Umberto Eco

Videodebate: esse é o fim da verdade?

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Você já teve a sensação de não saber mais se o que acabou de ver nas redes sociais é verdadeiro ou falso?
Vivemos um momento em que todos querem ter opinião sobre tudo, não importa quão descolada da realidade ela seja. E “ai” de quem discordar dela! Desse jeito, fica difícil…
Há três anos, o filósofo italiano Umberto Eco chegou a dizer que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Será que ele estava certo?
O problema é que não conseguimos viver em um ambiente no qual não podemos confiar em nada ou ninguém. Como resolver isso então? Veja minhas sugestões abaixo, no meu vídeo mais recente  E depois compartilhe suas impressões aqui nos comentários.



 

Quem aguenta tanta opinião (e intolerância) nas redes sociais?

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Cena da animação “Yellow Submarine”: ter opinião é essencial, mas é preciso respeitar o outro - Imagem: reprodução

Cena da animação “Yellow Submarine”: ter opinião é essencial, mas é preciso respeitar o outro

Na última segunda-feira (26 de junho), estive com meu colega Top Voice João Paulo Pacífico para uma animada conversa sobre como a tecnologia digital vem mudando as empresas e a vida das pessoas. Hoje trabalhamos, estudamos, nos divertimos, compramos e até paqueramos de maneira completamente diferente do que fazíamos há uns 15 anos. Mas talvez uma das mudanças mais dramáticas é que hoje todo mundo é capaz de emitir a sua opinião sobre absolutamente qualquer coisa com o potencial de influenciar uma quantidade enorme de pessoas. Daí vem a pergunta: que tipo de opinião as pessoas estão emitindo pela rede e qual o impacto disso?

Tudo isso começou com a liberação da Internet comercial, em 1994. Mas o divisor de águas foi a combinação das redes sociais com os smartphones, o que aconteceu há mais ou menos uma década. Pela primeira vez na história, as pessoas tinham um computador poderoso e permanentemente online onde estivessem e a qualquer hora. Além disso, tinham o canal perfeito para falar o que bem entendessem. E foi aí que a porca torceu o rabo.


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A possibilidade de podermos nos expressar livremente é uma das coisas mais maravilhosas que existe, e os meios digitais elevaram isso a um patamar até então inimaginável. Mas o fato de podermos fazer qualquer coisa não nos dá o direito de abusarmos disso. No caso dessa chance de nos expressarmos, o exagero acontece na forma de discursos de intolerância e de ódio, pois afinal, “a minha opinião vale muito e é ela que tem que valer”.

Isso vem acontecendo com muita força há pouco tempo. As pessoas veem algo que não gostam e deixam de pensar com o cérebro, para pensar com o fígado. Daí descarregam nas redes sociais o resultado de tanta amargura, não importa se aquilo prejudicará ou simplesmente magoará alguém.

Entram em cena os algoritmos de relevância das redes sociais, que são construídos para colocar em contato pessoas que pensam de maneira semelhante. E então, aquela opinião carregada de sentimentos ruins, que antes ficaria restrita a um pequeno grupo, pode correr o mundo como um rastilho de pólvora e inflamar uma enorme quantidade de pessoas.

E o estrago pode ser gigantesco.

 

Transformando boatos em nitroglicerina

Também por influência dos meios digitais, as pessoas andam bastante imediatistas. Cresce a sensação de que temos que dar conta de uma quantidade cada vez maior de tarefas de todo tipo em um tempo cada vez menor, o que causa uma enorme fadiga mental. Um dos resultados disso é que, para conseguirmos fazer isso tudo, passamos a refletir menos sobre nossas ações.

Daí, nesse cenário, o indivíduo fica sabendo de algo que não gosta. Sem sequer checar se aquilo é mesmo verdade, sente uma necessidade de botar a boca no trombone e dizer ao mundo como não concorda com aquilo. Só que, como “quem conta um conto aumenta um ponto”, aproveita para jogar um pouco mais de gasolina na fogueira. Some a isso a capacidade de multiplicação das redes sociais e de repente, aquilo que talvez nem fosse nem verdade, ganha o poder destrutivo de uma enorme bomba.

Muita gente está inclusive ganhando muito dinheiro com isso. Eles produzem as chamadas “fake News”, conteúdo que parece ser verdadeiro, mas que, na verdade, só existe para inflamar as massas para que alguém tire algum proveito disso. E não é pouca coisa! Especula-se que Donald Trump tenha sido eleito presidente dos Estados Unidos com uma boa ajuda da “desinformação”, como esse fenômeno também é chamado.

Com isso, o direito legítimo de emitir a própria opinião pode se transformar em uma ferramenta de manipulação social eficientíssima, tudo porque falamos (ou repassamos o que ouvimos) sem pararmos para pensar direito naquilo.

Mas então ter opinião virou algo ruim?

 

Mesa de bar global

Claro que não! Mas, se o nosso direito cresceu muito, nossas responsabilidades associadas a ele cresceram na mesma proporção.

Há exatamente dois anos, o filósofo e escritor italiano Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis” antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” E continuou: “eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel (…) O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Eco carregou nas tintas, ao generalizar as opiniões que são publicadas na Internet com algo sempre rasteiro. Também foi infeliz ao sugerir no mesmo discurso, proferido quando recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim (Itália), que “especialistas” filtrem o que o resto das pessoas publiquem na Internet.

É verdade que qualquer um de nós pode falar besteiras em uma mesa de bar, e que agora essa mesa de bar tem alcance planetário. Só que simplesmente querer calar a multidão me parece uma espécie de censura prévia, promovida por uma aristocracia cultural. Além disso, trata-se de uma atitude inócua, pois as pessoas continuarão falando, e cada vez mais.

Portanto, ao invés de tentar silenciar as pessoas, deve-se trabalhar para que elas sejam conscientizadas do poder que suas palavras têm e que, portanto, pelo menos reflitam um pouco antes de emitir a sua opinião.

Perguntas simples, feitas antes de se publicar qualquer coisa, podem ajudar muito nesse processo. Por exemplo, “o que eu vou publicar é mesmo verdade ou só parece ser?” “O que estou prestes a dizer pode prejudicar ou ferir alguém?” “Eu preciso mesmo publicar isso?”

Não acho que o mundo seja formado por uma “legião de imbecis”, como disse Umberto Eco. Apenas algumas pessoas precisam de orientação. Pois poder exprimir a sua opinião é uma coisa maravilhosa, e os meios digitais são ferramentas incríveis para isso. Mas devemos sempre exercer esse direito com responsabilidade e consciência.

Quando isso é observado, os resultados podem ser incríveis! E a sociedade pode crescer muito.


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Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de "O Nome da Rosa", obra-prima de Umberto Eco

Sean Connery como William de Baskerville, na adaptação para o cinema de “O Nome da Rosa”, obra-prima de Umberto Eco

Para Umberto Eco, as redes sociais dão voz a uma “legião de imbecis”, antes restrita a “um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.” É uma crítica fácil, mas o escritor italiano foi míope em sua análise, por não ver que isso está no centro de uma mudança social irrefreável que é, na verdade, positiva.

A declaração foi feita anteontem, quando Eco recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim (Itália). Em seu discurso, disse ainda que “eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel” e que “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

Deixe-me ver se entendi: os “imbecis” (segundo o critério de alguém) devem ser calados, confinados a sua “ignorância”?

Esse conceito, muito popular entre regimes e instituições totalitárias, serve também para calar aqueles que simplesmente pensam diferente do status quo. Curiosamente nesses dias estamos diante de um debate em torno do comercial de O Boticário para o Dia dos Namorados, que apresenta casais homossexuais em condição de igualdade a casais heterossexuais, o que despertou a ira de uma parcela da população que considera isso uma afronta à sociedade. Se quisermos ir mais longe, temos exemplos brutais de tentativas de se silenciar o diferente, como o nazismo e a Inquisição.

Portanto, é curioso ouvir isso do autor de “O Nome da Rosa”, uma obra que justamente debate, entre outros temas, a intolerância ao diferente dentro de uma abadia na Idade Média. E, para a Igreja, entre as pessoas com pensamento diferente do que pregava e que deveriam ser silenciados (ignorantes?), estiveram Galileu Galilei e Nicolau Copérnico.

Sim, é verdade que a Internet deu voz a qualquer um, para falar o que bem entender. E é claro que, no meio disso, encontramos dignos representantes da mais bela porcaria, discursos de ódio e intolerância, pedofilia, informações erradas e todo tipo de informações questionáveis. Mas isso nada mais é que reflexo do mundo que vivemos: não foram os meios digitais que criaram isso tudo.

O centro da questão passa por definir o que é “certo” e “errado”. Esses valores morais variam de acordo com o tempo, o local, o grupo social, a religião. O comercial mencionado acima é um belo exemplo disso: conseguiu polarizar a população brasileira. Devemos silenciar os “imbecis” e exultar os “corretos”? Mas, afinal, quem é quem?

Penso que é exatamente o contrário disso: do debate, nossa sociedade pode evoluir. Estamos em um momento em que justamente as pessoas estão esquecendo como conviver com o diferente. E nada de bom pode surgir disso.

Não é a primeira vez que a Internet é acusada de ser “a destruidora da civilização” por dar voz a qualquer um. Em 2007, isso chegou a render um livro, “O Culto do Amador”, do cientista político britânico Andrew Keen. Na obra, ele afirma que a liberdade oferecida pela Internet destruiria a sociedade por colocar um palpiteiro em pé de igualdade com especialistas. Isso já foi inclusive discutido neste blog.

O fato é que nada impedirá que as pessoas falem o que pensam cada vez mais. O acesso democrático aos meios de publicação digitais combinado à ubiquidade de celulares cada vez mais poderosos mudou a maneira como nós nos relacionamos com a informação. Pela primeira vez, qualquer um pode criar e publicar seu conteúdo e atingir, ainda que hipoteticamente, qualquer pessoa no globo. Essa é a essência da crise das empresas de comunicação, por não aceitarem que seu modelo de negócios, baseado no monopólio dessa produção e distribuição, não encontra mais lugar no mundo.

Portanto, quando Umberto Eco conclui que “os jornais devem filtrar as informações da Web com uma equipe de especialistas”, está tentando segurar um tsunami com a mão. Os meios de comunicação devem, na verdade, trabalhar em sentido contrário: trazer essas pessoas, com tanto a falar, para dentro de seu processo, melhorando o seu produto e aumentando a sua relevância social.

Não são “imbecis”, e merecem ser ouvidos. Os interlocutores tampouco são “imbecis”. Cabe a cada um processar a informação como achar melhor.