representatividade

Por que algumas pessoas estão odiando a imprensa

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Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo - Imagem: reprodução

Ilustração da primeira sede do Estadão, um sobrado da rua do Palácio, atual rua do Tesouro, no centro de São Paulo: depois de 140 anos, o jornal continua vivo

Recentemente o Brasil 247 retirou parte de uma conversa de Rodrigo Mesquita do contexto e, a partir dela, publicou “Herdeiro do Estadão: os jornais estão mortos“. Não discutirei o sensacionalismo barato do post, mas me preocupou muito a longa cadeia de comentários destilando um enorme ódio contra a imprensa e seus principais veículos. Algo na linha de “o Estadão tem mais é que morrer mesmo, e levar a Globo junto!”

A primeira coisa que pensei é que aquilo tudo era um rescaldo da hiperpolarizada eleição presidencial, que dividiu o país entre “azuis” e “vermelhos”, e onde alguns veículos da imprensa, mais notadamente a Veja, jogaram pesado -e às vezes sujo- no exercício da oposição. Mas, pensando melhor, isso não deveria ser suficiente para causar tamanha aversão, pois ela já vinda aparecendo com muita força desde as grandes manifestações de rua de 2013, quando alguns jornalistas que faziam sua cobertura chegaram a ser agredidos pela população, pelo simples fato de serem jornalistas.

Há algo muito perigoso nisso. Apesar de o jornalismo existir desde o Império Romano, sua versão moderna data do século XIX. Aqueles veículos rudimentares informavam a população de onde circulavam sobre os acontecimentos do local, do país e, quem sabe, do mundo. Eventualmente defendiam causas e tinham seu alinhamento político. De qualquer forma, a população se sentia representada pelo “seu jornal”.

Essa representação é um dos pilares do jornalismo. Uma imprensa livre é fundamental para a construção e manutenção de uma democracia. Por isso, a cartilha de qualquer ditador reza que a imprensa deve ser domada e silenciada o quanto antes. O finado Hugo Chávez refinou essa técnica, incutindo na população a ideia de que uma imprensa contrária ao governo é automaticamente contrária ao povo, quando, na verdade, normalmente acontece o contrário.

Se um veículo não consegue mais representar seu público, então ele perdeu sua razão de ser. Quando se radicaliza, como nos casos de Veja e Carta Capital, abre mão de parte da população em nome do que defende, mas ainda há um outro grupo que o apoia. Do lado do público, se alguém não gosta de um veículo, sempre haverá outro com o qual se alinhe. Mas o que vejo desde junho de 2013 é uma parcela crescente da população aparentemente abominar toda imprensa.

Não há dúvida que essa abjeta característica do chavismo chegou e se consolidou no Brasil, em grande parte por uma propaganda muito bem orquestrada nas redes sociais. Mas a grande imprensa não está ajudando em nada para reverter esse quadro. Já se foi o tempo em que a massa consumia sem questionar o que os veículos publicavam. As suas radicalizações são como gritos aos ouvidos de quem consome seu noticiário de maneira crítica (a melhor maneira, por sinal). Não estou dizendo que as publicações não devam defender uma posição ou mesmo se alinhar a um candidato em uma eleição. Isso é legítimo e saudável, desde que não esqueçam que, como veículos jornalísticos que são, devem realizar suas coberturas abrindo espaço para os outros lados, sem mentir ou destruir reputações apenas para fazer valer as suas teses.

Os próprios veículos -e ninguém mais- podem resgatar a confiança de seu público. E eles precisam se esforçar, genuína e rapidamente, nessa tarefa, ou a provocação barata do Brasil 247 acabará se concretizando.

A crise das empresas de comunicação também é de representatividade

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Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja - Imagem: reprodução

Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja

 

Na semana passada, a imagem acima inundou as redes sociais. Invariavelmente, ela era acompanhada de comentários criticando a postura da Veja, como exemplo de uma mídia nacional manipuladora e tendenciosa. Em meio a esse debate, ficou ainda mais claro para mim que grande parte da crise que os grandes veículos vêm enfrentando se deve ao fato de que eles não conseguem mais representar o seu público. Chego a me questionar se eles ainda se preocupam com isso.

A referida imagem é uma composição, publicada originalmente no blog de Luís Nassif, demonstrando a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 24, feita por veículos estrangeiros (The Guardian, Le Monde e El País), em que era destacado o embate contra a espionagem americana (com fotos de Dilma discursando), e pela revista brasileira, com um título sugerindo um discurso de olho nas eleições de 2014 (e uma foto com Dilma sentada, muito menos imponente que as demais).

É fato que isenção completa não existe, inclusive pela nossa natureza humana. Mas sou um homem forjado no aço de rotativas e sei que é perfeitamente possível fazer jornalismo com seriedade. E isso é uma obrigação do ofício e das publicações.

Por mais que o veículo tenha uma linha política com a qual se alie, e não há nenhum problema nisso (deve-se inclusive deixar explícito ao seu público), não tem o direito de fazer jornalismo tendencioso, que deliberadamente mostre apenas uma parte da verdade, para induzir as pessoas a comprarem sua tese, seja ela qual for, legítima ou não. Isso é antijornalismo!

Uma publicação pode ser de direita ou de esquerda, pode defender seus candidatos, mas deve noticiar também o que eles têm de ruim, assim como o que seus adversários têm de bom. E isso não se restringe a questões políticas: vale também para assuntos religiosos, esportivos, o que for, tudo aquilo que os antigos diziam que “não se deve por à mesa” (eles estavam errados!).

O veículo deve oferecer subsídios para que seu público construa a sua opinião: assim se forma uma sociedade. Sem isso, ele apenas reforça preconceitos de gente cada vez mais alienada em torno de realidades enviesadas.

Plataformas de articulação social

Há algumas semanas, Rodrigo Mesquita, membro da família proprietária do Estadão e responsável pela Agência Estado ter a importância que tem, deu uma entrevista em que sugere que os jornais (e podemos extrapolar para os grandes veículos da mídia) perderam o espaço que tinham como articuladores da sociedade.

“Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos, e contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política”, afirma Mesquita. Com isso, em um mundo em que o jornalismo era principalmente impresso, essas empresas ganharam enorme importância política. “Todas as empresas que atingem uma posição monopolista ‘emburrecem’. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social”, conclui.

Trocando em miúdos, os veículos se tornaram máquinas bem azeitadas de fazer dinheiro na velocidade que suas rotativas imprimiam seus exemplares. Funcionavam tão bem, que esqueceram a sua função social. Os interesses da empresa começaram a se contrapor aos editoriais e, pior que isso, tudo começou a virar uma amálgama disforme e sem relevância para seu público.

Enquanto não havia outra plataforma que servisse de alternativa, essa massa serviu bem ao propósito do negócio. “Numa perspectiva histórica, (as empresas de comunicação) legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da sua capacidade de articular públicos”, explica Mesquita.

Veio então a popularização da Internet, e o público deixou de ser um passivo consumidor das notícias (e das versões) dos grandes veículos e passou a ser protagonista da construção do noticiário. Subitamente, o público dos veículos, qualquer pessoa, passou a ser um potencial concorrente. E uma enxurrada de versões alternativas começou a surgir.

Quer pagar quanto?

Diante da incapacidade de lidar com esse novo mundo, os grandes veículos deixaram de representar seu público. E contestações como as vistas em volta da imagem acima aparecem o tempo todo.

O espaço para tal representação popular está aberto, democraticamente abraçando qualquer um que se proponha a isso. Aqui e ali, surgem pessoas, grupos e empresas procurando o seu espaço, representando desde poucos indivíduos a uma fatia significativa da sociedade.

Enquanto isso, os grandes veículos agonizam com receitas publicitárias e de assinatura cada vez menores. Não há surpresa nisso: ao não se sentir representado pelo veículo, seu público desaparece, derrubando as tiragens e as receitas. Afinal, quem vai pagar por algo com o que não se identifique?

As empresas de comunicação tentam sofregamente transpor seu velho modelo de negócios para a nova mídia. Não conseguem perceber que não há mais espaço para isso. Sua miopia está destruindo sua credibilidade, seu maior ativo.

Portanto, a solução para sair da crise é abandonar esse antijornalismo e se re-encontrar com seu público. Mas quais terão inteligência e coragem para isso?

A quem (ou para que) serve a mídia?

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Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Nas manifestações que vêm sacudindo o país nos últimos dias, entre suas diferentes bandeiras, demandas e aspirações, uma delas me chamou a atenção particularmente: fora imprensa! Poderíamos pensar que se trata de mais uma reação a tudo que representa um poder instituído, e a mídia certamente se enquadra nisso. Porém, analisando melhor, o buraco é mais embaixo: a população não se sente mais representada pela imprensa. E isso me disparou um alerta.

Nas minhas andanças por esse mundão, pude comprovar a máxima de que uma sociedade é tão mais evoluída quanto mais forte e independente é sua imprensa. Só assim, a sociedade pode ter uma contraposição às ideias hegemônicas difundidas por qualquer governo e ver os fatos de diferentes ângulos. Não é a toa que governos com vocação autoritária tentam cercear ou controlar a imprensa, valendo-se de meios legais ou não, exatamente como temos visto na América Latina na última década.

No Brasil, os veículos que se consolidaram como “grande imprensa” não tiveram origem como representantes de suas comunidades. Os mais antigos eram ligados a oligarquias, como o Estadão, ou até mesmo defendiam o recém-deposto Império, como o Jornal do Brasil. A Folha até que surgiu com a intenção de informar a crescente massa urbana de São Paulo, mas a maioria, nas diferentes mídias, foram apenas títulos lançados com objetivos empresariais (o que não é um problema, que fique claro).

Mas isso é muito diferente do nascimento da mídia nos EUA, intimamente ligada à comunidade onde estava cada veículo. Basta pensar nos estabelecimentos típicos de qualquer pequena cidade americana no século 19: o xerife, o saloon, o ferreiro, o hotel e o jornal. A função deste último era informar sua comunidade sobre o que acontecia nela mesmo e no resto do mundo. E o mais interessante é que ele era mantido pela própria sociedade que representava.

Apesar dessa diferença, esses grandes veículos brasileiros sempre trabalharam como agentes das liberdades e defensores do país (diferentemente de governos), trabalhando bem para seu desenvolvimento. Mas, de uns 20 anos para cá, algo aconteceu e os interesses empresariais próprios começaram a falar muito alto, interferindo de uma maneira cada vez mais decisiva –e escancarada– na linha editorial, principalmente nas revistas semanais de informação. Tais interferências começaram a afugentar leitores e abriram espaço para movimentos politizados de “resistência”, como os que passaram a classificar os grandes veículos como integrantes do “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”).

Até então, esse descontentamento com a mídia não aparecia com tanta força: na maioria das vezes, essas discussões acabavam restritas aos próprios jornalistas, não chegando às massas. Mas aparentemente isso mudou, o que é muito preocupante, pois, se uma imprensa livre e forte é essencial para uma sociedade melhor, como grupos que estão indo às ruas com esse objetivo podem pedir o “fim” da mídia?

O pior de tudo isso é que os responsáveis por esse sentimento são os próprios veículos, pela desvirtuação descrita acima. A sociedade está deixando de se sentir representada por eles, e seus jornalistas estão perdendo a credibilidade. Basta ver o que aconteceu com Caco Barcellos, um expoente do jornalismo nacional, que foi expulso do Largo da Batata no dia 17 e levou um soco na Praça da Sé dois dias depois. Por mais que o “alvo” talvez fosse a Rede Globo, o profissional foi a vítima. E, para um jornalista, tão ruim quanto uma agressão física, é a perda de sua credibilidade, seu bem mais valioso.

Apesar de toda essa animosidade, os movimentos têm sido palco de excelentes reportagens, exemplos do melhor do jornalismo, produzidas por profissionais ou pessoas que simplesmente registravam brilhantemente o que estavam presenciando. É o tal jornalismo-cidadão, incompreendido (e combatido) pelos grandes veículos. Essa resistência, aliás, ajuda a explicar o distanciamento das redações de seu público. E isso foi muito bem descrito em artigo de Otavio Frias de Oliveira, diretor de redação e um dos donos da Folha, escrito para justificar o lançamento de uma “nova Folha”, o “jornal do futuro”, no dia 22 de maio de 2010. Segundo ele, “os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas.” E conclui: “para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência.”

Não bastasse esses veículos estarem morrendo pela sua absoluta incompetência em criar um novo produto e modelo de negócio adequados à nova maneira como as pessoas se relacionam (ou seja, não apenas consomem, mas também produzem) com conteúdos jornalísticos,  eles se afundam ainda mais na lama por entender cada vez menos as mudanças editorias que lhe são impostas. Não estou defendendo de forma alguma a “inconsequência”, falta de apuração, pluralidade de informações. Mas não há mais espaço para o jornalismo palaciano, previsível, desengajado e organizado por interesses comerciais, que a grande imprensa vem produzindo.

Precisamos de uma imprensa forte e livre (inclusive para resistir a pressões dos poderosos). Mas ela precisa lembrar a quem ela serve.