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O jornalismo está morto! Vida longa ao jornalismo (e ao seu negócio)!

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O personagem “Puro Osso”, da animação “As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy” - Imagem: reprodução

O personagem “Puro Osso”, da animação “As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy”

O jornalismo morreu! Pelo menos é o que tenho ouvido cada vez mais insistentemente de comunicadores, professores e estudantes de Jornalismo, além do público, cansado da qualidade cada vez mais baixa dos veículos tradicionais. Informações erradas, pautas desinteressantes, erros de português e, em cima de tudo isso, alinhamentos políticos e ideológicos exagerados, que comprometem a credibilidade, estão entre as principais críticas. Isso tudo é terrível, pois coloca em xeque uma instituição essencial para a vida de cada um de nós.

Mas vou lhes contar uma coisa: o jornalismo nunca esteve tão vivo! Então por que tanta gente está deixando de acreditar na imprensa?

A causa é uma incrível incapacidade que essas empresas de comunicação demonstram em se atualizar. E, como em qualquer outro negócio, quem fica parado acaba levando uma surra de concorrentes mais ágeis e ousados, mais cedo ou mais tarde. Portanto, apesar de esse artigo falar de jornalismo, os ensinamentos valem para virtualmente qualquer um.

Debati sobre isso há alguns dias no 8º Encontro Paulista de Professores de Jornalismo, que tive a honra de abrir. Para mim, a história da morte do jornalismo faz parte de uma tríade de bobagens que me incomodam há alguns anos. As outras duas são que as pessoas não leem mais, e que elas não querem mais pagar por conteúdo.

Mentiras!

O fato é que as pessoas nunca consumiram tanto conteúdo, inclusive jornalístico. E, apesar do avanço do vídeo digital, a maior parte de todo esse conteúdo chega de forma escrita. A responsável por isso é a combinação dos smartphones com as redes sociais, que começou a se desenhar há uns dez anos. O primeiro é um computador poderoso, permanentemente online, que carregamos em nosso bolso para onde formos. Já as segundas cumprem o papel de selecionar e entregar o conteúdo de acordo com as nossas necessidades.

Ou seja, as pessoas nem precisam ir até as notícias: elas vêm até o público.

 

O risco de não ser relevante

O problema disso é que as pessoas consomem cada vez mais o que os algoritmos de relevância das redes sociais consideram interessante, o que não é necessariamente bom. Perde força a curadoria feita pelos editores, sendo substituída pelas curtidas dos nossos amigos, que ajudam o Facebook e afins a determinar o que deve ser promovido.

Sem entrar no mérito de que isso aumenta enormemente o risco de deixarmos de consumir conteúdo que deveríamos, isso nos leva à terceira das bobagens acima, aquela que diz que as pessoas não querem mais pagar por conteúdo.

Sim, as pessoas pagam por conteúdo, desde que faça sentido para elas!

Acontece que, pelos problemas indicados no primeiro parágrafo desse texto, os veículos tradicionais não têm conseguido despertar o interesse do público. Vejam o exemplo abaixo, com primeiras páginas recentes do Estadão e da Folha (mas poderia ser de qualquer outro veículo tradicional):

O fato de serem incrivelmente parecidas não é coincidência. Resulta do fato de que os veículos têm investido pouco em reportagem, que é a alma do bom jornalismo. Ao invés disso, vivem de denúncias, de “jornalismo palaciano” (acompanhamento de acontecimentos de fontes oficiais), de denuncismo. Ou seja, uma mesmice crônica resultante de uma apuração rasa, feita por uma mão de obra cada vez menos qualificada e barata (os mais experientes -e caros- foram quase todos demitidos nos últimos anos).

Não precisa ser gênio para saber que isso é pouco atraente para o público. As pessoas não são trouxas! Para um conteúdo assim, existem várias opções gratuitas. Como resultado, as receitas dessas empresas estão em queda livre, como visto no gráfico (compare com as curvas de receita do Google e do Facebook).

Agora comparemos com o cinema. Nos anos 1980, quando o VHS foi popularizado, muita gente achava que aquilo seria o fim das salas de cinema. E, em um primeiro momento, parecia ser verdade, pois o público começou a assistir aos filmes em casa, enquanto as salas esvaziavam.

A causa não eram os videocassetes: a qualidade e o som do VHS eram ruins, e as TVs naquela época tinham telas pequenas (uma TV de 20 polegadas era um luxo). O problema estava nas próprias salas de cinema, que eram pequenas, também tinham imagem e som ruins, poltronas rasgadas, cheiravam a mofo e vendiam uma pipoca rançosa.

Oras, para ter uma experiência “meia-boca”, melhor ter isso no conforto do lar e pagando menos.

Diante da morte iminente, as salas de cinema se reinventaram. Hoje oferecem uma qualidade incrível em todos os aspectos. Ir ao cinema é mais que ver um filme: é uma experiência de conteúdo! Em outras palavras, aumentaram a sua relevância. E -vejam só- as pessoas pagam por isso!

Alguns podem dizer: mas isso não é jornalismo. Pois eu respondo: funciona tudo do mesmo jeito.

 

Criando reputação com conteúdo

É verdade que o modelo que mantém a mídia tradicional, baseado em assinatura e publicidade, está evaporando. Não apenas porque o antigo público não vê mais valor no produto, mas também porque surgem alternativas mais interessantes.

Empresas mais modernas já perceberam que hoje é melhor ganhar dinheiro graças ao conteúdo que com o conteúdo. Em outras palavras, ele serve para ajudar a construir uma ótima reputação, que depois serve para vender outros produtos, como consultorias ou eventos.

Há também empresas que nem são de comunicação produzindo jornalismo de alta qualidade, como a Nestlé e a Red Bull (veja sua home page na imagem). Elas perceberam que bom conteúdo é um recurso valiosíssimo para atrair e conquistar clientes para seus produtos.

Quer dizer então que as empresas tradicionais de comunicação estão condenadas? Claro que não!

Temos ótimos exemplos de veículos centenários que encontraram o seu caminho nesse novo cenário da comunicação. Um deles para mim é emblemático: o The Washington Post. Criado em 1877, esse, que é um dos mais importantes jornais do mundo, estava ladeira abaixo até bem pouco tempo atrás. Foi quando Jeff Bezos comprou a publicação, em 2013.

O criador e CEO da Amazon não interferiu na parte editorial, exceto pelo fato que contratou dezenas de novos jornalistas, reforçando o time. Em compensação, mexeu em todo o resto: injetou muita tecnologia, colocou o pessoal de TI trabalhando em pé de igualdade com os jornalistas na redação (para lhes oferecer dados para as reportagens e sobre o público) e reinventou o modelo de negócios do título, tornando sua versão digital quase ubíqua nos EUA. Como resultado, o gráfico do Post, que era uma queda livre, inverteu-se para um crescimento acelerado em pouco tempo.

Bezos aplicou ao jornalão duas de suas máximas mais conhecidas: “preste mais atenção
em seus consumidores que em seus concorrentes” e “se você dobra seus experimentos, você
duplica sua inventividade”. Em outras palavras, foi necessário um mogul do e-commerce para meter o dedo na ferida do jornal e fazer as mudanças necessárias, inclusive correndo riscos. Tudo para se aproximar de seu cliente, tornar o seu produto mais relevante.

Portanto, o jornalismo está morrendo? De forma alguma! Está se transformando em algo novo e incrível, isso sim!  E, nesse novo cenário, não há espaço para quem quiser continuar fazendo tudo como sempre fez, só porque antigamente dava certo. E essa dica vale para qualquer empresa de qualquer segmento.

Está sentindo que há espaço para tornar sua empresa mais relevante? Está esperando o que para começar a agir?


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Como o Uber pode ensinar jornais -e qualquer negócio- a prosperar

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Foto: divulgação

Desde que discuti aqui a polêmica dos sites que dispensam usuários que têm ad blockers, me perguntam se o conteúdo afinal não tem mais valor. Resposta: não como as empresas de comunicação trabalham há 150 anos! Mas ele é fundamental para o negócio. E quem pode explicar isso é o Uber. Aliás, pode indicar o caminho para qualquer empresa de serviços na nova economia.

Mas o que o Uber tem a ver com um jornal? Ou o varejo, uma escola, um profissional liberal? Acontece que, na realidade que começamos a viver, não basta ser bom no que se faz: além disso, é preciso entregar o serviço e o produto que o consumidor quiser de uma maneira que lhe faça sentido. Aí reside o novo valor, aquele que as pessoas percebem e pelo qual estão dispostas a pagar! Todo o resto é commodity.


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Não é um conceito simples de entender, muito menos de aceitar. Mas ele está aí, subvertendo modelos de negócios consolidados há muitas décadas! No caso do Uber, a commodity é o transporte de passageiros. O que diferencia o Uber de um taxista convencional é que o primeiro vende a sensação do prazer de solicitar um motorista, com a garantia de que virá em um carro confortável, novo e limpo, com cortesia, boa conversa e um serviço de bordo superior. Embaixo disso tudo, está o transporte do passageiro, que evidentemente é o alicerce de todo o serviço, mas que não é mais pelo que as pessoas estão pagando. É por isso (e pelos recorrentes casos de agressão a motoristas e passageiros do Uber) que os taxistas estão perdendo a preferência do consumidor: eles querem continuar concorrendo nessa camada inferior do serviço, onde o valor, o diferencial vem sendo retirado pelos seus clientes. Não há como ganhar, exceto pela criação de leis retrógradas ou pela agressão física.

Consideremos o varejo: os produtos oferecidos e a própria venda são a commodity. Já há muitos anos –e isso vem sendo agravado pelo crescimento do e-commerce– o varejo (especialmente o grande varejo) vive uma situação dramática de uma dificuldade crescente de se diferenciar da concorrência. Afinal, todos eles fazem basicamente a mesma coisa, do mesmo jeito. Então todos partem para práticas autofágicas de baixar os preços e investir pesadamente em publicidade, queimando sua margem até o limite da irresponsabilidade. São recursos legítimos, claro! Mas o problema surge quando essas são as únicas ferramentas disponíveis, por sinal igualmente para todos.

Mas vejam os casos das startups Carrinho em Casa e Rabixo. Ambos são varejistas, mas que colocam uma camada extra de serviço acima da venda dos produtos em si. Perceberam que há pessoas sem tempo de fazer suas próprias compras (ou que não gostam ou simplesmente não querem) e criaram bons negócios resolvendo esse problema. São pequenas empresas, mas o conceito também vale para corporações gigantes, como a Amazon demonstra o tempo todo.

Voltando ao caso dos veículos de comunicação, a commodity é o conteúdo, mesmo que seja um excelente conteúdo! Se você, leitor, for um jornalista, pode estar com o cabelo em pé agora. Mas acredite: não é motivo para desespero! É apenas um alerta para mudanças que são inevitavelmente necessárias.

As pessoas sempre terão a necessidade de se informar. Em tempos pré-Internet, isso exigia ler jornais, revistas ou assistir ao noticiário na TV ou no rádio. Havia ainda um consenso de que, se quisesse ficar realmente bem informado, era necessário assinar pelo menos um jornal ou uma revista. E as pessoas pagavam por isso. Entretanto faziam isso por absoluta falta de alternativa! E as empresas de comunicação cresceram com a ideia de que o que elas vendiam era informação.

Ledo engano!

Claro que o conteúdo é importante: sem ele simplesmente não existiria a empresa de comunicação. Mas pelo que as pessoas estavam realmente pagando era a edição desse material, sua organização em páginas, impressão e entrega. E os veículos prosperaram assim, enquanto eram as únicas opções disponíveis!

Mas hoje todo mundo produz conteúdo, incluindo empresas que não tem nada a ver com isso (eu ouvi Red Bull?). Há conteúdo de alta qualidade de montão na Internet, e de graça! É commodity! Isso quer dizer que fica cada vez mais difícil ganhar dinheiro vendendo conteúdo.

Mas dá para ganhar muito dinheiro GRAÇAS ao conteúdo.

 

É como música aos ouvidos

Assim como o transporte de passageiros para o Uber, o conteúdo é algo essencial para viabilizar um negócio, mas não é O negócio. Algumas empresas de comunicação, como Vice e Catraca Livre, já sacaram isso, e, apesar da natureza do seu produto, aprenderam a ganhar dinheiro de outras maneiras. O papel do conteúdo ali é aumentar a sua reputação e a sua popularidade, viabilizando os outros negócios, onde está o dinheiro.

Nesse sentido, o jornalismo vai muito bem! Quem vai mal são as empresas e os profissionais que continuam querendo ganhar dinheiro apenas vendendo a notícia.

O conteúdo jornalístico não é o único que passou por esse choque de realidade. Muito mais emblemático foi a derrocada da indústria fonográfica no modelo de venda de música em CDs. Venceram parcialmente a primeira batalha, a dos usuários trocando as músicas no formato MP3. Mas foram destruídos quando a Apple lançou o iTunes, que começou a vender as músicas individualmente a US$ 0,99, de uma maneira cômoda, segura e de alta qualidade. Quem continuaria comprando CDs diante disso?

A pá de cal veio com serviços como o Spotify e o Apple Music, que tornaram o iTunes obsoleto: por uma pequena assinatura mensal, dão acesso ilimitado a um acervo gigantesco, em qualquer lugar. Para o consumidor, é música aos ouvidos.

Nem todos os artistas acham isso bacana, especialmente as grandes estrelas. Argumentam que esses serviços lhes pagam apenas uma pequena fração do que eles ganhavam vendendo CDs. E isso é verdade!

Mas eles não vendem mais CDs.

A música também virou commodity. Esses serviços não vieram para substituir os discos. São um espaço de divulgação e consolidação dos artistas. Se os medalhões ganham hoje muito menos, existe a contrapartida que artistas obscuros podem conhecer a fama de uma maneira que jamais aconteceria quando as gravadoras dominavam o processo. O sistema democraticamente dividiu os ganhos entre muito mais gente. E quem é famoso deve agora ganhar dinheiro de outro jeito, por exemplo fazendo shows.

 

Críticas ao modelo

Muita gente acha tudo isso um absurdo!

Há muitos críticos, por exemplo, ao Uber. Eles dizem que a empresa explora os motoristas, ganhando em cima deles, que são os donos dos carros e os únicos a correr riscos (inclusive de apanhar de taxistas raivosos). Seria, portanto, o capitalismo do pior tipo.

Esses críticos deveriam conversar com esses motoristas. Uso o serviço frequentemente e sempre faço isso. Seus trabalhos anteriores variam de engenheiros a motoristas de táxi. Até hoje não encontrei um que não estivesse satisfeito com o modelo. Nenhum deles me pareceu explorado; na verdade, a sensação mais comum era de gratidão. Afinal, sem isso, estariam desempregados.

Não quero parecer Poliana. Sei que o Uber já disse que, no futuro, espera ter uma frota de carros-robôs, sem motorista. Mas isso ainda vai demorar um bom tempo, pois os tais carros ainda estão em testes preliminares. Até lá, os motoristas continuarão felizes.

Os críticos afirmam que o Uber ganha dinheiro sem risco e “sem fazer nada”. Essa é uma afirmação maniqueísta e rasa, pois a empresa atua justamente na camada do negócio onde está o real valor, como descrito mais acima. Sem isso, o que nos restaria seriam os taxistas, e os motoristas do Uber talvez estivessem desempregados.

São como Elton John, que, em 2007, propôs o fim da Internet, pois ela estaria “destruindo a indústria musical e as relações interpessoais”. Na verdade, ele reclamava porque não estava mais vendendo tantos CDs.

Gosto muito das músicas dele, mas prefiro ouvi-las no Spotify. Por outro lado, irei feliz ao seu próximo show!

Desde que eu perceba valor naquilo.


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Será que funciona no Brasil?

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A salvação do modelo econômico do jornalismo pode passar por sistemas como o Kachingle e os micropagamentos

A salvação do modelo econômico do jornalismo pode passar por sistemas como o Kachingle e os micropagamentos

Já que tenho falado de micropagamento, Kachingle e Steve Outing, ele tem posições bastante críticas quanto ao primeiro. Para Outing, esse sistema de remuneração simplesmente não funciona, pois seria contrário à natureza da Internet. Seu argumento: no micropagamento, o conteúdo continua fechado, dificultando seu compartilhamento entre os usuários e sua indexação pelos sistemas de busca. E, se você estiver fora do Google, está fora dos negócios. Para o guru, algo como a Kachingle faz muito mais sentido. O principal obstáculo para seu sucesso são os barões da mídia, que precisariam mudar de postura e convencer seus usuários a passar a pagar não apenas pelo seu conteúdo, mas sim para o conteúdo também de seus concorrentes. Afinal, o sistema distribui o dinheiro do usuário entre todos que ele considera merecedores.

Concordo com todas as posições de Outing acima, mas acho que essa é uma visão um pouco simplista e muito radical. Nesse momento, tudo o que NÃO precisamos são posições inflexíveis. Existem maneiras e maneiras de se implantar o micropagamento. Problemas como a indexação pelas spiders e a viabilidade de compartilhamento de links de conteúdo fechado já foram tratados, inclusive por aqui, pela Abril.

O que jamais se pode perder de vista é a simplicidade para o usuário acima de tudo. A Kachingle realmente faz mais sentindo, mas não estou totalmente seguro que ele vingará. E o motivo é apenas um: ele só é interessante se for onipresente e único, sem concorrentes. A partir do momento que aparecem três ou quatro desses sistemas, um site que eu apoiaria poderia estar com a Kachingle e outro estaria com o, digamos, “Letingle”. E aí, vou fazer depósitos em ambos? Já era, ficou difícil!

Há um outro fator que o Outing não menciona e nem poderia, já que ele não vive no Brasil: será que, por questões culturais, pelo famigerado “jeitinho brasileiro” de querer levar vantagem em tudo, pagaríamos pelo conteúdo que consumíssemos pela Internet? A massa prefere pagar R$ 1 por um DVD pirata, quando o original sai por R$ 12,99, um preço bastante razoável por um produto claramente superior -e nem entro aqui na questão da ilegalidade das cópias. Para o pessoal, é diferente assinar um jornal ou uma revista, pois o papel “tangibiliza” esse dinheiro pago. No final das contas, paga-se pelo… papel, pela sensação de ser “dono” de algo, mesmo que amanhã você use esse seu investimento para forrar a caixa de areia do gato.

Admitamos ou não, isso funciona diferentemente na Europa e principalmente nos EUA, onde as pessoas se sentem naturalmente compelidas a pagar por algo que poderia lhes ser entregue de graça, mas que lhes traz algum benefício, mesmo intangível. Ademais lá o jornalismo tem um caráter historicamente mais comunitário que aqui: ele nasceu não puramente como um negócio, mas sim como um serviço a sua comunidade local, que, em troca, o abraça.

Arrisco que a solução desse nó górdio está em algum lugar nesse post, mas eu tenho as hipóteses, não tenho a resposta. E você?

Conteúdo pré-pago (e pós-distribuído)

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Que tal um sistema que distribua o dinheiro que você der a todos os sites que você achar merecedores?

Que tal um sistema que distribua o dinheiro que você der a todos os sites que você achar merecedores?

Como escrevi nos posts anteriores, a indústria de mídia impressa, especialmente nos EUA, vive um ponto de inflexão, de onde alguns sairão fortalecidos, enquanto outros inexoravelmente quebrarão, como aconteceu recentemente com o sesquicentenário Rocky Mountain News, de Denver (EUA). O motivo é a dificuldade da chamada “mídia tradicional”, mais notadamente a impressa, de se adaptar ao Admirável Mundo Novo que a Web representa e, com isso, vê suas receitas sendo drenadas mais e mais.

Muita gente séria enxerga no micropagamento -resumidamente o usuário pagar poucos centavos por cada matéria que quiser ler- a salvação da viabilidade econômica do jornalismo de qualidade na Web. Mas, para isso, existem dois obstáculos a serem vencidos. O primeiro é que os moguls da mídia aceitem a inevitabilidade do fato de que seu produto virou commodity e que, como tal, seu preço no mercado despencou. O segundo é a criação de um sistema que permita ao internauta fazer essa compra de uma maneira muito, muito simples, tão facilmente (ou de preferência mais facilmente) quanto comprar uma música no iTunes.

Mas deve haver outras formas. Uma delas está sendo lançada por uma start-up californiana chamada Kachingle. A idéia é inovadora e boa, a ponto de arrancar elogios de Steve Outing, um dos maiores consultores de mídia dos EUA.

Eu a chamaria de “microprépagamento proporcional”. Como funciona? Você informa seus dados apenas uma vez, um registro universal que valerá para todos os sites de conteúdo que você visitar (pelo menos para aqueles associados da Kachingle). Depois você define voluntariamente quanto quer pagar pelo conteúdo que você consumir -a soma de todo ele- no mês. Por fim, quando visitar um site que você acha que mereça seu dinheiro, clica nele em um link do Kachingle uma única vez. Assim, informa ao sistema que aquele site é “elegível” de receber uma parte do seu dinheiro. E isso vale para tantos sites quanto você achar merecedores. Ao final do mês, a Kachingle soma a quantidade de visitas que você fez entre seus pré-aprovados e distribui proporcionalmente o dinheiro que você depositou entre eles. Como exemplo, se você visitou, ao longo do mês, a Folha Online 25 vezes, o Macaco Elétrico 15 vezes o Limão dez vezes, todos pré-selecionados, o primeiro receberá 50% do dinheiro que você reservou para conteúdo, o segundo 30% e o terceiro 20%. Outros sites pré-selecionados, porém não visitados, não receberão nada.

O sistema da Kachingle embute vários pulos do gato. Primeiramente, transforma o pagamento pelo conteúdo algo praticamente transparente para o consumidor. Em segundo lugar, é um sistema justo, onde quem é mais relevante para o usuário recebe mais dinheiro. Oferece ainda ao usuário a chance de definir quanto quer pagar pelo conteúdo que consumir, sem surpresas. Finalmente, permite que o internauta possa ler o mesmo conteúdo de uma maneira grátis e irrestrita, o que é bom para ele e também para os veículos, que passam a ter a chance de ganhar algo com esse usuário, nem que seja com uma mísera exposição de banners. No modelo atual, de conteúdo fechado, esse internauta é simplesmente perdido.

Parece tudo de bom, não é mesmo? Sem dúvida, mas, como diz o ditado, “as boas idéias morrem na execução”. A Kachingle é certamente uma alternativa viável e mais inteligente ao micropagamento, porém tudo isso ainda é especulação, mesmo nos EUA. De toda forma, esse debate é muito saudável e crítico para o futuro das empresas de comunicação. Meu medo é que, até que se descubra a fórmula, o jornalismo tenha sido destruído por constantes cortes em mão de obra e investimentos. No início de março, o diário espanhol ABC demitiu 238 de seus 456 profissionais, 84 deles na Redação. Nem relógio trabalha de graça.

O valor da notícia

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Na Web, o valor de uma reportagem pode ser tão pouco quando R$ 0,01

Na Web, uma reportagem pode salvar um veículo jornalístico valendo apenas R$ 0,01

Quanto vale, do ponto de vista do leitor, um texto de um jornal? Se dividirmos o preço de capa pela quantidade de retrancas, chegaríamos a algo na casa de R$ 0,01. Como ninguém lê o jornal inteiro, podemos relativizar esse valor para, digamos, R$ 0,05.

Agora deixe-me refazer a pergunta acima de outra forma: quanto o leitor -mesmo você- pagaria por UM texto jornalístico na Internet? Essa é mais difícil. Com tanto conteúdo oferecido de graça na rede -e muito dele é efetivamente bom- parece não fazer sentido gastar seu tempo e seu dinheiro com um “conteúdo fechado”. Muitas vezes, a concorrência está dentro de casa, como na Folha de S.Paulo: a Folha Online oferece jornalismo de qualidade e grátis na Web, enquanto a versão online do jornal impresso continua fechada a assinantes.

Essa dura contestação está abatendo os jornais e revistas, que perdem leitores para a Internet, dramaticamente arrastando com eles as receitas de publicidade, de assinaturas e de vendas nas bancas. Não é uma visão apocalíptica: veículos centenários estão quebrando! E as grandes casas editoriais não sabem ainda como lidar com isso. Muitos insistem em “fechar” o seu conteúdo para os assinantes do veículo em papel. É um movimento estúpido de luta contra “o resto do mundo”, que só faz sentido na cabeça dos donos desses veículos, que acham que blogueiros e outras novidades da Internet estão lhes “roubando” seus consumidores. Bom, bem-vindos à realidade! Não apenas os não assinantes continuarão sem consumir a versão em papel de seus produtos, como também o veículo perderá a chance de ganhar algo com eles em sua versão online.

Mas o “problema” é que produzir jornalismo custa dinheiro, e bom jornalismo custa mais ainda. Apesar de o conteúdo grátis ter um apelo irresistível, o público sabe separar o joio do trigo e eventualmente escolherá o bom jornalismo, mesmo pago (é o que vem acontecendo nos últimos séculos). Mas só farão isso se lhes fizer sentido. Sendo mais didático: só pagarão se acharem que o preço é justo pelo que receberão, diante da concorrência mais barata. Mais que isso: o processo precisa ter uma simplicidade atroz, como se propõe a Web. Afinal, o usuário estaria comprando um produto com custo marginal e o usaria apenas pelo tempo de leitura do texto. Não dá para ser mais complicado que isso.

Esse é o conceito do micropagamento, que muita gente seríssima da indústria de mídia está abraçando. Na matéria de capa da Time de 5 de fevereiro (reproduzida no Estadão em português), Walter Isaacson, ex-editor da revista, aposta nele para salvar os veículos. Steve Brill, um dos principais observadores da mídia nos EUA, publicou um documento para “salvar o New York Times e o próprio jornalismo“, que se baseia no mesmo conceito.

Faz sentido. Ou não… Em tese, isso é correto e faço votos que esse ou outro modelo econômico realmente dê certo e seja abraçado pelos usuários. Eu amo jornalismo -bom jornalismo- mas os jornalistas precisam ganhar para o leitinho das crianças. O desafio é criar um sistema de pagamento que seja realmente simples -o que não existe ainda para notícias (existe o iTunes para música e vídeos). E que os editores admitam que o preço de uma reportagem pode ser até mesmo R$ 0,01.