All posts by Paulo Silvestre

O valor da notícia

By | Jornalismo, Tecnologia | No Comments
Na Web, o valor de uma reportagem pode ser tão pouco quando R$ 0,01

Na Web, uma reportagem pode salvar um veículo jornalístico valendo apenas R$ 0,01

Quanto vale, do ponto de vista do leitor, um texto de um jornal? Se dividirmos o preço de capa pela quantidade de retrancas, chegaríamos a algo na casa de R$ 0,01. Como ninguém lê o jornal inteiro, podemos relativizar esse valor para, digamos, R$ 0,05.

Agora deixe-me refazer a pergunta acima de outra forma: quanto o leitor -mesmo você- pagaria por UM texto jornalístico na Internet? Essa é mais difícil. Com tanto conteúdo oferecido de graça na rede -e muito dele é efetivamente bom- parece não fazer sentido gastar seu tempo e seu dinheiro com um “conteúdo fechado”. Muitas vezes, a concorrência está dentro de casa, como na Folha de S.Paulo: a Folha Online oferece jornalismo de qualidade e grátis na Web, enquanto a versão online do jornal impresso continua fechada a assinantes.

Essa dura contestação está abatendo os jornais e revistas, que perdem leitores para a Internet, dramaticamente arrastando com eles as receitas de publicidade, de assinaturas e de vendas nas bancas. Não é uma visão apocalíptica: veículos centenários estão quebrando! E as grandes casas editoriais não sabem ainda como lidar com isso. Muitos insistem em “fechar” o seu conteúdo para os assinantes do veículo em papel. É um movimento estúpido de luta contra “o resto do mundo”, que só faz sentido na cabeça dos donos desses veículos, que acham que blogueiros e outras novidades da Internet estão lhes “roubando” seus consumidores. Bom, bem-vindos à realidade! Não apenas os não assinantes continuarão sem consumir a versão em papel de seus produtos, como também o veículo perderá a chance de ganhar algo com eles em sua versão online.

Mas o “problema” é que produzir jornalismo custa dinheiro, e bom jornalismo custa mais ainda. Apesar de o conteúdo grátis ter um apelo irresistível, o público sabe separar o joio do trigo e eventualmente escolherá o bom jornalismo, mesmo pago (é o que vem acontecendo nos últimos séculos). Mas só farão isso se lhes fizer sentido. Sendo mais didático: só pagarão se acharem que o preço é justo pelo que receberão, diante da concorrência mais barata. Mais que isso: o processo precisa ter uma simplicidade atroz, como se propõe a Web. Afinal, o usuário estaria comprando um produto com custo marginal e o usaria apenas pelo tempo de leitura do texto. Não dá para ser mais complicado que isso.

Esse é o conceito do micropagamento, que muita gente seríssima da indústria de mídia está abraçando. Na matéria de capa da Time de 5 de fevereiro (reproduzida no Estadão em português), Walter Isaacson, ex-editor da revista, aposta nele para salvar os veículos. Steve Brill, um dos principais observadores da mídia nos EUA, publicou um documento para “salvar o New York Times e o próprio jornalismo“, que se baseia no mesmo conceito.

Faz sentido. Ou não… Em tese, isso é correto e faço votos que esse ou outro modelo econômico realmente dê certo e seja abraçado pelos usuários. Eu amo jornalismo -bom jornalismo- mas os jornalistas precisam ganhar para o leitinho das crianças. O desafio é criar um sistema de pagamento que seja realmente simples -o que não existe ainda para notícias (existe o iTunes para música e vídeos). E que os editores admitam que o preço de uma reportagem pode ser até mesmo R$ 0,01.

Virando a página

By | Tecnologia | No Comments
O Kindle 2, e-book da Amazon que deve vender 500 mil unidades só neste ano

O Kindle 2, e-book da Amazon que deve vender 500 mil unidades só neste ano

O que torna um livro tão especial? Além de questões sensoriais e eventualmente emocionais do leitor (coisas como “gosto do cheiro de livro novo”), ele é sem dúvida um invento brilhante pela sua simplicidade e eficiência no que se propõe, além de uma portabilidade invejável.

Há uma outra coisa o coloca adiante de todos os candidatos a ocupar o seu espaço no coração dos leitores: todo mundo sabe usar um livro. Bobagem? Não é! Aprender qualquer nova tecnologia significa ao usuário sair da sua zona de conforto, e os livros têm 554 anos de dianteira sobre a concorrência, desde que Gutenberg terminou de imprimir a sua primeira Bíblia, em março de 1455.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=9LMQhrXThDk]O vídeo acima, uma esquete norueguesa, ilustra com bom humor o que significa aprender uma nova tecnologia, no caso o uso justamente de um livro, lá pelo século XV.

Quem está mais perto de conseguir a proeza de roubar os leitores dos livros tradicionais é o Kindle, e-book da gigante Amazon. Seu principal trunfo é justamente imitar com relativo sucesso um livro: sua tela mimetiza o papel, sem cansar a vista, pode ter suas páginas “viradas” e até permite anotações de rodapé. O tamanho e o peso também lembram um livro. E traz vantagens contra as quais um livro não pode competir: leva uma biblioteca inteira em sua memória (uma média de 1.500 livros), permite comprar livros, audiolivros e periódicos em qualquer lugar (nos EUA) e até mesmo oferece livros mais baratos.

Sim, mais baratos! O conteúdo de um livro pode ser distribuído por diferentes mídias, e papel custa dinheiro. Se você se livra desse custo, nada mais justo que o preço da obra também caia.

Não é de se admirar que os vendedores de enciclopédia não batam mais às nossas portas.

Tirando o trema da linguiça

By | Educação | No Comments
Capa da quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

Capa da quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

A ABL (Academia Brasileira de Letras) finalmente lança, no dia 19 de março , o novo “Volp”, o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, publicação que funciona como guia para todos os dicionários do país. Não se trata de um “dicionário-pai”, mas de um volume que traz a grafia correta das palavras do nosso idioma. Apesar de estar organizado em ordem alfabética, como um dicionário, ele não traz nenhuma definição, apenas classificações gramaticais.

Essa quinta edição da obra, com seus 349.737 palavras, foi muito aguardada, pois é a primeira que contempla as novas grafias do acordo ortográfico entre os países de Língua Portuguesa, que passou a valer no dia 1º de janeiro. Ironicamente, apesar de as regras terem sido criadas para unificar a grafia entre os países, elas deixaram várias dúvidas por incluírem, em sua redação, juízos de valor (como “consagradas pela tradição”) ou escalas imprecisas (como “em certa medida”).

Vale perguntar o que acontecerá com todos os dicionários que a maioria das editoras se apressaram para lançar no ano passado, na ânsia de colher uns cobres colocando um selo “conforme o novo acordo ortográfico” na capa. Elas não estavam mentindo: de fato, essas edições foram revistas à luz das novas regras. Mas é improvável que qualquer um deles tenha acertado em todos os casos duvidosos. Com isso, essas obras ficam imprecisas diante do novo “Volp” e necessitarão ser revistas. Apesar de percentualmente essas palavras representarem quase uma nulidade, estarão lá. Pior para quem já comprou.

Curiosamente a Microsoft decidiu aguardar a liberação do Volp para atualizar os seus corretores ortográficos, como os que verificam as palavras do Office. Decisão acertada.

Agora só falta convencer os outros países que a grafia do “Volp” para os casos duvidosos são as que devem valer. E o Brasil proporá isso. A conferir o resultado.

Os jornais vão acabar?

By | Jornalismo, Tecnologia | No Comments
Rich Boehne, CEO da E.W. Scripps Co., controladora do Rocky Mountain News, anuncia o fechamento do jornal à equipe

Rich Boehne, CEO da E.W. Scripps Co. (ao centro), controladora do Rocky Mountain News, anuncia o encerramento do jornal à equipe

Quando eu entrei no mundo de mídias digitais, eu já ouvia essa pergunta. Naqueles idos de julho de 1995, a Web não passava de um punhado de páginas feiosas e estáticas, mas a Internet já era temida como uma potencial ameaça aos jornais e às revistas. Afinal, ela era rápida e “grátis”. Ou pelo menos, já naquela época, era muito mais barato publicar algo online que no mais vagabundo dos papéis.

Curiosamente, nos anos 1990, os jornais tentavam mimetizar a televisão com projetos gráficos mais diretos e coloridos. O maior expoente desse movimento foi o USA Today, que se transformou em um ícone (sem trocadilhos, ok?), seguido por uma legião de jornais de todo o mundo, inclusive no Brasil.

Passados quase 13 anos, a Web, muito mais espetacular e indefectivelmente presente na vida do cidadão comum (e não apenas como fonte de notícias), não matou os jornais. Ainda. Mas algo parece estar mudando. Enquanto os números das mídias digitais apontam para cima (depois de uma década de prejuízos retumbantes), a mídia impressa amarga um share publicitário cada vez menor, tiragens reduzidas e êxodo de leitores. A maioria deles vai para a Web. Pesquisa do Pew Research Center indica que o consumo de notícias cai em todas as faixas etárias, exceto entre os 25 a 35 anos. Considerando que esse grupo é a base da sociedade de consumo, é uma boa notícia para os veículos de comunicação. Mas não os impressos: essa turma não põe a mão no jornal ou na revista, apenas Web e algo de TV.

Ruim, né? Na verdade, é pior, especialmente no mercado norte-americano, mais severamente afetado pela atual crise econômica. Receitas cada vez menores andam de mãos dadas com dívidas contraídas há alguns anos, que estão se tornando impagáveis com as vacas magras. Os veículos, alguns deles centenários, estão à beira da falência -ou já estão nela. Muitos cogitam seriamente a possibilidade de passar a existir apenas na Web, com Redações mais enxutas e sem os enormes custos gráficos. Entre eles, estão o Seattle Post-Intelligencer e o Tucson Citizen.

No dia 27 de fevereiro, veio uma baixa significativa: o Rocky Mountain News, de Denver, publicou a sua última edição, a míseros 55 dias de completar 150 anos de jornalismo. Não há lugar para dois jornais na cidade (sobrou o The Denver Post). Não deu “tempo” de abraçar uma versão online apenas.

É uma enorme tristeza. Como escreveu em seu blog o colunista Mike Littwin, “jornais não fecham simplesmente: eles morrem.”

Será que a ameaça de 1995 começa a se concretizar afinal?

A dita branda

By | Jornalismo | No Comments
Chávez: mais duro que milicos, segundo a Folha

Chávez: mais duro que milicos, segundo a Folha

Existem ocasiões em que um simples termo pode manchar profundamente a reputação de alguém, uma empresa e até mesmo de um veículo de comunicação. No caso desse último, o dano é enorme, pois sua reputação é a base do relacionamento com seus consumidores e a bandeira que deve ostentar diante do público. Bom, pelo menos os veículos sérios.

Nós, jornalistas, apesar de todo o discurso de zelo, frequentemente somos apanhados escorregando na ética. Nem me refiro a certos semanários, que fazem desses deslizes uma ferramenta de destruir opositores, mas de profissionais sérios. No dia 17 de fevereiro, aconteceu algo assim com a Folha de S.Paulo, em editorial intitulado “Limites a Chávez“. Criticando a apertada vitória do presidente venezuelano no referendo que lhe permitiu a re-eleição indefinidamente, o editorial largou um “ditabranda” para classificar o regime militar brasileiro de 1964 a 1985, pois ele teria sido -como sugere o neologismo- mais brando que outras ditaduras, inclusive a do próprio Chávez.

Provavelmente nunca saberemos o que se passou pela cabeça do autor, mas é difícil de acreditar que um editorialista de um jornal do porte da Folha possa ser tão descuidado, a ponto de ser inocente. A expressão até fazia sentido na construção do raciocínio exposto, cujo objetivo era bater no presidente venezuelano. Mas não bastasse a completa falta de sensibilidade diante da mazela social que a referida “ditabranda” provocou no Brasil, a informação é simplesmente errada. O caudilho de Caracas é uma afronta à democracia (apesar de ele dizer o contrário), mas a turma da farda tupiniquim foi bastante “convincente” nos Anos de Chumbo. No mínimo, matavam e torturavam mais que o idealizador do ridículo “socialismo bolivariano”.

A mancada provocou uma enxurrada de críticas de diferentes setores da sociedade, claro. E aí a Folha mancou pela segunda vez em seguida, no mesmo assunto, publicando posições que desqualificavam seus críticos. Foi soberba e corporativista frente a reações legítimas diante de uma barbaridade. E usou suas páginas para negar a pluralidade de opiniões que sempre foi um de seus estandartes e orgulhos.

Mas tudo há de passar, não é mesmo? Espero que não! Assim como no infame caso da Escola Base, em que órgãos de comunicação execraram seis pessoas em março de 1994 por suposto abuso sexual de crianças da escola (a investigação depois não conseguiu levantar sequer indícios disso), esses deslizes devem ser lembrados e estudados nas escolas de comunicação para que os futuros jornalistas não tenham esse repugnante senso de descaso com o outro que infelizmente muitos de nós carregamos.

Entrando no aluguel (que bom!)

By | Educação, Tecnologia | No Comments

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo anunciou uma iniciativa que deve melhorar e muito a situação dos laboratórios de informática das escolas estaduais: está trocando o modelo de compra de computadores pela locação de equipamentos. A idéia vem ganhando cada vez mais espaço em empresas, e o motivo é simples: microcomputadores estão entre os itens que ficam obsoletos mais rapidamente em qualquer lugar. Com os contratos de locação ou leasing, as companhias mantêm seu parque de máquinas sempre atualizado, livrando-se do que está ficando velho. É o que o governo quer agora para as escolas do Estado.

Não é pouca coisa: substituição de 75 mil computadores existentes em laboratórios e secretarias das escolas e acréscimo de outros 30 mil. E os equipamentos não são nada modestos: processadores com dois núcleos (dual core), 2 Gbytes de memória RAM, 160 Gbytes de disco e monitor LCD de 17 polegadas. Os equipamentos devem vir com Windows Vista e Office 2007. Preço da brincadeira: R$ 400 milhões por um contrato de 48 meses. Quem levou: o consórcio Educat, formado pelas empresas CTIS e Diebold.

Se a proposta der certo -e tem tudo para dar- é um modelo a ser copiado por todo o país. Em São Paulo, cujas escolas públicas estão em situação (bem) mais favorável que a grande maioria do que se vê pelo Brasil, mais da metade dos equipamentos tem mais de cinco anos de idade. Pode parecer pouco, mas é o suficiente para inviabilizar o uso de programas mais modernos, justamente aqueles que são capazes de atrair a atenção das crianças: elas já chegam na escola com uma linguagem multimídia e uma capacidade de realizar várias coisas ao mesmo tempo (são “multitarefa”) que a sala de aula e os professores não conseguem acompanhar, mesmo na rede particular. No ensino público, o abismo entre mestres e pupilos fica ainda maior, pois os professores têm uma formação mais deficiente e, portanto, sofrem mais para acompanhar essa demanda.

Resta agora saber se e como os professores receberão algum tipo de capacitação para fazer um bom uso desse poder computacional. E isso não significa apenas saber como ligar a máquina, e sim ser capazes de -e motivados para- constantemente criar atividades pedagógicas que sejam beneficiadas pela informática. Precisam de treinamento, orientação e ferramentas (incluindo softwares educacionais de qualidade). Se não for assim, continuaremos vendo laboratórios fechados porque os professores não sabem o que fazer ali ou porque o diretor tem medo que os equipamentos sejam roubados. Se der certo, a criançada e o país agradecem.