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Jeff Bezos mostra o caminho ao Washington Post (e à “mídia tradicional”)

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Fachada da sede do Washington Post, na capital dos EUA

Fachada da sede do Washington Post, na capital dos EUA

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.” A frase (incorretamente) atribuída a Albert Einstein ajuda a explicar os frutos que o Washington Post vem colhendo sob a batuta de Jeff Bezos, dono da Amazon.

Quando anunciou a compra do jornalão em agosto de 2013 (concluída em outubro), o executivo disse que não se intrometeria na linha editorial, promessa que aparentemente cumpriu. Mas isso não quer dizer que ele não faria mudanças no Post: afinal, havia colocado US$ 250 milhões do próprio bolso em um negócio que estava naufragando pela incompetência de seus antigos gestores. E Bezos não é do tipo que joga dinheiro fora.

Uma das mudanças aconteceu justamente na redação. Ao contrário do que se vê em quase todos os jornais, o Post começou a contratar mais jornalistas –e bons jornalistas. Bezos não colocou o dedo no editorial, mas sabe que um conteúdo de qualidade é condição necessária (mas não suficiente) para o sucesso de um produto dessa indústria.

Em compensação, o criador da Amazon parece ter colocado todos os dedos em outras áreas do jornal, transformando um negócio moribundo em uma empresa revigorada. A primeira e mais importante das mudanças é uma marca da Amazon: “preste mais atenção em seus consumidores que em seus concorrentes”. Isso pode parecer óbvio para quem tem a cultura digital no sangue, mas os veículos tradicionais ainda se preocupam demais com os outros veículos. Esquecem-se que os verdadeiros concorrentes hoje nem sempre são eles; E pouco ou nada sabem de seu público. Quem são eles? O que gostam em seu produto? Como o consomem? Onde está o valor dele para cada pessoa (e cada um tem a sua preferência)?

Dessa forma, sob a orientação de Bezos, a equipe de tecnologia começou a alimentar a redação com uma infinidade de dados sobre seus leitores para a tomada de decisões outra característica da Amazon. Não se trata apenas de ajustar a pauta das edições, mas também como esse conteúdo será entregue para cada um de seus usuários.

Ubiquidade

Nesse ponto, vemos uma outra mudança interessante no Post: hoje é possível encontrar o seu conteúdo em uma grande variedade de devices e ambientes. A ideia é que o público tenha a sensação de que ele está em todos os lugares. Além de seu site e seus aplicativos, o Post hoje é distribuído por agregadores, como o Flipboard, e por portais, como a MSN. E –claro– o Post tem ótimo destaque nos devices Kindle, da própria Amazon. Versões digitais a um precinho camarada ou simplesmente de graça, de acordo com o caso.

O melhor conhecimento e entendimento de seu público também permitiu à equipe editorial refinar a promoção dos conteúdos, a exemplo de players nativamente digitais, como BuzzFeed, Vox e Vice. E pode apostar que ele também estará disponível nos Artigos Instantâneos do Facebook e no Apple News, quando esses estiverem amplamente disponíveis.

Os mais puritanos podem torcer o nariz para isso, dizendo que o jornal se rendeu “chamadas caça-cliques”. Isso é puro preconceito com novos formatos! Afinal, o que diferencia um post capaz de gerar engajamento de uma boa chamada na primeira página de um jornal exposto em uma banca? Os dois têm o mesmo objetivo: captar a atenção do leitor e convencê-lo a ler o conteúdo. Mas o formato das chamadas tradicionais tem pouco apelo nos meios digitais, especialmente nas redes sociais. Logo, não se trata de “caça-cliques”, e sim de adaptar a linguagem ao formato esperado nessa mídia.

Bezos quer que as pessoas leiam o Post, de um jeito ou de outro. Uma jogada comercial interessante foi a criação de uma rede de mais de 300 jornais regionais que dão acesso gratuito ao conteúdo digital do Post a seus assinantes. Não há troca de dinheiro entre o Post e os outros títulos, mas essa é uma combinação que aumenta o valor percebido das assinaturas desses títulos e injeta muita gente nova nas propriedades digitais do Washington Post. Fazendo uma “conta de padaria”, se apenas 5% dos mais de 10 milhões de assinantes desses jornais visitarem o Post, isso significa mais de 500 mil novos usuários.

Para receber toda essa gente, além dos usuários tradicionais do Post, muito investimento em tecnologia vem sendo feito. Não apenas em infraestrutura, mas também na construção de seus produtos para atender todos os formatos descritos anteriormente. Até o carregamento das páginas ficaram incrivelmente mais rápidas, se comparado ao da era pré-Bezos. Tudo para melhorar a experiência do público.

“Construa e eles virão”

O Washington Post não divulga informações financeiras, mas a sua audiência vem crescendo rápida e continuamente, como pode ser visto no gráfico abaixo, com dados da Comscore:

NYTxWP unique visitors

Além de praticamente dobrar a quantidade de pessoas que visitam seu site desde que Bezos assumiu a companhia, o Washington Post colou no antigo rival New York Times nessa métrica. Se as tendências de crescimento de ambos se mantiverem, o Post pode passar o Times no ano que vem.

Nesse cenário, vale destacar dois pontos importantes. O primeiro é que o Times acabou de comemorar a marca de um milhão de assinantes de sua versão digital, um feito memorável. O outro, favorável ao Post, é que seus usuários usam mais o celular para consumir seu conteúdo que os do Times. E isso é excelente, pois as pessoas usam cada vez menos desktops e notebooks, e cada vez mais smartphones e tablets.

Muitos podem questionar que audiência por si só não significa receita, ou pelo menos não o suficiente para manter a operação. Esse, aliás, é o dilema da maioria dos veículos de comunicação tradicionais, cujas receitas digitais crescem, mas estão longe de ser suficientes para compensar a queda dramática nas receitas “tradicionais”.

Mas Bezos é um empresário que sabe valorizar a visão de longo prazo. Sabe investir sem a ânsia de obter resultados rapidamente, para fortalecer suas empresas e viabilizar suas estratégias. Foi assim que construiu a Amazon. E pode estar fazendo o mesmo com o Post.

Ele sabe que a única maneira de atrair o público é oferecendo algo que eles queiram, da maneira que gostem, até que faça sentido o pagamento. E assume o risco que nem sempre acertará. Mas, como costuma dizer, “se você dobra seus experimentos, você duplica sua inventividade”.

A única coisa inaceitável é manter tudo do mesmo jeito e esperar um resultado diferente. Exatamente o erro que a mídia tradicional insiste em cometer. Aposto mais no modelo Amazoniano.

O conteúdo tem que tomar seu rumo. Ou por que as bancas de jornal morreram

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Telas do Apple News (à esquerda) e do Flipboard

Telas do Apple News (à esquerda) e do Flipboard

Quando foi a última vez que você foi até uma banca para comprar um jornal? As respostas da maioria das pessoas que estiverem lendo isso provavelmente variarão de “há muito tempo” a “nem me lembro”.

Várias são as causas disso, mesmo entre aqueles que já foram ávidos consumidores de jornais. Mas uma delas é fundamental e crescente: apesar de nunca terem consumido tanta notícia como agora, cada vez menos as pessoas ativamente buscam por esse conteúdo. Acontece exatamente o contrário: a notícia precisa encontrar o caminho até seu público e se apresentar a ele da melhor maneira possível.

E não vale qualquer conteúdo. As pessoas querem consumir um noticiário que lhes interesse, sem ter que levar junto um monte de coisas “desinteressantes”. O problema é que o conceito de “interessante” varia de indivíduo para indivíduo e, mais que isso, varia dentro do mesmo indivíduo, de acordo com o seu momento.

Por exemplo, alguém que goste de futebol (não um fanático) fica mais interessado no noticiário esportivo nos dias dos jogos do seu time, e eventualmente dos times rivais. Notícias dos demais times não lhe são tão interessantes. Além disso, a relevância desse assunto diminui nos outros dias.

Outra mudança de comportamento interessante é a flexibilidade sobre a origem do noticiário. Os leitores costumavam assinar um jornal ou uma revista porque se identificavam com sua linha editorial. Hoje as pessoas misturam, dentro da sua experiência informativa, conteúdos da Veja e da Carta Capital sem o menor problema, desde que isso lhes faça sentido naquele momento.

Apenas no meio digital podemos encontrar conteúdos de fontes tão distintas lado a lado, como se fossem de uma mesma revista.

O renomado Pew Research Center publicou, no dia 14, um estudo que coloca em números como as pessoas mais e mais usam redes sociais como fonte de noticiário jornalístico: o Twitter e Facebook servem para isso para 63% dos americanos (era respectivamente 52% e 47% há dois anos).

O Facebook percebeu isso, com os “artigos instantâneos”. O Twitter também, com seu “Projeto Lightining”. E, mais recentemente, a Apple sacou que o futuro não está em ficar distribuindo edições digitais de publicações consagradas, e sim em entregar seus conteúdos de maneira desintegrada, com foco na experiência do consumidor.

Ruim para as marcas, salvação para os veículos

A novidade recém-anunciada pela empresa da maçã é o Apple News, um aplicativo que integrará a próxima versão do sistema operacional dos iPhones e iPads, o iOS 9. Seu design e sua tecnologia lembram as do consagrado Flipboard, criando uma elegante publicação dinâmica e totalmente individualizada, misturando conteúdo de diferentes fontes, selecionados e organizados de acordo com os gostos de cada usuário.

Seu modelo de negócios é o mesmo dos também recém-lançados “artigos instantâneos” do Facebook. Assim como nesses, apesar de suas páginas serem inteiramente construídas com noticiário de outros veículos, elas não exibirão nenhum dos anúncios que estiverem em seus sites de origem, apenas peças vendidas especificamente para o Apple News. Se o vendedor for o próprio veículo, ele fica com 100% da receita; se a venda tiver sido feita pela Apple, ela abocanha 30%.

A diferença fundamental entre os serviços da Apple e do Facebook é que o primeiro rodará encapsulado em um aplicativo, considerando as preferências do indivíduo, enquanto o segundo funciona dentro do próprio Facebook, com seus diversos critérios de relevância e uma presença quase ubíqua na vida dos internautas. O serviço do Zuckerberg leva vantagem.

Mas há também uma semelhança fundamental: nos dois casos, a percepção do usuário é que ele está consumindo o noticiário “no Apple News” ou “no Facebook”, ao invés de “no Estadão”, “na Globo”, “na Folha”, “na Veja”, “na Carta Capital”, “no The New York Times”.

Crescemos aprendendo a confiar e até a gostar dessas marcas. Eram referências de confiabilidade e sabíamos, de alguma maneira, o que encontraríamos em suas páginas. Mas quanto isso é realmente importante hoje para o usuário?

Essas mudanças no comportamento das pessoas são devastadoras para as marcas das empresas de comunicação, mas pode ser a salvação para os veículos tradicionais, que estão caindo um a um, como castelos de cartas (nesta sexta, 17, mais um jornal deixou de circular: o Brasil Econômico). E isso acontece não porque a qualidade de seu produto piorou (ok, isso também aconteceu em muitos deles), mas porque seus antigos leitores hoje estão consumindo noticiário de outras fontes, especialmente de algumas que sequer existiam há alguns anos. Como explicaria Darwin, sobrevive não o mais forte, e sim o mais adaptado às mudanças.

Os veículos correm, portanto, riscos ao publicar nessas plataformas. Mas eles simplesmente não têm alternativa, dada a sua incompetência em se adaptar aos novos tempos: terão que se render aos fatos para continuar vivos.

Continuam achando que suas marcas e sua história são suficientes para atrair os usuários. Continuam achando que a cobrança pelo conteúdo e a venda de publicidade do impresso podem ser transferidos com pequenas mudanças para o meio digital e dar certo. Continuam achando que um “paywall poroso”, como o do The New York Times pode salvar suas operações. Mas nada disso é verdade, e até o aclamado paywall só deu certo no NYT porque ele é apenas uma engrenagem de uma sofisticada estratégia de produto que conseguiu até mesmo angariar novos assinantes para o jornal impresso. O paywall sozinho não funciona.

Ponto sem retorno

Os veículos há muito tempo passaram do “ponto sem retorno” da migração para o digital. Parece ridículo dizer isso a essa altura do campeonato, mas deixa de ser se vemos que insistem em fazer tudo como antes e achar que as coisas vão se acertar magicamente.

Esses veículos não morreram, não ainda, e podem se salvar. Mas precisam primeiramente aceitar que nunca mais ganharão dinheiro como ganhavam antes, e certamente não com os mecanismos de antes. Tampouco voltarão a ter a relevância e a influência que tiveram.

Nessa realidade que vivemos, precisam aprendem a abraçar genuinamente o meio digital, e pulverizar e superdistribuir seu conteúdo, ganhando migalhas por cada exposição, mesmo daquelas que apareçam lado a lado às do seu mais ferrenho concorrente. E assim, de grão em grão, a galinha pode voltar a encher o papo.

“Onde fica essa tal de Internet?”

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Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995 - Imagem: reprodução

Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995

Há exatos, 20 anos, eu colocava no ar a FolhaWeb, primeira iniciativa da Folha na então recém-nascida Internet comercial. Aquilo foi um caldeirão de inventividade sem limites, muito trabalho e diversão, e algum risco.

“Você vai enterrar sua carreira nisso!” “Internet é só um modismo que não vai pegar!”

Ouvi frases como essas aos montões de colegas do jornal, que viam a Internet como uma bobagem de nerds que nunca deveria ter deixado os limites das universidades. Quando eu propus a entrada da Folha na Web, em janeiro de 1995, eu era repórter de Ciência. Quando decidi deixar o jornal para cuidar apenas do rebento digital, que já tinha completado um mês no ar, era editor-interino. Poderia ter mesmo continuado cuidando da minha carreira no impresso, que estava decolando. E, naquela época, quem diria que os jornais chegariam à situação que enfrentam hoje?

Felizmente não dei atenção àqueles colegas, e fui em frente!

Mesmo porque não havia sido fácil conseguir publicar aquele pequeno site, e não queria perder o pouco que tinha conseguido. Eu e meu editor, Claudio Cssillag, ficamos sovando a direção do jornal por meses para conseguir a autorização para a iniciativa. Enquanto ouvíamos perguntas do tipo “onde fica essa tal de Internet” ou “para quem terei que pagar para publicar na Internet”, todos os jornalões brasileiros publicavam suas versões online primitivas.

O pulo do gato para conseguirmos a liberação foi a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que, naquele ano, aconteceria no Rio de Janeiro. A Folha cobriria o evento, como fazia todos os anos. Meu editor teve então a brilhante ideia de propor a “primeira cobertura online do Brasil”. Entendam: isso não tinha, nem de longe, qualquer semelhança com uma cobertura online de hoje. Basicamente eu publicava à noite as notícias sobre o evento que estariam no jornal do dia seguinte. Mas o uso da palavra “primeira”, muito apreciada no jornal, foi um golpe de mestre do meu colega.

Além disso, alguns dias antes, a Folha havia dado ampla cobertura à Parada LGBT que havia acontecido no Rio de Janeiro, uma das primeiras do gênero no Brasil. “Já que demos tanto espaço aos gays, vamos dar agora aos cientistas”, ouvi na época. E assim o projeto foi liberado.

Assim, depois de realizar minhas tarefas diárias no jornal, ia até a sala do então gerente técnico da Agência Folha, Lelivaldo Marques Filho, parceiro no desenvolvimento das primeiríssimas páginas, que também contaram com a ajuda técnica de Sérgio Esteves, analista de sistema da Folha. Tudo sob a batuta de Marion Strecker, diretora da Agência na época. E, como previsto, no dia 9 e julho, há 20 anos, as matérias enviadas por Ricardo Bonalume Neto, repórter da Folha na reunião da SBPC, foram para o ar na espartana página vista acima. A criação do logo ficou a cargo de Cássio Leitão. Elas estavam acompanhadas por alguns outros conteúdos, como o noticiário das editorias de Ciências e de Informática, e a coluna Netvox, da Maria Ercilia, uma das primeiras pessoas a escrever sobre Internet no Brasil.

O trabalho era artesanal. O código HTML de cada página era editado na mão, em Word. A princípio, uma ferramenta inadequada para o trabalho, mas eu havia criado nele macros que transformavam os comandos do sistema de publicação do jornal em equivalentes na linguagem da Internet. Isso agilizava bastante o trabalho de importação do conteúdo do jornal.

A Folha possuía outra iniciativa de digitalização correndo em paralelo, no Banco de Dados, porém não visava criar um site na Web. Esse grupo, capitaneado por Rodrigo Santaliestra e Margot Pavan, uniu-se à FolhaWeb poucas semanas depois.

Além dos dois e das pessoas citadas anteriormente, que já trabalhavam na casa, a FolhaWeb começou a contratar gente especificamente para o projeto: Thania Thadeu, Luciana Saito e Kerly Tanaka, todas reforços editoriais. E a salinha onde trabalhávamos definitivamente ficou pequena…

Foram meses intensos, quase selvagens. É muito raro ter a oportunidade de participar da criação de não apenas um produto, mas um verdadeiro novo meio de comunicação, especialmente um que foi o de mais rápida adoção pelas pessoas e provavelmente o que alterou suas vidas de maneira mais dramática em apenas poucos anos. Ter participado da gestação da FolhaWeb foi um ópio, uma experiência arrebatadora em que tudo se podia, pois não havia parâmetros, não havia literatura, não havia concorrentes, nada! E ter feito tudo isso com as pessoas citadas foi um privilégio.

Antes que o ano acabasse, Caio Túlio Costa já estava no barco, preparando a transformação da FolhaWeb no Universo Online, que se concretizaria no dia 28 de abril de1996. Mas essa é outra história…

Quando uma “legião de imbecis” é mais importante que Umberto Eco

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Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de "O Nome da Rosa", obra-prima de Umberto Eco

Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de “O Nome da Rosa”, obra-prima de Umberto Eco

Para Umberto Eco, as redes sociais dão voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” É uma crítica fácil, mas o escritor italiano foi míope em sua análise, por não ver que isso está no centro de uma mudança social irrefreável que é, na verdade, positiva.

A declaração foi feita anteontem, quando Eco recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim (Itália). Em seu discurso, disse ainda que “eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Deixe-me ver se entendi: os “imbecis” (segundo o critério de alguém) devem ser calados, confinados a sua “ignorância”?

Esse conceito, muito popular entre regimes e instituições totalitárias, serve também para calar aqueles que simplesmente pensam diferente do status quo. Curiosamente nesses dias estamos diante de um debate em torno do comercial de O Boticário para o Dia dos Namorados, que apresenta casais homossexuais em condição de igualdade a casais heterossexuais, o que despertou a ira de uma parcela da população que considera isso uma afronta à sociedade. Se quisermos ir mais longe, temos exemplos brutais de tentativas de se silenciar o diferente, como o nazismo e a Inquisição.

Portanto, é curioso ouvir isso do autor de “O Nome da Rosa”, uma obra que justamente debate, entre outros temas, a intolerância ao diferente dentro de uma abadia na Idade Média. E, para a Igreja, entre as pessoas com pensamento diferente do que pregava e que deveriam ser silenciados (ignorantes?), estiveram Galileu Galilei e Nicolau Copérnico.

Sim, é verdade que a Internet deu voz a qualquer um, para falar o que bem entender. E é claro que, no meio disso, encontramos dignos representantes da mais bela porcaria, discursos de ódio e intolerância, pedofilia, informações erradas e todo tipo de informações questionáveis. Mas isso nada mais é que reflexo do mundo que vivemos: não foram os meios digitais que criaram isso tudo.

O centro da questão passa por definir o que é “certo” e “errado”. Esses valores morais variam de acordo com o tempo, o local, o grupo social, a religião. O comercial mencionado acima é um belo exemplo disso: conseguiu polarizar a população brasileira. Devemos silenciar os “imbecis” e exultar os “corretos”? Mas, afinal, quem é quem?

Penso que é exatamente o contrário disso: do debate, nossa sociedade pode evoluir. Estamos em um momento em que justamente as pessoas estão esquecendo como conviver com o diferente. E nada de bom pode surgir disso.

Não é a primeira vez que a Internet é acusada de ser “a destruidora da civilização” por dar voz a qualquer um. Em 2007, isso chegou a render um livro, “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen. Na obra, ele afirma que a liberdade oferecida pela Internet destruiria a sociedade por colocar um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. Isso já foi inclusive discutido neste blog.

O fato é que nada impedirá que as pessoas falem o que pensam cada vez mais. O acesso democrático aos meios de publicação digitais combinado à ubiquidade de celulares cada vez mais poderosos mudou a maneira como nós nos relacionamos com a informação. Pela primeira vez, qualquer um pode criar e publicar seu conteúdo e atingir, ainda que hipoteticamente, qualquer pessoa no globo. Essa é a essência da crise das empresas de comunicação, por não aceitarem que seu modelo de negócios, baseado no monopólio dessa produção e distribuição, não encontra mais lugar no mundo.

Portanto, quando Umberto Eco conclui que “os jornais devem filtrar as informações da Web com uma equipe de especialistas”, está tentando segurar um tsunami com a mão. Os meios de comunicação devem, na verdade, trabalhar em sentido contrário: trazer essas pessoas, com tanto a falar, para dentro de seu processo, melhorando o seu produto e aumentando a sua relevância social.

Não são “imbecis”, e merecem ser ouvidos. Os interlocutores tampouco são “imbecis”. Cabe a cada um processar a informação como achar melhor.

Deus e o diabo na terra da mídia

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Montagem de Zuckerberg sobre o cartaz do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol" - Imagens: divulgação e reprodução

Os artigos instantâneos, recurso lançado pelo Facebook na última quarta (13), podem representar uma grande oportunidade para a mídia. Entretanto muitos colegas temem que, ao adotar a novidade, os veículos de comunicação estejam abraçando o diabo.

Para quem não sabe do que se trata, a nova funcionalidade da rede de Mark Zuckerberg permite que os veículos publiquem seu conteúdo efetivamente nas suas linhas do tempo, ao invés de criar posts que remetam aos conteúdos em seus sites. Pode parecer uma sutileza tola, mas não é: a experiência do usuário com o conteúdo começa já na linha do tempo. Ao clicar no post, o conteúdo é aberto diretamente no Facebook, e não no site do veículo, de uma maneira muito mais rápida. Além disso, a plataforma oferece recursos editoriais interessantes, que podem tornar a experiência ainda mais envolvente.

Como o recurso por enquanto está disponível apenas no aplicativo do Facebook para iPhone, você pode ver como ele funciona no vídeo abaixo, do TechCrunch:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yFDT3_7e0Gs]

O conteúdo publicado no novo formato não ganhará nenhuma relevância adicional, portanto a chance de aparecer no seu feed de notícias será a mesma de qualquer outro post do mesmo veículo. Em compensação, por ser mais envolvente, em tese ele será muito mais compartilhado pelos próprios usuários, aumentando consideravelmente sua audiência. Como os veículos ficarão com toda a receita dos anúncios que venderem para os artigos instantâneos (se o Facebook vender, ele fica com 30%), é uma maneira interessante de monetizar o conteúdo promovido na rede, algo de que os veículos de comunicação sempre reclamam por não ter bons resultados.

Parece bacana, não é? Então qual é o problema?

Há alguns pontos importantes a se considerar. Primeiramente, ao colocar o conteúdo efetivamente dentro do Facebook, o veículo de comunicação deve entender que o indivíduo não mais consumirá tal conteúdo em seu site ou aplicativo. Receita e audiência podem ser mantidos (e até ampliados) pelo compartilhamento de números com o Facebook, mas é um fato que o usuário estará fora do “ambiente” do veículo, o que pode limitar sua capacidade de incentivar o indivíduo a consumir mais conteúdo ou outros produtos da casa.

Outro medo é que, ao adotar as novidades, os veículos estejam alimentando um monstro que depois os engolirá. O Facebook hoje já é mais relevante na vida das pessoas que qualquer veículo de comunicação. Mas, apesar de ser um canal de distribuição formidável (para alguns grandes veículos, chega a responder por um terço de sua audiência), ele não produz nenhum conteúdo. Se começarem a publicar diretamente no Facebook, por mais que o material esteja dentro das páginas dos veículos, há um temor de que o usuário diga, cada vez mais, “vi no Facebook” ao invés de “vi no Estadão”, por exemplo. E, nesse caso, quem será o “dono” do conteúdo?

Por fim, mas não menos importante, hoje o modelo de negócios oferecido é francamente favorável aos veículos. Mas qual é a garantia que, lá na frente, quando a mídia estiver despejando toneladas de “artigos instantâneos”, o Facebook não mude as regras do jogo, tornando-o (muito) mais interessante para si? Fazendo um paralelo com jornais e revistas, é como se todos os caminhões da cidade decidissem cobrar o dobro para entregar os impressos.

Apesar de tudo isso, alguns dos principais nomes da mídia abraçaram a novidade em seu lançamento: The New York Times, National Geographic, BuzzFeed, NBC News, The Atlantic, The Guardian, BBC News, Spiegel Online e Bild. Alguns deles, veículos com muita estrada, já têm boas iniciativas online, como The Guardian e The New York Times. E há também o BuzzFeed, digno representante da mídia nativamente digital e que já tem íntima relação com o Facebook. É muita gente boa abraçando o diabo! Será que os truques do Coisa-Ruim enganaram todos eles? Quero crer que não.

Qualquer um poderia dizer: “se o negócio ficar ruim depois, o veículo pode simplesmente abandonar o formato”. Isso é verdade. Mas talvez o Facebook já terá se transformado do jacaré atual em um tiranossauro. E pular fora de seus domínios poderia eventualmente diminuir ainda mais a relevância de qualquer veículo.

Nesse jogo de xadrez, o novo recurso foi uma jogada de mestre de Zuckerberg. Agora é a vez dos veículos jogarem. Talvez o Facebook nunca use esses “lances do mal” descrito acima. Talvez os “artigos instantâneos” não cheguem a fazer sucesso com os usuários. Quem sabe? Isso é tudo especulação afinal.

O que é certo é que os veículos batem cabeça há 20 anos na mídia digital, sem conseguir criar um modelo realmente vencedor que garanta a sua continuidade. Pelo contrário: continuamos vendo veículos, alguns centenários, fechando suas portas. E o culpado por isso não é o Facebook, o Google ou, em um sentido mais amplo, a Internet.

Os culpados são os próprios veículos, que parecem ter esquecido como ser relevantes para seu público. Estão tão preocupados com sua minguante receita publicitária, que não dão tanta importância para ele, sua razão de existir.

A maioria dos veículos que hoje agonizam nasceram nos séculos 19 e 20 para atender a comunidade onde estavam, um grupo social ou um ideal. Cresceram fieis a isso. Mas acabaram se tornando máquinas muito bem azeitadas de fazer dinheiro, que já não vinha tanto de seu público, e sim da publicidade. Não estou condenando a publicidade de forma alguma, mas isso só funcionou (e funcionou por muitas décadas) enquanto esse público não tivesse algo com o que se sentisse mais bem representado.

Isso aconteceu com o fortalecimento da mídia digital. Para desgraça dos veículos, seus concorrentes deixaram de ser os outros veículos, uma batalha que eles conheciam, para ser qualquer site ou aplicativo que lhes roube o tempo que seu antigo público lhes dedicava. Com o declínio da audiência, a publicidade arrumou as malas e os deixou.

Parte da relevância perdida pode estar no conteúdo, que muitas vezes já não atenda mais às expectativas das pessoas, e até mesmo ao alinhamento político e econômico dos veículos. Isso vem ficando cada vez mais claro nos últimos anos, com as crescentes críticas a veículos tradicionais. De todo jeito, isso é um problema editorial, que pode ser resolvido.

Mas outra parte do problema está justamente em como qualquer produto chega a seu público. O veículo pode produzir o conteúdo mais incrível e alinhado a ele, mas de nada adianta se isso não impactar as pessoas. Elas não assinam mais um monte de papel que inexoravelmente chegará a suas portas para ser consumido. Agora, cada pílula de conteúdo precisa trilhar o seu caminho até seu consumidor, de maneira individual. Se for competente, carregará o usuário para outros conteúdos da mesma marca.

Portanto, nada mais burro e anacrônico que ficar brigando com o Google, por causa de seu Google Notícias, como fazem os jornais. Isso só demonstra como eles estão descolados das pessoas, o que nos remete ao problema de relevância acima.

Os veículos têm obrigação de entregar o seu conteúdo de todas as maneiras que conseguirem, principalmente as mais criativas. Isso embute riscos enormes, como os descritos acima? Claro! Mas eles foram –e continuam sendo– absurdamente incompetentes em criar maneiras efetivas de manter seu público e conquistar novos consumidores. Insistem em transpor seus produtos tradicionais e especialmente seus modelos de negócio anacrônicos para uma nova realidade. Mas isso é impossível.

Nesse cenário, o Facebook é outra noiva com um dote gigante demais para ser ignorada. Não sei se essa moça bonita é o diabo como dizem alguns, mas os veículos devem considerar esse abraço. E torcer para isso gerar filhotinhos bonitos e saudáveis.

NÃO estamos diante do fim do jornalismo

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Venda de jornais nos EUA

Venda de jornais nos EUA

Há alguns dias, ainda sob influência das recentes demissões no Estadão, na Folha e em outros veículos, li o artigo de Sylvia Moretzsohn no Observatório da Imprensa, sobre a crise que assola as empresas de comunicação e a “moral da tropa”. Ela faz importantes reflexões, mas o texto tem um tom pessimista com o qual não concordo. Apesar dos fatos, vejo o momento do jornalismo profissional como de transformação e não como seu “fim”.

É verdade que a situação não está fácil para ninguém, e que vejo a toda hora colegas desesperançosos com o futuro da profissão. Mas tudo isso é “crônica da morte anunciada”, seja do lado das empresas, seja dos profissionais. O “jornalismo como conhecíamos” não consegue mais se sustentar como negócio ou profissão. Mas isso jamais deve implicar em mudanças de seus fundamentos: compromisso com a verdade e com o público, investigação, persistência, pluralidade. Bom jornalismo hoje é o que sempre foi e sempre será bom jornalismo.

Por isso, a despeito do pessimismo, concordo com muito do que a Sylvia diz em seu artigo, especialmente com o trecho “o jornalismo precisa corresponder ao ideal que o justifica e o legitima socialmente.”

As reclamações atuais não passam do velho mito de que “a Internet vai matar o jornalismo” em nova roupagem, com o Facebook ganhando destaque como vilão. Nada mais falso: se você estiver lendo esse texto, a chance de ter chegado aqui a partir da rede do Zuckerberg é muito grande.

Empresas e colegas acusam o Facebook, o Google, o jornalismo-cidadão e outras “novidades digitais” de corromper os fundamentos acima em favor de amadorismo e de fórmulas baratas de “roubar” o público. É claro que existem coisas (muito) ruins na Internet, muitas delas travestidas de noticiário. Também é verdade que muitas delas têm público. E que, gostemos ou não, uma porcaria pode tirar audiência de um belíssimo trabalho, se for apresentada adequadamente às pessoas que servem de público para ambos. Mas pessoas sempre foram seduzidas por fórmulas fáceis e apelativas, e isso tampouco foi criado pela mídia digital: é tão velho quanto a imprensa profissional e tem vários nomes: sensacionalismo, jornalismo marrom e por aí vai. Portanto, não servem de desculpa para a perda da audiência dos “veículos sérios”.

Claramente muitos colegas e empresas estão perdidos nesta realidade de novas ferramentas de apuração e de publicação e -principalmente- do novo público. Diante da sua inabilidade, metem os pés pelas mãos, pioram o jornalismo, demitindo seus melhores profissionais e falhando ao tentar se adaptar ao novo cenário, e, por isso, não conseguem mais se sustentar.

Sou otimista quanto ao futuro do jornalismo: apenas precisamos tirar essa grossa camada fuligem: ele continua brilhando por baixo dessa sujeita velha. E isso só é verdade porque as pessoas querem ser informadas, e BEM informadas.

Jornalistas e empresas de comunicação precisam, sim, se reinventar, mas isso, de forma alguma, significa “se degradar” (nesse ponto, discordo do artigo da Sylvia). É exatamente o contrário disso! Devem melhorar ainda mais o seu conteúdo, enquanto aprendem a se diferenciar no mar de conteúdo qualquer-nota com que disputam a atenção e o tempo das pessoas. Quem conseguir fazer essas duas coisas, não apenas sobreviverá, como prosperará.

Os problemas de forçar um conteúdo nacional

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Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) está tramando a exigência de uma cota mínima de filmes e séries brasileiras em serviços de vídeo sob demanda, como o Netflix e o HBO Go. Com o argumento de fomentar as produções nacionais, esse tipo de intervenção pode matar a vaca para acabar com o carrapato.

Essa regra já funciona para os canais de TV paga, que são obrigados a dedicar pelo menos 30% de sua grade a programas brasileiros. De fato, temos hoje produção nacional de ótima qualidade, mesmo em canais internacionais, como a série O Negócio, na HBO. Mas esse alto nível está longe de ser padrão, com alguns conteúdos de interesse e qualidade limitados, sem falar na enxurrada de programas de culinária que criam variações sobre o mesmo tema nem sempre tão criativas.

O grande problema desse tipo de regra é tirar do consumidor o seu direito de escolher o que assistir. Quem paga por um serviço de TV por assinatura quer justamente fugir da qualidade rasteira da programação dos canais abertos. Ao forçar que um terço da grade de um canal pago seja preenchido com qualquer conteúdo local, apenas por ser brasileiro, esse direito de escolha é prejudicado.

Os serviços de vídeo sob demanda representam a maximização da escolha do consumidor, que agora não precisa sequer se ater às grades de programação: assiste o quiser, quando e onde quiser, uma liberdade inédita que está redefinindo o próprio jeito de se ver televisão.

No Brasil, o Netflix oferece cerca de 4.000 filmes e séries em seu acervo. Desse total, cerca de 5% é composto por produções brasileiras. Se a Ancine emplacar a mesma exigência feita aos canais de TV por assinatura, o Netflix precisaria ampliar o seu acervo -o que pode encarecer o produto- ou reduzir o volume de conteúdo internacional oferecido. Nas duas situações, quem perde é o consumidor.

Até a minha adolescência, o cinema brasileiro era desprezível, dominado pelas pornochanchadas e pelos filmes dos Trapalhões. Até que Carlota Joaquina, Princesa do Brazil estreou em 1995, seguido no mesmo ano por O Quatrilho e outras grandes produções, que inauguraram uma nova fase do cinema nacional, de alta qualidade. Disso surgiram obras-primas, como Central do Brasil, e Tropa de Elite. Entretanto, de uns anos para cá, as salas têm sido invadidas por uma enorme quantidade de comédias, muitas delas de gosto bastante duvidoso e pouco originais, mas todas com o logo da Ancine na abertura.

Por isso, sou favorável à constante ampliação da oferta de produções nacionais de qualidade. Mas isso não pode ser feito por decreto, principalmente quando contraria os interesses e fere os direitos do cidadão, que é, afinal, o cliente de tudo isso, pagando pelo cinema, pela TV por assinatura e pelo Netflix. Não abro mão do meu direito de assistir a House of Cards, Game of Thrones e afins em favor de programas de culinária fofinhos ou de comédias caça-niqueis.

Por que algumas pessoas estão odiando a imprensa

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Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo - Imagem: reprodução

Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo

Recentemente o Brasil 247 retirou parte de uma conversa de Rodrigo Mesquita do contexto e, a partir dela, publicou “Herdeiro do Estadão: os jornais estão mortos“. Não discutirei o sensacionalismo barato do post, mas me preocupou muito a longa cadeia de comentários destilando um enorme ódio contra a imprensa e seus principais veículos. Algo na linha de “o Estadão tem mais é que morrer mesmo, e levar a Globo junto!”

A primeira coisa que pensei é que aquilo tudo era um rescaldo da hiperpolarizada eleição presidencial, que dividiu o país entre “azuis” e “vermelhos”, e onde alguns veículos da imprensa, mais notadamente a Veja, jogaram pesado -e às vezes sujo- no exercício da oposição. Mas, pensando melhor, isso não deveria ser suficiente para causar tamanha aversão, pois ela já vinda aparecendo com muita força desde as grandes manifestações de rua de 2013, quando alguns jornalistas que faziam sua cobertura chegaram a ser agredidos pela população, pelo simples fato de serem jornalistas.

Há algo muito perigoso nisso. Apesar de o jornalismo existir desde o Império Romano, sua versão moderna data do século XIX. Aqueles veículos rudimentares informavam a população de onde circulavam sobre os acontecimentos do local, do país e, quem sabe, do mundo. Eventualmente defendiam causas e tinham seu alinhamento político. De qualquer forma, a população se sentia representada pelo “seu jornal”.

Essa representação é um dos pilares do jornalismo. Uma imprensa livre é fundamental para a construção e manutenção de uma democracia. Por isso, a cartilha de qualquer ditador reza que a imprensa deve ser domada e silenciada o quanto antes. O finado Hugo Chávez refinou essa técnica, incutindo na população a ideia de que uma imprensa contrária ao governo é automaticamente contrária ao povo, quando, na verdade, normalmente acontece o contrário.

Se um veículo não consegue mais representar seu público, então ele perdeu sua razão de ser. Quando se radicaliza, como nos casos de Veja e Carta Capital, abre mão de parte da população em nome do que defende, mas ainda há um outro grupo que o apoia. Do lado do público, se alguém não gosta de um veículo, sempre haverá outro com o qual se alinhe. Mas o que vejo desde junho de 2013 é uma parcela crescente da população aparentemente abominar toda imprensa.

Não há dúvida que essa abjeta característica do chavismo chegou e se consolidou no Brasil, em grande parte por uma propaganda muito bem orquestrada nas redes sociais. Mas a grande imprensa não está ajudando em nada para reverter esse quadro. Já se foi o tempo em que a massa consumia sem questionar o que os veículos publicavam. As suas radicalizações são como gritos aos ouvidos de quem consome seu noticiário de maneira crítica (a melhor maneira, por sinal). Não estou dizendo que as publicações não devam defender uma posição ou mesmo se alinhar a um candidato em uma eleição. Isso é legítimo e saudável, desde que não esqueçam que, como veículos jornalísticos que são, devem realizar suas coberturas abrindo espaço para os outros lados, sem mentir ou destruir reputações apenas para fazer valer as suas teses.

Os próprios veículos -e ninguém mais- podem resgatar a confiança de seu público. E eles precisam se esforçar, genuína e rapidamente, nessa tarefa, ou a provocação barata do Brasil 247 acabará se concretizando.

Por que não temos um “Netflix de revistas e jornais”?

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Banca de revistas

Cansei de ouvir de executivos de empresas de comunicação que os negócios vão mal porque as pessoas não querem mais pagar por conteúdo. Isso é desculpa de quem não consegue ou não quer transformar seu produto para o novo mercado, pois acontece exatamente o contrário: as pessoas nunca pagaram tanto por conteúdo.

Basta ir aos cinemas para comprovar: seus ingressos chegam a custar quase tanto quanto uma assinatura mensal de jornal, mas as sessões estão lotadas. E há também o Netflix, que, no meio do ano passado, ultrapassou a incrível marca de 50 milhões de assinantes. No campo da música, o Spotify virou este ano com 60 milhões de usuários, sendo 15 milhões pagantes.

Seria legítimo, portanto, perguntar: por que não temos um “Netflix de jornalismo”? Um sistema que aglutinasse uma grande quantidade de títulos, de diferentes empresas, disponíveis para leitura livre a um preço módico. O problema é que isso já existe e não vai bem das pernas.

Duas empresas americanas oferecem um serviço assim. A mais antiga, a Next Issue, cobra US$ 14,99 para acesso livre a 140 de algumas das melhores revistas dos EUA, inclusive semanais. Já a recém-chegada Magzter cobra R$ 26,80 (sim, está disponível no Brasil) para acesso irrestrito a mais de 2.000 revistas de diferentes países, porém a grande maioria delas obscura. Há também um aplicativo brasileiro, o Iba, da Abril, que cobra R$ 19,90 por mês pelo acesso há quatro revistas mensais ou uma mensal mais uma semanal ou quinzenal. O acervo é modesto: apenas 28 revistas da própria Abril.

Apesar de a Abril afirmar que possui mais de 500 mil usuários no Iba, o mercado enxerga o produto como um pato manco, uma experiência da empresa que está fazendo água, ainda mais depois de encerrar as parcerias com outro publishers, que garantiam acesso a seus também a jornais e livros.

O Iba tem dois problemas principais. O primeiro deles é comercial: os assinantes não se sentem seduzidos pela sua oferta, proporcionalmente mais cara que a dos americanos acima, por exemplo. A Abril, por outro lado, não baixa mais o preço, pois isso poderia canibalizar a assinatura das mesmas revistas em seus aplicativos próprios ou nas versões impressas.

O outro problema está no que o usuário recebe, e esse problema afeta também a Next Issue e a Magzter. Apesar de funcionarem em dispositivos digitais e possuírem algumas implementações multimídia, as revistas baixadas em todos esses sistemas são basicamente uma cópia da edição impressa. E o público já não vê muita vantagem em aguardar uma semana inteira (ou uma quinzena ou um mês!) para receber um grande pacote de noticiário frio, com pouca ou nenhuma integração com seus amigos em redes sociais, sem ligações com outras fontes de conteúdo online, sem interatividade e recursos multimídia. Coisas que a Web e principalmente aplicativos mais arrojados de terceiros (e que muitas vezes se “alimentam” de conteúdo dessas revistas) fazem esbanjando categoria.

Um bom exemplo de como as pessoas não querem mais saber desse produto editorial organizado e vendido como revista foi o fechamento do The Daily, cuja última edição circulou no dia 15 de dezembro de 2012, antes de completar dois anos. Para quem não se lembra dele (ou nunca o conheceu), The Daily foi o primeiro jornal criado especificamente para o iPad. Tratava-se de uma grande promessa, capitaneada por Rupert Murdoch, o mogul da News Corp. (que nunca escondeu sua aversão às inovações da mídia digital), e com apoio técnico da própria Apple. Mas, como um Titanic digital, falhou fragorosamente, pois quis empurrar um velho formato para um público ávido por verdadeira inovação. Bonitinho mas ordinário.

Há ainda a concorrência das Bancas do Google e da Apple, que oferecem, de maneira muito bem integrada ao Android ou ao iOS, todas essas revistas em seu formato digital, para quem eventualmente quiser ler seu conteúdo dessa forma.

Iba, Next Issue e Magzter não vão bem porque os responsáveis por eles continuam pensando como executivos de mídia impressa, na concepção dos seus produtos e principalmente no seu modelo de negócios. É por isso que eles nunca serão um Netflix ou um Spotify. Esses daí, por mais que entreguem conteúdos originários de outros “mundos” (cinema e música), souberam adaptar seu produto e seu modelo de negócios ao que as pessoas querem.

A turma do impresso deveria prestar mais atenção no Flipboard e afins. Sim, são gratuitos, mas eles estão mostrando o caminho a seguir.

Liberdade de expressão não é para qualquer um

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Exemplo de sátira do blog Falha de São Paulo - Imagem: reprodução

Exemplo de sátira do blog Falha de São Paulo

O terrível massacre no jornal satírico francês Charlie Hebdo, ocorrido na manhã do dia 7, despertou uma reação nos países do Ocidente em defesa da liberdade de expressão. Oito dias depois, o processo que a Folha de S.Paulo move contra o blog satírico Falha de São Paulo chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Qual a relação entre esses dois episódios? Para quem não conhece a história, o jornal processou, em setembro de 2010, os irmãos Mário e Lino Bocchini, programador e jornalista respectivamente, e criadores do blog. A Falha parodiava a Folha com fotomontagens e chamadas que ironizavam o jornal e seu posicionamento sobre a campanha presidencial daquele ano. A Justiça aceitou os argumentos dos advogados do jornal, que afirmavam que o blog violava a sua marca, por similaridades no nome e no logo, e um visual que se assemelhava a seu projeto gráfico. O blog saiu do ar, depois de ter sido publicado por apenas 17 dias. Os Bocchini perderam todos seus recursos até agora, mas têm conseguido apoios de peso, como da ONG Repórteres Sem Fronteiras e de Julian Assange, criador do WikiLeaks, além de emplacar matérias favoráveis nos sites da revista Wired e do respeitado Financial Times. Agora a bola está com o ministro Marco Buzzi, do STJ.

Voltando à comoção pelo atentado na França, a Folha condenou energicamente o acontecimento, com um editorial defendendo “valores universais de liberdade e tolerância” e estampando na sua primeira página uma charge com as famosas palavras “je suis Charlie” (“eu sou Charlie”).

Je suis? Je ne suis pas. Há uma evidente contradição nessa história.

Alguns podem argumentar que a Folha, com o processo, não cerceia a liberdade de expressão, e que está apenas protegendo sua propriedade industrial. Mas esse argumento é muito frágil: não entendo como os Bocchini poderiam fazer uma sátira ao jornalão, sem mimetizá-lo.

Sátiras e charges não são apenas “coisinhas divertidas”: elas carregam mensagens, que podem ser poderosíssimas. O público de um veículo entende essas mensagens, e normalmente as considera engraçadas. Mas os satirizados podem ter uma visão bem diferente. No caso das charges de Maomé do Charlie Hebdo, mesmo a maioria muçulmana que condenou a violência contra os jornalistas pode se sentir muito ofendida por elas, pois contrariam seu modo de vida e preceitos sagrados de sua religião, como o simples fato de não se poder retratar o profeta.

Por isso, parece fácil, bonito, certo e justo bradar “Je suis Charlie”! Desde que, é claro, a pimenta não esteja ardendo os próprios olhos.

Aqui no Brasil também se mata para calar a imprensa e a liberdade de expressão, principalmente quando se trata de pequenos veículos. Quando o alvo é a grande mídia, recorre-se ao Judiciário, criando uma espécie de “censura de toga”, o que provoca correta indignação na mídia. Um caso importante e relativamente recente é a censura ao Estadão, em que a Justiça o proibiu de falar mal da família Sarney na “Operação Boi Barrica”.

Irônica e infelizmente estamos vendo, cada vez mais, a mesma grande imprensa se valer do mesmo recurso para calar aqueles que a contrariam. Uma vergonha para a democracia e para a liberdade de expressão que ela diz defender!

“Nosso é o sorriso da liberdade, da esperança e da razão”, diz o editorial da Folha do dia 8. Já Suzana Singer, no papel de ombudsman da mesma Folha, disse em sua coluna no dia 9 de janeiro de 2011: “é difícil encarar essa disputa como uma luta pela liberdade de expressão. (…) Não faz bem a um veículo de comunicação progressista –e que se considera “jornal do futuro”– cercear um blog caseiro, apelativo sem dúvida, mas inofensivo. Nessa batalha de David contra Golias, o papel do gigante malvado coube à Folha, que teve sua imagem muito mais prejudicada do que se tivesse simplesmente ignorado as pedrinhas dos irmãos blogueiros.”

Sejamos Charlie! Mas verdadeiramente. E por inteiro.

O poder construtivo e destrutivo do jornalismo-cidadão

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Ontem a HBO finalmente lançou no Brasil a terceira temporada de The Newsroom. Entre outros dilemas, os personagens do fictício News Night se debatem diante da concorrência do jornalismo-cidadão praticado nas redes sociais. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência: o telejornal começa a perder audiência e receita por não conseguir acompanhar a velocidade e diversidade das mídias digitais.

A série de Aaron Sorkin sempre discute muito bem os temas mais candentes do jornalismo. A bola da vez, o “embate” entre o jornalismo tradicional e o jornalismo feito por qualquer um, sempre aparece em minhas aulas, e alunos e colegas questionam o futuro dos veículos de comunicação e da própria profissão de jornalismo.

Apenas para contextualizar, o primeiro episódio da temporada começa com o atentado terrorista na Maratona de Boston de 2013 e evolui com a equipe do News Night procurando obter informações de fontes oficiais antes de publicar algo, enquanto uma frenética cobertura do caso acontecia no Twitter e no Facebook. A situação fica mais dramática quando alguns de seus concorrentes seguem a onda e começar a dar notícias sem as devidas checagens. Para piorar a história, o telejornal cai de segundo para quarto na audiência, e a empresa reporta prejuízos financeiros.

O primeiro capítulo acaba demonizando o jornalismo-cidadão e as mídias sociais, pois, de fato, muitas bobagens foram publicadas no calor daquele momento, algumas delas bem graves. A turma que bate o bumbo contra o jornalismo-cidadão vive dizendo que aquilo não é jornalismo, em um movimento para proteger corporativamente o exercício da profissão apenas por jornalistas formados, ou então para salvar os veículos tradicionais de sua própria incapacidade de (até hoje) conviver com a realidade imposta pela mídia digital, em que qualquer um pode ser consumidor e produtor de todo tipo de conteúdo, inclusive jornalístico.

Mas muita calma nessa hora! Isso é uma visão distorcida da realidade, coisa que um bom jornalista não pode tolerar. Se, por um lado, as “coberturas” em mídias sociais podem trazer barbaridades, principalmente em fatos que envolvem muita emoção, por outro elas podem oferecer jornalismo de altíssima qualidade, por uma pessoa séria estar no lugar certo, na hora certa, com um celular na mão. E isso é cada vez mais verdadeiro com as empresas de comunicação investindo cada vez menos na reportagem –o coração do jornalismo– sobrevivendo pautadas pelo denuncismo, por releases e pelo jornalismo palaciano, gerando um noticiário morno, desinteressante e sem novidades.

Sempre me lembro do tsunami que arrasou a Indonésia no dia 26 de dezembro de 2004. Depois do desastre, (incrivelmente) a rede de celulares local continuou funcionando. Os sobreviventes começaram então a fazer uma importantíssima cobertura jornalística, muitos sem sequer se dar conta de que faziam isso. A grande imprensa demorou incríveis dois dias para entender a gravidade do acontecimento. Quando isso finalmente aconteceu, mobilizou um exército de jornalistas e fez o seu trabalho.

Mais que escancarar a importância e a viabilidade do jornalismo-cidadão, aquele evento demonstrou também como essa modalidade e o jornalismo tradicional podem atuar de maneira complementar. Nenhum indivíduo é capaz de realizar grandes coberturas, pois isso exige grandes investimentos. Por outro lado, os veículos não podem estar a todo momento em todo lugar.

Por tudo isso, nunca se produziu ou se consumiu tanto conteúdo jornalístico. Há muita porcaria nessa produção, mas também há muito material de altíssimo nível. E isso vale tanto paras as produções de indivíduos humildes quanto para veículos centenários.

Portanto, ao contrário do que pregam os arautos do apocalipse, o jornalismo-cidadão e as mídias sociais não são concorrentes do jornalismo tradicional, e muito menos adversários do bom jornalismo. O que eles fazem –isso sim– é pressionar os veículos a adotar novos formatos de produção e de distribuição de seu noticiário de qualidade, e criar novos modelos de negócio. Infelizmente eles não têm conseguido se adaptar a esse mundo pós-tsunami.

 

PS: Essa é a última temporada de The Newsroom, supostamente por outros compromissos de Sorkin. Terá apenas seis episódios. É uma pena: essa série deveria ser usada como material didático em faculdades de Jornalismo.

Como usar o santo nome da democracia em vão

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Capas da Veja e da Carta Capital às vésperas do segundo turno da última eleição: dois lados de uma mesma moeda

Capas da Veja e da Carta Capital às vésperas do segundo turno da última eleição: dois lados de uma mesma moeda

Em um tempo em que o país está polarizado pelo recente resultado das eleições presidenciais, este NÃO é um artigo político. Mas ele foi motivado pelo documento publicado pela Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores no dia 3, mais especificamente pelas partes que se referem à “democratização da mídia”.

Para quem não está a par do tema, o partido propõe a criação de uma “Lei da Mídia Democrática”, dispositivos que, na prática, permitiriam ao governo exercer controle nos veículos de comunicação. Em outras palavras, dificultar a vida de quem falar mal dele, abrindo caminho para a censura velada, que se somaria a ocorrências de censura judicial que estão cada vez mais populares entre os políticos do nosso país. Vocês se lembram, por exemplo, da censura imposta pelo Judiciário ao Estadão, que o proibiu de falar mal da família Sarney na Operação Boi Barrica?

Mas o que me chama mais a atenção nessa proposta da Executiva do PT é o termo “democratização”. Ele se justifica em nome da eliminação do “oligopólio” que a mídia é, segundo o partido. Não sou inocente de negar o poder político e social exercido pelas grandes empresas de comunicação, como Globo ou Abril. Também posso compreender o ódio supremo que o pessoal deve sentir de uma publicação como a Veja, que usa dos métodos mais sórdidos para fazer valer os seus pontos. Mas cercear a liberdade de comunicação e de imprensa é qualquer coisa, menos democracia.

A revista acima pratica há anos o mais rasteiro do jornalismo. Na verdade, o que a Veja faz é antijornalismo, e isso me enoja. Mas seus adversários tampouco são paladinos da ética jornalística: do outro lado desse MMA jornalístico-partidário, vestindo calção vermelho, temos veículos como a Carta Capital, que fazem algo tão desprezível quanto.

Para abusos de qualquer lado, existem o Código Civil e o Código Penal. Nenhum país precisa de controles adicionais para calar sua imprensa, coisa que está na moda em nossos vizinhos há anos, mais notadamente na Venezuela e na Argentina, dois regimes totalitários que, por sinal, adoram usar o nome da democracia para justificar os seus desmandos.

Já viajei por vários países da América Latina e sempre confirmei a regra de que quanto mais frágil, dependente ou controlada era a mídia local, mais corrupto era o governo e mais miserável era a população, do ponto de vista econômico, político e social.

Quando comecei na profissão, o presidente da República era Fernando Collor. Claro que ele, assim como qualquer governante, adoraria ter tido uma mídia dócil. Felizmente, para o país, ele não teve. Graças a isso (e a uma providencial ajuda de seu “querido irmão”), não tivemos que esperar o fim de seu mandato para nos vermos livres dele.

Durante a última campanha presidencial, a então candidata Dilma Rousseff reiterou seu compromisso de não impor controles sobre a imprensa. Eu espero, para o bem do Brasil, que essa promessa de campanha seja cumprida. Mesmo porque, apesar das aberrações acima citadas, a mídia nunca esteve tão democrática. E isso não se deve a qualquer controle grotesco, e sim à tecnologia, que permite que qualquer cidadão expresse suas ideias e defenda suas crenças, individualmente ou criando um veículo digital.

O que os livros impressos da Amazon representam

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Caixa padrão da Amazon - Foto: divulgação

Na última quinta-feira (21), a Amazon começou a vendar livros impressos em sua operação brasileira, antes restrita a livros digitais, aplicativos e seus e-readers Kindle. Isso detonou uma gritaria acusando a gigante do varejo de práticas draconianas contra editoras e de descontos agressivos, o que liquidaria os pequenos livreiros. Mas ninguém está falando daquilo que a entrada da empresa no varejo de produtos físicos realmente representa: a desconstrução dos modelos de negócios das editoras e das livrarias.

A Amazon de fato pratica preços baixos, mas eles não são necessariamente os mais baixos do mercado. Peguemos, como exemplo, o livro de não-ficção mais vendido no Brasil de 11/8 a 17/8, segundo o Publishnews: “Destrua Esse Diário”, de Keri Smith. No momento em que esse texto está sendo escrito, a Amazon o vende a R$ 16,20, mais caro (segundo pesquisa no Buscapé) que Ponto Frio.com (o mais barato, a R$ 14,85), Saraiva.com e Livraria da Folha, e empatado com a Fnac.com.

A empresa também é reconhecida por um atendimento e respeito ao consumidor excepcionais, indo muito além do que a lei exige. Um bom exemplo é o prazo de devolução do produto: 30 dias, quando o Código de Defesa do Consumidor prevê apenas 7 (para os quais a maioria dos varejistas torce o nariz e “esconde” essa informação). Traz também soluções comerciais e técnicas muito interessantes, como entregas rápidas e o serviço “Leia enquanto enviamos”, que permite a leitura da versão digital do livro comprado enquanto ele não chega. Sem falar no uso do “big data”, para criar ofertas realmente diferenciadas para cada consumidor.

É difícil ir contra qualquer uma das coisas ditas acima: em tese, elas obrigarão o mercado como um todo a elevar a qualidade de seu atendimento. Então qual é o “problema”?

A Amazon realmente causa estragos tornando modelos de negócios obsoletos. Ela impõe ao varejo e ao mercado editorial mudanças que outras indústrias já enfrentam (não raro sem sucesso), como a fonográfica.

No caso do varejo, os preços baixos são o menor dos problemas dos concorrentes. Qualquer e-commerce é uma operação de varejo, que entrega produtos físicos (muitas vezes grandes e pesados, em lugares distantes). Não basta, portanto, ter um site bacaninha e vender a preços mais baixos que as lojas físicas. Práticas comerciais e logística deficientes, aliadas à queima de preços, geram operações altamente deficitárias, e temos gente muito grande no e-commerce brasileiro tomando prejuízo por isso.

A turma de Jeff Bezos não costuma cometer esses erros. No caso do varejo de livros, outros e-commerces e livrarias do tipo “megastores” são os grandes prejudicados, pois seu diferencial de mix de produtos e preços baixos desaparece. O impacto é menor em livrarias com gestões mais inteligentes, como a Cultura e a Livraria da Vila (e até algumas livrarias de bairro), onde o simples comércio evoluiu para uma experiência rica de compras, com lojas transformadas em espaços de eventos e vendedores transformados em consultores editoriais.

No caso das editoras, a situação é mais grave. A Amazon realmente aperta seus pescoços para que os preços caiam. E essa é uma briga mundial, como pode ser visto em várias batalhas jurídicas entre o varejista e editoras nos EUA e em países da Europa. Porém o mais grave, que atinge o coração das editoras, é a oferta aos autores para que eles editem e publiquem, por sua conta, seus livros. A própria Amazon, a Apple e outros oferecem sistema de “autopublicação” poderosos e fáceis de usar, que tornam a publicação de um livro uma tarefa que dispensa a figura da editora. De quebra, esses players promovem e vendem as obras em suas lojas virtuais, garantindo aos autores royalties incrivelmente mais alto que o oferecido pelas editoras tradicionais.

Não é de hoje que esse tema frequenta “O Macaco Elétrico”. Editoras e livrarias tentam encontrar maneiras de perpetuar seus modelos moribundos, normalmente tentando aprovar leis que contrariam os interesses dos consumidores, e se organizando para enfrentar as exigências dos varejistas mais exigentes. Mas agora a Amazon finalmente chegou para essa queda de braço.

Como pode ser visto, não é uma questão simplória de preço. Trata-se de modernizar o negócio de livros. Não dá para continuar tapando o sol com a peneira.

Qual é o segredo do Secret?

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"O Segredo", bronze de Lagoa Henriques - Foto: Manuel Botelho/Creative Commons

“O Segredo”, bronze de Lagoa Henriques

Quando conheci o Secret, fiquei tentando entender como funcionaria uma rede social cuja principal característica é o completo anonimato de seus participantes. Pareceu, de cara, uma contradição em termos. Mas há méritos no app.

Para quem nunca ouviu falar dele, o Secret é uma rede social construída por pequenos posts publicados a partir do celular de maneira anônima. Quer dizer, o sistema sabe quem são os autores e onde eles estão, além de quem são seus “amigos” (da agenda do telefone e do Facebook) que também usam o produto. Dessa forma, ele constrói uma lista de posts que, de alguma forma se relacionam com o usuário, mas sem que ele saiba quem são os autores.

Os tais “segredos” quase sempre são pequenas tolices que interessam a pouca gente (ou ninguém além de quem os postou). Há também aqueles que usam o aparente anonimato para caluniar e detratar seus desafetos. Por que então essa ferramenta está fazendo sucesso?

Talvez a explicação esteja justamente na possibilidade de a pessoa poder publicar o que quiser, sem o temor de ser julgado pelos seus amigos (reais ou virtuais). Já virou até piada dizer que ninguém é tão feliz quanto parece ser no Facebook. E ninguém é mesmo! Mas não é de se espantar que, na rede de Mark Zuckerberg, sejam publicadas quase que exclusivamente coisas positivas (ou pelo menos não reprováveis). Afinal, tudo vai ao ar com a assinatura do autor. Daí a sensação de que a vida parece ser mais bela ali.

Mas, como diriam os psicólogos, todos têm uma “sombra”, aquele lado com desejos que podem ser considerados imorais, inaceitáveis para a sociedade. Não havia muito lugar para ela em um mundo com redes sociais das mais diversas: para compartilhar fotos, o lugar onde se está, seu sucesso profissional, sem falar nas redes de relacionamento capazes de atender aos grupos sociais mais restritos.

O Secret surgiu aparentemente para ocupar essa lacuna. E é curioso ver como as pessoas criam verdadeiras conversas completamente anônimas em torno desses posts. Conversas com pessoas sem nome, sem rosto, sem sexo ou idade. Mesmo assim, elas estão ali.

Talvez os criadores desse pequeno app tenham mesmo descoberto um nicho ainda inexplorado nas redes sociais. Veremos se é apenas um hype ou se realmente as “sombras” encontraram o seu lugar ao sol.

Em time que está empatando, não se mexe?

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Foto: Manuel de Sousa/domínio público

O mercado de livros impressos no Brasil teve um crescimento inexpressivo em 2013, enquanto as receitas com e-books mais que triplicaram no mesmo período. Mesmo assim, as iniciativas digitais de editoras e livrarias continuam extremamente tímidas, para não dizer que há um boicote deliberado para tentar retardar o quanto puderem a migração para os meios digitais.

Os índices acima são da pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), encomendada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e pelo Snel (Sindicato Nacional de Editores de Livros), divulgada nesta terça (22). Segundo o estudo, o mercado de livros impressos cresceu 7,52% em 2013, com vendas de R$ 5,3 bilhões. Porém, se descontarmos a inflação do período (5,91%), o crescimento real foi de mísero 1,52%. O resultado, que já não é alentador, fica pior se descontarmos as gordas compras do governo, de R$ 1,4 bilhão. Nesse caso, o crescimento foi nulo. Já as receitas com e-books cresceram 225%, saltando para R$ 12,7 milhões.

Não é grande coisa: a participação dos livros digitais é de apenas 2,3% do negócio de livros brasileiro. Como comparação, o e-commerce já passa de 10% do faturado pelo comércio como um todo. E, comparando conteúdo com conteúdo, o mercado de música digital já supera metade do total faturado pela indústria fonográfica.

Essa participação tão pequena dos livros digitais se deve mais ao desinteresse das editoras que dos autores. Foram produzidos 30.683 títulos digitais em 2013, sendo 26.054 e-books e 4.629 app-books, livros digitais que são, na verdade, aplicativos e oferecem recursos mais avançados (exemplos: Frankie for Kids e The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore). Muitos desses títulos vêm de publicadores independentes ou pelo menos não ligados às grades casas editoriais. Isso ficou ainda mais fácil com os sistemas de autopublicação, como o iBooks Author e o Kindle Direct Publishing –que permitem que qualquer pessoa edite e publique sozinho seus e-books.

A reação das editoras vem sendo a pior possível. Ao invés de fomentar o mercado de livro digital, cujo custo de produção é muito mais baixo que o equivalente impresso, tentar cercear o seu crescimento, com iniciativas como amarrar em contrato que os e-books não sejam vendidos por menos que 70% dos equivalentes em papel. Dessa forma, desestimulam a migração para o novo formato. Impossível não comparar com o que ocorreu nos EUA, especialmente graças à Amazon, que vende livros digitais a valores muito mais baixos que os impressos. Dessa iniciativa, vieram dois resultados: as vendas dos títulos explodirem e as receitas dos livros digitais já superaram as dos impressos.

Mas a Amazon é varejo. Só conseguiu isso usando sua massiva força de venda para pressionar as editoras. Aqui no Brasil, entretanto, as livrarias têm um comportamento ainda pior que as editoras, capitaneadas pela ANL (Associação Nacional de Livrarias), que encara o livro digital como uma ameaça ao segmento. Não dá para esquecer a carta aberta que Ednilson Xavier, presidente da entidade, publicou em dezembro de 2012 com quatro propostas para proteger seus afiliados. Além do teto de 30% de desconto para as versões digitais dos livros, ele também propôs que esse desconto seja uniforme para todos os canais de venda, que, caso as editoras ou as distribuidoras vendam diretamente ao consumidor, esse desconto despenque para 5% e –pasmem– que livros sejam lançados na versão digital apenas depois de 120 dias da versão em papel.

Ednilson está, claro, fazendo o seu papel (sem trocadilhos). O livro digital ameaças as livrarias ainda mais que as editoras. Nos EUA, as livrarias digitais já vendem mais livros (incluindo os impressos) que as suas concorrentes “tradicionais”: US$ 7,54 bilhões contra US$ 7,12 bilhões.

Atitudes como as acima só demonstram o desespero de alguém incapaz de se adaptar a uma nova realidade em que pessoas compram e leem cada vez mais livros digitais em seus tablets, smartphones e e-readers, mesmo com preços artificialmente majorados. Para se manterem vivas, editoras e livrarias colocam o interesse do leitor em segundo plano.

Não estou sugerindo que caminhem graciosamente para seu fim sem fazer nada. Estou propondo que façam justamente algo, mas que seja construtivo. E isso significa uma mudança real de paradigmas. Aos que não se modernizarem, ainda lhes restará a venda de livros em papel, que continuarão existindo por muitos anos, principalmente em um país com uma grande deficiência de infraestrutura tecnológica como o nosso.

O que é inaceitável é manter a postura de “tapar o sol com a peneira”, “impedir a chegada do futuro” (que, por sinal, já é presente). Essa tática de não mexer em time que está empatando é coisa de técnico de futebol medíocre. Logo, logo, acabarão tomando uma goleada de 7 a 1.