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A Internet conhece você melhor que sua mãe

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Foto: Adam Mancini / Creative Commons

Nessa semana, fui apresentado a mais um sistema online que parece conhecer meus amigos melhor que eu mesmo, e é capaz de detectar traços da minha personalidade que talvez nem minha própria mãe saiba. Isso tudo sem responder a nenhuma pergunta, em poucos segundos. Quando me deparo com algo assim, sempre penso que vivemos na era do fim da privacidade, liquidada pela combinação de algoritmos astutos, enorme capacidade de processamento e nossa vida cada vez mais online.

Não se trata do primeiro serviço que faz isso. Facebook e Google, só para ficar nos mais óbvios, detêm uma quantidade inimaginável de informações parametrizadas sobre cada um de nós, que sabem como transformar em dinheiro. Nesse mesmo espaço, já discuti também sobre o Apply Magic Sauce, criado pela da Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido), capaz de realizar uma impressionante análise psicológica do usuário, tendo, como base, apenas suas “curtidas” no Facebook.

O que me chamou a atenção sobre o novo serviço, chamado Crystal, é que ele não precisa ter acesso à conta do Facebook, Google, Twitter, LinkedIn ou qualquer outra do indivíduo. Na verdade, você pode saber como a pessoa é sem sequer ser amigo dela. Basta digitar o seu nome e identificá-la entre possíveis homônimos. A “mágica” se dá pela análise de conteúdos públicos na Internet atribuídos ao indivíduo.

O sistema oferece uma estimativa de precisão, que cresce à medida que encontra mais informações na rede sobre o pesquisado. Se encontrar pouca coisa, informa que o relatório pode não ser confiável. Por outro lado, se atinge um patamar mínimo, ele sugerirá como você deve se comportar quando estiver conversando com a pessoa, enviando-lhe um e-mail ou trabalhando com ela. Ainda dirá o que é natural ou não para o pesquisado.

Sobre mim, o Crystal lembra que, ao falar comigo, não se deve perder o foco no todo, enquanto é aceitável usar emoticons em e-mails. Também é bem-vindo, por exemplo, usar tempo para explorar novas ideias quando trabalhar comigo. Acerta quando diz que falo sem rodeios e que não me ofendo com piadas de gosto duvidoso.

Tudo isso só a partir de um nome.

 

Somos livros abertos

Nunca a expressão “minha vida é um livro aberto” foi tão verdadeira. Só não é perfeita porque as informações hoje não são mais tão coletadas dos livros, e sim da Internet.

O problema é que nem sempre o “dono do livro” gostaria que ele estivesse assim escancarado. Mas, verdade seja dita, é um problema cada vez menor, pois as pessoas vivem um momento de deliberadamente se expor ao mundo, especialmente nas redes sociais, muitas vezes de maneira exagerada e até perigosa.

Mais sensível que isso é o fato de que aparentemente falta à população a consciência da amplitude desses seus atos. Embarcamos na superexposição por diferentes motivos: para “fazer parte do grupo”, para nos sentirmos queridos (ou vistos), para expressar nossos sentimentos e crenças (boas e ruins). Há também o compartilhamento de informações, às vezes íntimas, com aplicativos nos celulares ou nas redes sociais: abrimos mão da nossa privacidade pelo simples desejo de usar algo novo, desde uma incrível inovação, até um simplório brinquedinho.

Conscientemente ou não, espalhamos nossas pegadas digitais o tempo todo. Essa é a realidade posta, e não há volta disso. Crystal, Apply Magic Sauce e todos os recursos do Google e do Facebook são exemplos de como alimentamos o sistema, e dele recebemos algo em troca.

Não é tão ruim quanto as ficções distópicas de “1984” ou de “Matrix”, mas estamos sendo sempre vigiados nessa nossa relação simbiótica com o sistema. Mas nem mesmo Neo ou o Grande Irmão pensaria em algo tão complexo e eficiente.

A liberdade não pode ser vítima da guerra ao terror

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"A Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Delacroix - Imagem: reprodução

“A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix

O jornal Le Figaro divulgou ontem uma pesquisa que indica que 84% dos franceses estariam dispostos a aceitar restrições a sua liberdade para se sentirem mais seguros. Claramente impulsionados pelo medo causado pelos atentados terroristas de sexta passada, esses números escondem o enorme risco de uma população abrir mão de seus direitos em um momento de crise e isso se perpetuar depois.

A França é tradicionalmente um dos países que mais defendem as liberdades e a privacidade do indivíduo. Mas agora está ferida por um inimigo que ninguém sabe quando, onde ou como atacará de novo. Essa sensação de impotência é terreno fértil para o crescimento de abusos de toda natureza. Na mesma pesquisa, 74% se disseram favoráveis à prisão de suspeitos de terrorismo, enquanto a retirada da nacionalidade francesa desse grupo é aceita por 53% de integrantes da esquerda e por assustadores 94% da direita radical. Vale ressaltar que se tratam de suspeitos, não de casos confirmados. Por fim, 62% dos franceses se dizem contrários à entrada de imigrantes no país (eram 47% há um mês).

Naturalmente a tentativa de controle de tudo que trafega na Internet também está na pauta do dia. Afinal, os terroristas usam os meios digitais para se comunicar, de maneiras bastante criativas (cheguei a ouvir –não-confirmado– que estariam até mesmo usando o inocente game Super Mario Maker para distribuir coordenadas de ataques).

Esse controle é um desejo antigo de políticos, principalmente dos mais sujos e medíocres, que não vira lei em países que prezam o indivíduo justamente pela enorme rejeição da sociedade. Mas o que impedirá isso na França em um momento como esse?

A Internet finalmente será controlada?

 

Não devemos deixar a coisa ainda pior

Não seria a primeira vez que o medo do terror patrocinaria a tentativa de se controlar as vidas digitais dos cidadãos. Principalmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, o governo americano tentou emplacar várias leis que legitimariam a espionagem online do governo (e conseguiu algumas), como o PATRIOT Act.

Claro que o governo americano usou largamente a Internet para se intrometer nos negócios de pessoas, empresas e governos do mundo todo. As revelações de Julian Assange e de Edward Snowden estão aí para documentar isso largamente. Mas o fato de isso permanecer no campo da ilegalidade pelo menos dificulta que a prática se dissemine para qualquer nível de poder, até os mais medíocres.

Já usei este espaço para discutir anteriormente os riscos de governos controlarem a Internet. Mencionei, inclusive, projetos de lei que tramitavam no Congresso Nacional e que permitiriam a qualquer “autoridade competente” arbitrariamente censurar publicações que lhe desagradassem e punir seus desafetos.

Hoje mesmo uma aluna me questionou como fica a liberdade de expressão em um momento como esse. Mais que isso, terroristas poderiam usar, por exemplo, o YouTube para fazer a sua odiosa propaganda? Respondi que a liberdade de expressão é um direito inalienável do ser humano, mas que, na prática, isso é algo bem difícil de se manter e de se exercitar. Defendo-a por princípio e tenho certeza que ela nos traz muito mais benefícios que perdas, por mais que, em muitas ocasiões, seja usada para propagar ideias das quais discordemos ou até mesmo abominemos. Mas essa é a regra do jogo.

Nesse exemplo, o próprio YouTube deve remover o vídeo, pois ele viola os seus termos de uso. Mas e no caso de o vídeo estar hospedado em um servidor dos próprios jihadistas? Além disso, como a imprensa deve tratar esse material? Ele é notícia? Deve ser usado em uma reportagem? Mais ainda: a imprensa tem o direito de querer publicar isso?

Isso nos leva a outro ponto: o exercício de liberdades, inclusive de expressão, está sujeito a critérios morais de cada um. Portanto, do meu ponto de vista, sim, a imprensa tem o direito de reportar as barbaridades, assim como tem o direito de editar o conteúdo para preservar o seu público dos momentos mais crus da exibição (que, diga-se de passagem, seriam desnecessários para as pessoas compreenderem o que estava acontecendo). Da mesma forma, as pessoas têm o direito de serem informadas, mesmo de coisas horrendas.

É uma situação muito delicada, sem dúvida. “Na guerra, a verdade é primeira vítima.” A frase, atribuída ao dramaturgo grego Ésquilo, poderia ser complementada perfeitamente por “seguida pela liberdade”. Os terroristas têm, pela natureza de sua ação furtiva, uma vantagem sobre os Estados que combatem. A esses últimos, cabe o dever de enfrentar o agressor da melhor maneira possível, a despeito de tal vantagem. Mas não podemos permitir que, em nome desse combate, os governos firam seus próprios cidadãos ainda mais, tirando-lhes a liberdade e a privacidade.

O absurdo de se usar o terror para comprovar um ponto de vista

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Foto: Giselle Garcia/Agência Brasil

Já nos bastasse o choque com os acontecimentos em Paris, fiquei muito triste ao ver que, mesmo diante dessa barbárie que comoveu o mundo, pessoas e instituições ainda encontraram lugar para usar a tragédia para fazer propaganda de seus ideais. E não me refiro a organizações terroristas, mas a jornalistas e veículos de comunicação se manifestando em redes sociais.

Há pouco mais de duas semanas, usei este espaço para fomentar o debate sobre como estar online afrouxa os limites morais de algumas pessoas. Naquela ocasião, eu me referia aos casos de assédio online contra uma participante do programa MasterChef Junior e a comentários infames postados contra o tema da redação do ENEM deste ano.

Desta vez, tive que ler coisas como “Entregue o destino das nações aos mercados; permita que instalem o caos e a incerteza; fomente o ódio; então se surpreenda: isso sangra e mata”, tuitado pela Carta Maior. Não foi a única (antes fosse), mas foi a que mais me chamou a atenção.

Sempre defendo em artigos, aulas e palestras que veículos de comunicação não apenas têm o direito de defender uma posição, como devem deixá-la clara para que o público consiga contextualizar adequadamente o que publicam. A Carta Maior faz isso muito bem.

Porém, da mesma forma, os mesmos veículos devem dar voz a posições contrárias, pois, por mais que defendam um lado do debate, devem fornecer elementos para que o público tenha uma visão mais ampla dos fatos (que sempre têm vários lados) e possam construir o seu próprio entendimento. Muitos poderiam argumentar que, em tempos de experiência informativa totalmente pulverizada pela abundância de oferta e distribuição pelas redes sociais, isso não seria mais necessário. Não concordo com isso: ter a grandeza de publicar posições contrárias só aumenta a credibilidade do veículo.

Agora definitivamente não é aceitável valer-se de uma tragédia para propagar sua ideologia.

 

A insensibilidade de um robô

Diante de um noticiário cada vez mais violento, tem-se a sensação de que todos estão anestesiados com o drama do outro. O sofrimento alheio no noticiário funciona quase como se aquilo reforçasse a “sorte” de não se partilhar daquela dor.

Nós, jornalistas, como agentes desse noticiário, corremos ainda mais o risco de passar por esse processo. Afinal, qual o peso de se noticiar mais um roubo, uma chacina, um desabamento, um acidente ecológico, um atentado terrorista? Em mentes viciadas em produzir reportagens, levanta-se os fatos, agrega-se números, escolhe-se uma imagem e o texto é parido. De cócoras!

A frieza, o distanciamento, a insensibilidade fazem com que o jornalista pareça um robô. Não é de se estanhar, portanto, que tantos textos jornalísticos sejam hoje produzidos autônoma e automaticamente por software. E muitas vezes, dentro do que se propõem, ficam melhores que os equivalentes produzidos por humanos.

A miopia jornalística e a insensibilidade capazes de gerar um tuíte como aquele são as mesmas que fazem colegas classificar a descomunal tragédia humana e ambiental de Mariana como “acidente”. Pelo que entendi, os supostos tremores de terra jamais poderiam ter causado o rompimento da barragem. Tampouco ela foi atingida por um meteoro ou por algum monstro japonês. Portanto, paremos com a cobertura chapa-branca, que poupa as empresas e o governo.

As boas escolas de jornalismo ensinam que a mídia tem duas funções principais: a de informar e a de formar o cidadão. Ela é o farol da sociedade, que ilumina as mentes e abre os olhos para um mundo que as pessoas muitas vezes não conseguem ver sozinhas. É por isso que, em países com uma mídia fragilizada, a sociedade sofre todo tipo de abuso político e econômico. É por isso que ditaduras sempre têm na imprensa livre um de seus primeiros e principais alvos.

Desgraçadamente nossa imprensa vem falhando nas duas funções. Os colegas precisam urgentemente parar de se guiar pela busca pela audiência, de se debater para agradar anunciantes, de tentar bajular seu público já embrutecido pela desinformação. E, com a mesma urgência, precisam reaprende a ter suas ações como jornalistas comandadas pelo seu cérebro e pelo seu coração.

Se não for assim, é melhor passar o bastão para os robôs de texto.

Ativismo digital desperta engajamento e simboliza uma nova geração politizada

By | Tecnologia | No Comments

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nas grandes manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, ficou famosa a hashtag #vemprarua, que conclamava a população a participar das passeatas que estavam acontecendo. Ela vinha de mãos dadas com a ideia crescente de que fazer política só pelas redes sociais não era suficiente. Porém, passados dois anos, percebe-se que esse discurso é enviesado e que o “ativismo digital” representa muito mais que simplesmente alguém que não quer sair do sofá para fazer política.

Na semana passada, a F/Nazca, com o apoio da cRica Consulting e do Datafolha, publicou os resultados da 15ª edição da F/Radar, pesquisa que investiga os impactos da tecnologia na cultura e no consumo. Ela gerou um documentário, batizado de “Democracia Conectada”, que pode ser visto abaixo:

Os resultados demonstram que a combinação da enorme penetração das redes sociais (especialmente o Facebook) e dos smartphones entre os brasileiros criou elementos que permitem o engajamento da população nas mais diferentes causas. Elas vão desde a organização de megamanifestações completamente desvinculadas de grupos políticos, até a defesa de pequenas causas urbanas, como a preservação de uma praça ou um parque.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os números que apontem que, dos quase 30 milhões de ativistas digitais no país, 80% se envolveram com causas pelas redes sociais, e que metade dos que participaram online também o fizeram indo para a rua. E mais: 60% dos internautas acreditam que as redes sociais podem mudar sua opinião sobre algum problema social e 40% afirmam que a mobilização online contribui para que participem presencialmente.

São números que demonstram um comportamento novo.

 

No sofá sim; apático não

Conclusões políticas e comportamentais muito importantes e interessantes podem ser tiradas disso.

A primeira delas é que esse tipo de engajamento está totalmente alinhado com uma nova linguagem urbana, que vem se desenvolvendo em todas as classes sociais: cada vez mais as pessoas conversam pelo meio digital, especialmente pelos smartphones. E, apesar de esse diálogo ser, de alguma forma, empobrecido por não acontecer presencialmente, diante do interlocutor, ele acaba sendo muito amplo. Fala-se sobre mais temas, e com mais gente. E, nesse cenário, fala-se até com desconhecidos de uma maneira inimaginável há alguns anos.

Essa característica essencial das redes sociais parece ter sido definitivamente integrada ao comportamento do brasileiro urbano, especialmente entre os mais jovens. E está na base desse crescimento do ativismo digital reportado pela F/Nazca.

Outra coisa que se observa é o sentimento de que as redes sociais são um palanque tão importante quanto as ruas, talvez até mais. Dezenas de milhares de pessoas em uma passeata certamente causam um grande impacto, mas esses eventos não acontecem sempre, são pontuais. As redes sociais, por outro lado, estão continuamente no ar, e as postagens políticas de cada usuário têm potencial de se propagar rapidamente pela rede, seguindo os seus critérios. Dessa forma, graças à tecnologia, estamos assistindo a uma nova forma de se fazer política, que pode ser profundamente engajada, mesmo sem precisar sair do sofá.

Naturalmente há de se argumentar que possivelmente a maior parte disso tudo seja apenas ruído causado por discursos vazios. Muito se fala, muito se critica, pouco se propõe. Afinal, é divertido bater em quem não gostamos, principalmente quando o alvo já está em situação delicada. O ditado “chutar cachorro morto” ganha nova dimensão nas redes sociais, com os amigos que pensam igual sobre determinado tema surgindo para ajudar no linchamento online.

Sobre isso, faço dois comentários. Sim, esse comportamento existe e está até mesmo criando uma polarização na sociedade nunca vista no Brasil. Mas isso, por mais ocas que sejam as palavras, já é fazer política.

Além disso, quem tem participado das últimas grandes manifestações de rua percebeu que aquilo era um verdadeiro carnaval de ideias completamente dissociadas entre si, até mesmo antagônicas. Tudo debaixo de um mesmo guarda-chuva democrático, que também abrigava aqueles que estavam lá só para curtir. Nada mais natural: a passeata é uma manifestação materializada na rua do discurso nada virtual das redes sociais, que, aliás, foram usadas para organizar o movimento.

Tudo isso passa uma sensação de que temos ainda muito a evoluir na nossa consciência política, para que paremos de chutar o cão moribundo e passemos a criar propostas concretas para o nosso país. Mas vejo com bons olhos como os meios digitais estão promovendo uma mudança maiúscula em mais um elemento da nossa sociedade. Estamos vendo o nascimento de uma nova geração politizada, com linguagem e estilo próprios.

Globo Play não deve salvar a emissora nas novas gerações hiperconectadas

By | Jornalismo | One Comment

Foto: Robert de Bock / domínio público

Nesta terça (3), a Globo lançou seu aplicativo Globo Play, um serviço de vídeo sob demanda que, a princípio, lembra produtos como Netflix: o usuário paga R$ 12,90 por mês e tem acesso a todo o seu acervo. Mas a novidade talvez tenha chegado tarde demais para salvar a emissora.

Muita gente pode achar um exagero o termo “salvar” para uma empresa que faturou R$ 12,4 bilhões em 2014. Isso representa cerca de metade da publicidade da TV aberta, segmento cujo market share supera, por sua vez, 50% de tudo que se anuncia no país.

Porém, no dia seguinte ao lançamento, a comScore e a IMS divulgaram os resultados de uma pesquisa com latino-americanos que assistiram a algum vídeo online nos últimos três meses. E, pelo menos para essas pessoas, o vídeo sob demanda já é mais importante que a TV.

O vídeo pela Internet faz parte do cotidiano de 81% do público pesquisado, contra apenas 70% da TV aberta. No Brasil, os números são ainda maiores: 82% dos entrevistados veem vídeo sob demanda regularmente, contra 73% da TV aberta. Em média, os entrevistados assistem a 13,2 horas semanais de vídeos digitais, 7,8 horas a mais que os das emissoras tradicionais. O dispositivo preferido para vídeos é o smartphone, usado em 80% dos casos. E o tempo gasto nessas telinhas, 5,2 horas semanais, é praticamente o mesmo dos dedicados à TV aberta e à TV fechada, que somam 5,4 horas semanais.

Outro dado emblemático revelado pela pesquisa é a idade dos consumidores de vídeo online. O maior grupo, de 15 a 24 anos, representa 30% do total, seguido pelo de 25 a 34 anos (26%) e o de 35 a 44 anos (22%). Ou seja, 56% dessas pessoas estão na faixa etária que liderará a vida econômica de seus países nas próximas décadas, começando agora.

E é aí que a situação da Globo e das outras emissoras se complica.

 

Modelo caduco

Então por que o Globo Play não seria suficiente para recolocar a Globo no caminho desse grupo de telespectadores? Porque, apesar de ter um modelo de cobrança e uma tecnologia semelhantes aos da Netflix, ele insiste em um estilo que as pessoas não aceitam mais.

Uma diferença fundamental entre os dois serviços é que, quando a Netflix lança uma nova série, ela publica todos os episódios de uma só vez. Já o Globo Play não coloca na Internet nada que não tenha passado antes na telona. Nada de ver, portanto, todos os capítulos da série de uma só vez, como clientes do Netflix estão acostumados a fazer.

Ou seja, o usuário da Vênus Platinada continua preso à grade da programação, um modelo que caducou na cabeça das novas gerações. Cada vez menos, essas pessoas podem ser chamadas de espectadores, pois querem assumir o controle de sua experiência: o horário nobre é aquele que elas definirem, e o que passa nele é o usuário que escolhe.

Sempre gosto de observar crianças e adolescentes: eles são ótimos gurus de como será o comportamento da sociedade nos próximos anos. E algo que tenho constatado cada vez mais é que essa turma simplesmente não assiste a nada na TV aberta. A telona serve para ver alguma coisa na TV por assinatura ou se conectar a serviços de vídeo sob demanda, o que realmente lhes interessa mais, de Netflix a ídolos teen no YouTube, conteúdos que consomem vorazmente. E o relatório da comScore corrobora minha observação, ao indicar que, entre o grupo pesquisado, a TV por assinatura já tem mais público que a TV aberta, indicando uma preferência por segmentação de programação.

O último movimento da Globo é interessante, sem dúvida, mas não o vejo como suficiente para convencer as gerações já acostumadas a ter o total controle do seu consumo de conteúdo a pagar por ele. No final das contas, continua sendo a velha TV, apenas com um novo formato tecnológico. O que o público quer, entretanto, é uma verdadeira ruptura de modelo.

E nem entrei no mérito da qualidade da programação da TV aberta…

Violência contra a mulher começa em casa, passa pelo MasterChef e desagua nas redes sociais

By | Educação, Tecnologia | 3 Comments

Foto: CMYKane / Creative Commons

A edição mirim do MasterChef começou no dia 20 com uma de suas participantes, Valentina, de 12 anos, sendo alvo de comentários sexistas nas redes sociais. Cinco dias depois, o tema da redação do ENEM abordou justamente a violência contra as mulheres, e novamente o assunto inundou a Internet. Sempre acredito que o debate enriquece ideias, mas o que eu vi nesses dois casos é assustador.

No caso de Valentina, apenas uma criança, os impropérios dirigidos gratuitamente a ela já seriam imperdoáveis por si só. Mas o que se viu foi as redes sociais funcionando como caixas de ressonância para as barbaridades. Pessoas curtindo tudo aquilo e outras engrossando o caldo do horror, sem a menor preocupação de serem identificados a partir de seus perfis.

Os assediadores acham que tudo isso é mais que normal: seria perfeitamente aceitável pela nossa sociedade. E essa sensação tem origem no fato de que, no Brasil, a coisa é mais ou menos assim mesmo. A culpa recai sobre a vítima, como se ela fosse culpada pelo problema.

Fico imaginando o que Valentina teria feito para ser alvo de tudo aquilo e simplesmente não consigo encontrar nada. A começar porque nada justificaria o fato.

Meu sentimento foi reforçado pelo ENEM. Muita gente, candidatos ou não, se sentiu ofendida com a proposta da redação, como se estivessem sendo forçados a assumir uma posição “feminista” (a menos, é claro, que quisessem levar um zero) e isso fosse uma ofensa a sua honra, talvez sua masculinidade. Era como se escrever um texto combatendo à violência contra as mulheres, o que pode ser facilmente extrapolado para violência contra seres humanos, fosse algo penoso, que lhe fosse suprimir algum direito bizarro.

As aspas em “feminista”, no parágrafo anterior, foram propositais. Fica muito claro que a maioria das pessoas não entendem o que o termo significa (vou dar uma ajudinha com duas boas definições, do site Significados e da Wikipedia). De volta às redes sociais, assisti perplexo a pessoas com seu discurso de ódio contra a prova, baseado nas premissas acima. Também vi gente dizendo que a prova era uma doutrina “da esquerda” e que até se tratava de uma ameaça à família. Mas a minha esperança de uma sociedade melhor foi realmente abalada quando eu vi mulheres dizendo isso tudo.

Mulheres criticavam publicamente uma crítica à violência contra a mulher.

 

Impunidade e idiotismo

As redes sociais despertam características curiosas em alguns indivíduos.

A primeira delas é uma falsa sensação de impunidade, quase como se não pudéssemos ser alcançados em nossa “vida online”. Nela, fazemos coisas que jamais faríamos “presencialmente”, e essa característica se manifesta com bastante força nas redes sociais. Sempre gosto de usar, como exemplo, um álbum de fotos da família. Quem iria a uma praça e ficaria mostrando as fotos de seus filhos a desconhecidos? Então por que fazem isso nas redes sociais?

Isso explica parcialmente porque as pessoas publicaram tudo o que foi dito acima sobre o ENEM e sobre Valentina com os seus perfis reais. Estão lá para serem inequivocamente identificados, mesmo quando o que diziam poderia ser considerado crime em diferentes artigos do Código Penal. É verdade que muitos trogloditas diriam tudo aquilo também presencialmente, mas outros o fizeram apenas por se sentirem protegidos por esse véu inexistente da “vida online”.

Acontece que não existe essa história de “vida online” e “vida presencial”. As duas são apenas diferentes expressões de uma única realidade. Somos seres indivisíveis e, como tal, respondemos pelo que fizermos em qualquer lugar, mesmo no ciberespaço.

A segunda característica, prima da anterior, é uma espécie de ciberidiotismo. Assim como estar online causa a algumas pessoas a sensação de estar acima da lei, também destrava em um grupo o pior de sua personalidade, derrubando qualquer limite moral que tenham para fazer valer suas premissas.

Entendo que muita gente não goste do atual Governo Federal, e não estou aqui julgando ninguém por isso. Mas de repente notei que esse posicionamento político legítimo se misturou ao tema da redação. Afinal, por esse raciocínio, se o ENEM é feito pelo Ministério da Educação, logo tudo que ele propõe deve ser ruim, uma “doutrinação de esquerda”, uma “lavagem cerebral terrível” e, portanto, até mesmo combater a violência contra mulheres na redação deve ser algo condenável.

É triste ver a tecnologia sendo usada em atitudes que pioram a nossa sociedade, a despeito de seu potencial para melhorá-la. Para casos como os descritos acima, vejo o Direito e a Psicologia como as disciplinas do conhecimento humano necessárias para corrigir os excessos e os desvios.

Sobre a prova do ENEM, só posso dizer que ela cumpriu bem o propósito de levantar uma discussão tão importante na sociedade, ainda que o caminho tenha sido mais tortuoso que o que seria necessário. E, para Valentina, espero que o amor e o carinho de familiares e amigos a ajudem a passar por esse assédio da melhor maneira possível.

Depois de mudar o jeito de ver TV, Netflix agora mira o cinema e até o jornalismo

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Cena de "Beasts of No Nation", primeiro filme da Netflix para o cinema - Foto: divulgação

Cena de “Beasts of No Nation”, primeiro filme da Netflix para o cinema

Na última sexta, a Netflix estreou “Beasts of No Nation”, seu primeiro longa-metragem para cinema. Dois dias antes, seu CEO, Reed Hastings, e seu diretor de conteúdo, Ted Sarandos, anunciaram a intenção de investir em jornalismo nos próximos anos. Se fosse outra empresa, essas poderiam ser apenas duas decisões isoladas, mas, nesse caso, elas podem representar o início de mudanças maiúsculas no mundo cinematográfico e do noticiário.

O Netflix é uma das empresas mais inovadoras do momento, não apenas pela sua eficiência e pela simplicidade de seu produto, mas porque, graças a elas, conseguiu modificar a maneira como as pessoas veem televisão. Ela não inventou o conceito de vídeo sob demanda, mas o popularizou em uma interface simples e presente em todo tipo de plataforma tecnológica, a um preço justo.

Porém a verdadeira mudança deriva disso tudo: dar ao consumidor a capacidade de escolher o que assistir, na hora que quiser e com o dispositivo que preferir. E esse poder fica ainda mais evidente nas séries, cujos capítulos de uma temporada são oferecidos todos de uma só vez, e não mais um por semana. Dessa forma, se o consumidor quiser, pode assistir a todos na sequência. Pode parecer uma bobagem, mas essa possibilidade coloca em xeque o conceito de grade de programação, algo sobre o qual se monta os modelos de negócios das emissoras de TV abertas e por assinatura

“Beasts of No Nation” (sem título em português) estreou em apenas 31 salas independentes nos EUA (nenhuma no Brasil). Isso é insignificante em um país com cerca de 40 mil salas de cinema. Não se trata de um filme ruim: pelo contrário, “Beasts” traz um retrato cru e contundente do flagelo das crianças-soldado na África, elaborado meticulosamente para tentar abocanhar prêmios importantes, inclusive algum Oscar.

Mas então por que tão poucos endereços estão exibindo a produção original da Netflix?

 

Boicote contra a inovação

Acontece que a empresa decidiu lançar o filme em sua plataforma no mesmo dia em que saía no cinema. Normalmente são exigidos pelo menos 90 dias de embargo após a estreia nas salas para que um filme chegue a qualquer outra plataforma ou mídia, temendo a canibalização das bilheterias. A Netflix acha que isso pode ser mudado. Os grandes conglomerados de exibição, como Cinemark e UCI, acham que não. Por isso, boicotaram “Beasts” em massa.

A inovação nem sempre é compreendida. Mas a indústria do cinema deveria, pois já foi ameaçada por inovações antes. A turma na faixa dos 40 anos deve se lembrar do frenesi causado pelo lançamento do VHS. Na época, dizia-se que as fitas acabariam com as salas de cinema. Em um primeiro momento, isso parecia ser verdade, pois muita gente começou a deixar de ir ao cinema para alugar filmes. Mas a culpa não era do VHS, que oferecia uma imagem ruim, exibida em uma TV de tubo pequena em nossas casas. A culpa era do próprio cinema: as salas eram quase sempre reduzidas, abafadas, cheirando a mofo, com projeção e som ruins, poltronas desconfortáveis e uma pipoca horrorosa. Diante dessa oferta, migrar para o VHS parecia uma alternativa vantajosa.

Foi quando as exibidoras deixaram o chororô de lado e investiram na criação de salas incríveis, que proporcionassem uma experiência realmente marcante. Algo que o VHS e seus sucessores DVD e blu-ray jamais poderiam imitar. Assim, cada um encontrou o seu lugar no mercado, e as salas de exibição estão cheias como nunca.

Mas agora podem argumentar que a Netflix está querendo acabar com o embargo, que sempre existiu. Isso é uma visão míope e protecionista, de alguém que quer matar no peito um tsunami que se aproxima.

Sempre se deve dar ao consumidor a escolha. E isso significa, nesse caso, a Netflix oferecer logo os filmes e as salas de cinema continuarem a oferecer uma experiência diferenciada. Uso pesadamente o serviço online, mas também estou sempre no cinema, que adoro. Aliás, adoraria ver “Beasts” na telona, se possível em uma sala IMAX.

Mas quero ter a opção em minhas mãos.

 

Um novo jornalismo

Agora a empresa vem com essa história de produzir conteúdo jornalístico próprio. Quem vai gritar contra?

Ao contrário do cinema, as grandes empresas de jornalismo estão quase todas moribundas. Chegaram a essa situação por culpa exclusiva delas mesmas, que resistiram (e ainda resistem) a mudar seu produto, seu modelo de negócios e o relacionamento com seu público, mesmo com as pessoas migrando para alternativas mais modernas e vantajosas.

Nesse caso, não vejo o Netflix enfrentando resistência, pois os veículos tradicionais não têm fôlego para isso. Contemplarão mais uma nova empresa fazendo bem a função em que antes eram mestres, pelo simples fato de realizar um trabalho sério e adequado a realidade vigente. E, novamente, dando ao consumidor o poder da escolha.

Jeff Bezos, criador e dono da Amazon, comprou The Washington Post há dois anos, e está salvando o jornalão com sua visão pragmática de negócios e com amplos investimentos em tecnologia e jornalismo. O futuro da notícia parece cada vez mais vinculado aos gigantes da tecnologia digital.

Se a Netflix ganhará o Oscar, só o tempo dirá. A premiação nunca foi exclusivamente por critérios artísticos, e os interesses dos exibidores certamente pesam entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A empresa precisará convencer os decanos de Hollywood que não está destruindo o cinema. Ou então trilhar o caminho contrário: cativar irremediavelmente o público com sua nova proposta e esperar que a pressão popular faça o resto.

Uber mostra que políticos são reféns de máfias e ignoram economia compartilhada

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Taxistas do Rio protestam contra o Uber - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Creative Commons

Taxistas do Rio protestam contra o Uber

Na última quinta (8), Fernando Haddad, explicou como espera resolver a crise entre os taxistas da cidade e o Uber. Com um discurso pretensamente moderno, o prefeito de São Paulo não apenas piorou o imbróglio, como também, a exemplo de seu colega do Rio, Eduardo Paes, demonstrou que não entende absolutamente nada de economia compartilhada.

Esse novo conceito subverte modelos de negócios consolidados em favor da população, com usos criativos da tecnologia. Com ele, alguém que possua um recurso ocioso -no caso, um carro- pode oferecê-lo parcialmente a quem estiver disposto a pagar por isso. Dessa forma, minimiza-se a necessidade de se comprar novos carros, otimizando o uso dos já existentes. De quebra, os proprietários passam a ter uma renda extra, enquanto os consumidores ganham novas e interessantes ofertas de produtos e serviços.

A suposta “solução” da prefeitura foi a criação de uma nova categoria de táxis, batizado de “táxi preto”, uma referência à cor que os carros deverão ter, a mesma dos veículos do Uber. Também igual ao praticado pela empresa, os motoristas só poderão ser chamados a partir de um aplicativo, a ser fornecido pela prefeitura. Para participar da nova categoria, o motorista deverá ser agraciado com uma das 5.000 licenças que serão sorteadas pela administração municipal e ainda pagar uma taxa que pode chegar a R$ 60.000. Ou seja, contrário a tudo o que a economia compartilhada prevê.

Desde que o Uber chegou a São Paulo, tenho debatido o assunto com motoristas da empresa e com taxistas. Do segundo grupo, tirando os radicais que acham que “Uber bom é Uber morto”, ficou claro que o problema não é o novo serviço roubar passageiros deles. A própria prefeitura admite que há um enorme déficit de táxis na cidade: são 3 para cada 1.000 habitantes (no Rio, essa proporção é de 9 para cada 1.000). Ou seja, em uma cidade com cerca de 35 mil táxis rodando e uma demanda reprimida de pelo menos outros 20 mil, os atuais 1.500 carros do Uber (segundo dados dos motoristas) estariam longe de causar uma ruptura no negócio dos taxistas.

Onde o calo aperta é na desvalorização do alvará, concessão da prefeitura que permite a prestação de serviço de táxi na cidade. Apesar de concedido gratuitamente, São Paulo não emite novas licenças desde 1996. Com isso, criou-se um verdadeiro mercado negro de alvarás, que são comercializados para quem quiser ingressar na profissão, o que é contra a lei. Frotas de táxis em São Paulo detém uma enorme quantidade dessas concessões. E, pelo que ouvi de muitos taxistas, vereadores são donos de algumas das maiores frotas da cidade.

 

Máfia incomodada

Comprar um alvará é algo simples: basta perguntar a qualquer taxista, e ele provavelmente conhecerá o caminho até alguém que queira vender um. Antes da chegada do Uber, a transação facilmente superava R$ 100 mil. Para operar no ponto de Congonhas, o mais valioso da cidade, o alvará passava de R$ 150 mil! Com a chegada do novo serviço, o valor desse mercado negro despencou, sendo possível adquirir um alvará hoje por menos de R$ 50 mil.

Não é necessário ser gênio para se perceber que muita gente tomou um prejuízo milionário com a chegada do Uber à cidade. Afinal, para que pagar uma fortuna por um alvará, se ele não é mais necessário para se prestar o serviço? Mesmo com os motoristas do Uber não tendo acesso aos benefícios dos taxistas, como desconto para comprar veículos e outras isenções de impostos, fazer parte da economia compartilhada pareceu ser muito mais vantajoso, rentável, simples e justo.

Ironicamente, o prefeito disse que um dos benefícios da nova lei é combater a “máfia dos alvarás”. Como? Criando um novo, que já nasce pago e com um valor obsceno, tanto quanto o cobrado pelo mercado negro. Confesso que fiquei confuso sobre como esse combate se dará.

Haddad perdeu a chance de demonstrar uma visão moderna sobre o transporte individual em que o passageiro não é o próprio condutor. O Uber é amplamente aprovado pelos seus usuários, que teriam enviado cerca de 900 mil e-mails ao gabinete do prefeito pedindo que vetasse a lei aprovada na Câmara dos Vereadores, proibindo o serviço. Mas ele preferiu ficar refém de uma categoria que, apesar de, sim, possuir bons profissionais, prefere se acomodar em uma situação em que os próprios motoristas são explorados por uma máfia inescrupulosa, com a benção do poder público.

Resta a esperança de que a Justiça casse essa lei estapafúrdia e traga um pouco de modernidade aos setores mais rançosos de nossa economia. A Justiça do Rio já concedeu liminar tornando inócua a lei sancionada por Paes. Já é um primeiro passo.

A tecnologia pode PIORAR a educação?

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Ábaco - Foto: reprodução

Há alguns dias, fui bombardeado com discussões e reportagens sobre um estudo recente da OCDE sobre competências digitais dos alunos. O que mais me chamou a atenção foram afirmações de que o uso intensivo de tecnologia em sala de aula estaria piorando a qualidade do ensino, até mesmo o desenvolvimento das próprias habilidades digitais.

Aquilo me pareceu, no mínimo, contraditório, além de bater de frente com as minhas crenças sobre os benefícios de um bom uso de recursos digitais na escola. Mas se “contra fatos, não há argumentos”, fui atrás dos fatos e conversei com especialistas para entender essa aparente incoerência.

Felizmente o que o relatório “Estudantes, Computadores e Aprendizado: Fazendo a Conexão” propunha não era bem aquilo. Na verdade, o estudo, feito a partir do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2012, sugere que o simples investimento em tecnologia nas escolas não resulta necessariamente em um melhor desempenho das habilidades digitais dos estudantes.

Mas então de onde veio essa história de que a tecnologia piora a educação?

Acontece que nos países que tiveram os melhores resultados no levantamento, Coreia do Sul, China (especificamente Xangai e Hong Kong) e Japão, o uso da informática em sala de aula fica consideravelmente abaixo da média dos países avaliados. Por outro lado, os resultados de países como Suécia, Dinamarca, Noruega e Polônia, que usam pesadamente a tecnologia na escola, pioraram ou ficaram estagnados.

Evidentemente a OCDE não está sugerindo que as escolas abandonem o uso de computadores. A mensagem passada é que, se os professores não estiverem preparados para usar a tecnologia criativamente, uma escola cheia desses recursos não passará de marketing para atrair pais de alunos.

Agora as coisas começam a fazer sentido.

 

Uma escola para pensar

Na apresentação do relatório, Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, explicou que “é necessário que os sistemas escolares encontrem formas mais eficazes de integrar a tecnologia ao ensino e à aprendizagem para proporcionar aos professores recursos de instrução que apoiem as pedagogias do século 21”.

Trocando em miúdos, computadores, tablets, smartphones, lousas digitais e afins são poderosas ferramentas para ajudar o aluno a aprender a pensar. Não são imprescindíveis para isso, e o estudo acima deixa isso claro, mas, se bem utilizados, podem fazer uma enorme diferença.

O grande desafio é implantar com sucesso recursos que ampliam os horizontes dos alunos e lhes dão ampla liberdade de pensamento e ação em um modelo escolar originado na Revolução Industrial, em que o que se prezava era a obediência às regras sem questionamentos e a habilidade de reproduzir tarefas com precisão. Por mais que, nos últimos anos, vejamos alguns movimentos interessantes de subverter essa lógica perversa na educação, quase sempre essas iniciativas são isoladas e restritas às escolas das classes mais altas.

Para dificultar ainda mais, os professores, que deveriam ser os condutores dessas mudanças, não foram preparados para a tarefa. Sua formação até aborda teoricamente modelos pedagógicos inovadores, porém as próprias faculdades não seguem tais propostas. Mais que isso: usos criativos da tecnologia não são discutidos.

O resultado disso são professores que são usuários de computadores, tablets e smartphones no seu cotidiano, mas que não conseguem transpor essa experiência pessoal para seus planos de aula, algo compreensível na introdução de qualquer tecnologia inovadora em um processo consolidado. Seria como pedir que Sócrates passasse a usar com seus discípulos uma lousa. Justo ele que questionava a utilidade da escrita.

A introdução bem-sucedida dos recursos digitais na escola passa, portanto, por uma restruturação do próprio modelo educacional, repensando os papeis dos professores e dos estudantes no processo. A tecnologia se manifesta de diferentes maneiras no dia a dia dos alunos, permitindo que eles absorvam um enorme volume de informação, muitas vezes de maneira anárquica, sem orientação para discernir o bom do ruim com uma análise crítica. Por conta disso, estudantes de todas as idades chegam às salas de aula carregados com uma geleia indefinida de informação.

Eu, como professor, me deparo com isso o tempo todo. Preciso ter humildade para aceitar que, muitas vezes, o aluno terá mais informação que eu sobre determinado assunto. Justamente aí reside o novo papel do professor: deixa de ser o detentor do conhecimento, até então repassado a alunos que o absorviam passivamente, e passa a ser o orientador dessa turma, alguém que, com sua experiência, é capaz de organizar e transformar todo aquela informação difusa em conhecimento.

Alunos e professores ganham, portanto, funções muito mais nobres. E o uso correto da tecnologia pode maximizar esses resultados, por ampliar o pensamento livre e facilitar o acesso à informação.

Não é uma tarefa fácil! Se os professores não se apropriarem adequadamente das novas tecnologias, elas não cumprirão seu objetivo pedagógico e ainda podem se tornar fatores de dispersão, como indicou o relatório da OCDE. Aqueles que, por outro lado, conseguirem realizar a tarefa terão o prazer de conhecer a verdadeira nova educação, com alunos engajados e felizes, construindo, junto com o professor, seu conhecimento.

Estamos vendo o fim da TV, pelo menos como a conhecemos

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Wagner Moura como Pablo Escobar, na série "Narcos", lançada recentemente pelo Netflix - Foto: divulgação

Wagner Moura como Pablo Escobar, na série “Narcos”, lançada recentemente pelo Netflix

No dia 24 de novembro, “A Estrada do Futuro”, primeiro livro de Bill Gates, completará 20 anos. Como todo exercício de futurologia, apenas algumas de suas previsões se concretizaram, e nem sempre como se esperava. Mas uma delas está colocando em xeque algo que faz parte de nossas vidas há mais de meio século: a televisão.

Gates antecipou em seu livro o surgimento do vídeo sob demanda, termo técnico que define serviços online em que o consumidor assiste à programação que quiser, na hora que quiser, cujos dois maiores expoentes são o YouTube e o Netflix. Mas talvez ele não tenha imaginado que a popularização desse recurso ameaçaria o modelo de negócio das emissoras e redefiniriam o uso do aparelho de TV como se vê hoje.

O fato é que a tecnologia mudou a maneira de nos relacionarmos com qualquer tipo de conteúdo, e as empresas de comunicação demoraram muito a perceber a chegada desse tsunami. Agora que a onda as atingiu, estão se debatendo em uma tentativa atabalhoada de se salvar.

A primeira e decisiva mudança é que, com um smartphone, o cidadão comum abandonou a sua condição milenar de consumidor de mídia para se tornar produtor. Não chega a surpreender, portanto, que a câmera seja um dos recursos mais usados dos celulares: fotografamos compulsivamente tudo (inclusive nós mesmos, o fenômeno das selfies) e criamos nossos próprios programas, que compartilhamos não apenas com nossos amigos, mas com o mundo todo. E, quando alguém deixa de assistir à Globo para ver nossas produções, passamos a ser concorrentes da Vênus Platinada.

Aliado a isso, o vídeo sob demanda acabou de vez com o monopólio das emissoras sobre o que vemos. Por que eu tenho que assistir a uma novela só porque “é o que está passando agora”? Eu quero ver um filme nesse momento! Ou uma série ou desenho animado. Ah, eu também quero ver a novela, mas na hora que eu quiser! E tem mais: quero ver três capítulos na sequência.

Trocando em miúdos, a grade de programação, algo essencial no modelo de negócios das emissoras, está com os dias contados. Graças a ela, os executivos criam os espaços para a publicidade e controlam a liberação dos conteúdos seguindo seus interesses. Por isso, o novo consumidor ameaça não apenas a TV aberta, mas também a TV por assinatura.

Os números são impactantes e ilustrativos. Estudo recente do ConsumerLab, divisão da Ericsson que estuda o comportamento dos consumidores, feito com 22.500 pessoas de 20 países, indica que 36% do tempo diário em que os brasileiros assistem a vídeos é destinado a conteúdo sob demanda, 1% a mais que média mundial. E 66% dos brasileiros entrevistados afirmaram que não encontram nada interessante para assistir na TV tradicional, o que justifica o crescimento dos serviços de vídeo sob demanda.

 

O consumidor paga pelo conteúdo que lhe interessa

Engana-se quem acha que esse fenômeno é motivado pelo desejo de se consumir conteúdo de graça. Essa premissa, usada por executivos das mais diferentes “mídias tradicionais” (música, imprensa, TV, entre outros) é absolutamente falsa! O consumidor paga, sim, por conteúdo de toda natureza, desde que esse produto lhe traga um benefício claro. De fato, a pesquisa do ConsumerLab mostra também que 22% dos consumidores que nunca pagaram por uma TV por assinatura já estão pagando por serviço de vídeo sob demanda. E aí o Netflix mostra o caminho a ser seguido.

Apesar de a empresa não divulgar a quantidade de assinantes no Brasil (são 65 milhões no mundo), o mercado estima que esse número deve variar entre 2,5 milhões e 4 milhões. Colocando isso em dinheiros, a receita da empresa para esse ano por aqui deve variar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. Na hipótese mais conservadora, o Netflix faturaria mais que a Band e a Rede TV!, quarta e quinta maiores emissoras nacionais; na mais arrojada, empataria com o SBT. Os números foram debatidos no congresso da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura), no início de agosto, cujos membros afirmam que o Netflix é um concorrente desleal.

Não precisa ser gênio para juntar os números do Netflix e de outros serviços com conclusões de estudos como o do ConsumerLab e entender o que está acontecendo. A tecnologia deu ao consumidor o poder de escolha, abrindo-lhe os olhos para perceber que não é obrigado a consumir uma programação de qualidade rasteira em um formato que não lhe convém.

O aparelho de TV cada vez mais é um poderoso computador conectado à Internet (e os fabricantes estão investindo nisso), diminuindo a importância de sua histórica função de receptor de imagens empurradas goela abaixo do telespectador. Permite que a escolha do usuário agora vá muito além dos canais acionados pelo controle remoto.

Além disso, a TV não é mais o único equipamento para se assistir a vídeos: ela ocupa apenas uma fatia do tempo do consumidor para esse fim. Uma fatia cada vez menor, diga-se de passagem, que vem sendo substituída pelo crescente uso dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones. No caso de conteúdo sob demanda, 61% do total já é consumido nas pequenas telas, segundo o ConsumerLab.

 

Observem as crianças

É muito interessante observar as crianças, pois elas entendem e se apropriam de novas tecnologias com grande facilidade e velocidade. Por isso, são excelentes indicadores de como será o futuro breve. E, no assunto que aqui discutimos, elas têm um comportamento muito interessante: quando querem assistir sozinhas a um vídeo, fazem isso no seu smartphone, mesmo que estejam em casa. Por outro lado, quando se trata de uma experiência com outras pessoas, como a família, o melhor lugar para o YouTube e o Netflix é a smart TV da sala. Claro, faz todo o sentido!

Pago mensalmente um adicional de R$ 30 para ter os canais da HBO no meu plano de TV por assinatura. Quis usar o aplicativo de vídeo sob demanda HBO GO, incessante promovido em seus comerciais, mas não consegui, pois a minha operadora de TV a cabo não permite. Devo dizer que fiquei com uma vontade enorme de pagar os R$ 30 mensais diretamente à HBO, e não à operadora, que deixou de ser uma facilitadora para se tornar uma dificultadora.

Essa empresa e seus pares precisam urgentemente repensar seus modelos, assim como as emissoras precisam melhorar sua programação. Ou, em muito pouco tempo, as crianças de hoje enterrarão a TV como a conhecemos, transformando sua tela em uma ferramenta de liberdade e qualidade em que nenhuma dessas empresas fará parte.

Quem vigia os vigilantes (ou os políticos)?

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Foto: Chuck Patch (Creative Commons)

A Câmara dos Deputados está gestando três projetos de lei que, na prática, criam mecanismos de censura da Internet e ferem liberdades do indivíduo. O principal deles tem, como objetivo, a punição de quem publicar conteúdo ofensivo a parlamentares. O segundo oferece a qualquer “autoridade competente” o poder de exigir que serviços online forneçam os dados de seus usuários sem ordem judicial. E o pacotão de arbitrariedades é concluído com outro projeto que determina que qualquer um que poste conteúdos na Internet seja identificado por nome completo e CPF.

Os três projetos se completam e criam uma sensação de que o cidadão está indefeso diante daqueles que o deveriam defender, e que legislam sem controle ou limites, um caso clássico de “quis custodiet ipsos custodes?” A frase em latim, atribuída a Juvenal, poeta romano do início da era cristã, é normalmente traduzida como “quem vigia os vigilantes:” e se refere à dificuldade de controle das ações de quem está no poder.

Os projetos batem de frente com o Marco Civil da Internet, propondo sua alteração em uma de suas maiores conquistas: a garantia do sigilo dos dados dos usuários, que só pode ser violado por força de uma ordem judicial. Mas o primeiro dos três projetos, de autoria do procurador parlamentar, deputado Cláudio Cajado (DEM-BA), abre portas para que qualquer parlamentar cale a boca de qualquer um que, mesmo dentro do jogo da democracia, diga algo que o incomode.

Isso piora ainda mais a já desgastada imagem do Legislativo junto aos brasileiros. Em todas as esferas e em todos os rincões desse país, vemos parlamentares tentando silenciar aqueles que, mesmo munidos de provas irrefutáveis, dizem coisas contrárias a eles. As vítimas desse abuso de poder vão desde pequenos blogueiros até grandes veículos de comunicação. Para os pequenos, as coações são mais brutais; para os grandes, recorre-se a uma espécie de “censura de toga”.

Um exemplo foi a proibição, por ordem judicial, de o Estadão de falar mal da família Sarney na “Operação Boi Barrica” da Polícia Federal. Até mesmo sites de humor são vítimas da intolerância parlamentar: no mês passado, o deputado Marco Feliciano tentou calar e pedir indenização ao Sensacionalista, por ser alvo de piadas do site humorístico. A Justiça, dessa vez, não acatou as alegações do deputado.

A proposta de Cajado está em fase final de elaboração e deve ser apresentada em setembro, com o apoio do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Se virar lei, esse tipo de pressão tende a aumentar exponencialmente, pois o parlamentar se sentirá amparado em uma lei que lhe dá poder de punir os autores daquilo que não gosta, como também os serviços que hospedarem esses conteúdos.

 

Rito sumário e ignorância técnica

Mas a situação fica ainda pior quando o projeto de Cajado se combina com os outros dois, esses já apresentados.

O projeto de lei da deputada Soraya Santos (PMDB-RJ) abre um perigosíssimo precedente quando, no artigo 7º, diz que qualquer “autoridade competente” pode exigir (e receber) informações pessoais dos usuários de um serviço online. Mas o que é uma “autoridade competente”? O texto não especifica isso e, portanto, amparado pela lei, um soldado da PM ou delegado poderiam exigir informações confidenciais em nome daquele que estiver “representando”. Não se enganem: isso tipo de abuso já existe hoje, mesmo sem amparo legal. Novamente, se o projeto se transformar em lei, a tendência é que assistamos impotentes ao enorme crescimento dessa prática abjeta.

O terceiro dos projetos, de autoria do deputado Silvio Costa (PSC-PE), é uma pérola de desconhecimento básico da Internet. Ele propõe que “o provedor de aplicações de internet, sempre que permitir a postagem de informações públicas por terceiros, na forma de comentários em blogs, postagens em fóruns, atualizações de status em redes sociais ou qualquer outra forma de inserção de informações na internet, deverá manter, adicionalmente, registro de dados desses usuários que contenha, no mínimo, seu nome completo e seu número de Cadastro de Pessoa Física (CPF).”

Ou seja, segundo o deputado, para um simples “curtir” no Facebook, o usuário deverá informar nome e CPF ao serviço, que será obrigado a repassar essa identificação “às autoridades competentes” para a supostamente devida punição, antes de qualquer julgamento, sem ordem judicial. O objetivo está bem claro na justificação do projeto: “essa simples exigência irá, por certo, coibir bastante as atitudes daqueles que, covardemente, se escondem atrás do anonimato para disseminarem mensagens criminosas na rede.” Ou seja, contrariando a Constituição, todo mundo é, por definição, culpado, até que se prove o contrário.

Mas de “simples”, a exigência não tem nada. Dentro do território nacional, existem pessoas que podem legalmente usar redes sociais, mas não têm CPF. Que dizer então de pessoas que vivem em outros países, particularmente estrangeiros? Eles não têm, nem nunca terão CPF, independentemente do que o Congresso Nacional Brasileiro determinar. Mesmo assim, o que postarem nas redes sociais eventualmente chegará aos usuários brasileiros. Parte desse conteúdo pode estar em português e, seja verdade ou mentira, poderá incomodar alguém por aqui. Como resolver isso e atender o que propõe o projeto de lei? Mais que uma impossibilidade técnica, a proposta é inócua porque trata a Internet e todos os seus usuários no mundo como se estivessem sujeitos à legislação brasileira.

Os três projetos são, portanto, indefensáveis do ponto de vista técnico e da democracia. Qual seria o próximo passo? Talvez os deputados peçam que a Internet seja simplesmente “fechada” ou, quem sabe, absurdamente restringida no país. Estaríamos, assim, bem próximos a “nações progressistas”, como a Coreia do Norte.

Por que não vemos games nas salas de aula como vemos vídeos?

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Cenas de O Patriota e de Assassin's Creed III - Imagens: divulgação e reprodução

Que melhor maneira de estudar sobre a Revolução Americana, que assistindo a um filme como O Patriota, ou -melhor ainda- atuando diretamente nos seus eventos históricos, como em Assassin’s Creed III?

Meus filhos assistiram a Avatar na escola ontem. O objetivo era preparar os alunos para discutir sobre o processo de colonização. Apesar de vídeos já serem bem aceitos como ferramenta pedagógica, eu sempre me pergunto: por que os games ainda não gozam do mesmo status na sala de aula? Os dois recursos têm muito em comum e os games podem ser até mais eficientes no aprendizado.

A exibição da história de James Cameron e o debate subsequente foram atividades de uma “semana diferenciada” da escola. Além de apresentar com riqueza de detalhes os interesses conflitantes dos nativos e dos colonizadores, normalmente extrativistas mais avançados tecnologicamente e bem armados, um filme como esse cria um ambiente imersivo, melhorando a compreensão do assunto estudado. Quando chegou o debate, a facilidade da turma em transpor a fictícia Pandora para a América ou a África colonizada pela Europa fez valer cada um dos 162 minutos do filme.

Imersão é a palavra-chave, porque leva ao engajamento. Quando alguém se sente envolvido com um assunto, ele naturalmente usa seus recursos cognitivos para aproveitar ao máximo a experiência que está vivenciando, inclusive as pedagógicas. E é por isso que os games deveriam ser mais bem explorados pelas escolas. Pela própria natureza do produto, eles são capazes de tirar o estudante da posição passiva do processo de aprendizagem da escola tradicional, um desejo de todos eles

Eu gosto de citar, como exemplo, o estudo da Revolução Americana. Lembro-me de ter aprendido sobre ela nos livros, como parte do processo de independências das colônias na América. Toda a independência dos EUA cabia em uma página, com um parágrafo para o evento conhecido como “Festa do Chá de Boston” e outro para a própria declaração da independência. É muito, muito pouco para entender um evento tão complexo e tão importante da história mundial. E só me lembro disso porque tenho uma memória de elefante.

Mas que tal usar Mel Gibson como professor por um dia? Sim, pois ele estrelou o filme O Patriota, que conta a história de um fazendeiro americano que se vê forçado a lutar contra os ingleses. Apesar de o filme se concentrar em eventos fictícios da Revolução Americana, ele é capaz de envolver os alunos com o tema ao ponto de que alguns quererem pesquisar sobre isso por seus próprios meios e iniciativa, um processo conhecido como “aprendizado tangencial”.

Mas e se você pudesse ser transportado para a América Colonial do século XVIII, interagir com personagens históricos, como George Washington, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, e participar decisivamente de momentos-chave da história americana, como a própria “Festa do Chá de Boston” ou do “Grande Incêndio de Nova Iorque”? Bem, eu posso garantir que você passaria a entender a Revolução Americana de uma maneira definitiva e bem fixada. Longe de ser uma utopia, isso é perfeitamente possível, graças ao game Assassin’s Creed III, da Ubisoft. Em cada título dessa série, o jogador é capaz de reviver, como protagonista, eventos maiúsculos da história mundial, ricamente recriados.

Mais que imerso, o estudante estaria completamente fisgado pelo conhecimento.

 

“Por que game educativo tem que ser chato?”

Admito que provavelmente não verei Assassin’s Creed como material didático. Apesar dos inegáveis benefícios apontados, as ações da série são muito violentas, como o título leva a crer. Seria muito difícil para a equipe pedagógica justificar isso aos pais que não são gamers.

Tela da primeira versão do jogo "Where In The World Is Carmen Sandiego?"

Tela da primeira versão do jogo “Where In The World Is Carmen Sandiego?”

Felizmente, nem todo game que pode nos ensinar algo é violento. Muitos são bastante simples e até rudimentares para os padrões dos consoles atuais, mas sem deixar a diversão de lado. Um excelente exemplo é Where In The World Is Carmen Sandiego, lançado originalmente em 1985 para o finado Apple II. No game, você é um detetive que persegue vilões pelo mundo, enquanto aprende sobre a geografia dos países por onde passa. Tão simples quanto divertido, o game teve várias continuações, ganhou uma série em desenho animado e até está prevista uma adaptação para o cinema.

Mas o fato é que a maioria dos jogos educacionais são extremamente chatos. Afinal, quem é que tem que resolver uma equação de segundo grau para abrir uma simples porta? Esses desenvolvedores podem conhecer bem os Parâmetros Curriculares Nacionais, mas não sabem nada de diversão. Resultado: os alunos acham os livros mais divertidos que esses “games”.

Há alguns anos, fui convidado para uma mesa redonda sobre o uso de games em educação, como parte das comemorações do centenário do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Antes do debate, alguns alunos dos ensinos Fundamental e Médio apresentaram games educativos que eles próprios tinham desenvolvido usando ferramentas gratuitas. Naturalmente eram iniciativas limitadas, mas eles cumpriam as duas premissas que todo game educativo deveria ter: ensinavam e eram divertidos. Lembro-me claramente de um dos pequenos desenvolvedores, de 14 anos, perguntando ao público, quase como um desafio: “Por que game educativo tem que ser chato?”

Ele entendeu tudo!

 

Então o que falta?

Enquanto não vemos games educativos realmente divertidos em profusão no mercado, cabe aos educadores encontrar maneiras criativas de usar “games não-educativos” para engajar seus alunos. E há muita coisa disponível. Por exemplo, que tal usar Angry Birds para exercitar o conceito de lançamento balístico?

A grande diferença no volume de uso de vídeos e de games na sala de aula pode ser explicada pelo fato de que professores assistem a filmes regularmente, mas quantos deles são gamers? Portanto, não adotam esse recurso em suas aulas porque simplesmente não conhecem as opções.

De forma alguma eu os estou julgando por isso. Mas então como resolver isso?

Seria excelente que toda escola tivesse o seu “especialista em games” para trabalhar com os professores possibilidades de seu uso no projeto pedagógico. Pois eu aposto que essa figura já está lá, apenas aguardando para ser descoberta. Por ser um professor, um funcionário de outras áreas ou até mesmo um aluno! Aliás, envolver alunos dessa forma tem potencial para transformar a atividade em algo riquíssimo, se for bem conduzido.

Deixo, portanto, um apelo às equipes pedagógicas: tragam games para o processo de aprendizagem. Longe de ser um fator de distração, isso ajudará seus alunos a passar de fase.

Você é o que você gosta

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Home page do serviço "Apply Magic Sauce" - Imagem: reprodução

Home page do serviço “Apply Magic Sauce”

Seus pais provavelmente lhe falavam: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Mas em tempos de tecnologia ubíqua, o ditado, além de velho, parece ultrapassado. Para saber quem é você, o melhor é prestar atenção no que você gosta ou, mais especificamente, no que você “curte”.

Deixamos, o tempo todo, nossas pegadas digitais por aí, e elas são cada vez mais profundas e reveladoras. Há duas semanas, comentei aqui a crise causada pelo vazamento de informações dos assinantes do Ashley Madison, recomendando que pelo menos tentemos cuidar das informações pessoais que publicamos na Internet. O problema é que inadvertidamente fazemos pequenas ações que dizem muito sobre nós.

Quantas vezes você clica, todos os dias, no botão “curtir” do Facebook, seja nas páginas da própria rede social, seja naqueles que estão espalhados pelos mais diferentes sites? Não se sinta constrangido se a resposta for um número alto: essa ação inocente está tão integrada ao nosso cotidiano, que talvez nem saibamos responder a essa pergunta.

Mas não se engane: de inocente ela não tem nada. Mesmo quando “curtimos” uma pueril foto de gatinho ou uma piada tosca de um amigo, estamos afirmando um pouco do que somos. E a soma disso tudo pode ser surpreendente.

O Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido) criou, já há algum tempo, uma interessante ferramenta para demonstrar isso. Batizada de Apply Magic Sauce (algo como “Aplique o Molho Mágico”), o site faz, em poucos segundos, uma análise psicológica do usuário, incluindo os principais itens de sua personalidade, gênero, idade percebida, orientação sexual, inteligência, satisfação com a vida, orientação política e religiosa, educação e status marital. Detalhe importante: a única fonte de informação analisada são as suas “curtidas” no Facebook, nada mais. Nem mesmo o que você posta é considerado. E, mesmo o sistema estando calibrado para o idioma inglês, seus resultados têm uma precisão impressionante, quase assustadora.

Não é de se espantar que o nome da versão anterior da ferramenta era “You Are What You Like” (“Você é o que você gosta”).

 

Fazenda de dados

Imagem: reprodução

Se um instituto independente consegue tirar conclusões assim apenas a partir das “curtidas” do sujeito, que dizer então do verdadeiro “dono” da informação: o Facebook?

Mas a rede de Mark Zuckerberg está longe de ser a única empresa com esse poder. Seu maior rival, o Google, conseguiu colocar, no bolso da maioria de nós, um “rastreador” que carregamos alegremente. O Android, sistema operacional que dá vida à maioria dos celulares do mundo, é uma pequena maravilha na coleta de informações pessoais, de maneira quase inconsciente.

O “quase” acontece porque nós, de fato, autorizamos explicitamente essa coleta (e isso vale para qualquer sistema, não apenas o Android). Ao configurar um novo aparelho, respondemos afirmativamente várias perguntas que, na verdade, sequer entendemos do que tratam. E reafirmamos esse nosso “desprendimento” quando baixamos novos aplicativos. Eles invariavelmente listam toda informação pessoal a que terão acesso (muitas delas completamente desnecessárias para seu funcionamento). E nós graciosamente concedemos isso, ao clicar no botão “aceito”, quase sempre sem sequer ler a relação do que lhes repassaremos. A ânsia por baixar o novo aplicativo é tão grande, que o “aceito” do botão poderia ser perfeitamente substituído por um “me dá logo!”

É um fenômeno social maiúsculo o que vivemos. Grupos de proteção à privacidade pressionam governos para tentar limitar o acesso das corporações às informações pessoais. Por outro lado, as pessoas estão cada vez mais lenientes com o compartilhamento de seus dados em troca de serviços que efetivamente tornam suas vidas mais eficientes e divertidas.

Estou absolutamente certo que ninguém deixará de usar seu celular ou o Facebook só pelo que eu disse acima. Eu não deixarei! Mas precisamos estar cientes de que as empresas nos conhecem muito mais que nossas mães, talvez mais que nós mesmos! E, quem sabe, passar a ler a lista do que estamos dando antes de clicar “aceito”.

Se não souber como falar com seu público, ele o abandonará

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“Quem não comunica se trumbica”: os veículos de comunicação deveriam prestar mais atenção à célebre frase do Chacrinha - Foto: divulgação

“Quem não comunica se trumbica”: os veículos de comunicação deveriam prestar mais atenção à célebre frase do Chacrinha

Recentemente assisti a uma entrevista com a youtuber Kéfera Buchmann, que já tem mais de 5,5 milhões de seguidores e está fazendo um bom dinheiro com seu canal. Na hora, pensei na Info, que não resistiu e anunciou, no dia 12 de agosto, o fim da sua versão online (a impressa já não circulava desde fevereiro). Mas, afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra?

Não, esse não é mais um melancólico post lamentando a morte de um veículo de comunicação. A proposta aqui é debater como o sucesso da primeira e a derrocada da segunda têm muito a ver com o uso adequado da linguagem.

Kéfera é bonita e divertida, e seus vídeos, apesar se resumirem a mostrar situações prosaicas de seu cotidiano, têm uma boa produção. Mas seu grande trunfo é usar uma linguagem adequada para seu público, que ela conhece bem. E, por linguagem, não me refiro apenas às palavras que ela escolhe. O ritmo, a edição e os efeitos aplicados nos vídeos são importantíssimos elementos para quem quer ter sucesso no YouTube. Seu bom manejo da linguagem digital continua em como promove seu conteúdo (e a si mesma) e como interage com seus fãs nas redes sociais, aproveitando-se das peculiaridades de cada uma. Ou seja, nada de tentar empurrar uma mesma chamada para todas ou ignorar as pessoas!

Voltemos à Info: para muitos, o fim da publicação era inevitável. Como me disse um colega, um dos melhores jornalistas de tecnologia do país, “não há mais espaço para revistas de tecnologia em Língua Portuguesa, há espaço para sites”.

Opa, mas a Info já era apenas um site desde fevereiro!

Muita gente vai dizer que o problema da publicação era o mesmo que assola a imprensa escrita de forma generalizada: a enorme queda das receitas publicitárias, acompanhando a fuga de leitores. Mas será que isso é tudo, especialmente em um veículo segmentado, talvez o melhor que já cobriu o noticiário de tecnologia do país?

A Info já sofria a concorrência de sites havia muitos anos. Chegou a ela antes de outros títulos, pela natureza de seu assunto e de seu público. Esse enfrentamento provocou, há uns cinco anos, uma mudança editorial que desfigurou a revista: a Info passou a ser menos técnica e a cobrir assuntos da “vida digital”, com pautas sobre negócios e até comportamentais. Na minha opinião, essa decisão foi desastrosa, e acabou afastando parte considerável de seu público mais fiel e antigo.

Junto com a mudança nas pautas, veio uma mudança na linguagem, que tentou ser mais descontraída. Isso pode ter reforçado a distância do leitor mais tradicional da revista, sem conseguir atrair o público de sites de tecnologia, que já nasceram com essa proposta. Apesar de ser um dos títulos mais vanguardistas da Editora Abril na adoção de novas formas de distribuição digitais, é um fato que a Info nunca conseguiu fazer aquilo que a Kéfera faz com extrema desenvoltura. Nesse ponto, o veículo ficou sem uma identidade clara. Tempere tudo isso com a crise do setor, e o desfecho da Info estava definido.

 

Atualizar sem se perder

Uma mudança de linguagem não implica em um veículo perder a sua essência. Um exemplo bastante interessante vem acontecendo no Jornal Nacional. William Bonner e sua equipe não se limitaram às tradicionais mudanças cosméticas do cenário e implantaram alterações significativas editoriais e técnicas, conferindo ao telejornal um novo ritmo, mas sem deixar de ser o JN.

Além de uma linguagem muito mais próxima do público e reportagens mais longas, o uso de um truque de câmeras combinado a um enorme telão permite que os âncoras conversem de pé com os jornalistas que fazem entradas ao vivo como se estivessem lado a lado. Vale destacar também a reinvenção da previsão do tempo (um noticiário tradicionalmente relegado ao segundo plano) com Maria Júlia Coutinho, que ganhou um destaque que poucos têm no JN. A nova “moça do tempo” não apenas informa a previsão, mas também explica o porquê dos fenômenos climáticos para o público. Além disso, o próprio Bonner extrapola os limites da telona e faz um bom uso de sua conta no Twitter, mesclando algum humor, tuítes pessoais e promoção do Jornal Nacional do dia.

 

“Quem não comunica se trumbica”

A famosa frase do Chacrinha é uma dessas obviedades da vida que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano. Mas é inaceitável que uma empresa de comunicação não consiga praticar isso.

É claro que a crise financeira parece ser o maior dos problemas dessas companhias, metidas em um buraco que teima em ficar cada vez mais fundo. Ontem mesmo O Globo e Extra demitiram cerca de 60 jornalistas (aparentemente os de salários mais altos), no seu segundo “passaralho” do ano (o primeiro aconteceu há seis meses). Mas esse problema é uma “crônica de uma morte anunciada” diante da inabilidade (ou teimosia) dessas empresas em insistir em um modelo de negócios que não se sustenta mais há anos (e debatido exaustivamente neste blog).

A situação fica desesperadora quando notamos que há ainda essa crise de linguagem nos veículos tradicionais. Qualquer um sabe que não se deve usar as mesmas palavras de uma mesa de bar com os amigos ao se escrever um e-mail comercial, que, por sua vez, também não serve para um artigo científico.

Cada público e cada ocasião têm a sua maneira de se comunicar. Isso vale também para os meios digitais, e cada um deles tem suas peculiaridades. Quem não respeita isso assiste impotente a seu público ir embora. Kéfera explica.

Você tem um segredo? Não o publique na Internet!

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Hackers desmentiram todos os selos de segurança da home page do Ashley Madison

Hackers desmentiram todos os selos de segurança da home page do Ashley Madison

No dia 18, hackers expuseram publicamente dados pessoais de 37 milhões de usuários de um site. Isso já seria muito ruim em qualquer caso. Mas, se considerarmos que se tratavam de assinantes do Ashley Madison, site que promove relacionamentos extraconjugais, o acontecimento foi devastador. A questão é: isso poderia ter sido evitado?

Com o slogan “a vida é curta, curta um caso”, o Ashley Madison é o tipo de serviço que deveria ser construído sobre discrição e segurança de dados. Não obstante, os hackers liberaram os arquivos demonstrando que as informações estavam todas lá sem sequer uma criptografia básica.

Os incautos usuários acreditavam que protegiam sua privacidade criando um nome de usuário e um e-mail exclusivo para as puladas de cerca virtuais. Mas, para pagar pelo serviço, precisam informar os dados reais de seu cartão de crédito. E o site armazenou tudo isso. Com o vazamento, pode-se agora buscar, nesse gigantesco banco de dados, o nome verdadeiro de cada assinante, os dados de seu cartão, seu endereço, fotos que postou, as pessoas com quem falou e até mesmo as conversas.

Imaginem a situação dessas pessoas! A polícia canadense investiga dois suicídios que podem ter sido motivados pelo vazamento. Vale lembrar que o Brasil é o segundo país com mais usuários no serviço e São Paulo é a cidade com mais assinantes no mundo.

O Ashley Madison demonstrou grande amadorismo por guardar as informações sem criptografia e por armazenar dados dos cartões de crédito, para dizer o mínimo. Nesse caso, seus usuários não tinham alternativa. Mas será que cuidamos bem das informações que colocamos na Internet o tempo todo?

A resposta simples: não.

Em 2009, Eric Schmidt disse: “se você tiver alguma coisa que não quer que os outros saibam, não a publique na Internet.” O então CEO do Google explicava que não existe segurança absoluta e que eventualmente essa informação aparecerá em um buscador.

 

Superautoexposição

Obviamente ele não estava sugerindo que deixássemos de usar serviços digitais. E o que mais fazemos é colocar a nossa vida na Internet. Os mais espertos ainda usam com inteligência os recursos de privacidade de redes sociais, mas eles são apenas um controle mínimo, facilmente burlável, às vezes até sem querer.

Mas o buraco é mais embaixo. Vivemos em uma época em que as pessoas deliberadamente querem se expor, e fazem isso muitas vezes de maneira irresponsável e até perigosa. O meio digital criou uma falsa sensação de que tudo podemos, sem consequências.

Naturalmente isso não existe. De virtual, nosso “eu digital” não tem nada. Nossa vida online e nossa vida presencial são diferentes representações de uma única realidade.

Em tempos de smartphones que são poderosos computadores permanentemente conectados, compartilhamos nossa vida cada vez mais, muitas vezes sem que saibamos. Ou você acha que aquela oferta de um produto que você deseja em uma loja que está bem a sua frente chegou ao seu celular por pura coincidência?

 

O valor da informação

Algumas empresas já aprenderam a usar esse mar de informações que graciosamente oferecemos para entregar serviços e produtos cada vez mais personalizados e úteis. Ninguém faz isso melhor que o Google e o Facebook. Tudo aparentemente de graça! Mas, se você usa algo sem pagar nada por ele, não se engane: você não é o consumidor, é o produto.

Por mais assustador que isso pareça, é muito pouco provável que alguém deixará de usar produtos do Google ou do Facebook por estarem fazendo dinheiro com nossos dados. Mesmo que essas empresas saibam mais sobre nós que o Grande Irmão da sociedade distópica da obra 1984, de George Orwell, a esmagadora maioria está muito longe de se sentir oprimida por elas. Conscientemente ou não, achamos tudo isso um preço justo pelos produtos e serviços que recebemos em troca.

Precisamos apenas (tentar) garantir que nossa intimidade continue só nossa tomando cuidado com o que colocamos na rede. Afinal, nunca se sabe quando um grupo de hackers exporá a todos os segredos do Grande Irmão.

 

Atualização: diante de alguns comentários que este post recebeu, acho importante deixar claro que, de forma alguma, estou julgando os usuários do Ashley Madison. Por mais que, para muita gente, o que eles fazem é errado, essas pessoas foram vítimas tanto da incompetência do serviço, quanto dos hackers que os expuseram. São livres para fazer o que quiserem, e é absolutamente desproporcional alguém perder a própria vida por uma eventual traição conjugal. Meu alerta no post segue a linha do que propôs Eric Schmidt: não podemos simplesmente acreditar que a Internet protegerá magicamente nossas informações. Podemos colocar nela o que quisermos, mas precisamos ter consciência que essa informação nunca estará completamente segura.