Se a carne é fraca, as redes sociais são fortes e a imprensa é mole

By 22 de Março de 2017 Jornalismo 2 Comments

Foto: Nicola Albertini/ Creative Commons

Os resultados preliminares da “Operação Carne Fraca” da Polícia Federal jogaram na lona esse setor da indústria de alimentos nacional. Enquanto importadores essenciais anunciavam restrições à carne brasileira, usuários transformavam as redes sociais no palco de grandes embates (e muitas piadas) sobre o caso, abalando ainda mais a confiança do consumidor. Mas qual é nosso papel nesse salseiro todo?

Passados cinco dias, a impressão que eu tenho é que ninguém sabe ainda qual é a verdade! Assim mesmo, as pessoas continuam se prestando a disseminar versões questionáveis. E tudo isso só acontece porque a imprensa não está fazendo seu trabalho direito. Mas dá para jogar toda a culpa nela?


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A imprensa está construindo todo o seu noticiário em cima de apenas três fontes: a própria Polícia Federal, o governo e a indústria da carne. O problema é que todos eles têm interesses fortíssimos envolvidos no caso. A Polícia Federal é a “dona” da operação e a origem das denúncias; o Governo Federal luta para salvar a imagem do produto brasileiro no exterior (e, de quebra, evitar ainda mais o desgaste da sua própria); e a indústria da carne tenta obviamente salvar a sua reputação e o próprio negócio.

Assim, com poucas e nobres exceções (e é importante frisar que elas existem), o noticiário vem sendo construído a partir do relato desses envolvidos. E só! A maioria dos veículos sequer ouve especialistas independentes! Como é possível o público entender, de verdade, o que está acontecendo, se todas as fontes têm interesses conflitantes, e até mesmo tentam desqualificar os outros lados?

A crise evoluiu rapidamente. A PF soltou a bomba na sexta, anunciada como a maior operação já realizada pela instituição. Empresas, governo e a imprensa foram pegos de calças curtas, e começaram a bater cabeça, cada um do seu lado. Redes sociais foram à loucura com posts de todo tipo. Empresas se defenderam como puderam, e o governo tentou acalmar os compradores internacionais, que anunciaram restrições à carne brasileira. Críticas de todos os lados empurraram a equipe da PF contra a parede, que, na segunda, se defendeu das acusações de sensacionalismo e precipitação, dizendo que “muitos fatos ainda estão sob sigilo e muitas provas ainda serão apresentadas”. Apenas um dia depois, a mesma PF jogou panos quentes, afirmando que foram apenas “problemas pontuais”.

Tudo isso em apenas cinco dias!

A imprensa continua no seu papel de menino de recados. E as redes sociais colocando lenha na fogueira.

 

Caixa de ressonância digital

Como já aconteceu em várias outras ocasiões, especialmente as envolvidas em assuntos de grande comoção social, a imprensa foi a origem do noticiário, enquanto as redes sociais funcionaram como perfeitas caixas de ressonância. Na verdade, dá para dizer que esse já é um padrão comportamental bem estabelecido, o que é perigosíssimo!

O processo é simples -e perverso. Começa com indivíduos selecionando versões de fatos noticiados pela imprensa. Normalmente fazem isso com algo que sejam francamente favoráveis ou contrários: no primeiro caso, defendem a tese com unhas e dentes; no segundo, partem para o ataque. Se o assunto os atingir pessoalmente, fica ainda mais fácil abraçar a causa.

Os locais onde todo esse engajamento acontece são as redes sociais. Se já não bastasse a natureza humana de se associar a indivíduos ou temas com os quais concorde, os algoritmos de relevância de Facebook e afins tratam de jogar na nossa cara apenas aquilo que nos deixa confortável, que gostamos. Isso é mais que suficiente para que uma versão se transforme em uma “verdade incontestável”.

Como já disse, ainda não tenho elementos para saber qual é a verdade nos casos apontados pela “Carne Fraca”. Acho que toda forma de corrupção deve ser exemplarmente combatida, mas e se houve mesmo precipitação e até sensacionalismo pela equipe responsável da Polícia Federal? E se toda essa milionária crise comercial tiver sido causada por uns poucos indivíduos agindo pontualmente?

Se isso se confirmar, a imprensa terá cometido uma falha gravíssima. E todo mundo terá corrido atrás dela, para jogar as suas pedrinhas.

 

A “escolinha do sexo”

Não teria sido a primeira vez que isso teria acontecido. E infelizmente não será a última.

A dinâmica dos fatos me fez lembrar de um caso que que virou objeto de estuda nas faculdades de Jornalismo: em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do Instituto Médico Legal informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”.


Capa do extinto "Notícias Populares" sobre o caso da Escola Base - foto: reprodução

Capa do extinto “Notícias Populares” sobre o caso da Escola Base

 

Casa que abrigava a Escola Base, na Aclimação, em São Paulo - foto: reprodução

Casa que abrigava a Escola Base, na Aclimação, em São Paulo


Isso foi suficiente para que o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocasse a imprensa e botasse a boca no trombone, condenando previamente os envolvidos. Começando pelo Jornal Nacional, a onda de denúncia se espalhou por toda a imprensa, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não surfaram nela por acharem que não havia provas.

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Além de falidos, tiveram que se mudar, pois foram ameaçados de morte. Porém, quando a investigação foi concluída, veio o choque: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito.

E isso tudo aconteceu em 1994! Portanto, antes do poder de propagação das redes sociais. Na verdade, antes mesmo da liberação da Internet comercial.

 

Desconfiança saudável

Apesar da terrível crise pela qual a imprensa vem passando, especialmente os veículos mais tradicionais, o noticiário ainda tem grande peso na vida das pessoas. E isso fica ainda mais forte em casos como o da “Operação Carne Fraca”, com fontes oficiais despejando um monte de evidências que incriminariam empresas e fiscais que estariam colocando “comida estragada” em nossas mesas. Para piorar, em um cotidiano em que a corrupção parece brotar o tempo todo de todos os lugares, o combate a ela virou uma questão de vida ou morte.

Muita calma nessa hora! Não podemos acreditar piamente em ninguém: nem na Polícia Federal, nem na imprensa, nem nas empresas, nem no governo! Não temos elementos para concluir coisa alguma com certeza. Portanto, nada de vestir a armadura de paladino digital e sair esculhambando ou defendendo ninguém.

Qualquer jornalista aprende que deve desconfiar de tudo e de todos sempre. Afinal, interesses podem alterar dramaticamente o posicionamento de pessoas, empresas e instituições. Mas essa desconfiança saudável serve para qualquer um, especialmente em tempos em que a opinião de qualquer cidadão tem grande peso, graças aos meios digitais.

Sei que é muito sedutor ver uma postagem no Facebook que nos atinge e “pensar com o fígado”. Como o algoritmo de relevância ainda nos mostra que muitos de nossos amigos também pensam o mesmo, abandonamos a nossa capacidade de questionar e embarcamos na loucura.

É muito triste, portanto, quando se percebe que a origem da confusão toda está exatamente na imprensa, aquela que vive para cavoucar a verdade, esteja onde estiver, doa a quem doer, mas que parece estar se esquecendo dessa sua nobre e essencial tarefa.

O desenvolvimento de uma sociedade está intimamente ligado a uma imprensa livre, mas também a uma imprensa preparada e responsável. Temos que lutar para que isso sempre exista, posicionando-nos contra a censura, mas exigindo também comprometimento dos profissionais. Pois, sem essas três características, o resultado de seu trabalho fica irremediavelmente comprometido. E aí os detentores do poder político e econômico deitam e rolam.

Paralelamente, cada um de nós também tem a responsabilidade de não acreditar em tudo e todos tão facilmente. Criemos um uso mais consciente, crítico e construtivo das redes sociais, para o nosso bem e para o de toda a sociedade.

Afinal, já existem meninos de recado demais por aí.


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