“O Outro Lado das Redes” explica didaticamente como somos manipulados

By 26 de outubro de 2026 Jornalismo, Tecnologia No Comments
Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) e Frances Haugen (Mikey Madison), em cena do filme “O Outro Lado das Redes” - Foto: reprodução

Como tornar interessante uma história que todos conhecemos e que nos afeta diariamente? O filme “O Outro Lado das Redes”, que estreou nos cinemas na quinta passada (22), consegue essa façanha, explicando didaticamente como as redes sociais manipulam bilhões de pessoas.

Inspirada em fatos reais, a produção dramatiza como a engenheira Frances Haugen, que trabalhava na equipe de Integridade Cívica do Facebook, revelou documentos internos da empresa ao jornalista Jeff Horwitz, que os transformou em uma série de reportagens no “The Wall Street Journal”, batizada de “Facebook Files”.

Elas revelaram o que acontece quando uma plataforma que promete conectar pessoas descobre que conteúdos capazes de provocar indignação, medo e conflito geram muito engajamento e passa a incentivar isso ativamente. Haugen, que adorava seu trabalho e acreditava no discurso oficial da empresa (que passou a se chamar Meta após o escândalo), tomou essa decisão ao observar, empiricamente e com dados da companhia, como o serviço desinformava e radicalizava seus usuários.

Contarei aqui partes da história, mas não tenho medo de “dar spoilers”, pois tudo é amplamente conhecido e documentado. É como assistir a “Titanic” sabendo que o transatlântico afundará no final. A diferença é que, neste caso, estamos nos debatendo o tempo todo dentro do barco condenado, enquanto a banda continua tocando.

Por isso, o mais interessante do filme não é demonstrar que o Facebook nos faz mal, mas explicar como seu funcionamento favorece esses danos. Ao transformar uma discussão técnica em um conflito sobre responsabilidade empresarial, a obra deixa claro que, pior que as publicações nocivas na plataforma, as decisões sobre como distribuí-las e os incentivos comerciais por trás disso podem ampliar seu alcance.


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“O Outro Lado das Redes” importa menos pelo que revela sobre as redes sociais e mais pela maneira como organiza problemas que continuam sem solução. O diretor e roteirista Aaron Sorkin transformou uma investigação jornalística em um drama sobre poder, responsabilidade e a falta de transparência em uma indústria que influencia como bilhões de pessoas se informam, se relacionam e interpretam o mundo.

Ao contrário do que insistem em dizer, essas plataformas não são neutras. Seus algoritmos de recomendação não espelham os interesses do público, sendo desenvolvidos para atender aos objetivos do negócio, que incluem retenção, engajamento e receitas publicitárias. Quando determinados conteúdos provocam reações intensas, eles acabam sendo favorecidos pelos sistemas de distribuição, mesmo quando produzem consequências sociais muito negativas.

O filme torna compreensível esse debate de uma maneira que talvez muita gente não tenha entendido acompanhando a extensa cobertura da imprensa, em 2021. Ao transformar documentos e decisões técnicas em evidências de interesse público contadas em uma história de 112 minutos, o roteiro se torna um enorme serviço à sociedade.

Sorkin já havia falado do Facebook no filme “A Rede Social”, de 2010, quando mostrou a formação da empresa com ações questionáveis e conflitos entre seus fundadores. Agora, há uma mudança de escala moral e política, ao acompanhar as consequências de uma plataforma interferindo na circulação de informações e no debate público.

A relação entre Haugen (interpretada por Mikey Madison) e Horwitz (vivido por Jeremy Allen White) é o coração da narrativa. Ela evidencia como a única forma de sabermos como funciona uma empresa nada transparente que molda nossas vidas é alguém de dentro contar.

 

O poder não se resume ao dinheiro

Mark Zuckerberg foi vivido por Jeremy Strong, depois que Jesse Eisenberg, que o interpretou em “A Rede Social”, se recusou a repetir o papel. Apesar de ter sido indicado ao Oscar de melhor ator por aquele trabalho, ele declarou publicamente que “não queria ser associado àquele cara novamente”, pois o CEO da Meta seria “uma pessoa que não se importa com as pessoas”.

O filme indica isso várias vezes. Em uma cena central, a equipe de Integridade Cívica sugere a Zuckerberg uma alteração no algoritmo que reduziria a desinformação em 38%, ao custo de uma queda de apenas 1% no engajamento total. Não se tratava de apagar publicações nocivas, nem de que os danos seriam uma consequência inevitável da existência da rede. Bastaria adotar critérios de distribuição de conteúdo mais saudáveis. O CEO rejeitou a proposta e logo depois a equipe foi dissolvida.

Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Congresso dos Estados Unidos, funcionam como o ápice político da história. A sequência conecta a discussão sobre algoritmos a consequências concretas para as instituições democráticas e questiona até que ponto uma plataforma deve responder pelo ambiente informacional que ajuda a construir.

Em outra cena, Haugen pergunta a Horwitz se é possível levar poderosos a mudar. Sua resposta é contundente: “Quando é por dinheiro, é difícil. Quando não é por dinheiro, é ainda mais difícil.” De fato, em uma entrevista à “Entertainment Weekly” no dia 9, Sorkin sugeriu que o dinheiro já não move um multibilionário como Zuckerberg, que passa a se guiar por crenças como a do “absolutismo da liberdade de expressão”.

Isso também torna mais complexo o contraste entre a expressiva redução da desinformação e a pequena queda no engajamento. Não se trataria apenas de Zuckerberg querer “ganhar mais”, mas de não aceitar que lhe digam como sua plataforma deve funcionar. Vale dizer que essa é uma leitura dramática, e não uma comprovação das motivações do Zuckerberg real.

Haugen buscou proteção jurídica ao denunciar o Facebook. Isso não lhe dava imunidade pelo vazamento à imprensa, mas processá-la imporia à Meta riscos jurídicos e reputacionais, pois poderia ser vista como uma corporação tentando silenciar quem expôs seus problemas. Em vez disso, a empresa preferiu seguir o padrão das big techs e contestou as acusações.

O fim do filme deixa um gosto amargo. Ele mostra como o jornalismo investigativo continua indispensável para a sociedade, mas como mesmo uma reportagem exemplar pode não ser suficiente para mudar interesses que prejudicam milhões de pessoas. De lá para cá, o poder político e econômico da Meta só aumentou.

E cá estamos nós hoje, debatendo se a Meta influencia as eleições do Brasil, dos EUA ou de onde mais quiser. Ainda assim, quero crer que o sacrifício de Haugen não tenha sido em vão.