vídeo sob demanda

Prepare-se para ficar sem Internet

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Foto: Leo Hidalgo (@yompyz)/Creative Commons

Empresas de telefonia anunciaram um duro golpe contra seus próprios clientes, impondo restrições ao consumo de dados em seus planos de Internet. Na prática, isso significa que, de repente, todos nós poderemos ficar sem acesso apenas por usar o produto pelo qual pagamos.

Para quem não sabe do se trata, a Vivo (que agora controla a GVT) anunciou que, assim como fazem a NET/Claro e a Oi, agora limita seus planos de banda larga fixa, aquela usada em residências e empresas. Cada plano passa a ter uma franquia, ou seja, uma quantidade de dados para usar todo mês. Quando esse limite for atingido, a velocidade da conexão é reduzida a patamares inutilizáveis ou a conexão é simplesmente cortada. O serviço só é restabelecido na virada do mês, ou caso o usuário compre um “pacote de dados adicional”. Naturalmente pagando bem caro por ele.


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Juntas, essas empresas respondem por 86% do acesso à Internet fixa no país. Por isso, o anúncio praticamente simultâneo cheira a cartel. Diante da gritaria do público, a TIM aproveitou para dizer que a empresa não imporá esses limites a seus clientes. Esperta! Mas ponto para ela.

O argumento das operadoras parece válido em um primeiro momento: que pague mais quem usa mais. Elas fazem um paralelo com o serviço de fornecimento de energia elétrica. Dessa forma, quem usasse a Internet apenas para tarefas muito básicas, como ler e-mails, pagaria pouco, enquanto heavy users de vídeo sob demanda pagariam muito.

Pura cortina de fumaça para dar um ar de justiça social a uma decisão arbitrária e abusiva!

 

Pega na mentira!

Temos que considerar que esse cidadão da “Internet básica” está em extinção, se é que ainda existe. Quem nunca entra, pelo menos de vez em quando, no YouTube para ver um vídeo de humor, um trailer de cinema ou ouvir uma música? Portanto esse argumento de “cobrar pouco da Internet a carvão” é inválido.

A comparação com o fornecimento de energia elétrica também é um insulto à inteligência do público. Enquanto novos eletrodomésticos são projetados e a população é instruída a gastar menos energia, mas sem que isso configure perda na qualidade no serviço, no caso da Internet vivemos em um mundo em que o tráfego de dados cresce exponencialmente. Não poderia ser diferente: as pessoas têm a sua disposição mais e mais serviços online, sem falar no fato de que cada vez mais equipamentos nas empresas e nas residências estão permanentemente conectados. Você já parou para pensar quantos na sua casa estão online agora? Além dos computadores (que pode ser mais que um), existem os smartphones de todos os membros da família, tablets, televisões, videogames, relógios inteligentes, TV por IP (como Apple TV), sistemas de som… E em breve teremos o carro, o refrigerador e todo tipo de automação doméstica (na Coreia do Sul, por exemplo, já temos lâmpadas ligadas à Internet). Portanto, essa comparação com o fornecimento de energia elétrica é completamente inadequada.

Por fim, há ainda a quantidade de dados que as teles oferecem para cada franquia, outro grande engodo. Elas são criadas para ser insuficientes. No caso da Vivo, as franquias variam de 10 gigabytes, para o plano mais barato (“Banda Larga Popular 2 Mb/s”), a 300 gigabytes, para o mais caro (“Fibra 300 Mb/s”).

Colocando isso em perspectiva, 10 gigabytes são consumidos, por exemplo, assistindo a umas oito horas de Netflix (oito episódios de séries ou quatro filmes), ou a cinco horas de YouTube, ou participando de umas cinco horas de cursos à distância em vídeo ou se divertindo por 15 minutos (sim, minutos!) com jogos online por streaming. Vale lembrar que você ainda tem que incluir todas as outras coisas que você fizer online (sim, WhatsApp e Facebook também contam) e que a franquia é dividida entre os usos de todos os membros da residência em um mês inteiro!

Olhando para esses exemplos fica impossível não notar um provável alvo das operadoras.

 

Guerra ao vídeo online

Acontece que essas empresas também têm outros negócios, como telefonia (que vai mal das pernas) e TVs por assinatura (que está ladeira abaixo).

A única perna do seu tripé que não para de crescer é justamente o acesso à Internet, com usuários cada vez mais ávidos por velocidade e volume de dados. E o grande impulsionador disso é o vídeo, que se estabeleceu como a nova linguagem no meio digital.

Basta olhar para crianças e adolescentes. A ferramenta de busca deles para qualquer assunto não é o Google: é o YouTube. Além disso, eles simplesmente não querem saber de TV aberta ou fechada, não apenas porque todo o conteúdo que eles querem está online, mas também porque eles não se submetem à grade de programação, a base do negócio de qualquer emissora.

Some-se a isso os altos preços dos planos de TV por assinatura, excesso de comerciais, canais irrelevantes empurrados goela abaixo e baixa qualidade da programação, e temos, como resultado os seus 725 mil cancelamentos em 12 meses (até fevereiro, dados mais recentes da Anatel).

Grande parte desse público trocou as altas mensalidades das TVs por assinatura pela Netflix, mais barata, sem comerciais, sem grade de programação e com conteúdo de alta qualidade. Ou seja, paga-se muito menos por um produto muito melhor.

O negócio só não é perfeito porque a Netflix roda sobre a Internet. E quem oferece esse serviço são as teles. Então, no melhor estilo de “a bola é minha, brinco como eu quero”, elas se veem no direito de penalizar toda a população para tentar tornar o vídeo digital o vilão da história, para salvar o seu negócio moribundo de TV por assinatura.

 

O que fazer?

Portanto, apesar de os comerciais das operadoras para vender seus acessos à Internet sugerirem uma vida totalmente conectada às pessoas, inclusive destacando o vídeo sob demanda, sua visão tacanha de negócios castra seus clientes. A prática nega o discurso.

Seria de se supor que a Anatel fizesse alguma coisa a respeito. Mas a Agência Nacional de Telecomunicações decidiu lavar as mãos sobre o tema. Segundo ela, para serviços de banda larga fixa, as empresas podem fazer o que bem entenderem. Sua única obrigação é oferecer um sistema para que o cliente verifique quanto da franquia já consumiu e avisar quando estiver próximo a estourar sua cota mensal.

Felizmente os órgãos de defesa do consumidor não estão dispostos a fazer também o joguinho das teles. Tanto o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) quanto a Associação de Consumidores Proteste já entraram na Justiça contra a prática abusiva. Juristas afirmam que o consumidor está protegido pelo Código de Defesa do Consumidor e pelo Marco Civil da Internet. Este último, uma espécie de “constituição da Internet” no país, prevê explicitamente que o sinal de Internet só pode ser interrompido por falta de pagamento.

Ou seja, a nova prática das teles, além de imoral, é ilegal.

Entretanto, não devemos esperar apenas pelos resultados das ações do Idec e da Proteste. Cada um de nós pode realizar diferentes ações. A página no Facebook Movimento Internet Sem Limites, que debate o assunto, já contava com mais de 400 mil inscritos no momento em que esse artigo foi escrito. Abaixo-assinados online também são boas maneiras de fazer pressão. O hospedado na Avaaz.org já caminhava para 1,5 milhão de adesões. Também é possível abrir uma reclamação no Procon de seu Estado.

Você pode ainda tentar pressionar os deputados federais por e-mail ou telefone. Só não sei se algum deles nos ouvirá nesses tempos em que Brasília só se preocupa com temas ligados ao impeachment da presidente…

A única coisa que não podemos fazer é não fazer nada. É necessário divulgar, debater e agir! Já não bastassem as altas mensalidades, os serviços ruins, o suporte deplorável, temos que engolir mais esse abuso agora?


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Globo Play não deve salvar a emissora nas novas gerações hiperconectadas

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Foto: Robert de Bock / domínio público

Nesta terça (3), a Globo lançou seu aplicativo Globo Play, um serviço de vídeo sob demanda que, a princípio, lembra produtos como Netflix: o usuário paga R$ 12,90 por mês e tem acesso a todo o seu acervo. Mas a novidade talvez tenha chegado tarde demais para salvar a emissora.

Muita gente pode achar um exagero o termo “salvar” para uma empresa que faturou R$ 12,4 bilhões em 2014. Isso representa cerca de metade da publicidade da TV aberta, segmento cujo market share supera, por sua vez, 50% de tudo que se anuncia no país.

Porém, no dia seguinte ao lançamento, a comScore e a IMS divulgaram os resultados de uma pesquisa com latino-americanos que assistiram a algum vídeo online nos últimos três meses. E, pelo menos para essas pessoas, o vídeo sob demanda já é mais importante que a TV.

O vídeo pela Internet faz parte do cotidiano de 81% do público pesquisado, contra apenas 70% da TV aberta. No Brasil, os números são ainda maiores: 82% dos entrevistados veem vídeo sob demanda regularmente, contra 73% da TV aberta. Em média, os entrevistados assistem a 13,2 horas semanais de vídeos digitais, 7,8 horas a mais que os das emissoras tradicionais. O dispositivo preferido para vídeos é o smartphone, usado em 80% dos casos. E o tempo gasto nessas telinhas, 5,2 horas semanais, é praticamente o mesmo dos dedicados à TV aberta e à TV fechada, que somam 5,4 horas semanais.

Outro dado emblemático revelado pela pesquisa é a idade dos consumidores de vídeo online. O maior grupo, de 15 a 24 anos, representa 30% do total, seguido pelo de 25 a 34 anos (26%) e o de 35 a 44 anos (22%). Ou seja, 56% dessas pessoas estão na faixa etária que liderará a vida econômica de seus países nas próximas décadas, começando agora.

E é aí que a situação da Globo e das outras emissoras se complica.

 

Modelo caduco

Então por que o Globo Play não seria suficiente para recolocar a Globo no caminho desse grupo de telespectadores? Porque, apesar de ter um modelo de cobrança e uma tecnologia semelhantes aos da Netflix, ele insiste em um estilo que as pessoas não aceitam mais.

Uma diferença fundamental entre os dois serviços é que, quando a Netflix lança uma nova série, ela publica todos os episódios de uma só vez. Já o Globo Play não coloca na Internet nada que não tenha passado antes na telona. Nada de ver, portanto, todos os capítulos da série de uma só vez, como clientes do Netflix estão acostumados a fazer.

Ou seja, o usuário da Vênus Platinada continua preso à grade da programação, um modelo que caducou na cabeça das novas gerações. Cada vez menos, essas pessoas podem ser chamadas de espectadores, pois querem assumir o controle de sua experiência: o horário nobre é aquele que elas definirem, e o que passa nele é o usuário que escolhe.

Sempre gosto de observar crianças e adolescentes: eles são ótimos gurus de como será o comportamento da sociedade nos próximos anos. E algo que tenho constatado cada vez mais é que essa turma simplesmente não assiste a nada na TV aberta. A telona serve para ver alguma coisa na TV por assinatura ou se conectar a serviços de vídeo sob demanda, o que realmente lhes interessa mais, de Netflix a ídolos teen no YouTube, conteúdos que consomem vorazmente. E o relatório da comScore corrobora minha observação, ao indicar que, entre o grupo pesquisado, a TV por assinatura já tem mais público que a TV aberta, indicando uma preferência por segmentação de programação.

O último movimento da Globo é interessante, sem dúvida, mas não o vejo como suficiente para convencer as gerações já acostumadas a ter o total controle do seu consumo de conteúdo a pagar por ele. No final das contas, continua sendo a velha TV, apenas com um novo formato tecnológico. O que o público quer, entretanto, é uma verdadeira ruptura de modelo.

E nem entrei no mérito da qualidade da programação da TV aberta…

Depois de mudar o jeito de ver TV, Netflix agora mira o cinema e até o jornalismo

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Cena de "Beasts of No Nation", primeiro filme da Netflix para o cinema - Foto: divulgação

Cena de “Beasts of No Nation”, primeiro filme da Netflix para o cinema

Na última sexta, a Netflix estreou “Beasts of No Nation”, seu primeiro longa-metragem para cinema. Dois dias antes, seu CEO, Reed Hastings, e seu diretor de conteúdo, Ted Sarandos, anunciaram a intenção de investir em jornalismo nos próximos anos. Se fosse outra empresa, essas poderiam ser apenas duas decisões isoladas, mas, nesse caso, elas podem representar o início de mudanças maiúsculas no mundo cinematográfico e do noticiário.

O Netflix é uma das empresas mais inovadoras do momento, não apenas pela sua eficiência e pela simplicidade de seu produto, mas porque, graças a elas, conseguiu modificar a maneira como as pessoas veem televisão. Ela não inventou o conceito de vídeo sob demanda, mas o popularizou em uma interface simples e presente em todo tipo de plataforma tecnológica, a um preço justo.

Porém a verdadeira mudança deriva disso tudo: dar ao consumidor a capacidade de escolher o que assistir, na hora que quiser e com o dispositivo que preferir. E esse poder fica ainda mais evidente nas séries, cujos capítulos de uma temporada são oferecidos todos de uma só vez, e não mais um por semana. Dessa forma, se o consumidor quiser, pode assistir a todos na sequência. Pode parecer uma bobagem, mas essa possibilidade coloca em xeque o conceito de grade de programação, algo sobre o qual se monta os modelos de negócios das emissoras de TV abertas e por assinatura

Beasts of No Nation” (sem título em português) estreou em apenas 31 salas independentes nos EUA (nenhuma no Brasil). Isso é insignificante em um país com cerca de 40 mil salas de cinema. Não se trata de um filme ruim: pelo contrário, “Beasts” traz um retrato cru e contundente do flagelo das crianças-soldado na África, elaborado meticulosamente para tentar abocanhar prêmios importantes, inclusive algum Oscar.

Mas então por que tão poucos endereços estão exibindo a produção original da Netflix?

 

Boicote contra a inovação

Acontece que a empresa decidiu lançar o filme em sua plataforma no mesmo dia em que saía no cinema. Normalmente são exigidos pelo menos 90 dias de embargo após a estreia nas salas para que um filme chegue a qualquer outra plataforma ou mídia, temendo a canibalização das bilheterias. A Netflix acha que isso pode ser mudado. Os grandes conglomerados de exibição, como Cinemark e UCI, acham que não. Por isso, boicotaram “Beasts” em massa.

A inovação nem sempre é compreendida. Mas a indústria do cinema deveria, pois já foi ameaçada por inovações antes. A turma na faixa dos 40 anos deve se lembrar do frenesi causado pelo lançamento do VHS. Na época, dizia-se que as fitas acabariam com as salas de cinema. Em um primeiro momento, isso parecia ser verdade, pois muita gente começou a deixar de ir ao cinema para alugar filmes. Mas a culpa não era do VHS, que oferecia uma imagem ruim, exibida em uma TV de tubo pequena em nossas casas. A culpa era do próprio cinema: as salas eram quase sempre reduzidas, abafadas, cheirando a mofo, com projeção e som ruins, poltronas desconfortáveis e uma pipoca horrorosa. Diante dessa oferta, migrar para o VHS parecia uma alternativa vantajosa.

Foi quando as exibidoras deixaram o chororô de lado e investiram na criação de salas incríveis, que proporcionassem uma experiência realmente marcante. Algo que o VHS e seus sucessores DVD e blu-ray jamais poderiam imitar. Assim, cada um encontrou o seu lugar no mercado, e as salas de exibição estão cheias como nunca.

Mas agora podem argumentar que a Netflix está querendo acabar com o embargo, que sempre existiu. Isso é uma visão míope e protecionista, de alguém que quer matar no peito um tsunami que se aproxima.

Sempre se deve dar ao consumidor a escolha. E isso significa, nesse caso, a Netflix oferecer logo os filmes e as salas de cinema continuarem a oferecer uma experiência diferenciada. Uso pesadamente o serviço online, mas também estou sempre no cinema, que adoro. Aliás, adoraria ver “Beasts” na telona, se possível em uma sala IMAX.

Mas quero ter a opção em minhas mãos.

 

Um novo jornalismo

Agora a empresa vem com essa história de produzir conteúdo jornalístico próprio. Quem vai gritar contra?

Ao contrário do cinema, as grandes empresas de jornalismo estão quase todas moribundas. Chegaram a essa situação por culpa exclusiva delas mesmas, que resistiram (e ainda resistem) a mudar seu produto, seu modelo de negócios e o relacionamento com seu público, mesmo com as pessoas migrando para alternativas mais modernas e vantajosas.

Nesse caso, não vejo o Netflix enfrentando resistência, pois os veículos tradicionais não têm fôlego para isso. Contemplarão mais uma nova empresa fazendo bem a função em que antes eram mestres, pelo simples fato de realizar um trabalho sério e adequado a realidade vigente. E, novamente, dando ao consumidor o poder da escolha.

Jeff Bezos, criador e dono da Amazon, comprou The Washington Post há dois anos, e está salvando o jornalão com sua visão pragmática de negócios e com amplos investimentos em tecnologia e jornalismo. O futuro da notícia parece cada vez mais vinculado aos gigantes da tecnologia digital.

Se a Netflix ganhará o Oscar, só o tempo dirá. A premiação nunca foi exclusivamente por critérios artísticos, e os interesses dos exibidores certamente pesam entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A empresa precisará convencer os decanos de Hollywood que não está destruindo o cinema. Ou então trilhar o caminho contrário: cativar irremediavelmente o público com sua nova proposta e esperar que a pressão popular faça o resto.

Estamos vendo o fim da TV, pelo menos como a conhecemos

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Wagner Moura como Pablo Escobar, na série "Narcos", lançada recentemente pelo Netflix - Foto: divulgação

Wagner Moura como Pablo Escobar, na série “Narcos”, lançada recentemente pelo Netflix

No dia 24 de novembro, “A Estrada do Futuro”, primeiro livro de Bill Gates, completará 20 anos. Como todo exercício de futurologia, apenas algumas de suas previsões se concretizaram, e nem sempre como se esperava. Mas uma delas está colocando em xeque algo que faz parte de nossas vidas há mais de meio século: a televisão.

Gates antecipou em seu livro o surgimento do vídeo sob demanda, termo técnico que define serviços online em que o consumidor assiste à programação que quiser, na hora que quiser, cujos dois maiores expoentes são o YouTube e o Netflix. Mas talvez ele não tenha imaginado que a popularização desse recurso ameaçaria o modelo de negócio das emissoras e redefiniriam o uso do aparelho de TV como se vê hoje.

O fato é que a tecnologia mudou a maneira de nos relacionarmos com qualquer tipo de conteúdo, e as empresas de comunicação demoraram muito a perceber a chegada desse tsunami. Agora que a onda as atingiu, estão se debatendo em uma tentativa atabalhoada de se salvar.

A primeira e decisiva mudança é que, com um smartphone, o cidadão comum abandonou a sua condição milenar de consumidor de mídia para se tornar produtor. Não chega a surpreender, portanto, que a câmera seja um dos recursos mais usados dos celulares: fotografamos compulsivamente tudo (inclusive nós mesmos, o fenômeno das selfies) e criamos nossos próprios programas, que compartilhamos não apenas com nossos amigos, mas com o mundo todo. E, quando alguém deixa de assistir à Globo para ver nossas produções, passamos a ser concorrentes da Vênus Platinada.

Aliado a isso, o vídeo sob demanda acabou de vez com o monopólio das emissoras sobre o que vemos. Por que eu tenho que assistir a uma novela só porque “é o que está passando agora”? Eu quero ver um filme nesse momento! Ou uma série ou desenho animado. Ah, eu também quero ver a novela, mas na hora que eu quiser! E tem mais: quero ver três capítulos na sequência.

Trocando em miúdos, a grade de programação, algo essencial no modelo de negócios das emissoras, está com os dias contados. Graças a ela, os executivos criam os espaços para a publicidade e controlam a liberação dos conteúdos seguindo seus interesses. Por isso, o novo consumidor ameaça não apenas a TV aberta, mas também a TV por assinatura.

Os números são impactantes e ilustrativos. Estudo recente do ConsumerLab, divisão da Ericsson que estuda o comportamento dos consumidores, feito com 22.500 pessoas de 20 países, indica que 36% do tempo diário em que os brasileiros assistem a vídeos é destinado a conteúdo sob demanda, 1% a mais que média mundial. E 66% dos brasileiros entrevistados afirmaram que não encontram nada interessante para assistir na TV tradicional, o que justifica o crescimento dos serviços de vídeo sob demanda.

 

O consumidor paga pelo conteúdo que lhe interessa

Engana-se quem acha que esse fenômeno é motivado pelo desejo de se consumir conteúdo de graça. Essa premissa, usada por executivos das mais diferentes “mídias tradicionais” (música, imprensa, TV, entre outros) é absolutamente falsa! O consumidor paga, sim, por conteúdo de toda natureza, desde que esse produto lhe traga um benefício claro. De fato, a pesquisa do ConsumerLab mostra também que 22% dos consumidores que nunca pagaram por uma TV por assinatura já estão pagando por serviço de vídeo sob demanda. E aí o Netflix mostra o caminho a ser seguido.

Apesar de a empresa não divulgar a quantidade de assinantes no Brasil (são 65 milhões no mundo), o mercado estima que esse número deve variar entre 2,5 milhões e 4 milhões. Colocando isso em dinheiros, a receita da empresa para esse ano por aqui deve variar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. Na hipótese mais conservadora, o Netflix faturaria mais que a Band e a Rede TV!, quarta e quinta maiores emissoras nacionais; na mais arrojada, empataria com o SBT. Os números foram debatidos no congresso da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura), no início de agosto, cujos membros afirmam que o Netflix é um concorrente desleal.

Não precisa ser gênio para juntar os números do Netflix e de outros serviços com conclusões de estudos como o do ConsumerLab e entender o que está acontecendo. A tecnologia deu ao consumidor o poder de escolha, abrindo-lhe os olhos para perceber que não é obrigado a consumir uma programação de qualidade rasteira em um formato que não lhe convém.

O aparelho de TV cada vez mais é um poderoso computador conectado à Internet (e os fabricantes estão investindo nisso), diminuindo a importância de sua histórica função de receptor de imagens empurradas goela abaixo do telespectador. Permite que a escolha do usuário agora vá muito além dos canais acionados pelo controle remoto.

Além disso, a TV não é mais o único equipamento para se assistir a vídeos: ela ocupa apenas uma fatia do tempo do consumidor para esse fim. Uma fatia cada vez menor, diga-se de passagem, que vem sendo substituída pelo crescente uso dos dispositivos móveis, especialmente os smartphones. No caso de conteúdo sob demanda, 61% do total já é consumido nas pequenas telas, segundo o ConsumerLab.

 

Observem as crianças

É muito interessante observar as crianças, pois elas entendem e se apropriam de novas tecnologias com grande facilidade e velocidade. Por isso, são excelentes indicadores de como será o futuro breve. E, no assunto que aqui discutimos, elas têm um comportamento muito interessante: quando querem assistir sozinhas a um vídeo, fazem isso no seu smartphone, mesmo que estejam em casa. Por outro lado, quando se trata de uma experiência com outras pessoas, como a família, o melhor lugar para o YouTube e o Netflix é a smart TV da sala. Claro, faz todo o sentido!

Pago mensalmente um adicional de R$ 30 para ter os canais da HBO no meu plano de TV por assinatura. Quis usar o aplicativo de vídeo sob demanda HBO GO, incessante promovido em seus comerciais, mas não consegui, pois a minha operadora de TV a cabo não permite. Devo dizer que fiquei com uma vontade enorme de pagar os R$ 30 mensais diretamente à HBO, e não à operadora, que deixou de ser uma facilitadora para se tornar uma dificultadora.

Essa empresa e seus pares precisam urgentemente repensar seus modelos, assim como as emissoras precisam melhorar sua programação. Ou, em muito pouco tempo, as crianças de hoje enterrarão a TV como a conhecemos, transformando sua tela em uma ferramenta de liberdade e qualidade em que nenhuma dessas empresas fará parte.

Os problemas de forçar um conteúdo nacional

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Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

Frank Underwood (Kevin Spacey), o anti-herói da série House of Cards, um dos símbolos do Netflix

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) está tramando a exigência de uma cota mínima de filmes e séries brasileiras em serviços de vídeo sob demanda, como o Netflix e o HBO Go. Com o argumento de fomentar as produções nacionais, esse tipo de intervenção pode matar a vaca para acabar com o carrapato.

Essa regra já funciona para os canais de TV paga, que são obrigados a dedicar pelo menos 30% de sua grade a programas brasileiros. De fato, temos hoje produção nacional de ótima qualidade, mesmo em canais internacionais, como a série O Negócio, na HBO. Mas esse alto nível está longe de ser padrão, com alguns conteúdos de interesse e qualidade limitados, sem falar na enxurrada de programas de culinária que criam variações sobre o mesmo tema nem sempre tão criativas.

O grande problema desse tipo de regra é tirar do consumidor o seu direito de escolher o que assistir. Quem paga por um serviço de TV por assinatura quer justamente fugir da qualidade rasteira da programação dos canais abertos. Ao forçar que um terço da grade de um canal pago seja preenchido com qualquer conteúdo local, apenas por ser brasileiro, esse direito de escolha é prejudicado.

Os serviços de vídeo sob demanda representam a maximização da escolha do consumidor, que agora não precisa sequer se ater às grades de programação: assiste o quiser, quando e onde quiser, uma liberdade inédita que está redefinindo o próprio jeito de se ver televisão.

No Brasil, o Netflix oferece cerca de 4.000 filmes e séries em seu acervo. Desse total, cerca de 5% é composto por produções brasileiras. Se a Ancine emplacar a mesma exigência feita aos canais de TV por assinatura, o Netflix precisaria ampliar o seu acervo -o que pode encarecer o produto- ou reduzir o volume de conteúdo internacional oferecido. Nas duas situações, quem perde é o consumidor.

Até a minha adolescência, o cinema brasileiro era desprezível, dominado pelas pornochanchadas e pelos filmes dos Trapalhões. Até que Carlota Joaquina, Princesa do Brazil estreou em 1995, seguido no mesmo ano por O Quatrilho e outras grandes produções, que inauguraram uma nova fase do cinema nacional, de alta qualidade. Disso surgiram obras-primas, como Central do Brasil, e Tropa de Elite. Entretanto, de uns anos para cá, as salas têm sido invadidas por uma enorme quantidade de comédias, muitas delas de gosto bastante duvidoso e pouco originais, mas todas com o logo da Ancine na abertura.

Por isso, sou favorável à constante ampliação da oferta de produções nacionais de qualidade. Mas isso não pode ser feito por decreto, principalmente quando contraria os interesses e fere os direitos do cidadão, que é, afinal, o cliente de tudo isso, pagando pelo cinema, pela TV por assinatura e pelo Netflix. Não abro mão do meu direito de assistir a House of Cards, Game of Thrones e afins em favor de programas de culinária fofinhos ou de comédias caça-niqueis.