Daily Archives: 6 de abril de 2026

Robô Atlas, da Boston Dynamics, movimenta peças entre armários - Foto: reprodução

Inteligência dos robôs humanoides avança rápido, mas seus corpos ainda são rudimentares

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Há alguns dias, vi um robô humanoide funcionando em um hospital. Ele cambaleava pelos ambientes, pegava objetos em gavetas e fazia lentamente ações simples, que renderam muitas visualizações. Mas diante desses vídeos, às vezes vendidos como produtos prontos em uso, sempre penso que jamais aceitaria ser atendido por aquilo. E, se fosse gestor do hospital, não gastaria um tostão em tal máquina.

Estou muito longe de ser um ludita. Pelo contrário, sou um entusiasta de diferentes formas de tecnologia e pesquisador de inteligência artificial. Mas, talvez justamente por isso, desenvolvi um olhar bastante crítico sobre essas supostas “operações”.

É um fato que as versões mais recentes de robôs humanoides fazem movimentos incríveis, como se fossem pessoas. Muitos aparecem “trabalhando” em empresas, em atividades diversas. Isso desperta grande entusiasmo em parte do público, como se a ficção científica estivesse se materializando diante de nossos olhos.

Mas a verdade nua e crua é que isso não passa de propaganda. Ironicamente, a inteligência artificial que controla essas máquinas avança de maneira galopante, mas seus corpos ainda se comportam como brinquedos caros e limitados.

Esses robôs funcionam bem em ambientes extremamente controlados, com tarefas previsíveis. Mas o mundo insiste em ser caótico e inesperado. Além disso, os sentidos de uma criança superam largamente os sensores de qualquer robô, permitindo que ela se adapte a situações simplórias cotidianas em que a máquina não sabe o que fazer.

Se há algo que podemos tirar disso é que, apesar de a robótica e principalmente a IA estarem cada vez mais incríveis, há coisas que elas não conseguem fazer, pelo menos ainda. Mas principalmente há aquilo que elas não devem fazer, mesmo sendo capazes. E isso tem a ver com como posicionamos a nossa humanidade nesse cenário.


Veja esse artigo em vídeo:


Apesar desse hype, eu não chamaria esses autômatos de fraudes. As empresas que os criam estão efetivamente buscando soluções para problemas reais, como robôs capazes de operar em ambientes insalubres para pessoas. Elas também os estão testando e coletando informações no mundo real para treinar seus sistemas.

Mas me incomoda essa apresentação como máquinas que já fossem versáteis e confiáveis, convencendo muita gente dessas características que elas não têm. A única coisa totalmente verdadeira agora é o desejo de seus fabricantes de encher nossos olhos para conseguirem muito dinheiro de investidores. E assim nós promovemos uma tecnologia incipiente por acreditarmos que já estamos perto do mundo dos Jetsons.

Certamente, em algum dia, essas máquinas “chegarão lá” e se tornarão tudo que prometem ser. Mas não será neste ano, nem no próximo. Em ambientes menos complexos, como em uma linha de montagem, que deve ser o mais previsível possível, teremos robôs humanoides confiáveis talvez em uns cinco anos.

No setor de serviços, robôs humanoides efetivamente funcionais devem demorar ainda mais (talvez uma década), pois se trata de um local bem mais imprevisível e confuso. Pior que isso, só mesmo o ambiente doméstico, pois casas são caóticas, cheias de variáveis, objetos irregulares e situações inesperadas.

Não estou falando dos aspiradores de pó robôs, que desempenham bem o seu trabalho por fazerem apenas uma coisa e serem otimizados para isso. Para uma máquina substituir com vantagens um trabalhador doméstico humano, ela precisa combinar três coisas que hoje não existem, que são uma destreza física avançada, uma compreensão contextual sofisticada e um custo acessível.

Para termos isso, pelo menos 15 anos ainda serão necessários.

 

A dificuldade de “estar no mundo”

Em todas essas situações, quanto menos parametrizadas forem suas tarefas, pior. Por isso, se o robô tiver que lidar com pessoas, que são imprevisíveis por definição, a sua eficiência cai exponencialmente.

Não se trata apenas de uma limitação mecânica, e sim cognitiva. Interagir com humanos exige compreensão de linguagem, contexto e emoção. E mesmo com os avanços recentes da IA generativa, integrar isso de forma confiável em um corpo físico artificial ainda é um desafio técnico enorme.

Nosso organismo evoluiu por milhões de anos para tirarmos o máximo das sensações de estarmos imersos no mundo. Isso é natural até para um bebê, mas não para uma máquina. Um exemplo são os carros autônomos, que se envolvem em menos acidentes que motoristas humanos, porém ainda apresentam eventualmente comportamentos erráticos e inexplicáveis, por mais que façam a única tarefa de dirigir.

A solução passa pela chamada “inteligência artificial sensitiva”. Ela não significa consciência ou sentimentos das máquinas, mas sim sua capacidade de integrar tipos variados de percepção, como visão, áudio e tato, e transformar isso em ação. Para isso, combinam visão computacional, linguagem natural e controle motor.

Nos últimos anos, houve progressos relevantes nessa área. Empresas como a OpenAI e o Google DeepMind vêm desenvolvendo os chamados “modelos de mundo”. Eles permitem que os robôs aprendam tarefas menos por programação explícita e mais por demonstração ou instrução em linguagem natural. Mas ainda há um descompasso entre a percepção e a tomada de decisão, que melhoraram muito, e a execução física, que continua tosca.

Há ainda um componente psicológico. Queremos que máquinas “entendam” e “sintam” não só por eficiência, mas porque isso torna a nossa interação com elas mais natural. Talvez a busca por robôs humanoides “sensíveis” se refira menos a objetivos técnicos e mais à nossa expectativa de conviver com tecnologias que se pareçam conosco.

Precisamos avaliar se isso é mesmo necessário para que sejam úteis, especialmente em atividades críticas, como as que envolvem a integridade e a saúde das pessoas. Então possivelmente os robôs mais úteis não serão humanoides, mas sistemas híbridos, como uma espécie de “infraestrutura inteligente”.

Em qualquer caso, a regra de ouro é que tanto a IA quanto os robôs só devem ser concebidos para o bem da humanidade, e não para interesses de marketing de seus fabricantes. Resta saber se isso nos será entregue.