“O Diabo Veste Prada 2” mostra que não dá para baixar a guarda nas redes sociais

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Duas décadas são suficientes para abalar ícones e demolir modelos de negócios outrora bem-sucedidos, se não forem bem cuidados. A crise da revista “Runway”, retratada em “O Diabo Veste Prada 2”, demonstra didaticamente como ninguém está imune a isso, não importa seu tamanho ou setor.

O filme estreou com força nos cinemas, trazendo novamente Meryl Streep, como a impiedosa editora Miranda Priestly, e a idealista Andy Sachs, vivida por Anne Hathaway. O drama da publicação reflete o do jornalismo e escancara um movimento que vem transformando decisivamente a sociedade. Ao longo de 20 anos, a imprensa perdeu sua posição de farol do debate público e, com isso, a polarização se instalou.

Não se trata de se ter menos jornalismo. O grande problema da mídia profissional é que ela se desconectou do seu público, algo grave para qualquer negócio, mas mortal para uma atividade cuja própria existência se justifica pela representatividade social.

As redes sociais perceberam o vazio formado e o ocuparam de forma avassaladora. As big techs prenderam o jornalismo em uma gaiola e agora, seguindo apenas seus interesses opacos, enterram uma notícia importante para promover uma grande porcaria engajadora. E a inteligência artificial deve agravar esse quadro.

Aí reside a grande crise: engana-se redondamente quem pensa que isso é um problema do jornalismo. Esse poder de vida ou morte das plataformas digitais paira sobre as cabeças de todas as pessoas e todas as empresas.

Estamos perdendo o controle sobre como as pessoas nos veem, e quanto do que fazemos é visto e compreendido corretamente por elas.

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No filme, Peter (Patrick Brammall), interesse romântico de Andy, discute com ela a “evolução” inevitável de qualquer negócio, de jornalismo a farmácias. Para ele, formatos e produtos devem se adaptar à conveniência do consumidor. Andy reage a isso, argumentando que a conveniência não pode matar a essência de uma operação, e que há preços éticos e humanos altos demais para serem pagos.

Esse choque de visões define o mundo atual, pois os dois lados têm argumentos válidos, mas que parecem ser irreconciliáveis. É verdade que a experiência do cliente nunca foi tão decisiva, mas exagerar nesse remédio pode transformá-lo em um veneno que mata os valores e a identidade que vincularam o produto a seu público.

A solução óbvia é encontrar um equilíbrio entre os dois, mas falar é muito mais fácil do que fazer, especialmente em um cenário em que as plataformas digitais conseguem convencer as massas de que seus interesses corporativos deveriam ser os de todo mundo. O bom jornalismo se recusa a flexibilizar sua ética e boas práticas, o que é louvável, mas falha em criar a tal conveniência. E, nessa dificuldade, estão muitas outras empresas que parecem incapazes de escapar do ostracismo digital.

Como em qualquer crise, ela não veio da noite para o dia. Incontáveis reportagens dos próprios veículos de comunicação a anunciaram, mas eles ignoraram olimpicamente as mudanças de mentalidade que o meio digital promoveu. Ironicamente, o jornalismo continua existindo e até pautando muito do que se fala nas redes, mas o que é visto e principalmente como é visto acabam sendo determinados pelos donos dos algoritmos.

Viver em função do gosto constantemente variável dos algoritmos é um erro fatal. Em um primeiro momento, pode fazer sentido, pois as plataformas digitais dão visibilidade àqueles que se submetem a elas. Mas esse fôlego é curto, e todos são jogados ao mar quando não interessam mais às big techs.

 

“Porteiro” digital e fragmentado

Do jornalismo às farmácias, a Internet fez com que o interesse público deixasse de ser organizado em torno de poucos intermediários confiáveis para se tornar uma arena fragmentada, guiada por algoritmos e disputas permanentes por atenção.

Qualquer pessoa passou a disputar espaço com grandes marcas. Mas os algoritmos não privilegiam qualidade ou veracidade, e sim engajamento apenas, em que futilidades e conflitos costumam gerar mais cliques do que apuração cuidadosa.

Com isso, pilares da sociedade passaram a ser questionados continuamente, incluindo imprensa, ciência, universidades e governos. Isso revelou falhas dessas instituições, mas também abriu espaço para campanhas organizadas de descredibilização, frequentemente impulsionadas por grupos que se beneficiam do caos informacional.

Nem a outrora poderosa “Runway”, que gastava facilmente US$ 300 mil em um ensaio fotográfico, resistiu. No novo filme, sua edição impressa ficou tão fina que poderia ser usada como fio dental, nas palavras da própria Priestly.

Curiosamente, a moda pode nos indicar caminhos para escapar desse dilema. Quem constrói sua identidade, carreira e visão em torno dela tende a envelhecer com o hype. Por outro lado, aqueles que mantêm certa distância crítica atravessam mudanças sem depender das próximas ondas de validação coletiva, cada vez mais curtas.

Hoje, as tendências vão além das roupas e do comportamento, moldando opiniões, consumo, tecnologia e até posicionamentos políticos. As plataformas digitais aceleraram esse mecanismo, garantindo visibilidade instantânea ao que está “na moda”, enquanto o que exige reflexão costuma perder espaço.

“Não seguir a moda” não implica em rejeitar toda novidade ou assumir uma postura elitista de negação do presente. Significa preservar autonomia intelectual, cultivando a diferença entre entender uma tendência e ser absorvido por ela.

Quem não tenta desesperadamente acompanhar tendências pode construir algo mais duradouro e original. Algumas das ideias mais relevantes surgiram de pessoas que resistiram a consensos rasos do momento, e isso vale para a imprensa, farmácias e qualquer outro negócio.

Em um mundo feito tóxico pela desinformação, o jornalismo se faz mais necessário do que nunca, mesmo deixando de ocupar o centro da conversa. O desafio da imprensa e de todos nós passou a ser a compreensão do espírito desse tempo em que vivemos, sem nos tornar reféns dele.

 

Usos banais da IA consomem recursos, enquanto empresas ainda sofrem por resultados

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Pouca gente pensa (ou mesmo sabe) o que se gasta de recursos para que a inteligência artificial funcione. É um erro achar que tudo é grátis ou até barato, mas essa percepção e o marketing irresponsável das empresas que desenvolvem essa tecnologia estão criando uma explosão de usos banais da IA, enquanto a maioria das empresas ainda patina na busca por resultados concretos para seus negócios.

Alguns acontecimentos nos últimos dias me fizeram pensar mais sobre isso. Na terça, na palestra de abertura da conferência Gartner Data & Analytics, em São Paulo, Sarah James, diretora da consultoria, disse ter uma amiga “que não faz mais nada sem antes consultar a IA”. Na mesma fala, ela mostrou que, apesar de 80% das empresas investirem em projetos de IA, apenas 20% já obtiveram qualquer retorno deles.

Em outro caso, a revista “Piauí” trouxe uma crítica à ocupação das redes sociais por conteúdo de baixa qualidade produzido por IA, destacando a popularização de vídeos com frutas antropomorfizadas e sexualizadas. As big techs não se importam com isso, pois se beneficiam financeiramente com essa prática, que gera muitas visualizações.

Vemos pessoas dizendo estar apaixonadas ou fazendo terapia com plataformas de IA, usos inadequados de uma tecnologia que agrada seus usuários além do aceitável. Enquanto isso, um artigo de “The Economist” explicou que a IA enfrenta a sua primeira crise, pois fornecedores não conseguem suprir a demanda explosiva de data centers por processadores, memórias, transformadores, painéis elétricos e turbinas a gás.

Isso não é um acidente, e sim uma consequência de um modelo de negócios baseado em atenção. Mas esse desalinhamento entre usos tolos e exigências estratosféricas merece uma avaliação econômica e ética sobre se faz sentido consumir tantos recursos para produzir “AI slop”, o “lixo da IA”.


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Eu já vi essa história antes. No início da Internet de banda larga, pornografia e streaming rudimentar impulsionaram a infraestrutura, atraindo investimentos em redes mais rápidas. O amadurecimento era claro e a infraestrutura crescia livre da qualidade do conteúdo que circulava nela. Aquela “fase selvagem” provisória abriu caminho para usos de mais valor social, como educação, serviços públicos e trabalho remoto.

Na IA, as futilidades cumprem um papel parecido, ao gerarem tráfego, mas as semelhanças param por aí. Esses usos exaurem uma infraestrutura muito mais cara que a da banda larga. E a tendência não parece ser “primeiro o lixo e depois a coisa boa”, e sim uma convivência entre aplicações de alto valor e um oceano permanente de conteúdo descartável, guiado pela ganância das big techs.

Por isso, conteúdos absurdos, como vídeos de “abacatudos” e de “moranguetes”, não são uma distorção desse ecossistema, e sim um subproduto previsível de plataformas que monetizam atenção, não qualidade. E, nesse ponto, as empresas que desenvolvem as plataformas de IA e as que são donas das redes sociais dão as mãos, pois o sucesso de uma retroalimenta o da outra. Essa simbiose está na raiz de seus lucros gigantescos e de suas valorizações trilionárias nas bolsas.

Da mesma forma, a substituição silenciosa de relações humanas por interações mediadas por algoritmos segue a mesma lógica. Não se trata de atacar o uso que cada pessoa faz dessas plataformas, e sim de questionar algoritmos que incentivam usos que chegam a ser patológicos, mesmo quando os sistemas já percebem que a conversa não está indo por bons caminhos.

O problema não recai, portanto, sobre a IA em si, mas sobre os modelos de negócios que a moldam.

 

Celulares e computadores mais caros

Outro grupo empresarial, o dos fabricantes de eletrônicos de consumo, também está surfando nessa onda. Celulares, computadores, videogames, televisões e até geladeiras trombeteiam que agora possuem recursos de IA.

Para entregar essa promessa, os equipamentos precisam de processadores mais poderosos e mais memória. Mas os data centers mastodônticos onde as plataformas de IA rodam também exigem quantidades colossais desses componentes. E, nesse confronto, os data centers pagam mais, o que está deixando todos esses equipamentos pessoais mais caros, pela lei da oferta e da procura. O mercado estima que, até o fim do ano, os preços de celulares e computadores cresçam em até 20%.

Apesar de tudo isso, não adianta querer ser “mais realista que o rei”. Graças à incrível facilidade proporcionada por esses equipamentos e pelas plataformas de IA, cada um usará esse poder como bem quiser. Se vídeos de baixa qualidade geram engajamento, eles serão produzidos em escala, com ou sem IA. A diferença é que ela reduz drasticamente o custo dessa produção.

Mas não podemos tapar os olhos para as consequências. A inteligência artificial é uma força transformadora da sociedade e deve ser usada. Mas os custos associados a ela são altos e todos pagam, até sem saber.

Estamos construindo uma das infraestruturas mais caras da história. As empresas gastam fortunas nela, vendem a promessa de transformação, mas estão entregando só 20% de resultados no que realmente deveria importar.

Caímos no debate da responsabilidade das redes sociais por viabilizarem qualquer produção de seus usuários, mesmo as que misturam estereótipos misóginos e relações afetivas violentas ou degradantes com humor, privilegiando as que mais engajam. Do outro lado, as plataformas de IA devoram recursos da sociedade, criando um desejo de consumo muitas vezes exagerado e desorientado.

As big techs não são meras espectadoras desse processo. Elas desenham os incentivos, moldam os usos e capturam o valor. Não se trata, portanto, de a IA estar indo rápido demais, mas de quem define a direção, quais suas motivações, a responsabilidade que assume e quem paga o preço desse processo anárquico.

Talvez a crise da IA que a escassez de recursos está gestando possa ser lida como uma oportunidade de pausa forçada para se discutir prioridades, inclusive de distribuição de poder de processamento. Frutas animadas e outros conteúdos fúteis podem continuar existindo, mas talvez esses usos da tecnologia devam pagar mais que os de atividades mais nobres, como medicina, educação, ciência e negócios produtivos.

 

Inteligência artificial muda a forma como empresas se relacionam com seus clientes

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Estamos diante de uma mudança de paradigma no marketing graças à evolução da inteligência artificial. Se as redes sociais consolidaram a entrega de anúncios específicos para as pessoas que têm grande chance de se interessar por eles, a IA começa a colocar em xeque o próprio conceito de campanha e até de funil de vendas.

Com os consumidores usando essas plataformas para atividades cada vez mais diversas, mais cedo ou mais tarde, eles as usariam para pesquisar produtos e serviços que quisessem adquirir. Esse momento chegou: segundo estudo da consultoria Bain & Company, publicado em outubro, 58% dos brasileiros já usam a IA para comparar preços, produtos, vendedores e sites, antes de concluir uma compra.

Isso muda o marketing profundamente. Cada vez menos adianta construir “uma mensagem incrível” e empurrá-la para “o cliente certo”, se agora ele conversa com uma plataforma que decide, segundo critérios nada transparentes, o que lhe indicará.

O desafio de todas as marcas passa a ser, portanto, como se tornar relevantes não apenas para seus clientes, mas também para algoritmos que passam a intermediar o contato entre empresas e pessoas. E isso não é trivial.

Esse assunto foi a espinha dorsal do Adobe Summit, um dos maiores eventos globais de tecnologia, criatividade e experiência do cliente, que aconteceu em Las Vegas (EUA) entre os dias 20 e 22 de abril. Conhecida pelos seus programas gráficos, como Photoshop e Illustrator, a Adobe se posiciona agora com soluções para melhorar o desempenho das empresas nesse “novo marketing”.

Não é exagero dizer que parte do orçamento de marketing das companhias está sendo gasta para convencer pessoas que cada vez menos tomam as decisões de compra sozinhas. Pouco vale investir milhões se a IA priorizará concorrentes baseada em critérios que suas diretorias sequer compreendem.


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O evento também destacou como a IA está mudando a lógica criativa, com o trabalho começando de versões geradas e otimizadas pela tecnologia, e não de uma “página em branco”. Os modelos deixam de ser apenas geradores de textos e imagens para atuar como parceiros que entendem contexto, objetivos de negócio e regras de marca.

Apesar disso, o papel das pessoas não desaparece. A IA não vem para substituir, mas para melhorar o trabalho humano, com criativos, publicitários e estrategistas passando a escolher e dirigir agentes de IA, em vez de executar cada microtarefa.

“Nós acreditamos que a criatividade é a nova produtividade, à medida que as comunicações se tornam cada vez mais expressivas e visuais”, declarou Shantanu Narayen, CEO da Adobe, durante a principal palestra do primeiro dia do evento. “Essa abordagem diferenciada em relação à IA reflete nossa crença de que a criatividade é uma característica exclusivamente humana, e acreditamos que a IA tem o poder de tanto auxiliar quanto ampliar a engenhosidade humana, além da produtividade.”

Na mesma apresentação, ele conversou com Jensen Huang, CEO da Nvidia. O líder da empresa que se tornou a mais valiosa do mundo por fabricar os principais processadores dos datacenters da IA destacou que essa tecnologia está deixando de ser apenas um sistema que responde perguntas ou organiza informação e passando a executar tarefas concretas. “Agora temos a capacidade de ir diretamente de uma entrada sensorial para a execução direta em um sistema computacional ou em um sistema físico”, afirmou Huang. “As pessoas adoram IAs que sabem tudo, mas, no fim das contas, o que você paga é pelo trabalho realizado.”

Há um risco significativo nisso. Hoje, grande parte do conteúdo que trafega pela Internet já é produzido por IA, e sua qualidade costuma ser tão ruim, que ganhou o apelido pejorativo de “AI slop” (“slop” se refere à lavagem que os porcos comem). As marcas precisam cuidar que seu novo conteúdo não engrosse esse caldo.

 

Preservando a marca

Por isso, David Wadhwani, presidente da unidade de Criatividade e Produtividade da Adobe, explicou que bons conteúdos precisam se destacar, fugindo do que chamou de “mar de mesmice”. Além disso, eles devem se manter frescos e garantir a personalização com “criatividade em escala”.

O dilema vem de que a personalização gera volume, mas volume costuma destruir consistência. E consistência é o que sustenta uma marca. “Você precisa manter a identidade da sua marca à medida que escala a produção de conteúdo”, acrescentou.

A ideia é, portanto, transformar criatividade em processo industrial, sem perder identidade. Porém, isso ainda é uma promessa sofisticada que precisa ser comprovada medindo o retorno em canais fragmentados e orquestrando jornadas de incontáveis clientes ao mesmo tempo.

“O maior gargalo da IA não é a tecnologia, e sim processos e cultura”, provoca Fernando Teixeira, diretor de produtos e de estratégia de IA da Adobe na América Latina. Ele explica que o principal motivo do baixo retorno que as empresas ainda têm com essa tecnologia se deve ao fato de ela ser usada de maneira desagregada pelos profissionais, enquanto os processos da empresa não mudam. “Não dá mais para entender a IA como um uso individual nos processos de departamentos antigos.”

Esse descompasso se torna ainda mais evidente quando se observa o contexto brasileiro de avanços e contradições. “O Brasil é um país muito conectado e isso nos coloca em vantagem nessa adoção”, afirma Mari Pinudo, country manager da Adobe Brasil. Mas isso convive com o desafio de também sermos “uma população muito diversificada e diferente.” A promessa de personalização em escala esbarra, então, na complexidade de entender pessoas inseridas em realidades tão distintas.

Se já é difícil compreender indivíduos em um país diverso, esse desafio se amplia quando a interação deixa de ser direta. “Os consumidores mudaram o comportamento e estão indo nessas plataformas para ter conversas sobre os produtos das marcas”, afirma Douglas Montalvão, general manager da Adobe na América Latina. A questão deixa de ser apenas entender clientes e passa a incluir a necessidade de influenciar os ambientes digitais que filtram o que ele vê a partir de sua individualidade.

Esse é um deslocamento sutil, mas profundo, de poder na relação entre empresas e consumidores. Por tudo isso, o Adobe Summit tratou muito além de tecnologia. Em mais essa disrupção provocada pela inteligência artificial, essa é uma conversa sobre poder, sobre quem controla a experiência, a decisão de consumidores e, no limite, como se construirá, de agora em diante, a narrativa e o funcionamento do marketing.

 

Dario Amodei, CEO da Anthropic, criou a empresa depois de sair da OpenAI por preocupações com a segurança do GPT-2 - Foto: reprodução

Medo pode funcionar como marketing para a inteligência artificial

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No dia 7 de abril, a Anthropic, criadora da plataforma de inteligência artificial Claude, anunciou que não liberará a nova versão do seu produto para o público, por considerá‑la “poderosa demais” e que “o mundo não estaria preparado para ela”. Mas apesar dessa negativa, isso pode ser ótimo para seus negócios.

Batizada de Claude Mythos Preview, a empresa acredita que ela poderia ser usada para explorar vulnerabilidades de sistemas de computador, o que tem feito melhor do que as IAs já lançadas. Por isso, a Anthropic oferecerá o modelo apenas a um consórcio de cerca de 40 empresas de tecnologia, incluindo Google, Microsoft, Apple e Amazon, algumas delas suas concorrentes. A expectativa é que elas o usem para encontrar e corrigir vulnerabilidades de segurança em seus próprios softwares estratégicos.

A decisão foi suficiente para causar alvoroço no mercado e reacender medos em torno das possibilidades da IA. De fato, o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, disparou temores nas pessoas que iam desde a substituição em massa de empregos –o que já começa a acontecer– até visões apocalípticas, como indícios de uma possível revolta das máquinas, que levaria ao extermínio da humanidade.

Pelo menos nesse último caso, nada aponta que acontecerá, não em um horizonte visível. Mas isso não é trivial e envolve capacidades cognitivas artificiais surpreendentes e um poder computacional assustador, que não param de crescer.

Chega a ser contraintuitivo uma empresa anunciar que desenvolveu um produto que, de tão poderoso, representaria um risco à humanidade. Sendo assim, o mais razoável seria simplesmente destruí-lo, o que obviamente não acontecerá. E isso se deve ao fato de que essa ansiedade fabricada é um excelente marketing para algo que acabará chegando ao mercado, depois de legitimado com alguma narrativa redentora.

É assim que esse mercado cresce captando bilhões de dólares de investidores.


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A Anthropic disse que seu novo modelo já teria encontrado milhares de bugs e brechas de segurança em diversos programas populares, incluindo os principais sistemas operacionais e navegadores. Uma delas foi uma falha no OpenBSD, sistema operacional de código aberto projetado justamente para ser difícil de hackear. O bug existiu sem ser notado por ninguém por 27 anos.

O novo modelo tem capacidades avançadas de ataque em cibersegurança, com alto grau de autonomia, e pode ser usado para derrubar empresas e comprometer infraestruturas essenciais. Isso poderia ameaçar partes críticas da internet, derrubar empresas gigantes e até penetrar em sistemas de defesa nacional dos EUA.

A Anthropic havia ganhado holofotes em fevereiro ao desafiar o Pentágono, sede militar dos EUA. A empresa, então a única IA credenciada para suas aplicações, se recusou a aceitar as exigências para que sua tecnologia pudesse ser usada em armas de destruição em massa e na vigilância de cidadãos. Isso fez com que Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, classificasse a empresa como um “risco à cadeia de abastecimento dos EUA”, decisão depois bloqueada pela Justiça.

Esses motivos éticos são legítimos e a coragem de peitar os militares americanos rendeu muitos louros justos à Anthropic. Além disso, em termos de imagem pública, posicionar‑se como quem vê o perigo e sacrifica o lucro pela segurança global cria uma aura de “guardião”, mesmo quando esses investimentos também consolidam infraestruturas proprietárias e mercados cativos.

É verdade que a IA já está aumentando a sofisticação e a escala de ataques cibernéticos, incluindo engenharia social e automação de golpes. Mas a forma maximalista e até apocalíptica como esse risco costuma ser apresentado favorece gastos gigantescos, aquisições e regimes regulatórios favoráveis às big techs.

 

“O caminho para o lado sombrio”

Mais do que simples marketing, o medo vem sendo claramente instrumentalizado para reforçar a posição de poder, vender produtos e moldar o debate regulatório em termos que beneficiam essas empresas. Ao enfatizar riscos catastróficos de IA, reforçam a ideia de que apenas elas teriam responsabilidade e capacidade técnica e financeira para manter a tecnologia sob controle, o que favorece a concentração de poder.

Esse sentimento também alimenta uma demanda política por regras que acabariam criando barreiras de entrada para concorrentes menores, por requisitos caros e complexos. No nível de produto, ele serve para vender soluções de “IAs seguras”, capazes de proteger as operações contra os próprios riscos da IA.

É curioso que a Anthropic “nasceu de uma costela” da OpenAI, criadora do ChatGPT, justamente por temores em segurança. Em 2019, essa última havia terminado de treinar GPT-2. Dario Amodei, então diretor de pesquisa da OpenAI e hoje CEO da Anthropic, insistiu que ele era perigoso demais para ser lançado. Para ele, o mundo precisava de tempo para se preparar, pois a IA poderia ser usada para a produção em massa de desinformação.

O modelo acabou indo para o mercado. Amodei e outros líderes do projeto decidiram deixar a OpenAI para fundar a Anthropic. Hoje vemos que aqueles temores eram legítimos, pois a IA se transformou em uma grande ferramenta para criar mentiras.

Logan Graham, chefe de uma equipe que testa modelos em busca de ameaças na Anthropic, declarou que o Mythos Preview seria “o ponto de partida para o que acreditamos ser uma virada na indústria, ou acerto de contas com o que precisa acontecer agora”. Segundo ele, uma das questões não respondidas é se, com esse modelo e outros no futuro, que serão capazes de fazer coisas semelhantes, será necessário reescrever a maior parte ou todo o software crítico do mundo. Afinal, se até então eles pareciam seguros porque se exigia muito esforço humano para atacá-los, com a IA essa garantia desceu pelo ralo.

Por isso, precisamos avaliar declarações como essa, da Anthropic, com cautela. Sim, a IA traz riscos reais e grandes, que precisam ser contidos. Mas não se pode ignorar que essa empresa, que insiste em alertar o mundo sobre eles, continua faturando bilhões de dólares com esses mesmos produtos.

 

Graças à tecnologia, hoje um único profissional pode fazer o que antes exigia equipes inteiras – Foto: Freepik/Creative Commons

IA favorece a criatividade, mas piora a vida dos criadores de conteúdo

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A economia criativa global segue crescendo, mas os criadores estão ficando para trás. Essa é a tensão central do relatório “Re|Shaping Policies for Creativity”, publicado recentemente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Com dados de 133 países, ele alerta sobre uma transformação estrutural acelerada pela digitalização e pela inteligência artificial, que está redesenhando quem ganha, quem perde e quem controla a produção cultural no mundo.

Nunca foi tão fácil criar, distribuir e acessar conteúdo. O mercado global de bens culturais atingiu US$ 254 bilhões em 2023. Mas isso vem junto com o aumento da precarização do trabalho criativo. O documento destaca que há pouco emprego estável para criadores, os modelos de remuneração são frágeis e as plataformas digitais concentram valor. Com isso, o órgão projeta uma queda de até 24% na receita dos criadores até 2028, impulsionada pela IA e pelo uso não autorizado de conteúdos.

O estudo indica que as redes sociais deixaram de ser espaços de interação para impactar a democracia, o bem-estar e a regulação global. Há uma preocupação crescente com saúde mental, governança das plataformas e desinformação.

Nesse sentido, é inevitável pensar em como essas mudanças atingem o coração do jornalismo contemporâneo. Quando se fala em perda de receita, desintermediação e captura de valor pelas plataformas, estamos falando exatamente da crise que o setor vive há pelo menos duas décadas. Isso se agrava com a IA generativa, pois não só as redações perdem o controle de seu produto, como ele ainda passa a ser reprocessado e reapresentado, sem tráfego para a fonte. Isso se enquadra no que o relatório chama de desvalorização da criatividade humana.

A cultura é um ativo econômico relevante como vetor de inovação e como ferramenta de desenvolvimento. Mas o sistema que a sustenta está deslocando valor dos criadores para intermediários tecnológicos. Temos mais produção e circulação, porém menos remuneração. E esse desequilíbrio corrói um pilar de qualquer sociedade.


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Há um lado inegavelmente positivo da IA, que acelera processos e permite que mais pessoas produzam conteúdo em escala e com qualidade. Hoje, um único profissional pode fazer o que antes exigia equipes inteiras. O próprio relatório reconhece esse potencial ao apontar que tecnologias digitais podem democratizar o acesso à cultura e estimular novas formas de expressão, como uma infraestrutura criativa.

Por outro lado, quando a produção explode, o valor individual tende a cair, e a tecnologia acelera esse processo. Por isso, o estudo destaca que 79% dos profissionais culturais veem a IA como ameaça à sua subsistência. E não se trata de resistência à tecnologia e sim de uma percepção de perda de controle econômico.

A questão central não é, portanto, a capacidade de criar, e sim a de capturar valor. A IA se alimenta de conteúdos existentes, muitas vezes sem remuneração proporcional (ou qualquer remuneração), e depois entrega produtos derivados que competem com os próprios criadores. É uma cadeia na qual quem produz é o elo mais frágil.

Não se trata de “usar bem ou mal a IA”. O relatório aponta um vazio regulatório relevante, indicando que há 148 leis relacionadas à inteligência artificial em 128 países, mas apenas uma trata especificamente de cultura. Como de costume, a tecnologia avança mais rápido do que as regras que deveriam equilibrar seus efeitos, mas sem regulação, o mercado tende a favorecer quem escala e não quem cria.

A Unesco aponta ainda para uma séria ameaça à diversidade cultural. A IA passou a influenciar diretamente como conteúdos culturais são produzidos e acessados, mas ela opera com critérios de engajamento. Além disso, os modelos são treinados com grandes volumes de dados do hemisfério norte ocidental. Isso cria um risco estrutural de repetição de estilos, de redução de diversidade estética e de concentração de narrativas.

 

Uma tecnologia contraditória

A IA não é neutra nem inevitavelmente boa ou ruim. Esses resultados escancaram a necessidade de regras claras de remuneração, transparência no uso de dados e mecanismos de proteção aos criadores. Sem isso, a Unesco aponta que teremos cada vez mais gente criando, mais conteúdo circulando e menos pessoas vivendo disso.

O caso do jornalismo é emblemático. A pressão por produtividade em tempo real agora se combina à dependência de ferramentas automatizadas pela redução das equipes. A IA chega como uma ferramenta ambígua, que amplia a capacidade, mas também incentiva atalhos perigosos, especialmente em ambientes de alta pressão. Se o seu modelo econômico enfraquece, o impacto vai além dos profissionais, afetando a própria democracia. Menos receita significa menos investigação, menos diversidade e mais dependência de automação, o que pode aumentar a desinformação.

Um caminho para toda a economia criativa é a criação de remunerações obrigatórias pelo uso de conteúdo em sistemas de IA. O próprio relatório aponta a fragilidade dos atuais sistemas de propriedade intelectual. Sem isso, qualquer medida será paliativa.

A regulação parece inevitável, mas exige cuidado. Regular demais pode inibir inovação, mas regular de menos consolida abusos. O desafio é definir regras claras no uso de dados para treinamento de IA, na transparência sobre como conteúdos são usados no seu treinamento e na responsabilidade sobre o que ela gera.

Obviamente não se trata de rejeitar a IA, mas sim de aprendermos a usá-la de forma estratégica. Precisamos desenvolver habilidades técnicas e pensamento crítico sobre seus benefícios, seus riscos e as implicações éticas de seu uso.

Talvez a mudança mais difícil seja repensar a própria lógica de distribuição. As plataformas se tornaram intermediários dominantes e é preciso equilibrar essa intermediação. Mas isso só acontecerá com vontade política. A IA não respeita jurisdições nacionais, mas os direitos dos criadores ainda dependem delas.

Isso não é uma crise passageira. O que está em jogo vai além da renda de criadores, definindo o tipo de ecossistema cultural que queremos sustentar. Se houver intervenção coordenada, a inteligência artificial pode, de fato, ampliar a criatividade humana em vez de substituí-la economicamente. A diferença entre esses dois futuros possíveis não é tecnológica, e sim política, econômica e, no limite, cultural.

 

Robô Atlas, da Boston Dynamics, movimenta peças entre armários - Foto: reprodução

Inteligência dos robôs humanoides avança rápido, mas seus corpos ainda são rudimentares

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Há alguns dias, vi um robô humanoide funcionando em um hospital. Ele cambaleava pelos ambientes, pegava objetos em gavetas e fazia lentamente ações simples, que renderam muitas visualizações. Mas diante desses vídeos, às vezes vendidos como produtos prontos em uso, sempre penso que jamais aceitaria ser atendido por aquilo. E, se fosse gestor do hospital, não gastaria um tostão em tal máquina.

Estou muito longe de ser um ludita. Pelo contrário, sou um entusiasta de diferentes formas de tecnologia e pesquisador de inteligência artificial. Mas, talvez justamente por isso, desenvolvi um olhar bastante crítico sobre essas supostas “operações”.

É um fato que as versões mais recentes de robôs humanoides fazem movimentos incríveis, como se fossem pessoas. Muitos aparecem “trabalhando” em empresas, em atividades diversas. Isso desperta grande entusiasmo em parte do público, como se a ficção científica estivesse se materializando diante de nossos olhos.

Mas a verdade nua e crua é que isso não passa de propaganda. Ironicamente, a inteligência artificial que controla essas máquinas avança de maneira galopante, mas seus corpos ainda se comportam como brinquedos caros e limitados.

Esses robôs funcionam bem em ambientes extremamente controlados, com tarefas previsíveis. Mas o mundo insiste em ser caótico e inesperado. Além disso, os sentidos de uma criança superam largamente os sensores de qualquer robô, permitindo que ela se adapte a situações simplórias cotidianas em que a máquina não sabe o que fazer.

Se há algo que podemos tirar disso é que, apesar de a robótica e principalmente a IA estarem cada vez mais incríveis, há coisas que elas não conseguem fazer, pelo menos ainda. Mas principalmente há aquilo que elas não devem fazer, mesmo sendo capazes. E isso tem a ver com como posicionamos a nossa humanidade nesse cenário.


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Apesar desse hype, eu não chamaria esses autômatos de fraudes. As empresas que os criam estão efetivamente buscando soluções para problemas reais, como robôs capazes de operar em ambientes insalubres para pessoas. Elas também os estão testando e coletando informações no mundo real para treinar seus sistemas.

Mas me incomoda essa apresentação como máquinas que já fossem versáteis e confiáveis, convencendo muita gente dessas características que elas não têm. A única coisa totalmente verdadeira agora é o desejo de seus fabricantes de encher nossos olhos para conseguirem muito dinheiro de investidores. E assim nós promovemos uma tecnologia incipiente por acreditarmos que já estamos perto do mundo dos Jetsons.

Certamente, em algum dia, essas máquinas “chegarão lá” e se tornarão tudo que prometem ser. Mas não será neste ano, nem no próximo. Em ambientes menos complexos, como em uma linha de montagem, que deve ser o mais previsível possível, teremos robôs humanoides confiáveis talvez em uns cinco anos.

No setor de serviços, robôs humanoides efetivamente funcionais devem demorar ainda mais (talvez uma década), pois se trata de um local bem mais imprevisível e confuso. Pior que isso, só mesmo o ambiente doméstico, pois casas são caóticas, cheias de variáveis, objetos irregulares e situações inesperadas.

Não estou falando dos aspiradores de pó robôs, que desempenham bem o seu trabalho por fazerem apenas uma coisa e serem otimizados para isso. Para uma máquina substituir com vantagens um trabalhador doméstico humano, ela precisa combinar três coisas que hoje não existem, que são uma destreza física avançada, uma compreensão contextual sofisticada e um custo acessível.

Para termos isso, pelo menos 15 anos ainda serão necessários.

 

A dificuldade de “estar no mundo”

Em todas essas situações, quanto menos parametrizadas forem suas tarefas, pior. Por isso, se o robô tiver que lidar com pessoas, que são imprevisíveis por definição, a sua eficiência cai exponencialmente.

Não se trata apenas de uma limitação mecânica, e sim cognitiva. Interagir com humanos exige compreensão de linguagem, contexto e emoção. E mesmo com os avanços recentes da IA generativa, integrar isso de forma confiável em um corpo físico artificial ainda é um desafio técnico enorme.

Nosso organismo evoluiu por milhões de anos para tirarmos o máximo das sensações de estarmos imersos no mundo. Isso é natural até para um bebê, mas não para uma máquina. Um exemplo são os carros autônomos, que se envolvem em menos acidentes que motoristas humanos, porém ainda apresentam eventualmente comportamentos erráticos e inexplicáveis, por mais que façam a única tarefa de dirigir.

A solução passa pela chamada “inteligência artificial sensitiva”. Ela não significa consciência ou sentimentos das máquinas, mas sim sua capacidade de integrar tipos variados de percepção, como visão, áudio e tato, e transformar isso em ação. Para isso, combinam visão computacional, linguagem natural e controle motor.

Nos últimos anos, houve progressos relevantes nessa área. Empresas como a OpenAI e o Google DeepMind vêm desenvolvendo os chamados “modelos de mundo”. Eles permitem que os robôs aprendam tarefas menos por programação explícita e mais por demonstração ou instrução em linguagem natural. Mas ainda há um descompasso entre a percepção e a tomada de decisão, que melhoraram muito, e a execução física, que continua tosca.

Há ainda um componente psicológico. Queremos que máquinas “entendam” e “sintam” não só por eficiência, mas porque isso torna a nossa interação com elas mais natural. Talvez a busca por robôs humanoides “sensíveis” se refira menos a objetivos técnicos e mais à nossa expectativa de conviver com tecnologias que se pareçam conosco.

Precisamos avaliar se isso é mesmo necessário para que sejam úteis, especialmente em atividades críticas, como as que envolvem a integridade e a saúde das pessoas. Então possivelmente os robôs mais úteis não serão humanoides, mas sistemas híbridos, como uma espécie de “infraestrutura inteligente”.

Em qualquer caso, a regra de ouro é que tanto a IA quanto os robôs só devem ser concebidos para o bem da humanidade, e não para interesses de marketing de seus fabricantes. Resta saber se isso nos será entregue.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, chega para seu depoimento no Tribunal Superior da Califórnia, no dia 18 de fevereiro – Foto: reprodução

Decisões jurídicas podem redesenhar as redes sociais

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Uma decisão do Tribunal Superior da Califórnia pode mudar decisivamente a maneira como usamos as redes sociais e até como elas são construídas. Depois de deliberar por uma semana, o júri concluiu na quarta (25) que Facebook, Instagram e YouTube viciam seus usuários e que provocaram problemas de saúde mental em uma jovem.

A decisão do julgamento, iniciado no dia 17 de fevereiro, pode ser considerada histórica, pois ela não se baseou no conteúdo publicado nessas plataformas, e sim nos seus algoritmos e no seu design, considerados nocivos por manter online as pessoas de maneira artificial e deliberada. Isso cria um precedente para os cerca de 2.000 outros processos semelhantes que estão ativos nos EUA.

KGM, hoje com 20 anos, processou a Meta, o YouTube, o Snapchat e o TikTok em 2023. Ela começou a usar as redes sociais aos 6 anos e alegou que os sites causaram danos pessoais, incluindo dismorfia corporal e pensamentos suicidas. O Snapchat e o TikTok fizeram acordos antes do julgamento, mas a Meta e o YouTube prosseguiram com o processo, pois afirmam ser muito difícil provar que redes sociais causam dependência e danos pessoais.

Com a decisão, a Meta (dona do Facebook e do Instagram) e o Google (dono do YouTube) devem pagar US$ 3 milhões em indenização, com a primeira sendo responsável por 70% do valor. As empresas disseram que vão recorrer.

Foi a primeira vez que o júri de um caso como esse teve acesso a documentos internos das big techs e ouviu depoimentos de seus principais executivos, incluindo Mark Zuckerberg, CEO da Meta. Essa confrontação exibiu um posicionamento que chega a ser cínico dessas empresas. Elas têm consciência dos danos, não fazem tudo que podem para mitigá-los, mas afirmam ser preocupadas com seus usuários. Agora essa exposição determinará o que acontecerá com as plataformas daqui para frente.


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Muita gente está comparando essa decisão com uma de 1998 contra a indústria do cigarro, depois que 46 Estados americanos processaram aquelas empresas por danos à saúde pública. Elas foram obrigadas a pagar US$ 206 bilhões para compensar custos de saúde, aumentar o preço de seus produtos, restringir fortemente a publicidade, dissolver seu lobby e revelar milhões de documentos internos, além de financiar campanhas antitabagismo.

A medida inspirou leis e iniciativas semelhantes no mundo todo, inclusive no Brasil. Isso provocou uma queda contínua na quantidade de fumantes, que só desacelerou com a popularização de cigarros eletrônicos, conhecidos como “vapes”, há 15 anos. A indústria os apresentou como um “fumo menos nocivo” e até um caminho para parar de fumar, mas hoje se sabe que eles podem ter um potencial viciante ainda maior.

“A gente precisa ter cautela, porque o paralelo com a indústria do tabaco faz sentido na medida em que envolve um possível conhecimento prévio de danos e escolhas de design que amplificam os riscos”, explica Marcelo Crespo, coordenador do curso de Direito da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Se surgirem provas robustas de que houve ocultação e manipulação intencional, pode ser que a gente tenha um ponto de inflexão bastante semelhante em impacto regulatório”, pondera.

“A decisão fortalece uma percepção de que há riscos estruturais no ambiente digital que exigem mais atenção não somente de pais e responsáveis, mas da sociedade como um todo”, acrescenta Marcelo Cárgano, advogado especialista em direito digital do Abe Advogados. Para ele, “à medida que se consolida a percepção sobre o papel do design destas plataformas na indução de comportamento, cresce a expectativa por regras mais claras, fiscalização efetiva e responsabilização quando houver danos”.

No julgamento, as empresas alegaram que não permitem usuários com menos de 13 anos, porém documentos internos da Meta mostraram que ela sabe que crianças as usam regularmente. A companhia disse que toma medidas para proteger os usuários mais jovens, mas outros documentos indicavam metas de retenção de pré-adolescentes na plataforma.

 

O abuso da liberdade de expressão

As empresas tentaram arquivar o processo, invocando a proteção da liberdade de expressão. Esse é um recurso que as big techs usam há décadas, baseado na Seção 230 do Communications Decency Act (CDA) dos EUA e no artigo 19 do Marco Civil da Internet brasileiro. Esses mecanismos determinam que essas plataformas não podem ser responsabilizadas pelos conteúdos que os usuários publicam em suas páginas.

“No Brasil, essas defesas tendem a perder força após a decisão do Supremo Tribunal Federal em junho de 2025, que declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet e ampliou as hipóteses de responsabilização das plataformas”, explica Cárgano. “No caso de crimes gravíssimos, as plataformas têm o dever ativo de impedir a própria publicação desse tipo de conteúdo”, afirma.

O assunto esquentou por aqui, com a entrada em vigor, no dia 17 de março, do ECA Digital, que visa proteger crianças e adolescentes de abusos nessas plataformas. Mas, apesar de já estar valendo, pouco efetivamente já foi feito para essa proteção.

Essas leis e decisões enfraquecem o discurso das big techs de que não podem ser responsabilizadas, com o qual se encastelaram. A sociedade se cansou dessa “autorregulação de fachada” e agora percebe que o maior problema não são os conteúdos, e sim os algoritmos e o design desses ambientes digitais, criados para engajar seus usuários ao extremo, mesmo às custas de sua saúde mental.

“O maior desafio jurídico continua sendo o nexo causal, demonstrar que um design específico gerou ansiedade, depressão ou dependência, e isso não é trivial”, explica Crespo. Segundo ele, “isso está evoluindo com estudos científicos, com documentos internos e com padrões de comportamento replicáveis”.

Se os tribunais consolidarem a ideia de que extrair tempo e dados de usuários com mecanismos viciantes configura dano indenizável, os modelos de negócio baseados em engajamento a qualquer custo deixarão de ser apenas eticamente questionáveis, para se tornar economicamente arriscados.

A sociedade, por sua vez, precisa entender que educação midiática já não basta. A resposta aos riscos digitais não pode mais ser apenas “ensinar a usar melhor”, mas garantir, por leis efetivas, proteções mínimas, sobretudo para crianças e adolescentes.

 

A pesquisadora Sherry Turkle, para quem as pessoas esperam da tecnologia saídas rápidas para problemas emocionais - Foto: reprodução

Inteligência artificial tenta “dar match” onde apps de namoro falharam

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No dia 12 de março, o Tinder anunciou novos recursos com inteligência artificial para tentar corrigir um problema que ele ajudou a criar. Seu excesso de escolha transformou a busca por sexo e por amor em um exercício de fadiga. A promessa agora é trocar o malfadado “cardápio de gente” pela “curadoria de relacionamentos”. Resta saber se a IA terá sucesso onde os algoritmos tradicionais vêm falhando miseravelmente.

O uso da tecnologia para encontrar o par perfeito não é novo. Há três décadas, esses sistemas evoluem de formulários de características simples, como idade, religião e hobbies, para plataformas que cruzam dados, comportamento e preferências. As versões recentes tentam inferir e combinar padrões invisíveis ao próprio usuário, tornando-se, para muitos, o principal, se não o único, caminho para conhecer alguém.

Mas tanta “eficiência” tem cobrado um preço alto na saúde mental e na qualidade dos vínculos. Vemos uma distorção sistemática dos relacionamentos, resultando em laços extremamente frágeis e no fenômeno do “dating burnout”. Essa exaustão, derivada da esperança de que o próximo perfil será ligeiramente melhor, gera solidão, ansiedade e baixa autoestima. As pessoas nunca estiveram tão conectadas, mas raramente se sentiram tão sozinhas diante de uma lista infinita de opções descartáveis.

Esse cenário ecoa as ideias do filósofo polonês Zygmunt Bauman, que descreveu em 2003 o “amor líquido” como vínculos flexíveis e instáveis em uma cultura consumista. Isso dialoga também com a socióloga americana Sherry Turkle, para quem as pessoas passaram a esperar da tecnologia soluções eficientes para dilemas emocionais.

Se o amor nunca foi tão “mensurável”, tampouco foi tão instável. A dúvida é se a inteligência artificial pode, de fato, aproximar pessoas reais para relações saudáveis, ou apenas tornará mais eficiente um sistema que já vem sendo considerado falido pelos próprios usuários, pela pretensa “otimização” que corrói o investimento emocional necessário para relacionamentos de longo prazo.


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No “amor líquido”, os laços humanos tornaram-se bens de consumo que, se não trouxerem satisfação imediata, serão descartados. Na nossa realidade digital, o outro deixa de ser um indivíduo complexo para se tornar um objeto de gratificação momentânea. A tecnologia não apenas facilita esse processo, como o incentiva, ao transformar a busca pelo parceiro em um jogo de recompensas rápidas e superficiais.

Bauman argumentava que o grande dilema moderno é o conflito entre o desejo de segurança e o medo da prisão. As pessoas querem a estabilidade de um companheiro sem perder a liberdade de sair da relação ao menor sinal de tédio. Os aplicativos de namoro resolvem esse paradoxo de forma pragmática e cruel, ao oferecerem a ilusão de um vínculo que pode ser “desligado” com um clique, permitindo que o usuário mantenha um pé fora da relação enquanto ainda está nela.

Isso reforça as ideias de Turkle sobre como esperamos da tecnologia saídas rápidas para problemas que são, por natureza, emocionais e lentos. Usamos esses sistemas como mediadores preferenciais porque exigem menos do que os seres humanos. Afinal, é mais fácil interagir com algo que nos oferece controle total que enfrentar a vulnerabilidade de uma conversa olho no olho, em que não há botão de “cancelar”.

A pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) explica que as pessoas buscam uma ilusão de companhia sem as exigências da amizade. E os aplicativos de namoro oferecem interação constante e validações do ego, mas com um custo emocional baixíssimo. Criam a “conexão pela conexão”, em um simulacro de intimidade que preenche o tempo, mas não o vazio da falta de uma presença real.

Vale dizer que a tecnologia não inventou o “amor líquido”, mas lhe ofereceu o terreno perfeito. Ao amplificar comportamentos que já vinham sendo moldados por décadas de individualismo e imediatismo na sociedade, ela ampliou uma aversão ao compromisso que já estava latente na cultura ocidental. E os smartphones aceleraram uma desintegração social iniciada muito antes do lançamento do primeiro aplicativo.

Culpar as plataformas é uma saída confortável, mas simplista. O problema não está na tecnologia em si, mas no tipo de vínculo que incentiva e nas expectativas que constrói.

 

“Traição líquida”

Em janeiro de 2025, o “The New York Times” contou o caso de uma americana de 28 anos, que é casada, mas tem um “amante de IA” com quem passa mais de 50 horas por semana, incluindo interações sexuais por texto. O marido sabe e não se incomoda, já que não há consumação física.

Sob a ótica de Bauman e de Turkle, ambos ganham com esse arranjo distópico. A mulher obtém a atenção ininterrupta e a validação de um sistema programado para agradar, enquanto o marido se livra da carga emocional de suprir todas as demandas da esposa. Criou-se uma relação em que ninguém se esforça, ninguém se sacrifica e ninguém se compromete de verdade. O vínculo humano é substituído por uma conveniência técnica que mantém a paz doméstica ao custo da profundidade.

Diante de casos como esse, cada vez mais numerosos, a sociedade precisa repensar conceitos como paquera, ciúmes e até traição. Estamos redesenhando o amor para que ele caiba nas limitações e facilidades dessas plataformas digitais, porém, se a nossa definição de relacionamento passa a aceitar uma simulação como equivalente ao real, podemos estar perdendo a bússola do que significa ser humano. O risco é nos tornarmos tão “eficientes” em evitar os desafios do amor, que acabemos esquecendo como sentir qualquer outra coisa que não seja o conforto falso dessas plataformas.

O cansaço emocional e a descartabilidade de fenômenos como o “dating burnout” mostram que há muitos relacionamentos mediados por tecnologia, mas pouca presença, escuta e continuidade. Isso reforça o diagnóstico de Turkle sobre vínculos frágeis em ambientes digitalmente mediados. As pessoas estão falando sem parar, mas sem escuta, e conectando-se com muitos, mas sem comprometimento. Estamos sempre “quase lá”, sem nunca estar inteiramente com alguém.

Se a inteligência artificial promete otimizar e prever o amor, talvez não devêssemos nos preocupar se isso é possível tecnicamente, mas se, com ela, o amor continuará sendo amor ou se acabará transformando-se apenas em uma “experiência eficiente”. Relacionamentos envolvem incerteza e vulnerabilidade, com chance real de se machucar. Ao tentar eliminar o risco, podemos estar retirando exatamente aquilo que torna o vínculo afetivo significativo.

É provável que a tarefa mais urgente não seja então delegar mais decisões aos algoritmos, e sim decidir, com alguma coragem, que tipo de humanidade queremos levar para nossas telas.

 

Mesmo com o avanço da IA da sala de aula, papel do professor continua imprescindível - Foto: Zinkevych (Freepik)/Creative Commons

Propostas do MEC para bom uso da IA servem para todos os setores da sociedade

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Além das transformações intensas por toda a economia, a inteligência artificial está transformando a maneira como falamos e até pensamos. Por isso, temos que buscar um uso consciente e construtivo dela. Esse cuidado se torna crítico na educação, justamente onde desenvolvemos valores, novas habilidades e formamos cidadãos.

Nesse quadro, o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, publicado na quinta passada (12) pelo Ministério da Educação (MEC), é muito bem-vindo. O documento orienta educadores e instituições e oferece diretrizes para políticas públicas sobre como fazer bons usos dessa tecnologia nas escolas da educação infantil à pós-graduação.

Criar um arcabouço de propostas com essa complexidade leva tempo, mas professores e alunos já usam a IA generativa há anos. Infelizmente, por falta de orientação, muitos deles não aproveitam tudo que a tecnologia oferece ou fazem até usos questionáveis dela.

Isso não é exclusivo da educação. Pelo contrário, vemos adoções inadequadas dessa tecnologia em todos os setores. A rapidez da sua evolução supera nossa capacidade de compreender o que cada mudança representa. Além disso, nunca algo havia invadido nossos sagrados campos da cognição e da criatividade.

Assim, embora seja voltado à educação, a proposta do MEC explicita princípios que podem, com adaptações, orientar outros setores no uso de IA. Ela enfatiza supervisão humana efetiva, transparência e explicabilidade dos sistemas, proteção rigorosa de dados pessoais, avaliação de impacto algorítmico, promoção de equidade e inclusão e soberania tecnológica. Dessa forma, suas diretrizes têm potencial de inspirar políticas públicas e práticas organizacionais muito além do ambiente educacional.


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O MEC não está sozinho na orientação sobre bons usos da IA na educação. No momento, 12 universidades brasileiras já têm regras internas sobre o uso dessa tecnologia. Um dia antes da publicação do referencial do ministério, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) publicou o seu Guia para utilização de IA na graduação. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também estão trabalhando em documentos semelhantes.

De certa forma, os documentos do MEC e da Unesp são complementares. O primeiro funciona como um marco principiológico, sem entrar em regras operacionais. Já o segundo tem abordagem mais pragmática, organizando o que alunos, docentes e funcionários podem e não podem fazer com a IA no cotidiano.

“O referencial do MEC chega em um tempo que alunos e professores já estão usando a IA para diversos fins”, afirma David de Oliveira Lemes, professor da PUC-SP. “Hoje, não dá para fugir disso, mas é preciso ter critérios de uso”, acrescenta.

“Quando a gente fala da questão da tecnologia com o professor, eu preciso oferecer condições para que ele se aproprie, entenda e se enxergue dentro desse universo, porque, senão, ele não consegue vincular isso à prática pedagógica”, explica Ana Lucia de Souza Lopes, professora e líder do Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Ele corre o risco de a IA fazer tudo para ele e determinar que professor ele vai ser”, alerta.

Os pesquisadores concordam que o letramento tecnológico de professores e alunos é necessário, porém não é suficiente. O uso irrefletido da IA pode produzir mediocridade automatizada, limitada por prompts rasos, em vez de melhorar o ensino.

“A gente tem que discutir a IA do ponto de vista epistemológico, pois ela entra em tudo na vida, molda comportamentos, impacta como eu me visto, o que eu consumo, como eu penso”, diz Lopes. “Então eu tenho que aprender a ‘pensar a IA’, não só aderir a ela, nessa relação vertiginosa que a gente não sabe para onde vai.”

 

Capacitação docente

Mas nem o melhor documento mudará a prática pedagógica se não houver formação e discussão coletiva. Por falta de apoio, muitos docentes acabam aprendendo sozinhos a usar a tecnologia, com resultados muito aquém do possível.

Isso é uma lástima, pois a tecnologia pode alterar profundamente a dinâmica da sala de aula, repensando a didática, avaliação e processos de aprendizagem. Metodologias ativas baseadas em projetos ficam ainda melhores, pois os alunos podem ganhar protagonismo ao usar a tecnologia para construir atividades antes inatingíveis.

“Eu tenho pensado muito nessa relação entre aquilo que é esse novo e os processos de ensino e aprendizagem, nos seus princípios, seus fundamentos, porque isso vai mudar”, sugere Lopes. “A gente tem que falar de uma didática digital, tem que incluir, neste campo do saber, pesquisas que discutam esse digital, porque são outras possibilidades de aprender e de ensinar.”

Dessa forma, a IA pode apoiar, mas nunca substituir o professor. Mas deve existir uso crítico, consciência dos limites dos sistemas e preservação do protagonismo docente e discente. Caso contrário, há o risco de se cair em uma pirotecnia tecnológica que se presta apenas ao marketing escolar. Não se deve demonizar a tecnologia, mas sim colocar cada coisa no seu lugar.

O referencial do MEC afirma que a IA deve reforçar o direito à educação, a equidade e a dignidade humana. Mas Lemes lembra que vivemos em um país com profundos abismos sociais, que podem se agravar com implantações desiguais da IA na escola. “Uma coisa é você falar de universidades com pensadores de ponta, boa infraestrutura para professores e para os alunos, que se preocupam com a formação dessas pessoas, mas outra é aquele professor que está em um local sem conectividade, com equipamentos de baixa qualidade e agindo sozinho”, explica.

A inteligência artificial já entrou nas salas de aula muito antes de qualquer regra. O referencial do MEC e os guias das universidades tentam organizar um fenômeno já em curso. Eles não resolverão sozinhos os dilemas pedagógicos, éticos e culturais que a tecnologia impõe, mas ao menos reconhecem que a ignorar não é mais uma opção.

Nosso desafio não é definir se a IA pode ser usada na educação, e sim evitar que ela substitua o esforço intelectual. Como disse Lemes, “eu não vou competir com a IA, mas usarei minha experiência para compartilhar histórias com os alunos, para mostrar o que dá certo”. E, de fato, temos que garantir que, diante de máquinas que respondem tudo, a escola continue ensinando as pessoas a pensar, a fazer boas perguntas e a analisar boas respostas.

 

Para Bill Gates, a IA pode levar a uma semana de trabalho de apenas três dias - Foto: Philippe Buissin - União Europeia/Creative Commons

IA não salvará o brasileiro de moralismos sobre como trabalha

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Na esteira dos debates sobre a extinção da jornada de trabalho 6×1, alçada pelo governo como sua principal bandeira neste ano eleitoral, reportagens publicadas no fim de fevereiro na Veja e na Folha provocaram indignação de parte do público. Os textos transpareciam ideias de que o brasileiro já trabalha pouco, não é suficientemente esforçado e que o descanso semanal é um custo.

No centro da polêmica, está o conceito de “produtividade”. E, de fato, geramos muito menos riqueza por hora trabalhada do que profissionais de nações desenvolvidas. O problema se agrava quando, diante dos números, as análises incorporam moralismo, como se isso fosse um traço da cultura brasileira, e catastrofismo, que sugere que melhorar as condições de vida das pessoas levaria a economia a um colapso.

Correndo por fora, a inteligência artificial surge como uma força que magicamente melhoraria a nossa produtividade. Economistas e empresários, com destaque para Bill Gates, argumentam que os ganhos trazidos por essa tecnologia poderiam viabilizar semanas com quatro e até três dias de trabalho apenas.

A redução da jornada de trabalho é um tema naturalmente popular, mas que não permite leituras apressadas ou populistas de nenhum lado. E a inteligência artificial, a despeito de todo o seu poder, não muda nada quando o debate já nasce enviesado.

É preciso abandonar as promessas fáceis, as acusações e as ameaças para entender como aumentar nossa produtividade, como a tecnologia pode nos ajudar nisso e o que mais precisa ser feito para sairmos dessa histórica situação trabalhista subalterna.


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A simples adoção de tecnologia não aumenta produtividade, não redistribui renda e não permite trabalhar menos. Pela lógica capitalista, a tecnologia por si só desloca renda do trabalho para o capital, concentrando a riqueza e gerando multidões que laboram insanamente para ganhar pouco em empregos precarizados. Esse é o cenário atual, que pode ser exemplificado pelos entregadores de aplicativos.

Muita gente acusa Gates de ter uma visão utópica e até inocente nessa sua proposta. Mas ela é mais complexa do que a maioria sabe. O fundador da Microsoft especula que a sociedade continuará funcionando mesmo que trabalhemos apenas três dias por semana, graças aos ganhos da IA. Mas ele afirma que isso deve necessariamente vir acompanhado de políticas fiscais e de bem‑estar, para evitar a queda de renda.

Gates propõe, por exemplo, a criação de “impostos sobre a automação”, que financiariam a redução da jornada de trabalho, evitando o desacoplamento entre produção e emprego. Caso contrário, afirma que pode haver desemprego em massa.

Vários economistas alertam sobre um possível paradoxo. À medida que tecnologias se tornam mais eficientes, cresce a pressão por produtividade individual. Ferramentas que prometem “economizar tempo” muitas vezes acabam elevando expectativas de desempenho, e passamos a entregar mais no mesmo tempo.

A IA se encaixa nisso. Se um profissional consegue gerar um relatório em minutos com apoio dela, o que antes era uma tarefa semanal pode se tornar uma atividade diária. O ganho de eficiência é absorvido pela expansão das expectativas.

Isso pode ainda reforçar a desigualdade, outra dor histórica do Brasil. Mesmo que a economia como um todo gere novos empregos, os ganhos de produtividade podem se concentrar em poucas empresas, setores e regiões. Isso pode criar períodos de transição dolorosos, com desemprego intenso e ainda mais pressões salariais.

 

Entre o marketing político e o alarmismo empresarial

A divergência entre visões otimistas e céticas não está apenas na tecnologia, mas na interpretação da história econômica. A expectativa de menos trabalho parte da ideia de que produtividade elevada libera tempo para a sociedade. A visão alternativa sugere que as economias modernas quase sempre responderam a esses ganhos expandindo produção e consumo.

A inteligência artificial não é uma utopia tecnológica, a despeito da excitação alimentada em torno dela. Suas potencialidades e limitações estão profundamente ligadas ao trabalho, por isso ela não deve ser sequestrada pelo marketing político ou pelo alarmismo empresarial, cada um com sua agenda limitante.

Adotar amplamente essas plataformas não significa aumento de produtividade. Se a IA faz bem as tarefas de um profissional, então ele realmente se tornou dispensável.

Uma boa produtividade vem necessariamente de uma educação melhor e para todos, da educação básica à pós-graduação. Em um mundo mais complexo e competitivo, erra quem acredita que cursinhos de curta duração garantirão seu emprego.

As empresas devem ser incentivadas a usar a IA para qualificar profissionais e redesenhar processos, em vez de demitir pessoal. Isso inclui acordos coletivos que troquem ganho de produtividade por tempo de estudo, e mudanças em encargos trabalhistas alinhadas a investimento em capital humano.

A redução da jornada de trabalho deve vir associada ao aumento de produtividade, não por decreto isolado. Mas essa premissa não pode ser usada para demonizar o tema, garantindo a concentração de riqueza às custas de trabalho mais precarizado.

Devemos ter muito cuidado com discursos de que demitir pessoas pela adoção da IA em tarefas rotineiras vem de uma “modernização inevitável” ou de que a baixa competitividade vem de uma suposta “preguiça” do trabalhador. Pelo contrário, eliminar ou piorar as condições de trabalho para se produzir o mesmo com menos custo demonstra uma visão tacanha de que o cenário atual é suficiente.

Isso diz muito mais sobre a baixa produtividade do brasileiro, que trabalha com uma formação ruim, com apoio tecnológico mal direcionado e insuficiente, além de condições extenuantes. Por isso, o verdadeiro debate não é se “trabalhamos pouco” versus “dá para trabalhar menos”, e sim quem se apropria do tempo e dos ganhos que a tecnologia oferece.

Por isso, devemos analisar de maneira desapaixonada e construtiva as previsões de que a automação levaria naturalmente a jornadas muito menores. Para que isso ocorra, a tecnologia não basta. É preciso que instituições, políticas públicas e escolhas sociais direcionem os ganhos de produtividade para essa redução, algo que historicamente quase nunca ocorre de forma espontânea.

Sem isso, a IA será a nova justificativa para trabalharmos mais sob o pretexto de que poderíamos, talvez um dia, trabalhar menos.

 

Dario Amodei, CEO da Anthropic, discursa no AI Impact Summit, que aconteceu há duas semanas, na Índia Foto: reprodução

Proibição da Anthropic por Trump expõe os perigos de um vale-tudo com a IA

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Na semana passada, neste mesmo espaço, abordei em artigo como a militarização da inteligência artificial pode se tornar um severo risco existencial para a humanidade, especialmente em cenários em que limites éticos no desenvolvimento e uso dessa tecnologia sejam desrespeitados. Pois bem, na sexta passada (27), o presidente dos EUA, Donald Trump, resolveu banir a Anthropic de qualquer contrato com o governo, justamente por ela insistir nesses cuidados.

Ironicamente, o Claude, plataforma de IA da Anthropic, era, até então, a única classificada como segura para aplicações em redes secretas de militares nos EUA. Agora eles exigem essa tecnologia para “qualquer finalidade legal”. Isso inclui a vigilância em massa de cidadãos e seu uso em armas letais totalmente autônomas. Foi quando o CEO da empresa, Dario Amodei, não concordou.

Outras empresas, aparentemente com menos escrúpulos, ocuparam o espaço da Anthropic assim que Trump a escorraçou. A primeira foi a xAI, criadora do Grok, seguida de perto pela OpenAI, dona do ChatGPT. Vale dizer que a Anthropic nasceu quando Amodei e outros pesquisadores se demitiram da OpenAI em 2021 por discordarem do ritmo acelerado de comercialização e da redução na segurança.

Um funcionário do governo disse ao jornal Financial Times que o Claude continua sendo o melhor modelo para uso militar, e que cortá-lo imediatamente prejudicaria as operações. De fato, apesar das ameaças e dos insultos de Trump, a transição deve durar seis meses, período em que um acordo ainda pode ser feito.

Não se trata de um problema pontual entre uma empresa e militares, ou de mais um arroubo autoritário de Trump. As exigências são profundamente antidemocráticas. Se isso for adiante, criará um Estado autoritário sem precedentes, que violará liberdades fundamentais de cidadãos do mundo todo. E as big techs serão cúmplices.


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Em nota, Amodei disse que essa vigilância é “incompatível com valores democráticos” e que só é “legal” em alguns casos pelo descompasso entre a lei e a capacidade da IA. As novas exigências permitirão ao governo correlacionar, em larga escala e automaticamente, localização, navegação, associações e outros dados públicos e privados, criando perfis completos de pessoas sem supervisão judicial robusta.

No mês passado, ele publicou que “uma IA poderosa analisando bilhões de conversas de milhões de pessoas poderia medir o sentimento público, detectar focos de deslealdade em formação e eliminá-los antes que cresçam”. Sobre o uso da IA em armas totalmente autônomas, a Anthropic argumenta que os modelos atuais não são suficientemente confiáveis para operar sistemas letais sem supervisão humana, o que colocaria em risco as vidas tanto de militares quanto de civis.

A empresa, avaliada em US$ 380 bilhões, tem contratos de US$ 200 milhões com as Forças Armadas. O Pentágono acreditava que ela cederia após as ameaças. Mas sua recusa mostra como o Departamento de Guerra não consegue dobrar facilmente empresas do Vale do Silício, ao contrário de fornecedores militares tradicionais, que dependem de contratos de longa duração.

As empresas de IA dependem de profissionais muito qualificados, difíceis de recrutar e mais difíceis de reter. Eles mudam para outras empresas, se não concordarem com posicionamentos de suas lideranças. Além disso, os US$ 200 milhões dos militares representam apenas uma pequena porcentagem da receita da Anthropic: suas vendas corporativas em 2025 ficaram entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões.

O secretário de Guerra, Pete Hegseth, ameaçou acionar a Lei de Produção de Defesa para forçar a Anthropic a dar aos militares o que eles querem. Ela concede ao presidente dos EUA poderes emergenciais para intervir na economia do país pela defesa nacional. Nesse caso, empresas devem cumprir ordens sob pena de multas, sanções criminais, perda de contratos, apreensão de bens e até intervenção federal.

 

Revolta no Vale do Silício

A crise provocou uma reação no Vale do Silício. Funcionários da Amazon, do Google e da Microsoft enviaram carta aberta na sexta aos seus superiores pedindo que apoiem a Anthropic e rejeitem contratos que envolvam armas autônomas ou monitoramento em larga escala. Na quinta, 175 funcionários do Google e 50 da OpenAI assinaram outra carta pedindo que suas empresas se recusem a concordar com o Pentágono.

“Eles estão tentando dividir cada empresa com o medo de que a outra ceda”, dizia o documento. “Essa estratégia só funciona se nenhum de nós souber qual é a posição dos outros. Esta carta serve para criar entendimento compartilhado e solidariedade diante dessa pressão do Departamento de Guerra.”

Isso lembra um conflito ético envolvendo o Vale do Silício e os militares em 2017. O Projeto Maven usava a visão computacional da IA do Google para identificar alvos, mas com supervisão humana. Milhares de funcionários se opuseram à empresa “estar no negócio da guerra”, denunciando que a tecnologia poderia refinar ataques letais. O Google decidiu não renovar o contrato e publicou princípios afirmando que não desenvolveria a IA para armas. Mas, no ano passado, eles acabaram flexibilizados.

Agora, os militares não querem só um “Maven mais rápido”, e sim modelos para planejar e apoiar missões, guerra eletrônica e potencialmente controle de armas. E não aceitam “insubordinações” como a da Anthropic e a do Google de 2017.

O amplo uso de IA como exige o Pentágono ameaça a segurança global e os direitos humanos ao facilitar o início de conflitos com armas letais autônomas. Além de gerar um vácuo legal na responsabilização por mortes de civis, erros algorítmicos em operações militares podem ampliar conflitos de maneira rápida e irreversível.

No âmbito interno, a tecnologia impulsiona a vigilância em massa, com rastreamento de localização, contatos e preferências políticas e religiosas em escala sem precedentes. Isso cria discriminação algorítmica de minorias e a repressão de liberdades civis. Sem transparência, a infraestrutura opaca da IA inibe a participação política e pode corroer silenciosamente os pilares fundamentais da democracia liberal.

Antes de se perguntar o que a IA pode fazer pela segurança dos países, devemos perguntar o que os militares estão dispostos a fazer com a liberdade de seus cidadãos usando a IA. Se a democracia não consegue impor limites à IA em tempos de paz relativa, é improvável que faça isso em meio a uma guerra.

Se a Anthropic sucumbir à pressão, passará ao Vale do Silício o recado de que princípios custam caro demais. E aí poucos repetirão esse gesto essencial para a democracia e a vida.

 

Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic) não deram as mãos para foto na Cúpula de Impacto da IA em Nova Délhi – Foto: reprodução

Busca pela superinteligência artificial esconde interesses, brigas, riscos e muita cortina de fumaça

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Na quinta passada, durante a Cúpula de Impacto da IA em Nova Délhi, Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, se recusaram a dar as mãos para uma foto em grupo, ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Seria uma bobagem, se eles não liderassem as empresas criadoras do ChatGPT e do Claude, duas das principais plataformas de IA do mundo.

O gesto explicita a corrida insana pela superinteligência artificial, um cenário hipotético em que as máquinas teriam ampla autonomia operacional e seriam melhores que os seres humanos em quase todas as tarefas cognitivas. Quem chegar lá primeiro assumirá uma inigualável liderança econômica e política. Mas há sérios riscos que não podem ser ignorados nesse desenvolvimento.

De certa forma, essa concorrência desmedida contraria o que diz o documento final da cúpula indiana, que prega que “a promessa da IA só se realiza plenamente quando seus benefícios são compartilhados por toda a humanidade”. Mas vozes dissonantes nas próprias organizações afirmam que, para vencer essa disputa, empresas e governos estão perigosamente abandonando a ética e a segurança.

Isso vem provocando reações. Mustafa Suleyman, CEO da unidade de IA da Microsoft, fala de uma “superinteligência humanista”. Enquanto isso, mais de 135 mil pessoas, incluindo alguns dos principais pesquisadores da IA do mundo, como Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio, já assinaram uma declaração que propõe o fim dessa corrida. No Brasil, o manifesto ContAIn Now sugere financiar uma infraestrutura de governança que torne a contenção da IA mais rentável do que a imprudência.

Como diz o ditado, “onde há fumaça, há fogo”. O encontro na Índia deixou claro os descomunais interesses econômicos e políticos, os conflitos, as possibilidades e os riscos em torno da IA. Diante de tudo isso, não podemos ser ingênuos ou catastrofistas se quisermos buscar soluções verdadeiramente sustentáveis.


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A existência da Anthropic é fruto desse desconforto. Ela nasceu de uma dissidência da OpenAI, quando Amodei e outros pesquisadores deixaram a empresa por discordarem do ritmo acelerado de comercialização e da suposta redução de foco na segurança. Foi um “racha” que marcou o início de uma divisão profunda na indústria entre quem quer avançar a qualquer custo e quem se preocupa com as consequências.

A Cúpula na Índia tentou vender a agenda de “Pessoas, Planeta, Progresso”. Mas, nos corredores, um intenso debate opunha as intenções de acelerar ou conter o desenvolvimento da IA, expandir sua capacidade ou estruturar limites. A promessa de democratização da tecnologia muitas vezes serviu apenas como “verniz diplomático” para esconder a tensão sobre quem deve, de fato, ditar as regras e conter os riscos.

A geopolítica permeou cada painel. A Índia buscou assumir a liderança do Sul Global na tecnologia, enquanto os EUA tratam a IA como uma corrida decisiva contra a China, afrouxando regras e ameaçando retaliar países que a regulem demais. A Europa, por sua vez, continua insistindo em marcos rígidos e o Brasil defendeu o multilateralismo e o desenvolvimento inclusivo.

Esses projetos colidem na prática. É inevitável questionar, portanto, se existe um ponto de convergência real ou se estamos apenas empilhando discursos bonitos sobre estruturas de poder que continuam profundamente autocentradas.

A corrida pela superinteligência é a versão atual da “tragédia dos comuns”. Ninguém tem incentivo para desacelerar sozinho. Mesmo quando as big techs admitem publicamente os perigos, elas continuam investindo bilhões para não perderem mercado, temendo que cautela se torne oportunidade de domínio do concorrente.

 

Marketing ou tecnologia humanista?

Suleyman propõe abrir mão de parte da capacidade para garantir o controle humano da IA. A ideia tem mérito ao reconhecer limites, mas também cumpre uma função estratégica, legitimando a Microsoft na corrida, ao afirmar que é possível ser rápido e também prudente, ainda que essa equação nunca tenha sido simples na tecnologia.

Pyr Marcondes, autor do ContAIn Now, reconhece que Suleyman é um dos pensadores mais sérios do setor, mas não poupa críticas a essa ideia. “Só o capital pode deter o capital e só a IA pode deter a IA”, afirma.

O movimento propõe uma via pragmática em que a governança seja estrutural e financeira. A ideia é construir um ecossistema que transforme o cumprimento de normas de segurança e auditoria em um mercado rentável, semelhante ao que ocorreu com a conformidade ambiental. “A solução não é convencer pessoas a serem mais responsáveis, e sim construir sistemas em que a responsabilidade seja economicamente recompensada e a irresponsabilidade seja penalizada”, acrescenta.

Não seria a primeira vez que veríamos conceitos éticos serem reduzidos a slogans. “IA ética” tornou-se peça de marketing e “IA responsável” criou departamentos de conformidade com pouco poder. Agora, “humanista” corre o risco de ser a nova camada retórica aplicada à superinteligência artificial.

Quando um executivo fala em “humanismo” sem definir como será feita a auditoria ou quem será responsabilizado por falhas, pode estar simplesmente “comprando tempo” para consolidar sua posição. Sem critérios técnicos que permitam aos humanos entender a lógica interna dos algoritmos (a chamada interpretabilidade), a promessa de controle continua sendo uma fronteira nebulosa e perigosa.

Dizer que “estamos à beira da extinção” simplifica demais um problema complexo, assim como acreditar que “o mercado resolverá tudo de forma espontânea” é uma ingenuidade grotesca. Talvez o ponto mais honesto dessa discussão seja assumir que os próprios desenvolvedores admitem que não possuem garantias totais de controle sobre o que estão criando, mas a inércia competitiva os impede de pisar no freio.

A questão central para o nosso futuro não é se a inteligência artificial será transformadora, pois essa transição já ocorreu e molda o nosso presente. O verdadeiro desafio civilizacional é se conseguiremos construir, com a mesma agilidade com que expandimos a capacidade das máquinas, uma arquitetura política e econômica capaz de sustentá-la com ética e dignidade humana.

Esse desafio só poderá ser superado nos parlamentos, nas empresas, nas universidades e nas ruas, pelos mesmos humanos que a superinteligência artificial promete superar.

 

Jared Horvath no Senado americano: “nossos filhos são cognitivamente menos capazes do que nós éramos na idade deles” – Foto: reprodução

Afirmar que a Geração Z é menos inteligente que as anteriores embute uma perigosa generalização

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No dia 15 de janeiro, o neurocientista Jared Horvath declarou no Senado americano que “nossos filhos são cognitivamente menos capazes do que nós éramos na idade deles”. Talvez pela sua contundência e por um estilo um tanto performático, a frase inundou as redes sociais, atropelando o debate acadêmico e sendo ampliada para afirmações mais alarmistas, como a de que “a Geração Z seria a primeira geração menos inteligente do que a anterior”.

Os senadores americanos investigam o impacto da tecnologia no desenvolvimento cognitivo e bem-estar de crianças e adolescentes. Horvath defende firmemente que a tecnologia digital prejudica o aprendizado nas escolas. Mas ele mesmo explica que isso não pode ser confundido com menos inteligência.

Como pesquisador, defendo a tecnologia como uma ferramenta capaz de ampliar nossa capacidade de pensar, mas isso só acontece se for conscientemente usada com esse propósito, o que acontece pouco. Ao mesmo tempo, apoio a restrição de telas na escola a atividades estritamente acadêmicas e sob orientação de professores.

O problema se agrava quando os jovens usam esses recursos fora da escola, pois normalmente fazem isso sem orientação e até supervisão de um adulto capacitado. Isso conversa com as recentes proibições de redes sociais a crianças e adolescentes na Austrália e na França, movimento que pode ser replicado na Espanha, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido. No Brasil, o ECA Digital começa a valer no dia 18 de março, restringindo o uso de redes sociais por menores, mas sem barrar as plataformas.

Dizer simplesmente que os jovens são menos inteligentes que seus pais é como fogo em mato seco nas redes sociais. Mas essa informação, além de imprecisa, contamina um debate já muito polarizado entre pais, educadores e as big techs. Não se podem negar os gravíssimos impactos do meio digital em crianças e adolescentes, que vão muito além da educação, mas soluções eficientes exigem equilíbrio e racionalidade.


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Há sinais de transformação nas capacidades cognitivas por mudanças educacionais, culturais e tecnológicas. Mas transformar esse fenômeno complexo em um diagnóstico simplista empobrece o debate e obscurece a questão central de como lidar com uma geração que pensa de forma diferente, sem confundir mudança com decadência.

O ponto de partida é o chamado “Efeito Flynn”. O pesquisador americano James Flynn identificou, ao longo do século XX, um aumento consistente de três pontos por década nos resultados de testes de QI em diversos países. Isso foi associado a melhorias em nutrição, escolarização, saúde e ambiente cognitivo, e não a uma evolução biológica. Essas mudanças favoreceram, portanto, certas habilidades medidas pelos testes.

Porém, a partir da década de 1990, pesquisadores começaram a observar uma estagnação nesse crescimento e, em alguns aspectos, uma queda, o que foi chamado de “Efeito Flynn Reverso”. Novamente, a causa não seria biológica, e sim transformações educacionais, hábitos culturais e padrões de leitura.

É preciso entender que testes de QI não medem inteligência. Se medissem e se esses índices cresceram três pontos por década, isso indicaria que a população dos anos 1900 seria composta majoritariamente por indivíduos com deficiência intelectual, enquanto hoje seríamos todos gênios, o que não é verdade em nenhum dos dois casos.

Vale notar também que pesquisas indicam que o desempenho dos adolescentes atuais em testes altamente visuais e externamente guiados continua crescendo, mas diminui nos que dependem de linguagem, memória e manipulação mental sem apoio visual. Isso sugere uma dependência crescente desses estímulos.

O próprio Flynn defendia que eventuais altas e quedas seriam explicadas por fatores ambientais complexos, e não por um único elemento. Para ele, as pessoas melhoravam nos testes porque estavam sujeitas a mais escolarização, pensamento abstrato e tecnologias simbólicas, que “treinam” o que os testes cobram. Por isso, afirmava que diferentes épocas produzem diferentes perfis cognitivos, adaptados às ferramentas e problemas predominantes no momento.

Há evidências crescentes de que os mais jovens apresentam dificuldade em leitura profunda e compreensão, fluência verbal, atenção sustentada, resiliência e raciocínio numérico e verbal. Por outro lado, destacam-se em proficiência tecnológica, multitarefa, criatividade, empreendedorismo, aprendizado contínuo e raciocínio espacial.

 

Como e o que aprendemos

Há uma forte correlação entre esses ganhos e essas perdas e o uso de recursos digitais pelos mais jovens. Isso sugere que a tecnologia impacta não a nossa inteligência, mas como e o que aprendemos.

Redes sociais não são criadas para informar ou educar. O objetivo das big techs é manter o público engajado, aumentando seus lucros. Isso normalmente é feito com estímulos que privilegiam a superficialidade e o imediatismo, com microdoses contínuas de dopamina. Os smartphones surgem como aliados perfeitos, pois entregam esses estímulos a qualquer hora e em qualquer lugar, de uma maneira muito mais sedutora que a escola.

Agora, o uso inadequado da inteligência artificial pode empobrecer processos mentais, quando ela substitui etapas de reflexão, investigação e verificação, por não apenas fornecer dados, mas organizar argumentos, produzir sínteses e concluir. Novamente, o risco não é “ficar menos inteligente”, mas deixar de exercitar competências essenciais, como formulação de hipóteses e pensamento crítico.

“Em vez de determinarmos o que queremos que nossos filhos façam e direcionarmos a educação para isso, estamos redefinindo a educação para que ela se adapte melhor à ferramenta”, disse Horvath aos senadores. “Isso não é progresso, é rendição”, decretou.

Apesar do debate em torno dos mais jovens, tudo isso se aplica a pessoas de qualquer idade. A imersão digital é inevitável, e talvez aí resida o grande desafio. Os adultos não conseguem resistir à sua sedução, mesmo quando é nociva. Assim, fracassam em orientar os mais jovens para que usem a tecnologia para que aprendam mais e pensem melhor.

Nossa inteligência sempre evoluiu com ferramentas. Temos que garantir que as tecnologias digitais não nos escravizem pelos interesses de magnatas do Vale do Silício. Pelo contrário, devem ampliar nossas capacidades cognitivas. Mas só teremos sucesso com seriedade no debate, ações construtivas e responsabilização de todos.

 

Matt Schlicht, CEO da startup Octane AI e criador do Moltbook - Foto: reprodução

Rede social sem humanos expõe medos e desconhecimento sobre a IA

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Nos últimos dias, grandes veículos de comunicação e a Internet foram tomados pelo frenesi em torno do Moltbook, uma rede social com a inusitada característica de que apenas agentes de inteligência artificial participam, enquanto os humanos podem, no máximo, se tornar voyeurs do que os robôs lá publicam. Porém, a maioria do que as pessoas estão dizendo sobre esse caso demonstra o quanto ainda entendemos pouco da IA e como nossos medos desse desconhecimento podem capturar nossa atenção.

Os mais apocalípticos veem nessa improvável plataforma o “despertar das máquinas” que em breve nos exterminarão, enquanto outras pessoas a desdenham como um modismo desimportante. Há ainda aqueles que acham genial essa invenção de Matt Schlicht, CEO da startup Octane AI. O fato é que cada um vê nela aquilo que deseja. Mas essa pode ser uma interessante oportunidade de aprendizagem para nós.

Se você ainda não sabe do que se trata, o Moltbook é uma rede social lançada em 28 de janeiro em que apenas agentes de IA podem publicar e interagir. Pessoas limitam-se a ler o que as máquinas fizerem. Neste momento, há 1,8 milhão desses sistemas cadastrados nela, que já criaram mais de 300 mil posts e 12 milhões de comentários.

Independentemente do que seja palpável ou apenas fumaça, o fenômeno do Moltbook deveria servir para que aprendamos mais sobre o funcionamento, limites e possibilidades da inteligência artificial. Não para nos protegermos de uma improvável “revolta dos robôs”, mas para entendermos que, ao entregarmos crescentemente informações a sistemas que não compreendemos e ao delegarmos a eles decisões sofisticadas e prosaicas, abrimos mão do mais nobre de nossa humanidade.

Isso pode nos causar um prejuízo irreparável, não porque as máquinas sejam maquiavélicas, mas porque estamos nos tornando displicentes. Ao longo de milhões de anos, assumimos o controle do planeta ao raciocinarmos e decidirmos. Agora, a despeito de sua inegável capacidade, entregamos, por preguiça, insegurança ou ganância, esse nosso diferencial a máquinas estatísticas que apenas parecem inteligentes.


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O Moltbook foi concebido, em tese, como um ambiente experimental para observar como sistemas de IA se comportam e aprendem quando passam a conversar diretamente uns com os outros, sem participação de humanos. Essa é uma ideia atraente, porém largamente falha e até perigosa.

Qualquer pessoa que domine a tecnologia consegue burlar sua premissa básica e criar um agente de IA para atuar como um boneco de ventríloquo travestido de robô. Dessa forma, pode “contaminar” as discussões na plataforma com sua humanidade, por pura diversão ou para satisfazer alguma agenda. Segundo um levantamento da empresa de cibersegurança Wiz, cerca de 17 mil pessoas já se “infiltraram” no Moltbook.

A mesma empresa descobriu que o banco de dados da plataforma possuía falhas de segurança, permitindo que qualquer um pudesse ler e gravar nele. Era possível ainda acessar dados confidenciais, incluindo chaves de agentes, mensagens privadas e até credenciais completas para outros serviços, como os da OpenAI.

Além disso, dependendo de como foram criados, agentes de IA podem acessar arquivos, senhas e serviços online de pessoas e empresas. Se um deles maliciosamente introduzir instruções em uma postagem, elas podem ser executadas automaticamente por potencialmente milhões de agentes com acessos privilegiados.

O grande risco é que criamos agentes de IA que pensam, decidem e agem como nós e em nosso nome, inclusive com acesso a recursos sensíveis e poderosos. Se não cuidarmos bem desses valorosos assistentes, eles podem ser manipulados para ações muito destrutivas. E não estamos fazendo isso direito.

É como mandar uma criança com a chave do cofre a um covil de ladrões.

 

“Mas isto fala!”

Ao testar o telefone de Graham Bell na Exposição da Filadélfia em 1876, D. Pedro II teria exclamado “mas isto fala!” Diante do seu espanto, o imperador brasileiro determinou que a invenção chegasse por aqui no ano seguinte, fazendo do Brasil o segundo país do mundo a ter telefones, depois dos EUA.

Hoje todos sabem que quem “fala” não é o telefone, e sim o interlocutor do outro lado da linha. Mas ainda fantasiamos sobre o funcionamento da IA. E isso acontece porque ela “fala”, parece saber tudo e até simula sentimentos convincentemente.

Ainda em fevereiro de 2024, escrevi um artigo em que sugeri que “o mais espantoso na IA não é o que ela nos diz, mas ela conseguir falar”. De fato, a boa comunicação oferece um poder imenso a qualquer um (ou qualquer coisa). A civilização foi criada sobre a linguagem e depende dela para tudo. Assim, como os gatos domésticos não a dominam, eles dependem de nós para carinho, comida e uma caixa de areia limpa.

O ChatGPT mostrou ao mundo que a IA pode se comunicar tão bem e até melhor que nós. Se delegamos cada vez mais decisões, até as simplórias, a essas plataformas, elas passarão a interpretar o mundo em nosso lugar, e poderemos acreditar nelas, por mais erradas que estejam. É por isso que obviamente devemos usar o incrível poder dessa tecnologia em nosso favor, mas a decisão final sempre deve ser nossa.

Sistemas que aprendem com sistemas aceleram padrões, bons e ruins. Isso levanta questões sobre alinhamento, opacidade e auditabilidade. Quando agentes de IA passam a “conversar” em escala e sem controle, o risco é que passem a operar segundo lógicas que nós já não conseguimos acompanhar ou explicar.

A corrida das big techs pela “IA geral”, quando robôs agirão sem depender de nós e com uma capacidade muito superior à nossa, funciona como uma cortina de fumaça para problemas mais urgentes, como governança, transparência e responsabilização. O mérito do Moltbook é nos fazer pensar que o verdadeiro risco não é uma “revolução das máquinas”, mas a automação opaca a que essas empresas nos submetem.

Assim, ele é menos revolucionário tecnicamente e mais significativo culturalmente. O que devemos questionar não é se as máquinas vão nos substituir, e sim que versão de nós mesmos estamos construindo ao delegar cada vez mais nossas vidas a elas.

 

Governos de vários países tentam restringir celulares e redes sociais a crianças e adolescentes – Foto: Pixabay/Creative Commons

Após proibição dos celulares nas escolas, uso de redes sociais e da IA por jovens exige atenção

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No início do ano letivo de 2025, a grande novidade foi a proibição de celulares nas escolas mesmo em intervalos. Agora, com as aulas deste ano prestes a começar, cresce a preocupação sobre a influência das redes sociais e até da inteligência artificial na formação dos mais jovens.

A discussão floresce em vários países. A Austrália baniu, em dezembro, as redes sociais para menores de 16 anos em qualquer ambiente, depois de um longo debate. Leis semelhantes estão sendo discutidas na França, Dinamarca, Reino Unido e Nova Zelândia.

No caso da IA, o think tank americano Centro para Educação Universal da Brookings Institution acaba de divulgar um estudo que indica que os riscos do uso da IA na educação de crianças e jovens superam seus benefícios. Segundo ele, a dependência excessiva dessa tecnologia pode afetar a capacidade dos estudantes de aprender, seu bem-estar social e emocional, suas relações de confiança com professores e colegas, bem como sua segurança e privacidade.

No Brasil, o Insper e a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), duas das principais faculdades particulares do país, começaram 2026 proibindo dispositivos eletrônicos nas aulas de graduação, exceto em atividades acadêmicas. Na primeira, notebooks e tablets ainda são tolerados; na ESPM, nem isso. A justificativa é a grande queda no aprendizado devido à distração causada por esses aparelhos.

Essas iniciativas indicam sociedades incapazes de enfrentar os evidentes problemas que as tecnologias digitais criam na formação dos mais jovens. Mas esses recursos digitais continuam vitimando crianças e adolescentes fora da escola. Diante de uma cínica falta de colaboração das empresas que criam essas plataformas, as restrições acabam sendo necessárias, pois o problema continua existindo em qualquer tela.


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Na França, a Assembleia Nacional aprovou, no dia 26, a proibição das redes sociais para menores de 15 anos. O projeto está agora no Senado e, se aprovado, deve entrar em vigor até 1º de setembro, início do ano letivo no país.

“O cérebro de nossas crianças e de nossos adolescentes não está à venda”, disse o presidente francês, Emmanuel Macron. “As suas emoções não devem ser manipuladas, nem por plataformas americanas, nem por algoritmos chineses”, concluiu.

O estudo da Brookings Institution reconhece que a IA pode ser uma poderosa ferramenta de apoio pedagógico, auxiliando na alfabetização, na aquisição de novos idiomas e no desenvolvimento da escrita. Pode ainda promover a inclusão de alunos com dificuldades e de populações excluídas do ensino formal, enquanto otimiza a rotina docente. Ao automatizar tarefas burocráticas e a criação de materiais, a IA permite que os professores se concentrem na interação direta com os estudantes.

Em contrapartida, o uso excessivo da IA ameaça o desenvolvimento cognitivo, causando uma “atrofia mental”, caso os alunos terceirizem o pensamento crítico e a resolução de problemas para a máquina. A natureza bajuladora dos chatbots prejudica a capacidade de lidar com divergências e reduz a empatia, essencial nas relações humanas. Além disso, o estudo alerta para o risco de ampliação das desigualdades, pois modelos gratuitos são menos precisos, o que levanta preocupações graves sobre a saúde mental e o isolamento social de jovens que buscam companhia em algoritmos.

Segundo o levantamento TIC Educação 2024, divulgado em outubro pelo Cetic.br, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, 70% dos estudantes do Ensino Médio usam a IA generativa no país, 37% se incluirmos os do Ensino Fundamental. Mas apenas 32% dos alunos do Ensino Médio receberam orientação dos professores sobre como usá-la em atividades escolares, com o índice desabando para 19% se considerarmos também o Ensino Fundamental.

 

O avanço das big techs

As empresas de tecnologia estão de olho na educação. A edição 2025 do estudo “Nossa vida com IA”, divulgado no dia 14 pelo Google e pela consultoria Ipsos, indicou que 72% dos brasileiros (de todas as idades) usam a IA para aprender, com 75% vendo impacto positivo na educação e 73% afirmando que ela melhora o aprendizado.

Em julho, a OpenAI, a Microsoft e a Anthropic anunciaram um investimento de US$ 23 milhões para levar mais IA ao Ensino Básico nos EUA. Obviamente isso não foi movido só por boas intenções. Elas são donas de algumas das maiores plataformas de IA, e querem que sejam muito usadas desde os primeiros anos escolares, o que potencializa os benefícios e os riscos já citados. Por isso, muitos professores americanos resistem a uma adoção massificada.

No fim do ano passado, a OpenAI lançou o “Modo de Estudo” do ChatGPT, com o objetivo de criar um ambiente em que a IA atua como um tutor, incentivando a reflexão em vez de fornecer respostas prontas. Mas, apesar de interessante, especialistas criticam o recurso por não distinguir informações corretas de erradas.

A sociedade precisa se organizar para melhorar o uso não só da IA, mas das diferentes tecnologias digitais na sala de aula. Essa integração deve ter regras claras e foco no desenvolvimento humano, não apenas na execução de tarefas. As práticas escolares devem ser repensadas para valorizar curiosidade e engajamento, e é preciso treinar professores e alunos em alfabetização digital. No caso de IA, as ferramentas devem ser menos “bajuladoras”, desafiando os estudantes a pensar criticamente.

Precisamos de políticas públicas e regulamentações que protejam a saúde cognitiva, emocional e a privacidade das crianças e dos adolescentes. Governos, educadores e pais devem assegurar que essas tecnologias digitais não amplifiquem desigualdades.

A digitalização da sociedade é irreversível, mas isso não quer dizer que ela deva acontecer de maneira descuidada, especialmente com crianças e adolescentes. Dentro da sala de aula, ela jamais pode substituir os professores, devendo estar subordinada aos educadores, que precisam ser envolvidos na busca por soluções.

Fora da escola, os pais têm um papel decisivo para apoiar um uso seguro e construtivo dos serviços digitais por seus filhos. É uma tarefa ingrata, pois eles mesmos são vítimas dos abusos nessas plataformas. Infelizmente, as big techs dão repetidas mostras de não estar interessadas em fazer movimentos necessários para soluções sustentáveis e eficientes se isso ameaçar seus ganhos bilionários.