Ponte Preta ironizou com seu samba a obrigatoriedade das escolas de samba só criarem enredos com fatos históricos (e a porcaria decorrente disso), os veículos não podem cair na tentação de investirem ainda mais nos caça-cliques para fazer o público lhes ajudar a garantir a audiência.

Mas nem tudo está perdido! Há uma solução, que depende de três atores principais.

O primeiro deles é o próprio Facebook. Ele tem o direito de alterar seus algoritmos como bem entender: afinal, é um produto que tem interesses comerciais. Mas, como já disse acima, ele tem uma paquidérmica função social, que não pode ser ignorada. Curiosamente, em seu já afamado desafio pessoal de início de ano, Zuckerberg publicou seu desejo de “consertar o Facebook” em 2018, inclusive para que seus recursos não sejam usados para disseminação de ódio e notícias falsas.

A mudança no algoritmo acima vai contra objetivo. Porém a empresa pode compensar essa mancada potencial com outras iniciativas que valorizem verdadeiramente conteúdo de qualidade, e não apenas “que provoquem conversas”, pois as conversas podem ser de baixo nível, em torno de coisas ruins. Precisam criar recursos que combatam o “fake news”. E, justiça seja feita, a empresa já vem trabalhando nisso, inclusive porque tem sido pesadamente criticada por sua omissão diante desse mar de lama em suas páginas.

O segundo ator é a própria mídia. A imprensa marrom sempre existiu e sempre existirá, mas ela jamais pode superar a imprensa séria, que informa e forma com precisão e responsabilidade. Nesse cenário, o papel da mídia é, portanto, resistir ao caminho mais fácil e sedutor do lado sombrio para ganhar uns cobres, e exaltar a ética e os pilares do bom jornalismo. Pois, se isso for oferecido em grande quantidade, aumenta a chance de as pessoas disseminarem mais bom que mau conteúdo.

Por fim, resta o mais importante de todos os atores: nós mesmos! Pois nós somos o vetor de tudo que se trafega nos meios digitais. Pela nossa humanidade, podemos ser o elo mais frágil, movidos pelas nossas paixões e porque é gostoso ficar em nossa zona de conforto. Mas também temos que resistir! Além disso, cabe a cada um de nós ajudar quem estiver a nossa volta a fazer o mesmo, convidando todos a tirar o senso crítico da gaveta, a não compartilhar nada antes de ler, a desconfiar (saudavelmente) sempre, a ouvir e criar um diálogo construtivo com aqueles que pensam diferentemente de nós, praticando a tolerância e a empatia.

Se esses três fizerem bem a sua parte, mudanças nos algoritmos das redes sociais terão impactos apenas pontuais, e elas, ao invés de se tornarem palco de ainda mais conteúdo rasteiro, poderão se consolidar como um espaço de compartilhamento de boa informação, construção de cidadania e debates construtivos.


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O que aprendi descobrindo que a mão do Maluf era mole

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O deputado federal Paulo Maluf, no Congresso Nacional - Foto: Agência Brasil/Creative Commons

O deputado federal Paulo Maluf, no Congresso Nacional

Todos nós passamos por experiências profissionais que nos ensinam algo para toda uma vida. Ao longo da minha carreira, coletei um sem número desses casos, inclusive por ser um “contador de histórias profissional”. Compartilho aqui com vocês uma que aconteceu bem no comecinho dessa minha jornada, que me ensinou algo que serve para qualquer um na sua vida pessoal e profissional, não importa o que faça: o dia em que descobri que a mão do Paulo Maluf era mole.

Não é uma piada! Bem no comecinho da minha carreira, em julho de 1992, quando ainda era trainee da Folha de S.Paulo, tive a oportunidade de entrevistá-lo. Na verdade, Maluf, raposa política que é, foi até o jornal e se propôs a ser “cobaia” do grupo de aspirantes a jornalistas, do qual eu fazia parte.


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Do que lhe perguntamos, honestamente eu não me lembro de absolutamente nada! Mas eu me lembro muito bem do que aprendi ao final daquele inusitado encontro: muitas vezes, criamos fantasias em torno de pessoas que têm grande destaque na mídia, quase como se elas fossem sobre-humanas, turvando nossas decisões em torno delas. Bem, elas não são! São gente como a gente!

Aprendi isso quando apertei a mão de Maluf quando ele estava indo embora. Eu, do alto dos meus 20 anos de idade, com pequena experiência de vida e experiência profissional ainda nula, tinha, diante de mim, uma pessoa que, independentemente de gostar dele ou não, era deputado federal, já havia sido governador do Estado, prefeito de São Paulo e, pouco tempo antes, candidato a presidente da República. Alguém que até então só via pela televisão ou pelos jornais. Enfim, uma genuína “otoridade”!

Foi quando apertei a mão do sujeito.

 

“Homem de granito”

Diante de toda aquela aura que Maluf carregava, então no auge de sua carreira, eu tinha uma fantasia bizarra de que aquela pessoa fosse feita de pedra. Um “homem de granito”!

Qual minha surpresa quando apertei a mão malufista e ela era mole! E por isso quero dizer que era uma mão normal, nada daquela fantasia de que apertaria a mão de uma estátua de praça.

Na hora, cheguei a levar um susto, pois aquela imagem irracional que eu tinha construído caiu por terra imediatamente: Maluf era só mais uma pessoa, imperfeita, que cometia erros, com a mão “mole”, que ia ao banheiro, assim como qualquer outra pessoa. Que grande experiência para um jornalista, que precisa ver o mundo como ele é!

Você pode dizer: mas que besteira! É claro que ele é uma pessoa normal!

Não é tão simples assim.

 

O poder do mito

Maluf é apenas um caso para ilustrar como podemos criar imagens idealizadas de pessoas que ganham grandes destaques em seus ramos de atuação, aparecendo sempre na mídia. E isso é tão mais verdade quanto mais jovens e menos experientes somos.

Não há nada de errada nisso! Apesar de essa história servir quase como uma anedota agora, ela é resultado de um comportamento natural da nossa humanidade. Mas precisamos perceber isso logo, para não cair na armadilha de essas fantasias atrapalharem nossos julgamentos, não importa sobre o que.

Em muitas ocasiões, esses seres idealizados estão bem próximos a nós, até temos que trabalhar com alguns eles. Se ainda estivesse vivo, como você se sentiria se fosse convidado a trabalhar com Steve Jobs, um dos maiores gênios da indústria de tecnologia? Incrível, não é mesmo? Mas, além de sua inegável genialidade, sabemos que Jobs era um sujeito de trato dificílimo, rude, mal-agradecido, até mesmo impiedoso!

E isso nos leva a outro aprendizado. Ninguém chega a posições de grande destaque por acaso. Algum mérito essas pessoas têm! Então, é verdade, sempre podemos aprender algo com elas. E devemos! Mas isso não deve acontecer com nossa completa submissão a esses “ídolos”.

Costumo dizer que devemos ser humildes, mas não “humildes demais”. Devemos ouvir o que as pessoas mais experientes têm a nos dizer, a nos ensinar. Absorver o que elas tiverem de bom. Mas não podemos esquecer jamais que nós -todos nós- sempre temos algo a contribuir, por mais que sejamos ainda inexperientes.

Mais que isso: todos são passíveis de erros, mesmo essa “turma estrelada”. Se atendermos cegamente a tudo que nos disserem, podemos eventualmente embarcar em seus erros. E infelizmente muita gente embarca, mesmo tendo percebido que algo não estava bem.

Não façamos isso! Eles têm seu valor, e nós temos o nosso! Qualquer relacionamento fica melhor quando todos os envolvidos podem contribuir da melhor maneira possível, sem que qualquer parte se sinta diminuída ou seja censurada.

Se estiver em dúvida, aperte a mão do sujeito! Com a cabeça erguida!


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O que uma rabugenta e um sonhador podem nos ensinar sobre trabalho e a vida

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Cena de “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” (“Saving Mr. Banks”) em que Walt Disney (Tom Hanks) leva Pamela Travers (Emma Thompson) para conhecer a Disneyland – Foto: divulgação

Cena de “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” (“Saving Mr. Banks”) em que Walt Disney (Tom Hanks) leva Pamela Travers (Emma Thompson) para conhecer a Disneyland

Eu adoro cinema! E, como contador de histórias que sou, reconheço seu poder quase mágico de não apenas nos entreter, mas também de nos ensinar e nos inspirar. Não me espanta, portanto, que todos tenham o “filme da sua vida”, cada um escolhido por um motivo totalmente pessoal. Qual é o seu?

Por isso, é muito comum eu partir de filmes para compartilhar algo com quem gosto. Tanto que, na minha última atividade no LinkedIn em 2017, falei sobre o que podemos aprender assistindo ao incrível “O Rei do Show” (“The Greatest Showman”), em cartaz nos cinemas. E aqui trago um pouco do que senti e pensei ao assistir, no primeiro dia do ano, a “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” (“Saving Mr. Banks”, 2013, trailer abaixo), disponível na Netflix, no Google Play e no iTunes.



Para quem não viu, trata-se de um filme que conta os bastidores de outro filme: “Mary Poppins”, obra-prima da Disney lançada em 1964. Ele retrata a história de como o próprio Walt Disney (vivido por Tom Hanks) e parte de sua equipe precisam suar a camisa para convencer a escritora Pamela Travers (Emma Thompson) a conceder os direitos de sua personagem para que o filme seja feito.

Quem resistiria bravamente a vender os direitos cinematográficos de um livro para a Disney transformá-lo em um dos filmes mais aclamados da história? Travers resistiu o quanto pôde.

Apesar de várias liberdades poéticas, o diretor John Lee Hancock consegue explicar essa aparente loucura. E começou pelo confronto de um bando de pessoas sonhadoras e extremamente motivadas, lideradas pelo próprio Disney, com uma mulher rabugenta, em muitas ocasiões grosseira e mal-agradecida, que, por circunstâncias profissionais, precisam trabalhar juntos em um projeto.

Quem nunca teve que passar por uma situação assim?

 

Não nos apressemos no julgamento

Sim, Travers era uma pessoa mais que difícil de conviver. Entretanto, apesar de sua rudeza e estilo negativo, ela tinha valor a acrescentar ao projeto, no caso, o roteiro de “Mary Poppins”. Mais que isso, havia uma explicação para seus modos, ainda que seja difícil justificar o tratamento dispensado aos demais. Hancock conseguiu isso usando flashbacks da infância difícil da autora, que forjou sua personalidade e a ajudou a compor a personagem.

Mas quantos de nós temos que nos deparar com pessoas difíceis em nosso cotidiano profissional ou pessoal, sem que tenhamos esse recurso? Acabamos vendo apenas o que elas nos mostram e, por isso mesmo, criamos imagens muito negativas, que podem pôr a perder relacionamentos que poderiam ser muito produtivos se todos os lados tivessem uma visão ampla dos fatos.

Foi o que aconteceu com a equipe de Disney, que quase enlouqueceu nas mãos de Travers, antes de perceber que, por baixo de todo aquele chumbo, havia algo incrível a ser trabalhado. Afinal, como alguém que escreve livros infantis sobre uma apaixonante babá mágica poderia ser tão contrária à fantasia e à música?

Travers também teve sua dose de aprendizagem. Com o tempo, percebeu que aquelas pessoas não formavam um bando de indivíduos frívolos, superficiais, ignorantes e mercenários. Pelo contrário, eram um grupo capaz de recontar sua obra de uma maneira que tocaria o coração de crianças e de adultos de qualquer perfil social.

Esse grato aprendizado de ambos os lados só aconteceu porque, naquelas extenuantes reuniões em 1961, exercitaram uma palavra que está muito na moda no mundo corporativo: “resiliência”.

 

Mantenha a mente e o coração abertos

Alguns poderiam argumentar que a equipe de Disney só aguentou os caprichos da autora porque, sem a aprovação dela, o projeto jamais sairia do papel. Isso talvez possa ter sido verdade em um primeiro momento, mas seria uma simplificação grosseira e uma injustiça com aqueles profissionais.

Essas “cascas de ferida” estão andando por aí. Eventualmente, cruzamos com algumas delas e -pior- temos que trabalhar com elas. Pelo nosso instinto de autopreservação, comumente nos retraímos após as primeiras doses de veneno ou de violência explícita. E quem poderia nos julgar, certo?

Pode ser… Mas diante das grandes dificuldades despontam os grandes corações

Sim, Disney e sua equipe precisavam da aprovação de Travers. Também é verdade que eles pareciam ser um grupo de pessoas brilhantes, de bem com a vida, artistas trabalhando em uma empresa que os incentivava e lhes dava todo suporte para realizar o seu trabalho.

Assim até eu, certo? Errado!

Resiliência, empatia, trabalho em equipe são capacidades com as quais todos nós nascemos. Já tratei delas em vários artigos aqui, assim como a maioria de nós miseravelmente vai perdendo essas capacidades importantíssimas à medida que crescemos e que ficamos mais experientes.

Quando fazemos isso, perdemos a chance de extrair coisas incríveis que temos dentro de nós. Reduzimos a chance de criar, e esquecemos até mesmo de como sonhar. Pior que isso: em casos extremos, minamos isso nas pessoas que estão a nossa volta. Ou seja, viramos as “cascas de ferida”.

Não podemos nos permitir um destino tão cruel!

 

Uma colher de açúcar ajuda o remédio a descer

Em uma das mais emblemáticas canções de “Mary Poppins”, a protagonista ensina que mesmo tarefas desagradáveis podem ser executadas se as realizarmos com bons olhos. Novamente a resiliência aparece, mesmo que na forma de uma colher de açúcar.

Sim, cada um de nós precisa descobrir qual é o nosso “açúcar”, para usá-lo quando necessário.

Se o conceito já não estivesse nos livros da Travers, eu diria que os roteiristas de Disney teriam incluído no filme a partir de sua própria experiência. E teria sido perfeito assim mesmo!

Temos que aprender e exercitar isso no nosso cotidiano, com as pessoas que nos rodeiam em nossas vidas pessoais e profissionais. Aliás, 2018 está apenas começando! Quem sabe ainda dá tempo de incluir isso na nossa lista de resoluções de ano novo? Aprendamos com Mary Poppins. Com Walt Disney e sua equipe. E, por que não, até com Pamela Travers? Assim, como diz a música:

“Toda tarefa que você fizer
Torna-se facinha
Uma brincadeira! Uma farra! É óbvio isso!”


PS: naturalmente recomendo que assistam a “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”. Mas apenas após terem visto (ou revisto) “Mary Poppins”. E, correndo o risco de “dar o spoiler supremo”, ofereço abaixo a cena final desse clássico de 1964. Não clique no “play” se ainda não viu o filme. Feliz 2018, com resiliência e empatia!


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