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Por que não temos um “Netflix de revistas e jornais”?

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Banca de revistas

Cansei de ouvir de executivos de empresas de comunicação que os negócios vão mal porque as pessoas não querem mais pagar por conteúdo. Isso é desculpa de quem não consegue ou não quer transformar seu produto para o novo mercado, pois acontece exatamente o contrário: as pessoas nunca pagaram tanto por conteúdo.

Basta ir aos cinemas para comprovar: seus ingressos chegam a custar quase tanto quanto uma assinatura mensal de jornal, mas as sessões estão lotadas. E há também o Netflix, que, no meio do ano passado, ultrapassou a incrível marca de 50 milhões de assinantes. No campo da música, o Spotify virou este ano com 60 milhões de usuários, sendo 15 milhões pagantes.

Seria legítimo, portanto, perguntar: por que não temos um “Netflix de jornalismo”? Um sistema que aglutinasse uma grande quantidade de títulos, de diferentes empresas, disponíveis para leitura livre a um preço módico. O problema é que isso já existe e não vai bem das pernas.

Duas empresas americanas oferecem um serviço assim. A mais antiga, a Next Issue, cobra US$ 14,99 para acesso livre a 140 de algumas das melhores revistas dos EUA, inclusive semanais. Já a recém-chegada Magzter cobra R$ 26,80 (sim, está disponível no Brasil) para acesso irrestrito a mais de 2.000 revistas de diferentes países, porém a grande maioria delas obscura. Há também um aplicativo brasileiro, o Iba, da Abril, que cobra R$ 19,90 por mês pelo acesso há quatro revistas mensais ou uma mensal mais uma semanal ou quinzenal. O acervo é modesto: apenas 28 revistas da própria Abril.

Apesar de a Abril afirmar que possui mais de 500 mil usuários no Iba, o mercado enxerga o produto como um pato manco, uma experiência da empresa que está fazendo água, ainda mais depois de encerrar as parcerias com outro publishers, que garantiam acesso a seus também a jornais e livros.

O Iba tem dois problemas principais. O primeiro deles é comercial: os assinantes não se sentem seduzidos pela sua oferta, proporcionalmente mais cara que a dos americanos acima, por exemplo. A Abril, por outro lado, não baixa mais o preço, pois isso poderia canibalizar a assinatura das mesmas revistas em seus aplicativos próprios ou nas versões impressas.

O outro problema está no que o usuário recebe, e esse problema afeta também a Next Issue e a Magzter. Apesar de funcionarem em dispositivos digitais e possuírem algumas implementações multimídia, as revistas baixadas em todos esses sistemas são basicamente uma cópia da edição impressa. E o público já não vê muita vantagem em aguardar uma semana inteira (ou uma quinzena ou um mês!) para receber um grande pacote de noticiário frio, com pouca ou nenhuma integração com seus amigos em redes sociais, sem ligações com outras fontes de conteúdo online, sem interatividade e recursos multimídia. Coisas que a Web e principalmente aplicativos mais arrojados de terceiros (e que muitas vezes se “alimentam” de conteúdo dessas revistas) fazem esbanjando categoria.

Um bom exemplo de como as pessoas não querem mais saber desse produto editorial organizado e vendido como revista foi o fechamento do The Daily, cuja última edição circulou no dia 15 de dezembro de 2012, antes de completar dois anos. Para quem não se lembra dele (ou nunca o conheceu), The Daily foi o primeiro jornal criado especificamente para o iPad. Tratava-se de uma grande promessa, capitaneada por Rupert Murdoch, o mogul da News Corp. (que nunca escondeu sua aversão às inovações da mídia digital), e com apoio técnico da própria Apple. Mas, como um Titanic digital, falhou fragorosamente, pois quis empurrar um velho formato para um público ávido por verdadeira inovação. Bonitinho mas ordinário.

Há ainda a concorrência das Bancas do Google e da Apple, que oferecem, de maneira muito bem integrada ao Android ou ao iOS, todas essas revistas em seu formato digital, para quem eventualmente quiser ler seu conteúdo dessa forma.

Iba, Next Issue e Magzter não vão bem porque os responsáveis por eles continuam pensando como executivos de mídia impressa, na concepção dos seus produtos e principalmente no seu modelo de negócios. É por isso que eles nunca serão um Netflix ou um Spotify. Esses daí, por mais que entreguem conteúdos originários de outros “mundos” (cinema e música), souberam adaptar seu produto e seu modelo de negócios ao que as pessoas querem.

A turma do impresso deveria prestar mais atenção no Flipboard e afins. Sim, são gratuitos, mas eles estão mostrando o caminho a seguir.

O que os livros impressos da Amazon representam

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Caixa padrão da Amazon - Foto: divulgação

Na última quinta-feira (21), a Amazon começou a vendar livros impressos em sua operação brasileira, antes restrita a livros digitais, aplicativos e seus e-readers Kindle. Isso detonou uma gritaria acusando a gigante do varejo de práticas draconianas contra editoras e de descontos agressivos, o que liquidaria os pequenos livreiros. Mas ninguém está falando daquilo que a entrada da empresa no varejo de produtos físicos realmente representa: a desconstrução dos modelos de negócios das editoras e das livrarias.

A Amazon de fato pratica preços baixos, mas eles não são necessariamente os mais baixos do mercado. Peguemos, como exemplo, o livro de não-ficção mais vendido no Brasil de 11/8 a 17/8, segundo o Publishnews: “Destrua Esse Diário”, de Keri Smith. No momento em que esse texto está sendo escrito, a Amazon o vende a R$ 16,20, mais caro (segundo pesquisa no Buscapé) que Ponto Frio.com (o mais barato, a R$ 14,85), Saraiva.com e Livraria da Folha, e empatado com a Fnac.com.

A empresa também é reconhecida por um atendimento e respeito ao consumidor excepcionais, indo muito além do que a lei exige. Um bom exemplo é o prazo de devolução do produto: 30 dias, quando o Código de Defesa do Consumidor prevê apenas 7 (para os quais a maioria dos varejistas torce o nariz e “esconde” essa informação). Traz também soluções comerciais e técnicas muito interessantes, como entregas rápidas e o serviço “Leia enquanto enviamos”, que permite a leitura da versão digital do livro comprado enquanto ele não chega. Sem falar no uso do “big data”, para criar ofertas realmente diferenciadas para cada consumidor.

É difícil ir contra qualquer uma das coisas ditas acima: em tese, elas obrigarão o mercado como um todo a elevar a qualidade de seu atendimento. Então qual é o “problema”?

A Amazon realmente causa estragos tornando modelos de negócios obsoletos. Ela impõe ao varejo e ao mercado editorial mudanças que outras indústrias já enfrentam (não raro sem sucesso), como a fonográfica.

No caso do varejo, os preços baixos são o menor dos problemas dos concorrentes. Qualquer e-commerce é uma operação de varejo, que entrega produtos físicos (muitas vezes grandes e pesados, em lugares distantes). Não basta, portanto, ter um site bacaninha e vender a preços mais baixos que as lojas físicas. Práticas comerciais e logística deficientes, aliadas à queima de preços, geram operações altamente deficitárias, e temos gente muito grande no e-commerce brasileiro tomando prejuízo por isso.

A turma de Jeff Bezos não costuma cometer esses erros. No caso do varejo de livros, outros e-commerces e livrarias do tipo “megastores” são os grandes prejudicados, pois seu diferencial de mix de produtos e preços baixos desaparece. O impacto é menor em livrarias com gestões mais inteligentes, como a Cultura e a Livraria da Vila (e até algumas livrarias de bairro), onde o simples comércio evoluiu para uma experiência rica de compras, com lojas transformadas em espaços de eventos e vendedores transformados em consultores editoriais.

No caso das editoras, a situação é mais grave. A Amazon realmente aperta seus pescoços para que os preços caiam. E essa é uma briga mundial, como pode ser visto em várias batalhas jurídicas entre o varejista e editoras nos EUA e em países da Europa. Porém o mais grave, que atinge o coração das editoras, é a oferta aos autores para que eles editem e publiquem, por sua conta, seus livros. A própria Amazon, a Apple e outros oferecem sistema de “autopublicação” poderosos e fáceis de usar, que tornam a publicação de um livro uma tarefa que dispensa a figura da editora. De quebra, esses players promovem e vendem as obras em suas lojas virtuais, garantindo aos autores royalties incrivelmente mais alto que o oferecido pelas editoras tradicionais.

Não é de hoje que esse tema frequenta “O Macaco Elétrico”. Editoras e livrarias tentam encontrar maneiras de perpetuar seus modelos moribundos, normalmente tentando aprovar leis que contrariam os interesses dos consumidores, e se organizando para enfrentar as exigências dos varejistas mais exigentes. Mas agora a Amazon finalmente chegou para essa queda de braço.

Como pode ser visto, não é uma questão simplória de preço. Trata-se de modernizar o negócio de livros. Não dá para continuar tapando o sol com a peneira.

Qual é o segredo do Secret?

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"O Segredo", bronze de Lagoa Henriques - Foto: Manuel Botelho/Creative Commons

“O Segredo”, bronze de Lagoa Henriques

Quando conheci o Secret, fiquei tentando entender como funcionaria uma rede social cuja principal característica é o completo anonimato de seus participantes. Pareceu, de cara, uma contradição em termos. Mas há méritos no app.

Para quem nunca ouviu falar dele, o Secret é uma rede social construída por pequenos posts publicados a partir do celular de maneira anônima. Quer dizer, o sistema sabe quem são os autores e onde eles estão, além de quem são seus “amigos” (da agenda do telefone e do Facebook) que também usam o produto. Dessa forma, ele constrói uma lista de posts que, de alguma forma se relacionam com o usuário, mas sem que ele saiba quem são os autores.

Os tais “segredos” quase sempre são pequenas tolices que interessam a pouca gente (ou ninguém além de quem os postou). Há também aqueles que usam o aparente anonimato para caluniar e detratar seus desafetos. Por que então essa ferramenta está fazendo sucesso?

Talvez a explicação esteja justamente na possibilidade de a pessoa poder publicar o que quiser, sem o temor de ser julgado pelos seus amigos (reais ou virtuais). Já virou até piada dizer que ninguém é tão feliz quanto parece ser no Facebook. E ninguém é mesmo! Mas não é de se espantar que, na rede de Mark Zuckerberg, sejam publicadas quase que exclusivamente coisas positivas (ou pelo menos não reprováveis). Afinal, tudo vai ao ar com a assinatura do autor. Daí a sensação de que a vida parece ser mais bela ali.

Mas, como diriam os psicólogos, todos têm uma “sombra”, aquele lado com desejos que podem ser considerados imorais, inaceitáveis para a sociedade. Não havia muito lugar para ela em um mundo com redes sociais das mais diversas: para compartilhar fotos, o lugar onde se está, seu sucesso profissional, sem falar nas redes de relacionamento capazes de atender aos grupos sociais mais restritos.

O Secret surgiu aparentemente para ocupar essa lacuna. E é curioso ver como as pessoas criam verdadeiras conversas completamente anônimas em torno desses posts. Conversas com pessoas sem nome, sem rosto, sem sexo ou idade. Mesmo assim, elas estão ali.

Talvez os criadores desse pequeno app tenham mesmo descoberto um nicho ainda inexplorado nas redes sociais. Veremos se é apenas um hype ou se realmente as “sombras” encontraram o seu lugar ao sol.

Em time que está empatando, não se mexe?

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Foto: Manuel de Sousa/domínio público

O mercado de livros impressos no Brasil teve um crescimento inexpressivo em 2013, enquanto as receitas com e-books mais que triplicaram no mesmo período. Mesmo assim, as iniciativas digitais de editoras e livrarias continuam extremamente tímidas, para não dizer que há um boicote deliberado para tentar retardar o quanto puderem a migração para os meios digitais.

Os índices acima são da pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), encomendada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e pelo Snel (Sindicato Nacional de Editores de Livros), divulgada nesta terça (22). Segundo o estudo, o mercado de livros impressos cresceu 7,52% em 2013, com vendas de R$ 5,3 bilhões. Porém, se descontarmos a inflação do período (5,91%), o crescimento real foi de mísero 1,52%. O resultado, que já não é alentador, fica pior se descontarmos as gordas compras do governo, de R$ 1,4 bilhão. Nesse caso, o crescimento foi nulo. Já as receitas com e-books cresceram 225%, saltando para R$ 12,7 milhões.

Não é grande coisa: a participação dos livros digitais é de apenas 2,3% do negócio de livros brasileiro. Como comparação, o e-commerce já passa de 10% do faturado pelo comércio como um todo. E, comparando conteúdo com conteúdo, o mercado de música digital já supera metade do total faturado pela indústria fonográfica.

Essa participação tão pequena dos livros digitais se deve mais ao desinteresse das editoras que dos autores. Foram produzidos 30.683 títulos digitais em 2013, sendo 26.054 e-books e 4.629 app-books, livros digitais que são, na verdade, aplicativos e oferecem recursos mais avançados (exemplos: Frankie for Kids e The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore). Muitos desses títulos vêm de publicadores independentes ou pelo menos não ligados às grades casas editoriais. Isso ficou ainda mais fácil com os sistemas de autopublicação, como o iBooks Author e o Kindle Direct Publishing –que permitem que qualquer pessoa edite e publique sozinho seus e-books.

A reação das editoras vem sendo a pior possível. Ao invés de fomentar o mercado de livro digital, cujo custo de produção é muito mais baixo que o equivalente impresso, tentar cercear o seu crescimento, com iniciativas como amarrar em contrato que os e-books não sejam vendidos por menos que 70% dos equivalentes em papel. Dessa forma, desestimulam a migração para o novo formato. Impossível não comparar com o que ocorreu nos EUA, especialmente graças à Amazon, que vende livros digitais a valores muito mais baixos que os impressos. Dessa iniciativa, vieram dois resultados: as vendas dos títulos explodirem e as receitas dos livros digitais já superaram as dos impressos.

Mas a Amazon é varejo. Só conseguiu isso usando sua massiva força de venda para pressionar as editoras. Aqui no Brasil, entretanto, as livrarias têm um comportamento ainda pior que as editoras, capitaneadas pela ANL (Associação Nacional de Livrarias), que encara o livro digital como uma ameaça ao segmento. Não dá para esquecer a carta aberta que Ednilson Xavier, presidente da entidade, publicou em dezembro de 2012 com quatro propostas para proteger seus afiliados. Além do teto de 30% de desconto para as versões digitais dos livros, ele também propôs que esse desconto seja uniforme para todos os canais de venda, que, caso as editoras ou as distribuidoras vendam diretamente ao consumidor, esse desconto despenque para 5% e –pasmem– que livros sejam lançados na versão digital apenas depois de 120 dias da versão em papel.

Ednilson está, claro, fazendo o seu papel (sem trocadilhos). O livro digital ameaças as livrarias ainda mais que as editoras. Nos EUA, as livrarias digitais já vendem mais livros (incluindo os impressos) que as suas concorrentes “tradicionais”: US$ 7,54 bilhões contra US$ 7,12 bilhões.

Atitudes como as acima só demonstram o desespero de alguém incapaz de se adaptar a uma nova realidade em que pessoas compram e leem cada vez mais livros digitais em seus tablets, smartphones e e-readers, mesmo com preços artificialmente majorados. Para se manterem vivas, editoras e livrarias colocam o interesse do leitor em segundo plano.

Não estou sugerindo que caminhem graciosamente para seu fim sem fazer nada. Estou propondo que façam justamente algo, mas que seja construtivo. E isso significa uma mudança real de paradigmas. Aos que não se modernizarem, ainda lhes restará a venda de livros em papel, que continuarão existindo por muitos anos, principalmente em um país com uma grande deficiência de infraestrutura tecnológica como o nosso.

O que é inaceitável é manter a postura de “tapar o sol com a peneira”, “impedir a chegada do futuro” (que, por sinal, já é presente). Essa tática de não mexer em time que está empatando é coisa de técnico de futebol medíocre. Logo, logo, acabarão tomando uma goleada de 7 a 1.

Para onde foram os torcedores do Brasil?

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Como os torcedores dos 32 países participantes da Copa do Mundo torceram na final - imagem: Reprodução/NYT

Como os torcedores dos 32 países participantes da Copa do Mundo torceram na final

Não precisa ser gênio para supor que, na final da Copa do Mundo, os brasileiros torceram pela Alemanha, mesmo depois do acachapante 7 x 1 que nos impuseram. Claro, na verdade, a torcida era contra a Argentina. Mas quem poderia adivinhar –e mais que isso: medir– que 27% dos internautas no Brasil apoiaram aos “hermanos” naquela partida?

Bem, o Facebook conseguiu fazer isso, analisando dados de cerca de 2 bilhões de interações (post, comentários e curtidas) feitas na rede social por cerca de 300 milhões de usuários dos 32 países participantes do campeonato, que, diga-se de passagem, foi o evento com mais atividade nas redes sociais até hoje. Porém, apesar da análise massiva de informações –algo para deixar um levantamento nacional de um instituto de pesquisa com jeito de grão de areia na praia– o relatório exibido ao usuário não é dos mais atraentes.

Mais bacana é a coletânea de infográficos preparados pelo The New York Times a partir das mesmas informações do Facebook. De uma maneira muito mais intuitiva, o usuário consegue ver como os torcedores de cada um dos 32 países “migraram” para outras seleções depois que a sua própria era desclassificada, a cada fase da competição, além de um gráfico consolidado.

Dá para ver, por exemplo, que, até as quartas de final, o Brasil era o país com mais torcedores no mundo (quando 45% dos usuários do Facebook declararam apoio à nossa seleção), mas fomos passados pela Argentina na semifinal (34% a 32%), enquanto a Alemanha teve a preferência na final (57% contra 43% de apoio aos argentinos). Além disso, fica claro como os “hermanos” torciam contra nós, observando que, nas oitavas de final, o Chile, adversário do Brasil, teve expressivos 11% de apoio entre os usuários argentinos, assim como a Colômbia emplacou 34% de apoio por lá nas quartas de final, sendo que ambos os países haviam tido apoio irrisório nas fases anteriores. Além disso, além de seus próprios torcedores, o Brasil só foi o preferido dos portugueses e dos japoneses, depois de suas seleções terem sido desclassificadas ainda na fase de grupos.

Esse exemplo deixa claro como se pode produzir um conteúdo jornalístico interessante fazendo-se uso criativo de informações que estão disponíveis, muitas vezes de maneira aparentemente desorganizada, nos meios digitais. É claro que, no exemplo, coube ao Facebook processar toda essa informação na sua rede, mas o NYT fez um uso muito melhor dela.

Outro exemplo interessante é o site Twitter + GNIP, que cruza a origem geográfica de milhões de tweets enviados por dispositivos móveis, separando-os de acordo com o sistema operacional do aparelho. Com isso, dá para identificar como iPhones tendem a ser usados mais que celulares com Android (e outros) em áreas nobres das cidades. Nesse link, se vê a distribuição em São Paulo, mas é possível obter a mesma informação ao redor do mundo.

Claro que, por estarmos aqui tratando de produção jornalística, todo cuidado deve ser tomado na escolha da fonte da informação (como, aliás, em qualquer reportagem). No exemplo acima do NYT, apesar da amostra mais que representativa, ela ainda é restrita a usuários do Facebook nos 32 países participantes da Copa. Mas como a penetração da rede de Mark Zuckerberg é bastante expressiva na população de quase todos eles, a pesquisa fica realmente impressionante. De todo jeito, é importante que o usuário seja informado dessa particularidade da fonte.

O interessante é que, até bem pouco tempo atrás, a realização de uma pesquisa assim envolvia a contratação de um instituto de pesquisa, o que exigia um forte investimento. Agora há uma profusão de dados de diferentes naturezas e fontes, prontos para ser garimpados. Vale a pena investir na formação de jornalistas-mineradores.

“O conteúdo é rei” é uma tremenda balela

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Redação de The New York Times em 1942 - Foto: Marjory Collins/Biblioteca do Congresso dos EUA

Redação de The New York Times em 1942

Há quase vinte anos, eu ouço a tese do “conteúdo é o rei”, que um bom editorial seria suficiente para levar um veículo ao sucesso, dito pelos coleguinhas quase desprezando outras áreas da empresa, como o comercial e a estratégia. Mas um extenso documento interno de The New York Times, que vazou na semana passada, mostra que isso é um engodo, mentira, bullshit.

Não estou dizendo, jamais diria, que o conteúdo editorial não é importante. Porém a queda contínua dos veículos tradicionais, principalmente os impressos, diante de produtos digitais inovadores escancara a realidade de que um ótimo conteúdo está longe de ser suficiente para o sucesso. Nem mesmo The New York Times, casa de um jornalismo premiadíssimo, escapa dessa verdade.

O referido documento do Times, que muito bem serve para praticamente todos os grandes veículos impressos, pinta uma empresa que sofre para se adaptar à realidade digital, e experimenta grandes perdas em audiência e receita por conta disso. Mais dramático ainda, o relatório demonstra que o fato de o jornal se preocupar muito com o seu jornalismo, relegando a um segundo plano a evolução de uma estratégia digital robusta e consistente, corroi a sua credibilidade e ameaça sua sobrevivência.

Produzido por um grupo liderado por Arthur G. Sulzberger, filho de Arthur Ochs Sulzberger, publisher do NYT, o documento coloca o dedo em várias feridas, começando pelo fato que toda a sua estrutura de produção continua girando em torno da versão impressa. A ideia de ser “digital first”, que muitos veículos enchem a boca para promover em eventos e peças de marketing, não passa de um discurso vazio, que não encontra eco no dia a dia. E a resistência maior vem da Redação, que encara propostas de mudança em seu produto e na maneira de realizá-lo como uma “ameaça a sua independência”, o que poria em risco a qualidade.

O relatório chega a mencionar a dificuldade de integrar as equipes editoriais, técnicas e de estratégia, quase como se fossem concorrentes. O velho mantra da “separação igreja-estado” é invocado. Para quem nunca ouviu falar disso, o conceito visa impedir que interesses comerciais interfiram nos editoriais. O exemplo clássico é garantir à Redação a prerrogativa de publicar notícias ruins sobre uma empresa, mesmo que ela seja o maior anunciante do jornal.

Mas, nesse caso, isso não se aplica. Ninguém está propondo que a qualidade do jornalismo seja minimamente ameaçada por interesses “obscuros” de outros departamentos da empresa. Pelo contrário, os jornalistas precisam ter, antes de tudo, a humildade de aceitar que outros profissionais podem indicar o caminho que toda a empresa deve trilhar, diante de movimentos não apenas dos concorrentes, mas também de seus próprios clientes: os leitores.

Curiosamente, a única grande inovação do NYT nos últimos anos não veio da Redação, e sim da área de negócios: o seu “paywall poroso”. Resumidamente, permitindo que qualquer um tenha acesso gratuito a uma quantidade restrita de notícias a cada mês, eles propuseram uma maneira criativa que garantiu que 90% de seus internautas continuassem acessando suas páginas sem qualquer mudança (o que garantiu a manutenção da receita publicitária vinculada à audiência), enquanto aumentou consideravelmente o total de assinaturas digitais e até mesmo do jornal impresso.

O problema é que, de março de 2011 para cá, o conceito de assinatura, que já andava bem mal das pernas, se enfraqueceu ainda mais. Com a consolidação do consumo ubíquo de conteúdo em dispositivos móveis, as pessoas não querem mais se sentir “aprisionadas” a um veículo, pagando antecipadamente por muita coisa que não usarão. O consumidor de conteúdo atual, que absorve isso vorazmente como nunca, quer que tudo chegue a ele com qualidade, onde estiver, quando quiser e ainda referenciado pelos seus amigos. Se essas exigências forem atendidas, pouco importa a origem do conteúdo: pode ser o NYT ou um completo desconhecido que domine o assunto.

Não é de se espantar, portanto, o sucesso de agregadores, como o Flipboard. Da mesma forma, não é nenhuma surpresa a derrocada dos veículos tradicionais. E a culpa disso não cabe à Internet, aos agregadores, ao Google ou ao Facebook. Cabe aos próprios veículos, que continuam produzindo e distribuindo seu conteúdo como nos tempos em que eram a única fonte de conteúdo de qualidade.

Felizmente (para os usuários) ou infelizmente (para os veículos tradicionais), esse tempo é passado.O jornalismo do NYT é algo memorável e espero sinceramente que a “dama cinzenta” consiga reagir e promover as mudanças necessárias para continuar existindo. Cabe apenas a eles mesmos –e a todos os veículos agonizantes– a solução.

Outra maneira de encarar a intangibilidade do amor

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“Apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.” Isso é matéria-prima recorrente para poetas, psicólogos e qualquer um que se proponha a tentar entender a mente humana. Mas é possível se apaixonar por um software? E ainda ser correspondido?

A frase é do filme “Ela” (“Her”, 2013), em cartaz nos cinemas brasileiros e cujo trailer pode ser visto acima. Esse post não é uma crítica cinematográfica, e prometo tentar não fazer “spoilers”, mesmo porque recomendo fortemente que você o assista. Quero “apenas” discutir o que é necessário para que alguém ame e seja amado, uma das inúmeras questões levantadas por este surpreendente filme de Spike Jonze.

Não é difícil entender por que o protagonista, Theodore (Joaquin Phoenix), se apaixona por Samantha, a persona que habita o novo sistema operacional de seu computador, movida por uma inteligência artificial estupenda em um futuro próximo. Ela é praticamente a encarnação da mulher perfeita, exceto pelo fato de que não tem um corpo. Aparece apenas na voz de Scarlett Johansson. Como diriam os psicólogos, ela é a materialização (ops, ato-falho) das projeções mais íntimas de Theodore.

Não, Samantha não faz cegamente tudo o que seu “dono” quer. Pelo contrário, ela é incrivelmente “humana”, com sensações e emoções, que você pode até questionar se são reais ou não, pois Samantha é um programa. Mas todos esses sentimentos estão alinhados com os de Theodore, de uma maneira como ele nunca encontrou em nenhuma mulher real, nem mesmo em sua ex-mulher, com quem cresceu junto. De repente, parece que todos na sala de cinema estão apaixonados também, e ele e Samantha seriam feitos um para outro.

Talvez fossem até demais. Como ela sabe de tudo sobre ele? Bem, Samantha tem a sua disposição todos os rastros digitais deixados por Theodore: seus e-mails, suas registros em todo tipo de redes sociais, seu trabalho… virtualmente todo tipo de informação parametrizada ou desconexa de sua vida, guardada para sempre na Internet. E, graças à autorização de Theodore, Samantha teve acesso a tudo isso, para lhe oferecer “alguém” que atendesse a todas as suas necessidades, de uma maneira tão possível quanto seria para uma “pessoa”.

De forma alguma, estou querendo transformar Samantha em uma espécie de “cybermonstro”, que manipulou Theodore a partir de seus dados. Admito que, por alguns segundos, enquanto assistia ao filme, eu pensei que o fabricante daquele sistema operacional estaria com a mão sobre a vida de todos os seus usuários, de uma maneira assustadoramente completa. Será que Samantha, tão meiga e dedicada, compartilhou toda essa informação valiosa e pessoal de Theodore com seus criadores? Mesmo depois de ela se apaixonar por ele?

Definitivamente essa não é a proposta do filme, mas –ok– ele me fez pensar no Facebook, no Google e em tantas empresas que parecem nos conhecer cada vez mais, às vezes aparentemente melhor que nós mesmos. Compartilhamos até nossos desejos mais íntimos com seus algoritmos, em troca de uma experiência digital mais e mais eficiente e até mesmo prazerosa. Estamos metidos nisso. E felizes.

Não é a primeira vez que a ficção recria emoções absolutamente humanas em máquinas. A belíssima refilmagem de 2003 de “Battlestar Galactica”, com seus cylons “humanos”, capazes de amar e serem mais religiosos que os verdadeiros humanos, a série derivada “Caprica” (2009), com avatares idênticos às pessoas que representam puramente criados a partir dos “rastros digitais” deixados por elas, ou os replicantes do cult “Blade Runner” (1982) são bons exemplos. Há até o divertido “Amores Eletrônicos” (1984), em que um computador se apaixona por uma bela violoncelista (você pode assistir ao filme completo, legendado em português).

Todos esses filmes e seriados questionam não apenas o que é a humanidade, mas também o que é o amor e quem tem o direito de sentir isso. Poderíamos argumentar que algo que nos torna humanos é justamente o fato de nunca encontrarmos uma pessoa cujos sentimentos estejam completamente alinhados a nós mesmos, ao contrário de Theodore e Samantha. Duas pessoas diferentes nunca serão totalmente compatíveis. Mais que isso: nós mudamos continuamente e de maneira independente daqueles que eventualmente já chamamos de nossa cara-metade.

Mas talvez estejamos caminhando para um futuro como o de “Caprica”, “Galactica” ou “Blade Runner”, em que os algoritmos oferecerão às máquinas as nossas virtudes e os nossos defeitos, nossos desejos e nossos medos, nossas crenças e nossas incertezas.

E então, afinal, talvez elas amem verdadeiramente.

Bônus musical:

Selecionei duas músicas de “Ela” e de “Amores Eletrônicos”, que, para mim, sintetizam essas histórias. Divirtam-se!

  • “Ela”:

“The Moon Song”

“Photograph”

  • “Amores Eletrônicos”:

“Electric Dreams”

“Love Is Love”

Devemos formar as crianças para o mundo em que elas vivem

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Crianças usam notebooks educacionais em escola nos EUA - Foto: divulgação

Crianças usam notebooks educacionais em escola nos EUA

Recentemente entrei em um debate com uma mãe que se vangloriava de, nessa ordem, ter “tirado o computador” do filho de dez anos e que, por conta disso, ele estaria fazendo coisas “que uma criança deve fazer”, como jogar bola e subir em árvores. Perguntei a ela para que mundo ela estava formando seu filho. E ela se ofendeu.

Pais, pelo menos os conscientes, procuram sempre dar o melhor a seus filhos, incluindo a educação que eles consideram a mais adequada. Entretanto, “melhor” é algo que varia de acordo com a pessoa, com o lugar e com a época. Precisamos ser flexíveis às mudanças que acontecem a nossa volta, mesmo quando não gostamos dos resultados delas.

Tive uma infância feliz e saudável, onde joguei bola, subi em árvores e fiz coisas que a mãe acima provavelmente desaprovaria, como participar de animadas batalhas campais com amigos, todos armados com estilingues e usando semente de mamona como munição. Aquela era a realidade em que vivia e nunca fui privado dela pelos meus país. Além disso, tive a sorte de eles incentivarem, inclusive com grande esforço financeiro, o meu interesse por computadores já no começo da adolescência. Isso em uma época em que se ter um computador em casa era algo muito raro, mesmo em famílias abastadas.

Chamo de “sorte” a chance de ter tido acesso, alguns anos antes que a esmagadora maioria, a algo que em pouco tempo, mudaria completamente o mundo. Apesar de nunca ter me transformado em um profissional de TI, o contato com a nascente computação pessoal me permitiu desenvolver várias habilidades cognitivas que se converteram em diferentes vantagens na minha vida.

Por mais que eu gastasse horas com aquela máquina incompreensível para meus pais, eu nunca deixei de fazer minhas outras atividades por conta daquilo. Ou seja, o livre acesso à tecnologia não me privou de nada: pelo contrário, foi algo que apenas me acrescentou habilidades que não teria de outra forma.

Não concordo, portanto, com pais que restringem o acesso de seus filhos a computadores, videogames ou celulares, sob o pretexto de que assim as crianças não fariam mais nada, se pudessem. Uma criança só se comporta dessa forma se não lhe forem oferecidas alternativas. E, nesse caso, a culpa será dos pais, não dos filhos.

É exatamente a mesma coisa que acontecia há uns 20 anos, quando os pais reclamavam que seus filhos passavam o dia diante da TV. Contestavam a qualidade da programação, mas nunca aceitavam que aquilo acontecia simplesmente porque aquelas crianças não tinham muito mais a fazer.

Felizmente, nem todos são assim. Mas a “turma do contra” prefere matar a vaca a acabar com o carrapato. Não se importam em afirmam categoricamente que os games deixam seus filhos violentos, mas se recusam a enxergam que não reservam o tempo necessário para se dedicar genuinamente às crianças, inclusive para lhes dar o carinho necessário para sua boa formação. Entendo que isso não é algo fácil de conseguir, especialmente com a vida corrida que lhes é imposta. Mas é crítico que seja feito.

Portanto, vão “tirar o computador” para que seu filho possa subir em árvores? Francamente, para que mundo estão formando seus filhos?

Mais um round entre a mídia míope e o futuro

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Logos da Rede Globo em 1965 e hoje

Logos da Rede Globo em 1965 e hoje: o grupo está perdendo a capacidade de olhar para o futuro?

Os profissionais dos diferentes veículos das Organizações Globo estão proibidos de colocar links nas fan pages dos próprios veículos no Facebook. Continuam fazendo chamadas, mas nada de link, apenas frases toscas como “Leia a reportagem no site de ÉPOCA”. O G1 radicalizou: usa uma imagem padrão agrupando indiscriminadamente seus títulos, três a três, sem qualquer outra preocupação: uma “antichamada”.

Chega a ser patético o apelo para que os usuários entrem no site do veículo e saia procurando pelo conteúdo que quer ler, uma tentativa medíocre e desesperada de aumentar a audiência valendo-se de um desserviço ao próprio usuário. A iniciativa só não é mais ridícula que a falta de raciocínio que levou a ela: para os executivos da Globo, o Facebook “rouba” audiência de seus portais, assim como agregadores ou leitores de RSS. Segundo essa visão com miopia beirando a cegueira, usuários estariam se “satisfazendo” com as chamadas criadas pelos próprios jornalistas e as três primeiras linhas do texto que o Facebook automaticamente replica na chamada.

Se isso fosse verdade, tiraria algumas conclusões. A primeira seria que o conteúdo de todos os produtos da Globo seria uma porcaria tão rasteira, que ninguém se interessaria em ler nada além daquelas poucas palavras na chamada. Também poderia concluir que os responsáveis pelas fan pages seriam tão incompetentes que nada que eles produzissem convenceria os usuários a visitar suas páginas.

Felizmente não é nada disso: os conteúdos da Globo normalmente são bons, e os únicos incompetentes nessa história são os que propuseram essa iniciativa lamentável. Esse é apenas o mais recente capítulo da briga entre a mídia tradicional, que, apesar de ainda ser capaz de produzir bom jornalismo, tem uma visão de negócios cada vez mais decadente. Diante de sua constatação de ser incapaz de controlar o futuro, tente impedir sua chegada, parando de dar corda no próprio relógio.

Por que o Facebook incomoda tanto esses arautos do ostracismo? Porque ele, assim como o Google, agregadores e outros produtos e serviços que ditam as tendências de distribuir conteúdo de uma maneira inteligente e pensando no usuário, diminui ainda mais a relevância das home pages de portais e sites desses veículos. Até havia alguns anos, quando eles ainda detinham o poder sobre a produção e distribuição do conteúdo jornalístico, a melhor maneira de se informar era entrando nessas home pages. Com elas, as empresas promoviam o conteúdo que consideravam pertinentes e dirigiam os usuários dentro de sua estrutura de navegação. De quebra, geravam dezenas de milhões de page views nesse processo, o que significa dinheiro extra entrando no caixa. E até hoje elas ainda representam uma porcentagem muito considerável no total de page views desses sites. Portanto, para eles, qualquer coisa que ameace essa vaca leiteira deve ser combatido.

Mas o mundo mudou. Desde que “o Facebook se tornou o jornal e seus amigos os editores”, as home pages deixaram de ser importantes. Para as pessoas, é muito mais interessante ler o que seus amigos estão promovendo que as escolhas feitas pelos editores. Por isso, atitudes retrógradas como essa adotada pela Globo só demonstram como os executivos das empresas de mídia estão descolados do mundo que seus veículos cobrem. Não reverterão em nada a linha descendente de sua audiência e ainda desestimularão as pessoas a dar links para seus conteúdos.

Ao invés de continuar combatendo o futuro, os executivos das empresas de mídia precisam aprender a tirar proveito do que ele tem a oferecer, incluindo aí o Facebook, o Google, os agregadores e tantas outras coisas que eles insistem em demonizar. Não é “dar de graça” seu trabalho, e sim apresentá-lo da maneira que seus clientes querem, para assim continuarem sendo seus clientes.

Ah, normalmente eu daria links para fan pages de veículos da Globo. Mas não farei isso.

Jogador, gostaria de lhe apresentar George Washington

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Cenas de O Patriota e de Assassin's Creed III

Que melhor maneira de estudar sobre a Revolução Americana, que assistindo a um filme como O Patriota, ou -melhor ainda- atuando diretamente nos seus eventos históricos, como em Assassin’s Creed III?

Há alguns dias, tive o prazer de conhecer “pessoalmente” George Washington, quando frustrei uma tentativa de assassiná-lo. Também andei pelas ruas e conversei com os habitantes de Boston e de Nova York do século 18, sentindo o calor de uma população que crescentemente se revoltava contra o domínio britânico sobre o que hoje são os Estados Unidos. Sim, eu estava lá e pude entender, sentir e participar da cadeia de eventos que culminou na Revolução Americana.

Isso tudo aconteceu, mas dentro de Assassin’s Creed III. Para quem não conhece essa séria de games da Ubisoft, seu roteiro se constroi sobre um personagem que consegue reviver as memórias de seus antepassados com o auxílio da tecnologia. Dessa forma, participa de eventos históricos, como as Cruzadas, a Renascimento e a própria Guerra da Independência dos Estados Unidos, como se realmente estivesse naquela época e local. E o jogador é convidado a interagir com esse mundo passado, garantindo que tudo aconteça como deve ser.

Além da impressionante qualidade técnica e de uma cuidadosa recriação de fatos e de ambientes, o que mais me chamou atenção no game foi a possibilidade de se “estudar” história (no caso, americana) com ele. Do que me lembro dos meus tempos de escola, o material didático que tinha disponível sobre o assunto se resumia a uns poucos parágrafos sobre a Festa do Chá de Boston e a própria Declaração da Independência. Agora pude participar ativamente não apenas desses dois eventos, como também de vários outros que os antecederam e sucederam e que, juntos, explicam e justificam a independência dos EUA.

Assassin’s Creed não é o primeiro jogo que coloca o jogador como protagonista de eventos históricos, favorecendo o aprendizado tangencial, já discutido neste blog. Mas é a bola da vez, com rumores de que pode até ser transformado em um longa-metragem hollywoodiano.

É uma maneira inovadora e muito eficiente de se ensinar um conteúdo acadêmico, que serve de fio condutor em um game cuja diversão a princípio não tem nenhum interesse educacional. Mais eficiente até que assistir a um filme como O Patriota, com Mel Gibson interpretando um fazendeiro que se vê forçado a participar da Revolução Americana. Que por sua vez é muito mais eficiente que os parágrafos do livro didático acima citado, pois traz muito mais informação, contexto e –claro– diversão associada ao aprendizado.

A vantagem do game é que o estudante-jogador abandona a posição passiva e participa ativamente dos fatos, algo que nem os filmes podem oferecer. No melhor estilo do “aprender fazendo”, a informação é, mais que decorada, assimilada e entendida por se ter participado dela, ainda que virtualmente.

Sei que é difícil sugerir que um game como esse seja adotado como material didático, pois o custo é elevado e a ação é extremamente violenta, do começo ao fim, como se pode imaginar pelo título. Mas o que proponho aqui é o uso criativo de ferramentas inusitadas e que fazem parte do cotidiano dos alunos para se atingir fins pedagógicos.

Há muito material para isso para história universal e ciências naturais, por exemplo. Infelizmente não há muitos games que retratem o Brasil e sua história, mas há bastante material assim na teledramaturgia, especialmente da Rede Globo. Fica o desafio às equipes pedagógicas de garimpar isso de acordo com seus planos de aula.

As editoras de material didático deveriam também investir nisso, mas elas têm uma enorme dificuldade de ousar nesse sentido. A começar porque a produção de um material como esse é caríssima, e dificilmente se pagaria vendendo às escolas que topassem adotá-lo. Talvez devessem então começar a pensar sob a ótica do aprendizado tangencial, e produzir games para um público muito além do escolar, ao invés de continuar apenas com suas iniciativas bastante… “limitadas” de conteúdo didático digital.

Ou daqui a pouco verão a indústria de games ganhando as licitações do MEC.

A hora e a força das autopublicações

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Foto: Maximilian Schönherr

A combinação de sistemas como o iBooks Author e o Kindle Direct Publishing –que permitem que qualquer pessoa edite e publique sozinho seus e-books– com a chegada oficial no Brasil das grandes livrarias virtuais –no dia 6 de dezembro, a Amazon e o Google Play se juntaram ao iTunes e ao Kobo– pode fazer de 2013 um ano marcante para quem quiser lançar suas obras dispensando editoras, os “autopublicadores”. Mas há algumas pedras no caminho.

Até havia bem pouco tempo, publicar um livro era algo que exigia o apadrinhamento de uma editora ou –na imensa maioria dos casos– o pagamento antecipado de uma tiragem mínima, normalmente 500 exemplares. No primeiro caso, a editora cuidava de tudo, mas ficava com a parte do leão, restando ao autor royalties diminutos. No outro, o investimento na composição e impressão da obra não era pequeno para quem estava começando. Além disso, com os livros nas mãos, cabia ao autor a tarefa de vendê-los, o que muitas vezes terminava em um grande encalhe de exemplares –e consequente prejuízo.

Há poucos anos, surgiram no Brasil empresas especializadas em impressão sob demanda: o exemplar do livro só é impresso depois de ser vendido. Dessa forma, elimina-se o problema do encalhe, mas, em contrapartida, a impressão de cada exemplar fica muito mais cara.

Agora, editar e publicar sua obra são quase tão fáceis quanto escrever o seu texto em um processador eletrônico. E os novos sistemas ainda permitem a inclusão de recursos interativos e de multimídia poderosos, fazendo com que as obras compostas pelos próprios autores não fiquem devendo nada às criadas pelas grandes editoras.

Restava ainda solucionar a questão da distribuição, que normalmente restringia as vendas dos autores-empreendedores a poucas dezenas de exemplares. Grandes livrarias não dão destaque a autores desconhecidos –isso quando sequer reservam algum espaço em suas prateleiras a eles. A Amazon e afins resolvem esse problema com sua capacidade virtualmente infinita de comercializar a quantidade de obras que quiser.

E aí o conceito de “cauda longa”, onde qualquer título, por mais específico que seja, encontra o seu público, ganha força. Uma prova disso aconteceu na própria Amazon brasileira nos primeiros dias de sua operação: durante dois dias, o livro mais vendido foi “Organizando a Vida com o Evernote”, do desconhecido Vladimir Campos. Ok, pode-se argumentar com razão que isso resultou de peculiaridades do início da operação. Mas Campos jamais repetiria o sucesso –em dois meses, vendeu quase 1.500 e-books a R$ 16– na abertura de uma nova loja física de uma grande livraria. Possivelmente não venderia nenhum exemplar no mesmo período.

Outro exemplo interessante é “Frankie for Kids”, uma versão (em português e inglês) de Frankenstein encapsulada dentro de um aplicativo com ilustrações e interatividade para crianças. Primeira iniciativa no mercado de livros do casal de jornalistas Fernando Tangi e Samira Almeida, chegou a encabeçar a lista de mais vendidos da categoria no iTunes logo após seu lançamento.

Por tudo isso, há uma grande chance de experimentarmos no Brasil algo que já se nota em alguns países há alguns anos: a força dos autopublicadores. Erika Leonard James, autora da coqueluche do momento, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, começou assim. Os três títulos da sequência viraram um sucesso primeiramente como e-books e impressão sob demanda (as versões digitais inclusive garantiam a discrição de suas leitoras na hora da compra e da leitura, importante para muitas delas, pela natureza erótica da obra). Apenas no ano seguinte, uma grande editora comprou os direitos e relançou a obra (já um sucesso), para inundar onipresentemente as vitrines das livrarias físicas.

Turma do contra

A combinação dos sistemas de autoria e as livrarias virtuais democratizam a leitura e facilitam o surgimento de novos autores, que podem lançar obras cobrando menos e ganhando mais, por eliminar custos típicos das obras impressas e das editoras. Isso é uma excelente notícia, especialmente em um país em que as pessoas leem pouco, em parte pelos altos preços dos livros.

Mas nem todo mundo está feliz. Os primeiros a torcer o nariz são as próprias editoras. Há quase um ano, repercuti uma carta aberta do publisher Arnaldo Saraiva, em que ele afirmou categoricamente que as editoras de livros (no caso, didáticos) não têm mais nada a oferecer a seus autores. As reações ao post (e à carta) foram mistas: os leitores concordaram; as editoras estrilaram.

Outros que naturalmente têm a perder são as livrarias. Se os leitores começarem a comprar e-books (ou mesmo livros impressos) das livrarias virtuais, seja pela comodidade, seja pelos preços mais baixos, como fica sua situação?

As editoras brasileiras conseguiram amarrar em contrato que os e-books não sejam vendidos por menos que 70% dos equivalentes em papel, apesar de os custos serem muitíssimo mais baixos nas versões digitais, o que permitiria descontos ainda maiores. Isso já é bastante questionável. Mas o pior mesmo tem sido a reação das livrarias.

No início de dezembro, a ANL (Associação Nacional de Livrarias) divulgou uma carta aberta com quatro propostas para proteger seus afiliados. Além do teto de 30% de desconto para as versões digitais dos livros, Ednilson Xavier, presidente da ANL, que assinou a carta, também quer que esse desconto seja uniforme para todos os canais de venda, duas práticas totalmente contrárias aos interesses do consumidor. Pior que isso: outro ponto propõe que, caso as editoras ou as distribuidoras vendam diretamente ao consumidor, que esse desconto seja de ridículos 5%.

O último ponto é o mais grotesco de todos: a ANL sugere que livros sejam lançados na versão digital apenas depois de 120 dias da versão em papel. Diante de tudo que foi exposto acima, isso é evidentemente uma tentativa de impedir o futuro (na verdade, o presente) para preservar um negócio à custa dos consumidores e dos autores.

Xavier evoca as regras do mercado cinematográfico, em que um filme sai primeiro nos cinemas, para depois seguir a mídias domésticas e só então à TV (fechada e depois aberta). Quanto a esse ponto, vale ressaltar que, na época do surgimento do VHS, quando muitos decretaram a breve morte das salas de cinema, elas eram desconfortáveis, com imagem e som ruins. Diante da ameaça que lhes foi apresentada, os cinemas passaram por uma incrível transformação de infraestrutura e de tecnologia, criando uma nova experiência com a qual nem mesmo os atuais discos blu-ray podem se equiparar. Reinventaram seu negócio e não apenas mantiveram sua relevância, como a ampliaram. E isso foi mais importante que qualquer regulamentação.

Propostas como essa me fazem lembrar da famigerada “Lei da Informática”, que vigorou no Brasil de 1984 a 1992. Em resumo, ela impediu a entrada de fabricantes internacionais de computadores no país, em nome de fortalecer a então recém-criada indústria brasileira de informática. Na prática, o que se viu foi o consumidor brasileiro sendo obrigado a comprar equipamentos nacionais obsoletos e a preços abusivos (ou recorrendo ao contrabando), sem que a indústria se preparasse para a competição internacional. De fato, após o fim da reserva de mercado, o que se viu foram os fabricantes brasileiros abandonando seus projetos para se transformarem em revendas ou montadores dos mesmos produtos estrangeiros até então proibidos.

“Libertas Quae Sera Tamen”

Sou um liberal e, dessa forma, condeno intromissões governamentais que, por mais que ajudem um segmento econômico, sejam contrárias ao interesse da maioria. Isso é típico de países que querem até impedir, por força de lei, que sua língua sofra influência de outros idiomas, um disparate em tempos de Internet onipresente.

É importante ressaltar que os pequenos livreiros já sofrem uma concorrência brutal, quase desleal: a das redes de livrarias, que compram das editoras grandes lotes de obras a preços mais baixos. Para esse pessoal, o drama já está posto há muitos anos, e novas tecnologias e players pouco impactarão em suas vendas já espremidas.

As grandes livrarias –essas sim– podem sofrer mais, pois seus clientes são justamente os consumidores de tablets e de e-readers, e já estão comprando obras digitais. Porém, assim como eles forçaram as pequenas livrarias a se posicionar para sobreviver, devem agora transformar seu negócio para que ele não pereça. Fica o exemplo da Cultura, que já é a representante nacional do Kobo e transformou suas lojas em espaços de convivência cultural.

A única coisa que não se pode admitir ou tolerar são controles contra a liberdade, que impeçam a queda no preço das obras e o surgimento de novas E. L. James. Eles atrapalham que a sociedade evolua e progrida.

Empresas estão em crise; o jornalismo, não

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Foto: Notsureifsrs - Creative Commons

Manifestante do Movimento #15M, que rendeu o prêmio Ortega Y Gasset a Carmela Ríos pela sua cobertura pelo Twitter

Nesta quarta, o Grupo Estado anunciou a demissão de 20 pessoas do Estadão.com (uma semana depois de dispensar cerca de 100 profissionais da área administrativa) e a Ejesa fez o mesmo com número semelhante de jornalistas de O Dia e do Meia Hora. No mesmo dia, eu participava do MediaOn, seminário internacional que discute muito bem o futuro da profissão, focando no jornalismo online. E alguns colegas no evento me abordaram com a mesma pergunta: “o jornalismo está em crise?”

Para mim, está muito claro que o jornalismo NÃO está em crise. Na verdade, eu acredito que ele vive um momento notável, com um crescimento incrível no número de publicações e profissionais desafiando com sucesso modelos há muito consolidados. Além disso, nunca se consumiu tanta notícia, de diferentes assuntos e formas (algumas inexistentes há bem poucos anos).

Quem está em crise –e brava– são as empresas de comunicação tradicionais. São elas que vêm promovendo demissões em massa, como as citadas acima, e fechando títulos. E essa crise não está mais restrita ao hemisfério norte (no dia 31 de outubro, perdemos o outrora glorioso Jornal da Tarde) ou a veículos impressos (The Daily deixará de circular no dia 15 de dezembro).

Coincidentemente, o MediaOn deste ano contou com a participação da espanhola Carmela Ríos (@CarmelaRios), editora-geral do Terra Espanha. Durante sua participação, ela contou como passou do jornalismo televisivo para o digital quase que por acaso, quando, do meio de uma reportagem, tuitou de seu Blackberry que a CNN+, canal para o qual trabalhava, havia acabado de encerrar suas operações.

Mal sabia ela que, naquele momento, estava divulgando a notícia em primeiríssima mão, imediatamente após ela ser avisada do fato por seus colegas que estavam na Redação. Experimentou então um resultado imediato e explosivo vindo de seu tuíte, o que a fez encarar o jornalismo digital com outros olhos. Tanto que, alguns meses depois, fez toda a cobertura do Movimento #15M (foto acima) pelo Twitter, o que lhe conferiu o prêmio Ortega Y Gasset de jornalismo. Hoje faz jornalismo digital no Terra, onde diz ter se encontrado.

Esse debate foi um dos maiores ganhos desse MediaOn. De um lado, representantes de empresas de mídia tradicionais tentando sustentar, talvez inconscientemente, talvez vestindo um discurso institucional de seus empregadores, modelos anacrônicos que insistem em transpor para uma nova plataforma. De outro, jornalistas com experiências arrebatadoras, resultado de insights ou simplesmente de não conformismo com o que viviam antes.

Por isso, estou muito confiante com o futuro do jornalismo, por mais que esteja, por outro lado, bastante preocupado com o das empresas de comunicação tradicionais. Mas elas estão no lugar que elas –e apenas elas– se colocaram e de onde aparentemente não querem sair. Quanto aos colegas, o futuro também pode ser brilhante a eles: basta fazer jornalismo de uma maneira que não seja a das velhas empresas.

Por que The Daily não deu certo

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Já não espanta mais ninguém o anúncio de um jornal centenário deixar de circular: a crise da mídia impressa se arrasta há anos (ontem The New York Times confirmou que iniciará um pacote de demissão voluntária). Mas hoje foi noticiado o encerramento de um jornal totalmente digital, isso sim algo menos comum. E não é um veículo qualquer: trata-se do The Daily, a tentativa de Rupert Murdoch transpor o seu modelo de jornalismo para o mundo digital, cuja última edição circulará no dia 15 de dezembro.

O produto foi lançado com grande exposição em fevereiro de 2011, alardeado como “o primeiro jornal apenas para iPad”. A promessa era interessante: criar um jornal diário de cobertura nacional, leitura fácil, com bons recursos multimídia e conduzido por uma Redação de primeira linha, com mais de cem pessoas. Tudo por uma assinatura de US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por ano. A parte técnica teve apoio da própria Apple e o investimento inicial foi de US$ 30 milhões. A expectativa era chegar a 500 mil assinantes em cinco anos.

Então por que o The Daily fechará suas portas antes de seu segundo aniversário?

A resposta é muito simples, e antecipei o motivo dois meses antes do lançamento do produto.

O problema é que The Daily tentou recriar, em uma plataforma extremamente inovadora, um produto e um modelo de negócios do século 19. Murdoch nunca escondeu sua aversão a produtos digitais moderninhos, que corroíam as margens de lucro dois jornais da sua News Corp. The Daily era sua aposta para demonstrar que podia perpetuar a fórmula nos tablets, que pareciam cair muito bem ao seu propósito.

Muita gente ficou de olho no experimento e até investiu nele. Afinal, se The Daily desse certo, ele poderia indicar um caminho de sobrevivência para uma combalida mídia impressa.

Mas não é isso que os usuários de tablets querem. The Daily poderia ser descrito como um jornal para quem não gostava de jornal em papel. Mas o que essas pessoas rejeitam não é o papel, e sim um produto que se atualiza apenas uma vez por dia, que exige assinatura de todo o seu conteúdo mesmo para quem quer consumir apenas algumas matérias, que não tira proveito das redes sociais, que sequer pode ser indexado pelo Google.

Ou seja, The Daily deu errado porque as pessoas rejeitam sua proposta, a de um jornal tradicional. Nesse caso, o tablet é apenas a mídia, assim como o papel. Portanto, podemos ironicamente explicar a crise dos jornais impressos com a derrocada do The Daily.

Some a isso a ascensão de produtos como agregadores, que são praticamente a negativa do modelo acima: um “veículo” continuamente atualizado, construído com conteúdos de diferentes fontes, organizado por assunto e pelas preferências do próprio usuário e de seus amigos, totalmente integrado a mídias sociais.

Curiosamente, os jornais combatem os agregadores, o Google Notícias, a blogosfera. Tudo em nome de perpetuar seu passado glorioso, rejeitado pelos novos públicos. Os jornais estão morrendo com seus velhos assinantes, literalmente. Não será transpor o passado para um tablet que mudará isso. Já que estavam prestando tanta atenção ao The Daily, deveriam aprender algo com ele afinal, ainda que na hora da morte.

Ainda sobre a cobrança pelo conteúdo

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Depois de meu post anterior, alguns colegas argumentaram comigo sobre a importância de se cobrar pelo conteúdo jornalístico. Concordo, mas não vejo com bons olhos a maneira como esse debate vem acontecendo. Essa campanha , patrocinada principalmente pelos jornais, é vazia, pois se apoia em uma premissa falsa. Portanto vale a pena retomar o assunto na tentativa de jogar um pouco de luz sobre ele.

A tal premissa é a de que as pessoas não querem mais pagar pelo conteúdo, querem consumir tudo de graça. Desculpem, isso não é verdade. As pessoas consomem hoje conteúdo em volume e em diversidade jamais vistos. E –pasmem!- elas pagam por muitos deles. Um bom exemplo é o cinema, que se recuperou de uma fase ruim, iniciada com a popularização do VHS. Hoje as salas estão cheias, e as pessoas pagam mais caro pelo ingresso para ver as sessões em 3D.

Outro bom exemplo é a Apple. Ela está (também) dominando o mundo sobre os cadáveres de outra indústria que cometeu suicídio por se recusar a aceitar as mudanças no comportamento dos usuários: a fonográfica. Enquanto as vendas de CDs batem no chão e as lojas praticamente os retiraram das prateleiras, o iTunes ultrapassou, em fevereiro de 2010, a incrível marca de 10 bilhões de faixas vendidas, com um modelo que combina qualidade (as músicas tem qualidade superiores às de CD), comodidade (você compra só a faixa que quiser, quando e onde estiver, com um clique) e preço baixo (ninguém pensa muito antes de gastar um único dólar).

Podemos tirar algumas lições desses dois exemplos. A primeira é que a Apple não acabou com a pirataria de músicas: estima-se que cada iPod e similares dos adolescentes americanos tenham cerca de 800 músicas baixadas ilegalmente, em média. Mas a função da Apple não é acabar com a pirataria: é vender. E ela faz isso para uma em cada quatro músicas vendidas nos EUA.

Quanto aos cinemas, ao invés de ficarem chorando sobre o videocassete, investiram na experiência que ofereciam. Quem vai ao cinema hoje, não faz isso apenas para assistir a um filme. Paga para ter isso em uma tela enorme, muitas vezes em 3D, com um som incrível, em salas confortáveis e comendo alegremente uma pipoca que custa quase tanto quanto o ingresso. Trata-se de uma experiência envolvente e positiva, que não existe em outro lugar.

Portanto, caros colegas, as pessoas querem –sim– pagar pelo conteúdo que consomem. Apenas não querem pagar por aquilo que lhes é oferecido pelos jornais, pois sua percepção indica que esse produto não merece ser pago.

Mesmo com a popularização dos tablets, os jornais ainda não perceberam que o problema reside no seu modelo de produto e de negócios, ultrapassados. Querem embarcar nesta plataforma popularizada pela Apple, sem entender o que fez da empresa o sucesso nos negócios, empurrando aos consumidores a mesma coisa que já ofereciam no papel.

E aí ficam se debatendo diante da recusa das pessoas em pagar, e combatendo quem realmente entendeu o novo momento da mídia, como o Google Notícias ou o Flipboard, só para ficar em dois exemplos básicos. Resistem bravamente ao futuro do seu negócio, que passa por “destruir” o seu produto, para recriá-lo com seu elemento primordial: jornalismo de qualidade.

Isso nos leva de volta ao post anterior. The New York Times e The Wall Street Journal vêm colhendo bons frutos com seus paywalls. Mas conseguem isso com um conteúdo que é realmente um diferencial. Além disso, o primeiro, desde que o jornalismo começou a flertar com a Internet, sempre se destacou por iniciativas criativas do uso da tecnologia, nem sempre bem-sucedidas.

O usuário paga pelo conteúdo. É só lhe oferecer algo que valha a pena.

Depois do “paywall”, o “freewall”

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Desde que o The New York Times lançou, em março do ano passado, o seu “paywall”, os jornais elegeram esses sistemas de controle de cobrança pelo seu conteúdo digital como a tábua de salvação de sua indústria em forte declínio. Não falam de outra coisa, como uma criança que encontrou antes da hora um presente escondido. Mas Raju Narisetti, vice-editor executivo do The Wall Street Journal, classifica os paywalls como “negativos”.

A declaração foi feita no 9º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) nos dias 20 e 21 de agosto. Ironicamente o WSJ de Narisetti é o melhor exemplo de sucesso conteúdo digital fechado. Se quiser ler, tem que assinar. Muito mais “duro” que o modelo do NYT, que vem habitando os sonhos dos publishers, em que o leitor pode acessar páginas livremente até determinada quantidade, antes de ser convidado a pagar.

Como entender essa aparente contradição do executivo? O próprio Narisetti explica: o WSJ sempre cobrou pelo seu conteúdo, ao contrário de praticamente todos os demais jornais, que acostumaram seus usuários a consumir o conteúdo de graça. Agora precisam convencer seu público a pagar pelo que sempre foi grátis. Além disso, o conteúdo do WSJ é um verdadeiro diferencial, raramente equiparado por outros veículos, o que cria uma justificativa pela cobrança.

“Vocês devem descobrir o que funciona para o seu negócio e encontrar formas de beneficiar seus sites e seu jornalismo”, disse no evento. Traduzindo: não há nenhuma garantia de que os sucessos dos modelos de paywall do NYT e do WSJ possam ser reproduzidos em outros veículos. Mais: para que isso tenha a mínima chance de acontecer, os veículos têm que oferecer um produto que mereça ser pago.

Problema: diferencial é algo que os jornais, os brasileiros com destaque, têm cada vez mais dificuldade de oferecer. Em época de cortes dramáticos de custos, as redações ficam povoadas de “focas”, imaturos e com formação deficiente. E um bom jornalista só aparece ao longo dos anos, forjado na reportagem e na edição. Nossos veículos se tornaram reféns de sua falta de criatividade da inexperiência dos novos colegas, dependendo do denuncismo e do jornalismo palaciano, duas pragas que tentam mascarar essa triste realidade.

Apenas para exemplificar, vejam as primeiras páginas de hoje do Estadão e da Folha:

 

 

Os dois jornais têm a mesma manchete, com o mesmo sujeito, mesmo verbo e mesmo objeto; a foto principal também retrata o mesmo personagem; três das outras principais chamadas também tratam do mesmo assunto.

Caramba: até o anúncio é o mesmo!

Mais dramático ainda: nada, absolutamente nada do material chamado nas duas páginas exigiu grande esforço. É material de assessorias, de agências, de pesquisas. E tudo isso também está disponível igualmente (e muito mais rápido) em portais como Terra, MSN e outros, que não dão a menor pinta de que passarão a cobrar pelo seu conteúdo. Sem falar na televisão aberta.

Fica a pergunta: quem vai pagar por isso? Ou ainda: quanto vale isso? Disse Suzana Singer, ombudsman da Folha, na sua coluna do dia 24 de junho : “para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede.”

Os paywalls mudarão magicamente isso? O próprio Narisetti responde: “paywalls são inerentemente negativos. Estamos dizendo ao leitor que ele tem, por exemplo, 20 matérias grátis e que, quanto mais ele lê, mais perto fica de ter que pagar para nós.”

“Freewall”?

O executivo do WSJ propôs então uma ideia no mínimo curiosa: talvez os jornais devessem considerar a alternativa de um “freewall”, como ele mesmo chamou.

É como um programa de milhagem. Para ver o conteúdo, o usuário precisa pagar. Mas, quanto mais “engajado” esse usuário for com o veículo, menos pagaria, até chegar a uma eventual gratuidade.

A proposta tem seus méritos. Um usuário que participa ativamente do jornal –comentando, compartilhando, sugerindo– traz vários benefícios ao veículo, inclusive novos usuários. Compartilhamentos comentados aos amigos de redes sociais são uma forma complexa e eficiente de marketing, de uma maneira que o próprio veículo não consegue fazer por si só.

Claro, é apenas uma ideia: ninguém falou ainda em como implantar tal coisa, ou quais seriam as regras de descontos, por exemplo. Mas o embrião do paywall poroso também era só uma ideia no NYT há três anos, quando começou a ser discutido internamente. Pode se tornar uma alternativa interessante a jornais que não sejam competentes o suficiente para ter sucesso com o paywall.

E por que então o WSJ não adota o freewall então? Bom, porque seu conteúdo é um diferencial e eles nunca deram isso de graça. Fecha-se o círculo.