George Orwell

Reflexão: como destruir a verdade confundindo a mente das pessoas

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Guerra é paz.

Liberdade é escravidão.

Ignorância é força.

Acha que tem algo de errado nessas frases?

Elas decoram o Ministério da Verdade, um dos quatro do governo totalitário do Grande Irmão, presente no livro “1984”, de George Orwell (lançado em 1949), que aparece acima. Usei a imagem no meu vídeo dessa segunda, em que fiz uma análise sobre as novas formas de controle do cidadão por governos (veja em http://paulosilvestre.com.br/videodebate-o-governo-esta-de-olho-em-voce/).

Desde então, ela não sai da minha cabeça! O Big Brother manipulava todos pelo uso intenso de câmera, distorção do que as pessoas liam e do que elas aprendiam. O recurso da contradição, presente naquelas frases, é usado por Orwell em várias partes da obra para demonstrar como a própria percepção de realidade pode ser destruída nas pessoas.

Assim, o Ministério da Verdade manipulava as informações (fake news?), o Ministério da Paz cuidava da guerra, o Ministério da Fartura dizia que a economia ia bem, enquanto gerenciava a fome do povo, e o Ministério do Amor espionava e torturava a população.

Maquiavel lançou “O Príncipe” em 1532 como um guia para se chegar e se manter no poder. Você acha que “1984” está se tornando o livro de cabeceira de cada vez mais governantes atuais?

Facebook lança seu agregador para “dar o que as pessoas querem”

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Vira e mexe me perguntam: se as empresas de mídia tradicionais estão perdendo as mentes e os corações de seu público, quem está ocupando esse espaço? Eu digo que são empresas que dominam nossos novos relacionamentos com todo tipo de conteúdo, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas principalmente os novos comportamentos das pessoas. E, nesse cenário, é inevitável pensar em Google, Apple, Facebook e até mesmo os “agregadores”, aqueles pequenos programas capazes de criar “veículos de comunicação” incrivelmente personalizados ao combinar, de maneira inteligente e criativa, conteúdo de uma infinidade de fontes.

Pois o Facebook acaba de lançar aquilo que eu considero o seu agregador. Batizado de Paper (parece até uma provocação à “velha mídia”) o aplicativo redefine a maneira como o usuário tem acesso a seu feed de notícias da rede de Mark Zuckerberg, além de sua página pessoal e de amigos. Mas o que realmente o diferencia do aplicativo padrão do Facebook para celulares é justamente o fato que ele também oferece aos usuários seções com conteúdos compilados de diferentes fontes. Só faltou permitir que os cada um pudesse cadastrar também veículos de que gosta (quem sabe em uma futura versão?). Tudo dentro de uma tela muito elegante e integrada, sem que o usuário sinta qualquer ruptura na sua experiência de navegação e quase não perceba a origem do que está lendo.

O Paper é bastante diferente do Home, malfadado aplicativo que o Facebook lançou em abril do ano passado, com a pretensão de “melhorar o uso do celular” praticamente assumindo o controle dele e substituindo as telas do Android pelas suas. Naturalmente as reações dos usuários foram muito negativas. Talvez por isso o Paper não surja para “dominar tudo”, e sim “apenas” trazer conteúdos úteis, do jeito que o usuário deseja.

Como podem ver, ninguém acerta sempre, e não há problema em errar. Mas não há espaço para continuar insistindo no erro. O público não aceita mais “pertencer” ou mesmo depender exclusivamente de um produto ou empresa. Esse é um dos motivos da falência do modelo de negócios baseado em assinaturas, em que se paga de antemão para se ter acesso a todo o conteúdo de um veículo. As pessoas qerem receber a informação que gostam ou precisam, sem se importar com a fonte, porém de uma maneira conveniente.

Por isso os agregadores e o próprio feed de notícias do Facebook se tornaram grandes distribuidores de conteúdo jornalístico. De fato, pesquisa publicada pelo Pew Research Center em outubro do ano passado indica que as pessoas realmente consideram a rede social como um local genuíno para se consumir jornalismo: 78% dos usuários americanos do Facebook consomem notícias a partir dele, e 43% afirmam que ele é uma fonte importante de noticiário. Detalhe: o Facebook não produz –ele mesmo– uma linha sequer de conteúdo.

Além de Google, Facebook e essa turma entregar eficientemente o que os usuários querem, eles ainda fazem isso aparentemente de graça. Claro que não é verdade: o usuário não paga nenhum real para usar todos esses produtos, mas entrega graciosamente uma enorme massa de informações sobre si mesmo que viram receitas milionárias para essas empresas de outras formas.

Cada vez mais essa entrega é feita de forma consciente, e para várias empresas. Isso dá o que pensar: as pessoas aparentemente não se importam em abrir mão da própria privacidade, se essas corporações lhes entregarem ferramentas que deixem sua vida melhor, mais fácil (e entregam). Acham isso uma troca justa, melhor que pagar R$ 80 por uma assinatura de um monte de notícia que não lerão.

Muitos podem torcer o nariz, podem achar isso um horror, a decadência da civilização moderna. Há muitos juízos de valor nesses pensamentos. Acho perigoso as pessoas que se expõem online de uma maneira inconsequente, mas não acho viável querer lutar contra seu celular, que insiste em mandar continuamente para a operadora e o fabricante onde você está.

Nem mesmo George Orwell, em sua obra 1984, poderia imaginar algo assim. Mas a maior ironia é que isso tudo não acontece por subterfúgios de um Estado totalitário, e sim porque as pessoas topam tudo isso para aproveitar ao máximo o que a tecnologia tem a nos oferecer. E não vejo volta.

É por isso que as empresas citadas acima prosperam, enquanto a mídia tradicional se debate em agonia. Não apenas porque seus produtos perderam apelo, mas porque não conseguem mais entender o mundo que tentam noticiar.