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A Internet conhece você melhor que sua mãe

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Foto: Adam Mancini / Creative Commons

Nessa semana, fui apresentado a mais um sistema online que parece conhecer meus amigos melhor que eu mesmo, e é capaz de detectar traços da minha personalidade que talvez nem minha própria mãe saiba. Isso tudo sem responder a nenhuma pergunta, em poucos segundos. Quando me deparo com algo assim, sempre penso que vivemos na era do fim da privacidade, liquidada pela combinação de algoritmos astutos, enorme capacidade de processamento e nossa vida cada vez mais online.

Não se trata do primeiro serviço que faz isso. Facebook e Google, só para ficar nos mais óbvios, detêm uma quantidade inimaginável de informações parametrizadas sobre cada um de nós, que sabem como transformar em dinheiro. Nesse mesmo espaço, já discuti também sobre o Apply Magic Sauce, criado pela da Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido), capaz de realizar uma impressionante análise psicológica do usuário, tendo, como base, apenas suas “curtidas” no Facebook.

O que me chamou a atenção sobre o novo serviço, chamado Crystal, é que ele não precisa ter acesso à conta do Facebook, Google, Twitter, LinkedIn ou qualquer outra do indivíduo. Na verdade, você pode saber como a pessoa é sem sequer ser amigo dela. Basta digitar o seu nome e identificá-la entre possíveis homônimos. A “mágica” se dá pela análise de conteúdos públicos na Internet atribuídos ao indivíduo.

O sistema oferece uma estimativa de precisão, que cresce à medida que encontra mais informações na rede sobre o pesquisado. Se encontrar pouca coisa, informa que o relatório pode não ser confiável. Por outro lado, se atinge um patamar mínimo, ele sugerirá como você deve se comportar quando estiver conversando com a pessoa, enviando-lhe um e-mail ou trabalhando com ela. Ainda dirá o que é natural ou não para o pesquisado.

Sobre mim, o Crystal lembra que, ao falar comigo, não se deve perder o foco no todo, enquanto é aceitável usar emoticons em e-mails. Também é bem-vindo, por exemplo, usar tempo para explorar novas ideias quando trabalhar comigo. Acerta quando diz que falo sem rodeios e que não me ofendo com piadas de gosto duvidoso.

Tudo isso só a partir de um nome.

 

Somos livros abertos

Nunca a expressão “minha vida é um livro aberto” foi tão verdadeira. Só não é perfeita porque as informações hoje não são mais tão coletadas dos livros, e sim da Internet.

O problema é que nem sempre o “dono do livro” gostaria que ele estivesse assim escancarado. Mas, verdade seja dita, é um problema cada vez menor, pois as pessoas vivem um momento de deliberadamente se expor ao mundo, especialmente nas redes sociais, muitas vezes de maneira exagerada e até perigosa.

Mais sensível que isso é o fato de que aparentemente falta à população a consciência da amplitude desses seus atos. Embarcamos na superexposição por diferentes motivos: para “fazer parte do grupo”, para nos sentirmos queridos (ou vistos), para expressar nossos sentimentos e crenças (boas e ruins). Há também o compartilhamento de informações, às vezes íntimas, com aplicativos nos celulares ou nas redes sociais: abrimos mão da nossa privacidade pelo simples desejo de usar algo novo, desde uma incrível inovação, até um simplório brinquedinho.

Conscientemente ou não, espalhamos nossas pegadas digitais o tempo todo. Essa é a realidade posta, e não há volta disso. Crystal, Apply Magic Sauce e todos os recursos do Google e do Facebook são exemplos de como alimentamos o sistema, e dele recebemos algo em troca.

Não é tão ruim quanto as ficções distópicas de “1984” ou de “Matrix”, mas estamos sendo sempre vigiados nessa nossa relação simbiótica com o sistema. Mas nem mesmo Neo ou o Grande Irmão pensaria em algo tão complexo e eficiente.

Ativismo digital desperta engajamento e simboliza uma nova geração politizada

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nas grandes manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, ficou famosa a hashtag #vemprarua, que conclamava a população a participar das passeatas que estavam acontecendo. Ela vinha de mãos dadas com a ideia crescente de que fazer política só pelas redes sociais não era suficiente. Porém, passados dois anos, percebe-se que esse discurso é enviesado e que o “ativismo digital” representa muito mais que simplesmente alguém que não quer sair do sofá para fazer política.

Na semana passada, a F/Nazca, com o apoio da cRica Consulting e do Datafolha, publicou os resultados da 15ª edição da F/Radar, pesquisa que investiga os impactos da tecnologia na cultura e no consumo. Ela gerou um documentário, batizado de “Democracia Conectada”, que pode ser visto abaixo:

Os resultados demonstram que a combinação da enorme penetração das redes sociais (especialmente o Facebook) e dos smartphones entre os brasileiros criou elementos que permitem o engajamento da população nas mais diferentes causas. Elas vão desde a organização de megamanifestações completamente desvinculadas de grupos políticos, até a defesa de pequenas causas urbanas, como a preservação de uma praça ou um parque.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os números que apontem que, dos quase 30 milhões de ativistas digitais no país, 80% se envolveram com causas pelas redes sociais, e que metade dos que participaram online também o fizeram indo para a rua. E mais: 60% dos internautas acreditam que as redes sociais podem mudar sua opinião sobre algum problema social e 40% afirmam que a mobilização online contribui para que participem presencialmente.

São números que demonstram um comportamento novo.

 

No sofá sim; apático não

Conclusões políticas e comportamentais muito importantes e interessantes podem ser tiradas disso.

A primeira delas é que esse tipo de engajamento está totalmente alinhado com uma nova linguagem urbana, que vem se desenvolvendo em todas as classes sociais: cada vez mais as pessoas conversam pelo meio digital, especialmente pelos smartphones. E, apesar de esse diálogo ser, de alguma forma, empobrecido por não acontecer presencialmente, diante do interlocutor, ele acaba sendo muito amplo. Fala-se sobre mais temas, e com mais gente. E, nesse cenário, fala-se até com desconhecidos de uma maneira inimaginável há alguns anos.

Essa característica essencial das redes sociais parece ter sido definitivamente integrada ao comportamento do brasileiro urbano, especialmente entre os mais jovens. E está na base desse crescimento do ativismo digital reportado pela F/Nazca.

Outra coisa que se observa é o sentimento de que as redes sociais são um palanque tão importante quanto as ruas, talvez até mais. Dezenas de milhares de pessoas em uma passeata certamente causam um grande impacto, mas esses eventos não acontecem sempre, são pontuais. As redes sociais, por outro lado, estão continuamente no ar, e as postagens políticas de cada usuário têm potencial de se propagar rapidamente pela rede, seguindo os seus critérios. Dessa forma, graças à tecnologia, estamos assistindo a uma nova forma de se fazer política, que pode ser profundamente engajada, mesmo sem precisar sair do sofá.

Naturalmente há de se argumentar que possivelmente a maior parte disso tudo seja apenas ruído causado por discursos vazios. Muito se fala, muito se critica, pouco se propõe. Afinal, é divertido bater em quem não gostamos, principalmente quando o alvo já está em situação delicada. O ditado “chutar cachorro morto” ganha nova dimensão nas redes sociais, com os amigos que pensam igual sobre determinado tema surgindo para ajudar no linchamento online.

Sobre isso, faço dois comentários. Sim, esse comportamento existe e está até mesmo criando uma polarização na sociedade nunca vista no Brasil. Mas isso, por mais ocas que sejam as palavras, já é fazer política.

Além disso, quem tem participado das últimas grandes manifestações de rua percebeu que aquilo era um verdadeiro carnaval de ideias completamente dissociadas entre si, até mesmo antagônicas. Tudo debaixo de um mesmo guarda-chuva democrático, que também abrigava aqueles que estavam lá só para curtir. Nada mais natural: a passeata é uma manifestação materializada na rua do discurso nada virtual das redes sociais, que, aliás, foram usadas para organizar o movimento.

Tudo isso passa uma sensação de que temos ainda muito a evoluir na nossa consciência política, para que paremos de chutar o cão moribundo e passemos a criar propostas concretas para o nosso país. Mas vejo com bons olhos como os meios digitais estão promovendo uma mudança maiúscula em mais um elemento da nossa sociedade. Estamos vendo o nascimento de uma nova geração politizada, com linguagem e estilo próprios.

Violência contra a mulher começa em casa, passa pelo MasterChef e desagua nas redes sociais

By | Educação, Tecnologia | 3 Comments

Foto: CMYKane / Creative Commons

A edição mirim do MasterChef começou no dia 20 com uma de suas participantes, Valentina, de 12 anos, sendo alvo de comentários sexistas nas redes sociais. Cinco dias depois, o tema da redação do ENEM abordou justamente a violência contra as mulheres, e novamente o assunto inundou a Internet. Sempre acredito que o debate enriquece ideias, mas o que eu vi nesses dois casos é assustador.

No caso de Valentina, apenas uma criança, os impropérios dirigidos gratuitamente a ela já seriam imperdoáveis por si só. Mas o que se viu foi as redes sociais funcionando como caixas de ressonância para as barbaridades. Pessoas curtindo tudo aquilo e outras engrossando o caldo do horror, sem a menor preocupação de serem identificados a partir de seus perfis.

Os assediadores acham que tudo isso é mais que normal: seria perfeitamente aceitável pela nossa sociedade. E essa sensação tem origem no fato de que, no Brasil, a coisa é mais ou menos assim mesmo. A culpa recai sobre a vítima, como se ela fosse culpada pelo problema.

Fico imaginando o que Valentina teria feito para ser alvo de tudo aquilo e simplesmente não consigo encontrar nada. A começar porque nada justificaria o fato.

Meu sentimento foi reforçado pelo ENEM. Muita gente, candidatos ou não, se sentiu ofendida com a proposta da redação, como se estivessem sendo forçados a assumir uma posição “feminista” (a menos, é claro, que quisessem levar um zero) e isso fosse uma ofensa a sua honra, talvez sua masculinidade. Era como se escrever um texto combatendo à violência contra as mulheres, o que pode ser facilmente extrapolado para violência contra seres humanos, fosse algo penoso, que lhe fosse suprimir algum direito bizarro.

As aspas em “feminista”, no parágrafo anterior, foram propositais. Fica muito claro que a maioria das pessoas não entendem o que o termo significa (vou dar uma ajudinha com duas boas definições, do site Significados e da Wikipedia). De volta às redes sociais, assisti perplexo a pessoas com seu discurso de ódio contra a prova, baseado nas premissas acima. Também vi gente dizendo que a prova era uma doutrina “da esquerda” e que até se tratava de uma ameaça à família. Mas a minha esperança de uma sociedade melhor foi realmente abalada quando eu vi mulheres dizendo isso tudo.

Mulheres criticavam publicamente uma crítica à violência contra a mulher.

 

Impunidade e idiotismo

As redes sociais despertam características curiosas em alguns indivíduos.

A primeira delas é uma falsa sensação de impunidade, quase como se não pudéssemos ser alcançados em nossa “vida online”. Nela, fazemos coisas que jamais faríamos “presencialmente”, e essa característica se manifesta com bastante força nas redes sociais. Sempre gosto de usar, como exemplo, um álbum de fotos da família. Quem iria a uma praça e ficaria mostrando as fotos de seus filhos a desconhecidos? Então por que fazem isso nas redes sociais?

Isso explica parcialmente porque as pessoas publicaram tudo o que foi dito acima sobre o ENEM e sobre Valentina com os seus perfis reais. Estão lá para serem inequivocamente identificados, mesmo quando o que diziam poderia ser considerado crime em diferentes artigos do Código Penal. É verdade que muitos trogloditas diriam tudo aquilo também presencialmente, mas outros o fizeram apenas por se sentirem protegidos por esse véu inexistente da “vida online”.

Acontece que não existe essa história de “vida online” e “vida presencial”. As duas são apenas diferentes expressões de uma única realidade. Somos seres indivisíveis e, como tal, respondemos pelo que fizermos em qualquer lugar, mesmo no ciberespaço.

A segunda característica, prima da anterior, é uma espécie de ciberidiotismo. Assim como estar online causa a algumas pessoas a sensação de estar acima da lei, também destrava em um grupo o pior de sua personalidade, derrubando qualquer limite moral que tenham para fazer valer suas premissas.

Entendo que muita gente não goste do atual Governo Federal, e não estou aqui julgando ninguém por isso. Mas de repente notei que esse posicionamento político legítimo se misturou ao tema da redação. Afinal, por esse raciocínio, se o ENEM é feito pelo Ministério da Educação, logo tudo que ele propõe deve ser ruim, uma “doutrinação de esquerda”, uma “lavagem cerebral terrível” e, portanto, até mesmo combater a violência contra mulheres na redação deve ser algo condenável.

É triste ver a tecnologia sendo usada em atitudes que pioram a nossa sociedade, a despeito de seu potencial para melhorá-la. Para casos como os descritos acima, vejo o Direito e a Psicologia como as disciplinas do conhecimento humano necessárias para corrigir os excessos e os desvios.

Sobre a prova do ENEM, só posso dizer que ela cumpriu bem o propósito de levantar uma discussão tão importante na sociedade, ainda que o caminho tenha sido mais tortuoso que o que seria necessário. E, para Valentina, espero que o amor e o carinho de familiares e amigos a ajudem a passar por esse assédio da melhor maneira possível.

Depois de mudar o jeito de ver TV, Netflix agora mira o cinema e até o jornalismo

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Cena de "Beasts of No Nation", primeiro filme da Netflix para o cinema - Foto: divulgação

Cena de “Beasts of No Nation”, primeiro filme da Netflix para o cinema

Na última sexta, a Netflix estreou “Beasts of No Nation”, seu primeiro longa-metragem para cinema. Dois dias antes, seu CEO, Reed Hastings, e seu diretor de conteúdo, Ted Sarandos, anunciaram a intenção de investir em jornalismo nos próximos anos. Se fosse outra empresa, essas poderiam ser apenas duas decisões isoladas, mas, nesse caso, elas podem representar o início de mudanças maiúsculas no mundo cinematográfico e do noticiário.

O Netflix é uma das empresas mais inovadoras do momento, não apenas pela sua eficiência e pela simplicidade de seu produto, mas porque, graças a elas, conseguiu modificar a maneira como as pessoas veem televisão. Ela não inventou o conceito de vídeo sob demanda, mas o popularizou em uma interface simples e presente em todo tipo de plataforma tecnológica, a um preço justo.

Porém a verdadeira mudança deriva disso tudo: dar ao consumidor a capacidade de escolher o que assistir, na hora que quiser e com o dispositivo que preferir. E esse poder fica ainda mais evidente nas séries, cujos capítulos de uma temporada são oferecidos todos de uma só vez, e não mais um por semana. Dessa forma, se o consumidor quiser, pode assistir a todos na sequência. Pode parecer uma bobagem, mas essa possibilidade coloca em xeque o conceito de grade de programação, algo sobre o qual se monta os modelos de negócios das emissoras de TV abertas e por assinatura

“Beasts of No Nation” (sem título em português) estreou em apenas 31 salas independentes nos EUA (nenhuma no Brasil). Isso é insignificante em um país com cerca de 40 mil salas de cinema. Não se trata de um filme ruim: pelo contrário, “Beasts” traz um retrato cru e contundente do flagelo das crianças-soldado na África, elaborado meticulosamente para tentar abocanhar prêmios importantes, inclusive algum Oscar.

Mas então por que tão poucos endereços estão exibindo a produção original da Netflix?

 

Boicote contra a inovação

Acontece que a empresa decidiu lançar o filme em sua plataforma no mesmo dia em que saía no cinema. Normalmente são exigidos pelo menos 90 dias de embargo após a estreia nas salas para que um filme chegue a qualquer outra plataforma ou mídia, temendo a canibalização das bilheterias. A Netflix acha que isso pode ser mudado. Os grandes conglomerados de exibição, como Cinemark e UCI, acham que não. Por isso, boicotaram “Beasts” em massa.

A inovação nem sempre é compreendida. Mas a indústria do cinema deveria, pois já foi ameaçada por inovações antes. A turma na faixa dos 40 anos deve se lembrar do frenesi causado pelo lançamento do VHS. Na época, dizia-se que as fitas acabariam com as salas de cinema. Em um primeiro momento, isso parecia ser verdade, pois muita gente começou a deixar de ir ao cinema para alugar filmes. Mas a culpa não era do VHS, que oferecia uma imagem ruim, exibida em uma TV de tubo pequena em nossas casas. A culpa era do próprio cinema: as salas eram quase sempre reduzidas, abafadas, cheirando a mofo, com projeção e som ruins, poltronas desconfortáveis e uma pipoca horrorosa. Diante dessa oferta, migrar para o VHS parecia uma alternativa vantajosa.

Foi quando as exibidoras deixaram o chororô de lado e investiram na criação de salas incríveis, que proporcionassem uma experiência realmente marcante. Algo que o VHS e seus sucessores DVD e blu-ray jamais poderiam imitar. Assim, cada um encontrou o seu lugar no mercado, e as salas de exibição estão cheias como nunca.

Mas agora podem argumentar que a Netflix está querendo acabar com o embargo, que sempre existiu. Isso é uma visão míope e protecionista, de alguém que quer matar no peito um tsunami que se aproxima.

Sempre se deve dar ao consumidor a escolha. E isso significa, nesse caso, a Netflix oferecer logo os filmes e as salas de cinema continuarem a oferecer uma experiência diferenciada. Uso pesadamente o serviço online, mas também estou sempre no cinema, que adoro. Aliás, adoraria ver “Beasts” na telona, se possível em uma sala IMAX.

Mas quero ter a opção em minhas mãos.

 

Um novo jornalismo

Agora a empresa vem com essa história de produzir conteúdo jornalístico próprio. Quem vai gritar contra?

Ao contrário do cinema, as grandes empresas de jornalismo estão quase todas moribundas. Chegaram a essa situação por culpa exclusiva delas mesmas, que resistiram (e ainda resistem) a mudar seu produto, seu modelo de negócios e o relacionamento com seu público, mesmo com as pessoas migrando para alternativas mais modernas e vantajosas.

Nesse caso, não vejo o Netflix enfrentando resistência, pois os veículos tradicionais não têm fôlego para isso. Contemplarão mais uma nova empresa fazendo bem a função em que antes eram mestres, pelo simples fato de realizar um trabalho sério e adequado a realidade vigente. E, novamente, dando ao consumidor o poder da escolha.

Jeff Bezos, criador e dono da Amazon, comprou The Washington Post há dois anos, e está salvando o jornalão com sua visão pragmática de negócios e com amplos investimentos em tecnologia e jornalismo. O futuro da notícia parece cada vez mais vinculado aos gigantes da tecnologia digital.

Se a Netflix ganhará o Oscar, só o tempo dirá. A premiação nunca foi exclusivamente por critérios artísticos, e os interesses dos exibidores certamente pesam entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A empresa precisará convencer os decanos de Hollywood que não está destruindo o cinema. Ou então trilhar o caminho contrário: cativar irremediavelmente o público com sua nova proposta e esperar que a pressão popular faça o resto.

Uber mostra que políticos são reféns de máfias e ignoram economia compartilhada

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Taxistas do Rio protestam contra o Uber - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Creative Commons

Taxistas do Rio protestam contra o Uber

Na última quinta (8), Fernando Haddad, explicou como espera resolver a crise entre os taxistas da cidade e o Uber. Com um discurso pretensamente moderno, o prefeito de São Paulo não apenas piorou o imbróglio, como também, a exemplo de seu colega do Rio, Eduardo Paes, demonstrou que não entende absolutamente nada de economia compartilhada.

Esse novo conceito subverte modelos de negócios consolidados em favor da população, com usos criativos da tecnologia. Com ele, alguém que possua um recurso ocioso -no caso, um carro- pode oferecê-lo parcialmente a quem estiver disposto a pagar por isso. Dessa forma, minimiza-se a necessidade de se comprar novos carros, otimizando o uso dos já existentes. De quebra, os proprietários passam a ter uma renda extra, enquanto os consumidores ganham novas e interessantes ofertas de produtos e serviços.

A suposta “solução” da prefeitura foi a criação de uma nova categoria de táxis, batizado de “táxi preto”, uma referência à cor que os carros deverão ter, a mesma dos veículos do Uber. Também igual ao praticado pela empresa, os motoristas só poderão ser chamados a partir de um aplicativo, a ser fornecido pela prefeitura. Para participar da nova categoria, o motorista deverá ser agraciado com uma das 5.000 licenças que serão sorteadas pela administração municipal e ainda pagar uma taxa que pode chegar a R$ 60.000. Ou seja, contrário a tudo o que a economia compartilhada prevê.

Desde que o Uber chegou a São Paulo, tenho debatido o assunto com motoristas da empresa e com taxistas. Do segundo grupo, tirando os radicais que acham que “Uber bom é Uber morto”, ficou claro que o problema não é o novo serviço roubar passageiros deles. A própria prefeitura admite que há um enorme déficit de táxis na cidade: são 3 para cada 1.000 habitantes (no Rio, essa proporção é de 9 para cada 1.000). Ou seja, em uma cidade com cerca de 35 mil táxis rodando e uma demanda reprimida de pelo menos outros 20 mil, os atuais 1.500 carros do Uber (segundo dados dos motoristas) estariam longe de causar uma ruptura no negócio dos taxistas.

Onde o calo aperta é na desvalorização do alvará, concessão da prefeitura que permite a prestação de serviço de táxi na cidade. Apesar de concedido gratuitamente, São Paulo não emite novas licenças desde 1996. Com isso, criou-se um verdadeiro mercado negro de alvarás, que são comercializados para quem quiser ingressar na profissão, o que é contra a lei. Frotas de táxis em São Paulo detém uma enorme quantidade dessas concessões. E, pelo que ouvi de muitos taxistas, vereadores são donos de algumas das maiores frotas da cidade.

 

Máfia incomodada

Comprar um alvará é algo simples: basta perguntar a qualquer taxista, e ele provavelmente conhecerá o caminho até alguém que queira vender um. Antes da chegada do Uber, a transação facilmente superava R$ 100 mil. Para operar no ponto de Congonhas, o mais valioso da cidade, o alvará passava de R$ 150 mil! Com a chegada do novo serviço, o valor desse mercado negro despencou, sendo possível adquirir um alvará hoje por menos de R$ 50 mil.

Não é necessário ser gênio para se perceber que muita gente tomou um prejuízo milionário com a chegada do Uber à cidade. Afinal, para que pagar uma fortuna por um alvará, se ele não é mais necessário para se prestar o serviço? Mesmo com os motoristas do Uber não tendo acesso aos benefícios dos taxistas, como desconto para comprar veículos e outras isenções de impostos, fazer parte da economia compartilhada pareceu ser muito mais vantajoso, rentável, simples e justo.

Ironicamente, o prefeito disse que um dos benefícios da nova lei é combater a “máfia dos alvarás”. Como? Criando um novo, que já nasce pago e com um valor obsceno, tanto quanto o cobrado pelo mercado negro. Confesso que fiquei confuso sobre como esse combate se dará.

Haddad perdeu a chance de demonstrar uma visão moderna sobre o transporte individual em que o passageiro não é o próprio condutor. O Uber é amplamente aprovado pelos seus usuários, que teriam enviado cerca de 900 mil e-mails ao gabinete do prefeito pedindo que vetasse a lei aprovada na Câmara dos Vereadores, proibindo o serviço. Mas ele preferiu ficar refém de uma categoria que, apesar de, sim, possuir bons profissionais, prefere se acomodar em uma situação em que os próprios motoristas são explorados por uma máfia inescrupulosa, com a benção do poder público.

Resta a esperança de que a Justiça casse essa lei estapafúrdia e traga um pouco de modernidade aos setores mais rançosos de nossa economia. A Justiça do Rio já concedeu liminar tornando inócua a lei sancionada por Paes. Já é um primeiro passo.

A tecnologia pode PIORAR a educação?

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Ábaco - Foto: reprodução

Há alguns dias, fui bombardeado com discussões e reportagens sobre um estudo recente da OCDE sobre competências digitais dos alunos. O que mais me chamou a atenção foram afirmações de que o uso intensivo de tecnologia em sala de aula estaria piorando a qualidade do ensino, até mesmo o desenvolvimento das próprias habilidades digitais.

Aquilo me pareceu, no mínimo, contraditório, além de bater de frente com as minhas crenças sobre os benefícios de um bom uso de recursos digitais na escola. Mas se “contra fatos, não há argumentos”, fui atrás dos fatos e conversei com especialistas para entender essa aparente incoerência.

Felizmente o que o relatório “Estudantes, Computadores e Aprendizado: Fazendo a Conexão” propunha não era bem aquilo. Na verdade, o estudo, feito a partir do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2012, sugere que o simples investimento em tecnologia nas escolas não resulta necessariamente em um melhor desempenho das habilidades digitais dos estudantes.

Mas então de onde veio essa história de que a tecnologia piora a educação?

Acontece que nos países que tiveram os melhores resultados no levantamento, Coreia do Sul, China (especificamente Xangai e Hong Kong) e Japão, o uso da informática em sala de aula fica consideravelmente abaixo da média dos países avaliados. Por outro lado, os resultados de países como Suécia, Dinamarca, Noruega e Polônia, que usam pesadamente a tecnologia na escola, pioraram ou ficaram estagnados.

Evidentemente a OCDE não está sugerindo que as escolas abandonem o uso de computadores. A mensagem passada é que, se os professores não estiverem preparados para usar a tecnologia criativamente, uma escola cheia desses recursos não passará de marketing para atrair pais de alunos.

Agora as coisas começam a fazer sentido.

 

Uma escola para pensar

Na apresentação do relatório, Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, explicou que “é necessário que os sistemas escolares encontrem formas mais eficazes de integrar a tecnologia ao ensino e à aprendizagem para proporcionar aos professores recursos de instrução que apoiem as pedagogias do século 21”.

Trocando em miúdos, computadores, tablets, smartphones, lousas digitais e afins são poderosas ferramentas para ajudar o aluno a aprender a pensar. Não são imprescindíveis para isso, e o estudo acima deixa isso claro, mas, se bem utilizados, podem fazer uma enorme diferença.

O grande desafio é implantar com sucesso recursos que ampliam os horizontes dos alunos e lhes dão ampla liberdade de pensamento e ação em um modelo escolar originado na Revolução Industrial, em que o que se prezava era a obediência às regras sem questionamentos e a habilidade de reproduzir tarefas com precisão. Por mais que, nos últimos anos, vejamos alguns movimentos interessantes de subverter essa lógica perversa na educação, quase sempre essas iniciativas são isoladas e restritas às escolas das classes mais altas.

Para dificultar ainda mais, os professores, que deveriam ser os condutores dessas mudanças, não foram preparados para a tarefa. Sua formação até aborda teoricamente modelos pedagógicos inovadores, porém as próprias faculdades não seguem tais propostas. Mais que isso: usos criativos da tecnologia não são discutidos.

O resultado disso são professores que são usuários de computadores, tablets e smartphones no seu cotidiano, mas que não conseguem transpor essa experiência pessoal para seus planos de aula, algo compreensível na introdução de qualquer tecnologia inovadora em um processo consolidado. Seria como pedir que Sócrates passasse a usar com seus discípulos uma lousa. Justo ele que questionava a utilidade da escrita.

A introdução bem-sucedida dos recursos digitais na escola passa, portanto, por uma restruturação do próprio modelo educacional, repensando os papeis dos professores e dos estudantes no processo. A tecnologia se manifesta de diferentes maneiras no dia a dia dos alunos, permitindo que eles absorvam um enorme volume de informação, muitas vezes de maneira anárquica, sem orientação para discernir o bom do ruim com uma análise crítica. Por conta disso, estudantes de todas as idades chegam às salas de aula carregados com uma geleia indefinida de informação.

Eu, como professor, me deparo com isso o tempo todo. Preciso ter humildade para aceitar que, muitas vezes, o aluno terá mais informação que eu sobre determinado assunto. Justamente aí reside o novo papel do professor: deixa de ser o detentor do conhecimento, até então repassado a alunos que o absorviam passivamente, e passa a ser o orientador dessa turma, alguém que, com sua experiência, é capaz de organizar e transformar todo aquela informação difusa em conhecimento.

Alunos e professores ganham, portanto, funções muito mais nobres. E o uso correto da tecnologia pode maximizar esses resultados, por ampliar o pensamento livre e facilitar o acesso à informação.

Não é uma tarefa fácil! Se os professores não se apropriarem adequadamente das novas tecnologias, elas não cumprirão seu objetivo pedagógico e ainda podem se tornar fatores de dispersão, como indicou o relatório da OCDE. Aqueles que, por outro lado, conseguirem realizar a tarefa terão o prazer de conhecer a verdadeira nova educação, com alunos engajados e felizes, construindo, junto com o professor, seu conhecimento.

Estamos vendo o fim da TV, pelo menos como a conhecemos

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Wagner Moura como Pablo Escobar, na série "Narcos", lançada recentemente pelo Netflix - Foto: divulgação

Wagner Moura como Pablo Escobar, na série “Narcos”, lançada recentemente pelo Netflix

No dia 24 de novembro, “A Estrada do Futuro”, primeiro livro de Bill Gates, completará 20 anos. Como todo exercício de futurologia, apenas algumas de suas previsões se concretizaram, e nem sempre como se esperava. Mas uma delas está colocando em xeque algo que faz parte de nossas vidas há mais de meio século: a televisão.

Gates antecipou em seu livro o surgimento do vídeo sob demanda, termo técnico que define serviços online em que o consumidor assiste à programação que quiser, na hora que quiser, cujos dois maiores expoentes são o YouTube e o Netflix. Mas talvez ele não tenha imaginado que a popularização desse recurso ameaçaria o modelo de negócio das emissoras e redefiniriam o uso do aparelho de TV como se vê hoje.

O fato é que a tecnologia mudou a maneira de nos relacionarmos com qualquer tipo de conteúdo, e as empresas de comunicação demoraram muito a perceber a chegada desse tsunami. Agora que a onda as atingiu, estão se debatendo em uma tentativa atabalhoada de se salvar.

A primeira e decisiva mudança é que, com um smartphone, o cidadão comum abandonou a sua condição milenar de consumidor de mídia para se tornar produtor. Não chega a surpreender, portanto, que a câmera seja um dos recursos mais usados dos celulares: fotografamos compulsivamente tudo (inclusive nós mesmos, o fenômeno das selfies) e criamos nossos próprios programas, que compartilhamos não apenas com nossos amigos, mas com o mundo todo. E, quando alguém deixa de assistir à Globo para ver nossas produções, passamos a ser concorrentes da Vênus Platinada.

Aliado a isso, o vídeo sob demanda acabou de vez com o monopólio das emissoras sobre o que vemos. Por que eu tenho que assistir a uma novela só porque “é o que está passando agora”? Eu quero ver um filme nesse momento! Ou uma série ou desenho animado. Ah, eu também quero ver a novela, mas na hora que eu quiser! E tem mais: quero ver três capítulos na sequência.

Trocando em miúdos, a grade de programação, algo essencial no modelo de negócios das emissoras, está com os dias contados. Graças a ela, os executivos criam os espaços para a publicidade e controlam a liberação dos conteúdos seguindo seus interesses. Por isso, o novo consumidor ameaça não apenas a TV aberta, mas também a TV por assinatura.

Os números são impactantes e ilustrativos. Estudo recente do ConsumerLab, divisão da Ericsson que estuda o comportamento dos consumidores, feito com 22.500 pessoas de 20 países, indica que 36% do tempo diário em que os brasileiros assistem a vídeos é destinado a conteúdo sob demanda, 1% a mais que média mundial. E 66% dos brasileiros entrevistados afirmaram que não encontram nada interessante para assistir na TV tradicional, o que justifica o crescimento dos serviços de vídeo sob demanda.

 

O consumidor paga pelo conteúdo que lhe interessa

Engana-se quem acha que esse fenômeno é motivado pelo desejo de se consumir conteúdo de graça. Essa premissa, usada por executivos das mais diferentes “mídias tradicionais” (música, imprensa, TV, entre outros) é absolutamente falsa! O consumidor paga, sim, por conteúdo de toda natureza, desde que esse produto lhe traga um benefício claro. De fato, a pesquisa do ConsumerLab mostra também que 22% dos consumidores que nunca pagaram por uma TV por assinatura já estão pagando por serviço de vídeo sob demanda. E aí o Netflix mostra o caminho a ser seguido.

Apesar de a empresa não divulgar a quantidade de assinantes no Brasil (são 65 milhões no mundo), o mercado estima que esse número deve variar entre 2,5 milhões e 4 milhões. Colocando isso em dinheiros, a receita da empresa para esse ano por aqui deve variar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. Na hipótese mais conservadora, o Netflix faturaria mais que a Band e a Rede TV!, quarta e quinta maiores emissoras nacionais; na mais arrojada, empataria com o SBT. Os números foram debatidos no congresso da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura), no início de agosto, cujos membros afirmam que o Netflix é um concorrente desleal.

Não precisa ser gênio para juntar os números do Netflix e de outros serviços com conclusões de estudos como o do ConsumerLab e entender o que está acontecendo. A tecnologia deu ao consumidor o poder de escolha, abrindo-lhe os olhos para perceber que não é obrigado a consumir uma programação de qualidade rasteira em um formato que não lhe convém.

O aparelho de TV cada vez mais é um poderoso computador conectado à Internet (e os fabricantes estão investindo nisso), diminuindo a importância de sua histórica função de receptor de imagens empurradas goela abaixo do telespectador. Permite que a escolha do usuário agora vá muito além dos canais acionados pelo controle remoto.

Além disso, a TV não é mais o único equipamento para se assistir a vídeos: ela ocupa apenas uma fatia do tempo do consumidor para esse fim. Uma fatia cada vez menor, diga-se de passagem, que vem sendo substituída pelo crescente uso dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones. No caso de conteúdo sob demanda, 61% do total já é consumido nas pequenas telas, segundo o ConsumerLab.

 

Observem as crianças

É muito interessante observar as crianças, pois elas entendem e se apropriam de novas tecnologias com grande facilidade e velocidade. Por isso, são excelentes indicadores de como será o futuro breve. E, no assunto que aqui discutimos, elas têm um comportamento muito interessante: quando querem assistir sozinhas a um vídeo, fazem isso no seu smartphone, mesmo que estejam em casa. Por outro lado, quando se trata de uma experiência com outras pessoas, como a família, o melhor lugar para o YouTube e o Netflix é a smart TV da sala. Claro, faz todo o sentido!

Pago mensalmente um adicional de R$ 30 para ter os canais da HBO no meu plano de TV por assinatura. Quis usar o aplicativo de vídeo sob demanda HBO GO, incessante promovido em seus comerciais, mas não consegui, pois a minha operadora de TV a cabo não permite. Devo dizer que fiquei com uma vontade enorme de pagar os R$ 30 mensais diretamente à HBO, e não à operadora, que deixou de ser uma facilitadora para se tornar uma dificultadora.

Essa empresa e seus pares precisam urgentemente repensar seus modelos, assim como as emissoras precisam melhorar sua programação. Ou, em muito pouco tempo, as crianças de hoje enterrarão a TV como a conhecemos, transformando sua tela em uma ferramenta de liberdade e qualidade em que nenhuma dessas empresas fará parte.

Quem vigia os vigilantes (ou os políticos)?

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Foto: Chuck Patch (Creative Commons)

A Câmara dos Deputados está gestando três projetos de lei que, na prática, criam mecanismos de censura da Internet e ferem liberdades do indivíduo. O principal deles tem, como objetivo, a punição de quem publicar conteúdo ofensivo a parlamentares. O segundo oferece a qualquer “autoridade competente” o poder de exigir que serviços online forneçam os dados de seus usuários sem ordem judicial. E o pacotão de arbitrariedades é concluído com outro projeto que determina que qualquer um que poste conteúdos na Internet seja identificado por nome completo e CPF.

Os três projetos se completam e criam uma sensação de que o cidadão está indefeso diante daqueles que o deveriam defender, e que legislam sem controle ou limites, um caso clássico de “quis custodiet ipsos custodes?” A frase em latim, atribuída a Juvenal, poeta romano do início da era cristã, é normalmente traduzida como “quem vigia os vigilantes:” e se refere à dificuldade de controle das ações de quem está no poder.

Os projetos batem de frente com o Marco Civil da Internet, propondo sua alteração em uma de suas maiores conquistas: a garantia do sigilo dos dados dos usuários, que só pode ser violado por força de uma ordem judicial. Mas o primeiro dos três projetos, de autoria do procurador parlamentar, deputado Cláudio Cajado (DEM-BA), abre portas para que qualquer parlamentar cale a boca de qualquer um que, mesmo dentro do jogo da democracia, diga algo que o incomode.

Isso piora ainda mais a já desgastada imagem do Legislativo junto aos brasileiros. Em todas as esferas e em todos os rincões desse país, vemos parlamentares tentando silenciar aqueles que, mesmo munidos de provas irrefutáveis, dizem coisas contrárias a eles. As vítimas desse abuso de poder vão desde pequenos blogueiros até grandes veículos de comunicação. Para os pequenos, as coações são mais brutais; para os grandes, recorre-se a uma espécie de “censura de toga”.

Um exemplo foi a proibição, por ordem judicial, de o Estadão de falar mal da família Sarney na “Operação Boi Barrica” da Polícia Federal. Até mesmo sites de humor são vítimas da intolerância parlamentar: no mês passado, o deputado Marco Feliciano tentou calar e pedir indenização ao Sensacionalista, por ser alvo de piadas do site humorístico. A Justiça, dessa vez, não acatou as alegações do deputado.

A proposta de Cajado está em fase final de elaboração e deve ser apresentada em setembro, com o apoio do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Se virar lei, esse tipo de pressão tende a aumentar exponencialmente, pois o parlamentar se sentirá amparado em uma lei que lhe dá poder de punir os autores daquilo que não gosta, como também os serviços que hospedarem esses conteúdos.

 

Rito sumário e ignorância técnica

Mas a situação fica ainda pior quando o projeto de Cajado se combina com os outros dois, esses já apresentados.

O projeto de lei da deputada Soraya Santos (PMDB-RJ) abre um perigosíssimo precedente quando, no artigo 7º, diz que qualquer “autoridade competente” pode exigir (e receber) informações pessoais dos usuários de um serviço online. Mas o que é uma “autoridade competente”? O texto não especifica isso e, portanto, amparado pela lei, um soldado da PM ou delegado poderiam exigir informações confidenciais em nome daquele que estiver “representando”. Não se enganem: isso tipo de abuso já existe hoje, mesmo sem amparo legal. Novamente, se o projeto se transformar em lei, a tendência é que assistamos impotentes ao enorme crescimento dessa prática abjeta.

O terceiro dos projetos, de autoria do deputado Silvio Costa (PSC-PE), é uma pérola de desconhecimento básico da Internet. Ele propõe que “o provedor de aplicações de internet, sempre que permitir a postagem de informações públicas por terceiros, na forma de comentários em blogs, postagens em fóruns, atualizações de status em redes sociais ou qualquer outra forma de inserção de informações na internet, deverá manter, adicionalmente, registro de dados desses usuários que contenha, no mínimo, seu nome completo e seu número de Cadastro de Pessoa Física (CPF).”

Ou seja, segundo o deputado, para um simples “curtir” no Facebook, o usuário deverá informar nome e CPF ao serviço, que será obrigado a repassar essa identificação “às autoridades competentes” para a supostamente devida punição, antes de qualquer julgamento, sem ordem judicial. O objetivo está bem claro na justificação do projeto: “essa simples exigência irá, por certo, coibir bastante as atitudes daqueles que, covardemente, se escondem atrás do anonimato para disseminarem mensagens criminosas na rede.” Ou seja, contrariando a Constituição, todo mundo é, por definição, culpado, até que se prove o contrário.

Mas de “simples”, a exigência não tem nada. Dentro do território nacional, existem pessoas que podem legalmente usar redes sociais, mas não têm CPF. Que dizer então de pessoas que vivem em outros países, particularmente estrangeiros? Eles não têm, nem nunca terão CPF, independentemente do que o Congresso Nacional Brasileiro determinar. Mesmo assim, o que postarem nas redes sociais eventualmente chegará aos usuários brasileiros. Parte desse conteúdo pode estar em português e, seja verdade ou mentira, poderá incomodar alguém por aqui. Como resolver isso e atender o que propõe o projeto de lei? Mais que uma impossibilidade técnica, a proposta é inócua porque trata a Internet e todos os seus usuários no mundo como se estivessem sujeitos à legislação brasileira.

Os três projetos são, portanto, indefensáveis do ponto de vista técnico e da democracia. Qual seria o próximo passo? Talvez os deputados peçam que a Internet seja simplesmente “fechada” ou, quem sabe, absurdamente restringida no país. Estaríamos, assim, bem próximos a “nações progressistas”, como a Coreia do Norte.

Você é o que você gosta

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Home page do serviço "Apply Magic Sauce" - Imagem: reprodução

Home page do serviço “Apply Magic Sauce”

Seus pais provavelmente lhe falavam: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Mas em tempos de tecnologia ubíqua, o ditado, além de velho, parece ultrapassado. Para saber quem é você, o melhor é prestar atenção no que você gosta ou, mais especificamente, no que você “curte”.

Deixamos, o tempo todo, nossas pegadas digitais por aí, e elas são cada vez mais profundas e reveladoras. Há duas semanas, comentei aqui a crise causada pelo vazamento de informações dos assinantes do Ashley Madison, recomendando que pelo menos tentemos cuidar das informações pessoais que publicamos na Internet. O problema é que inadvertidamente fazemos pequenas ações que dizem muito sobre nós.

Quantas vezes você clica, todos os dias, no botão “curtir” do Facebook, seja nas páginas da própria rede social, seja naqueles que estão espalhados pelos mais diferentes sites? Não se sinta constrangido se a resposta for um número alto: essa ação inocente está tão integrada ao nosso cotidiano, que talvez nem saibamos responder a essa pergunta.

Mas não se engane: de inocente ela não tem nada. Mesmo quando “curtimos” uma pueril foto de gatinho ou uma piada tosca de um amigo, estamos afirmando um pouco do que somos. E a soma disso tudo pode ser surpreendente.

O Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido) criou, já há algum tempo, uma interessante ferramenta para demonstrar isso. Batizada de Apply Magic Sauce (algo como “Aplique o Molho Mágico”), o site faz, em poucos segundos, uma análise psicológica do usuário, incluindo os principais itens de sua personalidade, gênero, idade percebida, orientação sexual, inteligência, satisfação com a vida, orientação política e religiosa, educação e status marital. Detalhe importante: a única fonte de informação analisada são as suas “curtidas” no Facebook, nada mais. Nem mesmo o que você posta é considerado. E, mesmo o sistema estando calibrado para o idioma inglês, seus resultados têm uma precisão impressionante, quase assustadora.

Não é de se espantar que o nome da versão anterior da ferramenta era “You Are What You Like” (“Você é o que você gosta”).

 

Fazenda de dados

Imagem: reprodução

Se um instituto independente consegue tirar conclusões assim apenas a partir das “curtidas” do sujeito, que dizer então do verdadeiro “dono” da informação: o Facebook?

Mas a rede de Mark Zuckerberg está longe de ser a única empresa com esse poder. Seu maior rival, o Google, conseguiu colocar, no bolso da maioria de nós, um “rastreador” que carregamos alegremente. O Android, sistema operacional que dá vida à maioria dos celulares do mundo, é uma pequena maravilha na coleta de informações pessoais, de maneira quase inconsciente.

O “quase” acontece porque nós, de fato, autorizamos explicitamente essa coleta (e isso vale para qualquer sistema, não apenas o Android). Ao configurar um novo aparelho, respondemos afirmativamente várias perguntas que, na verdade, sequer entendemos do que tratam. E reafirmamos esse nosso “desprendimento” quando baixamos novos aplicativos. Eles invariavelmente listam toda informação pessoal a que terão acesso (muitas delas completamente desnecessárias para seu funcionamento). E nós graciosamente concedemos isso, ao clicar no botão “aceito”, quase sempre sem sequer ler a relação do que lhes repassaremos. A ânsia por baixar o novo aplicativo é tão grande, que o “aceito” do botão poderia ser perfeitamente substituído por um “me dá logo!”

É um fenômeno social maiúsculo o que vivemos. Grupos de proteção à privacidade pressionam governos para tentar limitar o acesso das corporações às informações pessoais. Por outro lado, as pessoas estão cada vez mais lenientes com o compartilhamento de seus dados em troca de serviços que efetivamente tornam suas vidas mais eficientes e divertidas.

Estou absolutamente certo que ninguém deixará de usar seu celular ou o Facebook só pelo que eu disse acima. Eu não deixarei! Mas precisamos estar cientes de que as empresas nos conhecem muito mais que nossas mães, talvez mais que nós mesmos! E, quem sabe, passar a ler a lista do que estamos dando antes de clicar “aceito”.

Você tem um segredo? Não o publique na Internet!

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Hackers desmentiram todos os selos de segurança da home page do Ashley Madison

Hackers desmentiram todos os selos de segurança da home page do Ashley Madison

No dia 18, hackers expuseram publicamente dados pessoais de 37 milhões de usuários de um site. Isso já seria muito ruim em qualquer caso. Mas, se considerarmos que se tratavam de assinantes do Ashley Madison, site que promove relacionamentos extraconjugais, o acontecimento foi devastador. A questão é: isso poderia ter sido evitado?

Com o slogan “a vida é curta, curta um caso”, o Ashley Madison é o tipo de serviço que deveria ser construído sobre discrição e segurança de dados. Não obstante, os hackers liberaram os arquivos demonstrando que as informações estavam todas lá sem sequer uma criptografia básica.

Os incautos usuários acreditavam que protegiam sua privacidade criando um nome de usuário e um e-mail exclusivo para as puladas de cerca virtuais. Mas, para pagar pelo serviço, precisam informar os dados reais de seu cartão de crédito. E o site armazenou tudo isso. Com o vazamento, pode-se agora buscar, nesse gigantesco banco de dados, o nome verdadeiro de cada assinante, os dados de seu cartão, seu endereço, fotos que postou, as pessoas com quem falou e até mesmo as conversas.

Imaginem a situação dessas pessoas! A polícia canadense investiga dois suicídios que podem ter sido motivados pelo vazamento. Vale lembrar que o Brasil é o segundo país com mais usuários no serviço e São Paulo é a cidade com mais assinantes no mundo.

O Ashley Madison demonstrou grande amadorismo por guardar as informações sem criptografia e por armazenar dados dos cartões de crédito, para dizer o mínimo. Nesse caso, seus usuários não tinham alternativa. Mas será que cuidamos bem das informações que colocamos na Internet o tempo todo?

A resposta simples: não.

Em 2009, Eric Schmidt disse: “se você tiver alguma coisa que não quer que os outros saibam, não a publique na Internet.” O então CEO do Google explicava que não existe segurança absoluta e que eventualmente essa informação aparecerá em um buscador.

 

Superautoexposição

Obviamente ele não estava sugerindo que deixássemos de usar serviços digitais. E o que mais fazemos é colocar a nossa vida na Internet. Os mais espertos ainda usam com inteligência os recursos de privacidade de redes sociais, mas eles são apenas um controle mínimo, facilmente burlável, às vezes até sem querer.

Mas o buraco é mais embaixo. Vivemos em uma época em que as pessoas deliberadamente querem se expor, e fazem isso muitas vezes de maneira irresponsável e até perigosa. O meio digital criou uma falsa sensação de que tudo podemos, sem consequências.

Naturalmente isso não existe. De virtual, nosso “eu digital” não tem nada. Nossa vida online e nossa vida presencial são diferentes representações de uma única realidade.

Em tempos de smartphones que são poderosos computadores permanentemente conectados, compartilhamos nossa vida cada vez mais, muitas vezes sem que saibamos. Ou você acha que aquela oferta de um produto que você deseja em uma loja que está bem a sua frente chegou ao seu celular por pura coincidência?

 

O valor da informação

Algumas empresas já aprenderam a usar esse mar de informações que graciosamente oferecemos para entregar serviços e produtos cada vez mais personalizados e úteis. Ninguém faz isso melhor que o Google e o Facebook. Tudo aparentemente de graça! Mas, se você usa algo sem pagar nada por ele, não se engane: você não é o consumidor, é o produto.

Por mais assustador que isso pareça, é muito pouco provável que alguém deixará de usar produtos do Google ou do Facebook por estarem fazendo dinheiro com nossos dados. Mesmo que essas empresas saibam mais sobre nós que o Grande Irmão da sociedade distópica da obra 1984, de George Orwell, a esmagadora maioria está muito longe de se sentir oprimida por elas. Conscientemente ou não, achamos tudo isso um preço justo pelos produtos e serviços que recebemos em troca.

Precisamos apenas (tentar) garantir que nossa intimidade continue só nossa tomando cuidado com o que colocamos na rede. Afinal, nunca se sabe quando um grupo de hackers exporá a todos os segredos do Grande Irmão.

 

Atualização: diante de alguns comentários que este post recebeu, acho importante deixar claro que, de forma alguma, estou julgando os usuários do Ashley Madison. Por mais que, para muita gente, o que eles fazem é errado, essas pessoas foram vítimas tanto da incompetência do serviço, quanto dos hackers que os expuseram. São livres para fazer o que quiserem, e é absolutamente desproporcional alguém perder a própria vida por uma eventual traição conjugal. Meu alerta no post segue a linha do que propôs Eric Schmidt: não podemos simplesmente acreditar que a Internet protegerá magicamente nossas informações. Podemos colocar nela o que quisermos, mas precisamos ter consciência que essa informação nunca estará completamente segura.

O conteúdo tem que tomar seu rumo. Ou por que as bancas de jornal morreram

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Telas do Apple News (à esquerda) e do Flipboard

Telas do Apple News (à esquerda) e do Flipboard

Quando foi a última vez que você foi até uma banca para comprar um jornal? As respostas da maioria das pessoas que estiverem lendo isso provavelmente variarão de “há muito tempo” a “nem me lembro”.

Várias são as causas disso, mesmo entre aqueles que já foram ávidos consumidores de jornais. Mas uma delas é fundamental e crescente: apesar de nunca terem consumido tanta notícia como agora, cada vez menos as pessoas ativamente buscam por esse conteúdo. Acontece exatamente o contrário: a notícia precisa encontrar o caminho até seu público e se apresentar a ele da melhor maneira possível.

E não vale qualquer conteúdo. As pessoas querem consumir um noticiário que lhes interesse, sem ter que levar junto um monte de coisas “desinteressantes”. O problema é que o conceito de “interessante” varia de indivíduo para indivíduo e, mais que isso, varia dentro do mesmo indivíduo, de acordo com o seu momento.

Por exemplo, alguém que goste de futebol (não um fanático) fica mais interessado no noticiário esportivo nos dias dos jogos do seu time, e eventualmente dos times rivais. Notícias dos demais times não lhe são tão interessantes. Além disso, a relevância desse assunto diminui nos outros dias.

Outra mudança de comportamento interessante é a flexibilidade sobre a origem do noticiário. Os leitores costumavam assinar um jornal ou uma revista porque se identificavam com sua linha editorial. Hoje as pessoas misturam, dentro da sua experiência informativa, conteúdos da Veja e da Carta Capital sem o menor problema, desde que isso lhes faça sentido naquele momento.

Apenas no meio digital podemos encontrar conteúdos de fontes tão distintas lado a lado, como se fossem de uma mesma revista.

O renomado Pew Research Center publicou, no dia 14, um estudo que coloca em números como as pessoas mais e mais usam redes sociais como fonte de noticiário jornalístico: o Twitter e Facebook servem para isso para 63% dos americanos (era respectivamente 52% e 47% há dois anos).

O Facebook percebeu isso, com os “artigos instantâneos”. O Twitter também, com seu “Projeto Lightining”. E, mais recentemente, a Apple sacou que o futuro não está em ficar distribuindo edições digitais de publicações consagradas, e sim em entregar seus conteúdos de maneira desintegrada, com foco na experiência do consumidor.

Ruim para as marcas, salvação para os veículos

A novidade recém-anunciada pela empresa da maçã é o Apple News, um aplicativo que integrará a próxima versão do sistema operacional dos iPhones e iPads, o iOS 9. Seu design e sua tecnologia lembram as do consagrado Flipboard, criando uma elegante publicação dinâmica e totalmente individualizada, misturando conteúdo de diferentes fontes, selecionados e organizados de acordo com os gostos de cada usuário.

Seu modelo de negócios é o mesmo dos também recém-lançados “artigos instantâneos” do Facebook. Assim como nesses, apesar de suas páginas serem inteiramente construídas com noticiário de outros veículos, elas não exibirão nenhum dos anúncios que estiverem em seus sites de origem, apenas peças vendidas especificamente para o Apple News. Se o vendedor for o próprio veículo, ele fica com 100% da receita; se a venda tiver sido feita pela Apple, ela abocanha 30%.

A diferença fundamental entre os serviços da Apple e do Facebook é que o primeiro rodará encapsulado em um aplicativo, considerando as preferências do indivíduo, enquanto o segundo funciona dentro do próprio Facebook, com seus diversos critérios de relevância e uma presença quase ubíqua na vida dos internautas. O serviço do Zuckerberg leva vantagem.

Mas há também uma semelhança fundamental: nos dois casos, a percepção do usuário é que ele está consumindo o noticiário “no Apple News” ou “no Facebook”, ao invés de “no Estadão”, “na Globo”, “na Folha”, “na Veja”, “na Carta Capital”, “no The New York Times”.

Crescemos aprendendo a confiar e até a gostar dessas marcas. Eram referências de confiabilidade e sabíamos, de alguma maneira, o que encontraríamos em suas páginas. Mas quanto isso é realmente importante hoje para o usuário?

Essas mudanças no comportamento das pessoas são devastadoras para as marcas das empresas de comunicação, mas pode ser a salvação para os veículos tradicionais, que estão caindo um a um, como castelos de cartas (nesta sexta, 17, mais um jornal deixou de circular: o Brasil Econômico). E isso acontece não porque a qualidade de seu produto piorou (ok, isso também aconteceu em muitos deles), mas porque seus antigos leitores hoje estão consumindo noticiário de outras fontes, especialmente de algumas que sequer existiam há alguns anos. Como explicaria Darwin, sobrevive não o mais forte, e sim o mais adaptado às mudanças.

Os veículos correm, portanto, riscos ao publicar nessas plataformas. Mas eles simplesmente não têm alternativa, dada a sua incompetência em se adaptar aos novos tempos: terão que se render aos fatos para continuar vivos.

Continuam achando que suas marcas e sua história são suficientes para atrair os usuários. Continuam achando que a cobrança pelo conteúdo e a venda de publicidade do impresso podem ser transferidos com pequenas mudanças para o meio digital e dar certo. Continuam achando que um “paywall poroso”, como o do The New York Times pode salvar suas operações. Mas nada disso é verdade, e até o aclamado paywall só deu certo no NYT porque ele é apenas uma engrenagem de uma sofisticada estratégia de produto que conseguiu até mesmo angariar novos assinantes para o jornal impresso. O paywall sozinho não funciona.

Ponto sem retorno

Os veículos há muito tempo passaram do “ponto sem retorno” da migração para o digital. Parece ridículo dizer isso a essa altura do campeonato, mas deixa de ser se vemos que insistem em fazer tudo como antes e achar que as coisas vão se acertar magicamente.

Esses veículos não morreram, não ainda, e podem se salvar. Mas precisam primeiramente aceitar que nunca mais ganharão dinheiro como ganhavam antes, e certamente não com os mecanismos de antes. Tampouco voltarão a ter a relevância e a influência que tiveram.

Nessa realidade que vivemos, precisam aprendem a abraçar genuinamente o meio digital, e pulverizar e superdistribuir seu conteúdo, ganhando migalhas por cada exposição, mesmo daquelas que apareçam lado a lado às do seu mais ferrenho concorrente. E assim, de grão em grão, a galinha pode voltar a encher o papo.

“Onde fica essa tal de Internet?”

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Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995 - Imagem: reprodução

Primeira home page da Folha, a FolhaWeb, em julho de 1995

Há exatos, 20 anos, eu colocava no ar a FolhaWeb, primeira iniciativa da Folha na então recém-nascida Internet comercial. Aquilo foi um caldeirão de inventividade sem limites, muito trabalho e diversão, e algum risco.

“Você vai enterrar sua carreira nisso!” “Internet é só um modismo que não vai pegar!”

Ouvi frases como essas aos montões de colegas do jornal, que viam a Internet como uma bobagem de nerds que nunca deveria ter deixado os limites das universidades. Quando eu propus a entrada da Folha na Web, em janeiro de 1995, eu era repórter de Ciência. Quando decidi deixar o jornal para cuidar apenas do rebento digital, que já tinha completado um mês no ar, era editor-interino. Poderia ter mesmo continuado cuidando da minha carreira no impresso, que estava decolando. E, naquela época, quem diria que os jornais chegariam à situação que enfrentam hoje?

Felizmente não dei atenção àqueles colegas, e fui em frente!

Mesmo porque não havia sido fácil conseguir publicar aquele pequeno site, e não queria perder o pouco que tinha conseguido. Eu e meu editor, Claudio Cssillag, ficamos sovando a direção do jornal por meses para conseguir a autorização para a iniciativa. Enquanto ouvíamos perguntas do tipo “onde fica essa tal de Internet” ou “para quem terei que pagar para publicar na Internet”, todos os jornalões brasileiros publicavam suas versões online primitivas.

O pulo do gato para conseguirmos a liberação foi a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que, naquele ano, aconteceria no Rio de Janeiro. A Folha cobriria o evento, como fazia todos os anos. Meu editor teve então a brilhante ideia de propor a “primeira cobertura online do Brasil”. Entendam: isso não tinha, nem de longe, qualquer semelhança com uma cobertura online de hoje. Basicamente eu publicava à noite as notícias sobre o evento que estariam no jornal do dia seguinte. Mas o uso da palavra “primeira”, muito apreciada no jornal, foi um golpe de mestre do meu colega.

Além disso, alguns dias antes, a Folha havia dado ampla cobertura à Parada LGBT que havia acontecido no Rio de Janeiro, uma das primeiras do gênero no Brasil. “Já que demos tanto espaço aos gays, vamos dar agora aos cientistas”, ouvi na época. E assim o projeto foi liberado.

Assim, depois de realizar minhas tarefas diárias no jornal, ia até a sala do então gerente técnico da Agência Folha, Lelivaldo Marques Filho, parceiro no desenvolvimento das primeiríssimas páginas, que também contaram com a ajuda técnica de Sérgio Esteves, analista de sistema da Folha. Tudo sob a batuta de Marion Strecker, diretora da Agência na época. E, como previsto, no dia 9 e julho, há 20 anos, as matérias enviadas por Ricardo Bonalume Neto, repórter da Folha na reunião da SBPC, foram para o ar na espartana página vista acima. A criação do logo ficou a cargo de Cássio Leitão. Elas estavam acompanhadas por alguns outros conteúdos, como o noticiário das editorias de Ciências e de Informática, e a coluna Netvox, da Maria Ercilia, uma das primeiras pessoas a escrever sobre Internet no Brasil.

O trabalho era artesanal. O código HTML de cada página era editado na mão, em Word. A princípio, uma ferramenta inadequada para o trabalho, mas eu havia criado nele macros que transformavam os comandos do sistema de publicação do jornal em equivalentes na linguagem da Internet. Isso agilizava bastante o trabalho de importação do conteúdo do jornal.

A Folha possuía outra iniciativa de digitalização correndo em paralelo, no Banco de Dados, porém não visava criar um site na Web. Esse grupo, capitaneado por Rodrigo Santaliestra e Margot Pavan, uniu-se à FolhaWeb poucas semanas depois.

Além dos dois e das pessoas citadas anteriormente, que já trabalhavam na casa, a FolhaWeb começou a contratar gente especificamente para o projeto: Thania Thadeu, Luciana Saito e Kerly Tanaka, todas reforços editoriais. E a salinha onde trabalhávamos definitivamente ficou pequena…

Foram meses intensos, quase selvagens. É muito raro ter a oportunidade de participar da criação de não apenas um produto, mas um verdadeiro novo meio de comunicação, especialmente um que foi o de mais rápida adoção pelas pessoas e provavelmente o que alterou suas vidas de maneira mais dramática em apenas poucos anos. Ter participado da gestação da FolhaWeb foi um ópio, uma experiência arrebatadora em que tudo se podia, pois não havia parâmetros, não havia literatura, não havia concorrentes, nada! E ter feito tudo isso com as pessoas citadas foi um privilégio.

Antes que o ano acabasse, Caio Túlio Costa já estava no barco, preparando a transformação da FolhaWeb no Universo Online, que se concretizaria no dia 28 de abril de1996. Mas essa é outra história…

Quando uma “legião de imbecis” é mais importante que Umberto Eco

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Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de "O Nome da Rosa", obra-prima de Umberto Eco

Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de “O Nome da Rosa”, obra-prima de Umberto Eco

Para Umberto Eco, as redes sociais dão voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” É uma crítica fácil, mas o escritor italiano foi míope em sua análise, por não ver que isso está no centro de uma mudança social irrefreável que é, na verdade, positiva.

A declaração foi feita anteontem, quando Eco recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim (Itália). Em seu discurso, disse ainda que “eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Deixe-me ver se entendi: os “imbecis” (segundo o critério de alguém) devem ser calados, confinados a sua “ignorância”?

Esse conceito, muito popular entre regimes e instituições totalitárias, serve também para calar aqueles que simplesmente pensam diferente do status quo. Curiosamente nesses dias estamos diante de um debate em torno do comercial de O Boticário para o Dia dos Namorados, que apresenta casais homossexuais em condição de igualdade a casais heterossexuais, o que despertou a ira de uma parcela da população que considera isso uma afronta à sociedade. Se quisermos ir mais longe, temos exemplos brutais de tentativas de se silenciar o diferente, como o nazismo e a Inquisição.

Portanto, é curioso ouvir isso do autor de “O Nome da Rosa”, uma obra que justamente debate, entre outros temas, a intolerância ao diferente dentro de uma abadia na Idade Média. E, para a Igreja, entre as pessoas com pensamento diferente do que pregava e que deveriam ser silenciados (ignorantes?), estiveram Galileu Galilei e Nicolau Copérnico.

Sim, é verdade que a Internet deu voz a qualquer um, para falar o que bem entender. E é claro que, no meio disso, encontramos dignos representantes da mais bela porcaria, discursos de ódio e intolerância, pedofilia, informações erradas e todo tipo de informações questionáveis. Mas isso nada mais é que reflexo do mundo que vivemos: não foram os meios digitais que criaram isso tudo.

O centro da questão passa por definir o que é “certo” e “errado”. Esses valores morais variam de acordo com o tempo, o local, o grupo social, a religião. O comercial mencionado acima é um belo exemplo disso: conseguiu polarizar a população brasileira. Devemos silenciar os “imbecis” e exultar os “corretos”? Mas, afinal, quem é quem?

Penso que é exatamente o contrário disso: do debate, nossa sociedade pode evoluir. Estamos em um momento em que justamente as pessoas estão esquecendo como conviver com o diferente. E nada de bom pode surgir disso.

Não é a primeira vez que a Internet é acusada de ser “a destruidora da civilização” por dar voz a qualquer um. Em 2007, isso chegou a render um livro, “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen. Na obra, ele afirma que a liberdade oferecida pela Internet destruiria a sociedade por colocar um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. Isso já foi inclusive discutido neste blog.

O fato é que nada impedirá que as pessoas falem o que pensam cada vez mais. O acesso democrático aos meios de publicação digitais combinado à ubiquidade de celulares cada vez mais poderosos mudou a maneira como nós nos relacionamos com a informação. Pela primeira vez, qualquer um pode criar e publicar seu conteúdo e atingir, ainda que hipoteticamente, qualquer pessoa no globo. Essa é a essência da crise das empresas de comunicação, por não aceitarem que seu modelo de negócios, baseado no monopólio dessa produção e distribuição, não encontra mais lugar no mundo.

Portanto, quando Umberto Eco conclui que “os jornais devem filtrar as informações da Web com uma equipe de especialistas”, está tentando segurar um tsunami com a mão. Os meios de comunicação devem, na verdade, trabalhar em sentido contrário: trazer essas pessoas, com tanto a falar, para dentro de seu processo, melhorando o seu produto e aumentando a sua relevância social.

Não são “imbecis”, e merecem ser ouvidos. Os interlocutores tampouco são “imbecis”. Cabe a cada um processar a informação como achar melhor.

Deus e o diabo na terra da mídia

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Montagem de Zuckerberg sobre o cartaz do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol" - Imagens: divulgação e reprodução

Os artigos instantâneos, recurso lançado pelo Facebook na última quarta (13), podem representar uma grande oportunidade para a mídia. Entretanto muitos colegas temem que, ao adotar a novidade, os veículos de comunicação estejam abraçando o diabo.

Para quem não sabe do que se trata, a nova funcionalidade da rede de Mark Zuckerberg permite que os veículos publiquem seu conteúdo efetivamente nas suas linhas do tempo, ao invés de criar posts que remetam aos conteúdos em seus sites. Pode parecer uma sutileza tola, mas não é: a experiência do usuário com o conteúdo começa já na linha do tempo. Ao clicar no post, o conteúdo é aberto diretamente no Facebook, e não no site do veículo, de uma maneira muito mais rápida. Além disso, a plataforma oferece recursos editoriais interessantes, que podem tornar a experiência ainda mais envolvente.

Como o recurso por enquanto está disponível apenas no aplicativo do Facebook para iPhone, você pode ver como ele funciona no vídeo abaixo, do TechCrunch:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yFDT3_7e0Gs]

O conteúdo publicado no novo formato não ganhará nenhuma relevância adicional, portanto a chance de aparecer no seu feed de notícias será a mesma de qualquer outro post do mesmo veículo. Em compensação, por ser mais envolvente, em tese ele será muito mais compartilhado pelos próprios usuários, aumentando consideravelmente sua audiência. Como os veículos ficarão com toda a receita dos anúncios que venderem para os artigos instantâneos (se o Facebook vender, ele fica com 30%), é uma maneira interessante de monetizar o conteúdo promovido na rede, algo de que os veículos de comunicação sempre reclamam por não ter bons resultados.

Parece bacana, não é? Então qual é o problema?

Há alguns pontos importantes a se considerar. Primeiramente, ao colocar o conteúdo efetivamente dentro do Facebook, o veículo de comunicação deve entender que o indivíduo não mais consumirá tal conteúdo em seu site ou aplicativo. Receita e audiência podem ser mantidos (e até ampliados) pelo compartilhamento de números com o Facebook, mas é um fato que o usuário estará fora do “ambiente” do veículo, o que pode limitar sua capacidade de incentivar o indivíduo a consumir mais conteúdo ou outros produtos da casa.

Outro medo é que, ao adotar as novidades, os veículos estejam alimentando um monstro que depois os engolirá. O Facebook hoje já é mais relevante na vida das pessoas que qualquer veículo de comunicação. Mas, apesar de ser um canal de distribuição formidável (para alguns grandes veículos, chega a responder por um terço de sua audiência), ele não produz nenhum conteúdo. Se começarem a publicar diretamente no Facebook, por mais que o material esteja dentro das páginas dos veículos, há um temor de que o usuário diga, cada vez mais, “vi no Facebook” ao invés de “vi no Estadão”, por exemplo. E, nesse caso, quem será o “dono” do conteúdo?

Por fim, mas não menos importante, hoje o modelo de negócios oferecido é francamente favorável aos veículos. Mas qual é a garantia que, lá na frente, quando a mídia estiver despejando toneladas de “artigos instantâneos”, o Facebook não mude as regras do jogo, tornando-o (muito) mais interessante para si? Fazendo um paralelo com jornais e revistas, é como se todos os caminhões da cidade decidissem cobrar o dobro para entregar os impressos.

Apesar de tudo isso, alguns dos principais nomes da mídia abraçaram a novidade em seu lançamento: The New York Times, National Geographic, BuzzFeed, NBC News, The Atlantic, The Guardian, BBC News, Spiegel Online e Bild. Alguns deles, veículos com muita estrada, já têm boas iniciativas online, como The Guardian e The New York Times. E há também o BuzzFeed, digno representante da mídia nativamente digital e que já tem íntima relação com o Facebook. É muita gente boa abraçando o diabo! Será que os truques do Coisa-Ruim enganaram todos eles? Quero crer que não.

Qualquer um poderia dizer: “se o negócio ficar ruim depois, o veículo pode simplesmente abandonar o formato”. Isso é verdade. Mas talvez o Facebook já terá se transformado do jacaré atual em um tiranossauro. E pular fora de seus domínios poderia eventualmente diminuir ainda mais a relevância de qualquer veículo.

Nesse jogo de xadrez, o novo recurso foi uma jogada de mestre de Zuckerberg. Agora é a vez dos veículos jogarem. Talvez o Facebook nunca use esses “lances do mal” descrito acima. Talvez os “artigos instantâneos” não cheguem a fazer sucesso com os usuários. Quem sabe? Isso é tudo especulação afinal.

O que é certo é que os veículos batem cabeça há 20 anos na mídia digital, sem conseguir criar um modelo realmente vencedor que garanta a sua continuidade. Pelo contrário: continuamos vendo veículos, alguns centenários, fechando suas portas. E o culpado por isso não é o Facebook, o Google ou, em um sentido mais amplo, a Internet.

Os culpados são os próprios veículos, que parecem ter esquecido como ser relevantes para seu público. Estão tão preocupados com sua minguante receita publicitária, que não dão tanta importância para ele, sua razão de existir.

A maioria dos veículos que hoje agonizam nasceram nos séculos 19 e 20 para atender a comunidade onde estavam, um grupo social ou um ideal. Cresceram fieis a isso. Mas acabaram se tornando máquinas muito bem azeitadas de fazer dinheiro, que já não vinha tanto de seu público, e sim da publicidade. Não estou condenando a publicidade de forma alguma, mas isso só funcionou (e funcionou por muitas décadas) enquanto esse público não tivesse algo com o que se sentisse mais bem representado.

Isso aconteceu com o fortalecimento da mídia digital. Para desgraça dos veículos, seus concorrentes deixaram de ser os outros veículos, uma batalha que eles conheciam, para ser qualquer site ou aplicativo que lhes roube o tempo que seu antigo público lhes dedicava. Com o declínio da audiência, a publicidade arrumou as malas e os deixou.

Parte da relevância perdida pode estar no conteúdo, que muitas vezes já não atenda mais às expectativas das pessoas, e até mesmo ao alinhamento político e econômico dos veículos. Isso vem ficando cada vez mais claro nos últimos anos, com as crescentes críticas a veículos tradicionais. De todo jeito, isso é um problema editorial, que pode ser resolvido.

Mas outra parte do problema está justamente em como qualquer produto chega a seu público. O veículo pode produzir o conteúdo mais incrível e alinhado a ele, mas de nada adianta se isso não impactar as pessoas. Elas não assinam mais um monte de papel que inexoravelmente chegará a suas portas para ser consumido. Agora, cada pílula de conteúdo precisa trilhar o seu caminho até seu consumidor, de maneira individual. Se for competente, carregará o usuário para outros conteúdos da mesma marca.

Portanto, nada mais burro e anacrônico que ficar brigando com o Google, por causa de seu Google Notícias, como fazem os jornais. Isso só demonstra como eles estão descolados das pessoas, o que nos remete ao problema de relevância acima.

Os veículos têm obrigação de entregar o seu conteúdo de todas as maneiras que conseguirem, principalmente as mais criativas. Isso embute riscos enormes, como os descritos acima? Claro! Mas eles foram –e continuam sendo– absurdamente incompetentes em criar maneiras efetivas de manter seu público e conquistar novos consumidores. Insistem em transpor seus produtos tradicionais e especialmente seus modelos de negócio anacrônicos para uma nova realidade. Mas isso é impossível.

Nesse cenário, o Facebook é outra noiva com um dote gigante demais para ser ignorada. Não sei se essa moça bonita é o diabo como dizem alguns, mas os veículos devem considerar esse abraço. E torcer para isso gerar filhotinhos bonitos e saudáveis.

Os problemas de forçar um conteúdo nacional

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Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

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A Ancine (Agência Nacional do Cinema) está tramando a exigência de uma cota mínima de filmes e séries brasileiras em serviços de vídeo sob demanda, como o Netflix e o HBO Go. Com o argumento de fomentar as produções nacionais, esse tipo de intervenção pode matar a vaca para acabar com o carrapato.

Essa regra já funciona para os canais de TV paga, que são obrigados a dedicar pelo menos 30% de sua grade a programas brasileiros. De fato, temos hoje produção nacional de ótima qualidade, mesmo em canais internacionais, como a série O Negócio, na HBO. Mas esse alto nível está longe de ser padrão, com alguns conteúdos de interesse e qualidade limitados, sem falar na enxurrada de programas de culinária que criam variações sobre o mesmo tema nem sempre tão criativas.

O grande problema desse tipo de regra é tirar do consumidor o seu direito de escolher o que assistir. Quem paga por um serviço de TV por assinatura quer justamente fugir da qualidade rasteira da programação dos canais abertos. Ao forçar que um terço da grade de um canal pago seja preenchido com qualquer conteúdo local, apenas por ser brasileiro, esse direito de escolha é prejudicado.

Os serviços de vídeo sob demanda representam a maximização da escolha do consumidor, que agora não precisa sequer se ater às grades de programação: assiste o quiser, quando e onde quiser, uma liberdade inédita que está redefinindo o próprio jeito de se ver televisão.

No Brasil, o Netflix oferece cerca de 4.000 filmes e séries em seu acervo. Desse total, cerca de 5% é composto por produções brasileiras. Se a Ancine emplacar a mesma exigência feita aos canais de TV por assinatura, o Netflix precisaria ampliar o seu acervo -o que pode encarecer o produto- ou reduzir o volume de conteúdo internacional oferecido. Nas duas situações, quem perde é o consumidor.

Até a minha adolescência, o cinema brasileiro era desprezível, dominado pelas pornochanchadas e pelos filmes dos Trapalhões. Até que Carlota Joaquina, Princesa do Brazil estreou em 1995, seguido no mesmo ano por O Quatrilho e outras grandes produções, que inauguraram uma nova fase do cinema nacional, de alta qualidade. Disso surgiram obras-primas, como Central do Brasil, e Tropa de Elite. Entretanto, de uns anos para cá, as salas têm sido invadidas por uma enorme quantidade de comédias, muitas delas de gosto bastante duvidoso e pouco originais, mas todas com o logo da Ancine na abertura.

Por isso, sou favorável à constante ampliação da oferta de produções nacionais de qualidade. Mas isso não pode ser feito por decreto, principalmente quando contraria os interesses e fere os direitos do cidadão, que é, afinal, o cliente de tudo isso, pagando pelo cinema, pela TV por assinatura e pelo Netflix. Não abro mão do meu direito de assistir a House of Cards, Game of Thrones e afins em favor de programas de culinária fofinhos ou de comédias caça-niqueis.