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Alguém pode parar o iPad?

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O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP - Foto: divulgação

O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP

No dia 18, a Hewlett-Packard surpreendeu o mercado ao anunciar que estava abandonando o seu recém-lançado tablet, o TouchPad, que chegou a ser anunciado como um “iPad killer” e o primeiro passo de uma longa linha de produtos da empresa. Mas, com seu sistema operacional proprietário, o webOS, ele decepcionou nas vendas e foi sepultado pela companhia depois de míseros 67 dias no mercado.

E então uma coisa inusitada aconteceu: para queimar os estoques encalhados, a HP decidiu derrubar seu preço de US$ 499,99 para US$ 99,99 na versão com 16 GB de armazenamento, e de US$ 599,99 para US$ 149,99, no modelo de 32 GB. Instantaneamente o produto se transformou em um hit, com enormes filas sendo formadas nas lojas. Vendeu tudo! O próprio sistema de e-commerce da HP entrou em colapso com a inesperada enorme procura.

O valor percebido explica essa aparente contradição no comportamento dos usuários. O pessoal não topou pagar pelo TouchPad o mesmo que a Apple cobra pelo iPad 2. O webOS também parece ter jogado contra o tablet da HP, tanto que alguns usuários estão tratando de encontrar uma maneira de instalar o Android no TouchPad adquirido na bacia das almas.

Afinal, alguém pode bater a Apple e seu aclamado iPad? Nos últimos meses, pude experimentar vários concorrentes, todos rodando Android: pela ordem, Samsung Galaxy Tab e Galaxy Tab 2, STI myPad, Motorola Xoom e Lenovo ThinkPad Tablet. Todos eles tinham alguma (ou muita) coisa melhor que o iPad 2, alguns tinham um hardware claramente superior ao da Apple. Por que não conseguem então rivalizar em vendas com o iPad?

O problema está no Android. Não, o sistema operacional do Google é muito bom, em muitos aspectos superior ao iOS da Apple. Mas ele –especialmente a versão 3 (Honeycomb), criada para tablets– demorou a chegar, dando tempo para o iPad abrir uma enorme vantagem de mercado. Como resultado, os aplicativos para iOS estão muito mais maduros que os de Android, além de uma ter oferta mais ampla. Além disso, todos os principais produtores de conteúdo já abraçaram o iPad (muitos até o veem até como a tábua de salvação para uma indústria de mídia em crise), e só agora começam a pensar em produtos para os tablets Android.

Por conta disso, a Apple está sozinha demais nesse jogo. Dita regras draconianas para a comunidade de desenvolvedores de software e de conteúdo. Até mesmo seus usuários são obrigados a fazer as coisas do seu jeito (alguém aí já tentou colocar –sem pagar– sua música preferida como toque em um iPhone, algo ridiculamente simples em qualquer outro celular?).

Por isso, o movimento da HP foi um balde de água fria para aqueles que –como eu– esperam pelo surgimento de concorrentes que enfrentem o iPad de igual para igual. O hardware dos mais recentes tablets Android já chegaram lá. O Android em si também. Falta melhorar a oferta de aplicativos e de conteúdo.

Não podemos esquecer do Google, com Larry Page de novo no timão. Acaba de comprar a divisão de mobile da Motorola pela bagatela de US$ 12,5 bilhões. Não há dúvida que coisa boa sairá disso. A briga dos tablets ainda vai esquentar. Que bom! Tomara que derreta metal!

A “bolha de filtro” ajuda mais que atrapalha

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O vídeo acima descreve as ideias de Eli Pariser, ativista digital americano, que vê riscos no conceito que ele batizou de “bolha de filtro”. Resumidamente, ele critica algoritmos usados por sites como Google, Facebook e até alguns veículos de comunicação para exibir, a cada usuário, individualmente, conteúdos que estejam supostamente alinhados com coisas pelas quais demonstrou interesse no passado. Para Eli, isso é perigoso, pois as pessoas progressivamente deixariam de acessar conteúdo que lhes seria importante, apesar de “desalinhado com o seu perfil”.

No vídeo, ele usa uma infeliz declaração de Mark Zuckerberg que, com sua tradicional sutileza paquidérmica, sugere que “um esquilo morrendo na frente da sua casa pode ser mais relevante para seus interesses agora que as pessoas morrendo na África”. A partir dela, Pariser desfia a sua teoria.

Devo dizer que ela é muito boa e bem construída. Mais que isso: ela é completamente alinhada com um dos pilares do (bom) jornalismo, que é responsável não apenas pela informação do povo, mas pela sua formação, desempenhando um papel crítico para o desenvolvimento saudável de qualquer sociedade. Porém, tirando a insensibilidade demonstrada pelo fundador do Facebook com um dos maiores flagelos da humanidade, o que ele disse também é verdade: tanto que seria muito possível que algum familiar telefonasse para você para contar que um esquilo morreu em seu jardim, mas dificilmente faria o mesmo para dizer que pessoas estão morrendo na África.

Permita-me colocar mais alguns ingredientes nesse caldeirão que estou cozinhando. Um jornal publica dezenas, centenas de notícias em um único dia. Um grande portal faz isso na casa das milhares, por conta de seus parceiros. Como cantaria Caetano, “quem lê tanta notícia?” Ninguém, nem o editor-chefe, consegue consumir tanta informação. Como me disse certa vez minha colega Maria Ercília, “as pessoas ainda precisam de alguém que lhes diga o que ler”.

Tradicionalmente, esse papel tem sido dos editores, que funcionavam como uma janela para o mundo para seu público. Quanto melhor o editor, melhor essa janela. E quanto mais conhecido e homogêneo esse público, mais eficiente o resultado desse trabalho.

Mas o que acontece quando o público é potencialmente o mundo todo? Ou menos que isso, mas nem por isso pouca gente: a penetração de um portal como a MSN, que, de uma forma ou de outra, é acessado por quase todos os internautas? Daí o editor se vê diante de um trabalho que é virtualmente impossível de ser realizado com a mesma qualidade. E a teoria de Pariser vai pro brejo por um motivo muito simples: o melhor editor do mundo jamais “acertará” com todo o seu público. Ele sempre oferecerá algo que não é importante nem relevante para muitas pessoas, enquanto deixará de promover algo importante, relevante ou não, para o mesmo grupo.

Vamos pegar um exemplo real, a parte superior da home page do Estadão agora:

Home page do Estadão com marcações

Marquei algumas chamadas em amarelo:

  • “Santos perde do Atlético-GO por 2 a 0”
  • “As incríveis histórias por trás da fila do teste de DNA no Imesc de SP”
  • “UNIÃO FORMALIZADA”
  • “LIVROS DE FINANÇAS PESSOAIS”
  • “Maior festival de cerveja do mundo”
  • “TV Estadão: arte urbana ao vivo, no Masp”

E alguns em veremelho:

  • “Aposte já na turnê de João Gilberto”
  • “Aleksandr Rodchenko infantil”
  • “Pais e filhos do mundo da música”

O primeiro grupo são chamadas para conteúdos que me parecem pouco importantes ou pouco relevantes para mim; o segundo indica material que não me parece nem importante e nem relevante.

Entenda: não estou dizendo que o material em vermelho não tem valor. Muito pelo contrário! Tanto que foram selecionados pelo editor da home page. Mas eu poderia perfeitamente continuar vivendo sem saber disso. Melhor ainda: esse espaço nobre poderia estar promovendo coisas importantes ou que eu considero relevantes do próprio Estadão. Por exemplo, as recém-descobertas frases escritas por operários nas paredes do edifício do Congresso Nacional, quando o estavam construindo, o mais recente artigo de Raquel Landim, ou a negativa do Facebook de que estaria repassando contatos a terceiros. Nenhum desses ótimos conteúdos estava promovido na home do Estadão.

Portanto, muita calma antes de aplaudir Eli Pariser. A sua “bolha de filtro” pode ser tão importante para o desempenho do bom jornalismo, que arrisco dizer que o futuro dos veículos de comunicação depende do BOM uso dela, combinada com a edição humana. Existe verdade no que ele diz, mas ela deve ser apreciada com moderação. Ou talvez usando um bom filtro de relevância.

Feliz Aniversário, Web!

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O NeXTcube de Berners-Lee hoje está no museu do CERN - Foto: reprodução

Tim Berners-Lee usou esse NeXTcube como primeiro servidor de sua Web

A Word Wide Web acaba de completar 20 anos de idade! No dia 6 de agosto de 1991, o físico britânico Tim Berners-Lee publicava o que é considerada a primeira página da sua inestimável contribuição à humanidade: um texto sobre o próprio projeto, concebido com o objetivo de facilitar o compartilhamento de informações entre pesquisadores.

Sir Berners-Lee (ele foi sagrado cavaleiro britânico em 2004) modestamente não tinha a menor ideia do que seu invento se tornaria. Tanto é assim que, apesar de ser enormemente reconhecido por ele, nunca ficou milionário com a Web. Uma ironia e tanto para algo que individualmente criou a maior quantidade de milionários da história.

Tim Berners-Lee, o criador da Web - Foto: Uldis Bojārs

Tim Berners-Lee ganhou todo tipo de reconhecimento -foi até sagrado cavaleiro britânico- mas não ficou milionário com a Web, ao contrário de muitas outras pessoas que conseguiram isso graças a seu invento

Mas, afinal, quem se preocuparia com o dinheiro depois de ter mudado de maneira radical todo o planeta, não é mesmo? Na modesta opinião deste Macaco, poucos inventos se aproximam da envergadura da Web. Superando infinitamente o que previa Berners-Lee, a Web levou o conceito de compartilhamento de informação –qualquer informação– a níveis inimagináveis. Com a Web, as pessoas alteraram dramaticamente a maneira como se relacionam com ela e como se relacionam entre si. Por isso, a Web representa muito mais que o rádio, a televisão ou o telefone. Curiosamente, supera largamente a própria Internet, sobre a qual reside, mas que, antes da Web, não era muito mais que uma rede de computadores.

Nenhum quadrinho de Flash Gordon ou desenho dos Jetsons sugeriu a existência de algo como a Web. Muito de sua ficção científica está hoje em nossos bolsos, mas seus autores nunca pensaram em algo como ela. Talvez porque, apesar da fagulha criativa de Berners-Lee, todos nós somos responsáveis pela Web ter se tornado o que é em apenas vinte anos: a maior criação colaborativa da humanidade.

O Google+ superará o Facebook?

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A nova rede social do Google traz inovações interessantes, mas ainda precisa preencher lacunas antes de ameaçar o Facebook

A nova rede social do Google traz inovações interessantes, mas ainda precisa preencher lacunas antes de ameaçar o Facebook

Você já aderiu ao Google+? Quando ouvi falar da nova rede social do gigante de buscas pensei: “mais uma…” Pois bem: ela ainda não completou seu primeiro mês no ar e nem foi lançada oficialmente -o que está previsto para o dia 31 de julho- mais de 10 milhões de pessoas, inclusive eu, já aderiram a ela.

As comparações com o Facebook aparecem em toda parte e a mais comum é afirmar que a rede de Mark Zuckerberg demorou cerca de dois anos para atingir a mesma marca. Mas elas não são justas, pois o Facebook surgiu a partir de um conceito de exclusivismo elitista, em contraste com o de completa abertura inicial do Google+. Além disso, esse último foi para o ar empurrado pela gigantesca expectativa em torno de um produto dessa natureza na família do Google, enquanto o Facebook nasceu das mentes de um bando de estudantes então desconhecidos.

A pergunta que realmente merece ser feita é: o Google+ superará o Facebook? Por enquanto, a carteira de 10 milhões de usuários do Google+ está longe de ameaçar a de 750 milhões do rival. Pesa contra o Google também um Orkut, que fez sucesso apenas no Brasil e uns poucos países sem muita expressão, e dois fracassos em produtos da mesma natureza: o Google Wave e o Google Buzz.

Mas a turma de Larry Page parece ter aprendido com os seus erros: o Google+ tem recebido muitos elogios da imprensa especializada e de seus entusiasmados primeiros usuários. Soube aproveitar o melhor dos concorrentes: como li por aí, “se o Facebook e o Twitter tivessem um filhote, ele seria o Google+”.

Apesar de boas idéias e uma construção esmerada, a nova rede ainda tem, entretanto, muito pouco a oferecer. O Google está se apressando em integrar todo o seu portfólio ao novo produto: já fez isso muito bem com o Google Talk e com o Picassa (agora Google Photos), além do próprio buscador; na sequência, virão o Blogger (rebatizado de Google Posts) e o Google Docs.

Mas mesmo quando todos os produtos estiverem bem costurados, o problema do Google+ é que ele será “apenas” uma rede social bem concebida e com recursos interessantes. E isso está longe de ser suficiente para ameaçar o Facebook. Isso só acontecerá quando o Google fizer o mesmo que seu concorrente, que se transformou em uma plataforma de desenvolvimento de aplicativos de toda natureza. Desde os aclamados jogos sociais da Zynga, como FarmVille ou CityVille, até inofensivos aplicativos, o Facebook ofereceu a uma legião de milhares de desenvolvedores a possibilidade de terem acesso a informações de seus 750 milhões usuários, que graciosamente as oferecem em troca de funcionalidades que tornam a sua experiência online mais divertida e poderosa. Isso sem falar nos recursos de integração do Facebook aos sites de qualquer pessoa, tornando-os mais funcionais.

Não há nenhuma dúvida que esses são os grandes responsáveis pelo sucesso do Facebook, o que dá mais sabor e cor à rede de Zuckerberg. Sem eles, seria apenas mais uma rede social das “antigas”, como o decadente MySpace ou o finado Friendster. Se o Google+ não seguir essa linha, não superará  o Facebook, ficando restrito a um “nicho” de alguns milhões de usuários.

A aposta de Murdoch no iPad

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Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Rupert Murdoch prepara o lançamento do The Daily, um diário que só existirá no iPad, mas que mimetiza um jornal impresso

Nos últimos dias, a mídia especializada deu grande destaque ao novo veículo que Rupert Murdoch, presidente da News Corporation, proprietária do The Wall Street Journal, está criando. Batizado de The Daily, o periódico deve ser lançado no início de 2011, será tocado por uma redação de cem jornalistas, alguns deles grandes nomes do mercado americano, e começa com uma injeção inicial de US$ 30 milhões.

Até aí, no big deal. O que torna The Daily realmente único é o fato de que ele será publicado apenas no iPad. Nada de versão na Web e muito menos em papel. Murdoch, um sujeito que, se pudesse, acabaria com a Internet só porque ela atrapalha o que ele realmente gosta de fazer, que são os jornais, e que vem buscando há meses (anos?) um modelo de negócios substituto para o papel, parece tê-lo encontrado no incensado tablet da Apple.

The Daily pode dar certo. Primeiramente porque o mogul australiano da mídia conta com o apoio do próprio Steve Jobs, CEO da Apple, para criar um produto que realmente tire proveito dos encantadores recursos do iPad, fugindo da mesmice, das limitações e da sem-gracisse dos produtos editoriais lançados até agora para o tablet (nota do editor: Jobs publicamente detesta o aplicativo para iPad do The New York Times, arquirrival do The Wall Street Journal).

Além disso, usuários do iPad adoram consumir aplicativos que tornem a sua experiência com o tablet melhor. E, nesse ponto, os US$ 0,99 que o veículo cobrará por semana são uma pechincha. Como conseguiram a mágica de cobrar tão pouco? Bom, como expliquei no meu post anterior, 80% dos custos de produção de um jornal são “desperdiçados” em coisas como papel, impressão, distribuição, infra-estrutura monumental… Apenas 20% são investidos naquilo que as pessoas realmente consomem, ou seja, conteúdo editorial. Criando um veículo que roda apenas no iPad, Murdoch elimina a maior parte desses custos “extras”.

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

Steve Jobs, CEO da Apple, que está empenhado em criar um The Daily que tire bom proveito dos recursos do iPad

A expectativa da News Corp. é chegar a 500 mil assinantes do The Daily em cinco anos. Se isso acontecer, isso passa de US$ 25 milhões em receitas de assinaturas anuais. Ok, um terço deve ficar com a Apple, mas, somadas às receitas de publicidade, The Daily deve ser financeiramente saudável. Se a Apple ainda trouxer o aplicativo pré-instalado no iPad, a quantidade de usuário pode ser ainda maior (tai a Microsoft que não me deixa mentir quando o assunto é pré-instalar programas no sistema operacional para ganhar mercado).

Mas nem tudo são flores no novo rebento de Murdoch. Se, por um lado, o modelo de negócios parece consistente, não posso dizer o mesmo do produto em si. Especialmente porque se trata de um jeito novo de se entregar notícia velha. Apesar de não ser impresso em árvores mortas, The Daily insiste no velho modelo do jornal diário de abrangência nacional: você baixa a edição de hoje, que traz notícias de ontem. As atualizações só virão amanhã… e com notícias de hoje. Nada de noticiário atualizado ao longo do dia. E muito menos pense em um noticiário personalizado, outra demanda que está explodindo entre os internautas.

Além disso, ele não oferecerá link para nada na Internet: todo o conteúdo será fechado nele mesmo. E, claro, ninguém dará link para ele, já que se trata de um aplicativo, e não de um site. De novo, The Daily fica mais parecido a um impresso e menos digital.

Por fim, The Daily pode enfrentar concorrência no próprio iPad de sites com conteúdo de qualidade e grátis, assim como os jornais de Murdoch enfrentam há anos na Web. Já se observam sites que começam a oferecer na Web produtos criados especificamente para iPhone e iPad, o que implica inclusive em alternativas ao uso do Flash, que os irritantes da Apple baniram de seu ecossitema. E aí, The Daily ficará ainda mais com cara de um jornal lento e pesadão.

Moral da história: por mais bem feito que a turma da Apple consiga criar o The Daily, eu diria que as suas chances residem muito mais em seu modelo comercial que editorial, que não me convence. É uma tremenda aposta de Murdoch, um dos maiores representantes de uma indústria que, especialmente nos EUA, agoniza. Mas eu sinto cheiro de naftalina: Naftalina for iPad.

O real custo de produção do jornalismo

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O The New York Times e sua versão para o Kindle - Foto: divulgação

O The New York Times e sua versão para o Kindle

Depois do meu último post, sobre o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, várias pessoas vieram conversar comigo sobre isso, e se a Internet pode ser mesmo a salvação para veículos que não conseguem mais se manter em suas mídias de origem.

Para essa inquietação, a minha resposta é: depende. Como demonstrei no referido post, essa migração jamais salvará um veículo mal administrado, como é o caso do Jornal do Brasil. Ele morreu no papel e, salvo aconteça alguma improvável mudança empresarial, a morte também na Web é apenas uma questão de (pouco) tempo. Mas a passagem de uma mídia que já não atende aos interesses econômicos do veículo para os meios digitais é -sim- algo a ser considerado.

Afinal, quanto custa produzir o jornalismo, o “conteúdo” de um veículo? Vou me concentrar na grande mídia impressa, apenas para ficar no exemplo do JB (se bem que diria que ele já deixou de ser “grande” mídia há muitos anos). Fiz a minha lição de casa e constatei uma coisa muito interessante: se considerarmos todos os custos de um grande jornal (e isso inclui os associados à impressão e distribuição), a parcela referente ao jornalismo (considerando salários, infraestrutura para apuração, viagens, prêmios e qualquer tipo de despesa ordinária) gira em torno de apenas 20%. Ou seja, de tudo que custa um jornal, 80% não se refere ao jornalismo.

Oras, qual é o produto do jornalismo? Pelo que as pessoas pagam? Por mais que o grande furo noticioso de hoje esteja forrando a gaiola do passarinho amanhã, as pessoas compram informação, e não papel impresso.

Quando as prensas primitivas começaram a soltar os primeiros exemplares do que se pode chamar de um jornal “moderno”, o papel era fundamental para a disseminação da notícia, simplesmente porque não havia outra maneira de se fazer isso (pelo menos não tão eficientemente). As revistas surgiram depois como uma alternativa de melhor qualidade gráfica, mas faziam essencialmente o mesmo. O problema é que, depois de alguns séculos fazendo isso, o papel e a notícia passaram a ser vistos como uma entidade homogênea e indissolúvel, o que não é verdade. Papel e tinta são apenas veículos do verdadeiro jornalismo.

No ano passado, publiquei um post sobre estudo feito por Nicholas Carlson, do The Business Insider. Basicamente o que ele fez foi calcular quanto custa ao The New York Times, em um ano, imprimir os exemplares enviados a cada um de seus assinantes. Dividiu essa cifra pela quantidade de assinantes e descobriu que isso é mais que o dobro do preço de um Kindle, o popular e-reader da Amazon, que, a propósito, oferece a assinatura digital do mesmo jornal a um custo bastante competitivo se comparado à versão impressa. O autor sugeriu então que o jornal presenteasse cada um de seus assinantes com um Kindle e economizasse, assim, muito dinheiro.

Claro que as coisas não são tão simples assim (e Carlson sabe disso): nem todos os anunciantes do jornal, quem paga a maior parte dos custos do negócios, são tão simpáticos a uma ideia dessas. Mas é um fato matemático que um jornal digital pode ser produzido a um custo muitíssimo menor que um impresso, sem prejuízo algum de seu jornalismo.

Não se trata, portanto, daquela conversinha fiada que o JB publicou em seu site de estar abandonando a versão impressa por se preocupar com as árvores. Eles não estão nem aí para o verde, exceto o do dólar, que eles não têm mais. Trata-se, isso sim, de uma alternativa viável para os grandes títulos continuarem no negócio, produzindo jornalismo de qualidade, algo que eles tanto prezam e que a sociedade muito necessita.

O “computador de US$ 100” virou o “tablet de US$ 75”

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A fundação One Laptop Per Child (OLPC) anunciou, no ultimo dia 27, que está substituindo a sua ideia de produzir notebooks educacionais a US$ 100 para crianças de países em desenvolvimento por outra, com um novo equipamento, um tablet nos moldes do iPad.

Batizado de XO 3 (por ser a terceira versão), a nova maquininha será produzida pela Marvell Technology Group a US$ 99, mirando uma meta de US$ 75 quando (e se) o ganho de escala de seu produto Moby, de onde o XO 3 será derivado, permitir isso. O objetivo seria chegar a isso para a próxima Consumer Electronics Show, que acontece em janeiro, mas a diferença entre o que o Moby é e o que o XO 3 promete ser sugere que isso não deve acontecer mesmo antes de 2012: Nicholas Negroponte, o idealizador da iniciativa e diretor do Media Lab, do MIT, quer que o XO 3 seja à prova d’água, todo em plástico resistente, mais fino que o iPad e tenha um processador de 8 GHz (o Moby roda a 1 GHz).

Mas a grande pergunta é: o preço de US$ 75 se tornará realidade algum dia, pelo menos dentro dos próximos anos? Pois, desde que foi proposto, ainda em 2005, o aclamado “computador de US$ 100” não passou de um slogan: a organização nunca conseguiu trazer o preço para abaixo dos US$ 200, mesmo tendo entregue mais de 2 milhões de máquinas pelo mundo.

A descrença do parágrafo anterior se deve à recorrente incapacidade de cumprir a maior de todas as promessas do projeto, sua grande bandeira: colocar um notebook educacional de US$ 100 nas mãos de todos os estudantes do mundo. É uma pena, pois, como defensor dos benefícios do uso da tecnologia na educação, torço para tudo que a OLPC proponha dê certo.

O próprio equipamento, mesmo a sua primeira versão, é excelente. Para este que lhes escreve, seu único problema é o sistema operacional Sugar, um “sabor” de Linux que traz uma interface que não se parece com nenhum outro sistema, seja Windows, MacOS ou mesmo outras distribuições do Linux. Para um equipamento de inclusão e educação digital, isso me parece contraditório. Mas aparentmente eles ouviram meus apelos: o XO 3 poderá rodar os sitemas Android, Windows Mobile e Ubuntu, além do Sugar.

Na semana passada, participei do II Web Currículo, seminário na PUC-SP que discutiu o uso de tecnologias na educação. O XO foi mencionado em vários momentos, inclusive na última palestra, de Paulo Markum, que teceu críticas à proposta. Para o jornalista, a intenção do Governo Federal de comprar 50 milhões de notebooks educacionais (outra promessa jamais realizada, nem de longe) investiria uma enorme soma de recursos públicos em equipamentos que, em pouco tempo, estariam obsoletos. Para ele, seria muito mais interessante usar esse dinheiro para financiar iniciativas privadas, em escolas e até mesmo lan houses, que garantiriam a atualização do parque.

Curiosamente, o grande benefício da iniciativa da OLPC foi jogar os holofotes sobre a questão de tecnologia na educação e a possibilidade de se obter grande ganhos pedagógicos com isso, e como isso pode ser maximizado com alunos usando, cada um, um computador. Um outro grande benefício foi propor ao mercado um novo modelo de equipamento com características específicas a baixo custo, que inspirou o segmento dos netbooks, um grande sucesso de mercado (não educacional). Talvez faça o mesmo agora com os tablets, derrubando os seus preços. Se isso acontecer, é possível que vejamos equipamentos comerciais chegando em maior quantidade às escolas. A tarefa estaria cumprida.

Jobs agora estende sua mão para a imprensa… no iPad

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Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise - Foto: reprodução

Steve Jobs, CEO da Apple, sugeriu na D8 que a o iPad pode ajudar a mídia a sair de sua crise

Há pouco mais de um ano, Jeff Bezos, CEO da Amazon, sugeriu publicamente que seu e-reader, o Kindle, poderia ajudar a imprensa (especialmente a impressa) a sair de sua enorme crise. Afinal, ele permite que as grandes casas editoriais entreguem seus produtos a custos muito mais baixos, dispensando a impressão e a distribuição. Tanto que convenceu grandes títulos americanos a abraçar sua causa, incluindo o The New York Times, a Time e a Newsweek. Claro, nem todo mundo concordou: Rupert Murdoch, dono da News Corporation, torceu o nariz e chegou a dizer que “não vamos dar o nosso conteúdo à boa gente que produz o Kindle”.

Ontem foi a vez de Steve Jobs engrossar o coro de Bezos. Ou quase: na verdade, ele sugeriu que isso pode acontecer no seu tablet, o iPad. Em entrevista realizada no evento D: All Things Digital, promovido anualmente pelo The Wall Street Journal, o CEO da Apple repetiu a “receita de bolo”: “estou tentando fazer esses colegas adotarem posturas mais agressivas que o que eles cobram tradicionalmente pelo impresso, porque eles não têm os custos de impressão, eles não têm os custos de entrega, cobrando um preço razoável e ganhando no volume.”

Sou muito mais as visões de Bezos e de Jobs que a de Murdoch. Não apenas pela proposta de novo modelo de negócios que os dois primeiros sugerem, combinado à comodidade de os equipamentos fazerem o download automático dos periódicos para seus assinantes. Mas o que mais me atrai –e aí especialmente no iPad– são as possibilidades de se criar um veículo de comunicação realmente inovador, seguindo o que discuti no post anterior.

Algo que se aproximou bastante da minha visão foi um conceito apresentado pela revista Sports Illustrated em dezembro no ano passado, reproduzida no vídeo abaixo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ntyXvLnxyXk]

Claro que nem tudo que vemos em um conceito se materializa, pelo menos não logo de cara. Mas o protótipo apresentado pela revista no mês passado, já era bastante interessante, inclusive trazendo alguns recursos de compartilhamento não visto no primeiro conceito apresentado:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=U3j7mM_JBNw]

Em um momento em que o “jornal do futuro” não consegue ir além de infames golpes publicitários dos jornalões, chega a ser revigorante ver iniciativas com as da Sports Illustrated. O papel ainda vai nos acompanhar por muito tempo, mas o uso criativo de equipamentos como o iPad abre a possibilidade de criar uma categoria completamente nova –e muito mais rica– de veículo de comunicação, algo pelo qual as pessoas voltariam a achar razoável pagar. O que não dá é continuar querendo ganhar isso no grito.

Então como deve ser o jornal do futuro?

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No meu último post, comentei a minha decepção diante do “jornal do futuro” que a Folha de S.Paulo tanto propagandeou e finalmente lançou no dia 23 de maio. Depois da grande campanha de marketing, anunciando uma nova forma de se ler jornal, inclusive fazendo referência a downloads e ao iPad, esperei que a Folha pudesse, afinal, criar algo inovador, pelo menos no caminho do que realmente deveria ser um “jornal do futuro”, ainda que não tivesse chegado lá. Mas realmente a coisa não passava de um simples golpe publicitário, como já expliquei.

O post teve boa repercussão e várias pessoas vieram falar comigo sobre o que, afinal, deveria ser um “jornal do futuro” (insisto nas aspas). Para mim, algumas características seriam essenciais:

  • noticiário personalizado a partir da reorganização do material segundo critérios de relevância do usuário (e não apenas “leitor”), explicitamente informados com antecedência ou coletado a partir da navegação e das relações desse usuário com outros conteúdos e outras pessoas;
  • conteúdo realmente multimídia e interativo (concebido assim desde a pauta);
  • experiência informativa expandida com recursos de toda a Web, e não apenas com produtos da publicação ou de produtos da mesma empresa;
  • possibilidade de participação efetiva do usuário, muito além dos comentários observados hoje em alguns sites;
  • fim do “conteúdo fechado a assinantes”, adotando novos modelos de negócios que privilegiem usuários pagantes sem penalizar os não-pagantes;
  • produção de um produto jornalístico que transcenda diferentes mídias, tirando proveito do que cada uma tem de melhor, a despeito da mera transposição de conteúdo da “mídia de origem” (basicamente impresso ou TV) para a Web, como se vê majoritariamente hoje.

Hoje troquei rapidamente algumas palavras com Beth Saad (@bethsaad), a partir de um twit seu que justamente levantava a discussão da leitura de notícias no iPad, dando link para um texto que fazia referências ao uso de applications para uma experiência mais rica nisso. Interessante que, há algumas semanas, venho debatendo isso com Everson Siqueira (@eversonsiqueira) o uso dos mesmos apps para criar produtos editoriais mais ricos para essas novas plataformas, além de simples e-books. Um exemplo interessante é o Alice for iPad.

Algo que não vi ainda ninguém fazendo para valer é alterar os seus meios de produção para separar o conteúdo da forma, a exemplo que os desenvolvedores da Web já vêm fazendo há alguns anos, com a popularização do uso de CSS. Basicamente a ideia é produzir o conteúdo apenas uma vez, publicando-o sem qualquer espécie de formatação e enriquecimentos, que seriam acrescentados dinamicamente no momento da “saída”, seja no papel, seja na Web, seja em um smartphone, seja em um e-reader, seja no que mais aparecer por aí. Dessa forma, o conceito de transposição de mídias dá lugar a um “write once, run many” (sim, emprestei o slogan do Java, que ilustra bem o conceito).

Tenho ventilado aqui e ali a ideia. Admito que é bastante ousada. Mas, combinada aos itens acima, pode finalmente produzir o jornal do futuro (agora sem as aspas).

Quando os games ensinam sem ensinar

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Um dos principais pontos de resistência ao uso de games de entretenimento na educação está no óbvio fato de que eles não foram criados para ensinar alguma coisa, e sim para divertir as pessoas. Como então pedir que os professores aproveitem seus recursos em seus planos de aula?

Tal resistência dos mestres, facilmente explicável pelo dito acima e sua natural dificuldade de adotar qualquer nova tecnologia nas aulas, é uma pena. O professor que consegue fazer o uso criativo de games pode experimentar resultados bastante expressivos. Mas como fazer isso?

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=rN0qRKjfX3s]

 

Esse vídeo, um dos vários sobre uso de games criados por Daniel Floyd, oferece uma excelente sugestão de como conseguir a proeza. Ele apresenta o conceito de “aprendizado tangencial”, baseado na ideia de que pessoas aprendem melhor quando estão envolvidas e interessadas com o tema estudado. Isso é particularmente importante para as escolas, pois os alunos atuais não conseguem achar as aulas atraentes, não se envolvem com elas e, portanto, não aprendem direito.

A beleza da coisa, no nosso caso, é que o objeto do estudo não precisa ser necessariamente o tema principal do game. O “truque” é escolher títulos que incluam referências ao que se deseja estudar. Floyd explica isso valendo-se do filme “300”, pois o aprendizado tangencial pode ser visto também em outros produtos, como filmes, música, entre tantos outros. “300” ou os quadrinhos que o inspiraram obviamente não foram criados com intuito educacional. Porém são de tal maneira envolventes, que despertaram, em boa parte de seu público, o desejo de saber mais sobre Esparta, seu rei Leônidas ou a Batalha das Termópilas. A partir daí, essas pessoas, valendo-se dos meios de sua escolha e por sua própria iniciativa, se “autoeducaram”, motivadas pelo envolvimento que o filme ou os quadrinhos lhes proporcionaram.

Isso é o aprendizado tangencial. Não é algo trivial de se adotar nos planos e aula, mas não é algo impossível de se pedir aos professores. O que precisa ser feito é dar-lhes recursos para que se apropriem dessa ferramenta –no caso, os games– e saibam extrair dela o que outras pessoas não conseguem enxergar.

Trata-se de algo que bons professores fazem desde sempre, para ir além dos recursos que as salas de aula ou laboratórios lhes oferecem. Assim envolvem seus estudantes para que eles transcendam seus ensinamentos e aprendam eficientemente. O vídeo abaixo, um trecho do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, exemplifica como o professor Keating (Robin Williams) usava métodos considerados bastante questionáveis (porém extremamente eficientes para se atingir os objetivos de aprendizagem) pela fictícia Academia Welton, em 1959:

 

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O personagem do professor envolvia seus alunos para que entendessem melhor o que queria na sala de aula, mas também para que ampliassem seu estudo usando seus próprios métodos (e eles usavam) fora dela. Na história, os resultados foram arrebatadores.

Mas o desafio não é só para os educadores (e, por que não, pais?). Outra peça-chave para a ampliação do uso do aprendizado tangencial são as editoras. Não as editoras de games, que já sabem fazer isso –e fazem– mesmo não sendo esse seu objetivo primário. Estou me referindo às editoras de material didático. Precisam alterar a sua ideia de produção, especialmente quando pensam em criar coisas que vão além dos livros (hmmm… isso não acontece exatamente muito por aqui).

Há três anos, conversava com a coordenadora do Ensino Fundamental de uma das principais escolas de São Paulo. Preservarei o seu nome e o da escola pelo comentário que ela teceu: “Temos um problema aqui: todos –todos– os nossos alunos têm PlayStation. Esses alunos têm demandas para as quais não estamos preparados. Quando chegam na sala de aula, isso aqui é um saco para eles! Não conseguimos captar a sua atenção e, quando isso acontece, a perdemos depois de cinco minutos.” Consequentemente, a aprendizagem é prejudicada.

As editoras precisam ajudar os professores, e estes precisam estar abertos a iniciativas inovadoras. Ou a escola se tornará, cada vez mais, um saco para seus clientes, os estudantes.

Dividir para conquistar

By | Tecnologia | One Comment

Entrei recentemente em uma discussão sobre se seria possível obter ISBN para conteúdos publicados na Web. O objetivo de quem perguntava era, de alguma maneira, garantir os direitos autorais sobre esse conteúdo. Argumentei que a única maneira de impedir que ele seja copiado é não o publicando, especialmente na Web. Mas a questão estava posta e era pertinente.

Para garantir a autoria (o que não tem nada a ver com impedir a cópia), sugiro Creative Commons. O ISBN, por sua vez, não garante absolutamente nada justamente quando o assunto é cópia do conteúdo. Já não garantia quando os livros eram apenas impressos, que dizer agora que eles estão digitalizados, algo que viabiliza cópias rigorosamente fiéis, de maneira extremamente simples e a custo zero.

O grande desafio que a Web coloca em pauta é encontrar modelos de negócios para esta nova realidade. Não acredito que vá acontecer o que alguns arautos do apocalipse pregam, de que a cópia de conteúdos vai matar o interesse dos autores dos mais diferentes tipos de obras, e que, portanto, estaríamos rumando para uma espécie de nova Idade das Trevas.

Vários autores já estão aí no mercado me impedem de dizer o contrário. Curiosamente, esse movimento é notado especialmente em nomes distantes dos medalhões acadêmicos, mas não necessariamente desconhecidos do público. O melhor exemplo que me ocorre é a banda tecno-brega Calypso, popularíssima (mas não entre a classe intelectual), que eliminou a figura da indústria fonográfica, produzindo inteiramente os seus CDs e os vendendo em camelôs a preços baixíssimos. Quanto ao download de suas músicas, eles querem mais é que isso prospere!

Não, eles não enlouqueceram, apenas perceberam -e entenderam- os movimentos do mercado e estão surfando neles agora. As gravações -em discos ou em arquivos- passam a ser apenas agentes promotores de seu trabalho, que é música. Sim, eles ganham dinheiro também com os seus CDs e DVDs baratos (inclusive porque eliminaram vários “custos” da cadeia, principalmente a indústria fonográfica tradicional), mas ganham muito mais arrastando multidões apaixonadas a seus shows. Ah, também produzem discos e shows patrocinados, outro belo filão que exploram muito bem.

Voltando ao mercado de livros, onde a conversa começou (ISBN é só para livros, em papel ou e-books), vejo cada vez mais autores que oferecem -eles mesmos- o download da íntegra de seus livros de graça, enquanto vendem (e vendem!) o mesmo livro em papel. Outro fenômeno cada vez mais comum são ofertas gratuitas de livros para download -inclusive de autores consagrados- para promover a venda de outros títulos do mesmo autor. E -claro- os livros digitais obrigatoriamente têm que ser (muito) mais baratos que a mesma edição em papel.

Com essas mudanças nos modelos de negócios e as facilidades de produção e de custo que a mesma tecnologia oferece aos autores, quem caminha rumo ao ostracismo são as editoras (não apenas de livros). E isso acontece não porque elas não tenham nada de positivo a oferecer ao processo, e sim por sua teimosia em resistir ao inevitável. Essa visão obtusa dos fatos dilui todos os seus referidos benefícios, que acabam ficando muito caros aos autores e principalmente aos consumidores. E acreditem: os autores preferem ter consumidores a editores.

Há dois meses, conversei com um diretor da Abril Educação sobre esse assunto e ele me confidenciou que, se as editoras não mudarem já, em dez anos ninguém mais precisará delas. Eu acho que elas já estão atrasadas! E, quando isso acontecer, elas serão as únicas culpadas pela sua derrocada. Exatamente a situação em que a indústria fonográfica se colocou e da qual não consegue mais sair. Tentaram segurar uma locomotiva desgovernada com advogados nos trilhos, processando os seus próprios consumidores. Resultado: CDs se transformando em itens de museu. Mas a música vai muito bem! Só que sem eles.

Essa nova era, que tanto amedronta, é na verdade uma incrível oportunidade para as pessoas que realmente são boas. Elas terão uma possibilidade inédita de despontar e ganhar muito dinheiro com isso. Mas farão isso compartilhando, não restringindo. Não há nenhuma nova Idade das Trevas no horizonte, e sim um novo Renascimento.

Twitter dá voz a alunos dentro e fora da sala de aula

By | Educação, Tecnologia | No Comments
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A tecnologia é uma poderosa aliada de educadores que não têm medo de inovar em suas aulas. O vídeo acima exemplifica isso com o Twitter ajudando a professora de História Monica Rankin,da Universidade do Texas em Dallas (EUA), a resolver um problema tão antigo quanto comum: a pequena participação de alunos na aula.

Especialmente em salas com muitos alunos, como é o caso das do ensino superior, são poucos os que participam, algo que incomodava sobremaneira Rankin (assim como boa parte dos professores). Ela explica que não conhecia o Twitter em detalhes, mas já tinha ouvido falar de que era uma ferramenta que estimulava as pessoas a expressar suas opiniões. Pensou então isso poderia lhe ajudar como seu problema. E acertou!

A dinâmica da aula mudou: os alunos, a grande maioria com notebooks, netbooks ou smartphones, disparam twits sobre o assunto da aula a partir de seus equipamentos. Esses posts com perguntas ou comentários são exibidos em um telão ao lado da lousa, e servem de base para a professora enriquecer a aula.

“Esse é um formato muito diferente de uma aula típica de História”, conta Rankin. “Eu não tinha ideia de como isso funcionaria. Eu acho que eu me lembro de dizer ‘vai ser uma bagunça’. E tenho que admitir que é uma bagunça, mas uma bagunça não necessariamente significa que é ruim.” Acertou na mosca!

Os alunos sem acesso a um equipamento podem escrever “posts” em uma folha de papel que depois vão para o Twitter pelas mãos da assistente da professora. Isso trouxe outros benefícios inesperados: a discussão do tema estudado passou a continuar fora da sala de aula, após seu horário, e não apenas para os estudantes dos “posts de papel”. Como resultado, os alunos se envolveram ainda mais com o assunto, chegando mais motivados e preparados para a aula seguinte, criando um círculo virtuoso de conhecimento.

Além disso, o fato de os twits estarem limitados a 140 caracteres ajuda os alunos a se concentrar na essência do que está sendo discutido, evitando que se dispersem com assuntos periféricos, o que tornou as aulas mais eficientes. Outro benefício não planejado inicialmente foram as “aulas remotas”: quando precisou viajar, Rankin pôde acompanhar, pelo Twitter, a sua aula, que estava sendo dada pela sua assistente. Pela ferramenta, interagiu com seus alunos.

Claro que existe aí um fator que dificulta a reprodução dessa iniciativa na maioria das escolas: a infra-estrutura deficiente. Mesmo em universidades, são poucos os casos em que dispositivos com essa capacidade de conexão estão disponíveis a quase todos os estudantes, na sala de aula. Mas o exemplo é bom para mostrar que pensar criativamente pode trazer resultados pedagógicos expressivos com tecnologias já existentes e até mesmo gratuitas, como o Twitter.

E aí reside outra dificuldade, muito maior que a falta de infra-estrutura: os professores não apenas precisam aceitar a tecnologia, como também estar dispostos a mudar substancialmente como dão suas aulas. No exemplo texano, a professora pautava, pelo menos parcialmente, o roteiro de sua aula em torno dos posts dos alunos. Na minha experiência, isso talvez seja a maior barreira para a adoção da tecnologia pelos professores, ao lado do medo de os alunos a dominá-la mais que os próprios professores ou até mesmo que a tecnologia torne os mestres obsoletos.

A professora Rankin está aqui para mostrar que esses medos não têm fundamento. A tecnologia ajuda o professor e os alunos no processo de aprendizagem. Há alguns dias, o professor David de Oliveira Lemes, da PUC-SP, me contou o caso de um aluno que usou seu PlayStation Portable para exibir à turma a apresentação de seu trabalho escolar, feita em Powerpoint. Isso é sensacional, por ver o aluno usando os recursos que tem disponíveis e com os quais tem mais afinidade para executar sua tarefa escolar! E ponto também para o professor, que lhe deu essa abertura. Esse é o caminho a ser seguido pela Educação.

A Internet está matando os críticos?

By | Jornalismo, Tecnologia | One Comment
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Na sexta passada, conversava com uma grande consultora empresarial sobre o mercado e, em determinado momento, caímos na questão de como a Internet alterou todas as profissões. Talvez a mais afetada tenha sido o jornalismo, pois não apenas os seus produtos e seus modelos de negócios foram completamente modificados, como também a maneira de como ele é desempenhado é dramaticamente diferente do realizado antes da Web. Posso afirmar isso categoricamente, pois entrei na Folha de S.Paulo alguns anos antes disso, quando o máximo da globalização era o telex e a TV ligada na CNN. Estou satisfeito com tudo isso, pois sou absolutamente seguro de que foram mudanças para algo muito melhor, tanto para jornalistas quanto para os consumidores de seus produtos.

Nesse cenário, li hoje uma reportagem no Comunique-se sobre o II Congresso de Jornalismo Cultural, que está acontecendo em São Paulo. O texto tratava de um debate que aconteceu em torno de uma celeuma que sugere que a Internet ameaçaria o trabalho dos críticos (mais especificamente os culturais), pois abre espaço para que toda a sociedade se manifeste criticamente, diluindo o –digamos– “valor” desses especialistas.

Essa ideia já foi debatida aqui nesse blog, há pouco mais de um ano, por motivo do lançamento do livro “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen. Para ele, a possibilidade de qualquer indivíduo ser capaz de publicar conteúdo na Internet pode destruir coisas boas que nossas sociedades construíram ao longo da História, pelo simples fato de colocar um “palpiteiro” em pé de igualdade com um “especialista”.

Bem, quais os ingredientes de um crítico? Não se trata de –mais uma vez– o acalorado e interminável debate sobre o diploma de Jornalismo, pois boa parte dos críticos profissionais não o tem. Trata-se de uma pessoa com sólida formação cultural e sobre tema específico, observação e inteligência aguçadas e amplo domínio das palavras.

Pelo menos, essa é a essência do que é necessário para exercer essa função. Mas os críticos profissionais, entrincheirados nos grandes veículos de imprensa, possuem outras características: não raramente, emitem a sua opinião como uma verdade incontestável da natureza, por meio de textos cortantes, amplificados pela penetração e credibilidade desses mesmos veículos. E isso não é ser crítico: é ser um boçal arrogante.

O filme Ratatouille termina com uma autocrítica de Anton Ego (nome sugestivo), na história, o maior crítico gastronômico da França. Esse final, uma obra-prima, traz Ego tomado por inédita humildade, depois de ser submetido a um contundente choque de realidade. O texto que escreve, que serve de fundo para as últimas cenas do filme (não deixem de ver no vídeo acima), ilustra brilhantemente esse meu pensamento.

Quero dizer que, ao longo da minha carreira, já passei pela Folha, pelo UOL, pela AOL, pela Info, pela Exame. Todos esses veículos me permitiram fazer coisas incríveis e certamente não apenas amplificaram a minha voz, como também legitimaram o que eu tinha a dizer. Hoje o meu único veículo é O Macaco Elétrico, onde escrevo apenas pelo prazer de exercer a minha habilidade crítica, humildemente esperando que isso seja útil aos internautas e aceitando, em contrapartida, suas críticas.

Por tudo isso, rejeito essa discussão que acontece no congresso hoje. É exatamente o contrário: a Internet está dando um espaço que os críticos jamais tiveram. Não aquelas poucas figurinhas carimbadas e arrogantes da grande imprensa, mas críticos anônimos, capazes de tecer comentários incríveis, com precisão, beleza e responsabilidade.

O crítico está morto! Viva o crítico!

As TICs e o construtivismo

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Rubem Paulo Saldanha, gerente de educação da Intel Brasil, fala no seminário de Tecnologia Educacional da Interdidática

Rubem Paulo Saldanha, gerente de educação da Intel Brasil, fala no seminário de Tecnologia Educacional da Interdidática

“Frente a um mundo cada vez mais colaborativo, protagonista e autor, na escola o aluno ainda recebe as informações como ouvinte, passivo, memorizando mecanicamente os conteúdos, depositando-os divididos em caixas de acordo com a matéria do momento, sem fazer relação entre elas e entre estas e a realidade do seu dia a dia, numa autêntica educação bancária.”

A frase acima, retirei da palestra de Rubem Paulo Saldanha, gerente de educação da Intel Brasil, que aconteceu no segundo dia do seminário de Tecnologia Educacional da Interdidática. Mas a fala não é dele, e sim de Paulo Freire. Diante dela, fiquei pensando, pensando… Obviamente Freire não estava se referindo ao uso das TICs quando escreveu isso em 1983. Mas, se antes ela era uma afirmação essencialmente teórica, com base em suas observações e propostas, hoje ela ganha uma enorme força justamente pelos recursos que a tecnologia coloca à disposição dos professores. Com ela, o aluno pode deixar de ser “ouvinte, passivo, memorizando mecanicamente os conteúdos”, como observava Freire, para ser “colaborativo, protagonista e autor”, exatamente o que vive cada vez mais na Internet. E o professor, antes senhor absoluto do conhecimento, que o despejava uniformemente a todos os seus alunos, passa também a aprender, podendo dar aulas –pelo menos parcialmente– personalizadas para seus diferentes alunos.

Corte para ontem, quando caiu na minha mão um artigo do economista Claudio de Moura Castro, publicado na Veja de 21 de abril. Com o título “construtivismo e destrutivismo”, o autor afirma que “o construtivismo é uma hipótese teórica atraente e que pode ser útil na sala de aula”, mas aponta o que chama de “quatro tipos de equívoco”: “pensar que teria o monopólio da verdade”, “achar que todo o aprendizado requer os andaimes mentais descritos pelo construtivismo”, “aceitar uma teoria científica como verdadeira” e “supor que, como cada um aprende do seu jeito, os materiais de ensino precisam se moldar infinitamente”.

O economista bate forte nos quatro, às vezes de uma maneira que chega a ser quase tão intransigente quanto aqueles que ele critica no seu texto. Mas, a grosso modo, ele apresenta bons argumentos, particularmente no último dos “equívocos”. De fato, observo professores cada vez mais compelidos a produzir o seu próprio material didático em detrimento dos produzidos “em massa” pelas editoras. Mesmo quando um livro didático é adotado, a aula é complementada pela produção interna da escola, que supostamente estaria mais alinhada ao momento de seus alunos.

Existe certa “crueldade” ao se cobrar essa produção dos professores. Assim como diz Castro, por mais que estejam bem intencionados e sejam bons educadores, eles têm pouco tempo e não foram preparados especificamente para produção de material didático. Não são autores e não têm o apoio editorial necessário. Logo, esse tiro pode sair pela culatra.

Por outro lado, as editoras têm culpa no cartório, pois não conseguem se livrar de suas fórmulas, que são consagradas, porém cada vez mais dissociadas das necessidades desses professores e principalmente dos alunos “colaborativos, protagonistas e autores”. A própria tecnologia é usada mínima e negligentemente por essas casas editoriais. E isso é uma pena, pois já temos todo o arcabouço intelectual, técnico e de infra-estrutura para produzir materiais didáticos digitais que satisfariam Paulo Freire, Claudio de Moura Castro e até o mais “fundamentalista” construtivista. O que falta às editoras é coragem para correr riscos e sair de sua zona de conforto.

Deixando a “lição de casa” por conta dos alunos

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Estive hoje no primeiro dia da Interdidática, onde participei do seminário de Tecnologia Educacional. Gostei de várias coisas que vi, mas destaco alguns pontos da palestra do iraniano Ebrahim Talae, pesquisador e professor do Departamento de Educação da Universidade de Oxford (Reino Unido). Em sua tese de doutorado, ele analisou como o uso em casa de computadores ajuda crianças a se desenvolverem cognitiva e comportamentalmente.

Algumas de suas conclusões me chamaram bastante a atenção. Primeiramente, crianças que usam o computador em casa, seja como recreação, seja como ferramenta de estudo, melhoram a sua autoconfiança no processo de aquisição de conhecimento. Além disso, enquanto o uso de computadores na escola permite que as crianças abordem muitos temas -porém de maneira superficial-, quando elas fazem o mesmo em casa, o aprendizado é restrito a menos assuntos. Entretanto, nesse caso, os estudantes aprendem sobre eles de maneira mais aprofundada.

Isso pode ser parcialmente explicado porque os alunos se sentem mais no controle do seu processo de aprendizagem quando estão em casa, valendo-se de todos os recursos que tiverem disponíveis e considerem de seu interesse. Por outro lado, quando estão utilizando o computador na escola, ficam à mercê das diretrizes apontadas pelos professores.

Perguntei a Talae se ele considerava que as escolas estariam prontas para alterar o seu processo pedagógico para que os alunos se beneficiassem de um uso do computador no ambiente escolar de maneira semelhante ao que fazem em casa. Afinal, as conclusões de sua pesquisa se alinham ao desejo de os alunos interferirem na elaboração do processo pedagógico, inclusive ampliando a presença da tecnologia dentro da escola, como já foi discutido aqui.

Sua resposta foi negativa para escolas do Reino Unido, e provavelmente para da maioria dos países. Os motivos: os professores não estariam preparados e não teriam tempo para incluir a tecnologia de uma maneira tão “livre” em suas aulas. Porém isso não quer dizer que as escolas não possam tirar proveito dos benefícios dos computadores na casa por seus alunos. Para isso, o pesquisador fez uma interessante sugestão: as “lições de casa” poderiam ser reformatadas de modo a garantir ao aluno poder para construir seu conhecimento com toda a autonomia. Ele apenas necessita atingir o seu objetivo de aprendizagem definido.

A proposta é mesmo interessante, e pode servir de transição entre o modelo atual de uso de tecnologia nas escolas e o que seria o ideal. Combina duas características das crianças: sua enorme curiosidade e sua habilidade com a tecnologia. Os resultados são promissores.

Em tempo: os estandes que gravitam o fórum e os seminários estavam bem ruins. Tive a impressão que eram os mesmos produtos expostos na Interdidática de 2009, que já era a mesma coisa da Interdidática 2008… Tudo bem que lousa digital é bacana, mas metade dos expositores estava lá vendendo isso. E conteúdo pedagógico de qualidade para colocar nessa infra toda?