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Como o Facebook pode piorar o jornalismo e deixar as pessoas na ignorância

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Foto: Venkat Mangudi/Creative Commons

Na quinta passada, o Facebook anunciou mais uma mudança no seu algoritmo de relevância: os usuários passarão a ver mais o que seus amigos e familiares postarem, e menos o que vier das páginas que curtem. Parece uma bobagem, mas isso terá impactos significativos em muitos negócios e -pasmem!- em como a humanidade se informa. Você está pronto para isso?

Não é um exagero! Qualquer ação, por menor que seja, de algo que tem mais de 2 bilhões de usuários ativos, sendo que mais de 60% deles acessam o sistema todos os dias, tem um impacto social profundo. É como um elefante querendo coçar as costas em uma árvore: por mais que queira só se coçar, pobre árvore!


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No caso do anúncio da turma do Mark Zuckerberg, a justificativa oficial é “aproximar mais as pessoas”. Justo! E isso pode acontecer mesmo, mas, quanto disso é o real objetivo, quanto é só um discurso bonito, só eles sabem. Mas algumas transformações imediatas acontecerão.

A primeira coisa é que realmente a audiência das fan pages despencará. E isso será muito ruim para empresas que dependem muito do Facebook para seus negócios. Você pode até dizer que é a “hora da verdade” para esse pessoal, que até agora surfou na bonança criada pela rede. Pode ser! Mas isso demonstra o poder de “vida ou morte” desse “dono da bola”.

Restará às empresas duas alternativas. A primeira mais simples -e cara: pagar ao Facebook para “impulsionar” suas publicações. Isso é muito bom para o negócio da rede social, e bastante fácil no seu entendimento.

A segunda alternativa é tentar convencer as pessoas a elas mesmas distribuírem o conteúdo dessas empresas, por sua própria iniciativa. No mundo perfeito da justificativa oficial do Facebook, isso é bacana, pois, se a pessoa estiver fazendo isso, é porque tal conteúdo lhe é interessante.

E é aí que o elefante -ou a porca- pode torcer o rabo com força!

 

Jogo de interesses

Mesmo naquele mundo perfeito, é pouco provável ver pessoas compartilhando produtos. Com exceção dos apaixonados por marcas como Apple, convenhamos: não é normal, certo? Então, de cara, o varejo que vá preparando o seu espírito.

Entretanto a coisa muda bastante de figura quando pensamos em conteúdo editorial, em notícias, em entretenimento. No cenário idílico acima, os usuários compartilhariam conteúdos que fossem relevantes, provocando debates positivos. Até mesmo poderia ser uma ferramenta bacana para informar todos eficientemente.

Só que desgraçadamente isso não vai acontecer.

E o motivo é muito simples: quem disse que as pessoas querem criar debates em torno de temas que sejam realmente importantes? As pessoas querem falar sobre aquilo que lhes dê prazer imediato, e de preferência fácil, mesmo que seja a mais rotunda porcaria! E não estou fazendo aqui nenhum julgamento moral. Todos nós fazemos isso uma hora ou outra: faz parte da nossa natureza humana!

Para piorar, a recíproca é válida. Muitas informações que são realmente importantes para nosso desenvolvimento como indivíduo, cidadão, profissional vêm carregadas de um esforço para serem digeridas. Em muitos casos, elas são chatíssimas e exigem que abandonemos a nossa zona de conforto. Mas precisamos que alguém nos traga isso!

Essa é tradicionalmente a função da (boa) imprensa. Os jornais não nos mostram só coisas que gostamos: eles nos mostram também o que precisamos saber. Pois além de informar, eles precisam também formar o cidadão, mesmo que isso seja “chato” às vezes.

E aí chegamos à ironia dos fatos! Os veículos de comunicação hoje dependem pesadamente do próprio Facebook para gerar audiência para suas propriedades digitais. Na média, dá para falarmos em metade disso vindo dos algoritmos de Zuckerberg. Junte esse gosto pelo “conteúdo fácil” e os veículos sendo obrigados a implorar que os usuários compartilhem seu conteúdo, o que pode acontecer?

Um mundo cada vez mais dominado pelo jornalismo rasteiro, “fake news” e pessoas mantidas na ignorância.

 

Samba do crioulo doido

O Facebook pode ter criado uma forca, e os veículos podem estar alegremente colocando seu pescoço na corda. Não podemos deixar esse nó apertar, mesmo que isso seja chato!

Assim como Stanislaw Ponte Preta ironizou com seu samba a obrigatoriedade das escolas de samba só criarem enredos com fatos históricos (e a porcaria decorrente disso), os veículos não podem cair na tentação de investirem ainda mais nos caça-cliques para fazer o público lhes ajudar a garantir a audiência.

Mas nem tudo está perdido! Há uma solução, que depende de três atores principais.

O primeiro deles é o próprio Facebook. Ele tem o direito de alterar seus algoritmos como bem entender: afinal, é um produto que tem interesses comerciais. Mas, como já disse acima, ele tem uma paquidérmica função social, que não pode ser ignorada. Curiosamente, em seu já afamado desafio pessoal de início de ano, Zuckerberg publicou seu desejo de “consertar o Facebook” em 2018, inclusive para que seus recursos não sejam usados para disseminação de ódio e notícias falsas.

A mudança no algoritmo acima vai contra objetivo. Porém a empresa pode compensar essa mancada potencial com outras iniciativas que valorizem verdadeiramente conteúdo de qualidade, e não apenas “que provoquem conversas”, pois as conversas podem ser de baixo nível, em torno de coisas ruins. Precisam criar recursos que combatam o “fake news”. E, justiça seja feita, a empresa já vem trabalhando nisso, inclusive porque tem sido pesadamente criticada por sua omissão diante desse mar de lama em suas páginas.

O segundo ator é a própria mídia. A imprensa marrom sempre existiu e sempre existirá, mas ela jamais pode superar a imprensa séria, que informa e forma com precisão e responsabilidade. Nesse cenário, o papel da mídia é, portanto, resistir ao caminho mais fácil e sedutor do lado sombrio para ganhar uns cobres, e exaltar a ética e os pilares do bom jornalismo. Pois, se isso for oferecido em grande quantidade, aumenta a chance de as pessoas disseminarem mais bom que mau conteúdo.

Por fim, resta o mais importante de todos os atores: nós mesmos! Pois nós somos o vetor de tudo que se trafega nos meios digitais. Pela nossa humanidade, podemos ser o elo mais frágil, movidos pelas nossas paixões e porque é gostoso ficar em nossa zona de conforto. Mas também temos que resistir! Além disso, cabe a cada um de nós ajudar quem estiver a nossa volta a fazer o mesmo, convidando todos a tirar o senso crítico da gaveta, a não compartilhar nada antes de ler, a desconfiar (saudavelmente) sempre, a ouvir e criar um diálogo construtivo com aqueles que pensam diferentemente de nós, praticando a tolerância e a empatia.

Se esses três fizerem bem a sua parte, mudanças nos algoritmos das redes sociais terão impactos apenas pontuais, e elas, ao invés de se tornarem palco de ainda mais conteúdo rasteiro, poderão se consolidar como um espaço de compartilhamento de boa informação, construção de cidadania e debates construtivos.


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Enganou a mídia, conquistou mulheres, ganhou dinheiro, mas era tudo mentira: como não ser vítima dos “fakes”

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Eduardo Martins supostamente posa ao lado de combatentes na Somália: só que a foto é uma montagem sobre uma foto e identidade roubadas - foto: reprodução

Eduardo Martins supostamente posa ao lado de combatentes na Somália: só que a foto é uma montagem sobre uma foto e identidade roubadas

Eduardo Martins suicidou-se. Virtualmente. Na semana passada, o destemido fotógrafo paulistano, surfista bonitão, correspondente de guerra da ONU, apagou todas as suas contas e sumiu do mapa. Mas não antes de vender muitas fotos a veículos de comunicação de grande renome, como The Wall Street Journal e BBC, derreter corações de muitas mulheres e angariar mais de 130 mil seguidores no Instagram. Mas, com tanto sucesso, por que ele decidiu desaparecer subitamente?

Acontece que o talentoso fotógrafo de 32 anos nunca existiu. Era um estelionatário aplicando um sofisticado golpe que, em outras variações, pode enganar qualquer um na Internet. Depois de quase três anos, acabou sendo desmascarado (mas não pego). Diante disso, é natural se perguntar: como isso é possível e como se proteger?

O suposto fotógrafo era um “fake”, um personagem que só existia na Internet. As fotos que ele vendia eram roubadas de outros fotógrafos e depois “maquiadas” no Photoshop, para que a tramoia não fosse descoberta. Nem a “sua” própria imagem, que aparece em algumas fotos, é dele mesmo: na verdade, são do surfista inglês Max Hepworth-Povey, que só descobriu recentemente que a imagem do seu corpo havia sido usurpada.

“Fakes” surgiram como uma maneira de personificar outras pessoas no mundo digital. Às vezes, não passam de brincadeiras ou atividades sem maiores consequências. Existem ainda perfis criados para homenagear ídolos.

Mas há cada vez mais casos de golpes associados a essa prática. E existem vários tipos deles. O “case Eduardo Martins” demonstra um alto nível de sofisticação, capaz de ludibriar profissionais tarimbados e até mesmo algoritmos antifraude. Mas a maioria dessa bandidagem usa artifícios bastante simples, valendo-se quase sempre de “engenharia social”. Ou seja, os “cyberestelionatários” se aproveitam de fragilidades, descuidos ou pegadas digitais que todos deixam no meio online, para tornar suas histórias mais críveis, e assim conseguir mais vítimas.

Para entender isso melhor, conversei com Katty Zúñiga, psicóloga especializada em como o ser humano interage com diferentes tecnologias. Ela explica que essas pessoas são normalmente muito inteligentes e sabem muito bem como usar os recursos digitais para selecionar suas vítimas e construir histórias incríveis para cada caso.

“Eles descobrem e falam o que a vítima quer ouvir”, explica. As histórias contêm elementos que despertam a empatia dela e atendem a alguns de seus anseios. Além disso, os “fakes” manipulam até mesmo as redes sociais (como se tornar amigo de amigos ou integrar círculos de interesse) para aumentar ainda mais a sua credibilidade. Diante de tanta coisa “combinando”, as vítimas acabam comprando a história sem fazer até mesmo verificações básicas.

Não é para qualquer um, e dá um trabalhão! Mas, se a coisa é bem feita, como no caso acima, isso pode render dinheiro e muito mais.

E ninguém está totalmente imune.

 

“Fakes do mal”

Eduardo Martins era um ponto fora da curva, que enganou profissionais de grandes empresas. Mas a maioria das vítimas é mesmo gente comum. E um filão particularmente apetitoso para eles são mulheres carentes, muitas vezes viúvas.

O padrão da abordagem é muito conhecido. Normalmente o estelionatário se apresenta como um estrangeiro, quase sempre americano ou de algum país árabe, que passa pela dor de uma separação ou é recém-viúvo. Usando uma identidade falsa, envolve a vítima ao longo de vários contatos por e-mail ou comunicadores instantâneos, recheados de atenção, carinho, fotos e uma história rica em detalhes, porém totalmente falsa. Extremamente hábeis, fazem com que elas se apaixonem por eles. E, quando isso acontece, finalmente vem o golpe, que invariavelmente inclui coisas como envio de dinheiro ou compartilhamento de dados bancários ou de crédito para algum “bom motivo” (“quero ir ao Brasil para me casar com você”, “preciso ajudar a minha filha pequena com uma cirurgia” ou outra coisa comovente).

Você pode estar pensando: “eu JAMAIS cairia em algo assim!” Pois saiba que muita gente muito instruída cai! Afinal, todo mundo tem algo que essa turma do mal pode explorar. E, se descobrirem, é exatamente isso que farão.

Mas não são só pessoas que criam “fakes”. Empresas também podem fazer isso.

O Spotify tem sido acusado de criar artistas fictícios para incrementar suas playlists mais populares. As músicas são verdadeiras e inéditas, mas especialistas no ramo não conseguem identificar seus autores em nenhum outro lugar: aparentemente eles existem apenas dentro da própria plataforma de streaming de música.

Se isso se confirmasse, a prática permitiria que a empresa ampliasse a sua oferta musical sem ter que pagar royalties aos donos da música, pois ela mesma seria a proprietária de tudo. Reduzindo suas despesas, diminuiria o tamanho de seu prejuízo, que, no ano passado, foi de 349 milhões de euros. A empresa, que afirma já ter pago mais de US$ 5 bilhões em direitos autorais desde que foi criada em 2006, nega categoricamente que crie “fakes”.

Não estou dizendo que o Spotify esteja cometendo esse crime, mas o mecanismo na suspeita dos especialistas descreve muito bem como é possível ganhar dinheiro com “fakes” de diferentes maneiras. Nesse caso, não seria dinheiro indevidamente entrando, mas indevidamente deixando de sair.

 

“Fakes do bem”

Mas todos os “fakes” são ruins?

É verdade que a maioria desses casos está ligada a atividades criminosas. Mas também existem “fakes” criados com objetivos nobres. É o caso da francesa Louise Delage (foto acima), de 25 anos, que possui 110 mil seguidores no Instagram, cifra que não para de crescer, apesar de ela não postar mais nada há quase um ano.

Praticamente todas as suas fotos possuem um item em comum, além de um estilo de vida “glamourizado”: ela aparece com algum tipo de bebida alcoólica. Depois de 149 postagens, um vídeo foi publicado explicando que Louise nunca existiu: ela foi criada para uma campanha de prevenção ao alcoolismo entre jovens franceses, da organização Addict Aide.

Sim, a causa era nobre. Mas as pessoas também foram enroladas por Louise.

 

Como se proteger?

Há um velho ditado que diz que “na Internet, todos os gatos são pardos”. Então como não ser enganado por um “fake do mal”?

Alguns cuidados simples, que sempre tomamos no “mundo presencial”, podem ajudar. Começando por um outro ditado popular: “quando a esmola é grande, até o santo duvida”.

Zúñiga explica que devemos desconfiar sempre de ofertas muito boas, principalmente quando elas vêm muito perfeitas ou de fontes desconhecidas. Não custa nada dar uma pesquisada usando a própria Internet. Muitos dos “fakes” não resistem a uma rápida “googlada” por mais informações sobre o sujeito ou a oferta.

Além disso, não podemos dar sorte ao azar! Como muitos dos criminosos usam nossas próprias informações para deixar suas histórias mais convincentes, nunca é demais tomarmos cuidado com o que publicamos na Internet. Informações muito pessoais ou sensíveis jamais devem ser expostas publicamente online. E isso é algo bastante crítico, pois as pessoas estão cada vez mais descuidadas com o que publicam em redes sociais.

Outra boa prática é não deixar smartphones e notebooks desbloqueados e sozinhos, especialmente em locais públicos. Esses equipamentos são uma fonte gigantesca de informações úteis aos criminosos. Da mesma forma, nunca se deve usar computadores públicos para realizar tarefas como transações bancárias, compras ou entrar nas redes sociais.

Muitos desses cuidados parecem óbvios –e são mesmo. Mas, mesmo assim, as pessoas continuam escorregando nas mesmas cascas de banana! A vida online não é um lugar em que tudo se pode e onde o que é feito não implica em consequências sérias. Não existe essa história de “vida online” e “vida presencial”: é tudo a única vida que cada um de nós tem.

Se não nos cuidarmos, podemos acabar comprando fotografias roubadas, nos apaixonado por alguém que não existe ou chorando pelo desfalque em nossas contas correntes. Qual será sua postura?


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Até James Bond se rendeu aos recursos dos smartphones em seus últimos filmes  - imagens: divulgação

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No meio do noticiário olímpico onipresente, o pessoal achou espaço para mais uma teoria da conspiração: o Pokémon GO, game que virou febre, seria uma forma de a CIA espionar todo mundo, até fotografar nossas casas. Claro que é uma bobagem! Mas é fato que muita gente sabe muita coisa sobre todos nós. E isso deve piorar! A questão é: dá para escapar disso?

Foi-se o tempo que as empresas conheciam apenas nosso nome e endereço para mandar mala-direta. É possível que, por exemplo, algumas dezenas de empresas saibam exatamente onde você está nesse momento. E provavelmente estão tirando proveito comercial disso! Seu smartphone e os aplicativos instalados são os mecanismos para esse eficientíssimo “Big Brother”, mas somos nós mesmos que graciosamente entregamos nossa informação de bandeja.

Por que fazemos isso? Será que ficamos todos malucos?


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Claro que não!

Vivemos, entretanto, em uma nova realidade em que empresas e governos estão descobrindo maneiras criativas de coletar o que temos de mais caro: nossas informações. Não estou me referindo a nome, CPF e endereço, informações básicas que podem ser compradas de bancos de dados piratas há muitos anos. Nesse novo cenário mundial, coisas muito mais valiosas são coletadas e atualizadas continuamente: onde estamos (e estivemos), o que fazemos, do que gostamos, com quem nos relacionamos, o que consumimos, e uma infinidade de preferências pessoais. E tudo isso em um amplo espectro pessoal, profissional e social.

Há ainda uma diferença fundamental entre os bancos de dados piratas e a coleta digital: se antes o fato de descobrirmos que empresas tinham nossas informações gerava desconforto e até desconfiança, agora nós lhes entregamos tudo sobre nós, felizes e de maneira voluntária. Mas não necessariamente consciente.

Essa aparente contradição no que acontece bem debaixo do nosso nariz (ou dos nossos dedos) existe porque, em troca de nossos dados, as empresas nos oferecem uma infinidade de serviços, alguns deles muitos bacanas, outros de interesse duvidoso. Tudo sob a falsa premissa de que são gratuitos.

Não são: estamos pagando com nossas pegadas digitais. E achamos isso uma troca justa.

 

Você é o que você gosta

O truque é simples. Por exemplo, para poder jogar Pokémon GO, o usuário precisa permitir que o jogo acesse, em seu smartphone, o GPS (para a geolocalização o encaminhar aos monstrinhos virtuais), a câmera (para a realidade aumentada), o conteúdo de mensagens e o monitoramento das atividades no app (para a dinâmica do jogo), além do IP e do modelo do smartphone. O bloqueio do acesso a qualquer um deles faz o jogo não funcionar. E ninguém parece estar disposto a fazer isso e ficar de fora do mais recente fenômeno dos games.

Assim, para jogar, todo mundo entrega essas informações aos seus desenvolvedores. Só que, além de servir para o jogo, esses dados podem ser usados para outros fins. E está tudo descrito nos termos de uso do serviço, aquele enorme documento que ninguém lê.

A Nintendo e a Niantic, donas do game, agradecem a gentil colaboração.

O pior é que o Pokémon GO nem é o aplicativo que mais coleta dados do usuário. Ok, é mais bisbilhoteiro que, por exemplo, o WhatsApp (que exige apenas acesso ao número do telefone e a sua lista de contatos), mas perde do Instagram (que capta GPS, câmera, contatos, IP, número do celular, mensagens e atividades do app) e do Facebook (que coleta tudo isso, mais operadora de telefonia e modelo do aparelho).

Mas o mesmo Facebook vai muitíssimo além do que o smartphone lhe informa. Seu grande trunfo está no rastreamento e análise de tudo que o usuário faz dentro de seus próprios produtos. Até os prosaicos botões de “curtir”, que você clica dezenas de vezes ao dia na própria rede social ou em sites que o incorporam, são suficientes para o Facebook conhecer você talvez melhor que sua mãe.

Isso foi escancarado no site Apply Magic Sauce, criado pela Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Analisando apenas suas curtidas no Facebook, o site cria um surpreendente perfil psicológico do usuário em poucos segundos. Agora pense: se um site independente é capaz disso, imagine o que a própria rede de Mark Zuckerberg, detentora de toda essa informação, consegue fazer?

E nem falamos do Google, uma empresa que pode fazer tudo isso parecer brincadeira de criança…

 

Caminho sem volta

Longe de ser apenas uma grande sacada técnica e de negócios, essa troca de serviços por dados íntimos que alimentam algoritmos cada vez mais eficientes de análise do Big Data é um fenômeno social impressionante. Somos monitorados continuamente por uma quantidade crescente de agentes e somos levados a crer que isso é a coisa mais normal do mundo.

Nossa privacidade já era! Empresas estão prontas para antecipar nossos movimentos e necessidades e, claro, nos vender produtos e serviços que, por isso mesmo, deixam nossas vidas mais fáceis e divertidas. A coisa está tão bem amarrada, que fica difícil dizer que, afinal, há algo de ruim nessa nova ordem mundial.

Uma premissa, entretanto, jamais poderia ser desrespeitada: essas ofertas sempre deveriam focar naquilo que fosse o melhor para o usuário, e não para os interesses das companhias. Caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos zumbis consumistas controlados por grandes corporações. Nosso livre arbítrio seria colocado em risco, pois passaríamos a viver em uma versão filtrada do mundo.

Será que estamos seguros contra isso?


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