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Vivemos em tempos exponenciais

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Vivemos em tempos exponenciais. A capacidade de se adaptar à forma e principalmente à velocidade com que a tecnologia modifica a vida de todos nós é a nova seleção natural darwiniana.

O post em que fiz uma análise da carta aberta de Arnaldo Saraiva, em que o livreiro sugeriu que as editoras de livros didáticos serão brevemente substituídas (com vantagem) pelos próprios autores, que se valerão da tecnologia para publicar seus livros, despertou algumas reações nervosas de profissionais dessa indústria. Repito aqui o que disse a todos que vieram até mim para discutir a proposta: nem Saraiva nem eu sugerimos que os diferentes profissionais envolvidos deixaram de ter sua importância. Quem tem um problema são as editoras como instituições, pela sua dificuldade de se adaptar à velocidade das mudanças. Por outro lado, os profissionais que resistirem ao tsunami que já chegou à praia de cada um, também serão engolidos por essa onda.

O fato é: todas as profissões e negócios estão sendo dramaticamente impactados pela tecnologia. E isso sempre foi assim. Ou alguém acha que os monges copistas da Idade Média acharam a prensa de tipos móveis de Gutemberg bacana, enquanto assistiam o invento criar a imprensa e torná-los obsoletos? Lentamente eles desapareceram. E alguém hoje chora por eles ou critica Gutemberg e sua prensa? Claro que não! A tecnologia do alemão revolucionou a humanidade, ainda que tenha destruído um modelo sedimentado havia séculos.

A diferença é que a velocidade agora parece atropelar a todos. Nesta segunda, reportagem publicada no UOL jogou um pouco de luz nas mudanças que a Internet vem provocando na Psicologia. Entre os entrevistados, estava uma psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática, da PUC de São Paulo. O grupo realiza pesquisas pioneiras sobre o tema há mais de uma década, não apenas em como pode ser um atendimento psicológico online, mas também como psicólogos precisam se adaptar a pacientes que chegam a seus consultórios com queixas totalmente ligadas à tecnologia, impensáveis até poucos anos atrás e jamais discutidas em sua formação acadêmica. Mas esses temas hoje são não apenas reais, como corriqueiros, denotando uma mudança dramática nessa profissão. Tolice querer resistir a isso.

O vídeo abaixo, de onde saiu o título deste post, não chega a ser novo: já tem quatro anos. Ele traz algumas estatísticas que reforçam o que está dito acima, e pelo menos um item que ficou desatualizado desde então apenas comprova a sua tese: ao ser produzido, o MySpace era a rede social dominante no mercado, enquanto o Facebook era apenas um recém-chegado.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=cL9Wu2kWwSY]

Para quem não sabe, a derrocada do MySpace se deve basicamente a sua incapacidade de se adaptar às mudanças (o que chega a ser surpreendente para uma grande rede social) e a um novo ritmo imposto por quem chegou depois.

Como o vídeo também sugere, o conhecimento técnico aprendido por um estudante no início da universidade estará ultrapassado antes mesmo de ele concluir seu curso. Como resolver esse dilema? A velocidade de nossa inovação tecnológica levará a humanidade a um beco sem saída?

Obviamente não. Mas ela certamente não deixa mais espaço para quem resiste a mudanças. As escolas, de todos os níveis, devem se preocupar menos em despejar sobre seus alunos formulas prontas e conteúdos fechados. Ao invés disso, precisam desesperadamente ensinar seus alunos a resolver problemas usando todas as tecnologias que tiverem a seu alcance, sem medo de errar.

Afinal, o erro é componente do acerto. A única forma garantida de não errar, em absolutamente qualquer tema, é não tentar. Mas, sem tentativa, não há sucesso.

O que ainda resta às editoras de livros didáticos?

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Tela do iBooks Author, software recém-lançado pela Apple que permite a qualquer um publicar livros digitais

Tela do iBooks Author, software recém-lançado pela Apple que permite a qualquer um publicar livros digitais

Segundo Arnaldo Saraiva, um dos maiores publishers do segmento, não lhes resta nada. Em carta publicada no blog de Luis Nassif ontem, ele constata que o advento do livro digital e a facilidade crescente para sua publicação permitem que o próprio autor crie as suas obras. E, segundo ele, “com qualidade superior aos das editoras”.

“O que uma editora de livros didáticos tem agora pra oferecer a seus autores”, pergunta o criador da área de didáticos da Editora Saraiva (além da Nova Geração e da AJS). Ele mesmo responde: “NADA, absolutamente NADA” (as letras maiúsculas são dele).

Bastou a carta ser publicada para acalorados debates pipocarem aqui e ali. Saraiva está sendo fatalista? Exagerado? As editoras nunca sumirão?

É curioso observar que as pessoas tanto mais discordavam dele quanto mais eram ligadas a essa mesma indústria. E não precisa ser gênio para explicar esse sentimento de autopreservação: ele está associado à resistência ao novo, especialmente quando quem está chegando se transforma em uma ameaça real. Isso se observa em todos os negócios e, no caso da indústria editorial, não apenas nos livros didáticos.

No caso específico da educação, algo que sempre me chamou a atenção é como as editoras menosprezam de maneira decisiva a Wikipedia, como se essa enciclopédia fosse totalmente constituída por verbetes escritos por trogloditas. E infelizmente os seus departamentos de marketing conseguiram incutir essa ideia nos educadores.

O fato é que a Wikipedia não é nada disso. Muito pelo contrário: apesar de, como qualquer obra, possuir imprecisões, ela é incrivelmente confiável, sem falar no volume inigualável de verbetes (normalmente mais completos que os de qualquer enciclopédia tradicional). Além disso, seus erros são equivalentes aos da aclamada Enciclopédia Britannica. E quem disse isso não fui eu: foi a Nature, provavelmente a publicação científica mais séria do mundo, que concluiu isso em estudo comparativo entre as duas enciclopédias.

O que está acontecendo com as editoras de livros didáticos acontece desde sempre. Toda nova tecnologia abre espaço para a substituição, com vantagens, de modelos aparentemente inabaláveis. Quem precisava de monges copistas depois que Gutenberg aperfeiçoou a prensa de tipos móveis? Ou de artesãos, quando os teares se uniram à máquina à vapor?

Ainda acompanhamos a tecnologia promovendo a queda inexorável de uma indústria extremamente sólida e lucrativa até há poucos anos: a fonográfica. Esse pessoal resiste bravamente a abandonar seu tradicional modelo de negócios, por mais anacrônico e ineficiente que tenha se tornado. Diante do seu imobilismo, preferem processar seus consumidores, ao invés de aprender com eles a se modernizar. Resultado: se já haviam sido abandonados pelos seus consumidores, agora começam a ser abandonados também pelos artistas, que podem viver melhor sem as gravadoras.

Reconheço e valorizo o trabalho dos profissionais que adequam os livros didáticos aos Parâmetros Curriculares Nacionais e às draconianas regras de aprovação para os Programas Nacionais do Livro Didático. Aposto que o Arnaldo também! Mas talvez o autores comecem a desenvolver essas habilidades, ou contratem diretamente os editores para lhes ajudar nessas tarefas. As empresas ficam de novo em xeque.

Em março de 2010, conversava sobre isso com um então diretor da Abril Educação. Lembro-me claramente de uma frase que disse: “se as editoras não se mexerem agora, em dez anos ninguém mais precisará de nós”.

Com a velocidade imposta pela tecnologia, talvez dez anos seja muito. Falou Saraiva.

O que fazer com “computador de US$ 100”, que agora é tablet?

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A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

Na Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas (EUA) na semana passada, a OLPC finalmente exibiu a esperada terceira geração de seu equipamento. Batizada de XO 3, o novoo computador educacional idealizado por Nicholas Negroponte chega no formato de tablet e, pela primeira vez, pode cumprir uma de suas bandeiras mais ambiciosas: custar US$ 100… ou menos!

O equipamento, visto nas fotos, é bastante grosso, se comparado aos tablets comerciais, mas tem uma tela Pixel Qi de 8 polegadas com boa visibilidade mesmo sob o sol, com resolução de 1024 x 768 pixels. Por baixo dela, traz um processador Marvell Armada PXA618, 512MB de memória RAM e 4GB de armazenamento. Roda o sistema operacional Sugar, uma“sabor” de Linux desenvolvido pela OLPC que, na minha opinião, não era bom nem nos laptops e ficou ainda mais inadequado em um tablet. Mas o XO 3 –felizmente– também pode funcionar com Android, muito melhor para um equipamento que pretende promover a inclusão digital.

Como todos os equipamentos propostos pela fundação, o XO 3 traz coisas inovadoras que tornam o preço baixo ainda mais surpreendente. Promete ser à prova d’água e bastante resistente para aguentar o tranco da criançada (a capa protetora em silicone também ajuda). Alguns itens opcionais (que devem aumentar seu preço) são interessantes para comunidades carentes, foco da OLPC, como um carregador ativado por uma manivela e até mesmo uma tela que carrega o tablet com energia solar.

Entrando na sala de aula

Feitas as apresentações formais, vem a pergunta: o que fazer com o XO 3 quando ele chegar às salas de aula (o que deve acontecer em algum momento neste ano)? As propostas a seguir valem para qualquer tablet.

É curioso colocar os olhos no equipamento justamente no mês em que os pais estão às voltas com as listas de material escolar. Diante de tantos livros, seria ótimo se todos eles estivessem disponíveis aos estudantes, digital e instantaneamente, em seus próprios tablets. Por mais que fossem meros PDFs das obras, já seria uma experiência melhor pela portabilidade. Sem falar que pesariam menos (nas mochilas dos alunos e nos bolsos dos pais). Algumas instituições de ensino, como a Universidade Estácio de Sá, já vêm fazendo essa transposição simples do material didático para tablets.

Mas isso é pouco! É muito desperdício de uma plataforma que está intuitivamente redefinindo a maneira como usamos um computador. Com tablets e smartphones, estamos aprendendo a ter acesso continuamente a todo tipo de informação, seja para lazer, para estudo ou trabalho. Consultas, que antes exigiam o deslocamento até a biblioteca, podem ser feitas instantaneamente e em qualquer lugar, até mesmo à biblioteca da escola (quando o serviço é oferecido, claro).

Mas essa plataforma só mostra todo o seu potencial com aplicativos didáticos que sejam criados para realmente tirar proveito disso, o que exige investimento. Como já foi discutido aqui, as escolas de ponta já estão trabalhando nisso, seja na avaliação de soluções (internas e externas), seja na formação específica de seus professores, algo crítico para o sucesso de qualquer empreitada.

As editoras de material didático infelizmente ainda oferecem produtos bastante tímidos. Uma pena: talvez seja tarde quando acordem. Pode-se produzir soluções educacionais muito interessantes e inovadoras combinando um conteúdo altamente comoditizado com uso inteligente da tecnologia. Isso sem falar na “concorrência” de professores que, na sala de aula, aproveitam criativamente, por sua própria iniciativa e mérito, produtos criados para outros fins. Que tal estudar lançamento balístico com Angry Birds?

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto?

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Imagem: reprodução

No Estadão de ontem, Eugênio Bucci se baseou em uma charge que tem circulado pelo Facebook para fazer uma interessante análise sobre como a atividade jornalística deveria ser financiada. Ele defende algo que já foi tratado aqui no dia 7 de novembro: para uma imprensa realmente livre, o financiamento deve vir de seu público.

Mas não é apenas com dinheiro que esse financiamento pode ser feito, como o próprio jornalista explica. E justamente aí entra a charge, reproduzida acima e publicada originalmente no site Geek and Poke (sem a pertinente crítica ao Facebook). Resumidamente, se você não está pagando em cash pela notícia, está aceitando que o veículo venda uma parcela da sua atenção aos anunciantes. E aí você deixaria de ser o cliente e passaria a ser o produto.

Isso não é nada novo: toda a TV aberta (e não apenas seus produtos jornalísticos), com seus custos de produção altíssimos, sempre foi mantida pela publicidade. Nesse caso, o público sempre foi o produto, consciente disso. A novidade é que esse modelo está extrapolando suas formas tradicionais.

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto? Temos, por exemplo, o Positivo, fabricante de computadores que se firmou no mercado com uma imagem de equipamentos com preços baixos. Como forma de ampliar os seus ganhos, a empresa agora quer colocar anúncios na área de trabalho do Windows de seus consumidores e até nas caixas de seus computadores.

A gigantesca Microsoft também embarcou nessa onda, inspirada no seu rival Google, que espalha seus microanúncios pelos seus produtos. O Office Starter, versão light do seu pacote de escritórios com apenas o Word e com o Excel, vem pré-instalado em computadores e pode ser usado gratuitamente, desde que o usuário não se importe com os anúncios que exibe.

Aplicativos para smartphones, mesmo os que custam um mísero US$ 1, também costumam oferecer uma versão completamente gratuita, subsidiada pela exibição de anúncios. Pagando pelo produto, os anúncios desaparecem.

O fato: em maior ou menor grau, as pessoas parecem não se importar muito com essa invasão publicitária, principalmente em produtos que foram concebidos com a presença dos anúncios. Dessa forma, se incomodam mais com os anúncios ocupando espaço na sua tela do Word que com anúncios em produtos jornalísticos.

Será esse o caminho que o jornalismo deve seguir para se sustentar?

Separação Igreja-Estado

É uma possibilidade a ser considerada, com serenidade. Outros modelos já discutidos aqui, como o “soft paywall” do The New York Times, também podem render frutos. Mas as empresas de comunicação precisam aceitar o fato de que o público resiste em desembolsar seus cobres pelo noticiário.

Caso decidam ampliar o caminho da publicidade, os publishers precisam reforçar o conceito da “separação Igreja-Estado”. Ou seja, decisões comerciais não podem influenciar o noticiário, e vice-versa. Dessa forma, a Redação deve ter liberdade para criticar uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante.

Bucci explica o motivo em seu artigo: mesmo em um ambiente financiado por publicidade, o público deve ser considerado como o verdadeiro cliente, pois é apenas por causa dele que os anunciantes colocam dinheiro nos veículos. Dessa forma, tem o direito de receber um produto jornalístico isento e focado em seus interesses.

As empresas estão dispostas a fazer isso? No mundo ideal, sim; na prática, poucas são capazes de levar esse conceito até o fim.

Os publishers devem avaliar esses dois conceitos –maneiras criativas de financiamento por publicidade e a garantia da independência editorial– com muita atenção. O mundo quer o público como produto e as próprias pessoas parecem topar essa situação. Mas os jornalistas nunca devem deixar de encará-las como os seus verdadeiros clientes. Qualquer que seja o modelo de financiamento, a essência do jornalismo passa por garantir um noticiário isento.

O fim da mídia em edições

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Foto: Melbeans

Entre debates no palco do Itaú Cultural e animadas conversas com colegas que também participaram do MediaOn 2011, que lá aconteceu entre os dias 22 e 24, um conceito começou a tomar uma forma mais consistente: talvez a mídia como conhecemos, organizada em edições, esteja chegando ao fim.

A divisão do noticiário em exemplares bem delimitados e organizados por um período de tempo é tão antiga quanto o jornalismo formal. Tanto que jornais e revistas são conhecidos por “periódicos”. E isso sempre fez sentido, para que o produto tivesse tempo de ser produzido. No caso de impressos, ainda é necessário, para que haja tempo para que os exemplares saiam da gráfica sejam entregues. Também funciona bem para rádio e telejornais, que têm que se enquadrar nas grades da programação.

Mas por que teria que ser assim no jornalismo digital? Uma coisa que a Web decretou há mais de uma década foi o fim do conceito de “fechamento”. Ou seja, não há mais uma edição formalmente definida para os produtos jornalísticos na Internet: sempre que o usuário chega a um veículo digital, potencialmente encontra um noticiário renovado, mesmo que o visite várias vezes no mesmo dia. Por isso, da mesma forma que as edições fazem sentido para as outras mídias, elas não fazem na Internet. E quem sai ganhando com isso e o usuário, que tem no digital um jornalismo que, pela primeira vez, combina a agilidade do rádio com a profundidade do impresso.  Qualidades que tornam o jornalismo na Web incomparável e que já estão totalmente incorporadas no cotidiano de usuários e profissionais.

Mas desde que o fenômeno dos tablets se consolidou, tenho observado paradoxalmente uma retomada das edições, agora em formato digital. Começou com os aplicativos das revistas, o que até dá para ser explicado: os publishers viram no iPad um dispositivo com formato e tamanho compatível com suas edições em papel. Sem pensar muito, simplesmente transpuseram seus produtos em papel para os tablets.

O problema é que essa “mania” se disseminou e hoje se vê todo tipo de publicação para tablets organizada dessa forma. A quem interessa isso? Eu apostaria que não ao usuário, pois, apesar de uma diagramação supostamente criada para esses dispositivos (o que é uma falácia), invariavelmente esses produtos são piores que os websites dos mesmos veículos. Vejamos:

  • no caso de jornais, o conteúdo é atualizado apenas uma vez por dia; em revistas, a atualização é semanal (ou quinzenal, mensal ou ainda pior); nos websites dos mesmos veículos, isso acontece continuamente;
  • os arquivos das edições costumam ser enormes e o usuário é obrigado a baixá-la integralmente (mesmo que não as leia inteiras), o que exige muito tempo para download e ocupa grande espaço na memória do tablet; os websites carregam quase instantaneamente e apenas o que o usuário se interessa, sem ocupar a memória;
  • apesar do enorme download, o conteúdo dessas edições digitais costuma ser limitado, enquanto os websites têm um conteúdo muito mais amplo que o “veículo-mãe”;
  • esses aplicativos oferecem pouca ou nenhuma integração com redes sociais, dificultando o compartilhamento de conteúdo e qualquer tipo de interação entre os usuários; os websites, por outro lado, são amplamente “comunitários”, o que cria uma experiência muito mais rica (e, de quebra, aumenta a audiência do próprio site);
  • as edições digitais também costumam oferecer muito menos conteúdo multimídia ou interativo que o website;
  • o navegador Web do tablet está ali, a um clique, oferecendo ao usuário toda a Web, inclusive o site do veículo.

Parece que um monte de coisas muitíssimo interessantes que foram aprendidas em 17 anos de jornalismo na Web está sendo relegado ao ostracismo.

Dá para cobrar?

O fato é que os publishers veem nos tablets uma maneira interessante de voltar a cobrar pelo seu conteúdo, uma capacidade que perderam ao longo desses anos. E as edições digitais ajudam nessa tarefa, pois é mais fácil cobrar por algo delimitado, que claramente seja entregue, que por algo amorfo e ilimitado, como é o caso do noticiário na Web.

A questão é: as pessoas pagam por isso? Os produtos nesse novo formato apontam para uma resposta negativa. Mesmo o The Daily, filhote de um impressionante esforço conjunto da News Corp e da própria Apple, e anunciado como o primeiro veículo jornalístico criado especialmente para o iPad, vem acumulando prejuízos.

Confesso que eu acreditava que o diário fosse dar certo, por ser bem construído (bem acima da média do que se vê por aí), além de oferecer uma assinatura relativamente barata: US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por um ano inteiro. Mas essas virtudes não foram suficientes para convencer as pessoas.

Mais bem sucedido é o The New York Times, com seu “paywall”, lançado em março. Resumindo o seu funcionamento, por US$ 35 por mês, você tem acesso a todo o conteúdo digital do website e também aos aplicativos para smartphones e tablets. Usuários não-pagantes podem ver apenas 20 páginas por mês. E, se assinar o jornal impresso pelos mesmos US$ 35 mensais, também tem acesso irrestrito a todos os conteúdos digitais. O resultado: um expressivo aumento nas assinaturas digitais… e também do impresso!

Não há nenhuma novidade nessa história: como sempre as pessoas pagam apenas por aquilo que elas veem valor.

Edições X experiência informativa

Esse imbróglio foi debatido exaustivamente no Media On e no seminário internacional da INMA (International Newsmedia Marketing Association), que também aconteceu em São Paulo na semana passada. Ambos eventos apontaram para um futuro que implica na criação de uma nova experiência informativa para os leitores.

Para Meg Pickard, diretora de engajamento digital do britânico The Guardian e responsável pela melhor palestra do MediaOn, tal experiência passa por um noticiário contínuo e permanente, construído junto com o usuário. No Guardian, todo o processo é aberto para o público, que tem chance de participar, a ponto de a pauta que está sendo trabalhada ser divulgada na Web. Pickard até deu um nome para esse formato: “mutualização”.

Earl Wilkinson, diretor executivo da INMA, sugere que os veículos devem se preocupar em ampliar a experiência do produto em torno de sua marca. Não se trata apenas de re-empacotar um veículo já existente dentro de um novo formato, e sim criar produtos jornalísticos completamente novos em torno da marca. Novos e –por que não?– desagregando o conteúdo, substituindo as edições por material empacotado automaticamente para os gostos de cada usuário ou segmentados por assunto.

As oportunidades estão diante de todos, ao alcance das mãos. Não é de se admirar que agregadores como o Flipboard, Zite ou Pulse façam tanto sucesso entre usuários dos tablets: as pessoas não querem edições, buscam comodidade, compartilhamento, personalização e noticiário realmente quente.

Separando a Igreja do Estado e pagando a conta dos veículos

By | Jornalismo | No Comments

No último dia 26, durante o seminário de comunicação digital “Os desafios éticos e legais nas empresas jornalísticas”, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), meu colega Marco Chiaretti disparou: “o problema é que está entrando muito dinheiro nas redações”. Não, ele não sugere que o jornalismo deixe de ser uma atividade remunerada. O que ele quer dizer é que as áreas de negócios das empresas de comunicação estão tendo muito influência sobre as pautas dos seus veículos, uma interferência perigosíssima ao livre exercício do jornalismo.

Assim como a liberdade diante de governos, a liberdade econômica é uma premissa básica do bom jornalismo, daquelas que se aprende no primeiro ano da faculdade. Afinal, o veículo tem que poder noticiar uma enorme falcatrua de uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante. Corre-se o risco de perder o anunciante? Claro! Mas daí vem uma frasesinha muito conhecida no meio: “a separação Igreja-Estado”, que diz que decisões de negócios não devem interferir nas editoriais e vice-versa (só não me perguntem quem é a Igreja e quem é o Estado).

Se isso for respeitado e a Redação fizer seu trabalho direito, constroi-se o maior bem do jornalismo: a credibilidade. E, pelo menos no mundo perfeito, isso deveria ser suficiente para o negócio seguir adiante.

Mas não estamos no mundo perfeito! Há alguns dias, zapeando despreocupadamente pela TV, dei a sorte de cair no começo de “O Informante”, com Al Pacino. Para resumir bastante a história, o filme conta o caso verdadeiro de uma reportagem do “60 Minutes”, da norte-americana CBS, em que um ex-alto executivo da indústria tabagista vem a público e explica, com todas as palavras, como seus antigos colegas deliberadamente manipulam as substâncias químicas nos cigarros para viciar seus consumidores.

Bem, como pode ser visto no trecho abaixo, depois de tudo pronto, a área de negócios da emissora tentou barrar a todo custo a entrevista com o informante, pois ela seria prejudicial à empresa. Só não conseguiu devido à sagacidade e –permitam-me a expressões– aos culhões do produtor, vivido por Pacino.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ZIjpP-XngKA]

Realmente, fica difícil quando aquela que possivelmente foi a maior reportagem do ano só foi ao ar depois de muita confusão. Mas não sejamos inocentes em acreditar que isso não acontece.

Caímos então em um dilema: no mesmo seminário da ANJ, vários participantes disseram que é necessário que a imprensa volte a ser mais mantida pelo seu próprio público que por anunciantes, mas vivemos uma época em que as pessoas não querem pagar pelo conteúdo que consomem. Trata-se de uma discussão que não cansamos de tratar nesse blog.

Quase cegos

Também participando do evento, Caio Túlio Costa conclamou que as “empresas deveriam fazer operação de catarata!” Não se trata mais de discutir mudanças no modelo de negócios, e sim aceitar e entender que todo o negócio –em muitos de seus itens essenciais– mudou. “Os veículo ainda não entenderam essa nova realidade da informação”, concluiu.

Traduzindo: pode ser razoável que o público mantenha, ainda que não totalmente, a atividade jornalística, garantindo assim a independência e um jornalismo de qualidade (o que, aliás, é de interesse do mesmo público). Mas não dá para simplesmente pedir –ou pior, tentar impor– que as pessoas paguem pelo conteúdo: elas precisam ver valor naquilo, entender por que estão pagando e encontrar um preço que lhe pareça justo. É por isso que simplesmente fechar conteúdos é uma burrice.

Nesse teatro em que os atores não sabem suas falas, vem o The New York Times há alguns meses com uma proposta de “paywall” que, de início, foi motivo de chacota de muita gente. Basicamente, ele permite que se leia, de graça, 20 textos do site a cada 30 dias. Depois disso, tem que se pagar. O desprezo inicial se deve ao fato de o sistema ser facílimo de burlar, além de possuir várias “liberalidades” em seu conceito. Apesar disso, o NYT vem comemorando resultados muito surpreendentes: de um lado, a queda na visitação de seu site foi considerada aceitável; do outro, aumentou consideravelmente o volume de assinantes do site… e do jornal impresso!

Como isso foi possível? Pela combinação do melhor jornalismo independente do mundo com preços muito baixos. US$ 0,99 por semana para ter acesso ilimitado a todos os produtos digitais do NYT nas primeiras quatro semanas e US$ 35 por mês depois disso? E você ainda recebe o jornalão impresso em casa! É um valor razoável. Não obstante, eles realizaram uma pesada campanha de conscientização para justamente demonstrar que o jornalismo independente precisa do apoio do seu público.

As empresas de comunicação, especialmente a mídia impressa, estão rezando para essa “moda” pegar. Afinal, o dinheiro vindo da publicidade não para de minguar e fica cada vez mais difícil fechar as contas. São necessárias outras formas de fomentar o negócio. Mas temo que vejam apenas a parte do “conteúdo fechado” sem ver todo o resto do trabalho da turma do NYT. Repito: apenas fechar o conteúdo e esperar que o usuário pague por ele é um tiro na cabeça. Sempre existirá conteúdo grátis (e –sim– de qualidade) na rede.

No dia 5 de outubro, enquanto dava uma aula em um curso de extensão da PUC-SP, um aluno me indagou se esse modelo daria certo no Brasil?

Acho que sim. Você não pagaria R$ 1 por semana para garantir um jornalismo de qualidade para você?

Olha quem está falando

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Novo recurso do Facebook: "falando sobre isso"

O Facebook lançou há alguns dias o recurso “falando sobre isso” nas “fan pages”, páginas criadas por pessoas e empresas para promover o que fazem e o que gostam. A novidade mostra quantos usuários da rede social se relacionaram com cada página nos últimos sete dias. Por “se relacionar”, entenda-se compartilhar qualquer conteúdo publicado ali, fazer comentários, posts, incluir ou marcar fotos, responder a um evento ou simplesmente clicar no botão “curtir”. Na pratica, o que o Facebook espera é medir o “engajamento” em torno do assunto da “fan page”.

Por trás de mais uma métrica social aparentemente inocente, o “falando sobre isso” esconde a intenção do Facebook de criar um novo modelo comercial com valor um tanto intangível: o relacionamento das pessoas com qualquer marca. A empresa fatura alto com os pequenos anúncios que coloca em todas as suas páginas, alinhados com o perfil de cada usuário. Mas, para isso, depende que esses mesmos usuários cliquem nas peças. Com seu novo lançamento, a rede de Mark Zuckerberg quer tentar minimizar a importância dos cliques nos anúncios e mostrar ao mercado publicitário que é capaz de trazer valor sem eles, algo que, de quebra, ninguém consegue hoje fazer tão bem quanto o próprio Facebook.

Ninguém discute que o engajamento em torno de uma marca tem um enorme valor. Ele é uma das chaves para o que o mercado publicitário chama de “mídia espontânea”, ou seja, a exposição de uma marca em notícias e outros formatos não pagos, em oposição à “mídia paga”, que são os anúncios. Mas quanto o “falando sobre isso” realmente mede disso? Além do mais, o engajamento indicado pela novidade pode incluir pessoas fazendo comentários negativos sobre a marca.

Essa característica “etérea” do engajamento é o principal obstáculo para que o novo modelo seja aceito pelo mercado publicitário. É difícil de medir resultados nisso, ao contrário dos cliques nos banners, claramente identificados, justamente uma das maiores vantagens que a Internet oferece ao mercado publicitário diante de outras mídias, incapazes de dar um retorno tão precisamente identificado.

Dois coelhos

Para o Facebook, conseguir tal convencimento mataria dois coelhos com uma cajadada só. Primeiramente o colocaria em ampla vantagem sobre toda a indústria, pois ninguém conhece os gostos dos usuários como ele, nem mesmo o Google.

O gigante de buscas também faz fortuna entregando pequenos anúncios publicitários espalhados por sites próprios e de terceiros. Os anúncios do Google estão sempre associados ao assunto da página em que aparecem. Segundo seu raciocínio, que tem dado certo, se o usuário se interessa pelo assunto da página, deve se interessar pelo anúncio, se ele tiver assunto semelhante. Ele se foca, portanto, mais na página que no usuário. Já o Facebook segue o caminho contrário. Com seu inigualável banco de dados sobre gostos dos usuários, os anúncios que entrega são focados sempre no próprio usuário, não se importando com o conteúdo da página.

Todo esse conhecimento sobre as pessoas vem justamente das ações e do engajamento de cada um com seja lá o que for. Clicar no botão “curtir” em uma notícia não é só um jeito fácil e bacana de se dizer aos amigos que se gosta daquilo: o usuário também diz o mesmo ao Facebook, que assim constroi o seu perfil de cada um de nós. Dessa forma, ninguém pode oferecer informações sobre engajamento ao mercado publicitário como eles. Se o pessoal do marketing comprar a ideia, eles ficam por cima da carne seca.

O segundo motivo chega a ser quase paradoxal para quem conhece tão bem os usuários. Estudos, como esse, da Webtrends, sugerem que a taxa de cliques nos anúncios do Facebook é muito baixa, mesmo quando comparadas ao que se pratica nessa indústria (especialmente o Google). Pior que isso: ela vem caindo. Pelo estudo, a taxa de cliques (CTR, “click-through rate” ou “taxa de cliques”) caiu de 0,063% para 0,051% de 2009 a 2010. Em direção contrária, o que o Facebook cobra, em média, por clique (CPC, “cost per click” ou “custo por clique”) subiu, no mesmo período, de US$ 0,27 para US$ 0,49. E o quanto cobra por simplesmente exibir os anúncios (CPM, “custo por mil”) também subiu, de US$ 0,17 para US$ 0,25 a cada mil impressões.

Por isso, enfraquecer a importância do CTR enquanto fortalece o engajamento são críticos para o Facebook. Representariam o enfraquecimento da concorrência (especialmente do Google) e o fortalecimento do Facebook. Seus executivos têm uma árdua tarefa junto ao mercado publicitário. Se tiverem sucesso, merecerão gordos bônus por alterar a maneira como as empresas anunciam seus produtos e serviços.

O Facebook é o jornal; seus amigos, os editores

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O Wall Street Journal Social - Imagem: reprodução

O Wall Street Journal trouxe o seu noticiário para dentro do Facebook com o Social, promovendo os amigos de seus usuários a "editores"

O Wall Street Journal lançou recentemente uma versão do seu noticiário dentro do Facebook. Batizado de WSJ Social, o aplicativo não representa nenhum grande avanço tecnológico –na verdade, é bastante simples. A inovação está justamente em se criar um Journal rodando inteiramente dentro da rede de Mark Zuckerberg e valendo-se das atividades de amigos para produzir a cada usuário, individualmente, um produto jornalístico personalizado.

Todo o noticiário exibido dentro do aplicativo é do próprio WSJ, mas a “edição” que cada pessoa vê é diferente da de todos os demais usuários, já que as notícias são organizadas de acordo com a atividade de seus amigos que selecionou como seus “editores” no produto. Como cada pessoa lê coisas diferentes, as combinações disso tudo geram edições bastante individualizadas. Além disso, o aplicativo cria um ranking dos editores mais ativos de cada usuário.

A lógica por trás disso é que cada usuário tende a ver destacado o que seus amigos gostaram no WSJ. Quanto mais recomendado um texto, mais destaque ele ganha. E, se muitos amigos seus recomendarem um texto, em tese aumenta a chance de que o próprio usuário também goste dos mesmos textos. Exatamente o mesmo conceito que move praticamente tudo dentro do Facebook: “diga-me com quem anda (ou se relaciona digitalmente, enfim) e eu direi quem você é”. Trata-se de um desdobramento interessante –e positivo– da “bolha de filtro” de Eli Pariser, já discutido nesse blog.

Vale destacar que todo o dinheiro feito dentro do aplicativo, seja com publicidade, assinaturas ou o que for, fica com o veículo. O Facebook fica com o caixa gerado em seus anúncios nas mesmas páginas, mas fora da área do aplicativo.

O WSJ não está sozinho: The Guardian também já lançou um aplicativo semelhante (ainda que mais limitado) , assim como o The Daily, que nasceu com a ideia de ser um jornal exclusivamente para iPad. Vários outros títulos de porte já estão trabalhando nos seus aplicativos.

Por que as publicações estão fazendo isso, justamente em um momento em que estão se debatendo para evitar que seus leitores debandem para outros sites, tentando estancar a sangria de sua audiência? O próprio Google News é, há anos, o pivô de uma queda de braço dos publishers com o gigante de busca, acusado de roubar conteúdo alheio para produzir um concorrente.

A resposta pode ser resumida com uma frase curta: porque as pessoas estão lá! Gostem os veículos ou não, o fato é que as pessoas gastam cada vez mais tempo no Facebook, mesmo em um cenário em que ficam menos tempo na Web como um todo, como pode ser visto no gráfico abaixo:

Evolução da minutagem do Facebook e da Web

Gostem os veículos ou não, as pessoas mais e mais consomem os seus próprios conteúdos a partir de seu feed de notícias no Facebook em detrimento da home pages de seus sites (que dizer então das edições impressas, pelo menos para essa turma?). Mais que isso: o que seus usuários estão consumindo de suas publicações não é o que os editores dos veículos promovem, e sim o que os amigos de cada usuário –seus “editores”– recomendam.

Dessa forma, esse movimento dos veículos é resultante da aceitação de uma mudança na forma de se consumir notícias, aliada a recursos tecnológicos fornecidos pelo Facebook. Por outro lado, é importante também notar que a gênese do bom jornalismo continua sendo os veículos que prezam por ele, pois o Facebook ou os amigos dos usuários não produzem conteúdo, apenas o promovem.

A grande inovação aqui está na “ousadia” (ainda que atrasada) dos veículos em topar re-empacotar seu conteúdo em um novo formato, mais adequado ao (novo) perfil de seu público. Os que tiverem essa coragem não apenas reterão a sua audiência, como provavelmente ganharão novos usuários. E preservarão o valor de sua marca e seu bom jornalismo.

Tirem os advogados, tragam os engenheiros

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A bandeira pirata hasteada à frente da sede da Apple em 1983

A bandeira pirata hasteada à frente da sede da Apple em 1983

A Apple acaba de ganhar mais um round contra a Samsung: dessa vez, impediu que sua filial alemã distribua o Galaxy Tab 2, de 10,1 polegadas. Apesar de provavelmente não trazer muitos efeitos práticos, pois os aparelhos poderão ser trazidos de outras partes do mundo para ser vendidos na Alemanha, é mais um capítulo de uma guerra travada por advogados das duas empresas. A Samsung contra-ataca com processos contra a Apple, também por violação de patentes.

Ninguém sugere que uma companhia não defenda seus investimentos milionários em pesquisa, mas não deixa de ser irônico ver a Apple tentando impedir que outras companhias lancem produtos que, digamos, se pareçam muito aos seus.

Vale aqui uma pequena aula de história da indústria de microinformática. No início dos anos 1980, quando a Apple atingiu o topo pela primeira vez, com seu Apple II, a empresa investiu em uma nova tecnologia: a interface gráfica, que viabilizou o seu Apple Lisa e, logo na sequência, o primeiro Macintosh.

A referida ironia está no fato de que a primeira interface gráfica e o mouse não terem sido inventados pela Apple, e sim por um grupo de pesquisa da Xerox. Os executivos dessa última não deram a menor bola para a criação de seus engenheiros. Pior que isso: abriram caminho para que Steve Jobs e sua turma literalmente se apropriassem dessa tecnologia e praticamente assumissem a sua paternidade. Não é de se espantar que, à frente da sede da Apple, a bandeira pirata estilizada (acima) ficasse hasteada.

Logo depois, a Apple provou do próprio veneno, quando a Microsoft se “inspirou” no Mac para lançar o seu Windows. Esses dois “roubos”, o da Apple e o da Microsoft, estão magistralmente representados no vídeo abaixo, um trecho do filme “Piratas da Informática” (“Pirates of the Silicon Valley”, no original):

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JDPQABGyId4]

A Apple sempre acusou a Microsoft de ter copiado o sistema operacional do Macintosh para criar seu Windows. Felizmente nunca conseguiu impedir que a turma de Bill Gates seguisse adiante com sua própria interface gráfica. Pois, se a Xerox inventou e a Apple refinou o conceito, foi indubitavelmente a Microsoft quem o popularizou, tornando o computador finalmente algo acessível às massas.

De volta a 2011: a Apple agora quer impedir o crescimento do Android, apontando sua artilharia principalmente para os produtos da linha Galaxy, os principais concorrentes do iPhone e do iPad. O fato é que o hardware do Galaxy Tab 2 é superior ao do iPad 2. O Android também chegou lá, na sua versão 3: é um produto maduro e sofisticado. Pesam a favor do iPad várias vantagens por ter sido lançado muito antes (pelo menos para os padrões dessa indústria alucinada).

Afinal, qual o problema com a turma de Cupertino? Seus produtos são excepcionais, e a Apple se parece mais a uma religião que a uma empresa, com uma (crescente) legião de fieis. Mas eu darwinianamente acredito que a diversidade e as interações entre as espécies levam à evolução. Tentar frear isso em tribunais é muito triste, para dizer o mínimo. Além disso, ter uma concorrência forte é a receita para uma empresa continuar inovando, e já passou da hora de a Apple ser confrontada de verdade. Por isso, espero que as empresas tirem logo seus advogados de cena e deixem seus engenheiros trabalhar. É aí que está a centelha criativa. É aí que os usuários e as próprias empresas ganham.

Tablet vazio não para de pé

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No dia 1º de setembro, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que despejará “centenas de milhares” de tablets nas escolas públicas já no ano que vem. A propaganda ficou ainda mais bonita por ter sido feita em plena Bienal do Livro e arrematado com a exigência de que os equipamentos tenham altas “taxas de nacionalização”. Só não respondeu à pergunta essencial: para que?

Sou um grande defensor do uso da tecnologia na educação. Mas não concordo com entregar equipamentos sem o menor planejamento pedagógico ou treinamento de todos os envolvidos, como parece ser o caso. O discurso político de Haddad rendeu boas manchetes, mas é tão vazio quanto os tablets que ele propõe colocar nas escolas.

Claro que todo mundo quer ter um tablet hoje em dia. Desde que Steve Jobs popularizou o conceito com o primeiro iPad, esses equipamentos se tornaram objeto de desejo. Mas será que eles são o melhor equipamento para a educação? A mobilidade e a interface são realmente muito bem-vindas, mas a mesma interface pode ser um problema. Há pouco software que seja realmente desenvolvido para ela, e a simples execução ali do que existe para computadores “convencionais” nem sempre traz bons resultados em tablets. Por isso, os R$ 70 milhões que o MEC afirma ter investido no ano passado na produção de conteúdos digitais podem não servir muito.

Colégios A+ de São Paulo já estão tateando os tablets em sala de aula, sem trocadilhos. É o caso do Dante Alighieri e do Pueri Domus. Mas, nos dois casos, as escolas corretamente começaram o trabalho na coordenação pedagógica, com foco no uso do equipamento e no treinamento dos professores.

Que dizer de escolas públicas, que têm laboratórios de informática montados há anos, e até hoje não os utilizam? Por que isso acontece? Além de motivos bizarros, como diretores que os mantém fechados com medo que os alunos quebrem os equipamentos (!!!), o principal são professores que não conseguem colocar aquela “coisa” dentro de sua aula. Não se trata de não dominar o equipamento (o que de fato é outra enorme barreira para boa parte dos professores), mas sim como transformar aqueles programas, a Internet e recursos multimídia em parte de seu planejamento de aula.

Portanto, esse discurso de Haddad chega a ser um deboche do uso de tecnologias no ensino público. Como acreditar nisso? E não é a primeira vez que ouvimos promessas desse tipo. O governo anterior, de Lula, havia prometido a compra de 50 milhões de notebooks educacionais, para o projeto UCA (Um Computador por Aluno), mas isso nunca se concretizou. Nem mesmo o primeiro “mísero” lote de 150 mil equipamentos conseguiu sair da fase de licitação.

Então a informatização de ponta nunca chegará às escolas públicas? Claro que sim! É só falar (muito) menos e agir (um pouco) mais.

A melhor defesa é o ataque

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O lançamento do Adobe Edge pode representar mais um ataque ao modelo de controle total da Apple, que uma defesa diante de um suposto fim do Flash

O lançamento do Adobe Edge pode representar mais um ataque ao modelo de controle total da Apple, que uma defesa diante de um suposto fim do Flash

Recentemente, a Adobe liberou a primeira versão preliminar do Edge, um novo produto que permite a desenvolvedores criar sites em HTML 5. De imediato, muita gente no mercado disse que a empresa de San Jose (Califórnia) havia se rendido ao movimento contrário ao Flash, que ganhou força porque iPhones e iPads não rodam nada feito com ele. Alguns colegas macmaníacos chegaram a comemorar a morte do Flash, creditando o feito à Apple.

Muita calma nessa hora! Ele continua bem vivo. Apesar do incômodo para usuários e desenvolvedores causado pela briga entre Adobe e Apple, o Flash continua sendo a primeira e a segunda opção para se criar conteúdo multimídia na Web. Tanto que navegar pela Web com iPhones e iPads ainda é uma experiência frustrante pela sua incapacidade de rodar elementos criados com Flash. A Adobe naturalmente nega que o Edge tenha sido criado para substituir o Flash, sendo apenas sua resposta a uma comunidade de desenvolvedores que deseja explorar o HTML 5.

O que pouca gente notou é que essa nova investida da Adobe pode criar uma enorme dor de cabeça à Apple. Qualquer um que queira criar produtos para iPods, iPhones e iPads tem que se submeter a regras bastante rígidas da Apple. Como a única maneira de se instalar algo nesses produtos é passando pela App Store, a Apple controla com mão de ferro esse desenvolvimento, sumariamente rejeitando qualquer coisa que contrarie seus interesses. Sem sua benção, os usuários não têm acesso a qualquer produto.

Mas a Apple não controla a Web e, consequentemente, o HTML 5. Em um mundo em que as coisas funcionam cada vez mais na “nuvem”, essa linguagem é mais que suficiente para criar aplicaçōes bastante sofisticadas (experimente visitar a Chrome Web Store, do Google). Sofisticadas e livres do controle do império de Steve Jobs.

Por isso, as grandes empresas de mídia, que veem nos tablets uma tábua de salvação frente às dificuldades de seu antigo modelo de negócios, mas que se sentem muito incomodadas com as regras da Apple, começam a prestar atenção no HTML 5. O Financial Times foi o primeiro grande título que substituiu sua aplicativo para iPad por um equivalente na Web. Para o usuário, não há nenhuma perda em sua experiência. Para a empresa, a diferença é enorme, uma vez que não precisa mais limitar seu produto ao que a Apple determina ou dividir sua receita com ela.

É, portanto, um grande negócio para os desenvolvedores e para os usuários. O Edge não é um produto de defesa da Adobe: está mais para um ataque. E o Flash continua vivo, para alegria da multidão de desenvolvedores. Afinal, a Web tampouco morreu. E o Android roda Flash.

Quando a quantidade e a diversidade levam à qualidade

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Para Arianna Huffington, o jornalismo depende cada vez mais da blogosfera

Para Arianna Huffington, o jornalismo depende cada vez mais da blogosfera

Depois de Julian Assange, criador do WikiLeaks, que ontem abriu o Info@Trends 2011, hoje foi a vez de Arianna Huffington iniciar os trabalhos do evento. A grega, criadora do The Huffington Post e presidente do AOL Huffington Post Media Group (desde que a AOL lhe pagou US$ 315 milhões para incorporar seu veículo), veio ao Brasil para participar do congresso e se reunir com jornalistas e executivos de empresas de mídia. Explica-se: ela quer lançar uma versão brasileira do HuffPost, de preferência ainda neste ano.

Distribuindo sorrisos, Arianna reafirmou suas crenças sobre como o jornalismo deve ser feito. E, para ela, a blogosfera é decisiva. O HuffPost, apesar de possuir uma grande equipe de jornalistas profissionais, nasceu e se mantém pela contribuição -não remunerada-, de milhares de blogueiros. Dessa forma, o veículo oferece enorme abrangência em suas coberturas e uma saudável pluralidade de ideias. O resultado é mais que positivo: a rede de blogs de Arianna construiu uma boa reputação e superou até o aclamado The New York Times em audiência.

Apesar disso, seus ideais não são uma unanimidade na indústria. Muita gente, principalmente da mídia tradicional, torce o nariz para o jornalismo produzido na blogosfera, especialmente por pessoas que não são jornalistas. “É tão difícil para tanta gente entender por que tanta gente escreve de graça”, disse Arianna, que emendou uma alfinetada: “então por que tanta gente passa cinco horas assistindo a TV ruim de graça?”

Arianna tem uma explicação na ponta da língua: “a autoexpressão se transformou em um novo tipo de entretenimento.” Foi-se o tempo em que as pessoas queriam apenas consumir notícias. Agora elas querem pautar (inclusive jornalistas profissionais), apurar, escrever, publilcar, promover. “Tem tudo a ver com compartilhamento e tem tudo a ver com engajamento”, completou.

Ela está certíssima! A maioria dos jornais está se esquecendo do que é contar uma boa história. Ficam reféns do jornalismo palaciano, declaratório e demasiadamente dependente de números. Redações, cada vez mais jovens (e baratas), são vítimas de balões de ensaio de fontes sem escrúpulos, propagando versões falsas dos fatos. E fazem isso de uma maneira chata, cansativa.

Não é de se admirar que o HuffPost ganha espaço de seus concorrentes centenários. Seus jornalistas e blogueiros não se limitam apenas a trazer informação: fazem isso com personalidade, sabor. “Nossos editores são preparados para fazer manchetes mais intimas com o leitor, com humor, quase como um amigo.” Além disso, funcionam como “curadores” da enorme massa de material produzido pela comunidade.

A mídia tradicional se defende com a promessa de entregar aos leitores a melhor informação disponível. “Mas é falso”, disparou Arianna. De fato, por mais preparada e equipada que seja uma Redação, sua capacidade de produção é limitada. Isso é um tremendo problema em um mundo em que as pessoas não mais se contentam com um noticiário limitado: querem um noticiário hiperlocal e hiperpersonalizado. Querem um noticiário feito “exclusivamente” para cada um, algo que uma empresa de mídia tradicional simplesmente não consegue entregar. Na aurora desse novo jornalismo, o modelo do The Huffington Post floresceu e já deu frutos.

Em poucos meses, os brasileiros poderão experimentar a proposta de Arianna em bom português. Resta saber se ela repetirá aqui o sucesso que alcançou lá fora. Façam suas apostas!

Sem vender a alma ao diabo

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Hoje cedo, no Info@Trends, Julian Assange afirmou que The New York Times e The Guardian sonegam informações a seus leitores por interesses espúrios

Hoje cedo, no Info@Trends, Julian Assange afirmou que The New York Times e The Guardian sonegam informações a seus leitores por interesses espúrios

“Quando uma grande empresa de mídia se aproxima do poder, ela começa a legitimar esse governo.” A frase foi dita por Julian Assange, criador do WikiLeaks, ao abrir, hoje cedo, o Info@Trends 2011. Assange, que falou por videoconferência, pois está em prisão domiciliar na Inglaterra, acusado de assédio sexual pela promotoria sueca, fez pesadas criticas a governos e também à imprensa. Segundo ele, as investigações do WikiLeaks demonstram que veículos de comunicação deliberadamente sonegam informações a seu público, citando nominalmente o The New York Times e o The Guardian.

Vários motivos explicam essa associação espúria entre a imprensa e governos (ou outras instituições ou companhias), mas as mais comuns são o medo de atentados e represálias políticas, e o interesse econômico das empresas de comunicação. Esses itens acompanham a história do jornalismo, mas o bom exercício da profissão sempre implicou em resistir a eles.

Sobre esse último, o jornalismo sério tradicionalmente se protege “associando-se” a seu consumidor –leitor, espectador ou internauta– que banca parte da produção com assinaturas e vendas avulsas. Com seus verdadeiros clientes pagando pelo conteúdo jornalístico, os veículos não precisam depender financeiramente de grupos externos. Dessa forma, os jornalistas podem exercer seu ofício de maneira independente.

Mas o que acontece quando esse mesmo público se recusa a pagar pelo conteúdo? Esse é o dilema que o jornalismo vem vivendo há uma década. Com a overdose de informação na Internet, criou-se a falsa e polêmica ideia de que o conteúdo deve ser gratuito. Falsa porque produzir jornalismo de qualidade custa dinheiro; polêmica porque é verdade que se pode encontrar bom conteúdo de graça na rede, normalmente produzido como atividade secundária ou de apoio por outras pessoas ou empresas.

O fato é que esse conceito trouxe a imprensa a uma crise econômica sem precedentes. Então seria legítimo, em nome da sobrevivência, trair o interesse do leitor, como Assange acusa os veículos de fazer?

Não estou inocentemente propondo que as empresas de comunicação nunca se vendem por interesses econômicos ou políticos. Mas vamos supor, para efeito de análise, que isso não seja pelo menos algo sistematicamente recorrente. Como os veículos podem então sobreviver com seus clientes resistindo a pagar pelo conteúdo e com suas fatias publicitárias minguando continuamente?

A verdade é que o bom jornalismo jamais perderá seu valor, porém o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por ele se corroeu pela enorme quantidade de informação gratuita. Em outras palavras, os consumidores ainda veem valor no bom jornalismo, mas talvez não queiram mais pagar por ele se tiverem, de graça, um concorrente que ofereça um produto inferior, mas “quase tão bom”.

Se não alterarem seu produto e seu modelo de negócios, não há saída para os veículos e as perspectivas são ruins para o futuro. Em um mundo onde as pessoas têm cada vez menos tempo para tudo, vivem sob crescente pressão e todas as atividades parecem ter a obrigação de lhes trazer ganhos imediatos, o que as empresas de comunicação e os jornalistas precisam entender –e praticar– é que o resultado de seu trabalho é, mais que nunca, um serviço. Dessa forma, precisa ser re-empacotado para atender a demandas específicas de cada indivíduo, suas necessidades pessoais quanto a assunto, freqüência e horário de publicação e até formato editorial.

Essa resposta não chega a ser uma novidade: eu já a trombeteio há anos. Mas ela ainda causa arrepios em publishers e editores, pois subverte conceitos que norteiam o jornalismo desde que ele se profissionalizou, no século 19. Por isso, resistem bravamente às mudanças, por mais que sintam a água chegando ao pescoço. Ainda não se sentem seguros para dar o salto no abismo do qual estão à beira. Não confiam que a mesma tecnologia digital que os colocou nessa incômoda posição seja também o caminho para que se reinventem, sobrevivam e prosperem.

Se continuarem assim, só lhes restará vender a alma ao diabo. Exatamente a ferida na qual Assange enfiou o dedo hoje cedo.

A educação brasileira continua dando vexame, mas tem jeito

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O Brasil tem todos os recursos para mudar a situação vexatória de suas escolas, mas precisa levar a sério, sem demagogia, o ensino

O Brasil tem todos os recursos para mudar a situação vexatória de suas escolas, mas precisa levar a sério, sem demagogia, o ensino

Este post não traz nada de novo. Mas a notícia que o motivou tampouco traz. Mesmo assim, o assunto foi manchete do Estadão na última sexta (também apareceu na primeira página de outros jornais) e rendeu um editorial no dia seguinte. Como explicar essa aparente contradição?

A notícia é o resultado da Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização), que avalia o quanto as crianças aprenderam ao final do terceiro ano do Ensino Fundamental. Foi aplicada em 6.000 crianças de 250 escolas públicas e privadas das capitais brasileiras. O resultado: 44% delas não aprenderam o esperado em leitura, 46,6%, em escrita e 57% em matemática. Mais: escolas particulares ensinam melhor que as públicas, e as melhores escolas estão no Sudeste e no Sul.

Para não dizer que não há nada de novo na história, foi a primeira vez que foram divulgados resultados de um exame nacional de avaliação do primeiro ciclo do Ensino Fundamental 1. Mas eles estão infelizmente alinhados com os resultados medíocres de todas as outras avaliações nacionais e internacionais, que colocam os nossos alunos em um nível vergonhoso, atrás até mesmo de nossos vizinhos mais pobres. Somos capazes de superar apenas nações miseráveis da África (só as miseráveis).

É curioso que, apesar dessas estatísticas, as classes brasileiras mais abastadas (e mais bem educadas, portanto) se divertem dizendo que norte-americanos não sabem qual é a capital do Brasil ou mesmo questões históricas sobre o seu próprio país. Fazem sua chacota como se os EUA fossem habitados apenas por um bando de Hommer Simpsons. Do alto de sua “superioridade” social, esquecem de (ou não querem) olhar para o próprio quintal. Os mesmos americanos dão um show internacional quando o assunto é educação básica e, mesmo que eventualmente não saibam que Buenos Aires é a capital da Argentina, e não do Brasil, sabem ler e escrever com propriedade, e a matemática não lhes é uma ilustre desconhecida. Além disso, quando os seus filhos chegam à faculdade –na mesma idade dos nossos– encontram à sua disposição as melhores universidades do mundo. No Brasil, as instituições públicas estão sucateadas e atendem a interesses eleitoreiros e demagógicos, enquanto as privadas se transformaram em caça-níqueis despreocupados com a formação profissional ou a produção científica.

Qual a solução? Diante dessa pergunta crítica, ouvimos as mesmas obviedades recorrentes: professores mais bem preparados e remunerados, uma política educacional consistente, escolas com boa infraestrutura e por aí vai. Claro, tudo isso é necessário, mas não é suficiente. A verdade é que se pode fazer muito com pouco, desde que esse pouco seja bem aplicado. E isso não quer dizer apenas nos itens acima, mas fazendo isso com planejamento, selecionando-se os melhores para serem professores e fazendo isso com amor. Sim, pois, para usar mais um clichê, a educação é mesmo um sacerdócio.

Quem quiser entender um pouco mais sobre o que estou dizendo deve assistir ao documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim, lançado em 2007. Ele foi a diferentes escolas do Brasil, entrevistando alunos, professores e coordenadores. No filme, pode-se ver alunos apenas interessados em “furar a professora”, coordenadores promovendo alunos completamente incapazes apenas para se verem livres deles, e professores deliberadamente faltando ao trabalho, pois os alunos os mandam “tomar naquele lugar” em plena sala de aula.

Mas felizmente essa não é a única realidade do Brasil. Tenho filhos com um desempenho escolar surpreendente, apesar de estudarem em uma escola relativamente pequena e com recursos proporcionalmente reduzidos, se comparados aos das torres de marfim que as grandes escolas se tornaram. E, deixando meu lado pai-coruja de lado, em salas com poucos alunos, com professores preparados e dedicados, com uma coordenação pedagógica de qualidade, vejo ali o Construtivismo dando os frutos esperados, com os Parâmetros Curriculares Nacionais sendo aplicados com sucesso.

O Brasil tem todos os recursos para mudar essa situação vexatória de suas escolas, mesmo com os desvios da corrupção. Mas precisa levar a sério, sem demagogia, o ensino. Os PCN são bons: precisam ser apenas bem aplicados. O magistério não pode continuar sendo um “bico” ou a “última opção” para quem não conseguiu outra profissão. E –sim– formar, remunerar, valorizar e dar todas as condições de trabalho ao professor. Assim, a educação se retroalimentará com elementos positivos. As crianças e o país agradecerão.

Alguém pode parar o iPad?

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O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP - Foto: divulgação

O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP

No dia 18, a Hewlett-Packard surpreendeu o mercado ao anunciar que estava abandonando o seu recém-lançado tablet, o TouchPad, que chegou a ser anunciado como um “iPad killer” e o primeiro passo de uma longa linha de produtos da empresa. Mas, com seu sistema operacional proprietário, o webOS, ele decepcionou nas vendas e foi sepultado pela companhia depois de míseros 67 dias no mercado.

E então uma coisa inusitada aconteceu: para queimar os estoques encalhados, a HP decidiu derrubar seu preço de US$ 499,99 para US$ 99,99 na versão com 16 GB de armazenamento, e de US$ 599,99 para US$ 149,99, no modelo de 32 GB. Instantaneamente o produto se transformou em um hit, com enormes filas sendo formadas nas lojas. Vendeu tudo! O próprio sistema de e-commerce da HP entrou em colapso com a inesperada enorme procura.

O valor percebido explica essa aparente contradição no comportamento dos usuários. O pessoal não topou pagar pelo TouchPad o mesmo que a Apple cobra pelo iPad 2. O webOS também parece ter jogado contra o tablet da HP, tanto que alguns usuários estão tratando de encontrar uma maneira de instalar o Android no TouchPad adquirido na bacia das almas.

Afinal, alguém pode bater a Apple e seu aclamado iPad? Nos últimos meses, pude experimentar vários concorrentes, todos rodando Android: pela ordem, Samsung Galaxy Tab e Galaxy Tab 2, STI myPad, Motorola Xoom e Lenovo ThinkPad Tablet. Todos eles tinham alguma (ou muita) coisa melhor que o iPad 2, alguns tinham um hardware claramente superior ao da Apple. Por que não conseguem então rivalizar em vendas com o iPad?

O problema está no Android. Não, o sistema operacional do Google é muito bom, em muitos aspectos superior ao iOS da Apple. Mas ele –especialmente a versão 3 (Honeycomb), criada para tablets– demorou a chegar, dando tempo para o iPad abrir uma enorme vantagem de mercado. Como resultado, os aplicativos para iOS estão muito mais maduros que os de Android, além de uma ter oferta mais ampla. Além disso, todos os principais produtores de conteúdo já abraçaram o iPad (muitos até o veem até como a tábua de salvação para uma indústria de mídia em crise), e só agora começam a pensar em produtos para os tablets Android.

Por conta disso, a Apple está sozinha demais nesse jogo. Dita regras draconianas para a comunidade de desenvolvedores de software e de conteúdo. Até mesmo seus usuários são obrigados a fazer as coisas do seu jeito (alguém aí já tentou colocar –sem pagar– sua música preferida como toque em um iPhone, algo ridiculamente simples em qualquer outro celular?).

Por isso, o movimento da HP foi um balde de água fria para aqueles que –como eu– esperam pelo surgimento de concorrentes que enfrentem o iPad de igual para igual. O hardware dos mais recentes tablets Android já chegaram lá. O Android em si também. Falta melhorar a oferta de aplicativos e de conteúdo.

Não podemos esquecer do Google, com Larry Page de novo no timão. Acaba de comprar a divisão de mobile da Motorola pela bagatela de US$ 12,5 bilhões. Não há dúvida que coisa boa sairá disso. A briga dos tablets ainda vai esquentar. Que bom! Tomara que derreta metal!