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O fim dos jornais

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Homem olha jornais expostos em uma banca argentina

Os jornais precisam olhar para mundo e encontrar maneiras criativas de cobrar pelo seu conteúdo, ou acabarão sumindo

Há alguns dias, enquanto almoçava com colegas, a decisão da Folha de S.Paulo de restringir, desde o dia 21 de junho, o conteúdo de seu site a assinantes virou assunto. As opiniões eram praticamente unânimes: a novidade representaria um enorme erro, fruto de falta de visão e desespero pela incapacidade de se adaptar às mudanças do mercado, e os resultados seriam negativos. Na verdade, o tom dos comentários chegava a ser jocoso: “quanto vão ganhar com isso, mil reais?”

Argumentei que os colegas da Barão de Limeira estava seguindo uma tendência internacional chamada “paywall poroso”, popularizada pelo The New York Times –que, aliás, vem colhendo frutos interessantes, aumentando consideravelmente a sua base de assinantes digitais e até mesmo do impresso. Mas isso só serviu para aumentar ainda mais a chacota: “é muita pretensão querer se comparar ao The New York Times, que diferenciais eles têm para querer cobrar algo?”

Essa conversa agregou vários pontos que há muito discuto aqui. É um fato que as pessoas só pagam por aquilo em que veem valor. “Para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede”, afirmou a própria ombudsman da Folha, Suzana Singer, na sua coluna do dia 24 de junho.

Os jornais estão em posição cada vez mais desfavorável nesse cenário: as tiragens e as receitas dos grandes títulos minguam, sendo substituídas por jornais gratuitos e por outras fontes de informação, mais notadamente a digital. E os colegas acima trabalham justamente em portais. Ironicamente, muita da informação oferecida por esses sites –assim como em redes sociais– vêm desses mesmos jornais. E produzir conteúdo custa e, dessa forma, precisa ser remunerado.

Cobrar de quem vê valor

A Folha reproduziu aqui um dos maiores acertos do NYT: a grande maioria dos usuários do site nem perceberá a existência do paywall, pois eles supostamente consomem menos notícias por mês que o necessário para disparar o mecanismo de cobrança (40, no caso da Folha). Dessa forma, a novidade não afugentaria usuários, mantendo os ganhos com publicidade. Paga apenas quem ultrapassam esse limite, o que, em tese, indica que a pessoa vê valor no produto, justificando assim a cobrança.

Mas as pessoas não querem mais pagar. Não vem de hoje e os culpados por esse conceito são os próprios jornais, que fomentaram isso em nome de construir uma presença online desde meados da década de 1990. Como também escreveu Suzana, “acostumados a se informar de graça na rede e incomodados com um monte de anúncios que saltitam sobre a tela, (as pessoas) não entendem por que devem colocar a mão no bolso.”

Nessa insustentável e aparentemente insolúvel contradição pode residir a saída para essa indústria, crítica para uma sociedade livre. Em setembro de 2010, conduzi um estudo e concluí que, de todos os custos de um grande jornal, apenas 20% se refere, de uma forma ou de outra, ao jornalismo em si, entrando, nessa contabilidade, os salários, equipamentos, suporte a reportagem e o que mais fosse necessário à produção de conteúdo. Os outros 80% vão para comprar papel, manter a gráfica, distribuir os impressos e manter a enorme infraestrutura dessas empresas.

Oras, o que as pessoas efetivamente consomem está nesses 20%. Colocando de outra maneira, é possível continuar fazendo jornalismo com a mesma qualidade gastando apenas vinte de cada cem reais investidos hoje. Claro que essa é uma visão propositalmente simplista, pois as agências publicitárias não querem depositar nas operações digitais dos jornais o que (ainda) colocam em seus impressos. Mas, se a fatia do impresso está diminuindo no bolo publicitário, então esse dinheiro está indo para outro lugar.

“Perderam o barco”

Está indo para jornais gratuitos e mídia digital. A televisão continua nadando de braçada com uma folgada liderança, mas sem mudanças significativas para mais ou para menos em seu share. Rádio e mídia externa consolidaram-se na rabeira. A briga séria está no “pelotão intermediário”, justamente onde está o impresso –jornais e revistas– e o digital.

O impresso vem se sustentando com a ajuda dos jornais gratuitos, como o Metro e o Destak, que puxam as métricas –leitores, tiragem e receita publicitária– para cima, mascarando a queda dos grandes títulos. E a mídia digital, no melhor estilo “de grão em grão, a galinha enche o papo”, aumenta continuamente o seu share, com anúncios infinitos a preços irrisórios.

Sobre meu post “O incômodo charme dos agregadores”, Rodrigo Mesquita, responsável pela Agência Estado ser o que é, e membro da família proprietária do Estadão com uma excelente visão do casamento da mídia com as TIC, comentou no Google+: “Não dá mais tempo, meu caro. Os jornais perderam o barco. Vão ficar com um papel residual.”

A possível solução para o dilema da mídia exige, portanto, abandonar o modelo de negócios que conhecem tão bem. A mídia impressa precisa entender que o papel era apenas um veículo para entregar o conteúdo que produzia. Não apenas não é mais necessário, como se tornou obstáculo a sua sobrevivência. E não me refiro apenas aos altos custos associados a ele, mas também porque engessa o produto em um formato autocontido, unificado e finito, que não encontra mais espaço hoje.

Descentralização

“Nada foi feito em direção a nada na grande maioria dos jornais”, afirmou Mesquita, que concluiu: “caminhamos para uma nova sociedade, que terá uma nova forma de interagir e articular seus interesses, de uma forma muito menos centralizada que a do tempo da indústria.”

As casas editoriais aprenderam o discurso de que são produtoras de conteúdo, que deve ser entregue da forma que o usuário quiser. Mas o discurso não combina com seus atos, que buscam resgatar o velho “jornalão”, esse sim entregue em todas as plataformas, em que o usuário assina tudo ou nada. Tem que levar o caderno de cultura e o de esportes, mesmo que queira apenas ler o de economia.

A Folha deu o primeiro passo para romper esse pensamento tacanho e antiquado, imitando o paywall do NYT. Mas isso não liberta ainda o usuário fiel do conceito de assinatura (ele pode ser fiel sem ser assinante). Nisso, os portais, a indústria de games e, mais recentemente, as lojas de aplicativos mobile estão muito à frente, com formatos de distribuição –e remuneração– completamente pulverizados, fragmentados, “indolores” e sob demanda.

Trata-se de um mundo com ganhos mínimos multiplicados em milhões de microtransações, que transformam definitivamente qualquer conteúdo em serviço. Os players acima aprenderam essa lição e, mesmo que muitos deles não tenham as receitas dos grandes jornais, ostentam operações mais saudáveis e até mais lucrativas. Afinal as suas despesas são muito menores e eles possuem muito mais consumidores que os jornais.

Não é de se admirar, portanto, que empresas de tecnologia liderem hoje os ganhos publicitários e já tenham até se tornado gigantescas –e inovadoras– produtoras de conteúdo. Felizmente o eventual fim dos jornais não significará o fim do jornalismo. Apenas de empresas que se recusaram a se adaptar a uma nova ordem econômica e social, mediada pela tecnologia.

O incômodo charme dos agregadores

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Conteúdo do Estadão exibido no Flipboard

Conteúdo do Estadão exibido no Flipboard

Quando o Flipboard foi eleito o aplicativo do ano de 2010 pela própria Apple, muita gente torceu o nariz. Não pelo programa em si, que se transformou em um símbolo do iPad, mas porque é apresentado como um “aplicativo de notícias”. A turma da gritaria são as empresas de comunicação, e o motivo é o fato de o Flipboard não produzir nenhum conteúdo.

Oras, como um produto que apenas exibe material noticioso de outras fontes poderia ser classificado como “aplicativo de notícias”? Daí a dizer que o Flipboard “rouba conteúdo” foi um pulo. E a acusação não é nova: o primeiro grande produto a ser chamado de “ladrão de notícias” foi o Google News.

Mas ninguém está roubando nada de ninguém. O Flipboard é o que se convencionou chamar de “agregador”, ou seja, um programa que agrega conteúdos de diferentes fontes escolhidas pelo usuário, exibindo-as de maneira conveniente para ele. O agregador não “invade” sistemas das fontes de conteúdo para obtê-lo: apenas se vale de recursos oferecidos por elas mesmas, como seu Twitter ou RSS.

Enquanto esses programas exibiam tais conteúdos seguindo os critérios definidos pelos seus autores, estava tudo bem. O que a nova geração de agregadores, que tem no Flipboard a sua estrela mais brilhante, faz –e isso incomoda– é reorganizar esse conteúdo seguindo critérios próprios e com um visual refinado, normalmente muito melhor que produtos dos donos dos conteúdos. Dessa forma, cada usuário ganha uma edição só sua, com os conteúdos organizados conforme o seu interesse e popularidade dentro de sua rede de amigos.

Trocando em miúdos, os agregadores distribuem o conteúdo jornalístico de maneira muito mais eficiente que as fontes desse conteúdo. E assim as pessoas passam a ler tais conteúdos nos agregadores, e não nos sites ou aplicativos dos veículos originais. Isso causa um problema editorial e um problema econômico. O primeiro acontece porque o agregador desmantela toda a estrutura noticiosa e hierarquia definida pelos editores e as recria seguindo seus próprios critérios, normalmente baseados em relevância social. O segundo se deve ao fato de muitas vezes o usuário se bastar com o lide da notícia exibida no próprio agregador, não chegando a clicar no link oferecido pelo programa para a notícia no site de origem, que perde em suas métricas (não conta page views, unique visitors e afins) e no dinheiro, pois seus banners não são exibidos.

E então os veículos batem o pé e posam de vítimas, como velhas cujas bolsas são continuamente levadas por trombadinhas, dia após dia. Reclamam do sintoma, mas se recusam a atuar na causa do problema: alguém faz parte do seu trabalho –a distribuição– melhor.

Com o Google, os grandes jornais fizeram um acordo para que o Google News parasse de usar seu conteúdo. Isso de fato aconteceu, mas tais sites também perderam completamente a sua relevância no buscador da empresa, seu carro-chefe. Ao fazer um busca pelos 18 anos da morte de Ayrton Senna, completados ontem, a página de resultados destaca notícias da “Tribuna do Norte”, “Paraíba.com.br”, “Portal AZ”, “Gazeta de Alagoas”, “Região Noroeste”… Nada de “Estadão”, “Folha”, “O Globo”, por exemplo. Perde o usuário, que não recebe um resultado com conteúdo potencialmente melhor, perde o veículo, que não ganha a audiência oferecida pelo navegador.

As empresas de comunicação sofrem, portanto, do que eu chamo de “síndrome de Vera Cruz”, referência ao estúdio de cinema brasileiro, que brilhou nos anos 1950. Apesar da qualidade de suas produções, com filmes premiados internacionalmente, o estúdio durou míseros quatro anos. Entrou em decadência justamente por não ter uma boa distribuição, que acabava ficando nas mãos das empresas norte-americanas. Produzia um ótimo conteúdo, mas ficava apenas com uma parcela menor da receita.

As empresas de comunicação precisam, portanto, reaprender a distribuir o que produzem. E isso significa subverter uma logística cujas origens remontam ao século XIX. Precisam ser mais Flipboard e menos Vera Cruz.

Isso é um livro ou alguma “outra coisa”?

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Como um livro deve ser para ser chamado de “digital”? Há alguns dias, investi US$ 4,99 no download do e-book “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” (Moonbot Studios LA), na verdade, um aplicativo para iPad, cujo trailer pode ser visto acima. Eu o conheci em uma discussão se aquilo poderia ainda ser considerado um livro ou se já se tratava de alguma “outra coisa”. E minha experiência com ele foi muito interessante.

A despretensiosa historinha despertou enorme interesse em todas as crianças a quem o mostrei, mesmo com seu texto em inglês. O aplicativo é uma evolução do conceito do livro-brinquedo, em que a criança é convidada a explorar, a cada página, recursos que ampliam a experiência da leitura. Nesse caso, isso se dá por uma belíssima mistura de animação digital, multimídia e interatividade, valendo-se da interface tátil do tablet. E o resultado com os pequenos é muito positivo.

Críticos dessa categoria de produto dizem que tanta riqueza sensorial elimina uma das belezas dos livros, que é a necessidade de o leitor imaginar as cenas que está lendo. Concordo com a importância disso, mas Morris Lessmore não “entrega tudo pronto”, como um filme. Em contrapartida, convida o usuário (que não é mais apenas um “leitor”) a interagir com a história, introduzindo novos elementos cognitivos que um livro tradicional não pode oferecer.

Claramente esse tipo de recurso não serve apenas para diversão ou para ser usado em contos infantis. Qualquer obra pode se valer dessa nova modalidade de publicação. Como exemplo, contarei um caso que me ocorreu hoje.

Enquanto ajudava meu filho com seus estudos, nos deparamos com a seguinte definição, em uma gramática que é best seller absoluta entre livros didáticos: “intencionalidade discursiva são as intenções, implícitas ou explícitas, existentes no discurso.”

Apesar de ele compreender perfeitamente as palavras, do alto dos seus dez anos não conseguiu entender plenamente a definição. Nesse sentido, o livro falhou em algo que explicou poucas páginas antes: “discurso é o processo comunicativo capaz de construir sentido.” Ou seja, o enunciado, por si só, não disse muita coisa a quem o leu. Mas, com uma breve contextualização minha, meu filho finalmente compreendeu tudo o que pregava a definição.

Vale ressaltar que o livro apresentava exemplos que ajudariam na compreensão, mas, para uma criança, eles estavam demasiadamente dissociados do objeto. Fiquei pensando na hora que Morris Lessmore teria feito diferente, e provavelmente o aprendizado teria sido muito mais eficiente. E divertido!

É provável que um “livro digital” de qualidade signifique subverter estruturalmente o conceito do que se conhece por livro. Em tempos em que o MEC pede crescentemente às editoras material didático digital, exemplos como esse deveriam ser considerados para “pensar fora da caixa”. A tecnologia deve ser usada criativamente a favor dos objetos de aprendizagem.

Os livros não devem mais ficar restritos a suas páginas (“páginas?”) ou mesmo ao jardim murado do conteúdo das editoras. Com suas versões digitais, as crianças devem ser estimuladas a ampliar sua aquisição de conhecimento de maneira tão ampla, criativa e divertida quanto possível. É assim que elas já adquirem qualquer conhecimento, e, quando têm esses recursos à mão, o fazem de maneira surpreendente e decisiva. Os professores já sabem disso e muitos tiram proveito disso para ajudar seus alunos.

O que me traz de volta à discussão que tive na semana passada: no final, Morris Lessmore ainda é um livro? Oras, quem se importa com isso?

Treine um dragão e salve seu jornal

By | Jornalismo, Tecnologia | No Comments
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Nos últimos dias, participei de conversas com vários grupos sobre o assunto mais odiosamente preferido dos executivos de mídia: como salvar o nosso negócio. E me deparei com as mesmas teses de sempre: conteúdo aberto versus conteúdo fechado, paywalls, assinatura ou compras avulsas, veículos organizados em edições ou continuamente atualizados, entre outros. E as conclusões, da mesma forma, acabavam sendo as velhas conhecidas, que, na prática, tentam perpetuar o modelo de negócio de jornais, que se forjou no século 19, se refinou no 20 e não encontra mais espaço no 21.

O que não entendo é: por que ninguém pensa em treinar um dragão para salvar o seu jornal? Claro, treinar um bicho desses não é fácil, mas a animação “Como Treinar Seu Dragão”, do trailer acima (não viu ainda? veja!), mostra que, muito mais difícil que encontrar ou treinar uma enorme besta voadora e cuspidora de fogo é acreditar que isso é possível. Mais difícil ainda é querer fazer isso quando se vive em uma aldeia viking cujo propósito maior é matar dragões.

O fato é que a mídia impressa só pensa em matar os dragões que roubam as suas ovelhas cada vez mais. Existem várias espécies deles, como a publicidade insuficientemente barata, o “jornalismo-cidadão” e a blogosfera, os internautas que se recusam a pagar pelo conteúdo, o Google News e, mais recentemente, os agregadores.

Mas e se tudo que soubermos sobre esses dragões estiver errado? Com essa conclusão, um protótipo de viking salvou a sua aldeia. Mas, para isso, arriscou tudo. Sorte da aldeia, pois, se ninguém pensasse diferente, nunca venceria as feras.

Como é de amplo conhecimento público, o principal dilema da mídia, especialmente a impressa, é que a receita que eles conseguem angariar com a Internet nem de longe compensa as perdas que a mesma lhe provoca. E produzir bom jornalismo custa dinheiro, isso é um fato! E as pessoas devem pagar por isso! Bem… pode ser… mas certamente não da maneira como se quer lhes impor.

Já que estamos fazendo citações cinematográficas, selecionei a cena abaixo, que muitos fãs de Star Wars devem conhecer as falas de cor:

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Uma sequência de Yoda vale ser retirada dessa cena: “So certain are you. Always with you it cannot be done (…) You must unlearn what you have learned.”

Claro! Estarmos muito certos de algo é uma das piores coisas que pode nos acontecer. Na incerteza, experimentamos as alternativas e tateamos os nossos limites, nos permitindo ser melhores. Já na certeza, nos acomodamos em nossas crenças e tentamos impor aos outros o nosso modelo de mundo “certo”. Se o mundo discorda de nós, desqualificamos os seus argumentos; se se recusa a nos aceitar, tratamos de eliminá-lo. E aí continuamos achando que dragões são malévolos e naves são muito grandes para se levitar.

Enquanto isso, fedelhos nórdicos cavalgam dragões e criaturinhas verdes e enrugadas tiram naves de pântanos. O mundo se move rápido, vivemos em tempos exponenciais, como disse no último post. Quaisquer que sejam as soluções adotadas pela mídia para sair do lamaçal em que se encontra, elas começarão ao aceitar que deve conduzir seu negócio de maneira drasticamente diferente.

Acha tudo isso uma bobagem? Não acredita que possa ser feito? “That’s why you fail!”

Vivemos em tempos exponenciais

By | Educação, Tecnologia | 2 Comments

Vivemos em tempos exponenciais. A capacidade de se adaptar à forma e principalmente à velocidade com que a tecnologia modifica a vida de todos nós é a nova seleção natural darwiniana.

O post em que fiz uma análise da carta aberta de Arnaldo Saraiva, em que o livreiro sugeriu que as editoras de livros didáticos serão brevemente substituídas (com vantagem) pelos próprios autores, que se valerão da tecnologia para publicar seus livros, despertou algumas reações nervosas de profissionais dessa indústria. Repito aqui o que disse a todos que vieram até mim para discutir a proposta: nem Saraiva nem eu sugerimos que os diferentes profissionais envolvidos deixaram de ter sua importância. Quem tem um problema são as editoras como instituições, pela sua dificuldade de se adaptar à velocidade das mudanças. Por outro lado, os profissionais que resistirem ao tsunami que já chegou à praia de cada um, também serão engolidos por essa onda.

O fato é: todas as profissões e negócios estão sendo dramaticamente impactados pela tecnologia. E isso sempre foi assim. Ou alguém acha que os monges copistas da Idade Média acharam a prensa de tipos móveis de Gutemberg bacana, enquanto assistiam o invento criar a imprensa e torná-los obsoletos? Lentamente eles desapareceram. E alguém hoje chora por eles ou critica Gutemberg e sua prensa? Claro que não! A tecnologia do alemão revolucionou a humanidade, ainda que tenha destruído um modelo sedimentado havia séculos.

A diferença é que a velocidade agora parece atropelar a todos. Nesta segunda, reportagem publicada no UOL jogou um pouco de luz nas mudanças que a Internet vem provocando na Psicologia. Entre os entrevistados, estava uma psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática, da PUC de São Paulo. O grupo realiza pesquisas pioneiras sobre o tema há mais de uma década, não apenas em como pode ser um atendimento psicológico online, mas também como psicólogos precisam se adaptar a pacientes que chegam a seus consultórios com queixas totalmente ligadas à tecnologia, impensáveis até poucos anos atrás e jamais discutidas em sua formação acadêmica. Mas esses temas hoje são não apenas reais, como corriqueiros, denotando uma mudança dramática nessa profissão. Tolice querer resistir a isso.

O vídeo abaixo, de onde saiu o título deste post, não chega a ser novo: já tem quatro anos. Ele traz algumas estatísticas que reforçam o que está dito acima, e pelo menos um item que ficou desatualizado desde então apenas comprova a sua tese: ao ser produzido, o MySpace era a rede social dominante no mercado, enquanto o Facebook era apenas um recém-chegado.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=cL9Wu2kWwSY]

Para quem não sabe, a derrocada do MySpace se deve basicamente a sua incapacidade de se adaptar às mudanças (o que chega a ser surpreendente para uma grande rede social) e a um novo ritmo imposto por quem chegou depois.

Como o vídeo também sugere, o conhecimento técnico aprendido por um estudante no início da universidade estará ultrapassado antes mesmo de ele concluir seu curso. Como resolver esse dilema? A velocidade de nossa inovação tecnológica levará a humanidade a um beco sem saída?

Obviamente não. Mas ela certamente não deixa mais espaço para quem resiste a mudanças. As escolas, de todos os níveis, devem se preocupar menos em despejar sobre seus alunos formulas prontas e conteúdos fechados. Ao invés disso, precisam desesperadamente ensinar seus alunos a resolver problemas usando todas as tecnologias que tiverem a seu alcance, sem medo de errar.

Afinal, o erro é componente do acerto. A única forma garantida de não errar, em absolutamente qualquer tema, é não tentar. Mas, sem tentativa, não há sucesso.

O que ainda resta às editoras de livros didáticos?

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Tela do iBooks Author, software recém-lançado pela Apple que permite a qualquer um publicar livros digitais

Tela do iBooks Author, software recém-lançado pela Apple que permite a qualquer um publicar livros digitais

Segundo Arnaldo Saraiva, um dos maiores publishers do segmento, não lhes resta nada. Em carta publicada no blog de Luis Nassif ontem, ele constata que o advento do livro digital e a facilidade crescente para sua publicação permitem que o próprio autor crie as suas obras. E, segundo ele, “com qualidade superior aos das editoras”.

“O que uma editora de livros didáticos tem agora pra oferecer a seus autores”, pergunta o criador da área de didáticos da Editora Saraiva (além da Nova Geração e da AJS). Ele mesmo responde: “NADA, absolutamente NADA” (as letras maiúsculas são dele).

Bastou a carta ser publicada para acalorados debates pipocarem aqui e ali. Saraiva está sendo fatalista? Exagerado? As editoras nunca sumirão?

É curioso observar que as pessoas tanto mais discordavam dele quanto mais eram ligadas a essa mesma indústria. E não precisa ser gênio para explicar esse sentimento de autopreservação: ele está associado à resistência ao novo, especialmente quando quem está chegando se transforma em uma ameaça real. Isso se observa em todos os negócios e, no caso da indústria editorial, não apenas nos livros didáticos.

No caso específico da educação, algo que sempre me chamou a atenção é como as editoras menosprezam de maneira decisiva a Wikipedia, como se essa enciclopédia fosse totalmente constituída por verbetes escritos por trogloditas. E infelizmente os seus departamentos de marketing conseguiram incutir essa ideia nos educadores.

O fato é que a Wikipedia não é nada disso. Muito pelo contrário: apesar de, como qualquer obra, possuir imprecisões, ela é incrivelmente confiável, sem falar no volume inigualável de verbetes (normalmente mais completos que os de qualquer enciclopédia tradicional). Além disso, seus erros são equivalentes aos da aclamada Enciclopédia Britannica. E quem disse isso não fui eu: foi a Nature, provavelmente a publicação científica mais séria do mundo, que concluiu isso em estudo comparativo entre as duas enciclopédias.

O que está acontecendo com as editoras de livros didáticos acontece desde sempre. Toda nova tecnologia abre espaço para a substituição, com vantagens, de modelos aparentemente inabaláveis. Quem precisava de monges copistas depois que Gutenberg aperfeiçoou a prensa de tipos móveis? Ou de artesãos, quando os teares se uniram à máquina à vapor?

Ainda acompanhamos a tecnologia promovendo a queda inexorável de uma indústria extremamente sólida e lucrativa até há poucos anos: a fonográfica. Esse pessoal resiste bravamente a abandonar seu tradicional modelo de negócios, por mais anacrônico e ineficiente que tenha se tornado. Diante do seu imobilismo, preferem processar seus consumidores, ao invés de aprender com eles a se modernizar. Resultado: se já haviam sido abandonados pelos seus consumidores, agora começam a ser abandonados também pelos artistas, que podem viver melhor sem as gravadoras.

Reconheço e valorizo o trabalho dos profissionais que adequam os livros didáticos aos Parâmetros Curriculares Nacionais e às draconianas regras de aprovação para os Programas Nacionais do Livro Didático. Aposto que o Arnaldo também! Mas talvez o autores comecem a desenvolver essas habilidades, ou contratem diretamente os editores para lhes ajudar nessas tarefas. As empresas ficam de novo em xeque.

Em março de 2010, conversava sobre isso com um então diretor da Abril Educação. Lembro-me claramente de uma frase que disse: “se as editoras não se mexerem agora, em dez anos ninguém mais precisará de nós”.

Com a velocidade imposta pela tecnologia, talvez dez anos seja muito. Falou Saraiva.

O que fazer com “computador de US$ 100”, que agora é tablet?

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A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

A terceira geração do XO abandonou o formato de laptop para se transformar no "tablet de US$ 100"

Na Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas (EUA) na semana passada, a OLPC finalmente exibiu a esperada terceira geração de seu equipamento. Batizada de XO 3, o novoo computador educacional idealizado por Nicholas Negroponte chega no formato de tablet e, pela primeira vez, pode cumprir uma de suas bandeiras mais ambiciosas: custar US$ 100… ou menos!

O equipamento, visto nas fotos, é bastante grosso, se comparado aos tablets comerciais, mas tem uma tela Pixel Qi de 8 polegadas com boa visibilidade mesmo sob o sol, com resolução de 1024 x 768 pixels. Por baixo dela, traz um processador Marvell Armada PXA618, 512MB de memória RAM e 4GB de armazenamento. Roda o sistema operacional Sugar, uma“sabor” de Linux desenvolvido pela OLPC que, na minha opinião, não era bom nem nos laptops e ficou ainda mais inadequado em um tablet. Mas o XO 3 –felizmente– também pode funcionar com Android, muito melhor para um equipamento que pretende promover a inclusão digital.

Como todos os equipamentos propostos pela fundação, o XO 3 traz coisas inovadoras que tornam o preço baixo ainda mais surpreendente. Promete ser à prova d’água e bastante resistente para aguentar o tranco da criançada (a capa protetora em silicone também ajuda). Alguns itens opcionais (que devem aumentar seu preço) são interessantes para comunidades carentes, foco da OLPC, como um carregador ativado por uma manivela e até mesmo uma tela que carrega o tablet com energia solar.

Entrando na sala de aula

Feitas as apresentações formais, vem a pergunta: o que fazer com o XO 3 quando ele chegar às salas de aula (o que deve acontecer em algum momento neste ano)? As propostas a seguir valem para qualquer tablet.

É curioso colocar os olhos no equipamento justamente no mês em que os pais estão às voltas com as listas de material escolar. Diante de tantos livros, seria ótimo se todos eles estivessem disponíveis aos estudantes, digital e instantaneamente, em seus próprios tablets. Por mais que fossem meros PDFs das obras, já seria uma experiência melhor pela portabilidade. Sem falar que pesariam menos (nas mochilas dos alunos e nos bolsos dos pais). Algumas instituições de ensino, como a Universidade Estácio de Sá, já vêm fazendo essa transposição simples do material didático para tablets.

Mas isso é pouco! É muito desperdício de uma plataforma que está intuitivamente redefinindo a maneira como usamos um computador. Com tablets e smartphones, estamos aprendendo a ter acesso continuamente a todo tipo de informação, seja para lazer, para estudo ou trabalho. Consultas, que antes exigiam o deslocamento até a biblioteca, podem ser feitas instantaneamente e em qualquer lugar, até mesmo à biblioteca da escola (quando o serviço é oferecido, claro).

Mas essa plataforma só mostra todo o seu potencial com aplicativos didáticos que sejam criados para realmente tirar proveito disso, o que exige investimento. Como já foi discutido aqui, as escolas de ponta já estão trabalhando nisso, seja na avaliação de soluções (internas e externas), seja na formação específica de seus professores, algo crítico para o sucesso de qualquer empreitada.

As editoras de material didático infelizmente ainda oferecem produtos bastante tímidos. Uma pena: talvez seja tarde quando acordem. Pode-se produzir soluções educacionais muito interessantes e inovadoras combinando um conteúdo altamente comoditizado com uso inteligente da tecnologia. Isso sem falar na “concorrência” de professores que, na sala de aula, aproveitam criativamente, por sua própria iniciativa e mérito, produtos criados para outros fins. Que tal estudar lançamento balístico com Angry Birds?

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto?

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Imagem: reprodução

No Estadão de ontem, Eugênio Bucci se baseou em uma charge que tem circulado pelo Facebook para fazer uma interessante análise sobre como a atividade jornalística deveria ser financiada. Ele defende algo que já foi tratado aqui no dia 7 de novembro: para uma imprensa realmente livre, o financiamento deve vir de seu público.

Mas não é apenas com dinheiro que esse financiamento pode ser feito, como o próprio jornalista explica. E justamente aí entra a charge, reproduzida acima e publicada originalmente no site Geek and Poke (sem a pertinente crítica ao Facebook). Resumidamente, se você não está pagando em cash pela notícia, está aceitando que o veículo venda uma parcela da sua atenção aos anunciantes. E aí você deixaria de ser o cliente e passaria a ser o produto.

Isso não é nada novo: toda a TV aberta (e não apenas seus produtos jornalísticos), com seus custos de produção altíssimos, sempre foi mantida pela publicidade. Nesse caso, o público sempre foi o produto, consciente disso. A novidade é que esse modelo está extrapolando suas formas tradicionais.

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto? Temos, por exemplo, o Positivo, fabricante de computadores que se firmou no mercado com uma imagem de equipamentos com preços baixos. Como forma de ampliar os seus ganhos, a empresa agora quer colocar anúncios na área de trabalho do Windows de seus consumidores e até nas caixas de seus computadores.

A gigantesca Microsoft também embarcou nessa onda, inspirada no seu rival Google, que espalha seus microanúncios pelos seus produtos. O Office Starter, versão light do seu pacote de escritórios com apenas o Word e com o Excel, vem pré-instalado em computadores e pode ser usado gratuitamente, desde que o usuário não se importe com os anúncios que exibe.

Aplicativos para smartphones, mesmo os que custam um mísero US$ 1, também costumam oferecer uma versão completamente gratuita, subsidiada pela exibição de anúncios. Pagando pelo produto, os anúncios desaparecem.

O fato: em maior ou menor grau, as pessoas parecem não se importar muito com essa invasão publicitária, principalmente em produtos que foram concebidos com a presença dos anúncios. Dessa forma, se incomodam mais com os anúncios ocupando espaço na sua tela do Word que com anúncios em produtos jornalísticos.

Será esse o caminho que o jornalismo deve seguir para se sustentar?

Separação Igreja-Estado

É uma possibilidade a ser considerada, com serenidade. Outros modelos já discutidos aqui, como o “soft paywall” do The New York Times, também podem render frutos. Mas as empresas de comunicação precisam aceitar o fato de que o público resiste em desembolsar seus cobres pelo noticiário.

Caso decidam ampliar o caminho da publicidade, os publishers precisam reforçar o conceito da “separação Igreja-Estado”. Ou seja, decisões comerciais não podem influenciar o noticiário, e vice-versa. Dessa forma, a Redação deve ter liberdade para criticar uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante.

Bucci explica o motivo em seu artigo: mesmo em um ambiente financiado por publicidade, o público deve ser considerado como o verdadeiro cliente, pois é apenas por causa dele que os anunciantes colocam dinheiro nos veículos. Dessa forma, tem o direito de receber um produto jornalístico isento e focado em seus interesses.

As empresas estão dispostas a fazer isso? No mundo ideal, sim; na prática, poucas são capazes de levar esse conceito até o fim.

Os publishers devem avaliar esses dois conceitos –maneiras criativas de financiamento por publicidade e a garantia da independência editorial– com muita atenção. O mundo quer o público como produto e as próprias pessoas parecem topar essa situação. Mas os jornalistas nunca devem deixar de encará-las como os seus verdadeiros clientes. Qualquer que seja o modelo de financiamento, a essência do jornalismo passa por garantir um noticiário isento.

O fim da mídia em edições

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Foto: Melbeans

Entre debates no palco do Itaú Cultural e animadas conversas com colegas que também participaram do MediaOn 2011, que lá aconteceu entre os dias 22 e 24, um conceito começou a tomar uma forma mais consistente: talvez a mídia como conhecemos, organizada em edições, esteja chegando ao fim.

A divisão do noticiário em exemplares bem delimitados e organizados por um período de tempo é tão antiga quanto o jornalismo formal. Tanto que jornais e revistas são conhecidos por “periódicos”. E isso sempre fez sentido, para que o produto tivesse tempo de ser produzido. No caso de impressos, ainda é necessário, para que haja tempo para que os exemplares saiam da gráfica sejam entregues. Também funciona bem para rádio e telejornais, que têm que se enquadrar nas grades da programação.

Mas por que teria que ser assim no jornalismo digital? Uma coisa que a Web decretou há mais de uma década foi o fim do conceito de “fechamento”. Ou seja, não há mais uma edição formalmente definida para os produtos jornalísticos na Internet: sempre que o usuário chega a um veículo digital, potencialmente encontra um noticiário renovado, mesmo que o visite várias vezes no mesmo dia. Por isso, da mesma forma que as edições fazem sentido para as outras mídias, elas não fazem na Internet. E quem sai ganhando com isso e o usuário, que tem no digital um jornalismo que, pela primeira vez, combina a agilidade do rádio com a profundidade do impresso.  Qualidades que tornam o jornalismo na Web incomparável e que já estão totalmente incorporadas no cotidiano de usuários e profissionais.

Mas desde que o fenômeno dos tablets se consolidou, tenho observado paradoxalmente uma retomada das edições, agora em formato digital. Começou com os aplicativos das revistas, o que até dá para ser explicado: os publishers viram no iPad um dispositivo com formato e tamanho compatível com suas edições em papel. Sem pensar muito, simplesmente transpuseram seus produtos em papel para os tablets.

O problema é que essa “mania” se disseminou e hoje se vê todo tipo de publicação para tablets organizada dessa forma. A quem interessa isso? Eu apostaria que não ao usuário, pois, apesar de uma diagramação supostamente criada para esses dispositivos (o que é uma falácia), invariavelmente esses produtos são piores que os websites dos mesmos veículos. Vejamos:

  • no caso de jornais, o conteúdo é atualizado apenas uma vez por dia; em revistas, a atualização é semanal (ou quinzenal, mensal ou ainda pior); nos websites dos mesmos veículos, isso acontece continuamente;
  • os arquivos das edições costumam ser enormes e o usuário é obrigado a baixá-la integralmente (mesmo que não as leia inteiras), o que exige muito tempo para download e ocupa grande espaço na memória do tablet; os websites carregam quase instantaneamente e apenas o que o usuário se interessa, sem ocupar a memória;
  • apesar do enorme download, o conteúdo dessas edições digitais costuma ser limitado, enquanto os websites têm um conteúdo muito mais amplo que o “veículo-mãe”;
  • esses aplicativos oferecem pouca ou nenhuma integração com redes sociais, dificultando o compartilhamento de conteúdo e qualquer tipo de interação entre os usuários; os websites, por outro lado, são amplamente “comunitários”, o que cria uma experiência muito mais rica (e, de quebra, aumenta a audiência do próprio site);
  • as edições digitais também costumam oferecer muito menos conteúdo multimídia ou interativo que o website;
  • o navegador Web do tablet está ali, a um clique, oferecendo ao usuário toda a Web, inclusive o site do veículo.

Parece que um monte de coisas muitíssimo interessantes que foram aprendidas em 17 anos de jornalismo na Web está sendo relegado ao ostracismo.

Dá para cobrar?

O fato é que os publishers veem nos tablets uma maneira interessante de voltar a cobrar pelo seu conteúdo, uma capacidade que perderam ao longo desses anos. E as edições digitais ajudam nessa tarefa, pois é mais fácil cobrar por algo delimitado, que claramente seja entregue, que por algo amorfo e ilimitado, como é o caso do noticiário na Web.

A questão é: as pessoas pagam por isso? Os produtos nesse novo formato apontam para uma resposta negativa. Mesmo o The Daily, filhote de um impressionante esforço conjunto da News Corp e da própria Apple, e anunciado como o primeiro veículo jornalístico criado especialmente para o iPad, vem acumulando prejuízos.

Confesso que eu acreditava que o diário fosse dar certo, por ser bem construído (bem acima da média do que se vê por aí), além de oferecer uma assinatura relativamente barata: US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por um ano inteiro. Mas essas virtudes não foram suficientes para convencer as pessoas.

Mais bem sucedido é o The New York Times, com seu “paywall”, lançado em março. Resumindo o seu funcionamento, por US$ 35 por mês, você tem acesso a todo o conteúdo digital do website e também aos aplicativos para smartphones e tablets. Usuários não-pagantes podem ver apenas 20 páginas por mês. E, se assinar o jornal impresso pelos mesmos US$ 35 mensais, também tem acesso irrestrito a todos os conteúdos digitais. O resultado: um expressivo aumento nas assinaturas digitais… e também do impresso!

Não há nenhuma novidade nessa história: como sempre as pessoas pagam apenas por aquilo que elas veem valor.

Edições X experiência informativa

Esse imbróglio foi debatido exaustivamente no Media On e no seminário internacional da INMA (International Newsmedia Marketing Association), que também aconteceu em São Paulo na semana passada. Ambos eventos apontaram para um futuro que implica na criação de uma nova experiência informativa para os leitores.

Para Meg Pickard, diretora de engajamento digital do britânico The Guardian e responsável pela melhor palestra do MediaOn, tal experiência passa por um noticiário contínuo e permanente, construído junto com o usuário. No Guardian, todo o processo é aberto para o público, que tem chance de participar, a ponto de a pauta que está sendo trabalhada ser divulgada na Web. Pickard até deu um nome para esse formato: “mutualização”.

Earl Wilkinson, diretor executivo da INMA, sugere que os veículos devem se preocupar em ampliar a experiência do produto em torno de sua marca. Não se trata apenas de re-empacotar um veículo já existente dentro de um novo formato, e sim criar produtos jornalísticos completamente novos em torno da marca. Novos e –por que não?– desagregando o conteúdo, substituindo as edições por material empacotado automaticamente para os gostos de cada usuário ou segmentados por assunto.

As oportunidades estão diante de todos, ao alcance das mãos. Não é de se admirar que agregadores como o Flipboard, Zite ou Pulse façam tanto sucesso entre usuários dos tablets: as pessoas não querem edições, buscam comodidade, compartilhamento, personalização e noticiário realmente quente.

Olha quem está falando

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Novo recurso do Facebook: "falando sobre isso"

O Facebook lançou há alguns dias o recurso “falando sobre isso” nas “fan pages”, páginas criadas por pessoas e empresas para promover o que fazem e o que gostam. A novidade mostra quantos usuários da rede social se relacionaram com cada página nos últimos sete dias. Por “se relacionar”, entenda-se compartilhar qualquer conteúdo publicado ali, fazer comentários, posts, incluir ou marcar fotos, responder a um evento ou simplesmente clicar no botão “curtir”. Na pratica, o que o Facebook espera é medir o “engajamento” em torno do assunto da “fan page”.

Por trás de mais uma métrica social aparentemente inocente, o “falando sobre isso” esconde a intenção do Facebook de criar um novo modelo comercial com valor um tanto intangível: o relacionamento das pessoas com qualquer marca. A empresa fatura alto com os pequenos anúncios que coloca em todas as suas páginas, alinhados com o perfil de cada usuário. Mas, para isso, depende que esses mesmos usuários cliquem nas peças. Com seu novo lançamento, a rede de Mark Zuckerberg quer tentar minimizar a importância dos cliques nos anúncios e mostrar ao mercado publicitário que é capaz de trazer valor sem eles, algo que, de quebra, ninguém consegue hoje fazer tão bem quanto o próprio Facebook.

Ninguém discute que o engajamento em torno de uma marca tem um enorme valor. Ele é uma das chaves para o que o mercado publicitário chama de “mídia espontânea”, ou seja, a exposição de uma marca em notícias e outros formatos não pagos, em oposição à “mídia paga”, que são os anúncios. Mas quanto o “falando sobre isso” realmente mede disso? Além do mais, o engajamento indicado pela novidade pode incluir pessoas fazendo comentários negativos sobre a marca.

Essa característica “etérea” do engajamento é o principal obstáculo para que o novo modelo seja aceito pelo mercado publicitário. É difícil de medir resultados nisso, ao contrário dos cliques nos banners, claramente identificados, justamente uma das maiores vantagens que a Internet oferece ao mercado publicitário diante de outras mídias, incapazes de dar um retorno tão precisamente identificado.

Dois coelhos

Para o Facebook, conseguir tal convencimento mataria dois coelhos com uma cajadada só. Primeiramente o colocaria em ampla vantagem sobre toda a indústria, pois ninguém conhece os gostos dos usuários como ele, nem mesmo o Google.

O gigante de buscas também faz fortuna entregando pequenos anúncios publicitários espalhados por sites próprios e de terceiros. Os anúncios do Google estão sempre associados ao assunto da página em que aparecem. Segundo seu raciocínio, que tem dado certo, se o usuário se interessa pelo assunto da página, deve se interessar pelo anúncio, se ele tiver assunto semelhante. Ele se foca, portanto, mais na página que no usuário. Já o Facebook segue o caminho contrário. Com seu inigualável banco de dados sobre gostos dos usuários, os anúncios que entrega são focados sempre no próprio usuário, não se importando com o conteúdo da página.

Todo esse conhecimento sobre as pessoas vem justamente das ações e do engajamento de cada um com seja lá o que for. Clicar no botão “curtir” em uma notícia não é só um jeito fácil e bacana de se dizer aos amigos que se gosta daquilo: o usuário também diz o mesmo ao Facebook, que assim constroi o seu perfil de cada um de nós. Dessa forma, ninguém pode oferecer informações sobre engajamento ao mercado publicitário como eles. Se o pessoal do marketing comprar a ideia, eles ficam por cima da carne seca.

O segundo motivo chega a ser quase paradoxal para quem conhece tão bem os usuários. Estudos, como esse, da Webtrends, sugerem que a taxa de cliques nos anúncios do Facebook é muito baixa, mesmo quando comparadas ao que se pratica nessa indústria (especialmente o Google). Pior que isso: ela vem caindo. Pelo estudo, a taxa de cliques (CTR, “click-through rate” ou “taxa de cliques”) caiu de 0,063% para 0,051% de 2009 a 2010. Em direção contrária, o que o Facebook cobra, em média, por clique (CPC, “cost per click” ou “custo por clique”) subiu, no mesmo período, de US$ 0,27 para US$ 0,49. E o quanto cobra por simplesmente exibir os anúncios (CPM, “custo por mil”) também subiu, de US$ 0,17 para US$ 0,25 a cada mil impressões.

Por isso, enfraquecer a importância do CTR enquanto fortalece o engajamento são críticos para o Facebook. Representariam o enfraquecimento da concorrência (especialmente do Google) e o fortalecimento do Facebook. Seus executivos têm uma árdua tarefa junto ao mercado publicitário. Se tiverem sucesso, merecerão gordos bônus por alterar a maneira como as empresas anunciam seus produtos e serviços.

O Facebook é o jornal; seus amigos, os editores

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O Wall Street Journal Social - Imagem: reprodução

O Wall Street Journal trouxe o seu noticiário para dentro do Facebook com o Social, promovendo os amigos de seus usuários a "editores"

O Wall Street Journal lançou recentemente uma versão do seu noticiário dentro do Facebook. Batizado de WSJ Social, o aplicativo não representa nenhum grande avanço tecnológico –na verdade, é bastante simples. A inovação está justamente em se criar um Journal rodando inteiramente dentro da rede de Mark Zuckerberg e valendo-se das atividades de amigos para produzir a cada usuário, individualmente, um produto jornalístico personalizado.

Todo o noticiário exibido dentro do aplicativo é do próprio WSJ, mas a “edição” que cada pessoa vê é diferente da de todos os demais usuários, já que as notícias são organizadas de acordo com a atividade de seus amigos que selecionou como seus “editores” no produto. Como cada pessoa lê coisas diferentes, as combinações disso tudo geram edições bastante individualizadas. Além disso, o aplicativo cria um ranking dos editores mais ativos de cada usuário.

A lógica por trás disso é que cada usuário tende a ver destacado o que seus amigos gostaram no WSJ. Quanto mais recomendado um texto, mais destaque ele ganha. E, se muitos amigos seus recomendarem um texto, em tese aumenta a chance de que o próprio usuário também goste dos mesmos textos. Exatamente o mesmo conceito que move praticamente tudo dentro do Facebook: “diga-me com quem anda (ou se relaciona digitalmente, enfim) e eu direi quem você é”. Trata-se de um desdobramento interessante –e positivo– da “bolha de filtro” de Eli Pariser, já discutido nesse blog.

Vale destacar que todo o dinheiro feito dentro do aplicativo, seja com publicidade, assinaturas ou o que for, fica com o veículo. O Facebook fica com o caixa gerado em seus anúncios nas mesmas páginas, mas fora da área do aplicativo.

O WSJ não está sozinho: The Guardian também já lançou um aplicativo semelhante (ainda que mais limitado) , assim como o The Daily, que nasceu com a ideia de ser um jornal exclusivamente para iPad. Vários outros títulos de porte já estão trabalhando nos seus aplicativos.

Por que as publicações estão fazendo isso, justamente em um momento em que estão se debatendo para evitar que seus leitores debandem para outros sites, tentando estancar a sangria de sua audiência? O próprio Google News é, há anos, o pivô de uma queda de braço dos publishers com o gigante de busca, acusado de roubar conteúdo alheio para produzir um concorrente.

A resposta pode ser resumida com uma frase curta: porque as pessoas estão lá! Gostem os veículos ou não, o fato é que as pessoas gastam cada vez mais tempo no Facebook, mesmo em um cenário em que ficam menos tempo na Web como um todo, como pode ser visto no gráfico abaixo:

Evolução da minutagem do Facebook e da Web

Gostem os veículos ou não, as pessoas mais e mais consomem os seus próprios conteúdos a partir de seu feed de notícias no Facebook em detrimento da home pages de seus sites (que dizer então das edições impressas, pelo menos para essa turma?). Mais que isso: o que seus usuários estão consumindo de suas publicações não é o que os editores dos veículos promovem, e sim o que os amigos de cada usuário –seus “editores”– recomendam.

Dessa forma, esse movimento dos veículos é resultante da aceitação de uma mudança na forma de se consumir notícias, aliada a recursos tecnológicos fornecidos pelo Facebook. Por outro lado, é importante também notar que a gênese do bom jornalismo continua sendo os veículos que prezam por ele, pois o Facebook ou os amigos dos usuários não produzem conteúdo, apenas o promovem.

A grande inovação aqui está na “ousadia” (ainda que atrasada) dos veículos em topar re-empacotar seu conteúdo em um novo formato, mais adequado ao (novo) perfil de seu público. Os que tiverem essa coragem não apenas reterão a sua audiência, como provavelmente ganharão novos usuários. E preservarão o valor de sua marca e seu bom jornalismo.

Tirem os advogados, tragam os engenheiros

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A bandeira pirata hasteada à frente da sede da Apple em 1983

A bandeira pirata hasteada à frente da sede da Apple em 1983

A Apple acaba de ganhar mais um round contra a Samsung: dessa vez, impediu que sua filial alemã distribua o Galaxy Tab 2, de 10,1 polegadas. Apesar de provavelmente não trazer muitos efeitos práticos, pois os aparelhos poderão ser trazidos de outras partes do mundo para ser vendidos na Alemanha, é mais um capítulo de uma guerra travada por advogados das duas empresas. A Samsung contra-ataca com processos contra a Apple, também por violação de patentes.

Ninguém sugere que uma companhia não defenda seus investimentos milionários em pesquisa, mas não deixa de ser irônico ver a Apple tentando impedir que outras companhias lancem produtos que, digamos, se pareçam muito aos seus.

Vale aqui uma pequena aula de história da indústria de microinformática. No início dos anos 1980, quando a Apple atingiu o topo pela primeira vez, com seu Apple II, a empresa investiu em uma nova tecnologia: a interface gráfica, que viabilizou o seu Apple Lisa e, logo na sequência, o primeiro Macintosh.

A referida ironia está no fato de que a primeira interface gráfica e o mouse não terem sido inventados pela Apple, e sim por um grupo de pesquisa da Xerox. Os executivos dessa última não deram a menor bola para a criação de seus engenheiros. Pior que isso: abriram caminho para que Steve Jobs e sua turma literalmente se apropriassem dessa tecnologia e praticamente assumissem a sua paternidade. Não é de se espantar que, à frente da sede da Apple, a bandeira pirata estilizada (acima) ficasse hasteada.

Logo depois, a Apple provou do próprio veneno, quando a Microsoft se “inspirou” no Mac para lançar o seu Windows. Esses dois “roubos”, o da Apple e o da Microsoft, estão magistralmente representados no vídeo abaixo, um trecho do filme “Piratas da Informática” (“Pirates of the Silicon Valley”, no original):

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JDPQABGyId4]

A Apple sempre acusou a Microsoft de ter copiado o sistema operacional do Macintosh para criar seu Windows. Felizmente nunca conseguiu impedir que a turma de Bill Gates seguisse adiante com sua própria interface gráfica. Pois, se a Xerox inventou e a Apple refinou o conceito, foi indubitavelmente a Microsoft quem o popularizou, tornando o computador finalmente algo acessível às massas.

De volta a 2011: a Apple agora quer impedir o crescimento do Android, apontando sua artilharia principalmente para os produtos da linha Galaxy, os principais concorrentes do iPhone e do iPad. O fato é que o hardware do Galaxy Tab 2 é superior ao do iPad 2. O Android também chegou lá, na sua versão 3: é um produto maduro e sofisticado. Pesam a favor do iPad várias vantagens por ter sido lançado muito antes (pelo menos para os padrões dessa indústria alucinada).

Afinal, qual o problema com a turma de Cupertino? Seus produtos são excepcionais, e a Apple se parece mais a uma religião que a uma empresa, com uma (crescente) legião de fieis. Mas eu darwinianamente acredito que a diversidade e as interações entre as espécies levam à evolução. Tentar frear isso em tribunais é muito triste, para dizer o mínimo. Além disso, ter uma concorrência forte é a receita para uma empresa continuar inovando, e já passou da hora de a Apple ser confrontada de verdade. Por isso, espero que as empresas tirem logo seus advogados de cena e deixem seus engenheiros trabalhar. É aí que está a centelha criativa. É aí que os usuários e as próprias empresas ganham.

Tablet vazio não para de pé

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No dia 1º de setembro, o ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que despejará “centenas de milhares” de tablets nas escolas públicas já no ano que vem. A propaganda ficou ainda mais bonita por ter sido feita em plena Bienal do Livro e arrematado com a exigência de que os equipamentos tenham altas “taxas de nacionalização”. Só não respondeu à pergunta essencial: para que?

Sou um grande defensor do uso da tecnologia na educação. Mas não concordo com entregar equipamentos sem o menor planejamento pedagógico ou treinamento de todos os envolvidos, como parece ser o caso. O discurso político de Haddad rendeu boas manchetes, mas é tão vazio quanto os tablets que ele propõe colocar nas escolas.

Claro que todo mundo quer ter um tablet hoje em dia. Desde que Steve Jobs popularizou o conceito com o primeiro iPad, esses equipamentos se tornaram objeto de desejo. Mas será que eles são o melhor equipamento para a educação? A mobilidade e a interface são realmente muito bem-vindas, mas a mesma interface pode ser um problema. Há pouco software que seja realmente desenvolvido para ela, e a simples execução ali do que existe para computadores “convencionais” nem sempre traz bons resultados em tablets. Por isso, os R$ 70 milhões que o MEC afirma ter investido no ano passado na produção de conteúdos digitais podem não servir muito.

Colégios A+ de São Paulo já estão tateando os tablets em sala de aula, sem trocadilhos. É o caso do Dante Alighieri e do Pueri Domus. Mas, nos dois casos, as escolas corretamente começaram o trabalho na coordenação pedagógica, com foco no uso do equipamento e no treinamento dos professores.

Que dizer de escolas públicas, que têm laboratórios de informática montados há anos, e até hoje não os utilizam? Por que isso acontece? Além de motivos bizarros, como diretores que os mantém fechados com medo que os alunos quebrem os equipamentos (!!!), o principal são professores que não conseguem colocar aquela “coisa” dentro de sua aula. Não se trata de não dominar o equipamento (o que de fato é outra enorme barreira para boa parte dos professores), mas sim como transformar aqueles programas, a Internet e recursos multimídia em parte de seu planejamento de aula.

Portanto, esse discurso de Haddad chega a ser um deboche do uso de tecnologias no ensino público. Como acreditar nisso? E não é a primeira vez que ouvimos promessas desse tipo. O governo anterior, de Lula, havia prometido a compra de 50 milhões de notebooks educacionais, para o projeto UCA (Um Computador por Aluno), mas isso nunca se concretizou. Nem mesmo o primeiro “mísero” lote de 150 mil equipamentos conseguiu sair da fase de licitação.

Então a informatização de ponta nunca chegará às escolas públicas? Claro que sim! É só falar (muito) menos e agir (um pouco) mais.

A melhor defesa é o ataque

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O lançamento do Adobe Edge pode representar mais um ataque ao modelo de controle total da Apple, que uma defesa diante de um suposto fim do Flash

O lançamento do Adobe Edge pode representar mais um ataque ao modelo de controle total da Apple, que uma defesa diante de um suposto fim do Flash

Recentemente, a Adobe liberou a primeira versão preliminar do Edge, um novo produto que permite a desenvolvedores criar sites em HTML 5. De imediato, muita gente no mercado disse que a empresa de San Jose (Califórnia) havia se rendido ao movimento contrário ao Flash, que ganhou força porque iPhones e iPads não rodam nada feito com ele. Alguns colegas macmaníacos chegaram a comemorar a morte do Flash, creditando o feito à Apple.

Muita calma nessa hora! Ele continua bem vivo. Apesar do incômodo para usuários e desenvolvedores causado pela briga entre Adobe e Apple, o Flash continua sendo a primeira e a segunda opção para se criar conteúdo multimídia na Web. Tanto que navegar pela Web com iPhones e iPads ainda é uma experiência frustrante pela sua incapacidade de rodar elementos criados com Flash. A Adobe naturalmente nega que o Edge tenha sido criado para substituir o Flash, sendo apenas sua resposta a uma comunidade de desenvolvedores que deseja explorar o HTML 5.

O que pouca gente notou é que essa nova investida da Adobe pode criar uma enorme dor de cabeça à Apple. Qualquer um que queira criar produtos para iPods, iPhones e iPads tem que se submeter a regras bastante rígidas da Apple. Como a única maneira de se instalar algo nesses produtos é passando pela App Store, a Apple controla com mão de ferro esse desenvolvimento, sumariamente rejeitando qualquer coisa que contrarie seus interesses. Sem sua benção, os usuários não têm acesso a qualquer produto.

Mas a Apple não controla a Web e, consequentemente, o HTML 5. Em um mundo em que as coisas funcionam cada vez mais na “nuvem”, essa linguagem é mais que suficiente para criar aplicaçōes bastante sofisticadas (experimente visitar a Chrome Web Store, do Google). Sofisticadas e livres do controle do império de Steve Jobs.

Por isso, as grandes empresas de mídia, que veem nos tablets uma tábua de salvação frente às dificuldades de seu antigo modelo de negócios, mas que se sentem muito incomodadas com as regras da Apple, começam a prestar atenção no HTML 5. O Financial Times foi o primeiro grande título que substituiu sua aplicativo para iPad por um equivalente na Web. Para o usuário, não há nenhuma perda em sua experiência. Para a empresa, a diferença é enorme, uma vez que não precisa mais limitar seu produto ao que a Apple determina ou dividir sua receita com ela.

É, portanto, um grande negócio para os desenvolvedores e para os usuários. O Edge não é um produto de defesa da Adobe: está mais para um ataque. E o Flash continua vivo, para alegria da multidão de desenvolvedores. Afinal, a Web tampouco morreu. E o Android roda Flash.

Sem vender a alma ao diabo

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Hoje cedo, no Info@Trends, Julian Assange afirmou que The New York Times e The Guardian sonegam informações a seus leitores por interesses espúrios

Hoje cedo, no Info@Trends, Julian Assange afirmou que The New York Times e The Guardian sonegam informações a seus leitores por interesses espúrios

“Quando uma grande empresa de mídia se aproxima do poder, ela começa a legitimar esse governo.” A frase foi dita por Julian Assange, criador do WikiLeaks, ao abrir, hoje cedo, o Info@Trends 2011. Assange, que falou por videoconferência, pois está em prisão domiciliar na Inglaterra, acusado de assédio sexual pela promotoria sueca, fez pesadas criticas a governos e também à imprensa. Segundo ele, as investigações do WikiLeaks demonstram que veículos de comunicação deliberadamente sonegam informações a seu público, citando nominalmente o The New York Times e o The Guardian.

Vários motivos explicam essa associação espúria entre a imprensa e governos (ou outras instituições ou companhias), mas as mais comuns são o medo de atentados e represálias políticas, e o interesse econômico das empresas de comunicação. Esses itens acompanham a história do jornalismo, mas o bom exercício da profissão sempre implicou em resistir a eles.

Sobre esse último, o jornalismo sério tradicionalmente se protege “associando-se” a seu consumidor –leitor, espectador ou internauta– que banca parte da produção com assinaturas e vendas avulsas. Com seus verdadeiros clientes pagando pelo conteúdo jornalístico, os veículos não precisam depender financeiramente de grupos externos. Dessa forma, os jornalistas podem exercer seu ofício de maneira independente.

Mas o que acontece quando esse mesmo público se recusa a pagar pelo conteúdo? Esse é o dilema que o jornalismo vem vivendo há uma década. Com a overdose de informação na Internet, criou-se a falsa e polêmica ideia de que o conteúdo deve ser gratuito. Falsa porque produzir jornalismo de qualidade custa dinheiro; polêmica porque é verdade que se pode encontrar bom conteúdo de graça na rede, normalmente produzido como atividade secundária ou de apoio por outras pessoas ou empresas.

O fato é que esse conceito trouxe a imprensa a uma crise econômica sem precedentes. Então seria legítimo, em nome da sobrevivência, trair o interesse do leitor, como Assange acusa os veículos de fazer?

Não estou inocentemente propondo que as empresas de comunicação nunca se vendem por interesses econômicos ou políticos. Mas vamos supor, para efeito de análise, que isso não seja pelo menos algo sistematicamente recorrente. Como os veículos podem então sobreviver com seus clientes resistindo a pagar pelo conteúdo e com suas fatias publicitárias minguando continuamente?

A verdade é que o bom jornalismo jamais perderá seu valor, porém o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por ele se corroeu pela enorme quantidade de informação gratuita. Em outras palavras, os consumidores ainda veem valor no bom jornalismo, mas talvez não queiram mais pagar por ele se tiverem, de graça, um concorrente que ofereça um produto inferior, mas “quase tão bom”.

Se não alterarem seu produto e seu modelo de negócios, não há saída para os veículos e as perspectivas são ruins para o futuro. Em um mundo onde as pessoas têm cada vez menos tempo para tudo, vivem sob crescente pressão e todas as atividades parecem ter a obrigação de lhes trazer ganhos imediatos, o que as empresas de comunicação e os jornalistas precisam entender –e praticar– é que o resultado de seu trabalho é, mais que nunca, um serviço. Dessa forma, precisa ser re-empacotado para atender a demandas específicas de cada indivíduo, suas necessidades pessoais quanto a assunto, freqüência e horário de publicação e até formato editorial.

Essa resposta não chega a ser uma novidade: eu já a trombeteio há anos. Mas ela ainda causa arrepios em publishers e editores, pois subverte conceitos que norteiam o jornalismo desde que ele se profissionalizou, no século 19. Por isso, resistem bravamente às mudanças, por mais que sintam a água chegando ao pescoço. Ainda não se sentem seguros para dar o salto no abismo do qual estão à beira. Não confiam que a mesma tecnologia digital que os colocou nessa incômoda posição seja também o caminho para que se reinventem, sobrevivam e prosperem.

Se continuarem assim, só lhes restará vender a alma ao diabo. Exatamente a ferida na qual Assange enfiou o dedo hoje cedo.