corrupção

A desgraça do nosso país passa por reduzir sua profissão mais importante a um “bico”

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Anúncio da rede Anhanguera, oferecendo formação de professores como “segunda carreira” - foto: reprodução

Anúncio da rede Anhanguera, oferecendo formação de professores como “segunda carreira”

A terrível crise que draga o Brasil há pelo menos quatro anos continua firme e forte. A sociedade bate cabeça tentando explicar como chegamos a isso e principalmente como sair dessa situação. Nesse cenário, duas péssimas notícias ligadas à educação brasileira, que ganharam as manchetes recentemente, servem para nos ajudar a entender tudo isso.

A primeira delas se refere a dois infames anúncios publicados recentemente pelas redes Anhanguera Educacional e Unopar, ambas da Kroton Educacional. A outra se refere à agressão a uma professora de Santa Catarina por um aluno adolescente. Não proponho aqui uma simples defesa dos professores, mas sim trazer para o debate como a má educação está na raiz das mazelas do nosso país, e como uma boa educação pode nos levar a vencer tudo isso.


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Desde sempre, defendo como a educação é o melhor caminho para que o país resolva os seus problemas. A explicação é simples: qualquer país que tem uma população (e isso vale para todos seus cidadãos) bem educada, conhecedora de seus direitos e também de seus deveres, com consciência cívica e responsabilidade social, progride a passos largos. E isso acontece porque cada um sabe e cumpre seu papel, e também cobra adequadamente que todos –e não apenas os governantes– façam o mesmo.

A realidade é, entretanto, muito mais complexa, e nos afastamos cada vez mais do bom caminho. Nossa educação, do ensino infantil à pós-graduação, coleciona indicadores vergonhosos. Mas ela é apenas o reflexo de uma sociedade que se orgulha e folcloriza o ‘jeitinho brasileiro”, um nome “fofo” para a corrupção que cada um de nós pratica no dia a dia. É o país que criou a “Lei do Gerson”, onde “esperto” é aquele que tira vantagem de tudo, mesmo que isso inevitavelmente signifique prejudicar o próximo. Essa também é a sociedade cada vez mais radical em suas visões políticas, em que “você está comigo ou contra mim”, quando, na verdade, são todos farinha do mesmo saco (e, pior, sabemos disso).

E por falar em farinha, se o que manda é o conceito de que “farinha pouca, meu pirão primeiro”, como esperar que a boa educação, capaz de formar cidadãos que queiram construir uma sociedade justa para todos, seja valorizada?

 

Por que o professor vale tão pouco

Nos anúncios da Anhanguera e da Unopar, a mensagem é contundente: “torne-se professor e aumente sua renda”. Em outras palavras, a atividade de professor é vendida como um “bico”.

As peças publicitárias provocaram uma enxurrada de críticas, a ponto de as terem que ser retiradas de circulação, com um pedido de desculpas pela nota abaixo:


“Erramos. Nós, da Anhanguera, pedimos desculpas pela mensagem equivocada sobre a função e a importância dos professores. A campanha de marketing que causou mal-estar não representa o que nós, como instituição de ensino, acreditamos, e foi retirada do ar. Nossa intenção com o curso de Formação Pedagógica é incentivar que profissionais já formados possam ter também essa habilitação e contribuir para a resolução do déficit de professores que o Brasil enfrenta. Acreditamos que, promovendo a docência, temos o caminho para o desenvolvimento social e econômico do país. Por fim, esclarecemos que, esta campanha, em específico, não foi submetida à análise prévia do Luciano Huck e de sua equipe”.


Não vejo problema de outros profissionais investirem seu tempo livre na sala de aula. Muito pelo contrário: nada melhor que pessoas capacitadas compartilhando o que sabem! Mas que façam isso por vocação, por prazer, não apenas para “ganhar uns trocados”.

O mais triste nessa história toda não é a péssima mensagem passada pelas peças, mas o fato de alguém ter pensado nelas. Não nos enganemos: se a equipe criativa da agência bolou a campanha e alguém do grupo educacional a aprovou é porque, ainda que no seu subconsciente, essas pessoas realmente acreditam que ensinar pode ser um “bico”.

E nem podemos crucificar esses indivíduos, pois eles pensam assim porque a sociedade brasileira, de uma maneira geral, pensa exatamente dessa forma! Qual professor nunca ouviu a infame pergunta de seus alunos: “além de dar aula, você trabalha?” Eu mesmo já ouvi isso várias vezes.

Por que um médico, um engenheiro, um advogado (só para ficar em algumas das carreiras mais desejadas pelos jovens) nunca ouvem uma pergunta dessa? Porque o inconsciente coletivo brasileiro “sabe” que é necessário estudar muito para exercer tais profissões. Já o professor é visto como uma segunda carreira ou –e isso é de lascar– vai ser professor aquela pessoa que “não consegue ser mais nada”.

Essa ideia é reforçada pelas péssimas políticas educacionais, pela crescente e constante desvalorização do professor por todos os governos municipais, estaduais e federal, por condições deploráveis de trabalho e salários obscenos. Some tudo isso a esse inconsciente coletivo, e você começa a ter, na média, profissionais com nível cada vez mais baixo nas salas de aula. Claro! Haja vocação para insistir nessa carreira!

Como podemos esperar um país melhor se o profissional responsável por formar todos os demais profissionais não tem nenhum valor?

Não podemos.

 

Como construir um tigre asiático

Diante de tamanha desvalorização, vemos casos recorrentes de agressões contra professores, realizadas por pais e até mesmo por alunos. Foi o que aconteceu com a professora Marcia Friggi, de 51 anos, esbofeteada por um aluno de 15, cujo caso foi mencionado no início desse artigo. Mas o pior veio depois: nas redes sociais, muitas pessoas apoiaram a professora, mas também muitos outros a insultaram, dizendo que ela mereceu a agressão!

Difícil dizer o que é mais bizarro nesse caso.

A desvalorização do professor pela sociedade, culminando tanto nas agressões quanto na desmotivação dos docentes, foi brilhantemente explicado no documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, de João Jardim (2005), que pode ser visto na íntegra abaixo (88 minutos):



Cria-se, portanto, um círculo vicioso: a sociedade não consegue melhorar e valorizar os professores, por isso eles ficam cada vez piores, e isso torna a sociedade ainda pior, desvalorizando mais e mais os docentes.

Olhando de fora, parece que não temos saída. É possível romper isso? Sim! Basta ver o exemplo da Coreia do Sul.

Trabalhei alguns anos na Samsung, onde aprendi muito sobre a cultura e a história do seu país de origem. Algumas coisas me surpreenderam, e poderiam ser aplicadas aqui.

Por exemplo, antes da guerra civil (1950 a 1953), que dividiu o país em dois, a Coreia era a nação mais pobre do mundo, muito mais pobre que o Brasil na época! Após a divisão, a Coreia do Sul, a despeito de inúmeros problemas políticos, investiu pesadamente em educação, de uma maneira consistente –ou seja, a coisa não ficava mudando a cada novo governo. Outra característica da educação sul-coreana é que apenas os melhores entre os melhores da sociedade podem ser professores. Portanto, ser professor lá é uma grande honra, uma carreira muito valorizada e admirada por todos.

Mesmo assim, foram necessários 30 anos para o país miserável se transformar em um tigre asiático. Como se pode ver, não se trata de uma tarefa simples nem rápida, mas é possível.

O Brasil de hoje está em uma situação econômica incomparavelmente melhor que a Coreia pré-divisão. E, apesar de vivermos a pior crise de nossa história, nada impede que criemos e implantemos uma política educacional séria, consistente e de longo prazo, ou seja, que transcenda o fim de cada governo.

A crise econômica, os escândalos políticos, a corrupção infinita e endêmica, o “jeitinho brasileiro”, a violência urbana, as desigualdades sociais… Tudo isso e muito mais só acontece porque somos uma nação mal educada.

Nada, nem mesmo inclusão econômica de classes menos favorecidas, resolverá qualquer um desses problemas. Se realmente quisermos um país que seja bom para vivermos e do qual nos orgulhemos, precisamos investir na educação. Isso significa cobrar dos governantes mais seriedade nessa área, participar ativamente das atividades das escolas de nossos filhos, colaborar, como empresas, com iniciativas educacionais. Todos precisam dar a sua contribuição!

Mas, acima de tudo, isso devemos valorizar o professor. Sem isso, nunca sairemos do buraco onde estamos.


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Se a carne é fraca, as redes sociais são fortes e a imprensa é mole

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Foto: Nicola Albertini/ Creative Commons

Os resultados preliminares da “Operação Carne Fraca” da Polícia Federal jogaram na lona esse setor da indústria de alimentos nacional. Enquanto importadores essenciais anunciavam restrições à carne brasileira, usuários transformavam as redes sociais no palco de grandes embates (e muitas piadas) sobre o caso, abalando ainda mais a confiança do consumidor. Mas qual é nosso papel nesse salseiro todo?

Passados cinco dias, a impressão que eu tenho é que ninguém sabe ainda qual é a verdade! Assim mesmo, as pessoas continuam se prestando a disseminar versões questionáveis. E tudo isso só acontece porque a imprensa não está fazendo seu trabalho direito. Mas dá para jogar toda a culpa nela?


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A imprensa está construindo todo o seu noticiário em cima de apenas três fontes: a própria Polícia Federal, o governo e a indústria da carne. O problema é que todos eles têm interesses fortíssimos envolvidos no caso. A Polícia Federal é a “dona” da operação e a origem das denúncias; o Governo Federal luta para salvar a imagem do produto brasileiro no exterior (e, de quebra, evitar ainda mais o desgaste da sua própria); e a indústria da carne tenta obviamente salvar a sua reputação e o próprio negócio.

Assim, com poucas e nobres exceções (e é importante frisar que elas existem), o noticiário vem sendo construído a partir do relato desses envolvidos. E só! A maioria dos veículos sequer ouve especialistas independentes! Como é possível o público entender, de verdade, o que está acontecendo, se todas as fontes têm interesses conflitantes, e até mesmo tentam desqualificar os outros lados?

A crise evoluiu rapidamente. A PF soltou a bomba na sexta, anunciada como a maior operação já realizada pela instituição. Empresas, governo e a imprensa foram pegos de calças curtas, e começaram a bater cabeça, cada um do seu lado. Redes sociais foram à loucura com posts de todo tipo. Empresas se defenderam como puderam, e o governo tentou acalmar os compradores internacionais, que anunciaram restrições à carne brasileira. Críticas de todos os lados empurraram a equipe da PF contra a parede, que, na segunda, se defendeu das acusações de sensacionalismo e precipitação, dizendo que “muitos fatos ainda estão sob sigilo e muitas provas ainda serão apresentadas”. Apenas um dia depois, a mesma PF jogou panos quentes, afirmando que foram apenas “problemas pontuais”.

Tudo isso em apenas cinco dias!

A imprensa continua no seu papel de menino de recados. E as redes sociais colocando lenha na fogueira.

 

Caixa de ressonância digital

Como já aconteceu em várias outras ocasiões, especialmente as envolvidas em assuntos de grande comoção social, a imprensa foi a origem do noticiário, enquanto as redes sociais funcionaram como perfeitas caixas de ressonância. Na verdade, dá para dizer que esse já é um padrão comportamental bem estabelecido, o que é perigosíssimo!

O processo é simples -e perverso. Começa com indivíduos selecionando versões de fatos noticiados pela imprensa. Normalmente fazem isso com algo que sejam francamente favoráveis ou contrários: no primeiro caso, defendem a tese com unhas e dentes; no segundo, partem para o ataque. Se o assunto os atingir pessoalmente, fica ainda mais fácil abraçar a causa.

Os locais onde todo esse engajamento acontece são as redes sociais. Se já não bastasse a natureza humana de se associar a indivíduos ou temas com os quais concorde, os algoritmos de relevância de Facebook e afins tratam de jogar na nossa cara apenas aquilo que nos deixa confortável, que gostamos. Isso é mais que suficiente para que uma versão se transforme em uma “verdade incontestável”.

Como já disse, ainda não tenho elementos para saber qual é a verdade nos casos apontados pela “Carne Fraca”. Acho que toda forma de corrupção deve ser exemplarmente combatida, mas e se houve mesmo precipitação e até sensacionalismo pela equipe responsável da Polícia Federal? E se toda essa milionária crise comercial tiver sido causada por uns poucos indivíduos agindo pontualmente?

Se isso se confirmar, a imprensa terá cometido uma falha gravíssima. E todo mundo terá corrido atrás dela, para jogar as suas pedrinhas.

 

A “escolinha do sexo”

Não teria sido a primeira vez que isso teria acontecido. E infelizmente não será a última.

A dinâmica dos fatos me fez lembrar de um caso que que virou objeto de estuda nas faculdades de Jornalismo: em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do Instituto Médico Legal informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”.


Capa do extinto "Notícias Populares" sobre o caso da Escola Base - foto: reprodução

Capa do extinto “Notícias Populares” sobre o caso da Escola Base

 

Casa que abrigava a Escola Base, na Aclimação, em São Paulo - foto: reprodução

Casa que abrigava a Escola Base, na Aclimação, em São Paulo


Isso foi suficiente para que o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocasse a imprensa e botasse a boca no trombone, condenando previamente os envolvidos. Começando pelo Jornal Nacional, a onda de denúncia se espalhou por toda a imprensa, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não surfaram nela por acharem que não havia provas.

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Além de falidos, tiveram que se mudar, pois foram ameaçados de morte. Porém, quando a investigação foi concluída, veio o choque: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito.

E isso tudo aconteceu em 1994! Portanto, antes do poder de propagação das redes sociais. Na verdade, antes mesmo da liberação da Internet comercial.

 

Desconfiança saudável

Apesar da terrível crise pela qual a imprensa vem passando, especialmente os veículos mais tradicionais, o noticiário ainda tem grande peso na vida das pessoas. E isso fica ainda mais forte em casos como o da “Operação Carne Fraca”, com fontes oficiais despejando um monte de evidências que incriminariam empresas e fiscais que estariam colocando “comida estragada” em nossas mesas. Para piorar, em um cotidiano em que a corrupção parece brotar o tempo todo de todos os lugares, o combate a ela virou uma questão de vida ou morte.

Muita calma nessa hora! Não podemos acreditar piamente em ninguém: nem na Polícia Federal, nem na imprensa, nem nas empresas, nem no governo! Não temos elementos para concluir coisa alguma com certeza. Portanto, nada de vestir a armadura de paladino digital e sair esculhambando ou defendendo ninguém.

Qualquer jornalista aprende que deve desconfiar de tudo e de todos sempre. Afinal, interesses podem alterar dramaticamente o posicionamento de pessoas, empresas e instituições. Mas essa desconfiança saudável serve para qualquer um, especialmente em tempos em que a opinião de qualquer cidadão tem grande peso, graças aos meios digitais.

Sei que é muito sedutor ver uma postagem no Facebook que nos atinge e “pensar com o fígado”. Como o algoritmo de relevância ainda nos mostra que muitos de nossos amigos também pensam o mesmo, abandonamos a nossa capacidade de questionar e embarcamos na loucura.

É muito triste, portanto, quando se percebe que a origem da confusão toda está exatamente na imprensa, aquela que vive para cavoucar a verdade, esteja onde estiver, doa a quem doer, mas que parece estar se esquecendo dessa sua nobre e essencial tarefa.

O desenvolvimento de uma sociedade está intimamente ligado a uma imprensa livre, mas também a uma imprensa preparada e responsável. Temos que lutar para que isso sempre exista, posicionando-nos contra a censura, mas exigindo também comprometimento dos profissionais. Pois, sem essas três características, o resultado de seu trabalho fica irremediavelmente comprometido. E aí os detentores do poder político e econômico deitam e rolam.

Paralelamente, cada um de nós também tem a responsabilidade de não acreditar em tudo e todos tão facilmente. Criemos um uso mais consciente, crítico e construtivo das redes sociais, para o nosso bem e para o de toda a sociedade.

Afinal, já existem meninos de recado demais por aí.


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Dá para melhorar o Brasil?

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O deputado Jean Wyllys (de vermelho) cospe no deputado Jair Bolsonaro (com braços levantados) em plena Câmara dos Deputados - Foto: reprodução

O deputado Jean Wyllys (de vermelho) cospe no deputado Jair Bolsonaro (com braços levantados) em plena Câmara dos Deputados

Há dez dias, assistimos a um espetáculo de fanfarronice de deputados governistas e oposicionistas na votação do impeachment na Câmara. Transformaram seus segundos de fama diante de uma enorme audiência em um palanque grotesco. Mas aquilo pode nos ensinar muito sobre o caminho para melhorar o Brasil.

Desde aquele fatídico domingo, as redes sociais têm sido tomadas por todo tipo de manifestação a favor ou contra tudo que foi visto lá. Naturalmente alguns deputados acabaram ganhando mais destaque, infelizmente menos pelas suas ideias e mais por cenas bizarras que protagonizaram. Diante disso, nós nos indignamos, rimos e até ridicularizamos alguns. Mas, assim como os deputados, muitos fizeram isso levados pela emoção e por seguir o clamor popular, em um verdadeiro efeito-manada político, sem a devida reflexão.


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Será que não estamos ridicularizando a nós mesmos?

Apesar de toda repulsa que isso nos causa, não podemos esquecer que aquele circo representa as crenças da população.

Sei que pode parecer horrível dizer isso e muito difícil admitir tal coisa. Mas todas aquelas pessoas foram eleitas pelo que pensam ou pelo que representam na sociedade. Para comprovar isso, basta considerar os deputados Jean Wyllys e Jair Bolsonaro. Ambos habitam extremos opostos da sociedade e estão constantemente entrando em conflito na Câmara. Na votação acima, Bolsonaro provocou Wyllys logo após ele ter votado e recebeu, em troca, uma cusparada.

As atitudes de ambos são condenáveis. Não obstante, é bem fácil encontrar grupos que os defendem, mesmo depois de mais esse confronto. E não poderia ser diferente, pois seus posicionamentos são os mesmos desses grupos sociais. Por isso, essas pessoas os elegeram e os continuam apoiando.

Bolsonaro e Wyllys são apenas dois exemplos, mas a Câmara é povoada por seres que representam os ideais de grupos específicos, que podem parecer aberrações ao resto da população. Mas esse é o jogo democrático.

O que me leva à pergunta fatídica: por que o Congresso Nacional, a exemplo da sociedade que o elege, se transformou em um circo de horrores?

 

“Espelho mágico, espelho meu”

O Congresso Nacional –e na verdade os três poderes nas três esferas– representam o povo. Precisamos então pensar no que levou a sociedade a esse ponto e como melhorar isso.

Vivemos um vale-tudo cuja raiz está no Brasil Colônia. Nesse cenário, ganha quem é mais forte, grita mais alto, é mais malandro ou simplesmente porque “está pagando”.

Como poderia ser diferente se a história brasileira começou com a Coroa Portuguesa despachando a escória da sua sociedade para colonizar suas novas terras? Some-se a isso o completo desprezo da Metrópole pelo desenvolvimento da Colônia, escravidão e uma completa falta de acesso à educação, e você tem elementos de nossa cultura que foram cultivados ao longo de séculos. Como resultado, temos a corrupção endêmica, o “jeitinho brasileiro” (que, a despeito do romantismo que lhe conferem, também é corrupção), o suborno ao guarda, o pouco caso com leis e instituições, a “Lei do Gerson”, o “você sabe com quem está falando” e muitos outros comportamentos da mesma estirpe.

De uns tempos para cá, a situação só vem piorando. Em uma sociedade em que é muito mais importante “ter” que “ser”, o vale-tudo descambou para a população querendo se armar e tendo mais medo da polícia que dos bandidos em algumas regiões, os falidos serviços essenciais do Estado sendo substituídos por versões privadas (o que enfraquece ainda mais o Estado), a busca inconsequente por todo tipo de prazer e a vontade de fazer justiça com as próprias mãos. Afinal, hoje se mata por muito pouco (ou por nada) no Brasil. Desse caldo, florescem o ódio, o radicalismo e a inconsequência.

 

A única saída

Naturalmente, todas essas medidas só fazem piorar ainda mais a situação. A sociedade brasileira é como uma enorme roda girando cada vez mais rapidamente no sentido da intolerância autodestrutiva. E tudo o que foi dito acima acelerará mais e mais essa roda, até um ponto em que não será mais possível detê-la. E então o Brasil estará condenado. Viveremos em um “Mad Max” cotidiano.

Claramente o que temos que fazer é desacelerar a roda, forçando uma rotação contrária. E isso implica em, primeiramente, parar de fazer tudo o que foi dito acima. O vale-tudo, o “jeitinho brasileiro”, a “Lei do Gerson” e a justiça pelas próprias mãos são cânceres que estão matando o Brasil.

Mas isso ainda não será suficiente. Outro fator essencial para “curarmos” nossa sociedade é investir pesadamente em educação. Educação séria, de qualidade, ampla e para todos.

Simples, não é? Nem tanto, infelizmente…

O primeiro obstáculo é convencer a população a abandonar esses maus hábitos. E isso significa lutar contra um sentimento de que, se deixar de fazer isso, acabará sendo “passado para trás” pelos que não fizerem o mesmo. E desgraçadamente isso acontecerá em muitos casos. Mas é necessário resistir e não ter uma recaída para o “lado negro”. E sempre contagiar o próximo para o que é certo.

A segunda grande barreira é convencer o governo a levar a educação com seriedade, melhorando a formação e as condições de trabalho dos professores, devolvendo-lhes autoridade e autoestima, criando uma base curricular realmente de excelência e trazendo a sociedade para dentro da escola. E isso para todos os brasileiros! Mas os políticos preferem uma massa ignorante e fácil de manipular. Portanto o governo não faz isso direito desde… bem, desde sempre.

Gosto muito do exemplo da Coreia do Sul. Em 1950, a Coreia era considerado o país mais pobre do mundo, muito mais pobre que o Brasil da época. Após o fim da guerra que consolidou a divisão do país entre o norte socialista e o sul capitalista, este último começou um intenso e consistente programa de educação de toda a população. Com resultado, depois de 35 anos, a Coreia do Sul saiu da miséria para figurar entre os Tigres Asiáticos. Hoje é considerada a 13º maior economia do mundo, com o 17º melhor Índice de Desenvolvimento Humano.

E foram necessárias apenas algumas décadas…

Portanto, se fizermos tudo o que precisamos, não teremos resultados no ano que vem. Nem na década que vem. Afinal, temos que arrumar uma bagunça de 516 anos! Portanto, temos que ser persistentes, sem esmorecer diante dos obstáculos que certamente surgirão. E aí, daqui a uns 50 anos, o brasileiro poderá bater no peito e dizer que vive em um dos melhores países do mundo.

Não há outro jeito. Sem fórmulas mágicas.

A alternativa é continuar do jeito que está. Assim poderemos seguir rindo de deputados se agredindo em pleno Congresso Nacional. E rindo também da nossa própria incompetência.


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O papel da Imprensa e da Justiça na crise brasileira

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Dilma conversa com Lula em cerimônia em que ele foi empossado como ministro-chefe da Casa Civil, no dia 17 de março - Foto: José Cruz/Agência Brasil

Dilma conversa com Lula em cerimônia em que ele foi empossado como ministro-chefe da Casa Civil, no dia 17 de março

Nos últimos dias, especialmente depois que as conversas telefônicas de Lula vieram a público, tenho visto uma enorme gritaria contra a Imprensa e contra o Judiciário. O que mais me assusta é perceber que as críticas vêm escoradas em uma ideologia maniqueísta que tenta transformar verdades escancaradas em versões pueris e reduzir aqueles que defendem a sociedade a simples “golpistas”.

Este artigo não tem objetivos partidários e não defenderei nenhum dos lados. Tampouco negarei que existem excessos de apoiadores e de críticos ao governo. A proposta é analisar desdobramentos que levaram o Brasil a uma polarização ideológica inédita e a uma movimentação política que não era vista desde os fatos que culminaram na renúncia de Collor, em 1992.


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A matéria-prima da Imprensa são os fatos, a verdade; do Judiciário, as leis, a justiça. Dentro desses limites, não podem ser condenados pelo resultado de seu trabalho incomodar alguém, especialmente porque, por definição, sempre incomodam.

No caso do Judiciário, a maior parte das reclamações recai sobre o juiz Sérgio Moro, por ter exposto repetidamente o Governo Federal e membros dos partidos da base governista na operação Lava Jato. Os críticos acusam o juiz de abuso de sua autoridade, por supostamente cercear direitos dos acusados e exagerar nos pedidos de prisão preventiva para obter delações premiadas.

O caso que jogou um tambor de gasolina em uma fogueira, que já estava bastante grande, foi a liberação, no dia 16 de março, de escutas em telefones usados por Lula, nas quais ele conversa com diferentes autoridades, inclusive a presidente Dilma Rousseff.

Como todos devem estar carecas de saber depois de uma semana de noticiário, os dois lados procuram se apoiar em leis para defender ou acusar Moro. Mas evidentemente não há nenhum “golpe” em curso pela Justiça, como muitos, até mesmo a própria presidente da República, insistem em dizer.

Moro está fazendo seu trabalho de juiz. Não é nenhum estagiário e está jogando o jogo com as peças que tem. Seus movimentos são, de fato, muito mais ousados que o que se costuma ver no Brasil. Mas seu baralho não tem cinco ases. Se ultrapassou os limites, a própria Justiça se encarregará de puni-lo. Por outro lado, se ele estiver dentro das regras, expondo ações criminosas de quem for, presta um inestimável serviço ao país. A gritaria dos descontentes não é, portanto, nada além de gritaria.

Mas ainda tem o “Partido da Imprensa Golpista”.

 

Imprensa preservando segredos?

No caso da Imprensa, vemos em diferentes veículos, tanto apoiadores quanto detratores do governo, a distorção da realidade para fazer valer seus pontos de vista. Qualquer título pode (e deve) ter seu alinhamento político, mas nunca, jamais pode faltar com a verdade e a pluralidade para valorizar o seu lado. Mas não vou dar audiência para essa turma que faz antijornalismo. Eu simplesmente não leio mais essas páginas da “direita” ou da “esquerda”. O que quero discutir aqui é a tentativa do governo de desqualificar o trabalho da Imprensa séria. E ele existe em profusão.

O principal argumento da turma do contra é dizer que ela se presta a publicar “vazamentos seletivos” e apenas notícias contra o governo. Eu nunca vi argumentos mais estúpidos e oportunistas, criados para confundir a população.

A fantasia de qualquer governo é ter uma Imprensa dócil, que lhe apoie incondicionalmente. Mas, se ela fizesse isso, não seria Imprensa: seria relações públicas. E o governo, por si só, já tem mecanismos mais que suficientes para se promover, como as mais gordas verbas de publicidade do país e a força da própria máquina governamental.

A Imprensa vem veiculando coisas boas e coisas ruins de governos federal, estaduais e municipais, suficientes até para municiar as diferentes oposições de cada um, que usam material dos veículos de comunicação em seus dossiês e em posts raivosos nas redes sociais.

Alguns podem dizer que agora só se fala nos escândalos que jogam Lula, Dilma e seu governo na lama. Acontece que a quantidade de notícias sobre esse tema, que tem a mais alta relevância jornalística, parece não ter fim. E isso nos leva aos tais “vazamentos seletivos”.

A Imprensa séria não faz, nem publica “vazamentos”. Ela publica reportagens, com verdades apuradas. A turma da gritaria, incluindo a presidente da República, vocifera ao dizer que ela jamais poderia divulgar informações sigilosas, pois isso seria ilegal. Mas a função da Imprensa não é guardar segredos: é revelá-los! Quem tem que guardar segredos são os responsáveis por tais informações. Se elas foram “vazadas”, por incompetência ou de propósito, a função da Imprensa é apurar a verdade, ampliá-la com informações adicionais e publicar tudo com o maior destaque possível. E isso tem acontecido.

Alguns podem dizer que a Imprensa é irresponsável ao divulgar isso tudo, pois estaria criando uma gigantesca instabilidade política. Mas não é ela que está jogando o país no caos. Não são sequer as pessoas que fazem os vazamentos. Os responsáveis pela crise são aqueles que cometeram os crimes, que agora estão sendo desmascarados.

As fontes dos tais vazamentos são sempre pessoas imaculadas, livres de interesses pessoais, pensando apenas no país? Claro que não! Na verdade, o padrão é que seja o contrário disso. Como esquecer de Pedro Collor, que jogou o próprio irmão-presidente na fogueira, motivado por ciúmes? É por isso que os vazamentos nunca podem ser a única fonte da Imprensa, mas são ótimos pontos de partida para as reportagens.

Por isso, quem afirma que ela é golpista não sabe o que é Imprensa, não sabe o que é golpe ou é mal-intencionado. Ilegalidades do Judiciário ou da Imprensa devem ser coibidos. Qualquer outra atitude ousada e que mostre a verdade, deve ser aplaudida.

Nesse cenário, o governo enche a boca para bradar que nossa democracia é plena e madura, por isso temos tantas investigações em curso, inclusive dos próprios governantes. Isso é uma meia-verdade. Esse argumento funciona para quem cresceu sob a truculência militar, com a polícia atirando e jogando a cavalaria sobre manifestantes, para quem aprendeu que um país é “mais estável” quando tem sua Imprensa e seu Judiciário amordaçados e acovardados.

Temos uma cultura construída em cima de 516 anos de rapinagem da nação por aqueles que estão no poder. Nossa democracia é, na verdade, jovem, imperfeita e frágil. Estamos no caminho certo para que ela amadureça de fato, mas isso só será possível com o Judiciário e a Imprensa desempenhando livremente os seus papeis. Assim, qualquer tentativa de impedir isso é uma manobra para debilitar a democracia. E é o que não pode ser tolerado.