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A “bolha de filtro” ajuda mais que atrapalha

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O vídeo acima descreve as ideias de Eli Pariser, ativista digital americano, que vê riscos no conceito que ele batizou de “bolha de filtro”. Resumidamente, ele critica algoritmos usados por sites como Google, Facebook e até alguns veículos de comunicação para exibir, a cada usuário, individualmente, conteúdos que estejam supostamente alinhados com coisas pelas quais demonstrou interesse no passado. Para Eli, isso é perigoso, pois as pessoas progressivamente deixariam de acessar conteúdo que lhes seria importante, apesar de “desalinhado com o seu perfil”.

No vídeo, ele usa uma infeliz declaração de Mark Zuckerberg que, com sua tradicional sutileza paquidérmica, sugere que “um esquilo morrendo na frente da sua casa pode ser mais relevante para seus interesses agora que as pessoas morrendo na África”. A partir dela, Pariser desfia a sua teoria.

Devo dizer que ela é muito boa e bem construída. Mais que isso: ela é completamente alinhada com um dos pilares do (bom) jornalismo, que é responsável não apenas pela informação do povo, mas pela sua formação, desempenhando um papel crítico para o desenvolvimento saudável de qualquer sociedade. Porém, tirando a insensibilidade demonstrada pelo fundador do Facebook com um dos maiores flagelos da humanidade, o que ele disse também é verdade: tanto que seria muito possível que algum familiar telefonasse para você para contar que um esquilo morreu em seu jardim, mas dificilmente faria o mesmo para dizer que pessoas estão morrendo na África.

Permita-me colocar mais alguns ingredientes nesse caldeirão que estou cozinhando. Um jornal publica dezenas, centenas de notícias em um único dia. Um grande portal faz isso na casa das milhares, por conta de seus parceiros. Como cantaria Caetano, “quem lê tanta notícia?” Ninguém, nem o editor-chefe, consegue consumir tanta informação. Como me disse certa vez minha colega Maria Ercília, “as pessoas ainda precisam de alguém que lhes diga o que ler”.

Tradicionalmente, esse papel tem sido dos editores, que funcionavam como uma janela para o mundo para seu público. Quanto melhor o editor, melhor essa janela. E quanto mais conhecido e homogêneo esse público, mais eficiente o resultado desse trabalho.

Mas o que acontece quando o público é potencialmente o mundo todo? Ou menos que isso, mas nem por isso pouca gente: a penetração de um portal como a MSN, que, de uma forma ou de outra, é acessado por quase todos os internautas? Daí o editor se vê diante de um trabalho que é virtualmente impossível de ser realizado com a mesma qualidade. E a teoria de Pariser vai pro brejo por um motivo muito simples: o melhor editor do mundo jamais “acertará” com todo o seu público. Ele sempre oferecerá algo que não é importante nem relevante para muitas pessoas, enquanto deixará de promover algo importante, relevante ou não, para o mesmo grupo.

Vamos pegar um exemplo real, a parte superior da home page do Estadão agora:

Home page do Estadão com marcações

Marquei algumas chamadas em amarelo:

  • “Santos perde do Atlético-GO por 2 a 0”
  • “As incríveis histórias por trás da fila do teste de DNA no Imesc de SP”
  • “UNIÃO FORMALIZADA”
  • “LIVROS DE FINANÇAS PESSOAIS”
  • “Maior festival de cerveja do mundo”
  • “TV Estadão: arte urbana ao vivo, no Masp”

E alguns em veremelho:

  • “Aposte já na turnê de João Gilberto”
  • “Aleksandr Rodchenko infantil”
  • “Pais e filhos do mundo da música”

O primeiro grupo são chamadas para conteúdos que me parecem pouco importantes ou pouco relevantes para mim; o segundo indica material que não me parece nem importante e nem relevante.

Entenda: não estou dizendo que o material em vermelho não tem valor. Muito pelo contrário! Tanto que foram selecionados pelo editor da home page. Mas eu poderia perfeitamente continuar vivendo sem saber disso. Melhor ainda: esse espaço nobre poderia estar promovendo coisas importantes ou que eu considero relevantes do próprio Estadão. Por exemplo, as recém-descobertas frases escritas por operários nas paredes do edifício do Congresso Nacional, quando o estavam construindo, o mais recente artigo de Raquel Landim, ou a negativa do Facebook de que estaria repassando contatos a terceiros. Nenhum desses ótimos conteúdos estava promovido na home do Estadão.

Portanto, muita calma antes de aplaudir Eli Pariser. A sua “bolha de filtro” pode ser tão importante para o desempenho do bom jornalismo, que arrisco dizer que o futuro dos veículos de comunicação depende do BOM uso dela, combinada com a edição humana. Existe verdade no que ele diz, mas ela deve ser apreciada com moderação. Ou talvez usando um bom filtro de relevância.

Feliz Aniversário, Web!

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O NeXTcube de Berners-Lee hoje está no museu do CERN - Foto: reprodução

Tim Berners-Lee usou esse NeXTcube como primeiro servidor de sua Web

A Word Wide Web acaba de completar 20 anos de idade! No dia 6 de agosto de 1991, o físico britânico Tim Berners-Lee publicava o que é considerada a primeira página da sua inestimável contribuição à humanidade: um texto sobre o próprio projeto, concebido com o objetivo de facilitar o compartilhamento de informações entre pesquisadores.

Sir Berners-Lee (ele foi sagrado cavaleiro britânico em 2004) modestamente não tinha a menor ideia do que seu invento se tornaria. Tanto é assim que, apesar de ser enormemente reconhecido por ele, nunca ficou milionário com a Web. Uma ironia e tanto para algo que individualmente criou a maior quantidade de milionários da história.

Tim Berners-Lee, o criador da Web - Foto: Uldis Bojārs

Tim Berners-Lee ganhou todo tipo de reconhecimento -foi até sagrado cavaleiro britânico- mas não ficou milionário com a Web, ao contrário de muitas outras pessoas que conseguiram isso graças a seu invento

Mas, afinal, quem se preocuparia com o dinheiro depois de ter mudado de maneira radical todo o planeta, não é mesmo? Na modesta opinião deste Macaco, poucos inventos se aproximam da envergadura da Web. Superando infinitamente o que previa Berners-Lee, a Web levou o conceito de compartilhamento de informação –qualquer informação– a níveis inimagináveis. Com a Web, as pessoas alteraram dramaticamente a maneira como se relacionam com ela e como se relacionam entre si. Por isso, a Web representa muito mais que o rádio, a televisão ou o telefone. Curiosamente, supera largamente a própria Internet, sobre a qual reside, mas que, antes da Web, não era muito mais que uma rede de computadores.

Nenhum quadrinho de Flash Gordon ou desenho dos Jetsons sugeriu a existência de algo como a Web. Muito de sua ficção científica está hoje em nossos bolsos, mas seus autores nunca pensaram em algo como ela. Talvez porque, apesar da fagulha criativa de Berners-Lee, todos nós somos responsáveis pela Web ter se tornado o que é em apenas vinte anos: a maior criação colaborativa da humanidade.

O casamento do bom jornalismo com as redes sociais

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Em seu mais recente artigo no Estadão, “Jornalismo, humildade e qualidade”, Carlos Alberto di Franco se vale de ideias do jornalista Rosental Calmon Alves, catedrático da Universidade do Texas em Austin (EUA), para construir uma interessante crítica sobre a atual maneira de se fazer jornalismo.

Rosental prega -corretamente- que as novas tecnologias e as redes sociais não deixam mais espaço para um jornalismo em que os leitores são passivos consumidores da informação. Hoje eles são atores no palco, que criam, discutem, produzem, divulgam e consomem a notícia. Di Franco parte desse ponto, conclamando os colegas a ouvirem seu público para criar um jornalismo que seja de fato construtivo e que vá ao encontro às necessidades informativas da população.

Nada mais correto e necessário. A imprensa vive uma crise de valores com raízes na década de 1990, quando atingiu o seu auge. No Brasil, foi um período em que colheu frutos de uma tardia profissionalização, que transformou os veículos em máquinas azeitadas que sustentaram a nossa democracia recém-reconquistada. Porém o ópio de ser o “quarto poder” levou muitos jornalistas e empresas de comunicação a esquecerem a essência de nosso ofício e para quem, de fato, trabalham.

Deitados em berço esplêndido, não perceberam uma revolução social e tecnológica que se formava à sua volta -muitas vezes dentro das próprias Redações- onde o cidadão comum ganhava um poder nunca antes saboreado: falar e ser ouvido. Mais de cinco séculos depois de Gutenberg e sua prensa móvel terem viabilizado a disseminação de conteúdo para a multidão, a Internet permitiu que a própria multidão se fizesse ouvir, indivíduo por indivíduo.

Resultado: os grandes veículos perderam a capacidade de encantar seu público. Muitos passam por crises de credibilidade, o valor mais caro da imprensa. Sem o apoio popular -cada vez mais as pessoas se fiam em seus amigos ou mesmo na massa anônima para se informar- as empresas entram em crise. Na Europa e principalmente nos EUA, assistimos à quebradeira de jornais centenários.

Di Franco dá um dos caminhos para a imprensa sair desse buraco: humildade para atender e ouvir o leitor e qualidade no trabalho jornalístico. Eu me permito acrescentar a isso que as empresas precisam usar a Internet de maneira construtiva, justamente na sua capacidade essencial de cada indivíduo participar da criação da experiência informativa de todos os demais.

Jornalistas precisam aprender a usar isso não apenas para se pautar, mas também para entregar a cada pessoa em particular a informação que ela precisa. Nenhuma pessoa ou empresa é capaz de fazer isso sozinha, mas a combinação do que cada um é com o que faz e com quem se relaciona pode desatar esse nó górdio de uma época em que “meios de comunicação de massa” se transformaram em “meios de comunicação de um”.

Que fique bem claro: não estou advogando o fim do jornalismo profissional, apesar de reconhecer muitos méritos do “jornalismo cidadão”. Como disse acima, o bom jornalismo é ingrediente fundamental para uma sociedade evoluída e robusta. Mas prego o fim do jornalismo rasteiro, palaciano, meramente denuncista, fácil. Para isso, os bons editores e repórteres são essenciais. São eles que fazem a diferença na imprensa! Quanto à distribuição eficiente do resultado de seu trabalho, os próprios internautas podem cuidar disso.

Bem-vindos ao novo jornalismo!

A “letra de mão” deve ser abandonada?

By | Educação | One Comment
Nos EUA, 40 Estados devem parar o ensino das "letras de mão" a seus alunos

Nos EUA, 40 Estados devem parar o ensino das "letras de mão" a seus alunos

Comecei a escrever cedo: aos quatro anos. Isso só foi possível por interesse meu e disposição dos meus pais, que respondiam pacientemente cada uma das minhas infindáveis perguntas sobre o som resultante da combinação de duas letras quaisquer. A ferramenta que viabilizou isso foi um conjunto de letrinhas plásticas multicoloridas, relativamente comuns na época. Elas tinham uma característica crítica para essa construção do conhecimento: eram todas maiúsculas “de forma”, que facilitam a compreensão das correspondências entre fonemas e grafemas.

Se, por um lado, isso antecipou minha alfabetização, por outro me causou um problema quando cheguei no antigo primário, quando a professora exigia que eu escrevesse em letra cursiva, as chamadas “letras de mão”. O resultado foi uma letra feia, que só fazia piorar com as malfadadas aulas de caligrafia. Minha letra só melhorou quando cheguei à faculdade, e me foi dada a “graça” de poder escrever com letras bastão –as tais “de forma”.

Me permiti esse pequeno relato pois me lembrei do meu caso quando li reportagem que informa que os EUA estão prestes a abandonar o ensino da letra cursiva às crianças (leia as três retrancas no Estadão aqui, aqui e aqui). Resumidamente, conselhos de educação de 40 dos 50 Estados norte-americanos consideram a “letra de mão” ultrapassada e desnecessária, já que os alunos cada vez mais escrevem apenas em teclados. E estão dispostos a pagar o preço de formar pessoas incapazes de ler documentos históricos, por exemplo.

Interessante observar que o argumento é menos pedagógico e mais utilitário. Aliás, o utilitarismo é típico da educação dos EUA. Observando nossa realidade, o que temos hoje em nossas escolas, impulsionada pelo Construtivismo, é a alfabetização com letras bastão, partindo para a letra cursiva lá pelo terceiro ano do Ensino Fundamental, quando a coordenação motora está mais refinada e o processo de alfabetização está praticamente concluído.

Juntando essas duas linhas com a minha experiência pessoal, não posso defender a proposta norte-americana. As crianças devem saber interpretar um texto escrito com “letra de mão”, mesmo que sejam textos antigos. Além do mais, a escrita cursiva nunca desaparecerá totalmente, nem que seja em convites ou documentos solenes. Porém, uma vez que já a tenham dominado, deve lhes ser dado o direito de escolher a forma preferida de escrever suas palavras. E sem ter que esperar até a faculdade para isso.

O Google+ superará o Facebook?

By | Tecnologia | No Comments
A nova rede social do Google traz inovações interessantes, mas ainda precisa preencher lacunas antes de ameaçar o Facebook

A nova rede social do Google traz inovações interessantes, mas ainda precisa preencher lacunas antes de ameaçar o Facebook

Você já aderiu ao Google+? Quando ouvi falar da nova rede social do gigante de buscas pensei: “mais uma…” Pois bem: ela ainda não completou seu primeiro mês no ar e nem foi lançada oficialmente -o que está previsto para o dia 31 de julho- mais de 10 milhões de pessoas, inclusive eu, já aderiram a ela.

As comparações com o Facebook aparecem em toda parte e a mais comum é afirmar que a rede de Mark Zuckerberg demorou cerca de dois anos para atingir a mesma marca. Mas elas não são justas, pois o Facebook surgiu a partir de um conceito de exclusivismo elitista, em contraste com o de completa abertura inicial do Google+. Além disso, esse último foi para o ar empurrado pela gigantesca expectativa em torno de um produto dessa natureza na família do Google, enquanto o Facebook nasceu das mentes de um bando de estudantes então desconhecidos.

A pergunta que realmente merece ser feita é: o Google+ superará o Facebook? Por enquanto, a carteira de 10 milhões de usuários do Google+ está longe de ameaçar a de 750 milhões do rival. Pesa contra o Google também um Orkut, que fez sucesso apenas no Brasil e uns poucos países sem muita expressão, e dois fracassos em produtos da mesma natureza: o Google Wave e o Google Buzz.

Mas a turma de Larry Page parece ter aprendido com os seus erros: o Google+ tem recebido muitos elogios da imprensa especializada e de seus entusiasmados primeiros usuários. Soube aproveitar o melhor dos concorrentes: como li por aí, “se o Facebook e o Twitter tivessem um filhote, ele seria o Google+”.

Apesar de boas idéias e uma construção esmerada, a nova rede ainda tem, entretanto, muito pouco a oferecer. O Google está se apressando em integrar todo o seu portfólio ao novo produto: já fez isso muito bem com o Google Talk e com o Picassa (agora Google Photos), além do próprio buscador; na sequência, virão o Blogger (rebatizado de Google Posts) e o Google Docs.

Mas mesmo quando todos os produtos estiverem bem costurados, o problema do Google+ é que ele será “apenas” uma rede social bem concebida e com recursos interessantes. E isso está longe de ser suficiente para ameaçar o Facebook. Isso só acontecerá quando o Google fizer o mesmo que seu concorrente, que se transformou em uma plataforma de desenvolvimento de aplicativos de toda natureza. Desde os aclamados jogos sociais da Zynga, como FarmVille ou CityVille, até inofensivos aplicativos, o Facebook ofereceu a uma legião de milhares de desenvolvedores a possibilidade de terem acesso a informações de seus 750 milhões usuários, que graciosamente as oferecem em troca de funcionalidades que tornam a sua experiência online mais divertida e poderosa. Isso sem falar nos recursos de integração do Facebook aos sites de qualquer pessoa, tornando-os mais funcionais.

Não há nenhuma dúvida que esses são os grandes responsáveis pelo sucesso do Facebook, o que dá mais sabor e cor à rede de Zuckerberg. Sem eles, seria apenas mais uma rede social das “antigas”, como o decadente MySpace ou o finado Friendster. Se o Google+ não seguir essa linha, não superará  o Facebook, ficando restrito a um “nicho” de alguns milhões de usuários.

A joia grega da coroa de Armstrong

By | Jornalismo | 2 Comments
Muitos colaboradores do The Huffington Post querem uma parte dos US$ 315 milhões que a AOL pagará pelo site criado por Arianna Huffington, mas será que eles têm direito de pedir isso?

Muitos colaboradores do The Huffington Post querem uma parte dos US$ 315 milhões que a AOL pagará pelo site criado por Arianna Huffington, mas será que eles têm direito de pedir isso?

Na segunda-feira, a AOL anunciou a compra do The Huffington Post por UR$ 315 milhões, sua maior aquisição desde que se separou da Time Warner, em dezembro de 2009. Representa também o maior movimento para a consolidação de um modelo de negócios que o CEO da AOL, Tim Armstrong, vem implantando desde que assumiu a companhia em março de 2009: sua transformação de uma empresa de tecnologia em uma de mídia.

Para quem não conhece, The Huffington Post é um site noticioso com cerca de 25 milhões de visitantes, e o único veículo online entre os dez maiores que não possui uma grande companhia de mídia por trás. Mas o que o torna realmente único é o seu modelo de produção: ele é mantido por um pequeno grupo de jornalistas e mais de 6.000 contribuintes não-remunerados das mais diferentes áreas, desde completos anônimos até celebridades, como o presidente americano Barack Obama, sua secretária de Estado, Hillary Clinton, e Madonna.

Essa turma contribui com o HuffPost por diferentes motivos, mas principalmente pela fama (para os anônimos, já que não há fortuna). Curiosamente, com o anúncio dessa segunda-feira, muitos deles criaram um coro de descontentamento, reclamando alguma participação nesse bolo. Li até mesmo um artigo revoltado (não por dinheiro) no TechCrunch, um dos melhores sites de notícias de tecnologia, também comprado pela AOL recentemente. Em tempo: Arianna Huffington, criadora do site, deve embolsar US$ 100 milhões em cash, além de ser nomeada editora-chefe do conteúdo de todos os sites sob o guarda-chuva da AOL.

Tudo isso levanta uma questão interessante: qual o lugar hoje do jornalismo profissional? Essa questão não é nova: já existe há uma década e ganhou força com a explosão da blogosfera, quando qualquer um passou a poder publicar, de maneira fácil e barata, o que pensava. Não tardou para surgirem uma infinidade de blogs jornalísticos, alguns muito bons, feitos por pessoas em suas horas vagas, jornalistas ou não. O próprio HuffPost é um filhote disso lançado em 2005.

Para mim, essa cisma para pegar um naco dos milhões investidos por Armstrong não é legítima. Apesar de o HuffPost só ter se tornado lucrativo no ano passado, Arianna já fatura com seu site faz tempo, seja dinheiro, seja prestígio. Além disso, se alguém dá de graça seu trabalho ou produto, tem um tarefa muito difícil para cobrar por ele depois. Esse formato de relacionamento profissional não-remunerado tem a ver com o jornalismo cidadão, que muitos acreditam indicar o futuro (ou parte dele) do jornalismo.

Portanto, deixem Arianna em paz.

Salvação de um negócio multimilionário moribundo?

Chutar a AOL sempre foi um esporte muito praticado por intelectuais da mídia e de TI. Se já era assim há 15 anos, quando a empresa detinha um domínio no mundo online aparentemente inalcançável, que dizer de uns anos para cá, quando ela assumiu ares de cachorro morto?

A despeito das críticas, a empresa chegou a ter mais de 30 milhões de assinantes pagantes. Entretanto, uma série de decisões estratégicas desastrosas –e a maior delas foi a fusão com a Time Warner em janeiro de 2001– transformou a companhia em uma sombra do que já foi.

Armstrong quer mudar isso. Apesar de sua situação atual, a AOL (e a soma de todos os seus sites) ainda é uma das cinco maiores destinos da Internet nos EUA. A entrada do The Huffington Post (e, em menor escala, até do já citado TechCrunch) nesse bolo pode dar à empresa um verniz e até mesmo certa legitimidade de que precisa. Do lado do HuffPost, Arianna pode ver seus visitantes saltarem de 25 milhões por mês para mais de 100 milhões.

Considero essa aquisição interessante para os dois lados. Não creio que a AOL vá enterrar o HuffPost, como alguns acreditam. Apenas não sei se o segundo será suficiente para a primeira voltar aos tempos de glória de outrora.

A aposta de Murdoch no iPad

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Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Nos últimos dias, a mídia especializada deu grande destaque ao novo veículo que Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal, está criando. Batizado de The Daily, o periódico deve ser lançado no início de 2011, será tocado por uma redação de cem jornalistas, alguns deles grandes nomes do mercado americano, e começa com uma injeção inicial de US$ 30 milhões.

Até aí, no big deal. O que torna The Daily realmente único é o fato de que ele será publicado apenas no iPad. Nada de versão na Web e muito menos em papel. Murdoch, um sujeito que, se pudesse, acabaria com a Internet só porque ela atrapalha o que ele realmente gosta de fazer, que são os jornais, e que vem buscando há meses (anos?) um modelo de negócios substituto para o papel, parece tê-lo encontrado no incensado tablet da Apple.

The Daily pode dar certo. Primeiramente porque o mogul australiano da mídia conta com o apoio do próprio Steve Jobs, CEO da Apple, para criar um produto que realmente tire proveito dos encantadores recursos do iPad, fugindo da mesmice, das limitações e da sem-gracisse dos produtos editoriais lançados até agora para o tablet (nota do editor: Jobs publicamente detesta o aplicativo para iPad do The New York Times, arquirrival do The Wall Street Journal).

Além disso, usuários do iPad adoram consumir aplicativos que tornem a sua experiência com o tablet melhor. E, nesse ponto, os US$ 0,99 que o veículo cobrará por semana são uma pechincha. Como conseguiram a mágica de cobrar tão pouco? Bom, como expliquei no meu post anterior, 80% dos custos de produção de um jornal são “desperdiçados” em coisas como papel, impressão, distribuição, infra-estrutura monumental… Apenas 20% são investidos naquilo que as pessoas realmente consomem, ou seja, conteúdo editorial. Criando um veículo que roda apenas no iPad, Murdoch elimina a maior parte desses custos “extras”.

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

A expectativa da News Corp. é chegar a 500 mil assinantes do The Daily em cinco anos. Se isso acontecer, isso passa de US$ 25 milhões em receitas de assinaturas anuais. Ok, um terço deve ficar com a Apple, mas, somadas às receitas de publicidade, The Daily deve ser financeiramente saudável. Se a Apple ainda trouxer o aplicativo pré-instalado no iPad, a quantidade de usuário pode ser ainda maior (tai a Microsoft que não me deixa mentir quando o assunto é pré-instalar programas no sistema operacional para ganhar mercado).

Mas nem tudo são flores no novo rebento de Murdoch. Se, por um lado, o modelo de negócios parece consistente, não posso dizer o mesmo do produto em si. Especialmente porque se trata de um jeito novo de se entregar notícia velha. Apesar de não ser impresso em árvores mortas, The Daily insiste no velho modelo do jornal diário de abrangência nacional: você baixa a edição de hoje, que traz notícias de ontem. As atualizações só virão amanhã… e com notícias de hoje. Nada de noticiário atualizado ao longo do dia. E muito menos pense em um noticiário personalizado, outra demanda que está explodindo entre os internautas.

Além disso, ele não oferecerá link para nada na Internet: todo o conteúdo será fechado nele mesmo. E, claro, ninguém dará link para ele, já que se trata de um aplicativo, e não de um site. De novo, The Daily fica mais parecido a um impresso e menos digital.

Por fim, The Daily pode enfrentar concorrência no próprio iPad de sites com conteúdo de qualidade e grátis, assim como os jornais de Murdoch enfrentam há anos na Web. Já se observam sites que começam a oferecer na Web produtos criados especificamente para iPhone e iPad, o que implica inclusive em alternativas ao uso do Flash, que os irritantes da Apple baniram de seu ecossitema. E aí, The Daily ficará ainda mais com cara de um jornal lento e pesadão.

Moral da história: por mais bem feito que a turma da Apple consiga criar o The Daily, eu diria que as suas chances residem muito mais em seu modelo comercial que editorial, que não me convence. É uma tremenda aposta de Murdoch, um dos maiores representantes de uma indústria que, especialmente nos EUA, agoniza. Mas eu sinto cheiro de naftalina: Naftalina for iPad.

O real custo de produção do jornalismo

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O The New York Times e sua versão para o Kindle - Foto: divulgação

O The New York Times e sua versão para o Kindle

Depois do meu último post, sobre o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, várias pessoas vieram conversar comigo sobre isso, e se a Internet pode ser mesmo a salvação para veículos que não conseguem mais se manter em suas mídias de origem.

Para essa inquietação, a minha resposta é: depende. Como demonstrei no referido post, essa migração jamais salvará um veículo mal administrado, como é o caso do Jornal do Brasil. Ele morreu no papel e, salvo aconteça alguma improvável mudança empresarial, a morte também na Web é apenas uma questão de (pouco) tempo. Mas a passagem de uma mídia que já não atende aos interesses econômicos do veículo para os meios digitais é -sim- algo a ser considerado.

Afinal, quanto custa produzir o jornalismo, o “conteúdo” de um veículo? Vou me concentrar na grande mídia impressa, apenas para ficar no exemplo do JB (se bem que diria que ele já deixou de ser “grande” mídia há muitos anos). Fiz a minha lição de casa e constatei uma coisa muito interessante: se considerarmos todos os custos de um grande jornal (e isso inclui os associados à impressão e distribuição), a parcela referente ao jornalismo (considerando salários, infraestrutura para apuração, viagens, prêmios e qualquer tipo de despesa ordinária) gira em torno de apenas 20%. Ou seja, de tudo que custa um jornal, 80% não se refere ao jornalismo.

Oras, qual é o produto do jornalismo? Pelo que as pessoas pagam? Por mais que o grande furo noticioso de hoje esteja forrando a gaiola do passarinho amanhã, as pessoas compram informação, e não papel impresso.

Quando as prensas primitivas começaram a soltar os primeiros exemplares do que se pode chamar de um jornal “moderno”, o papel era fundamental para a disseminação da notícia, simplesmente porque não havia outra maneira de se fazer isso (pelo menos não tão eficientemente). As revistas surgiram depois como uma alternativa de melhor qualidade gráfica, mas faziam essencialmente o mesmo. O problema é que, depois de alguns séculos fazendo isso, o papel e a notícia passaram a ser vistos como uma entidade homogênea e indissolúvel, o que não é verdade. Papel e tinta são apenas veículos do verdadeiro jornalismo.

No ano passado, publiquei um post sobre estudo feito por Nicholas Carlson, do The Business Insider. Basicamente o que ele fez foi calcular quanto custa ao The New York Times, em um ano, imprimir os exemplares enviados a cada um de seus assinantes. Dividiu essa cifra pela quantidade de assinantes e descobriu que isso é mais que o dobro do preço de um Kindle, o popular e-reader da Amazon, que, a propósito, oferece a assinatura digital do mesmo jornal a um custo bastante competitivo se comparado à versão impressa. O autor sugeriu então que o jornal presenteasse cada um de seus assinantes com um Kindle e economizasse, assim, muito dinheiro.

Claro que as coisas não são tão simples assim (e Carlson sabe disso): nem todos os anunciantes do jornal, quem paga a maior parte dos custos do negócios, são tão simpáticos a uma ideia dessas. Mas é um fato matemático que um jornal digital pode ser produzido a um custo muitíssimo menor que um impresso, sem prejuízo algum de seu jornalismo.

Não se trata, portanto, daquela conversinha fiada que o JB publicou em seu site de estar abandonando a versão impressa por se preocupar com as árvores. Eles não estão nem aí para o verde, exceto o do dólar, que eles não têm mais. Trata-se, isso sim, de uma alternativa viável para os grandes títulos continuarem no negócio, produzindo jornalismo de qualidade, algo que eles tanto prezam e que a sociedade muito necessita.

Há algo a se aprender com o fim do JB impresso?

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Primeira página da última edição do JB - Imagem: reprodução

Primeira página da última edição do JB

Neste 1º de setembro, o Jornal do Brasil circulou apenas na Internet, abandonando para sempre sua versão impressa de 119 anos. O diário carioca, que já chegou a tirar 230 mil exemplares aos domingos, não resistiu à pressão de um mundo com um volume incrível de informação de qualidade, gratuita e ao alcance de qualquer internauta. Mas se engana quem acha que foi a Grande Rede que matou o JB.

O jornal cavou a sua sepultura sozinho e agora se prepara para deitar nela. Não há mais espaço para incompetentes ou aventureiros na mídia globalizada e democratizada, e esse tipo de gente habita a administração do jornal há muitos anos. A crise brotou ainda nos anos 1990 e se agravou em 2001, quando a Docasnet, do empresário Nelson Tanure, assumiu a administração do JB. Com receitas publicitárias mais e mais minguadas para os jornais e cada vez mais títulos disponíveis para dividir os tostões, o Jornal do Brasil caiu.

Claro que a Internet tem um papel determinante neste cenário crítico, que atinge a mídia impressa em todo mundo. Afinal, ela ofereceu ao (antes) leitor, (agora) internauta uma alternativa mais vantajosa e eficiente de se informar. Com isso, as pessoas passaram a consumir menos todas as outras mídias.

O tombo do impresso -que paradoxalmente tem mais leitores que nunca- só não foi mais dramático graças aos crescentes títulos gratuitos (como Metro e Destak). Mas perdem os jornalões para esses últimos, que roubam dos grandões leitores e uma importante fatia da publicidade, o que de fato sempre manteve essas publicações.

Diante da inevitabilidade dos fatos, o JB abraçou justamente a Internet como tábua de salvação. E o resultado foi ridículo! O site do periódico já era muito fraquinho e não melhorou agora. Não bastasse isso, ainda tenta pateticamente travestir esse gesto desesperado como uma iniciativa moderna, sustentável, alinhada com as tendências internacionais e os interesses de seus leitores. Como cereja desse bolo, o JB online ainda tem a cara de pau de convocar seus internautas a colaborarem enviando reportagens, fotos, charges e até vídeos. Tudo de graça, claro, em nome da “cidadania”. E ainda espera que alguém pague R$ 9,90 por mês por uma assinatura do site.

Ah! Outra coisa que se pode aprender com o fim do JB impresso: quando quiser fechar um jornal, chame a turma do Tanure. Afinal, o JB não foi sua primeira vítima: há exatos 15 meses, o mesmo empresário matou a Gazeta Mercantil, outrora referência do jornalismo econômico brasileiro, falecida depois de 89 anos de bons trabalhos. E aquela ali nem teve a chance de manter uma versão online.

O “computador de US$ 100” virou o “tablet de US$ 75”

By | Educação, Tecnologia | One Comment
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A fundação One Laptop Per Child (OLPC) anunciou, no ultimo dia 27, que está substituindo a sua ideia de produzir notebooks educacionais a US$ 100 para crianças de países em desenvolvimento por outra, com um novo equipamento, um tablet nos moldes do iPad.

Batizado de XO 3 (por ser a terceira versão), a nova maquininha será produzida pela Marvell Technology Group a US$ 99, mirando uma meta de US$ 75 quando (e se) o ganho de escala de seu produto Moby, de onde o XO 3 será derivado, permitir isso. O objetivo seria chegar a isso para a próxima Consumer Electronics Show, que acontece em janeiro, mas a diferença entre o que o Moby é e o que o XO 3 promete ser sugere que isso não deve acontecer mesmo antes de 2012: Nicholas Negroponte, o idealizador da iniciativa e diretor do Media Lab, do MIT, quer que o XO 3 seja à prova d’água, todo em plástico resistente, mais fino que o iPad e tenha um processador de 8 GHz (o Moby roda a 1 GHz).

Mas a grande pergunta é: o preço de US$ 75 se tornará realidade algum dia, pelo menos dentro dos próximos anos? Pois, desde que foi proposto, ainda em 2005, o aclamado “computador de US$ 100” não passou de um slogan: a organização nunca conseguiu trazer o preço para abaixo dos US$ 200, mesmo tendo entregue mais de 2 milhões de máquinas pelo mundo.

A descrença do parágrafo anterior se deve à recorrente incapacidade de cumprir a maior de todas as promessas do projeto, sua grande bandeira: colocar um notebook educacional de US$ 100 nas mãos de todos os estudantes do mundo. É uma pena, pois, como defensor dos benefícios do uso da tecnologia na educação, torço para tudo que a OLPC proponha dê certo.

O próprio equipamento, mesmo a sua primeira versão, é excelente. Para este que lhes escreve, seu único problema é o sistema operacional Sugar, um “sabor” de Linux que traz uma interface que não se parece com nenhum outro sistema, seja Windows, MacOS ou mesmo outras distribuições do Linux. Para um equipamento de inclusão e educação digital, isso me parece contraditório. Mas aparentmente eles ouviram meus apelos: o XO 3 poderá rodar os sitemas Android, Windows Mobile e Ubuntu, além do Sugar.

Na semana passada, participei do II Web Currículo, seminário na PUC-SP que discutiu o uso de tecnologias na educação. O XO foi mencionado em vários momentos, inclusive na última palestra, de Paulo Markum, que teceu críticas à proposta. Para o jornalista, a intenção do Governo Federal de comprar 50 milhões de notebooks educacionais (outra promessa jamais realizada, nem de longe) investiria uma enorme soma de recursos públicos em equipamentos que, em pouco tempo, estariam obsoletos. Para ele, seria muito mais interessante usar esse dinheiro para financiar iniciativas privadas, em escolas e até mesmo lan houses, que garantiriam a atualização do parque.

Curiosamente, o grande benefício da iniciativa da OLPC foi jogar os holofotes sobre a questão de tecnologia na educação e a possibilidade de se obter grande ganhos pedagógicos com isso, e como isso pode ser maximizado com alunos usando, cada um, um computador. Um outro grande benefício foi propor ao mercado um novo modelo de equipamento com características específicas a baixo custo, que inspirou o segmento dos netbooks, um grande sucesso de mercado (não educacional). Talvez faça o mesmo agora com os tablets, derrubando os seus preços. Se isso acontecer, é possível que vejamos equipamentos comerciais chegando em maior quantidade às escolas. A tarefa estaria cumprida.

Jobs agora estende sua mão para a imprensa… no iPad

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Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise - Foto: reprodução

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise

Há pouco mais de um ano, Jeff Bezos, CEO da Amazon, sugeriu publicamente que seu e-reader, o Kindle, poderia ajudar a imprensa (especialmente a impressa) a sair de sua enorme crise. Afinal, ele permite que as grandes casas editoriais entreguem seus produtos a custos muito mais baixos, dispensando a impressão e a distribuição. Tanto que convenceu grandes títulos americanos a abraçar sua causa, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Claro, nem todo mundo concordou: Rupert Murdoch, dono da News Corporation, torceu o nariz e chegou a dizer que “não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”.

Ontem foi a vez de Steve Jobs engrossar o coro de Bezos. Ou quase: na verdade, ele sugeriu que isso pode acontecer no seu tablet, o iPad. Em entrevista realizada no evento D: All Things Digital, promovido anualmente pelo The Wall Street Journal, o CEO da Apple repetiu a “receita de bolo”: “estou tentando fazer esses colegas adotarem posturas mais agressivas que o que eles cobram tradicionalmente pelo impresso, porque eles não têm os custos de impressão, eles não têm os custos de entrega, cobrando um preço razoável e ganhando no volume.”

Sou muito mais as visões de Bezos e de Jobs que a de Murdoch. Não apenas pela proposta de novo modelo de negócios que os dois primeiros sugerem, combinado à comodidade de os equipamentos fazerem o download automático dos periódicos para seus assinantes. Mas o que mais me atrai –e aí especialmente no iPad– são as possibilidades de se criar um veículo de comunicação realmente inovador, seguindo o que discuti no post anterior.

Algo que se aproximou bastante da minha visão foi um conceito apresentado pela revista Sports Illustrated em dezembro no ano passado, reproduzida no vídeo abaixo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ntyXvLnxyXk]

Claro que nem tudo que vemos em um conceito se materializa, pelo menos não logo de cara. Mas o protótipo apresentado pela revista no mês passado, já era bastante interessante, inclusive trazendo alguns recursos de compartilhamento não visto no primeiro conceito apresentado:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=U3j7mM_JBNw]

Em um momento em que o “jornal do futuro” não consegue ir além de infames golpes publicitários dos jornalões, chega a ser revigorante ver iniciativas com as da Sports Illustrated. O papel ainda vai nos acompanhar por muito tempo, mas o uso criativo de equipamentos como o iPad abre a possibilidade de criar uma categoria completamente nova –e muito mais rica– de veículo de comunicação, algo pelo qual as pessoas voltariam a achar razoável pagar. O que não dá é continuar querendo ganhar isso no grito.

Então como deve ser o jornal do futuro?

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No meu último post, comentei a minha decepção diante do “jornal do futuro” que a Folha de S.Paulo tanto propagandeou e finalmente lançou no dia 23 de maio. Depois da grande campanha de marketing, anunciando uma nova forma de se ler jornal, inclusive fazendo referência a downloads e ao iPad, esperei que a Folha pudesse, afinal, criar algo inovador, pelo menos no caminho do que realmente deveria ser um “jornal do futuro”, ainda que não tivesse chegado lá. Mas realmente a coisa não passava de um simples golpe publicitário, como já expliquei.

O post teve boa repercussão e várias pessoas vieram falar comigo sobre o que, afinal, deveria ser um “jornal do futuro” (insisto nas aspas). Para mim, algumas características seriam essenciais:

  • noticiário personalizado a partir da reorganização do material segundo critérios de relevância do usuário (e não apenas “leitor”), explicitamente informados com antecedência ou coletado a partir da navegação e das relações desse usuário com outros conteúdos e outras pessoas;
  • conteúdo realmente multimídia e interativo (concebido assim desde a pauta);
  • experiência informativa expandida com recursos de toda a Web, e não apenas com produtos da publicação ou de produtos da mesma empresa;
  • possibilidade de participação efetiva do usuário, muito além dos comentários observados hoje em alguns sites;
  • fim do “conteúdo fechado a assinantes”, adotando novos modelos de negócios que privilegiem usuários pagantes sem penalizar os não-pagantes;
  • produção de um produto jornalístico que transcenda diferentes mídias, tirando proveito do que cada uma tem de melhor, a despeito da mera transposição de conteúdo da “mídia de origem” (basicamente impresso ou TV) para a Web, como se vê majoritariamente hoje.

Hoje troquei rapidamente algumas palavras com Beth Saad (@bethsaad), a partir de um twit seu que justamente levantava a discussão da leitura de notícias no iPad, dando link para um texto que fazia referências ao uso de applications para uma experiência mais rica nisso. Interessante que, há algumas semanas, venho debatendo isso com Everson Siqueira (@eversonsiqueira) o uso dos mesmos apps para criar produtos editoriais mais ricos para essas novas plataformas, além de simples e-books. Um exemplo interessante é o Alice for iPad.

Algo que não vi ainda ninguém fazendo para valer é alterar os seus meios de produção para separar o conteúdo da forma, a exemplo que os desenvolvedores da Web já vêm fazendo há alguns anos, com a popularização do uso de CSS. Basicamente a ideia é produzir o conteúdo apenas uma vez, publicando-o sem qualquer espécie de formatação e enriquecimentos, que seriam acrescentados dinamicamente no momento da “saída”, seja no papel, seja na Web, seja em um smartphone, seja em um e-reader, seja no que mais aparecer por aí. Dessa forma, o conceito de transposição de mídias dá lugar a um “write once, run many” (sim, emprestei o slogan do Java, que ilustra bem o conceito).

Tenho ventilado aqui e ali a ideia. Admito que é bastante ousada. Mas, combinada aos itens acima, pode finalmente produzir o jornal do futuro (agora sem as aspas).

O futuro do jornal do futuro

By | Jornalismo | 5 Comments
A primeira página da primeira edição do "Jornal do Futuro"

A primeira página da primeira edição do "Jornal do Futuro"

Ontem, domingo, eu fiz duas coisas que não fazia há muito tempo: li a Folha de S.Paulo em papel, e ainda por cima paguei por isso! Fui até a minha banca preferida e comprei o diário, que me surpreendeu logo de cara, pois era uma edição que não tinha primeira página. Quer dizer, ela estava, na verdade, quatro páginas depois da publicidade associada ao “jornal do futuro”, que estreou nesse domingo, e que me motivou a comprar o diário.

Tinha que ver de perto o que era esse tal de jornal do futuro, sobre o qual vinha sendo bombardeado por publicidade em várias mídias há dias. Tinha que analisar isso com isenção. E tenho que admitir que guardava uma esperança de que a Folha, onde minha vida como jornalista começou, realmente tivesse conseguido criar algo inovador, um verdadeiro jornal do futuro, algo que nenhuma grande casa editorial ainda conseguiu fazer convincentemente no mundo.

Li o editorial, o ombudsman e uma pequena retranca no primeiro caderno sobre o assunto. Li o caderno especial detalhando a novidade. Assisti ao making-off de 18 minutos (muito bem produzido, por sinal, mas que não possui um link externo como os do YouTube: DUH!). Naveguei pela Folha.com (novo nome da Folha Online). Vim, vi, mas não venci… Minha esperança virou desilusão. O jornal do futuro não passava de um miserável golpe de marketing, que me fez comprar o jornalão de domingo.

Justiça seja feita: duas importante mudanças aconteceram. A primeira: consolidou-se a integração entre as redações “online” e “impressa”, algo que não dava para acreditar que ainda não tinha sido feito, em nome da qualidade, agilidade e economia. Todo veículo jornalístico deveria integrar todas as equipes de suas diferentes mídias (um viva à BBC!). A segunda mudança é a reforma –mais gráfica que editorial– que literalmente salta aos olhos. Não se pode negar que, nesse quesito, o trabalho foi bem feito, conduzido por um pessoal muito bom.

Mas continuei procurando o tal jornal do futuro. E a última coisa que li foi o artigo de Otávio Frias Filho, que abre a última página do caderno que explica as mudanças. E fiquei bastante triste ao constatar que o que existe, por trás de todo esse verniz, é uma mentalidade de jornal do passado.

No meio de várias afirmações corretas, o diretor da Folha reforça as paliçadas em torno de seu castelo. Rejeita as virtudes do jornalismo cidadão, classificando-o com termos como “qualidade discutível”, “pirataria”, “de alcance limitado” ou “eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconseqüência”. Mais que isso, fez coro na banda de Rupert Murdoch, cantando seu refrão de que bom jornalismo só pode ser feito depois de muito investimento. Em nenhum momento, discutiu mudanças no seu modelo de negócios ou modelo editorial.

Onde está o jornal do futuro nessas palavras? Não sou um defensor cego da blogosfera: tenho consciência que se encontra nela muito mais coisas ruins que boas, mas existem coisas MUITO boas ali, jornalismo de altíssima qualidade produzido a um custo irrisório. Por outro lado, estou cansado de ver a grande imprensa, portanto os eleitos para produzir jornalismo de qualidade segundo a tese de Otávio, dando contínuas demonstrações de antijornalismo, como a capa da Veja desta semana (de novo!).

Na sexta passada, conversava com o ex-country manager local de um dos maiores fabricantes de computadores do mundo sobre o início do jornalismo na Internet. Contei-lhe de como foi tão difícil colocar a mesma Folha na Web lá em 1995, ao que ele me respondeu: “mas você deveria ter conversado com o Luís (Frias), que rapidamente entenderia a sua proposta.” E reproduziu algo que o mesmo Luís lhe disse na época, uma máxima do jornalismo impresso que insistem em transpor para a Internet: “as pessoas ainda querem que alguém lhes diga o que devem ler”.

È verdade, a mais absoluta verdade. A “desgraça”, para nós jornalistas, é que, já há alguns anos, não detemos mais a exclusividade desta função. Cada vez (muito) mais, quem determina o que nós “devemos” ler são os nosso amigos, as pessoas em quem confiamos. Ganha relevância no nosso dia a dia o que essas pessoas, em quem confiamos, consideram relevante, em um efeito cascata interminável. E o Google e o Facebook estão aí para não me deixar mentir.

Fica aqui, portanto, o meu triste (mas não solitário) protesto ao “jornal do futuro”. Esperava –desejava verdadeiramente– que a Folha tivesse conseguido romper essa mentalidade revanchista, criando algo que realmente pudesse indicar um caminho que a mídia –e não apenas a impressa– pudesse trilhar para sair dessa crise em que ela mesma se meteu por turrona. Mas não. Perderam a oportunidade. Nem me dão jeito para incluir o seu belo making-off aqui neste post. E, portanto, não vou dar link para ele.

Quando os games ensinam sem ensinar

By | Educação, Tecnologia | 5 Comments

Um dos principais pontos de resistência ao uso de games de entretenimento na educação está no óbvio fato de que eles não foram criados para ensinar alguma coisa, e sim para divertir as pessoas. Como então pedir que os professores aproveitem seus recursos em seus planos de aula?

Tal resistência dos mestres, facilmente explicável pelo dito acima e sua natural dificuldade de adotar qualquer nova tecnologia nas aulas, é uma pena. O professor que consegue fazer o uso criativo de games pode experimentar resultados bastante expressivos. Mas como fazer isso?

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=rN0qRKjfX3s]

 

Esse vídeo, um dos vários sobre uso de games criados por Daniel Floyd, oferece uma excelente sugestão de como conseguir a proeza. Ele apresenta o conceito de “aprendizado tangencial”, baseado na ideia de que pessoas aprendem melhor quando estão envolvidas e interessadas com o tema estudado. Isso é particularmente importante para as escolas, pois os alunos atuais não conseguem achar as aulas atraentes, não se envolvem com elas e, portanto, não aprendem direito.

A beleza da coisa, no nosso caso, é que o objeto do estudo não precisa ser necessariamente o tema principal do game. O “truque” é escolher títulos que incluam referências ao que se deseja estudar. Floyd explica isso valendo-se do filme “300”, pois o aprendizado tangencial pode ser visto também em outros produtos, como filmes, música, entre tantos outros. “300” ou os quadrinhos que o inspiraram obviamente não foram criados com intuito educacional. Porém são de tal maneira envolventes, que despertaram, em boa parte de seu público, o desejo de saber mais sobre Esparta, seu rei Leônidas ou a Batalha das Termópilas. A partir daí, essas pessoas, valendo-se dos meios de sua escolha e por sua própria iniciativa, se “autoeducaram”, motivadas pelo envolvimento que o filme ou os quadrinhos lhes proporcionaram.

Isso é o aprendizado tangencial. Não é algo trivial de se adotar nos planos e aula, mas não é algo impossível de se pedir aos professores. O que precisa ser feito é dar-lhes recursos para que se apropriem dessa ferramenta –no caso, os games– e saibam extrair dela o que outras pessoas não conseguem enxergar.

Trata-se de algo que bons professores fazem desde sempre, para ir além dos recursos que as salas de aula ou laboratórios lhes oferecem. Assim envolvem seus estudantes para que eles transcendam seus ensinamentos e aprendam eficientemente. O vídeo abaixo, um trecho do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, exemplifica como o professor Keating (Robin Williams) usava métodos considerados bastante questionáveis (porém extremamente eficientes para se atingir os objetivos de aprendizagem) pela fictícia Academia Welton, em 1959:

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=UARKoD7j3uU]

 

O personagem do professor envolvia seus alunos para que entendessem melhor o que queria na sala de aula, mas também para que ampliassem seu estudo usando seus próprios métodos (e eles usavam) fora dela. Na história, os resultados foram arrebatadores.

Mas o desafio não é só para os educadores (e, por que não, pais?). Outra peça-chave para a ampliação do uso do aprendizado tangencial são as editoras. Não as editoras de games, que já sabem fazer isso –e fazem– mesmo não sendo esse seu objetivo primário. Estou me referindo às editoras de material didático. Precisam alterar a sua ideia de produção, especialmente quando pensam em criar coisas que vão além dos livros (hmmm… isso não acontece exatamente muito por aqui).

Há três anos, conversava com a coordenadora do Ensino Fundamental de uma das principais escolas de São Paulo. Preservarei o seu nome e o da escola pelo comentário que ela teceu: “Temos um problema aqui: todos –todos– os nossos alunos têm PlayStation. Esses alunos têm demandas para as quais não estamos preparados. Quando chegam na sala de aula, isso aqui é um saco para eles! Não conseguimos captar a sua atenção e, quando isso acontece, a perdemos depois de cinco minutos.” Consequentemente, a aprendizagem é prejudicada.

As editoras precisam ajudar os professores, e estes precisam estar abertos a iniciativas inovadoras. Ou a escola se tornará, cada vez mais, um saco para seus clientes, os estudantes.

Dividir para conquistar

By | Tecnologia | One Comment

Entrei recentemente em uma discussão sobre se seria possível obter ISBN para conteúdos publicados na Web. O objetivo de quem perguntava era, de alguma maneira, garantir os direitos autorais sobre esse conteúdo. Argumentei que a única maneira de impedir que ele seja copiado é não o publicando, especialmente na Web. Mas a questão estava posta e era pertinente.

Para garantir a autoria (o que não tem nada a ver com impedir a cópia), sugiro Creative Commons. O ISBN, por sua vez, não garante absolutamente nada justamente quando o assunto é cópia do conteúdo. Já não garantia quando os livros eram apenas impressos, que dizer agora que eles estão digitalizados, algo que viabiliza cópias rigorosamente fiéis, de maneira extremamente simples e a custo zero.

O grande desafio que a Web coloca em pauta é encontrar modelos de negócios para esta nova realidade. Não acredito que vá acontecer o que alguns arautos do apocalipse pregam, de que a cópia de conteúdos vai matar o interesse dos autores dos mais diferentes tipos de obras, e que, portanto, estaríamos rumando para uma espécie de nova Idade das Trevas.

Vários autores já estão aí no mercado me impedem de dizer o contrário. Curiosamente, esse movimento é notado especialmente em nomes distantes dos medalhões acadêmicos, mas não necessariamente desconhecidos do público. O melhor exemplo que me ocorre é a banda tecno-brega Calypso, popularíssima (mas não entre a classe intelectual), que eliminou a figura da indústria fonográfica, produzindo inteiramente os seus CDs e os vendendo em camelôs a preços baixíssimos. Quanto ao download de suas músicas, eles querem mais é que isso prospere!

Não, eles não enlouqueceram, apenas perceberam -e entenderam- os movimentos do mercado e estão surfando neles agora. As gravações -em discos ou em arquivos- passam a ser apenas agentes promotores de seu trabalho, que é música. Sim, eles ganham dinheiro também com os seus CDs e DVDs baratos (inclusive porque eliminaram vários “custos” da cadeia, principalmente a indústria fonográfica tradicional), mas ganham muito mais arrastando multidões apaixonadas a seus shows. Ah, também produzem discos e shows patrocinados, outro belo filão que exploram muito bem.

Voltando ao mercado de livros, onde a conversa começou (ISBN é só para livros, em papel ou e-books), vejo cada vez mais autores que oferecem -eles mesmos- o download da íntegra de seus livros de graça, enquanto vendem (e vendem!) o mesmo livro em papel. Outro fenômeno cada vez mais comum são ofertas gratuitas de livros para download -inclusive de autores consagrados- para promover a venda de outros títulos do mesmo autor. E -claro- os livros digitais obrigatoriamente têm que ser (muito) mais baratos que a mesma edição em papel.

Com essas mudanças nos modelos de negócios e as facilidades de produção e de custo que a mesma tecnologia oferece aos autores, quem caminha rumo ao ostracismo são as editoras (não apenas de livros). E isso acontece não porque elas não tenham nada de positivo a oferecer ao processo, e sim por sua teimosia em resistir ao inevitável. Essa visão obtusa dos fatos dilui todos os seus referidos benefícios, que acabam ficando muito caros aos autores e principalmente aos consumidores. E acreditem: os autores preferem ter consumidores a editores.

Há dois meses, conversei com um diretor da Abril Educação sobre esse assunto e ele me confidenciou que, se as editoras não mudarem já, em dez anos ninguém mais precisará delas. Eu acho que elas já estão atrasadas! E, quando isso acontecer, elas serão as únicas culpadas pela sua derrocada. Exatamente a situação em que a indústria fonográfica se colocou e da qual não consegue mais sair. Tentaram segurar uma locomotiva desgovernada com advogados nos trilhos, processando os seus próprios consumidores. Resultado: CDs se transformando em itens de museu. Mas a música vai muito bem! Só que sem eles.

Essa nova era, que tanto amedronta, é na verdade uma incrível oportunidade para as pessoas que realmente são boas. Elas terão uma possibilidade inédita de despontar e ganhar muito dinheiro com isso. Mas farão isso compartilhando, não restringindo. Não há nenhuma nova Idade das Trevas no horizonte, e sim um novo Renascimento.