O presidente russo, Vladimir Putin, discursou em um estádio lotado de apoiadores na sexta sobre sua visão do que é certo e verdadeiro

O nosso papel na guerra de Putin e na Terra Plana

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Nessa sexta, o presidente russo, Vladimir Putin, discursou em um Estádio Lujniki lotado de apoiadores, em comemoração ao oitavo aniversário da anexação da Crimeia pela Rússia. Muitos se perguntam indignados como ele consegue encher o palco da final da Copa do Mundo de 2018 com um discurso ultranacionalista, enquanto o mundo assiste aterrorizado à destruição da Ucrânia.

Cada um de nós participa um pouco dessa resposta. Ela contém os mesmos elementos que fazem com que parcelas significativas da população sejam contrárias a vacinas e até mesmo acreditem que a Terra seja plana.

Os que se sentem ultrajados com o “sucesso” de Putin zombam dos terraplanistas sem perceber que se trata do mesmo mecanismo de distorção da realidade e sem fazer nada para combatê-lo. E aí reside um dos grandes riscos atuais para a humanidade.


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Putin falou da guerra na Ucrânia, que ele insiste em chamar de “operação militar especial”, e prometeu que continuará até atingir seus objetivos. Mas escondeu da população o que realmente quer e principalmente que está enfrentando grandes revezes na invasão. Enquanto isso, protestos contra a guerra continuam em várias cidades, inclusive na capital Moscou, resultando em quase 20 mil pessoas já presas. Pode parecer muito, mas a imensa maioria dos russos continua alheia ao que realmente acontece e, assim, apoiam Putin.

Claro que essa é uma situação extrema: uma guerra em que o agressor é uma potência militar, dona do maior arsenal nuclear do mundo. Existe também uma força bruta de manipulação do governo, que asfixia os veículos de comunicação independentes e censura as redes sociais.

Mas a distorção da realidade permeia o nosso cotidiano em coisas aparentemente inofensivas e até divertidas. Muitas vezes, ela começa como uma brincadeira ou uma bravata de um grupo. Mas o meio digital tem o poder de transformar mesmo a mais completa loucura em uma bandeira para muita gente. E aqueles que percebem o problema acabam sendo parte dele, quando não se posicionam adequadamente.

Foi assim que a ideia de que a Terra é plana ficou tão forte. Ela contraria um fato científico fartamente demonstrado e observado. Ainda assim, 2% dos americanos afirmam que a Terra é um disco, enquanto outros 5% não têm certeza do formato.

No Brasil, a situação é ainda mais dramática: em 2019, 7% dos brasileiros afirmavam que a Terra era plana, e 3% não tinham certeza. Apenas dois anos depois, uma pesquisa do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação constatou que os terraplanistas brasileiros haviam saltado para 22,2% da população, quase 50 milhões de pessoas!

A despeito da histórica baixa qualidade de educação brasileira, não se pode creditar apenas a ela essa aberração social, mesmo porque muitos terraplanistas cursaram faculdades. O ser humano tem uma tendência a acreditar e apoiar aquilo que mais lhe convier, mesmo que seja uma estupidez. Mas, de uns anos para cá, observa-se o uso das redes sociais para legitimar qualquer ideia, com grande apoio popular. Entre elas, estão racismo, homofobia e machismo.

 

O poder do “based”

Qualquer um pode lançar uma dessas teorias nas redes. Quanto mais alicerçadas em fortes convicções, preferencialmente se se contrapuserem ao pensamento dominante científico, progressista e politicamente correto, mais chance de atingirem sucesso. Criou-se até um gíria para definir essa capacidade de defender cegamente uma ideia, sem se preocupar com o que outras pessoas pensarão: “based”, que não é traduzida nem em publicações em português.

Essa postura ficou muito popular entre jovens em comunidades online e se espalhou para diversos temas. O domínio da linguagem e das plataformas digitais promoveu essas pessoas, que se apresentam como “genuínas” e que falam sem medo aquilo que consideram certo, ignorando quem pense de maneira divergente. Disso vem o combustível do terraplanismo e movimentos contrários a vacinas. E muitos políticos perceberam o incrível poder de convencimento e adotaram uma postura “based”.

Outro estudo de 2021 detalhou muito bem como uma sociedade pode tomar decisões que coloquem em risco sua sobrevivência, citando, como exemplo, a resistência às vacinas. Organizado pelo Instituto Alan Turing, órgão de ciência de dados e inteligência artificial do Reino Unido, explica o ataque deliberado à capacidade de se adquirir conhecimento. Para a líder do estudo, Elizabeth Seger, da Universidade de Cambridge, “mesmo que estivesse claro como salvar o mundo, um ecossistema de informações degradado e não confiável poderia impedir que isso acontecesse”.

Segundo a pesquisa, existem quatro principais ameaças nesse cenário, e nenhuma delas acontece ao acaso. A primeira são pessoas que atrapalham as tomadas de decisão, usando a desinformação. E nisso algumas pessoas agem de maneira consciente, enquanto outras espalham mentiras de forma inocente. Há ainda o excesso de informação a que somos submetidos, que sobrecarrega nossa capacidade limitada de concentração, dificultando separar verdades de mentiras. As pessoas também se acostumaram a rejeitar informações que desafiam seus pontos de vista, particularmente se houver uma forte identidade no grupo, criando o que os pesquisadores chamaram de “racionalidade limitada”. E, por fim, as redes sociais tornaram mais difícil avaliar a confiabilidade das fontes.

Em outras palavras, quando não sabemos em quem confiar, confiamos naquilo que nos mostra o mundo como gostaríamos que fosse. E isso nos leva a outro termo dessas comunidades: “red pill”, uma referência ao filme “Matrix” (1999), que desnudava, a quem a tomasse, o mundo como ele realmente era, e não como o “sistema” mostrava. Isso esconde uma incrível ironia, pois os autodenominados “redpillados” querem forçar um mundo como gostariam que fosse, e não a realidade.

Não se pode deixar de relacionar tudo isso com aquele que deve ser um dos temas mais quentes dessa semana: as consequências do pedido de bloqueio do Telegram pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que acabou caindo nesse domingo, depois que o aplicativo resolveu acatar os pedidos da Justiça. Por sua política de tradicionalmente não interferir nas conversas de seus usuários e de não colaborar com autoridades, a plataforma se transformou no destino preferido de pessoas adeptas a teorias da conspiração e crimes, apesar de obviamente a imensa maioria de seus usuários ser composta de pessoas decentes.

A motivação da corte é combater a desinformação, que pode causar enormes danos ao Brasil, especialmente em um ano eleitoral. Mas combater as fake news, apesar de necessário, é apenas cuidar do sintoma, deixando a causa intocada. Enquanto novas pessoas forem aliciadas para as colunas das realidades distorcidas, sempre haverá novas formas para retroalimentar suas teorias e se atingir os mais nefastos objetivos.

E que fique claro: essas pessoas não são “um bando de ignorantes” ou “palhaços inofensivos”. Muito menos são inimigos! Não devem ser ridicularizados e, em hipótese alguma, desprezados. Precisam ser trazidas para o debate para que lhes seja explicado, com termos que entendam e analisando seus valores, por que aquelas ideias são nocivas para a sociedade e como aquilo lhes prejudicará a longo prazo.

E isso é algo que todos nós podemos e devemos fazer.

Pode parecer uma tarefa inglória, que exige uma energia e uma paciência quase infinitas. Mas não se pode desistir, pois a vitória desses grupos significaria a ruína da civilização. E, se serve de modelo, pode-se olhar para a Alemanha, berço do nazismo e hoje um país que combate fortemente aqueles valores, que nas décadas de 1930 e 1940 foram abraçados pela população: tudo em nome de um líder “based”.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta: e-mails vazados da empresa propunham aceitar ações violentas contra russos durante a guerra

Como seria nossa vida sem as redes sociais

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Não é exagero afirmar que as redes sociais estão entre os produtos de maior sucesso da história. Poucas criações foram usadas por tanta gente, ocupando um espaço tão relevante em suas vidas. O que aconteceria então se, de repente, essas plataformas digitais fossem sumariamente tiradas de nós?

De certa forma, é o que os russos estão descobrindo agora. A combinação da censura imposta por Vladimir Putin com o posicionamento das próprias empresas contra a guerra na Ucrânia está bloqueando parcial ou completamente o acesso a redes no país. Por exemplo, desde esta segunda, a Rússia restringe o acesso ao Instagram, como já vem fazendo com o Facebook e com o Twitter há dez dias.

A guerra não acontece apenas no campo de batalha. Mas agora, os mecanismos para o domínio da narrativa, que sempre foram importantes em qualquer conflito, afetam diretamente o cotidiano digital de pessoas e empresas.


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Uma polêmica decisão da Meta, empresa dona do Facebook, jogou lenha nessa fogueira: e-mails internos vazados na semana passada indicavam que a companhia decidiu permitir que usuários em alguns países, incluindo Ucrânia e a própria Rússia, defendam atos de violência contra russos no contexto da guerra. Contrariando suas próprias políticas também aceitará temporariamente publicações que defendam a morte do presidente da Rússia, Vladimir Putin, ou de Belarus, Alexander Lukashenko.

A Meta não comentou o assunto até o momento.

Isso fez o Kremlin classificar a empresa como uma “organização extremista”, bloqueando o Instagram. Facebook e Twitter já vinham sendo restritos desde o dia 4, por estarem limitando o acesso a veículos de comunicação governamentais russos, além de marcar alguns de seus conteúdos como “fake news”.

Outras redes digitais, como o YouTube, estão impedindo que canais que apoiem Putin possam ganhar dinheiro com suas publicações nessas plataformas. O TikTok, por sua vez, está proibindo que usuários na Rússia façam publicações, pois o governo ameaça com prisões de até 15 anos a quem publicar conteúdo que o Kremlin considere como falsas. Ainda assim, YouTube e TikTok continuam acessíveis na Rússia até agora.

É incrível ver como o poder dessas empresas chega a rivalizar com o de governos, inclusive o da maior nação do mundo, dono do principal arsenal nuclear do planeta. E quem lhes garante isso somos nós mesmos, com nosso uso incessante de seus produtos, que supostamente deixam nossas vidas mais divertidas e mais fáceis. De fato, muitos profissionais e empresas dependem hoje umbilicalmente desses recursos para a manutenção de seus negócios.

Não é pouca coisa: segundo o relatório Digital 2022 Global Overview, publicada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, o mundo terminou 2021 com 4,62 bilhões de usuários de redes sociais, que ficam, em média, 2 horas e 27 minutos nessas plataformas todos os dias. No Brasil, usamos ainda mais: 3 horas e 41 minutos em média!

Vale notar que a Internet russa sempre foi bastante livre, apesar do caráter autoritário de Putin. Isso é muito diferente do que se vê em uma de suas principais aliadas: a China. Lá o governo sempre controlou a rede com mão de ferro. Tanto que as grandes plataformas digitais sempre foram restritas no país. Os chineses têm que se contentar com produtos locais, que são censurados e adaptados à sua cultura.

Portanto, cabe uma pergunta: e se o Brasil, de repente, banisse o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, o Twitter, o YouTube e o Google, como ficaria sua vida?

 

Censura ou proteção?

O WhatsApp já foi bloqueado quatro vezes no Brasil, por determinação da Justiça: duas em 2015 e duas em 2016. De lá para cá, o relacionamento da Meta com a Justiça brasileira melhorou. Hoje ela faz parte de um acordo contra a desinformação, especialmente em um cenário eleitoral, uma iniciativa que também conta com outras empresas, como Google, Twitter e TikTok.

Desde o ano passado, o Telegram está sob os holofotes por se recusar a colaborar nesse sentido, o que o deixa em risco de ser bloqueado no Brasil. Com sua política de não interferir nas publicações de seus usuários, tornou-se a principal ferramenta de desinformação no mundo. Assim muita gente ficou surpresa quando a plataforma suspendeu a conta do blogueiro Allan dos Santos no último dia 26, atendendo a pedido do STF (Supremo Tribunal Federal) no seu combate às fake news.

Muitos questionam qual a diferença de um eventual bloqueio do Telegram no Brasil do que se pratica agora na Rússia. Afinal, os mecanismos pareceriam os mesmos, executados pelos poderes centrais de cada país. Mas existe uma diferença essencial: na Rússia, o bloqueio está sendo feito para permitir que o governo continue disseminando sua desinformação; aqui, o bloqueio aconteceria para justamente evitar a desinformação.

A legislação brasileira oferece bons recursos para esse combate: precisam apenas ser aplicados. O Marco Civil da Internet é um ótimo exemplo: equilibrado e construído a partir de um debate amplo com a sociedade. Por outro lado, vemos iniciativas para novas leis, que, apesar de bem intencionadas, estão sendo feitas sem o devido debate, deixando brechas que podem levar a censura de conteúdos legítimos que desagradem o governo e à liberação do que lhe interesse, mesmo que ruim. É o caso do Projeto de Lei 2630/2020, conhecido como o “Projeto de Lei das Fake News”.

A “virtualização” de nossas vidas acontece com força desde que a Internet comercial foi lançada, em 1994. A popularização dos smartphones, há uma década, acelerou muito esse processo e a pandemia reforçou isso ainda mais.

No momento de distanciamento social mais severo, no primeiro semestre de 2020, muitas pessoas e muitas empresas só conseguiram continuar operando graças às redes sociais. Apesar da grande dor que isso causou inicialmente, muitas desenvolveram novos e poderosos recursos de relacionamento com seu público. Tanto que hoje, com tudo já reaberto, continuam com essas boas práticas.

Fica difícil imaginar alguém completamente fora do mundo digital hoje. É possível não se gostar de uma ou outra plataforma, mas sempre existe aquela que combina mais com cada um de nós, trazendo benefícios reais a nossas vidas. Por isso, estar completamente off line, faz de alguém quase um “cidadão de segunda categoria”, pelos recursos que deixa de usufruir.

Temos que usar o que essas plataformas nos oferecem, e ficar atentos aos riscos associados a elas. Da mesma forma, temos que cuidar para não abusar dos poderes que elas nos dão, que poderia causar restrições evitáveis por serem transformadas em armas para se atacar os direitos alheios.

As redes sociais são um caminho sem volta! Usemos, então, seus recursos com inteligência.

O negócio agora é matar o mensageiro

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Alguns acontecimentos recentes demonstram que muita gente, diante da incapacidade de resolver problemas ou do simples desejo de manter as coisas como estão, prefere que a verdade não apareça. Esse comportamento reflete um retrocesso social, em que alguns grupos entendem que podem impor sua visão de mundo sem diálogo.

O primeiro foi o endurecimento da censura do governo russo. Veículos de comunicação foram proibidos de trazer notícias sobre a guerra, e o Facebook e o Twitter foram bloqueados na Rússia. Enquanto isso, na Ucrânia, jornalistas ingleses foram baleados por milicianos russos.

Mas se engana quem acha que isso acontece apenas em terras distantes e por causa da guerra. Na quarta, uma equipe da Rede Globo foi agredida por um homem em São Paulo, que os atacou gratuitamente com uma corrente.


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A expressão “não mate o mensageiro” se aplica perfeitamente a tudo isso. Ela vem do provérbio latino “ne nuntium necare”, que teria sido criado a partir do ato intempestivo do rei da Pérsia Dario III, que, em 331 a.C., mandou executar o mensageiro que lhe havia trazido a notícia de que seu exército havia sido derrotado pelo de Alexandre, o Grande. Criou-se um código de honra em que o mensageiro, mesmo enviado pelo inimigo, deveria ser preservado.

Matar o portador de más notícias não faz com que elas desapareçam, mas pode fazer bem ao ego ferido do governante. Além disso, se a informação negativa for silenciada antes que se espalhe, isso pode permitir que ele continue distorcendo a realidade segundo seus interesses.

Trazendo para um contexto atual, “matar o mensageiro” seria silenciar, a qualquer custo, a imprensa livre e, mais recentemente as redes sociais. E é exatamente o que se observa hoje, inclusive nos exemplos citados.

Na sexta, o parlamento russo aprovou leis que, na prática, criminalizam a cobertura da guerra na Ucrânia, com penas de 1 a 15 anos de prisão e interrupção de atividades de veículos. Não é permitido sequer usar os termos “guerra” ou “invasão” ou mencionar o total de civis mortos.

Como consequência, Facebook e Twitter, que vinham restringindo os canais oficiais russos, foram banidos do país. O mesmo deve acontecer com outras redes sociais, cujos usuários mostram os horrores da guerra, até mesmo de dentro da Ucrânia.

A rede britânica BBC, que vinha sendo restrita na Rússia, encerrou suas operações no país para salvaguardar seus profissionais. Ela foi seguida pelas americanas CNN e Bloomberg, a espanhola Efe, a italiana RAI e a canadense CBC. O jornal russo Novaya Gazeta –de Dmitri Muratov, ganhador do Nobel da Paz em 2021– e o canal alemão Deutsche Welle foram bloqueados pelo governo.

Suas coberturas da guerra continuarão normalmente fora da Rússia. Não se sabe como essa censura impactará os movimentos que combatem a guerra no quintal do presidente Vladimir Putin, mas ele já deixou claro que não vai facilitar a vida dos mensageiros.

 

A verdade como inimiga

Que ninguém duvide da disposição de autocratas como Putin de impor seus desejos sobre a verdade. É um movimento semelhante ao visto em ditadores e se transformou em ferramenta de governos autoritários no mundo todo.

A prisão, o fechamento de veículos de comunicação e a violência moral e física –incluindo assassinato– são os mecanismos usados. Mas uma das facetas mais assustadoras é que eles não são aplicados apenas por agentes repressores do Estado. Incentivados por governantes que atacam abertamente a imprensa, muitas pessoas aliadas ideologicamente a eles se investem do “dever” de calar as vozes dissonantes.

Foi o que aconteceu na sexta com uma equipe de cinco pessoas da TV britânica Sky News, cujo carro foi alvejado por uma milícia russa na Ucrânia. Apesar de gritarem que eram jornalistas para que os agressores parassem de atirar, o correspondente Stuart Ramsay foi atingido na parte inferior das costas, enquanto o operador de câmera Richie Mockler levou dois tiros em seu colete à prova de balas.

Aqui no Brasil, o exemplo mais recente aconteceu na quarta passada, quando os repórteres da Rede Globo Renato Biazzi e Ronaldo de Souza foram agredidos enquanto gravavam uma reportagem na região do Brás, em São Paulo. Um homem que segurava um cachorro preso por uma corrente se aproximou dos dois e começou a xingá-los, sem nenhum motivo aparente. Depois atacou os jornalistas com a corrente. Souza foi atingido na mão e terá que fazer uma cirurgia por isso.

A narrativa dominante sempre foi incrivelmente importante para qualquer grupo de poder. Não é à toa que a imprensa é uma das primeiras coisas atacadas por qualquer governo autoritário, seja qual for sua ideologia. Ter o povo a seu lado aumenta o poder de qualquer um. Mas a verdade acaba se sobrepondo em algum momento, por mais eficiente que seja a história.

Por exemplo, quem tem mais de 40 anos talvez se lembre dos “fiscais do Sarney”, cidadãos comuns que, a pedido do então presidente, procuravam estabelecimentos que estariam aumentando seus preços em uma época de congelamento. Alguns chegavam a baixar a porta de lojas, como se tivessem autoridade para isso. Mas todos os malfadados planos econômicos daquele governo terminaram catastroficamente.

De lá para cá, todos os presidentes brasileiros abusaram desse recurso, uns mais, outros menos. E, de 20 anos para cá, tenta-se criar por aqui o controle da imprensa como política de Estado, com eufemismos como “controle social da mídia” ou com agressões explícitas partindo do próprio presidente da República.

É uma pena observar que o poder seja usado para turvar a verdade, com o único objetivo de se ampliar o próprio poder, mesmo às custas de diminuição da qualidade de vida, de sofrimento e até da morte de inocentes. E é ainda mais triste observar como isso eficientemente convence parcelas significativas da população, seja com uma censura marcial, seja com pregações ideológicas.

Quando temos uma sociedade em que cada indivíduo tenta impor suas ideias sobre todos os demais, temos o caos. Por outro lado, quando um grupo usa da força para calar pensamentos diferentes e institucionalizar suas visões de mundo, temos um regime de natureza fascista. Os dois casos não se sustentam a longo prazo e levam a sociedade à ruína. O ditador italiano Benito Mussolini, pai do fascismo, que o diga.

Precisamos da verdade chegando livremente a todos para não rumarmos a esse abismo social. O mensageiro deve ser salvo, para que ela prevaleça.

O desafio de se manter bem informado em tempos de guerra

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Alguém saberia dizer o que fez Vladimir Putin invadir a Ucrânia? Para muitos, a resposta parece óbvia, e pessoas que se informam por veículos de comunicação profissionais e independentes seriam capazes de enumerar vários motivos.

Mas quem pode garantir com certeza o que se passa na cabeça do presidente russo?

Existe uma máxima que diz que, “em uma guerra, a primeira vítima é a verdade”. Afinal, todo mundo recebe necessariamente mais informações de um dos lados do conflito, e elas são filtradas, até mesmo porque nem sempre jornalistas conseguem chegar ao front para apurar melhor os fatos.

Mas o atual conflito na Ucrânia consolidou um novo tipo de guerra, que, ao lado de tanques e aviões no campo de batalha, acontece nas plataformas digitais. Ela foi criada para conquistar corações, mesmo entre os inimigos. E todos nós estamos sendo alvejados por essa artilharia.


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As razões de Putin estariam mais claras se as pessoas recorressem regularmente a um bom jornalismo para se informar, ao invés das redes sociais. Assim como os músculos, o senso crítico precisa ser continuamente exercitado, e nossa mente precisa ser alimentada com boas informações.

Mas muita gente vem sendo convencida que toda imprensa é ruim, restringindo sua “dieta informativa” ao pão mofado servido mas redes sociais, normalmente por seus políticos de estimação. E isso abre caminho para essa guerra digital, que, não por acaso, tem na Rússia seu maior expoente, que busca apoio para qualquer causa ou ideia, mesmo as mais estapafúrdias.

Por exemplo, uma parcela expressiva da sociedade americana defende as ações russas e o próprio ataque à Ucrânia, algo inimaginável poucos anos atrás. Muitos dizem até confiar mais em Putin que no próprio presidente, Joe Biden.

Misturando opinião com fatos distorcidos e mentiras deliberadas, as narrativas de apoio à Rússia se disseminam em plataformas digitais e em parte da mídia dada a teorias da conspiração, muitas “plantadas” por agentes russos. Por exemplo, desde o início da invasão, circula a ideia de que ela seria legítima porque a Otan (a aliança militar do Ocidente) teria violado acordos territoriais com a Rússia, que não existem.

Mas, como toda guerra, a que acontece nas plataformas digitais tem dois lados, e os opositores a Putin também usam esses recursos para se fortalecer, mesmo dentro da “Mãe Rússia”. O mandatário está tendo que enfrentar protestos em diversas cidades russas e em outros países, que pedem pelo fim da invasão. No caso das manifestações em seu próprio país, Putin as reprime com violência e prisões.

Ele quer agora bloquear qualquer visão contrária a sua. No sábado, o órgão de controle das comunicações da Rússia determinou que a imprensa pare de chamar o conflito de “guerra”, “invasão” ou “ofensiva”. O permitido é “operação militar especial em Donbass, destinada a manter a paz”. Também fica proibido dizer que a Rússia ataca cidades ucranianas ou qualquer referência a civis mortos. Quem não cumprir a regra, pode ter o veículo fechado.

O Kremlin também resolveu mostrar os dentes para empresas de tecnologia globais, como Google, Meta e Apple, cruciais nessa batalha. Elas devem se submeter imediatamente a uma nova legislação que dá poder ao governo russo para censurar conteúdos contrários aos seus interesses. As que não concordarem podem ser multadas, seus funcionários podem ser presos e suas operações impedidas no país.

Putin deseja ter o controle da Internet como acontece na ditadura chinesa, em que as empresas devem se submeter aos caprichos do governo, se quiserem operar no maior mercado do mundo. É por isso que lá praticamente não existe Google, Facebook, Instagram, Wikipedia e até Netflix, substituídos por produtos locais censurados.

Fica claro que a verdade está cada vez mais distante das plataformas digitais, restando ao jornalismo profissional encontrá-la onde quer que esteja.

 

“Não me morra!”

A principal ferramenta para isso é a reportagem, principalmente aquela feita no local dos fatos. Em uma guerra, tudo isso fica muito mais complicado, pois o teatro das operações é literalmente mortífero. Por isso, poucos veículos mandaram repórteres para cobrir a guerra na Ucrânia de perto, menos ainda são os que têm pessoal no país. O Estadão, por exemplo, enviou o jornalista Eduardo Gayer, que está na capital Kiev.

Esses jornalistas seguem um caminho aberto por Joel Silveira, primeiro correspondente de guerra brasileiro, enviado à Itália em 1944 para cobrir a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Antes de despachá-lo, seu patrão, Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, fez a seguinte recomendação: “O senhor vai pra guerra, seu Silveira, vai matar alemão! Só lhe peço uma coisa: não me morra, repórter é pra mandar notícia, não é pra morrer!”

É verdade! Nesses dias, vi repórteres brasileiros e de outras nacionalidades mostrando o que está acontecendo na Ucrânia e nos países vizinhos, conversando com pessoas. Apesar de se comoverem com as vítimas da guerra, mantiveram-se firmes em seu trabalho, algo que nenhum “comentarista de rede social” sequer imagina.

Aprendemos que precisamos ouvir diversos lados de um fato para nos aproximarmos da verdade. Essa premissa –uma das bases do bom jornalismo– continua valendo. Mas cada um de nós tem que tomar muito cuidado com esses tipos que crescem nos últimos anos feito ervas daninhas, que manipulam as plataformas digitais e usurpam a liberdade para destruir a própria liberdade.

Não tenho amigos ucranianos ou russos, e muito menos conheço os presidentes Volodimir Zelenski ou Vladimir Putin. Mas, nessa situação absolutamente extrema, podemos sempre nos fiar em valores inegociáveis e imutáveis, como o direito à vida.

Partindo desse princípio, não dá para justificar o ataque militar de grandes proporções que hoje destrói um país e ceifa incontáveis vidas, muito menos em nome de ameaças hipotéticas contas a segurança nacional. Assim, não há dúvida de quem está do lado errado nesse conflito, de quem é o agressor.

Essa guerra já respinga em nós e isso aumentará, não apenas pela subida dos preços de commodities, como petróleo, gás e trigo, mas também pela crescente desinformação, que carcome nossa sociedade, como cupins.

Temos que fazer a nossa parte, combatendo essa última. Não dá para continuar se informando por redes sociais. Elas devem ser usadas principalmente para amenidades e até promoções, coisas para as quais foram criadas. Se, em tempo de paz, devemos buscar a notícia entre aqueles que vão até ela com uma apuração séria e profissional, em tempos de guerra, isso pode se tornar caso de vida ou morte.

Pais que ficam online demais criam filhos com o mesmo problema

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Em nosso mundo hiperconectado, uma queixa comum de muitos pais é que seus filhos ficam tempo demais nos seus celulares e videogames, que estariam “viciados” no digital. Mas pelo menos parte desse problema se deve ao fato de que esses mesmos pais usam a tecnologia de maneira excessiva.

Pesquisa recente da empresa de cibersegurança Kaspersky deixa clara a relação direta entre o tempo de uso de aparelhos digitais pelos pais e por seus filhos. O levantamento ainda aponta que os primeiros têm dificuldade de seguir os limites que eles mesmos determinam aos pequenos.

Mas atire a primeira pedra quem nunca ficou nas redes sociais mais tempo que deveria! O que deve ser entendido é que isso pode causar prejuízos a adultos e crianças, mas que é possível usar o mundo digital sem extrapolar os limites.


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A pesquisa foi realizada no segundo semestre do ano passado, com mais de 11 mil adultos que moram com crianças de 7 a 12 anos. Foram entrevistadas pessoas de 19 países, inclusive do Brasil. O objetivo foi verificar como hábitos digitais dos adultos podem influenciar as crianças e vice-versa.

Dos entrevistados, 60% temem que seus filhos fiquem viciados em jogos, mesma porcentagem dos que se preocupam com privacidade e segurança e como esses equipamentos afetarão mental, física e socialmente os pequenos. Mas contraditoriamente 61% das crianças ganham seus primeiros dispositivos digitais entre 8 e 12 anos, sendo que 11% têm acesso antes de completar 5 anos.

“Muitos pais dão esses aparelhos a seus filhos, mesmo em tenra idade, para que eles ‘fiquem quietos’”, explica Katty Zúñiga, psicóloga integrante do Janus, o Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação da PUC-SP, que explica que, mais importante que palavras, são os comportamentos dos próprios pais. “Não adianta os pais reclamarem que as crianças usam aparelhos eletrônicos durante as refeições, se eles mesmos fazem isso.”

De fato, a pesquisa mostra que, nas famílias cujos pais usam seus celulares enquanto estão à mesa, os filhos ficam 39 minutos online a mais que a média. Em nota, Fabiano Tricarico, diretor de consumo da Kaspersky na América Latina, explica que “a educação infantil deve começar com uma autoavaliação e uma reflexão sobre que tipo de ser humano nós, como pais, queremos formar e o que nós mesmos fazemos para sermos desta forma”. Segundo o executivo, os adultos precisam ver o ambiente digital como uma extensão de nossas vidas, e não como um espaço à parte.

Pelo levantamento global, 61% dos pais acham que nem sempre são um bom modelo em hábitos digitais. Entre os brasileiros, 58% acham difícil serem a inspiração para as crianças. Por exemplo, 72% dos pais de todo mundo relatam que enviam mensagens de texto durante as conversas, mas só 10% aceitam isso em seus filhos. Ainda assim, 95% dos pais dizem pelo menos incentivar comportamentos positivos em sua casa, como não permitir que equipamentos digitais sejam levados para a cama, adotado por 55%. Além disso, 54% dizem estabelecer regras que se aplicam não apenas às crianças, mas a toda a família (47% no Brasil).

Uma de suas conclusões mais importantes é a correlação entre o tempo de uso de dispositivos digitais entre pais e filhos. Os 18% dos pais que usam os aparelhos menos de duas horas por dia inspiram 29% dos filhos a fazer o mesmo. O grupo mais numeroso é o das pessoas que os usam de três a cinco horas por dia, respondendo por 48% dos pais e também dos filhos. Entre os que usam entre seis e oito horas diárias, estão 23% dos pais e 17% dos filhos.

Nada disso chega a ser uma surpresa. Crianças aprendem por imitação e os pais são seus principais modelos. Logo, o comportamento online das crianças deriva do dos adultos.

 

A sedução das redes sociais

Um ponto crucial é, portanto, entender por que os adultos estão ficando tanto online. Mesmo quem trabalha com o meio digital e entende os mecanismos dos algoritmos acaba às vezes “passando do ponto”.

“Quando não controlo racionalmente o que estou fazendo, no impulso eu vou para a rede, e isso me assusta um pouco”, explica Fernanda Nascimento, diretora da agência Stratlab Inteligência Digital. Ela sente que as redes estão ocupando seu tempo livre mais do que gostaria. “Quanto mais a gente consome, mais a gente quer consumir.”

Segundo a edição 2022 da pesquisa Global Digital Report, organizada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social, o brasileiro é um dos povos que fica mais tempo em redes sociais no mundo. São 3 horas e 41 minutos todos os dias, contra uma média global de 2 horas e 27 minutos.

Zúñiga explica que a medida do “excesso” se dá quando estar nas redes sociais começa a atrapalhar outras atividades do cotidiano. Segundo ela, a Internet é sedutora. “As redes sociais foram feitas para estimular a produção de dopamina pelas pessoas, para nos dar prazer”, explica. “É por isso que a gente usa cada vez mais, e pode causar uma dependência se a pessoa não se policiar.”

Nascimento concorda: “Ali eu estou dentro de um espaço que eu conheço. Talvez ele faça sentir algum tipo de segurança que eu não reconheça racionalmente, mas que emocionalmente está instalado.”

Se esse uso excessivo pode ser angustiante para um adulto, nas crianças pode até impactar o seu rendimento escolar. Zúñiga diz que elas podem ainda se tornar irritadas, impacientes e até querer sair menos de casa e interagir com outras crianças de maneira presencial, preferindo fazer isso online.

Ela explica que não adianta simplesmente proibir o uso de recursos digitais pelas crianças, pois elas encontrarão uma maneira de burlar restrições muito estritas. Ao invés disso, os pais devem passar mais tempo com os pequenos, também acompanhando o que eles fazem no mundo digital e mostrando que há opções interessantes fora dele. “Eles devem convidar seus filhos a fazer atividades ao ar livre, ler um livro juntos, coisas que os estimulem a perceber que isso também dá prazer”, explica.

Os próprios adultos devem fazer mais atividades concretas para não perder o controle diante das redes digitais. Zúñiga diz que não adianta simplesmente desligar os aparelhos, pois isso pode resultar em uma sensação de se estar deixando de saber “algo importante”, uma síndrome conhecida pela sigla em inglês FOMO (em português, o “medo de estar perdendo algo”).

Contra isso, a pessoa deve resgatar aquilo que gosta, como trabalhos manuais, caminhar, cozinhar ou praticar esportes, “algo que ela goste de fazer e se sinta imersa naquilo”, explica a psicóloga. “Quando a gente está focado no que gosta, deixa de lado outras coisas, até mesmo a necessidade premente de estar nas redes sociais.”

Nessa semana, Nascimento prestou mais atenção para ficar menos nas redes sociais e conseguiu. “E eu fiquei bem melhor, menos estressada, menos nervosa, menos cansada”, conclui.

 

O escritor e filósofo italiano Umberto Eco, que, em 2015, anteviu como a exposição de opiniões na Internet poderia ameaçar a sociedade

Prestes a atingir 5 bilhões de pessoas, mundo online expõe nossas imperfeições

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Em algum momento ainda nesse trimestre, o mundo deve atingir a incrível marca de 5 bilhões de pessoas conectadas à Internet! Desse total, cerca de 93% acessam redes sociais, que aparecem e somem a toda hora, cada uma delas trazendo novidades e capturando nosso tempo e nossa atenção. Nesse bombardeio cognitivo, batemos em limites de assimilação de nosso cérebro, o que nos leva, às vezes, a comportamentos no mínimo questionáveis.

Os números acima são da recém-lançada edição 2022 da pesquisa Global Digital Report, organizada pelas consultorias Hootsuite e We Are Social. Essa avalanche digital exige que repensemos nossa postura diante dessas plataformas, para que não sejamos engolidos por elas, colocando em risco até mesmo nossa integridade.


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A pesquisa estimou que o mundo terminou 2021 com uma população de 7,91 bilhões de pessoas, das quais 4,95 bilhões (62,5% do total) já estavam online. Para se ter uma ideia desse crescimento, há apenas uma década, éramos 2,18 bilhões de conectados. No Brasil, 77% da população –ou 165,3 milhões– acessam a Internet.

Aliás, o relatório aponta que os brasileiros usam muito o meio digital! O tempo médio diário global na Internet é de 6 horas e 58 minutos, mas, por aqui, ficamos online 10 horas e 19 minutos todos os dias, atrás apenas da África do Sul e das Filipinas. Desse total, as pessoas dedicam, em média no mundo, 2 horas e 27 minutos às redes sociais. Já no Brasil, chegamos a 3 horas e 41 minutos diários nessas plataformas.

Segundo a pesquisa, as pessoas ficam online principalmente para buscar informações (61%), manter contato com familiares e amigos (55%) e ficar atualizado (53%). O celular é a principal forma de conexão: já existem 5,3 bilhões de pessoas que têm algum tipo de celular, mais, portanto, que pessoas online. O tempo médio diário global nesses aparelhos é de 4 horas e 48 minutos, enquanto os brasileiros lideram esse ranking, com uma média de 5 horas e 25 minutos.

De fato, os celulares estão no centro dessa revolução. Por um lado, eles nos oferecem incríveis oportunidades para tornar nossa vida mais fácil, produtiva e divertida, pois nos colocam em contato com o que há de melhor na Internet a todo momento e em qualquer lugar. Por outro, eles nos mantêm permanentemente conectados e atentos a tudo que acontece nessas plataformas, com um volume de notificações muito superior ao necessário e até do que seria saudável.

Essa overdose de informação mantém nosso cérebro continuamente estimulado. Para piorar, muito do que chega até nós é superficial, possui baixa qualidade informativa ou simplesmente é falso ou impreciso. E isso criou uma geração de pessoas acostumada a consumir conteúdos assim, tornando-se intolerantes ou preguiçosos quanto a temas mais profundos ou raciocínios mais elaborados.

Um dos grandes benefícios da Internet foi ela ter democratizado a propagação de ideias. Com ela, qualquer um pode (em tese) falar para o mundo todo. Mas infelizmente, ao invés de ampliar a comunicação, isso gerou uma cacofonia global, em que todos falam ao mesmo tempo e ninguém se entende. Pior: muitos falam com incrível convicção, mas poucos estão dispostos a sequer ouvir o outro. E isso viabilizou nossa sociedade atual, incrivelmente polarizada e com uma crescente incapacidade de seus integrantes de construir com o outro.

Em um célebre discurso em junho de 2015, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco disse que as redes sociais haviam dado voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” Afirmou ainda que “eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Na época, discordei dele, pois defendo que todos tenham a chance de expor suas ideias. Mas, passados esses anos e com a assustadora e irracional polarização que tomou o mundo de assalto, entendo que ele anteviu o que vinha pela frente.

 

Limites para uma boa convivência

Isso tudo expõe uma de nossas maiores imperfeições: na “luta pela sobrevivência”, preservada em seus cérebros desde tempos primitivos da nossa espécie, muitas pessoas não consomem apenas o que precisam, mas tudo que puderem.

É por isso que o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) disse, em sua obra mais famosa, Leviatã (1651), que “o homem é o lobo do homem”. Para ele, precisamos viver organizados por regras e normas, que chamou de “contratos sociais”. Sem elas, esse “lobo” surgiria em todos, e rumaríamos à barbárie.

Se isso já era um risco no século XVII, tornou-se crítico com a caixa de ressonância infinita das redes sociais. Nessa cacofonia global de discursos com a profundidade de um pires, tudo parece poder ser relativizado e a opinião de cada um ganha status de verdade. A liberdade de expressão foi cooptada e corrompida numa tentativa de justificar verdadeiras barbaridades. E isso tem sido normalizado nas redes sociais.

Um exemplo emblemático aconteceu na segunda passada, quando o apresentador Monark defendeu explicitamente, no Flow Podcast, a criação de um partido nazista e de alguém querer ser “antijudeu”. Tudo em nome da liberdade de expressão!

As pessoas precisam entender que ela não é irrestrita. A suposta opção de ser nazista, como defendeu o youtuber, encontra uma barreira na maior valoração de outros direitos fundamentais e na preservação do direito do próximo. Em outras palavras, nossa liberdade termina quando a liberdade do outro começa, especialmente a “liberdade de existir”.

Esse tipo de manifestação é nocivo à sociedade, pois tenta relativizar algo que é, na verdade, um crime. Por mais que alguém diga que uma pessoa tenha direito a, por exemplo, ser pedófilo ou sair na rua matando pessoas, nenhuma dessas duas atividades é minimamente aceitável.

Ao debater isso em um programa com a audiência na casa dos milhões, especialmente de jovens, isso pode gerar confusões na cabeça das pessoas. Vale lembrar que, segundo o Global Digital Report, o brasileiro usa, em média 8,7 plataformas de mídias sociais diferentes por mês, acima da média global: 7,5.

Expor opiniões nessas redes exige, portanto, grande responsabilidade dos autores. São necessárias habilidades técnicas para, por exemplo, separar fatos de bobagens, além de um apurado senso ético para ocupar esse espaço.

Alguns podcasters e youtubers podem ser muito divertidos, mas promovem um gigantesco desserviço à sociedade ao usar sua enorme capilaridade e influência para difundir informações incorretas ou coisas ainda piores, como discursos de ódio.

Cabe a cada um de nós, nesse cenário de digitalização onipresente de nossas vidas, usar a incrível capacidade de comunicação que as redes nos oferecem para escolher fontes qualificadas para nos informarmos. Temos que fugir de figuras que guiam suas falas por teorias de conspiração ou modismos, sejam celebridades, sejam os “tios do Zap”.

Abracemos o digital naquilo que ele tem de bom para nosso crescimento e também para o de toda a sociedade.

 

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que deixou a lista das dez pessoas mais ricas do mundo com o tombo no valor das ações na quinta

O tombo do Facebook afeta um pouco cada um de nós

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Na quinta passada, a Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, perdeu 26% de seu valor de mercado, equivalente a US$ 252 bilhões. Foi a maior queda de uma empresa em um único dia na história! Para muitos, isso representaria o começo do fim do império de Mark Zuckerberg. Mas, apesar do tombo multibilionário, é pouquíssimo provável que isso aconteça, não apenas porque ainda tem muito “caixa para queimar”, mas também pelo espaço que ocupa na vida de quase 3 bilhões de pessoas e incontáveis negócios.

A desvalorização está associada à relação simbiótica que desenvolvemos com essas plataformas. Dependemos do que elas nos oferecem e moldamos nossa comunicação e até nosso comportamento para aproveitarmos seus recursos ao máximo. Por outro lado, elas vivem de nossos cliques. Se as usarmos menos, perdem seu valor.

Cabe uma pergunta: o que aconteceria com cada um de nós se os produtos da Meta subitamente desaparecessem?


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O valor de mercado de uma empresa depende menos de quanto está faturando e mais das perspectivas do negócio. Se os investidores sentem que ele pode piorar, vendem suas ações e o valor delas cai.

Foi o que aconteceu com a Meta na semana passada, após divulgar seus resultados do último trimestre de 2021. A empresa começou bem, superando as expectativas com uma receita de US$ 33,6 bilhões no período (20% a mais que no último trimestre de 2020) e US$ 117,9 bilhões no ano (alta de 37% frente ao ano anterior). Os lucros anuais também cresceram, 35% sobre 2020, chegando a US$ 39,3 bilhões.

O problema é que a Meta decepcionou na quantidade de usuários que entram na plataforma pelo menos uma vez por mês, uma de suas principais métricas. Eles chegaram a 2,91 bilhões, 4% a mais que no mesmo período de 2020, mas abaixo dos 2,95 bilhões esperados pelo mercado. Mais grave foi a queda observada entre os usuários que entram todo dia nessas plataformas, regredindo de 1,930 bilhão para 1,929 bilhão. Ainda que proporcionalmente muito pequena, foi a primeira redução na história do Facebook, que sempre aumentou sua base de usuários ativos em seus 18 anos de atividade.

Para muita gente, o crescimento na receita e no lucro pode parecer mais importante que a estagnação na base de usuários. Mas é justamente essa última que deixou os investidores de cabelos em pé. Afinal, Facebook, Instagram e WhatsApp estão ficando menos importantes na vida das pessoas?

Zuckerberg culpou o TikTok e a Apple pelos números. O primeiro, que se tornou o aplicativo com crescimento mais rápido da história em 2020, atrai muito os jovens, justamente quem movimentará a Internet no futuro. E essa é uma faixa etária em que o Facebook perde popularidade há muitos anos. Já a Apple fez alterações no sistema operacional do iPhone no ano passado que dificultam que aplicativos como o Facebook coletem informações dos usuários.

Zuckerberg tenta jogar nas costas dos concorrentes um problema que, na realidade, é dele. Já não é de hoje que usuários mais jovens fogem do Facebook. A situação só não é pior porque o Instagram ainda atrai esse pessoal. Por outro lado, o negócio de anúncios do Facebook depende de uma coleta excessiva de dados pessoais. A Apple percebeu que as pessoas começaram a se incomodar seriamente com isso e deu um jeito de ajudar seus clientes a preservar suas informações.

 

Invasão nada discreta

Essa preocupação com os dados pessoais, que já vinha crescendo, explodiu com o documentário O Dilema das Redes, lançado pela Netflix em 2020. Ele demonstra, de maneira bastante didática, como essas plataformas coletam nossas informações e como seus algoritmos são capazes de nos convencer a comprar de tudo, de produtos a ideias. O choque foi tão grande, que muita gente abandonou as redes sociais.

Do lado do convencimento eficientíssimo dos algoritmos, outro documentário da Netflix, Privacidade Hackeada, esse de 2019, expôs o escândalo da Cambridge Analytica, empresa britânica de marketing político que usou o Facebook para roubar dados de 87 milhões de usuários para a campanha à presidência dos Estados Unidos de Donald Trump, em 2016. Quando isso veio à tona em março de 2018, por uma investigação dos jornais The New York Times e The Guardian, Zuckerberg tentou se isentar de qualquer responsabilidade e até se fazer de vítima. E isso pegou muito mal!

Eventos como esses podem indicar que a empresa não está assim tão preocupada com o bem-estar das pessoas, explicando essa perda de usuários, que se sentem desrespeitados. Outro escândalo, o “Facebook Papers”, corrobora essa percepção. Ele foi detonado no ano passado por uma ex-gerente da empresa, Frances Haugen, que expôs milhares de documentos que sugerem em que a Meta é muito mais preocupada em aumentar os seus lucros que em proteger seus usuários.

A essa altura, poderíamos simplesmente pensar que bastaria deixar de usar os produtos da empresa. Mas a coisa não é tão simples assim: Zuckerberg transformou as redes sociais em eficientíssimas plataformas de negócios, interessantes para qualquer um, de multinacionais a microempreendedores.

Vale observar como, nos últimos anos, mudamos a maneira como nos apresentamos ao mundo, o que acontece fortemente nessas redes. Mesmo quem não está vendendo nada parece ter aprendido empiricamente o que se deve e o que não se deve fazer para aparecer bem nelas. Virou quase um mantra dizer que “todos nós somos uma marca”.

Essa insistente autopromoção acontece em toda parte, mas o Facebook e o Instagram se prestam muito bem essa tarefa. Por isso, por mais que muitos se sintam até ultrajados com a Meta, essas pessoas continuam usando seus produtos. Existem concorrentes, como o LinkedIn, o TikTok, o Twitter, cada um com vantagens e problemas. Mas Zuckerberg ainda reina soberano e não pretende perder a sua coroa, como deixou claro ao direcionar sua atenção ao conceito do metaverso, que pode representar o caminho das redes sociais em um futuro próximo.

Por isso, os investidores devem mesmo se preocupar com a estagnação na base de usuários. Se essa tendência se consolidar e o Facebook começar a perder muitos usuários enquanto sua capacidade de coletar informações das pessoas se reduz, seu negócio pode “fazer água”.

Por outro lado, nós, usuários, somos o produto vendido aos anunciantes, mas também aprendemos a nos beneficiar desse sistema. Se ele funcionar mal ou simplesmente desaparecer, teremos que encontrar alternativas para nossa autopromoção ostensiva, preconizada pelos “gurus” das redes. E, até o momento, a maioria das pessoas só faz isso no Facebook e no Instagram.

Seja na natureza ou no meio digital, uma relação simbiótica só faz sentido quando todos os envolvidos se beneficiam um do outro. Além disso, se um deles morrer, pode levar junto os demais, se eles não tiverem alternativas viáveis.

Esse é um alerta importante! Se a Meta quiser continuar crescendo, precisa respeitar muito mais seus usuários, e encontrar maneiras mais equilibradas para ganhar seu dinheiro. Quanto a nós, devemos aprender a nos promover de uma maneira mais genuína, sem criar personagens que, às vezes, são completamente diferentes de nossa realidade. Precisamos aparecer pelo que somos, e não pelo que não somos!

 

Apoiadores de Trump no Congresso americano para tentar impedir que Joe Biden fosse declarado presidente, por não confiarem nas eleições

Como superar a era da desconfiança

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A desconfiança se tornou o sentimento padrão de nossa sociedade. Se o bom senso e até a legislação definem que todos são inocentes até que se prove o contrário, a maioria das pessoas hoje rejeita algo novo até que se demonstre confiável. Como resultado, elas estão perdendo a sua capacidade de debater e de colaborar em torno de temas que discordem. E elas discordam de muitas coisas em um mundo que se tornou absurdamente polarizado.

Essas são algumas das principais conclusões do recém-lançado relatório anual Trust Barometer, da consultoria americana Edelman. A pesquisa global, que está na sua 22ª edição, provoca algumas importantes reflexões sobre como chegamos a um ponto de ruptura da democracia e possíveis caminhos para melhorarmos.


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A Edelman entrevistou mais de 36 mil pessoas de 26 países, inclusive do Brasil. Desse total, 59% afirmam desconfiar até ver evidências de que algo é confiável e 64% disseram não conseguir debater construtivamente sobre questões sobre as quais discordam. Entre as diferentes categorias profissionais pesquisadas, os cientistas são aqueles em quem as pessoas mais confiam, enquanto os políticos são os menos confiáveis, números claramente em linha com as ações de cada um durante a pandemia.

A pesquisa identificou quatro forças desestabilizando a sociedade e impedindo o progresso: o constante embate entra mídia e governo, a confiança excessiva nas empresas, a polarização do povo e as falhas de liderança.

“As pessoas ainda querem que o governo enfrente os grandes desafios, mas apenas quatro em cada dez dizem que ele pode executar e obter resultados”, explica Richard Edelman, CEO da consultoria. Além disso, as preocupações com notícias falsas bateram um recorde histórico na média global, alcançando 76% dos entrevistados. No Brasil, isso chega a 81%, dois pontos a mais que no ano anterior.

No relatório, “mídia” se refere não apenas a veículos de comunicação tradicionais, mas também a buscadores, publicações próprias de diferentes instituições e redes sociais. Esses dois últimos puxam a média do grupo para baixo e são vistos como pouco confiáveis, enquanto os outros são neutros.

Quase metade dos entrevistados vê o governo e a mídia como divisores na sociedade: 48% e 46% respectivamente. Além disso, líderes governamentais têm a confiança de apenas 42% da população, enquanto jornalistas ficam com 46%. No Brasil, 47% confiam na mídia e apenas 34% no governo, esse último com uma expressiva queda de 5 pontos em um ano. Por outro lado, empresas e ONGs são vistas como entidades unificadoras.

“Temos um governo que está semeando a divisão, porque leva a votos. A mídia infelizmente segue com informações que se adequam às polaridades, e está causando instabilidade social entre divisão e desinformação”, explica Edelman. “O que temos que fazer é encontrar uma maneira de quebrar esse ciclo com informações de qualidade.”

A pesquisa indica que há um colapso de confiança nas grandes democracias. Entre os brasileiros, ela se manteve em 51% de 2020 para 2021, ano de coleta dos dados dessa edição. O país em que a população é mais confiante é a China, que crava 83%. Já os Estados Unidos, autoproclamado a maior democracia do mundo, amargam uma queda de 10 pontos desde 2017, e, nesse último ano, a confiança caiu de 48% para apenas 43% por lá.

Vale destacar que, em nenhum país desenvolvido, a população acha que estará melhor em cinco anos! Os medos sociais estão se tornando mais fortes, com 85% preocupados em perder o emprego e 75% tensos com as mudanças climáticas.

 

O papel das empresas

Dos quatro grandes grupos estudados, governo, mídia, ONGs e empresas, essas últimas são as em que a população mais confia, com um índice de 61%. As empresas superam o governo em elásticos 53 pontos no quesito competência e em 26 pontos na ética. Por isso, as pessoas querem que as companhias assumam um papel maior em questões como mudanças climáticas, desigualdade econômica, qualificação da força de trabalho e injustiça racial. E ainda esperam que se posicionem publicamente sobre esses temas.

“O fracasso do governo criou uma dependência excessiva das empresas para preencher o vazio, um trabalho que a iniciativa privada não foi projetada para entregar”, diz Edelman. Assim, ações e posicionamentos nessas áreas impactam até na escolha de profissionais sobre onde querem trabalhar.

As pessoas acham que as companhias fazem pouco nessas áreas. Os negócios devem reconhecer que seu papel social veio para ficar e as lideranças devem assumir esse discurso. Por isso, ganham pontos personalidades como Luiza Trajano, por exemplo com suas iniciativas de apoiar a vacinação contra Covid-19 e combater desigualdades raciais no Magazine Luiza. Do outro lado, perdem líderes como Mark Zuckerberg, com suas respostas frequentemente evasivas, mesmo diante de graves acusações contra o Facebook, como as feitas em 2021 por Frances Haugen, ex-gerente da empresa.

Não chega a ser, portanto, uma surpresa que, dos 16 setores da economia avaliados, a mídia social é a única que apresentou queda (de 2%) e a única que está na faixa de desconfiança, com apenas 44% da população lhe dando crédito.

 

Como sair desse atoleiro

Para revertermos esse quadro, precisamos de união, seriedade e de informações bem apuradas. “O governo deve finalmente se comprometer contra a pandemia e a mídia precisa voltar a um modelo de negócios que substitua a indignação pela sobriedade, o caça-clique pela autoridade”, afirma Edelman. “Achamos que a qualidade da informação é o construtor de confiança mais poderoso entre as instituições.”

Segundo o Trust Barometer, mesmo pessoas com baixa renda confiam mais nas instituições (um ganho de 10%) se forem bem informadas. Por outro lado, uma pessoa com alta renda porém mal informada perde sete pontos na confiança. Segundo o executivo, “se você lê três ou quatro fontes de notícias por dia e também verifica a informação com outras fontes, você está, em suma, diminuindo a divisão social, está ajudando a reparar a sociedade.”

Está claro que a distribuição de informações confiáveis deixou de ser trabalho só da mídia. Todos nós temos hoje o poder de combater as fake news, algo crucial para a democracia.

De toda forma, como sempre digo, a imprensa precisa resgatar o vínculo com seu público, em seu papel fundamental de fiscalizar o poder, mas prestando atenção nas demandas e mudanças da sociedade.

Entendo que às vezes fique difícil para a imprensa manter o equilíbrio quando se vive sob ataques constantes, cada vez mais violentos. Mas, ao partir para o conflito aberto, seu agressor vence, pois esse embate mina a confiança do seu público. E não há jornalismo sem confiança do público.

A manutenção de uma sociedade que ofereça boas condições de vida a todos está sob seríssimo risco, e a imprensa tem um papel central em resgatar a confiança da população em quem a merece. Sem isso, continuaremos nessa espiral de destruição, que só deve piorar nesse ano eleitoral.

 

O russo Pavel Durov, fundador do Telegram, que vem ignorando todas as tentativas de contato do TSE

A afronta do Telegram cria uma armadilha para todos

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A indiferença olímpica que os gestores do Telegram vêm demonstrando às insistentes tentativas de contato do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para se firmar uma parceria contra a desinformação armou uma bomba que pode explodir no nosso colo a qualquer momento. Ao se colocar acima da lei, a empresa criou uma situação em que os únicos beneficiados são ela mesma e aqueles que usam o aplicativo de mensagens para cometer crimes.

Qualquer movimento para desatar esse nó górdio pode criar prejuízos aos brasileiros. Como a empresa já deu todos os sinais de que não colaborará com a Justiça para tornar seu espaço mais saudável, novas tentativas de contato e até atitudes mais enérgicas, como aplicação de multas, devem continuar sendo solenemente ignoradas por ela.

Isso deve tornar o já tóxico ambiente da plataforma ainda pior. Por outro lado, uma decisão mais drástica para se evitar um mal maior, como banir o serviço, prejudicará aqueles que fazem um uso ético e legal de seus recursos.

Empresas são integrantes da sociedade e, como tal, devem fazer de tudo para garantir sua boa operação. Em um ano eleitoral em que se teme uma campanha de baixíssimo nível entre candidatos e seus apoiadores, as plataformas digitais têm papel central para combater práticas que ameacem a própria democracia. Por isso, ao contrário da disposição de seus concorrentes, a indiferença do Telegram surge como uma verdadeira afronta.


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Esse assunto esquentou nos últimos dias quando o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, levantou a possibilidade de o Telegram ser banido do Brasil pela sua postura. Em nota, ele disse que “nenhum ator relevante no processo eleitoral de 2022 pode operar no Brasil sem representação jurídica adequada”.

Apesar de o aplicativo ser russo, a atual sede da empresa fica em Dubai (Emirados Árabes Unidos). Barroso pretende levar o tema do bloqueio para debate com os demais ministros do Tribunal no início de fevereiro, com a volta do recesso do Judiciário.

A tentativa de contato mais recente aconteceu no dia 16 de dezembro, quando o TSE enviou um ofício à empresa por e-mail, solicitando uma audiência com Pavel Durov, fundador do Telegram. O objetivo era discutir uma cooperação contra a desinformação e o discurso de ódio nas conversas pelo aplicativo, que podem afetar profundamente o bom andamento das eleições brasileiras, como aconteceu nos últimos pleitos. Pelo menos outras quatro tentativas de contato já haviam sido feitas antes, todas elas sem qualquer resposta.

Ironicamente o Telegram começou a ficar famoso no Brasil diante de breves bloqueios do WhatsApp por decisões da Justiça, em 2015 e 2016. Na época, juízes de primeira instância fizeram isso para pressionar o Facebook (hoje Meta), dono do WhatsApp, a entregar informações de usuários para investigações em curso. Em todas as ocasiões, o serviço foi restabelecido em algumas horas, por esferas superiores do Judiciário, que alegaram que todos os usuários do país não poderiam ser penalizados com a sua indisponibilidade.

Agora a situação é bem mais grave. Se o WhatsApp vem criando recursos para combater a desinformação e para limitar o compartilhamento em massa de mensagens, como restringir grupos a 256 pessoas, o Telegram se notabiliza por permitir grupos de até 200 mil usuários e uma completa falta de monitoramento ou restrição a qualquer conteúdo. Assim, o problema impacta decisivamente toda a sociedade. Além disso, a empresa não tem representação no país e vem ignorando todos os pedidos de comunicação de um tribunal superior.

O aplicativo russo vem crescendo rapidamente no país, e já está presente em 53% dos smartphones por aqui. Ele ficou particularmente popular entre grupos e usuários que vêm sendo banidos de outras plataformas, justamente por disseminarem fake news e o discurso de ódio.

Se a atitude extrema for tomada, o Brasil não seria o primeiro país a bloquear o Telegram: isso já foi feito em outras 11 nações, inclusive na própria Rússia, sua terra natal, onde foi proibido entre 2018 e 2020. A Alemanha também estuda banir o aplicativo por conta da ausência de qualquer controle na desinformação e no discurso de ódio.

Ainda assim, um bloqueio do Telegram durante o processo eleitoral (ou definitivamente) gera muitas controvérsias. A constitucionalidade desses bloqueios está em discussão no STF (Supremo Tribunal Federal).

É inevitável perguntar se isso não seria um exagero, prejudicando mais que ajudando a sociedade. Afinal, é de se supor que a maioria dos usuários ali realiza atividades lícitas e éticas. Além disso, não há garantias que um bloqueio resolva o grave problema da desinformação e do discurso de ódio.

 

Possíveis caminhos

“O grande problema do Brasil não é a falta de lei: é o excesso de leis que não são cumpridas”, explica Marcelo Crespo, advogado especialista em direito e inovação e sócio do Peck Advogados. “Isso que gera a sensação da impunidade.”

Para ele, não existe “bala de prata” para a solução do problema. “O que o TSE precisa fazer é ser bastante objetivo naquilo que será aceito”, afirma. Assim, o Marco Civil da Internet e as regras eleitorais, atualizadas a cada pleito, deveriam dar conta disso.

O primeiro determina, por exemplo, que qualquer empresa que preste serviços ou venda produtos a brasileiros, mesmo não tendo escritório no país, deve se submeter às leis brasileiras. Já as regras eleitorais desse ano certamente enfrentarão com força as fake news e o discurso de ódio.

Desde a eleição de 2020, o TSE vem fazendo parcerias com as principais plataformas digitais, como o WhatsApp, o Facebook, o Instagram, o Twitter e o TikTok, para combater o problema em junto com elas. O ministro Barroso explicou, em nota, que “muitas dessas iniciativas se juntaram ao Tribunal em sua missão de garantir que os eleitores tenham acesso a informações verdadeiras sobre o processo eleitoral, para que possam exercer o seu direito de voto de forma consciente e informada.”

“As Big Techs estão conversando com o TSE, porque não interessa a essas empresas ter a operação suspensa”, explica Crespo. Para ele, essas companhias ganham muito dinheiro com o que fazem, “então é razoável darem uma contrapartida para não deixar que vire uma terra sem lei.”

Outra coisa que se discute é punir os candidatos que espalhem notícias falsas ou discurso de ódio, ou cujos apoiadores façam isso em seu nome. O problema é que, nesse caso, aliados de um candidato podem se infiltrar nas campanhas adversárias para prejudicá-las, com disparos desse tipo.

Como se pode ver, qualquer possível solução parece esbarrar em algo que prejudicará alguém ou que embutirá um risco de injustiça. Por isso, a solução não deve ser simples e nem vir de uma única fonte.

“Precisa o TSE trazer todas essas regras, precisam as plataformas fazerem as partes delas, mas a democracia não é feita só das instituições: é feita pelas pessoas”, lembra Crespo. “Então as pessoas e as empresas precisam fazer a parte delas”, conclui.

A grande ironia é que as instituições democráticas estão sendo atacadas graças às liberdades que elas oferecem. Toda essa confusão que está sendo gerada pelo Telegram só existe porque a liberdade de expressão está sendo garantida. “Se estivessem em um regime autoritário, talvez essas empresas fossem proibidas de operar”, explica.

É sempre bom lembrar que a liberdade de expressão não representa um passe-livre para se cometer crimes. Sim, pode-se dizer o que quiser, mas o cidadão responderá pelo que disse, quando isso infringir a lei. É por isso que a Constituição assegura a liberdade de manifestação do pensamento, mas veda o anonimato.

Sei que é uma visão romântica esperar que todos os candidatos e os usuários se comportem adequadamente nas redes sociais, ainda mais nesse ano. Isso não vai acontecer! E, ao que tudo indica, o Telegram tampouco colaborará. Isso tudo abre terreno para uma verdadeira carnificina digital, que pode colocar a própria democracia em risco.

Por isso, não será surpresa ver o aplicativo banido do Brasil, mesmo com o prejuízo que isso possa causar a muitos que usam a plataforma honestamente. E aí, uma vez mais, os maus hábitos de poucos prejudicarão muitos.

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, depõe ao Senado americano em abril de 2018, sobre o escândalo da Cambridge Analytica

O cinismo das redes digitais

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No início de 2002, o jornalista americano John Battelle perguntou a Eric Schmidt como o Google havia se tornado uma empresa da mídia. O então recém-empossado CEO disse que a pergunta não tinha cabimento, pois o Google era uma empresa de tecnologia. Um ano depois, os dois se encontraram de novo, e Schmidt começou a conversa dizendo: “o negócio de mídia não é incrível?”

De lá para cá, as gigantes de tecnologia se tornaram companhias de mídia de uma maneira que as empresas tradicionais do setor jamais sonharam. Não apenas porque arrebataram o mercado de publicidade, centavo a centavo, mas porque desenvolveram um mecanismo de convencimento das massas poderosíssimo e sem precedentes.

Tanto poder carrega consigo grandes responsabilidades. Mas quando são confrontadas nisso, essas empresas se fazem de desentendidas, pois querem apenas a parte boa do domínio sobre seus bilhões de usuários.


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Por exemplo, na quinta, o comitê da Câmara dos EUA que investiga o ataque de 6 de janeiro do ano passado ao Congresso emitiu intimações ao Google, Facebook, Twitter e Reddit, criticando-as por permitir que a desinformação e o ódio se espalhassem em suas páginas e por não cooperarem adequadamente com as investigações. Apesar de outras empresas também estarem sendo investigadas, apenas essas quatro foram notificadas, porque, segundo o comitê, “não estavam dispostas a se comprometer a cooperar voluntária e rapidamente”.

Isso me lembra do depoimento de Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, ao Senado americano em abril de 2018. Na época, ele disse que havia sido vítima da empresa britânica de marketing político Cambridge Analytica, pois ela havia usado os recursos da plataforma para roubar dados de 87 milhões de usuários, que foram usados para convencer, também com recursos da rede social, as pessoas a votarem em Donald Trump, candidato à presidência americana dois anos antes.

Sim, o que a Cambridge Analytica fez é crime. Mas é basicamente o que o Facebook faz com seus mais de 2 bilhões de usuários para convencê-los a comprar de tudo em suas páginas.

Em novembro, o instituto Pew Research Center divulgou um levantamento feito com 862 desenvolvedores, líderes empresariais e políticos, pesquisadores e ativistas, sobre como eles viam o futuro do meio digital e seu papel na democracia. Desse total, apenas 61% disseram que acham que, nos próximos 15 anos, essas plataformas servirão ao bem comum, ao invés de interesses específicos. Além disso, 70% acreditam que a evolução digital traz aspectos positivos e negativos, 10% veem apenas os positivos e 18% veem só coisas ruins nisso.

Os otimistas acreditam que as próprias empresas de tecnologia trabalharão com governos e a sociedade civil para melhorar os algoritmos para o surgimento de debates mais saudáveis e democráticos. De fato, eles indicam que esses códigos são a primeira coisa a se corrigir, pois hoje eles são feitos para maximizar os lucros com o engajamento contínuo dos usuários, mas isso também favorece a polarização e o ódio. Para eles, os governos devem ser responsáveis por regulação e alguma pressão, mas sem exageros, pois isso poderia atrapalhar a inovação.

Já os pessimistas acreditam que nada disso deve acontecer, e que o aumento da inteligência artificial, a “hipervigilância” e a transformação de tudo na vida em dados pode amplificar ainda mais as fragilidades e o lado mal de cada um. Além disso, afirmam que os seres humanos são autocentrados e não “pensam a longo prazo”, concentrando-se em sua necessidade imediatas. Tampouco conseguem acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas. Tudo isso ampliaria ainda mais a manipulação das massas, a polarização e o ódio, colocando a própria democracia em risco.

Os brasileiros devem ter logo uma boa prévia de qual grupo tem mais razão: estamos iniciando um ano eleitoral.

 

Não há santos

Se nada for feito, e candidatos e seus apoiadores puderem atuar livremente como fizeram nas duas últimas eleições, 2022 pode representar uma verdadeira carnificina digital, com as pessoas sendo manipuladas em uma escala sem precedentes pelos diferentes grupos. Isso porque, depois de alguns anos, eles se aprimoraram no uso dos recursos tecnológicos e na criação de narrativas falaciosas.

E não nos enganemos: infelizmente o ódio é uma poderosa ferramenta para atingirem seus objetivos. Isso foi demonstrado na segunda temporada da série “The Boys” (Amazon Prime Video), em que a personagem Tempesta explica que “é muito melhor ter soldados que fãs”.

O ódio não é monopólio de apenas um lado da disputa eleitoral. Não há santos nisso! Diferentes grupos de poder já perceberam sua efetividade na manipulação das massas, pois despertam os sentimentos mais primitivos dos indivíduos. Com isso, as pessoas agem mais por impulso e menos pelo racional.

Muito melhor seria promover o amor, mas a última eleição presidencial foi decidida pelo ódio e, ao que tudo indica, essa também será. Pelos discursos dos pré-candidatos, eles não aprecem dispostos a abrir mão dessa “segurança” para estimular apenas bons sentimentos no eleitorado.

O ideal mesmo seria propor um debate em torno de ideias viáveis e construtivas, estimulando o lado racional de cada um. Mas esse é o cenário diametralmente oposto do desejado para a manipulação das massas, portanto devemos ver isso bem pouco.

Meu receio é que isso contamine toda a disputa eleitoral, nos diferentes cargos eletivos e no país todo. Com isso, o voto, tido como a “festa da democracia”, poderia ser convertido em uma ameaça a uma sociedade equilibrada.

Como não podemos, de forma alguma, abrir mão dele no processo democrático, as causas desse problema devem ser resolvidas. E isso nos traz de volta às plataformas digitais.

Estamos nessa situação insustentável porque essas redes criaram os recursos para esse controle da população. Fizeram isso para seu próprio uso, o que já é questionável, dado o grau de alienação que provocam. Mas, para piorar, não deram a devida atenção quando outros indivíduos começaram a se apropriar disso para atingir seus objetivos espúrios.

Não dá mais para essas plataformas se fazerem de desentendidas no seu papel na sociedade. Elas trabalharam duro para se tornar elementos centrais na vida das pessoas, e conseguiram isso de uma maneira jamais vista por qualquer empresa, governo ou instituição. Rivalizam e possivelmente superam a influência de religiões!

Essas empresas precisam fazer mais, muito, muito mais que já fazem para tornar seus espaços mais saudáveis e democráticos. Se não fizerem isso por vontade própria –e é isso que parece estar acontecendo– devem ser pressionadas por órgãos reguladores ou pela Justiça. Ou então desligar essas ferramentas de controle de massas.

Adivinhem o que vai acontecer? Façam suas apostas!

A “cultura do cancelamento” ataca a democracia no seu coração

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A melhor maneira de se perpetuar ideias ruins é evitar o debate, principalmente dos mais jovens, que tradicionalmente trazem ideias reformadoras. Por isso, uma pesquisa divulgada recentemente pelo instituto Ipec preocupa: ela indica que 59% dos brasileiros entre 16 e 34 anos evitam falar de política nas redes sociais por medo de serem “cancelados”.

Na verdade, esse temor de ser “linchado digitalmente” atinge todas as idades. O meio digital, que floresceu lá pela virada do século como um espaço em que todos poderiam se expressar livremente, se transformou, nos últimos anos, em uma arena de ódio e de exclusão, afastando muita gente que poderia contribuir com ótimas ideias. E isso não surgiu ao acaso: foi construído pelas velhas ratazanas políticas.


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Esse medo tem fundamento. As redes sociais foram alçadas à posição de ferramenta preferido de trocas pessoais e profissionais, especialmente para essa faixa etária. Por isso, ser “cancelado” pode implicar em grandes prejuízos para o indivíduo.

Isso demonstra uma grande ferida da democracia brasileira. A violência das tropas digitais de diferentes ideologias desestimula a participação dos jovens no debate político, justamente no seu local preferido de conversas. Para piorar a situação, essas mesmas redes sociais se tornaram, de uns cinco anos para cá, a principal ferramenta de convencimento de massas.

É por isso que precisamos nos posicionar sem medo!

Ao se eliminar aqueles que poderiam contribuir com ideias de alto nível e uma visão construtiva para a sociedade, o debate no meio digital torna-se raso, restrito a um maniqueísmo do “nós contra eles”, favorecendo àqueles que não têm boas propostas. E os algoritmos das redes sociais fortalecem isso ainda mais.

Isso é uma ampliação do que sempre foi ensinado ao brasileiro: “política, religião e futebol não se põem à mesa”. Essa é uma maneira de criar cidadãos mais “dóceis”, que não se envolvem com temas delicados, aqueles que convidam a pensar e a melhorar a sociedade. Com isso, tornam-se mais suscetíveis a comandos de líderes em quem acreditam, mesmo para coisas que jamais fariam se usassem seu senso crítico.

Basta ver a grotesca invasão do Congresso americano por apoiadores do ex-presidente Donald Trump, que tentavam impedir a ratificação da vitória de Joe Biden. O ataque, que completou um ano nesta quinta, deixou cinco mortos e foi realizado por pessoas que, em outras condições, jamais fariam algo do tipo.

O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679) disse, em sua obra mais famosa, “Leviatã” (1651), que “o homem é o lobo do homem”. Ele acreditava que o ser humano precisa viver em uma sociedade regida por “contratos sociais”. Sem eles, esse “lobo” nos levaria à barbárie.

Hoje vejo essas regras sendo rasgadas, especialmente nas redes sociais, por aqueles que têm poder e por seus apoiadores. O mais grave disso é que o outro e suas necessidades deixam de ser importantes a partir do momento em que um indivíduo tem a força de impor suas vontades, como temos observado.

 

Como falar de política

A pesquisa do Ipec mostra também que os jovens não são alienados e que gostam de participar do debate político. Mas, como preferem não fazer isso online, levam o tema para outros locais, como a escola, a igreja e até festas. Ao fazer isso “olho no olho”, diminuem a chance de agressões gratuitas e de um “cancelamento” em grande escala.

Por isso, nem tudo está perdido! Mas é uma pena que não façam isso nas redes sociais, onde sua voz ganharia muito mais ressonância.

Faltam aos jovens também exemplos de pessoas que falem e exerçam bem a política. Ao contrário do passado, em que lideranças debatiam ideias, hoje o cenário é de um campo de batalha permanente, em que o opositor é visto como um inimigo a ser eliminado. Sem uma boa referência, as pessoas não sabem como se posicionar.

A sociedade precisa reaprender que a política não é um bicho-papão e nem precisa ser carregada de ódio. O ser humano é um animal político, e só dominamos esse planeta graças a isso, pois nos organizamos para atingirmos o bem comum. A isso, damos o nome de “sociedade”.

Não podemos perder a nossa capacidade essencial de dialogar, e isso inclui com as pessoas que não pensam como nós. Aliás, de certa forma, quando nos confrontamos com as diferenças, é quando mais crescemos, pois nos permitimos ver o mundo por outra perspectiva.

Portanto, política é para construir com as diferenças e não para destruir os diferentes! Se os jovens desejam participar desse debate, eles são mais que bem-vindos: devem ser incentivados e protegidos!

Isso exige que as empresas que são donas dessas plataformas digitais trabalhem muito mais duro para combater o ódio em suas páginas. De três anos para cá, elas têm feito algo nesse sentido, mas, como a pesquisa do Ipec demonstra, isso tem sido muito insuficiente.

Do lado dos usuários, as pessoas precisam vencer o apelo fácil do ódio que domina o debate público. Por incrível que se pareça, odiar quem pensa de maneira diferente é uma forma pervertida de se pertencer ao grupo com valores semelhantes aos seus. Mas isso obviamente não é saudável!

Pelo contrário, temos que nos posicionar, sim, nas redes sociais, mas de maneira cordial e construtiva. Não devemos deixar de publicar algo por medo de errar ou de dizer algo que o rebanho critique. E temos que entender que nunca será possível agradar todo mundo: isso, aliás, está na essência da democracia.

Por isso tudo, política, futebol e religião se põem, sim, à mesa! E também nas redes sociais.

Entramos no ano mais digital de nossas vidas

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Este promete ser o ano mais digital de nossas vidas. Por isso, entender o que aconteceu nesse setor em 2021 pode nos ajudar a aproveitar melhor o que a tecnologia tem de bom a nos oferecer e a fugir de enormes arapucas que já armaram para todos nós. E a maioria das pessoas não tem esse conhecimento.

Por exemplo, no final de novembro, o dicionário Collins escolheu NFT como a “palavra do ano”. Como toda seleção assim, ela é controversa, mas essa representa bem os efeitos da digitalização galopante de nossas vidas, dando o tom do ano que começa. Essa sigla indica um conceito que poucos conhecem e que, mesmo entre os que já ouviram falar dele, muitos não entendem. E há ainda uma multidão completamente de fora, por não ser tão digital assim.

A pandemia acelerou incrivelmente esse processo, abrindo oportunidades para empresas e indivíduos, mas aumentando o risco de se criar “cidadãos de segunda categoria” entre os “menos digitalizados”. Governos, instituições e companhias precisam ajudar para que isso não ocorra, e cada um de nós deve abraçar o digital com consciência, evitando, de um lado, o deslumbramento e, do outro, o medo.


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Para quem nunca ouviu falar, NFT é a sigla em inglês para “tokens não-fungíveis”, uma comercialização de arte digital que combina tecnologia e mudança cultural. Com ela, ao comprar uma obra, a pessoa passa a ser sua legítima dona, mas isso não lhe garante nenhum controle ou remuneração por qualquer reprodução do material. Além disso, os direitos autorais continuam sendo do autor da obra.

É como o Museu do Louvre ser dono da Mona Lisa, mas ele não tem como impedir que as pessoas fotografem o quadro, e usem isso como quiserem. Mas, se algum dia quiser vender o original, o Louvre receberá uma fortuna.

O que dificulta o entendimento do NFT é que o original pode ser algo simplório como um meme famoso, facilmente reprodutível com um clique do mouse. Ainda assim, em maio, o meme “Disaster Girl” foi vendido por incríveis R$ 2,5 milhões.

NFT venceu, entre os pesquisadores do Collins, a palavra metaverso, outro conceito digital que certamente impactará muito mais nossas vidas em breve. Se bem usado, esse mundo virtual abrirá uma infinidade de oportunidades de trabalho, aprendizagem e diversão. Trata-se de um ambiente digital em que as pessoas entrarão com seus avatares para interagir mesmo com quem estiver do outro lado do mundo e com ferramentas que só existem ali.

Apesar de não ser algo novo, o metaverso ganhou holofotes em 2021 pela disposição do Facebook de investir pesadamente nessa tecnologia. Mas o que a torna tão incrível também inspira muitos cuidados. Por ser um ambiente completamente imersivo, há um enorme risco de manipulação dos usuários, muito maior que o já visto nas redes sociais. Além disso, por exigir equipamentos poderosos para ser usado, ele pode ampliar o abismo digital entre os mais ricos e os mais pobres.

Mas a virtualização de nossas vidas já acontece com força de outras formas. Desde que a Internet comercial foi lançada, em 1994, realizamos cada vez mais atividades de nosso cotidiano pelo meio online. A popularização dos smartphones, há uma década, acelerou muito esse processo.

Mas foi a pandemia que definiu um novo patamar aí.

 

Tudo de casa

Possivelmente a mudança mais profunda e permanente que o vírus nos apresentou foi o home office. Antes do lockdown (aliás, a palavra de 2020 para o mesmo dicionário Collins), trabalhar de casa era algo inimaginável ou pelo menos visto com enorme desconfiança por gestores de empresas de todo tipo. Mas hoje isso se tornou tão aceito, que muitas empresas adotaram, mesmo com a retomada das atividades nos escritórios, o trabalho híbrido, em que os profissionais desempenham suas tarefas de casa em alguns dias da semana. Há casos em que o trabalho remoto se tornou definitivo. Dessa forma, os escritórios ficaram menores ou simplesmente desapareceram.

Primo dessa mudança é o crescimento explosivo do ensino a distância. O tempo em casa permitiu que as pessoas experimentassem e gostassem desse jeito de aprender, vencendo muitos preconceitos contra o EAD. Agora, muita gente faz cursos que antes eram inacessíveis pela distância ou por horários inflexíveis.

Mas tanto o home office quanto o EAD reforçam as diferenças entre a população digitalizada e a “nem tanto assim”. Afinal, para participar dessas atividades é preciso ter uma boa conexão com a Internet e um computador, pois a experiência pelo celular acaba sendo de pior qualidade. E nem todos têm isso.

O e-commerce também se enquadra nessa mudança de comportamento. Apesar de crescer consistentemente na casa dos dois dígitos percentuais desde que surgiu, as vendas online praticamente dobraram seu faturamento nos primeiros 12 meses da pandemia. Com a reabertura das lojas físicas, esse crescimento perdeu um pouco de fôlego, mas o e-commerce permaneceu em um patamar muito superior ao que tinha antes da Covid-19. Graças a isso, muitas entregas, que antes levariam dias para serem feitas, passaram a acontecer em algumas horas.

O e-commerce pelo menos é um pouco mais democrático: funciona bem em praticamente qualquer smartphone.

 

Virtualização de valores

O Pix, sistema de transferências e pagamentos instantâneos do Banco Central, também poderia concorrer à palavra do ano, se não fosse restrito ao Brasil. Ele já é usado por 71% dos brasileiros, com aprovação de 85% deles, segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Já há mais Pix que TED, DOC e cheque juntos! Entre os jovens de 18 a 24 anos, a aprovação chega a 99%, semelhante aos 96% da faixa seguinte (de 25 a 44 anos). A maior resistência fica entre as pessoas de baixa renda e os de menor escolaridade, mas ainda com adesão superior a 50%.

Muita gente tem medo do Pix devido aos incontáveis golpes que usam essa tecnologia. Essa, aliás, é outra coisa que explodiu nesses dois anos e que infelizmente deve se ampliar em 2022. Vale lembrar que o ano passado começou com o maior vazamento de dados da história do Brasil e terminou com um suspeito “ataque hacker” aos sistemas do Ministério da Saúde que gerenciam os dados relativos à Covid-19 e à vacinação, que demoraram semanas para serem restabelecidos.

As pessoas precisam de orientação para escapar desses problemas, que acabam atingindo mais os de renda inferior ou os menos informados. O que nos leva a um último flagelo digital que vem crescendo com força nos últimos anos e deve chegar às raias da loucura em 2022: a desinformação. O que me faz lembrar que, em 2016, outro importante dicionário, o de Oxford, elegeu pós-verdade como a palavra daquele ano.

Ela explica que importam menos os fatos e mais as versões construídas a partir deles (ou da ausência deles). Assim, quem elaborar as versões mais “palatáveis” para o público convencerá as pessoas com suas ideias, por mais bizarras que sejam.

Isso fica particularmente mais grave em anos de eleições, como esse que estamos começando. Políticos sempre mentiram, mas a combinação da pós-verdade com as redes sociais criou as fake news, que se tornaram a ferramenta suprema de manipulação da sociedade. E políticos que mais dominam esse recurso vêm se elegendo.

Por isso, se puder desejar algo a todos nesse ano que se inicia, minha escolha é conhecimento e informação, para que possamos usar o mundo digital que tivermos a nossa disposição –seja muito, seja pouco– da melhor maneira possível. Ele deve ser usado para melhorarmos (e muito) nossa vida, e não para sermos controlados por quem quer que seja.

 

Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), astrônomos que descobrem o cometa no filme “Não Olha Para Cima”

Estamos chegando ao fim do ano ou ao fim do mundo?

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Estamos na semana entre o Natal e o Ano Novo, um período do ano em que tradicionalmente pouca coisa acontece. Mas isso não importa em uma era de narrativas que valem mais que acontecimentos, e de enorme manipulação das massas. Por isso, o filme “Não Olhe Para Cima”, que chegou à Netflix nessa sexta, é incrivelmente oportuno.

O atual momento histórico será lembrado pela crise sanitária da Covid-19, que, em algum momento, finalmente será debelada de vez. Mas também ficará como aquele em que uma parcela da humanidade por opção desconectou-se do real para abraçar fantasias confortáveis, mesmo as bizarras. E isso não pode ser encarado como algo inocente ou sem consequências.

Fica a questão: quando venceremos essa outra pandemia mais resistente, a da desinformação, que potencialmente pode destruir o mundo?


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Na sátira produzida pela Netflix, dois astrônomos, vividos por Leonardo DiCaprio e por Jennifer Lawrence, descobrem que um cometa de dez quilômetros de diâmetro colidirá com a Terra em seis meses. Se nada for feito para desviar sua rota, significará o fim da vida no planeta. Os dois partem então em uma jornada quixotesca para explicar o perigo às autoridades e à população.

Apesar do apocalipse próximo e cientificamente irrefutável, eles precisam enfrentar políticos negacionistas, liderados pela presidente dos EUA (interpretada por Meryl Streep), uma parcela da mídia que espetaculariza os fatos e gigantes empresariais que querem lucrar com tudo, até mesmo com a rocha que pode matar todos nós.

A situação se torna dramática –e incrivelmente semelhante à nossa realidade– quando uma parcela considerável da população acredita e apoia esses políticos, os sensacionalistas e os magnatas da tecnologia. Esse grupo não quer se preocupar com o cometa e questiona se ele deveria ser desviado ou até mesmo se existe de fato.

Olhando de fora, esse comportamento parece irracional, mas é exatamente o que vivemos hoje. Em uma sociedade de consumo desenfreado e intolerante a frustrações, muita gente priorizará seus interesses, mesmo que isso prejudique a coletividade.

Se tiverem apoio e validação da massa, podem até mesmo praticar atos que jamais fariam sozinhos. Isso explica integrantes de torcidas organizadas que –quando estão nesses grupos– agridem e até matam aqueles que torcem por outro time, simplesmente por esse motivo.

Acontece que vivemos em uma sociedade hiperconectada, e as redes sociais em nossos smartphones nos garantem toda a validação de que necessitemos para qualquer barbaridade. Precisamos apenas de lideranças que nos indiquem o “caminho mais confortável”.

Mesmo que seja o caminho do abatedouro.

 

Já aconteceu antes

Chega a ser contraditório tanta gente acreditando nessas narrativas absurdas justamente quando a humanidade tem um acesso sem precedentes a informações. A diferença recai sobre a qualidade delas: quando são majoritariamente boas, uma sociedade se desenvolve. Caso contrário, os poderosos manipulam as massas a seu bel-prazer.

Talvez o melhor exemplo de uma sociedade controlada pela barbárie seja o nazismo de Hitler, que levou à Segunda Guerra e ao Holocausto. A despeito de os alemães da época serem bem educados, a crise do país abriu espaço para o surgimento daquele “salvador da pátria”, que propunha tornar a Alemanha grande de novo, eliminando os “inimigos da nação”, especialmente os judeus. Para isso, uma de suas primeiras ações foi destruir a imprensa livre, para que construísse uma narrativa sem oposição a suas ideias.

E assim os alemães embarcaram naquela loucura!

Isso aparece de maneira chocante em outra obra lançada na semana passada, a série “Passaporte Para Liberdade”, coprodução da Globo e da Sony Pictures, estrelada por Sophie Charlotte, Rodrigo Lombardi e Peter Ketnath. E, ao contrário do filme da Netflix, a loucura nazista realmente aconteceu.

Dessa forma, fico preocupado quando vejo que os ingredientes sociais vistos nessas obras crescem em nossa sociedade.

Muita gente nega a pandemia, talvez por ela ter matado “apenas” 5,5 milhões de pessoas, o que não dá nem 0,1% da população global. Mas esses provavelmente negariam também um cometa que poderia matar os 7,8 bilhões de seres humanos. Não se trata de escala, e sim em acreditar na narrativa mais conveniente. E é isso que torna “Não Olhe Para Cima” tão perturbador.

 

Ciência e informação salvam vidas

Entre 1918 e 1920, a Gripe Espanhola matou algo como 50 milhões, 2,8% de uma população global de 1,8 bilhão na época. A situação da pandemia de Covid-19 só não foi tão dramática porque agora temos uma ciência muito melhor, mas também acesso a informações de qualidade, que se contrapõem ao negacionismo. E ela só não é melhor porque grupos de poder não se envergonham em atrapalhar ambos para atingir seus interesses mesquinhos, mesmo às custas de milhões de vidas.

Muitas mazelas no mundo – como a fome, a ignorância e as doenças– são mantidas para que esses grupos atinjam ou se mantenham no poder. Elas sempre existiram, mas as camadas mais abastadas compram sua fuga desses males. Em uma raríssima exceção, a Covid-19 aproximou os mais ricos dos mais pobres, pois o vírus contamina indiscriminadamente.

Por isso, a desinformação precisa ser combatida, pois ela mata milhões!

No ano que vem, teremos uma prova de fogo no Brasil, com eleições que prometem ser as mais sujas da história, dominadas pela desinformação e pelo meio digital usado de maneira irresponsável. Os candidatos já captam o que cada grupo social quer que seja sua “verdade”, mesmo que não passe de uma perigosa bobagem. Preparam suas narrativas falaciosas para manipular as massas, afagando seus egos. Todos nós temos a obrigação de perceber e evitar isso, por mais eficiente que seja esse convencimento e por mais que as redes sociais nos manipulem.

De toda forma, é um grande alívio que não exista nenhum cometa em nossa direção. Como temos essa sorte, estamos chegando apenas ao fim do ano, e não ao fim do mundo.

 

Passageiros e motoristas colocam em xeque modelo de aplicativos de transporte

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Quando a Uber chegou ao Brasil em 2014, trouxe um novo modelo de transporte, que combinava preços baixos e alta qualidade para os passageiros, e ganhos expressivos a motoristas, que poderiam trabalhar sem burocracia. Mas isso ficou no passado: hoje passageiros e motoristas questionam o formato, que vive seu pior momento.

De um lado, clientes reclamam de uma queda enorme na qualidade, com preços altos, demora para conseguir um carro e seguidos cancelamentos, gerando muita frustração. Do outro, motoristas se debatem para conseguir algum ganho diante de aumentos explosivos nos combustíveis, no aluguel de carros e da taxa cobrada por essas empresas.


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Com a popularização do formato, muita gente chegou a vender o próprio carro, pois era mais econômico se locomover dessa forma que comprar e manter um veículo. Além disso, o modelo atraiu dezenas de milhares de motoristas em várias cidades do Brasil, como uma alternativa para complementar a renda ou até se tornar sua ocupação principal.

Mas algo parece ter dado errado. Na semana passada, realizei uma pesquisa com 9.315 pessoas questionando como estava sendo a sua experiência com aplicativos de transporte. O resultado foi acachapante: 88% disseram que a experiência piorou nesse ano, enquanto 9% não sentiram diferença. Apenas 3% observaram uma melhora. Tão ilustrativos quando esses votos, foram os quase 300 depoimentos, tanto de pessoas preocupadas com a deterioração da experiência do passageiro, quanto daquelas solidárias à situação ruim dos motoristas.

Os passageiros reclamam de incontáveis cancelamentos por parte dos motoristas, especialmente no caso de corridas curtas ou quando a origem for em locais como supermercados. Há relatos de motoristas que cancelam a corrida diante do passageiro, antes de ele entrar no carro, dependendo do destino.

Em outubro, a advogada Nathália Andrade “viralizou” nas redes quando teve que dirigir até o próprio casamento, com vestido branco e véu! Depois de ter mais de 20 corridas canceladas no Uber, ela fez o percurso de 25 km, em Brasília, chegando com uma hora e 20 minutos de atraso para a cerimônia civil.

Ou seja, um serviço que já foi considerado de excelência tornou-se fonte de frustração!

Os motoristas argumentam, com razão, que, se aceitassem todas as corridas hoje, praticamente pagariam para trabalhar. Seus ganhos têm ficado cada vez mais magros, e algumas corridas mal pagam o combustível. Por isso, estima-se que, só na cidade de São Paulo, 30 mil dos 120 mil motoristas registrados tenham desistido da atividade.

Dessa forma, aceitam apenas as corridas que consideram mais lucrativas. Por exemplo, se a distância para pegar o passageiro for superior a dois quilômetros, muitos o rejeitam, pois esse trajeto não será remunerado pela plataforma.

É difícil exigir excelência de um trabalho precarizado. E aí chegamos ao ponto de inviabilidade do próprio conceito.

 

A história da Uber

Na noite de 31 de dezembro de 2008, Travis Kalanick e Garrett Camp não conseguiam um táxi em uma Paris debaixo da neve. Para voltar ao seu hotel, aceitaram pagar US$ 800 a um táxi executivo que se dispôs a fazer o serviço quando ninguém mais queria. Dessa experiência, os dois colegas decidiram criar uma empresa que juntasse motoristas e passageiros, com vantagens para ambos.

O serviço entrou em teste em março de 2009 em San Francisco (EUA) e foi lançado oficialmente em julho de 2010. A Uber nasceu como uma maneira de oferecer transporte executivo de maneira relativamente econômica, apenas com carros de luxo e motoristas bem preparados.

Com o tempo, foi se expandindo e versões cada vez mais populares foram sendo incorporadas ao serviço. Com isso, o preço caiu muito, democratizando o transporte público individual, mas arrastando a qualidade para baixo. De qualquer forma, a população em geral encontrou uma maneira de se ver livre do transporte público coletivo –visto como barato, porém demorado e desconfortável– e dos táxis –considerados caros e com a reputação manchada por alguns maus motoristas.

Mas com esse barateamento, o modelo executivo originalmente bem desenhado começou a ficar muito dependente de preços baixos. Criou-se um equilíbrio instável, sem espaço para elementos desorganizadores. Por isso, a pandemia desestruturou o serviço quando os passageiros desapareceram. Com a retomada da economia, a demanda voltou a crescer, mas já não havia tantos motoristas disponíveis.

Some-se a isso a bagunça que se tornou a economia brasileira, com inflação e desemprego muito altos, juros galopantes e –o que é particularmente crítico aqui– preços dos combustíveis aumentando explosivamente. Assim, o equilíbrio do negócio foi comprometido. E isso não se aplica apenas à Uber, mas ao próprio modelo. Não é de se estranhar, portanto, que a concorrente espanhola Cabify, apesar de continuar operando em outros países, tenha encerrado a operação brasileira em junho.

Suprema ironia, a população vem trocando a Uber pelos táxis, pois a qualidade do seu serviço agora é vista como superior. Pelo menos, não cancelam as corridas.

 

O que poderia ser feito

Quando a Uber chegou ao Brasil, ficava com uma parcela fixa de 7% do valor da corrida. Com o tempo, isso foi aumentando, chegando a 25%. Mas, desde 2018, a porcentagem fixa não é mais aplicada, com um desconto variável em cada caso. Segundo os motoristas, isso pode passar de 40% do valor da corrida!

Tentei falar com um representante da empresa para esclarecer melhor esses pontos, mas o que consegui foi apenas uma nota oficial. Ela reconhece o problema dos cancelamentos, mas não oferece nenhuma solução. Sobre a dificuldade dos motoristas, explica que a empresa lhes oferece parcerias para descontos em planos de saúde, academias, escolas e outros estabelecimentos.

Mas claramente evita tocar no ponto crítico do ganho dos motoristas. A única parceria que ajuda nisso é um sistema de cashback de 4% para abastecimentos em uma rede específica de postos. Muito pouco para esse cenário desesperador!

A “solução” recai, portanto, sobre a tarifa dinâmica, em que o passageiro paga mais quando há poucos motoristas dispostos a aceitar sua corrida. Mas isso é quase uma perversão do sistema, pois essa tarifa deveria acontecer apenas em uma situação de grande procura, e não como fórmula regular para motoristas terem ganhos dignos.

Claro que, como toda empresa, a Uber e seus concorrentes precisam manter a operação e ter lucros. Mas, em um cenário de crise como a que o Brasil enfrenta hoje, todos precisam colocar de sua parte, até mesmo reduzindo sua parcela nos ganhos ou pagando mais pelo serviço, se for necessário.

Não se trata de uma visão “romântica” ou simplista da economia. A proposta dos aplicativos de transporte está sendo alvejada pelos seus dois clientes: os passageiros e os motoristas.

Se nenhum movimento que vise realmente resolver o problema for feito, o modelo, que foi tão brilhantemente construído e revolucionou a mobilidade urbana mundial, pode se tornar inviável muito em breve, pelo menos aqui no Brasil. E aí, todo mundo –exceto os táxis– perderá: a própria empresa, os motoristas e os passageiros.

Para evitar o Burnout, fale com o chefe-robô

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A partir de 1 de janeiro, a Síndrome de Burnout passará a ser classificada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um “fenômeno ligado ao trabalho” e não mais um problema de saúde mental ou um quadro psiquiátrico. Isso pode ter um grande impacto na relação entre profissionais e empresas e em processos trabalhistas, pois os empregadores poderão ser responsabilizados pelo problema, tendo até mesmo que indenizar os trabalhadores que desenvolverem esse quadro.

O papel do gestor torna-se ainda mais importante nesse novo cenário, pois ele é responsável, direta ou indiretamente, por ação ou por omissão, por um eventual esgotamento da equipe. Por isso, uma pesquisa realizada pela Oracle e pela Workplace Intelligence se torna ainda mais emblemática. Segundo esse levantamento, 68% dos profissionais preferem falar com um robô sobre estresse e ansiedade no lugar de seus gestores.


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A Síndrome de Burnout sempre existiu, em maior ou menor escala. Ela consiste em um esgotamento profundo do profissional por uma carga excessiva de trabalho. Mas ganhou destaque há alguns anos, pelo aumento da sua ocorrência em todo o mundo, inclusive no Brasil. Segundo a OMS, os seus sintomas incluem sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho e eficácia profissional reduzida.

Sua classificação como “fenômeno ligado ao trabalho” pelo órgão vem de 2019, mas passa a valer na virada do ano com a entrada em vigor da 11ª edição da CID, a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. A CID é um documento que define globalmente os problemas de saúde, e essa edição resulta de mais de uma década de pesquisas.

Na CID-11, a Síndrome de Burnout é descrita como “estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso”. Na edição anterior, ela era considerada como um problema na saúde mental e um quadro psiquiátrico.

Essa descrição já deixa clara a importância da figura do gestor. Afinal de contas, salvo no caso de profissionais autônomos, é ele quem determina o que, quanto e em que ritmo cada profissional de sua equipe deve trabalhar. Ele pode falhar nessa administração do trabalho tanto por exigir demasiadamente do time, quanto por não observar e gerenciar abusos ou desvios de conduta de alguns de seus membros. Logo, o desenvolvimento de quadros de Burnout na equipe recai sobre o gestor e, por extensão, sobre a empresa, até mesmo na esfera legal.

Certa vez, vi uma definição que serve muito bem aqui. Ela dizia que, enquanto ainda não somos gestores, produzimos valor a partir de nossa força de trabalho, mas, quando nos tornamos, produzimos valor a partir da força de trabalho dos outros.

Por isso, entre as atribuições do gestor, está criar possibilidades, oferecer recursos e remover barreiras para que os membros da equipe realizem um bom trabalho, extraindo o melhor que cada um tem a oferecer. Um bom gestor tem uma equipe produtiva e feliz!

Poderíamos dizer até que a eficiência da gestão pode ser medida pela quantidade de quadros de esgotamento em um time. Se há muitos casos, é hora de trocar de gestor.

 

Liderança com inteligência artificial

Diante disso tudo, fica fácil entender o sucesso de empresas que oferecem uma gestão mais humanizada, com o foco nas pessoas da organização. Profissionais mais felizes, com boas condições de trabalho, que são ouvidos e participam de decisões, tendem a produzir mais e melhor, sem adoecer por isso.

O gestor precisa, portanto, desenvolver um perfil igualmente humanizado, para oferecer um ambiente positivo, de confiança e de trocas construtivas na equipe. Deve ser capaz de identificar o que vai bem e o que vai mal entre seus membros e tomar ações necessárias a partir disso. E, finalmente, precisa ser capaz de ouvir com empatia o que as pessoas têm a dizer.

Por isso, a pesquisa da gigante de software Oracle e da consultoria de RH Workplace Intelligence se torna ainda mais emblemática. A edição de 2020, realizada com mais de 12 mil profissionais de 11 países (inclusive do Brasil), identificou que 68% da força de trabalho prefere falar com um sistema com inteligência artificial sobre estresse e ansiedade a fazer isso com seu gestor. No Brasil, esse número é de 64%.

Tanto é assim que a grande maioria dos entrevistados (86% no Brasil e 80% no mundo) está aberta a ter um robô como terapeuta ou conselheiro. Para 87% dos brasileiros, a inteligência artificial os ajudou com sua saúde mental no trabalho. Os principais benefícios indicados foram informações para fazer seu trabalho com mais eficiência (42%), automatizar tarefas e reduzir a carga para evitar o Burnout (41%) e reduzir o estresse ajudando a priorizar tarefas (34%).

A edição de 2021 desse mesmo estudo, que entrevistou mais de 14 mil pessoas em 13 países, indica que essa preferência por “chefes-robôs” continua. Para 82% dos profissionais, os robôs podem apoiar o desenvolvimento de suas carreiras melhor do que os humanos. Eles acreditam que os sistemas são melhores em dar recomendações imparciais (37%), fornecer recursos adaptados às habilidades ou objetivos (33%), responder rapidamente a perguntas sobre sua carreira (33%) e encontrar novos empregos que se encaixem em suas habilidades (32%).

Mas nem tudo está perdido para os gestores humanos. A edição mais recente da pesquisa aponta que as pessoas ainda são melhores em oferecer conselhos com base na experiência pessoal (46%), identificar pontos fortes e fracos (44%), olhar além de um currículo para recomendar funções que se encaixem em sua personalidade (41%) e fornecer recomendações para novos empregos ou funções (38%).

Não é de hoje que se discute a diferença entre um “chefe” e um “líder”. O primeiro é aquele que manda, que exige, que critica, que pune, colocando-se acima da equipe. Já o segundo acompanha, orienta, ensina e incentiva, posicionando-se como parte do time. O “chefe” responsabiliza a equipe pelos fracassos, enquanto o “líder” vibra com todos pelos sucessos.

A diferença não é sutil e aparece muito claramente nessas pesquisas. As pessoas querem condições para realizar um bom trabalho, e fazem isso se são atendidas. Além disso, em um mundo que ainda sente os efeitos da pandemia, com estresse e desorientação de carreiras, buscando novos formatos de trabalho, o equilíbrio da vida pessoal e profissional fica ainda mais importante.

É uma pena que ainda tenhamos muito mais “chefes” que “líderes”, pois todos perdem com isso. Empresas que já sentiram os ventos da mudança investem em gestões mais humanizadas. Por outro lado, chefes que continuam a tratar os membros de sua equipe como máquinas acabarão sendo substituídos por robôs.

Será que teremos que chegar a isso para finalmente entender a importância do ser humano?