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Para onde foram os torcedores do Brasil?

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Como os torcedores dos 32 países participantes da Copa do Mundo torceram na final - imagem: Reprodução/NYT

Como os torcedores dos 32 países participantes da Copa do Mundo torceram na final

Não precisa ser gênio para supor que, na final da Copa do Mundo, os brasileiros torceram pela Alemanha, mesmo depois do acachapante 7 x 1 que nos impuseram. Claro, na verdade, a torcida era contra a Argentina. Mas quem poderia adivinhar –e mais que isso: medir– que 27% dos internautas no Brasil apoiaram aos “hermanos” naquela partida?

Bem, o Facebook conseguiu fazer isso, analisando dados de cerca de 2 bilhões de interações (post, comentários e curtidas) feitas na rede social por cerca de 300 milhões de usuários dos 32 países participantes do campeonato, que, diga-se de passagem, foi o evento com mais atividade nas redes sociais até hoje. Porém, apesar da análise massiva de informações –algo para deixar um levantamento nacional de um instituto de pesquisa com jeito de grão de areia na praia– o relatório exibido ao usuário não é dos mais atraentes.

Mais bacana é a coletânea de infográficos preparados pelo The New York Times a partir das mesmas informações do Facebook. De uma maneira muito mais intuitiva, o usuário consegue ver como os torcedores de cada um dos 32 países “migraram” para outras seleções depois que a sua própria era desclassificada, a cada fase da competição, além de um gráfico consolidado.

Dá para ver, por exemplo, que, até as quartas de final, o Brasil era o país com mais torcedores no mundo (quando 45% dos usuários do Facebook declararam apoio à nossa seleção), mas fomos passados pela Argentina na semifinal (34% a 32%), enquanto a Alemanha teve a preferência na final (57% contra 43% de apoio aos argentinos). Além disso, fica claro como os “hermanos” torciam contra nós, observando que, nas oitavas de final, o Chile, adversário do Brasil, teve expressivos 11% de apoio entre os usuários argentinos, assim como a Colômbia emplacou 34% de apoio por lá nas quartas de final, sendo que ambos os países haviam tido apoio irrisório nas fases anteriores. Além disso, além de seus próprios torcedores, o Brasil só foi o preferido dos portugueses e dos japoneses, depois de suas seleções terem sido desclassificadas ainda na fase de grupos.

Esse exemplo deixa claro como se pode produzir um conteúdo jornalístico interessante fazendo-se uso criativo de informações que estão disponíveis, muitas vezes de maneira aparentemente desorganizada, nos meios digitais. É claro que, no exemplo, coube ao Facebook processar toda essa informação na sua rede, mas o NYT fez um uso muito melhor dela.

Outro exemplo interessante é o site Twitter + GNIP, que cruza a origem geográfica de milhões de tweets enviados por dispositivos móveis, separando-os de acordo com o sistema operacional do aparelho. Com isso, dá para identificar como iPhones tendem a ser usados mais que celulares com Android (e outros) em áreas nobres das cidades. Nesse link, se vê a distribuição em São Paulo, mas é possível obter a mesma informação ao redor do mundo.

Claro que, por estarmos aqui tratando de produção jornalística, todo cuidado deve ser tomado na escolha da fonte da informação (como, aliás, em qualquer reportagem). No exemplo acima do NYT, apesar da amostra mais que representativa, ela ainda é restrita a usuários do Facebook nos 32 países participantes da Copa. Mas como a penetração da rede de Mark Zuckerberg é bastante expressiva na população de quase todos eles, a pesquisa fica realmente impressionante. De todo jeito, é importante que o usuário seja informado dessa particularidade da fonte.

O interessante é que, até bem pouco tempo atrás, a realização de uma pesquisa assim envolvia a contratação de um instituto de pesquisa, o que exigia um forte investimento. Agora há uma profusão de dados de diferentes naturezas e fontes, prontos para ser garimpados. Vale a pena investir na formação de jornalistas-mineradores.

Chafurdar no lixo também rende bom jornalismo

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Collor (ao centro, ao lado de Rosane) deixa a Presidência da República, após o Congresso ter votado pelo seu impeachment - Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil/Creative Commons

Collor (ao centro, ao lado de Rosane) deixa a Presidência da República, após o Congresso ter votado pelo seu impeachment

Resultados da pesquisa “The American journalist in the digital age” (“O jornalista americano na era digital”), divulgados recentemente por professores da Universidade de Indiana (EUA), revelaram uma inquietante constatação: praticamente metade dos profissionais não usaria documentos confidenciais de empresas ou do governo em uma reportagem importante “sem autorização”. Apesar dos autores sugerirem que isso possa indicar “um jornalismo talvez mais ético”, na prática é um forte golpe no esforço de reportagem, o coração do bom jornalismo.

Infelizmente esse comportamento dos jornalistas americanos pode ser visto crescendo também em outros países, inclusive no Brasil. Não estou defendendo práticas antiéticas, mas, se um jornalista tem acesso a uma informação relevante e de interesse público, ele tem a obrigação de publicá-la. Se ela era confidencial, cabia a seus proprietários protegê-la mais eficientemente. Sem isso, a sociedade estaria nas mãos de desmandos de governantes e de abusos de empresas. E reportagens que marcaram uma época, como o escândalo de Watergate, nunca teriam existido.

A pesquisa me fez lembrar de um caso de fevereiro de 1992, quando Edna Dantas, então repórter da sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo, literalmente analisou o lixo da Casa da Dinda, residência do presidente da República da época, Fernando Collor de Mello (que não quis morar nas residências oficiais: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto). O que ela descobriu em documentos sigilosos displicentemente deixados para que os lixeiros recolhessem incluía a escala da segurança do presidente, indicações de que seus textos não eram escritos por ele e até de que as lingeries compradas pela primeira-dama, Rosane, eram pagas com cheques de “fantasmas” e de “laranjas”.

É claro que não foram essas revelações que derrubaram Collor, mas elas serviram para mostrar à população um pouco mais sobre os bastidores de um governo imoral. E elas só vieram à luz pelo faro jornalístico da repórter para encontrar esses documentos confidenciais e pela sua postura de publicá-los.

“Todo governo gostaria de ter uma imprensa dócil”: ouvi isso de meu primeiro editor, lá por 1993. Isso é tão mais verdade, quanto mais o governo tem algo a esconder. Mas a imprensa jamais pode “comer na mão” do poder, pois ela é a única chance de a sociedade saber de coisas contrárias a governos e empresas. Para lhes falar a favor, eles já têm seus bem pagos profissionais de relações públicas, e um caminhão de dinheiro para publicidade, ambos sem nenhum compromisso com a verdade. Sem um jornalismo combativo, continuaríamos achando que a Petrobrás é uma empresa imaculada e um orgulho nacional acima de qualquer suspeita. Bem, ela não é.

Não é de se estranhar, portanto, os acintosos e crescentes mecanismos de controle da imprensa em países cujos governos têm vocação autoritária. Na América Latina, a moda foi lançada pelo finado Hugo Chávez, que destruiu a imprensa livre da Venezuela. Em maior ou menor grau, isso se espalhou com um câncer por toda a região, inclusive no Brasil. Além da histórica violência contra jornalistas, o trabalho da imprensa vem sendo dificultado nos últimos anos por artimanhas judiciais ou pela criação de órgãos de controle. Igualmente grave é a batalha ideológica, que tenta pintar veículos que são contrários ao governo como também contrários à sociedade, ao “povo”. E é exatamente o contrário! Mas o mais desesperador é ver jornalistas acreditando nessa lenga-lenga ideológica e comprando suas ideias nefastas.

Trabalho de jornalista não é fácil. Quem pensa que é uma vida de glamour e pouco trabalho está enganado em ambas as ideias. Profissionais que esquecem que seu objetivo é melhorar a sociedade, oferecendo-lhe informações sobre tudo que acontece nela, mesmo contrárias a interesses, mesmo sigilosas, devem mudar de profissão. E nem uma ideologia pode servir de desculpa.

“O conteúdo é rei” é uma tremenda balela

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Redação de The New York Times em 1942 - Foto: Marjory Collins/Biblioteca do Congresso dos EUA

Redação de The New York Times em 1942

Há quase vinte anos, eu ouço a tese do “conteúdo é o rei”, que um bom editorial seria suficiente para levar um veículo ao sucesso, dito pelos coleguinhas quase desprezando outras áreas da empresa, como o comercial e a estratégia. Mas um extenso documento interno de The New York Times, que vazou na semana passada, mostra que isso é um engodo, mentira, bullshit.

Não estou dizendo, jamais diria, que o conteúdo editorial não é importante. Porém a queda contínua dos veículos tradicionais, principalmente os impressos, diante de produtos digitais inovadores escancara a realidade de que um ótimo conteúdo está longe de ser suficiente para o sucesso. Nem mesmo The New York Times, casa de um jornalismo premiadíssimo, escapa dessa verdade.

O referido documento do Times, que muito bem serve para praticamente todos os grandes veículos impressos, pinta uma empresa que sofre para se adaptar à realidade digital, e experimenta grandes perdas em audiência e receita por conta disso. Mais dramático ainda, o relatório demonstra que o fato de o jornal se preocupar muito com o seu jornalismo, relegando a um segundo plano a evolução de uma estratégia digital robusta e consistente, corroi a sua credibilidade e ameaça sua sobrevivência.

Produzido por um grupo liderado por Arthur G. Sulzberger, filho de Arthur Ochs Sulzberger, publisher do NYT, o documento coloca o dedo em várias feridas, começando pelo fato que toda a sua estrutura de produção continua girando em torno da versão impressa. A ideia de ser “digital first”, que muitos veículos enchem a boca para promover em eventos e peças de marketing, não passa de um discurso vazio, que não encontra eco no dia a dia. E a resistência maior vem da Redação, que encara propostas de mudança em seu produto e na maneira de realizá-lo como uma “ameaça a sua independência”, o que poria em risco a qualidade.

O relatório chega a mencionar a dificuldade de integrar as equipes editoriais, técnicas e de estratégia, quase como se fossem concorrentes. O velho mantra da “separação igreja-estado” é invocado. Para quem nunca ouviu falar disso, o conceito visa impedir que interesses comerciais interfiram nos editoriais. O exemplo clássico é garantir à Redação a prerrogativa de publicar notícias ruins sobre uma empresa, mesmo que ela seja o maior anunciante do jornal.

Mas, nesse caso, isso não se aplica. Ninguém está propondo que a qualidade do jornalismo seja minimamente ameaçada por interesses “obscuros” de outros departamentos da empresa. Pelo contrário, os jornalistas precisam ter, antes de tudo, a humildade de aceitar que outros profissionais podem indicar o caminho que toda a empresa deve trilhar, diante de movimentos não apenas dos concorrentes, mas também de seus próprios clientes: os leitores.

Curiosamente, a única grande inovação do NYT nos últimos anos não veio da Redação, e sim da área de negócios: o seu “paywall poroso”. Resumidamente, permitindo que qualquer um tenha acesso gratuito a uma quantidade restrita de notícias a cada mês, eles propuseram uma maneira criativa que garantiu que 90% de seus internautas continuassem acessando suas páginas sem qualquer mudança (o que garantiu a manutenção da receita publicitária vinculada à audiência), enquanto aumentou consideravelmente o total de assinaturas digitais e até mesmo do jornal impresso.

O problema é que, de março de 2011 para cá, o conceito de assinatura, que já andava bem mal das pernas, se enfraqueceu ainda mais. Com a consolidação do consumo ubíquo de conteúdo em dispositivos móveis, as pessoas não querem mais se sentir “aprisionadas” a um veículo, pagando antecipadamente por muita coisa que não usarão. O consumidor de conteúdo atual, que absorve isso vorazmente como nunca, quer que tudo chegue a ele com qualidade, onde estiver, quando quiser e ainda referenciado pelos seus amigos. Se essas exigências forem atendidas, pouco importa a origem do conteúdo: pode ser o NYT ou um completo desconhecido que domine o assunto.

Não é de se espantar, portanto, o sucesso de agregadores, como o Flipboard. Da mesma forma, não é nenhuma surpresa a derrocada dos veículos tradicionais. E a culpa disso não cabe à Internet, aos agregadores, ao Google ou ao Facebook. Cabe aos próprios veículos, que continuam produzindo e distribuindo seu conteúdo como nos tempos em que eram a única fonte de conteúdo de qualidade.

Felizmente (para os usuários) ou infelizmente (para os veículos tradicionais), esse tempo é passado.O jornalismo do NYT é algo memorável e espero sinceramente que a “dama cinzenta” consiga reagir e promover as mudanças necessárias para continuar existindo. Cabe apenas a eles mesmos –e a todos os veículos agonizantes– a solução.

Morre outra vítima da imprensa

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Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa - Foto: reprodução

Fachada da antiga Escola Base, que foi depredada pela população após denúncias infundadas veiculadas pela imprensa

Na quinta, foi divulgada a morte de Icushiro Shimada, ex-dono da Escola Base e vítima de um erro generalizado da imprensa, que destruiu as vidas de sua família e de seus sócios e funcionários. O assunto virou um case que é estudado nas faculdades de jornalismo, mas profissionais e veículos continuam escorregando na ética e publicando denúncias sem a devida checagem. E as redes sociais só fizeram piorar esse comportamento.

Para quem não se lembra, em março de 1994, sócios e funcionários da Escola Base, localizada no bairro da Aclimação (São Paulo), foram acusados por mães de alunos de abusar sexualmente de crianças de um a seis anos de idade. Um laudo não-conclusivo do IML informava que as fissuras eram “compatíveis com ato libidinoso”. Isso foi suficiente para o delegado Edélcio Lemos, responsável pelo caso, convocar a imprensa e botar a boca no trombone, condenando os envolvidos sem qualquer julgamento. Iniciado no Jornal Nacional, o denuncismo se espalhou por toda a imprensa da época, exceto a TV Cultura e o finado Diário Popular, que não embarcaram por acharem que não havia provas.

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável - Foto: reprodução

Capa do extinto Notícias Populares, colocando ainda mais lenha na fogueira, de maneira totalmente irresponsável

Graças ao noticiário, a escola e as casas dos acusados foram depredadas e saqueadas pela população. Eles faliram e tiveram que se mudar, pois chegaram a ser ameaçados de morte em telefonemas anônimos. Porém, quando a investigação foi concluída, “surpresa” geral: nunca houve qualquer tipo de molestamento sexual às crianças. As tais fissuras encontradas eram causadas apenas por diarreia. Mas o estrago já estava feito e os acusados para sempre foram condenados pela imprensa, por mais que tenham sido inocentados pela Justiça. Pediram indenizações do Estado e de veículos de mídia; algumas delas foram pagas depois de longos recursos, outras ainda não. Shimada morreu pobre, vítima de um infarto no último dia 16 de abril, assim como sua mulher, que morreu de câncer em 2007.

O comportamento profissional irresponsável e vergonhoso desse caso deveria ser suficiente para que casos assim não voltassem a acontecer. Não me refiro apenas a algo com essa magnitude, que não acontece tanto (mas desgraçadamente ainda acontece), mas também a falhas supostamente menores (mas não menos antiéticas) que estão no noticiário todos os dias.

A busca pelo “furo”, uma notícia exclusiva capaz de aumentar a audiência de um veículo, é como uma corrida por uma medalha de ouro. É legítima e bem-vinda. Mas não pode ser justificativa para atropelos. Mas é justamente isso que acontece: tudo parece ter virado uma “fonte confiável”. E, quando a blogosfera explodiu, lá pelo ano 2000, veículos começaram a usar até blogs obscuros como fonte. À medida que as redes sociais ficaram mais importantes, elas começaram a ocupar esse espaço.

Um caso recente que ilustra bem isso foi o do tal jornalista dinamarquês que teria vindo ao Brasil para cobrir a Copa do Mundo, mas “desistiu de seu sonho” e voltou para seu país depois de se deparar com as nossas mazelas sociais. Esse assunto resultou em longos debates no Facebook (até aí, tudo bem) e chegou a pautar vários veículos, que compraram a historinha como verdade (aí tudo mal!) e publicaram vários artigos (inclusive algumas toscas bravatas nacionalistas). Mas a história não era séria (pelo menos, não totalmente): um resumo da confusão pode ser visto neste post (que, por sinal, teve que ser atualizado após a publicação).

Pressões por dar logo uma notícia, especialmente quando ela é bombástica, sempre existiram, e muitas vezes vêm de fora da Redação. Quando seus concorrentes já estão falando no assunto, fica ainda pior, principalmente em veículos em tempo real, como a mídia online, a TV e o rádio. Mas essa pressão não pode servir de muleta para deslizes. Isso foi muito bem explorado no trecho abaixo, da série da HBO “The Newsroom”:

 

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Como dizia Gabriel García Márquez, “a pressa é ingrediente desse ofício”, assim como a pressão. Quem não consegue realizá-lo eticamente nessas condições não está apto para o jornalismo. Se a imprensa continuar realizando seu trabalho dessa forma, acabará vítima de si mesma.

Outra maneira de encarar a intangibilidade do amor

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“Apaixonar-se é uma coisa louca: é uma forma de insanidade socialmente aceitável.” Isso é matéria-prima recorrente para poetas, psicólogos e qualquer um que se proponha a tentar entender a mente humana. Mas é possível se apaixonar por um software? E ainda ser correspondido?

A frase é do filme “Ela” (“Her”, 2013), em cartaz nos cinemas brasileiros e cujo trailer pode ser visto acima. Esse post não é uma crítica cinematográfica, e prometo tentar não fazer “spoilers”, mesmo porque recomendo fortemente que você o assista. Quero “apenas” discutir o que é necessário para que alguém ame e seja amado, uma das inúmeras questões levantadas por este surpreendente filme de Spike Jonze.

Não é difícil entender por que o protagonista, Theodore (Joaquin Phoenix), se apaixona por Samantha, a persona que habita o novo sistema operacional de seu computador, movida por uma inteligência artificial estupenda em um futuro próximo. Ela é praticamente a encarnação da mulher perfeita, exceto pelo fato de que não tem um corpo. Aparece apenas na voz de Scarlett Johansson. Como diriam os psicólogos, ela é a materialização (ops, ato-falho) das projeções mais íntimas de Theodore.

Não, Samantha não faz cegamente tudo o que seu “dono” quer. Pelo contrário, ela é incrivelmente “humana”, com sensações e emoções, que você pode até questionar se são reais ou não, pois Samantha é um programa. Mas todos esses sentimentos estão alinhados com os de Theodore, de uma maneira como ele nunca encontrou em nenhuma mulher real, nem mesmo em sua ex-mulher, com quem cresceu junto. De repente, parece que todos na sala de cinema estão apaixonados também, e ele e Samantha seriam feitos um para outro.

Talvez fossem até demais. Como ela sabe de tudo sobre ele? Bem, Samantha tem a sua disposição todos os rastros digitais deixados por Theodore: seus e-mails, suas registros em todo tipo de redes sociais, seu trabalho… virtualmente todo tipo de informação parametrizada ou desconexa de sua vida, guardada para sempre na Internet. E, graças à autorização de Theodore, Samantha teve acesso a tudo isso, para lhe oferecer “alguém” que atendesse a todas as suas necessidades, de uma maneira tão possível quanto seria para uma “pessoa”.

De forma alguma, estou querendo transformar Samantha em uma espécie de “cybermonstro”, que manipulou Theodore a partir de seus dados. Admito que, por alguns segundos, enquanto assistia ao filme, eu pensei que o fabricante daquele sistema operacional estaria com a mão sobre a vida de todos os seus usuários, de uma maneira assustadoramente completa. Será que Samantha, tão meiga e dedicada, compartilhou toda essa informação valiosa e pessoal de Theodore com seus criadores? Mesmo depois de ela se apaixonar por ele?

Definitivamente essa não é a proposta do filme, mas –ok– ele me fez pensar no Facebook, no Google e em tantas empresas que parecem nos conhecer cada vez mais, às vezes aparentemente melhor que nós mesmos. Compartilhamos até nossos desejos mais íntimos com seus algoritmos, em troca de uma experiência digital mais e mais eficiente e até mesmo prazerosa. Estamos metidos nisso. E felizes.

Não é a primeira vez que a ficção recria emoções absolutamente humanas em máquinas. A belíssima refilmagem de 2003 de “Battlestar Galactica”, com seus cylons “humanos”, capazes de amar e serem mais religiosos que os verdadeiros humanos, a série derivada “Caprica” (2009), com avatares idênticos às pessoas que representam puramente criados a partir dos “rastros digitais” deixados por elas, ou os replicantes do cult “Blade Runner” (1982) são bons exemplos. Há até o divertido “Amores Eletrônicos” (1984), em que um computador se apaixona por uma bela violoncelista (você pode assistir ao filme completo, legendado em português).

Todos esses filmes e seriados questionam não apenas o que é a humanidade, mas também o que é o amor e quem tem o direito de sentir isso. Poderíamos argumentar que algo que nos torna humanos é justamente o fato de nunca encontrarmos uma pessoa cujos sentimentos estejam completamente alinhados a nós mesmos, ao contrário de Theodore e Samantha. Duas pessoas diferentes nunca serão totalmente compatíveis. Mais que isso: nós mudamos continuamente e de maneira independente daqueles que eventualmente já chamamos de nossa cara-metade.

Mas talvez estejamos caminhando para um futuro como o de “Caprica”, “Galactica” ou “Blade Runner”, em que os algoritmos oferecerão às máquinas as nossas virtudes e os nossos defeitos, nossos desejos e nossos medos, nossas crenças e nossas incertezas.

E então, afinal, talvez elas amem verdadeiramente.

Bônus musical:

Selecionei duas músicas de “Ela” e de “Amores Eletrônicos”, que, para mim, sintetizam essas histórias. Divirtam-se!

  • “Ela”:

“The Moon Song”

“Photograph”

  • “Amores Eletrônicos”:

“Electric Dreams”

“Love Is Love”

Facebook lança seu agregador para “dar o que as pessoas querem”

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Vira e mexe me perguntam: se as empresas de mídia tradicionais estão perdendo as mentes e os corações de seu público, quem está ocupando esse espaço? Eu digo que são empresas que dominam nossos novos relacionamentos com todo tipo de conteúdo, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas principalmente os novos comportamentos das pessoas. E, nesse cenário, é inevitável pensar em Google, Apple, Facebook e até mesmo os “agregadores”, aqueles pequenos programas capazes de criar “veículos de comunicação” incrivelmente personalizados ao combinar, de maneira inteligente e criativa, conteúdo de uma infinidade de fontes.

Pois o Facebook acaba de lançar aquilo que eu considero o seu agregador. Batizado de Paper (parece até uma provocação à “velha mídia”) o aplicativo redefine a maneira como o usuário tem acesso a seu feed de notícias da rede de Mark Zuckerberg, além de sua página pessoal e de amigos. Mas o que realmente o diferencia do aplicativo padrão do Facebook para celulares é justamente o fato que ele também oferece aos usuários seções com conteúdos compilados de diferentes fontes. Só faltou permitir que os cada um pudesse cadastrar também veículos de que gosta (quem sabe em uma futura versão?). Tudo dentro de uma tela muito elegante e integrada, sem que o usuário sinta qualquer ruptura na sua experiência de navegação e quase não perceba a origem do que está lendo.

O Paper é bastante diferente do Home, malfadado aplicativo que o Facebook lançou em abril do ano passado, com a pretensão de “melhorar o uso do celular” praticamente assumindo o controle dele e substituindo as telas do Android pelas suas. Naturalmente as reações dos usuários foram muito negativas. Talvez por isso o Paper não surja para “dominar tudo”, e sim “apenas” trazer conteúdos úteis, do jeito que o usuário deseja.

Como podem ver, ninguém acerta sempre, e não há problema em errar. Mas não há espaço para continuar insistindo no erro. O público não aceita mais “pertencer” ou mesmo depender exclusivamente de um produto ou empresa. Esse é um dos motivos da falência do modelo de negócios baseado em assinaturas, em que se paga de antemão para se ter acesso a todo o conteúdo de um veículo. As pessoas qerem receber a informação que gostam ou precisam, sem se importar com a fonte, porém de uma maneira conveniente.

Por isso os agregadores e o próprio feed de notícias do Facebook se tornaram grandes distribuidores de conteúdo jornalístico. De fato, pesquisa publicada pelo Pew Research Center em outubro do ano passado indica que as pessoas realmente consideram a rede social como um local genuíno para se consumir jornalismo: 78% dos usuários americanos do Facebook consomem notícias a partir dele, e 43% afirmam que ele é uma fonte importante de noticiário. Detalhe: o Facebook não produz –ele mesmo– uma linha sequer de conteúdo.

Além de Google, Facebook e essa turma entregar eficientemente o que os usuários querem, eles ainda fazem isso aparentemente de graça. Claro que não é verdade: o usuário não paga nenhum real para usar todos esses produtos, mas entrega graciosamente uma enorme massa de informações sobre si mesmo que viram receitas milionárias para essas empresas de outras formas.

Cada vez mais essa entrega é feita de forma consciente, e para várias empresas. Isso dá o que pensar: as pessoas aparentemente não se importam em abrir mão da própria privacidade, se essas corporações lhes entregarem ferramentas que deixem sua vida melhor, mais fácil (e entregam). Acham isso uma troca justa, melhor que pagar R$ 80 por uma assinatura de um monte de notícia que não lerão.

Muitos podem torcer o nariz, podem achar isso um horror, a decadência da civilização moderna. Há muitos juízos de valor nesses pensamentos. Acho perigoso as pessoas que se expõem online de uma maneira inconsequente, mas não acho viável querer lutar contra seu celular, que insiste em mandar continuamente para a operadora e o fabricante onde você está.

Nem mesmo George Orwell, em sua obra 1984, poderia imaginar algo assim. Mas a maior ironia é que isso tudo não acontece por subterfúgios de um Estado totalitário, e sim porque as pessoas topam tudo isso para aproveitar ao máximo o que a tecnologia tem a nos oferecer. E não vejo volta.

É por isso que as empresas citadas acima prosperam, enquanto a mídia tradicional se debate em agonia. Não apenas porque seus produtos perderam apelo, mas porque não conseguem mais entender o mundo que tentam noticiar.

Sobre beagles, comunistas, orixás e ameaças à democracia

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Imagem: divulgação

Três iniciativas, sem relação entre si, chamaram a minha atenção por carregar elementos de desobediência civil. Na madrugada da última sexta (18), ativistas invadiram o Instituto Royal, em São Roque (SP), e levaram quase 200 cães que eram usados em testes para as indústrias farmacêuticas e de cosméticos. No mês passado, um estudante catarinense autodeclarado “de direita até a medula, monarquista e budista” se recusou a fazer um trabalho universitário sobre Karl Marx. Atitude semelhante aconteceu no fim de 2012, quando um grupo de estudantes evangélicos amazonenses não fez uma tarefa sobre a influência dos negros e dos índios na literatura brasileira, alegando que, caso fizessem a atividade, estariam “compactuando com a ideia de que outros deuses existem”, contrariando a sua fé.

Nos três casos, indivíduos contestaram o que poderia ser chamado de “ordem estabelecida”. Se nos dois últimos o problema ficou na esfera educacional, no primeiro ela virou caso de polícia. Mais que simples questões de crenças (morais, políticas ou religiosas), os três atos embutem rebeldia em que as pessoas decidem “fazer justiça com as próprias mãos”, ignorando as instituições democráticas pelas quais elas não se sentem mais representadas, ainda que pontualmente.

Por “ordem estabelecida”, entenda-se o instituto realizando pesquisas consideradas necessárias e legítimas para benefício de seres humanos, e as escolas propondo atividades adequadas à formação acadêmica e até mesmo de cidadania dos estudantes. No primeiro caso, a comunidade científica afirma que não há alternativas viáveis aos testes com animais, regulamentados internacionalmente. Já os trabalhos escolares cumprem o papel de apresentar aos alunos elementos culturais e históricos importantes para sua formação. Em nenhum momento, propõem mudanças ou sequer ameaçam suas crenças (e honestamente não vejo como trabalhos escolares teriam esse poder).

A democracia só é viável quando os indivíduos concordam em viver harmoniosamente com as diferenças. As escolas particularmente devem ser espaço de tolerância a elas. Ninguém concorda com tudo o que acontece nesse mundo, mas, para cada uma das coisas que nele existem, por mais malucas que nos possam parecer, existe um grupo que gosta delas.

Os invasores do Instituto Royal e os estudantes fizeram coisas em que acreditavam, o que é um direito deles. Mas direitos implicam em deveres: os ativistas podem responder criminalmente e os alunos podem ficar sem as respectivas notas. É justo. Caso contrário, se cada um resolvesse moldar seu entorno egoistamente com base no que acredita ou gosta, a sociedade seria inviabilizada, pois sempre haveria outras pessoas que não estariam de acordo. E, se igualmente resolvessem resistir, seria a barbárie.

A crise das empresas de comunicação também é de representatividade

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Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja - Imagem: reprodução

Composição mostra a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na ONU feita por veículos estrangeiros e pela Veja

 

Na semana passada, a imagem acima inundou as redes sociais. Invariavelmente, ela era acompanhada de comentários criticando a postura da Veja, como exemplo de uma mídia nacional manipuladora e tendenciosa. Em meio a esse debate, ficou ainda mais claro para mim que grande parte da crise que os grandes veículos vêm enfrentando se deve ao fato de que eles não conseguem mais representar o seu público. Chego a me questionar se eles ainda se preocupam com isso.

A referida imagem é uma composição, publicada originalmente no blog de Luís Nassif, demonstrando a diferença entre a cobertura do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 24, feita por veículos estrangeiros (The Guardian, Le Monde e El País), em que era destacado o embate contra a espionagem americana (com fotos de Dilma discursando), e pela revista brasileira, com um título sugerindo um discurso de olho nas eleições de 2014 (e uma foto com Dilma sentada, muito menos imponente que as demais).

É fato que isenção completa não existe, inclusive pela nossa natureza humana. Mas sou um homem forjado no aço de rotativas e sei que é perfeitamente possível fazer jornalismo com seriedade. E isso é uma obrigação do ofício e das publicações.

Por mais que o veículo tenha uma linha política com a qual se alie, e não há nenhum problema nisso (deve-se inclusive deixar explícito ao seu público), não tem o direito de fazer jornalismo tendencioso, que deliberadamente mostre apenas uma parte da verdade, para induzir as pessoas a comprarem sua tese, seja ela qual for, legítima ou não. Isso é antijornalismo!

Uma publicação pode ser de direita ou de esquerda, pode defender seus candidatos, mas deve noticiar também o que eles têm de ruim, assim como o que seus adversários têm de bom. E isso não se restringe a questões políticas: vale também para assuntos religiosos, esportivos, o que for, tudo aquilo que os antigos diziam que “não se deve por à mesa” (eles estavam errados!).

O veículo deve oferecer subsídios para que seu público construa a sua opinião: assim se forma uma sociedade. Sem isso, ele apenas reforça preconceitos de gente cada vez mais alienada em torno de realidades enviesadas.

Plataformas de articulação social

Há algumas semanas, Rodrigo Mesquita, membro da família proprietária do Estadão e responsável pela Agência Estado ter a importância que tem, deu uma entrevista em que sugere que os jornais (e podemos extrapolar para os grandes veículos da mídia) perderam o espaço que tinham como articuladores da sociedade.

“Historicamente, os jornais eram plataformas de articulação das comunidades em que estavam inseridos, e contribuíram para a articulação dessas comunidades em torno de ideias e ideais, problemas, questões de consumo, da conversação política”, afirma Mesquita. Com isso, em um mundo em que o jornalismo era principalmente impresso, essas empresas ganharam enorme importância política. “Todas as empresas que atingem uma posição monopolista ‘emburrecem’. Os administradores das empresas jornalísticas se dedicaram apenas a gerenciar fluxo de caixa, relevando as possibilidades de empreenderem como empresários do setor de comunicação social”, conclui.

Trocando em miúdos, os veículos se tornaram máquinas bem azeitadas de fazer dinheiro na velocidade que suas rotativas imprimiam seus exemplares. Funcionavam tão bem, que esqueceram a sua função social. Os interesses da empresa começaram a se contrapor aos editoriais e, pior que isso, tudo começou a virar uma amálgama disforme e sem relevância para seu público.

Enquanto não havia outra plataforma que servisse de alternativa, essa massa serviu bem ao propósito do negócio. “Numa perspectiva histórica, (as empresas de comunicação) legitimaram-se, fizeram e ainda fazem dinheiro por causa da sua capacidade de articular públicos”, explica Mesquita.

Veio então a popularização da Internet, e o público deixou de ser um passivo consumidor das notícias (e das versões) dos grandes veículos e passou a ser protagonista da construção do noticiário. Subitamente, o público dos veículos, qualquer pessoa, passou a ser um potencial concorrente. E uma enxurrada de versões alternativas começou a surgir.

Quer pagar quanto?

Diante da incapacidade de lidar com esse novo mundo, os grandes veículos deixaram de representar seu público. E contestações como as vistas em volta da imagem acima aparecem o tempo todo.

O espaço para tal representação popular está aberto, democraticamente abraçando qualquer um que se proponha a isso. Aqui e ali, surgem pessoas, grupos e empresas procurando o seu espaço, representando desde poucos indivíduos a uma fatia significativa da sociedade.

Enquanto isso, os grandes veículos agonizam com receitas publicitárias e de assinatura cada vez menores. Não há surpresa nisso: ao não se sentir representado pelo veículo, seu público desaparece, derrubando as tiragens e as receitas. Afinal, quem vai pagar por algo com o que não se identifique?

As empresas de comunicação tentam sofregamente transpor seu velho modelo de negócios para a nova mídia. Não conseguem perceber que não há mais espaço para isso. Sua miopia está destruindo sua credibilidade, seu maior ativo.

Portanto, a solução para sair da crise é abandonar esse antijornalismo e se re-encontrar com seu público. Mas quais terão inteligência e coragem para isso?

Devemos formar as crianças para o mundo em que elas vivem

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Crianças usam notebooks educacionais em escola nos EUA - Foto: divulgação

Crianças usam notebooks educacionais em escola nos EUA

Recentemente entrei em um debate com uma mãe que se vangloriava de, nessa ordem, ter “tirado o computador” do filho de dez anos e que, por conta disso, ele estaria fazendo coisas “que uma criança deve fazer”, como jogar bola e subir em árvores. Perguntei a ela para que mundo ela estava formando seu filho. E ela se ofendeu.

Pais, pelo menos os conscientes, procuram sempre dar o melhor a seus filhos, incluindo a educação que eles consideram a mais adequada. Entretanto, “melhor” é algo que varia de acordo com a pessoa, com o lugar e com a época. Precisamos ser flexíveis às mudanças que acontecem a nossa volta, mesmo quando não gostamos dos resultados delas.

Tive uma infância feliz e saudável, onde joguei bola, subi em árvores e fiz coisas que a mãe acima provavelmente desaprovaria, como participar de animadas batalhas campais com amigos, todos armados com estilingues e usando semente de mamona como munição. Aquela era a realidade em que vivia e nunca fui privado dela pelos meus país. Além disso, tive a sorte de eles incentivarem, inclusive com grande esforço financeiro, o meu interesse por computadores já no começo da adolescência. Isso em uma época em que se ter um computador em casa era algo muito raro, mesmo em famílias abastadas.

Chamo de “sorte” a chance de ter tido acesso, alguns anos antes que a esmagadora maioria, a algo que em pouco tempo, mudaria completamente o mundo. Apesar de nunca ter me transformado em um profissional de TI, o contato com a nascente computação pessoal me permitiu desenvolver várias habilidades cognitivas que se converteram em diferentes vantagens na minha vida.

Por mais que eu gastasse horas com aquela máquina incompreensível para meus pais, eu nunca deixei de fazer minhas outras atividades por conta daquilo. Ou seja, o livre acesso à tecnologia não me privou de nada: pelo contrário, foi algo que apenas me acrescentou habilidades que não teria de outra forma.

Não concordo, portanto, com pais que restringem o acesso de seus filhos a computadores, videogames ou celulares, sob o pretexto de que assim as crianças não fariam mais nada, se pudessem. Uma criança só se comporta dessa forma se não lhe forem oferecidas alternativas. E, nesse caso, a culpa será dos pais, não dos filhos.

É exatamente a mesma coisa que acontecia há uns 20 anos, quando os pais reclamavam que seus filhos passavam o dia diante da TV. Contestavam a qualidade da programação, mas nunca aceitavam que aquilo acontecia simplesmente porque aquelas crianças não tinham muito mais a fazer.

Felizmente, nem todos são assim. Mas a “turma do contra” prefere matar a vaca a acabar com o carrapato. Não se importam em afirmam categoricamente que os games deixam seus filhos violentos, mas se recusam a enxergam que não reservam o tempo necessário para se dedicar genuinamente às crianças, inclusive para lhes dar o carinho necessário para sua boa formação. Entendo que isso não é algo fácil de conseguir, especialmente com a vida corrida que lhes é imposta. Mas é crítico que seja feito.

Portanto, vão “tirar o computador” para que seu filho possa subir em árvores? Francamente, para que mundo estão formando seus filhos?

A importância do caviar para o jornalismo

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Exemplos de capas do Estadão e da Folha de um mesmo dia: dois veículos de uma mesma empresa, feito de jornalismo palaciano, agências e assessorias? Imagem: reprodução

Exemplos de capas do Estadão e da Folha de um mesmo dia: dois veículos de uma mesma empresa, feito de jornalismo palaciano, agências e assessorias?

No dia 10, durante o 7º Fórum da Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner), em meio às discussões sobre a crise das empresas de comunicação impressa, Juan Giner, presidente do Innovation Media Group, sugeriu que os veículos precisam investir na produção de um jornalismo de alta qualidade, relevante e exclusivo, se quiserem que alguém pague pelo seu produto. Parece óbvio, mas não é, pois isso não se vê por aí.

“Temos que produzir um ‘jornalismo-caviar’, que seja nobre, raro e sofisticado, e principalmente que não seja encontrado em qualquer lugar”, disse Giner aos participantes do evento. “Mas 80% dos veículos de todo o mundo ainda não atingiram esse nível de sofisticação, exclusividade e relevância em seu noticiário. Precisamos produzir caviar”, alfinetou Giner.

Ele está certíssimo: as pessoas pagam pelo conteúdo que consomem, desde que ele mereça isso. O assunto já foi debatido neste mesmo blog mais de uma vez. Mas é uma pena constatar que a maioria do jornalismo por aí está mais para fast food que para caviar. É como se as empresas de comunicação, asfixiadas pelos seus balanços desfavoráveis, estivessem esquecendo como fazer bom jornalismo, preferindo as fórmulas fáceis, baratas e ruins. Não sabem mais onde está o caviar (e não procuram), e se contentam em oferecer hambúrguer de baixa qualidade. E isso não é uma exclusividade dos veículos impressos: permeia diferentes mídias.

Mas, agora discordando de Giner, apenas produzir jornalismo-caviar não é mais suficiente para salvar esses veículos. Para tornar a situação mais dramática, existe muita gente que despreocupadamente produz jornalismo (às vezes bom) de graça simplesmente porque aquilo não é o seu core business, mas precisa desse tal “conteúdo” para sustentar o que realmente lhe dá dinheiro. Isso não é nenhuma novidade: em 1996, quando o UOL foi lançado, as teles não queriam saber de oferecer acesso. Coube aos então chamados “provedores de acesso” criar a infraestrutura e oferecer a conexão. Naquela pré-história da Web, o conteúdo jornalístico da casa (no exemplo do UOL, vindo dos veículos da Folha e da Abril) era um “brinde” para convencer alguém a pagar pelo “acesso”, seu verdadeiro negócio.

Os portais de hoje não são muito diferentes disso. Talvez a maior ironia seja o fato de eles lucrarem muito distribuindo (pagando ou por parcerias) jornalismo da chamada “mídia tradicional”, que não aprendeu até hoje a lucrar nessa nova modalidade. E o problema reside em insistir em um modelo que foi criado no século 19, quando o leitor precisava pagar pelo jornal inteiro, mesmo que quisesse ler apenas uma notícia. Isso acontecia porque não era possível vender o jornal fatiado. Mas hoje isso é perfeitamente factível.

Não estou propondo micropgamento, algo difícil de implantar do ponto de vista técnico e financeiro. Mas o modelo “pague para levar tudo ou não receba nada” não se sustenta mais. Sim, é possível cobrar uma assinatura, mas por outro tipo de produto jornalístico que tire real e amplo proveito do que a tecnologia oferece, ao invés de simplesmente transpor o impresso para a tela. É isso que as pessoas não querem e que as empresas insistem em empurrar ao mercado. Para consumir notícia dessa forma, melhor ficar com a revista em papel mesmo.

E aí voltamos à história do tal jornalismo-caviar. Os novos leitores não consideram a hipótese de consumir notícias em papel. E os leitores antigos não querem mais pagar pelo jornalismo rasteiro e desqualificado que lhes é oferecido. As pessoas incensam o paywall do The New York Times, mas suas análises simplistas não vão além da exigência de pagamento para quem quiser ler mais conteúdo.

É uma visão míope e limitada do trabalho que a turma da “velha dama cinzenta” fez. Esquecem que o conteúdo gratuito é suficiente para atender às necessidades mensais de leitura de 90% dos visitantes de seu site, leitores eventuais (portanto, cobram apenas dos que realmente veem valor no produto e o consomem mais). Esquecem também que quem chega a uma notícia de buscadores ou de redes sociais não tem a leitura computada em sua quota, fortalecendo assim a sua relevância nessas importantes portas de entrada. Esquecem que os produtos digitais da casa são muito bons e não se resumem a transpor o impresso para a tela. Por fim, esquecem que quem assina o jornal impresso leva todos os produtos digitais de graça. Sobre tudo isso, uma generosa cobertura de jornalismo-caviar.

E continuamos com o nosso cachorro quente.

A falta de inovação do Mídia Ninja

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Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva do último dia 5 - Foto: Reprodução

Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva do último dia 5

Desde as megamanifestações que sacudiram o Brasil em junho, muito se fala sobre o Mídia Ninja, um grupo de jornalismo que tem sido incensado como revolucionário em seus formatos editoriais e de financiamento. Cheguei até a ter a esperança de que a cambaleante “mídia tradicional” poderia aprender algo com eles. Mas acabei concluindo que, na verdade, as propostas dos Ninjas não têm nada de inovadoras.

Os líderes do movimento, Bruno Torturra e Pablo Capilé, tentaram explicá-las no Roda Viva do último dia 5. Durante grande parte do programa, os entrevistadores se concentraram em como o movimento se financia, e não faltaram sugestões de que os Ninjas seriam, na verdade, aparelhados pelo PT. Não entrarei aqui na questão política: quero debater o que eles estão trazendo para o jornalismo.

Assistindo à entrevista, concluí que a o movimento está infelizmente muito longe de um caminho viável. Suas propostas me lembraram de visões românticas e às vezes inocentes típicas das start-ups de tecnologia que naufragam com uma boa ideia nas mãos.

A principal falha na proposta dos Ninjas é depositar pesadamente no público a responsabilidade pelo financiamento da produção jornalística. Curiosamente isso não é diferente do que propõem os donos dos grandes veículos, principalmente da mídia impressa, que vem sofrendo de maneira mais dramática com o naufrágio do seu modelo de negócios.

Claro que o ideal é que qualquer jornalismo seja financiado pelo seu próprio público, quanto mais, melhor. Assim garante-se um dos valores mais caros da atividade, que é a sua independência. Mas, como disse acima, calcar seu modelo de negócios nisso demonstra que os Ninjas terão que mudar de ideia rapidamente se não quiserem desaparecer. E o próprio Bruno admitiu no programa que só pensará em vender anúncios a empresas, quando “o dinheiro público, DO público (ops, a falta inicial dessa contração foi um ato falho?) fracassar”. Oras, é um modelo que então já prevê o seu fracasso?

Essa tentativa de convencer o público de canais online a pagar pelo conteúdo já vem sendo tentado de diferentes maneiras há uma década por gente muito boa (dos pontos de vista tecnológico e jornalístico), sem sucesso. As pessoas estão dispostas a pagar sim pelo que consomem, mas está cada vez mais difícil convencer alguém a pagar pelo conteúdo em si: elas pagam quando ele faz parte de algo maior, de um serviço que transcende o jornalismo na maneira como ele se insere em suas vidas.

A incapacidade de entender isso é o que está matando, por exemplo, os jornalões, que veem seus assinantes e anunciantes diminuindo continuamente. Mas eles ainda têm algo nas mãos, pois partiram de um grande volume construído historicamente. No caso dos Ninjas, que estão partindo do zero, correm o risco de fazer um “microjornalismo” para 300 ou 400 pessoas, como os shows dos artistas incubados pelo Fora do Eixo, movimento irmão do Mídia Ninja focado em atividade artísticas. Nesse caso, perdem outro valor importante para o jornalismo, que é a representatividade social. Não se faz jornalismo apenas para seus colegas, para quem pensa igual a você ou para quem já conhece a história: jornalismo deve ser feito de maneira ampla, para a sociedade.

Jornalista cidadão

Os Ninjas se apoiam em uma meia verdade, quando dizem que é possível fazer jornalismo com baixos custos. A parte em que isso é verdade acontece justamente em coberturas como as realizadas nas manifestações de junho, que tornaram o grupo famoso. Nesse caso, basta sem a pessoa certa, no lugar e na hora certos. Com celulares, é possível sim fazer esse tipo de bom jornalismo a um custo baixo.

O melhor exemplo disso para mim não é de hoje e nem é dos Ninjas. Ele aconteceu em 26 de dezembro de 2004, após o tsunami que devastou o sudeste asiático, principalmente a Indonésia. Naquele desastre, alguns sobreviventes realizaram uma grande cobertura jornalística usando seus celulares (que eram muito mais primitivos que os atuais), praticamente a única coisa que continuou funcionando após a tragédia. A grande mídia demorou incrivelmente um par de dias para perceber o que havia acontecido naquele lado do mundo, desembarcando atrasada (e em massa) para sua cobertura, como a cavalaria chegando e tocando sua corneta, depois que pioneiros e índios já tivessem se massacrado.

E justamente aí reside a metade falsa da premissa do movimento. Sim, tanto os Ninjas nas manifestações de junho, quanto os sobreviventes do tsunami realizaram uma cobertura de qualidade a custos baixos. Mas e se ninguém tivesse feito isso naquele 2004 indonésio e restasse à grande mídia executar essa tarefa, ainda que tardiamente? Custa muito dinheiro mobilizar rapidamente uma grande equipe e enviá-la ao outro lado do mundo para fazer jornalismo. E isso acabou acontecendo em um segundo momento, de maneira complementar ao trabalho inicial dos sobreviventes.

Vale ressaltar outra diferença entre o Mídia Ninja e iniciativas típicas de jornalismo cidadão, como no caso do tsunami de 2004. Os Ninjas querer fazer parte da noticia, ao invés de noticiá-la. Isso ficou claro quando seus líderes disseram no Roda Viva que filmaram detalhes das manifestações e fizeram entrevistas específicas para deliberadamente proteger os manifestantes.

Não há nada de errado em se fazer isso, desde que seja como manifestante, e não como jornalista. Nesse segundo caso, deve-se fazer a sua cobertura para apurar os fatos, e eles sempre têm muitos lados. Por mais que odeiem os policiais que estavam descendo a borracha nas pessoas, eles devem ser ouvidos para que deem a sua versão dos acontecimentos. Assim como os manifestantes pacíficos, os black blocs, os políticos, o cidadão que estava lá só de passagem. Todos eles têm sua versão dos mesmos fatos, e devem ser ouvidos. Sem isso, o público, mal informado, se afasta da verdade, e o trabalho vira antijornalismo.

A contribuição dos Ninjas

Então o Mídia Ninja não inova em nada? Penso que não. Mas eles trouxeram sim uma importante contribuição. Não por terem inventado algo novo, mas por terem resgatado um princípio importantíssimo do jornalismo que anda meio esquecido nas grandes redações e que a nova geração de colegas pouco viu: uma reportagem destemida, que, para apurar uma notícia, vai até o fim, pensa de maneira criativa e até impertinente, e que não se deixa intimidar.

Incentivados por uma política de redução de custos que prefere que os jornalistas saiam pouco das Redações, os grandes veículos se transformaram em espaços de denuncismo, insuflados por fontes com interesses nem sempre nobres ou confiáveis. E essa prática condenável divide o espaço com um jornalismo chapa-branca, com pautas políticas ou empresariais sonolentas, com uma mesmice chata e acomodada. Até a opinião dos veículos, fora de assuntos políticos, parece anêmica.

A chamada “grande imprensa” deveria prestar atenção a essa turma que “vai para cima” apenas com um celular na mão. Não para desprezar os seus erros, mas para resgatar com eles o que perderam ao longo dos anos. E –sim– se reinventar.

Nesse caso, um novo, sério e robusto jornalismo poderia surgir das cinzas do cruzamento dos veículos centenários e dessa nova turma. Se isso acontecer, o Mídia Ninja terá dado a sua contribuição à sociedade, afinal.

O que Jeff Bezos quer com The Washington Post

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Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, que acaba de comprar The Washington Post - Foto: Steve Jurvetson/CC

Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, que acaba de comprar The Washington Post

A semana começou com uma notícia que sacudiu a indústria de mídia. Na segunda, The Washington Post, um dos mais respeitados jornais do mundo, anunciou sua venda (juntamente com toda a unidade de jornais da empresa) para Jeff Bezos, criador e CEO da Amazon. Mas, desde então, apesar de inúmeras reportagens e artigos sobre a transação, ninguém ainda respondeu categoricamente a pergunta que muitos estão fazendo: afinal, o que Jeff Bezos quer com The Washington Post?

O magnata da Internet, que ajudou a cunhar o conceito de e-commerce começando a Amazon em uma garagem em 1994, pagou US$ 250 milhões pelo Post, uma relativa pechincha, cujo valor representa cerca de 1% de sua fortuna pessoal. É importante observar que a aquisição foi feita com seu dinheiro pessoal: não foi a Amazon que fez a compra.

Apesar de Bezos afirmar que não pretende fazer mudanças no jornal, que não ocorrerão demissões e que toda a diretoria editorial será mantida, seus novos funcionários ficaram chocados com a novidade. Até uma carta aberta, assinada pelo colunista Gene Weingarten, foi publicada. O empresário também já deixou claro que não mudará de Seattle, de onde controla a Amazon, para a capital dos EUA.

No meio desse cenário de palpitações, uma coisa se pode afirmar com boa dose de segurança: o que Bezos realmente comprou não foi um jornal, especialmente por ser um jornal que, a despeito de sua qualidade e importância social e histórica, apresenta seus números todos apontando para baixo. O que ele realmente adquiriu foi uma marca robusta e um grupo de pessoas talentosas que sabem como fazer bom jornalismo. E isso não tem nada a ver com o papel que ainda distribui grande parte desse conteúdo.

Apesar de US$ 250 milhões ser muito dinheiro, se tudo der errado, Bezos não ficará pobre. O que quero dizer é que seu investimento pessoal representa um risco baixo para ele. Mas não se deve pensar que esse movimento foi uma excentricidade ou aventura do empresário. Bezos é um reconhecido visionário e um astuto homem de negócios. Não iria simplesmente torrar 1% da sua grana. Ele –claro– sabe de algo que nenhum de nós sabe, nem mesmo a turma do The Washington Post: a resposta à pergunta do primeiro parágrafo.

O conteúdo não é mais o rei

Até há poucos anos, os diretores de redação das diferentes mídias, inclusive da digital, bradavam que “o conteúdo é o rei!” Honestamente quem inventou essa história deve ter sido um colega jornalista. Parecia fazer sentido então, mas, se fosse verdade, a mídia impressa, onde provavelmente mais se produz bom jornalismo, não estaria ladeira abaixo.

É óbvio que conteúdo de qualidade é e sempre será importante. As pessoas sabem disso, e consomem mais conteúdo que nunca. Porém ele sozinho não sustenta mais as empresas. O “modelo de negócios”, termo indissociável quando se discute a crise da mídia, é o que mudou. E quem está ganhando dinheiro hoje com conteúdo (próprio ou dos outros) é quem conseguiu enxergar e surfar nessa mudança. E adivinhem só: são principalmente as empresas de tecnologia, não as de mídia. Apesar de as últimas alimentarem as primeiras com seu conteúdo.

Aí entra Bezos. Como novo dono do The Washington Post, ele poderá aproveitar o excelente conteúdo que sua nova equipe é capaz de produzir de maneiras que os Graham, os donos do Post pelos últimos 80 anos, jamais pensaram (ou ousaram). Apenas para ficar na mais óbvia, não me espantaria se, em breve, proprietários de Kindles, os e-readers e tablets que são a joia da coroa da Amazon, passassem a ter acesso irrestrito aos produtos do Post, enquanto o resto do mundo teria que pagar algo por isso. É um belo apelo de vendas para o Kindle, especialmente para o consumidor americano.

Nesse caso, The Washington Post poderia trocar a tendência dos jornais fadados ao desaparecimento pela tendência das empresas de mídia que são financiadas por negócios muito maiores e mais robustos que precisam de conteúdo, ainda que isso não seja o seu core business.

Nesse caso, quem diria, Bezos poderia salvar o jornalão por não pensar como os jornalistas. Não os da Redação, mas os da administração. Acompanharei detalhadamente o desenrolar dessa compra e torcerei pelo sucesso da operação. Não apenas por isso poder jogar um pouco de luz para uma importante indústria que está se debatendo para sobreviver, mas porque me entristece muito a morte de um jornal.

Quem vem depois?

Por que os próprios publishers não pensaram –eles próprios– em algo assim? Claro que é mais fácil quando se é dono da Amazon e do Kindle, e se compra um dos bastiões do jornalismo mundial como a maioria de nós compra uma televisão.

O fato é que eles poderiam –e ainda podem– aproveitar várias oportunidades que estão quicando na área. Mas me atrevo a dizer que lhes falta ousadia e também humildade.

Muita gente acha que The New York Times será o próximo a trilhar esse caminho do The Washington Post. A turma da capital mesmo escreveu sobre isso.

E no Brasil, alguém vai comprar os jornalões e reinventá-los antes que eles desapareçam? Até 2010, parecia que a crise dessa indústria ainda não tinha chegado aqui com força.  Alguém duvida hoje que essa água já está no pescoço?

A quem (ou para que) serve a mídia?

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Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Veículo do SBT é vandalizado ao lado da prefeitura de São Paulo, durante as manifestações do dia 17 de junho de 2013

Nas manifestações que vêm sacudindo o país nos últimos dias, entre suas diferentes bandeiras, demandas e aspirações, uma delas me chamou a atenção particularmente: fora imprensa! Poderíamos pensar que se trata de mais uma reação a tudo que representa um poder instituído, e a mídia certamente se enquadra nisso. Porém, analisando melhor, o buraco é mais embaixo: a população não se sente mais representada pela imprensa. E isso me disparou um alerta.

Nas minhas andanças por esse mundão, pude comprovar a máxima de que uma sociedade é tão mais evoluída quanto mais forte e independente é sua imprensa. Só assim, a sociedade pode ter uma contraposição às ideias hegemônicas difundidas por qualquer governo e ver os fatos de diferentes ângulos. Não é a toa que governos com vocação autoritária tentam cercear ou controlar a imprensa, valendo-se de meios legais ou não, exatamente como temos visto na América Latina na última década.

No Brasil, os veículos que se consolidaram como “grande imprensa” não tiveram origem como representantes de suas comunidades. Os mais antigos eram ligados a oligarquias, como o Estadão, ou até mesmo defendiam o recém-deposto Império, como o Jornal do Brasil. A Folha até que surgiu com a intenção de informar a crescente massa urbana de São Paulo, mas a maioria, nas diferentes mídias, foram apenas títulos lançados com objetivos empresariais (o que não é um problema, que fique claro).

Mas isso é muito diferente do nascimento da mídia nos EUA, intimamente ligada à comunidade onde estava cada veículo. Basta pensar nos estabelecimentos típicos de qualquer pequena cidade americana no século 19: o xerife, o saloon, o ferreiro, o hotel e o jornal. A função deste último era informar sua comunidade sobre o que acontecia nela mesmo e no resto do mundo. E o mais interessante é que ele era mantido pela própria sociedade que representava.

Apesar dessa diferença, esses grandes veículos brasileiros sempre trabalharam como agentes das liberdades e defensores do país (diferentemente de governos), trabalhando bem para seu desenvolvimento. Mas, de uns 20 anos para cá, algo aconteceu e os interesses empresariais próprios começaram a falar muito alto, interferindo de uma maneira cada vez mais decisiva –e escancarada– na linha editorial, principalmente nas revistas semanais de informação. Tais interferências começaram a afugentar leitores e abriram espaço para movimentos politizados de “resistência”, como os que passaram a classificar os grandes veículos como integrantes do “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”).

Até então, esse descontentamento com a mídia não aparecia com tanta força: na maioria das vezes, essas discussões acabavam restritas aos próprios jornalistas, não chegando às massas. Mas aparentemente isso mudou, o que é muito preocupante, pois, se uma imprensa livre e forte é essencial para uma sociedade melhor, como grupos que estão indo às ruas com esse objetivo podem pedir o “fim” da mídia?

O pior de tudo isso é que os responsáveis por esse sentimento são os próprios veículos, pela desvirtuação descrita acima. A sociedade está deixando de se sentir representada por eles, e seus jornalistas estão perdendo a credibilidade. Basta ver o que aconteceu com Caco Barcellos, um expoente do jornalismo nacional, que foi expulso do Largo da Batata no dia 17 e levou um soco na Praça da Sé dois dias depois. Por mais que o “alvo” talvez fosse a Rede Globo, o profissional foi a vítima. E, para um jornalista, tão ruim quanto uma agressão física, é a perda de sua credibilidade, seu bem mais valioso.

Apesar de toda essa animosidade, os movimentos têm sido palco de excelentes reportagens, exemplos do melhor do jornalismo, produzidas por profissionais ou pessoas que simplesmente registravam brilhantemente o que estavam presenciando. É o tal jornalismo-cidadão, incompreendido (e combatido) pelos grandes veículos. Essa resistência, aliás, ajuda a explicar o distanciamento das redações de seu público. E isso foi muito bem descrito em artigo de Otavio Frias de Oliveira, diretor de redação e um dos donos da Folha, escrito para justificar o lançamento de uma “nova Folha”, o “jornal do futuro”, no dia 22 de maio de 2010. Segundo ele, “os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas.” E conclui: “para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência.”

Não bastasse esses veículos estarem morrendo pela sua absoluta incompetência em criar um novo produto e modelo de negócio adequados à nova maneira como as pessoas se relacionam (ou seja, não apenas consomem, mas também produzem) com conteúdos jornalísticos,  eles se afundam ainda mais na lama por entender cada vez menos as mudanças editorias que lhe são impostas. Não estou defendendo de forma alguma a “inconsequência”, falta de apuração, pluralidade de informações. Mas não há mais espaço para o jornalismo palaciano, previsível, desengajado e organizado por interesses comerciais, que a grande imprensa vem produzindo.

Precisamos de uma imprensa forte e livre (inclusive para resistir a pressões dos poderosos). Mas ela precisa lembrar a quem ela serve.

Mais um round entre a mídia míope e o futuro

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Logos da Rede Globo em 1965 e hoje

Logos da Rede Globo em 1965 e hoje: o grupo está perdendo a capacidade de olhar para o futuro?

Os profissionais dos diferentes veículos das Organizações Globo estão proibidos de colocar links nas fan pages dos próprios veículos no Facebook. Continuam fazendo chamadas, mas nada de link, apenas frases toscas como “Leia a reportagem no site de ÉPOCA”. O G1 radicalizou: usa uma imagem padrão agrupando indiscriminadamente seus títulos, três a três, sem qualquer outra preocupação: uma “antichamada”.

Chega a ser patético o apelo para que os usuários entrem no site do veículo e saia procurando pelo conteúdo que quer ler, uma tentativa medíocre e desesperada de aumentar a audiência valendo-se de um desserviço ao próprio usuário. A iniciativa só não é mais ridícula que a falta de raciocínio que levou a ela: para os executivos da Globo, o Facebook “rouba” audiência de seus portais, assim como agregadores ou leitores de RSS. Segundo essa visão com miopia beirando a cegueira, usuários estariam se “satisfazendo” com as chamadas criadas pelos próprios jornalistas e as três primeiras linhas do texto que o Facebook automaticamente replica na chamada.

Se isso fosse verdade, tiraria algumas conclusões. A primeira seria que o conteúdo de todos os produtos da Globo seria uma porcaria tão rasteira, que ninguém se interessaria em ler nada além daquelas poucas palavras na chamada. Também poderia concluir que os responsáveis pelas fan pages seriam tão incompetentes que nada que eles produzissem convenceria os usuários a visitar suas páginas.

Felizmente não é nada disso: os conteúdos da Globo normalmente são bons, e os únicos incompetentes nessa história são os que propuseram essa iniciativa lamentável. Esse é apenas o mais recente capítulo da briga entre a mídia tradicional, que, apesar de ainda ser capaz de produzir bom jornalismo, tem uma visão de negócios cada vez mais decadente. Diante de sua constatação de ser incapaz de controlar o futuro, tente impedir sua chegada, parando de dar corda no próprio relógio.

Por que o Facebook incomoda tanto esses arautos do ostracismo? Porque ele, assim como o Google, agregadores e outros produtos e serviços que ditam as tendências de distribuir conteúdo de uma maneira inteligente e pensando no usuário, diminui ainda mais a relevância das home pages de portais e sites desses veículos. Até havia alguns anos, quando eles ainda detinham o poder sobre a produção e distribuição do conteúdo jornalístico, a melhor maneira de se informar era entrando nessas home pages. Com elas, as empresas promoviam o conteúdo que consideravam pertinentes e dirigiam os usuários dentro de sua estrutura de navegação. De quebra, geravam dezenas de milhões de page views nesse processo, o que significa dinheiro extra entrando no caixa. E até hoje elas ainda representam uma porcentagem muito considerável no total de page views desses sites. Portanto, para eles, qualquer coisa que ameace essa vaca leiteira deve ser combatido.

Mas o mundo mudou. Desde que “o Facebook se tornou o jornal e seus amigos os editores”, as home pages deixaram de ser importantes. Para as pessoas, é muito mais interessante ler o que seus amigos estão promovendo que as escolhas feitas pelos editores. Por isso, atitudes retrógradas como essa adotada pela Globo só demonstram como os executivos das empresas de mídia estão descolados do mundo que seus veículos cobrem. Não reverterão em nada a linha descendente de sua audiência e ainda desestimularão as pessoas a dar links para seus conteúdos.

Ao invés de continuar combatendo o futuro, os executivos das empresas de mídia precisam aprender a tirar proveito do que ele tem a oferecer, incluindo aí o Facebook, o Google, os agregadores e tantas outras coisas que eles insistem em demonizar. Não é “dar de graça” seu trabalho, e sim apresentá-lo da maneira que seus clientes querem, para assim continuarem sendo seus clientes.

Ah, normalmente eu daria links para fan pages de veículos da Globo. Mas não farei isso.

A nova pressa do jornalismo

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Duas versão da primeira página do fictício The Sun - Imagens: reprodução

De “GOTCHA!” a “They Didn’t Do It”: a mesma notícia, a mesma foto, o mesmo veículo, porém com mais ética e menos pressa

Vivemos um momento de riqueza e pobreza simultâneas no jornalismo. Riqueza no volume de notícias, e pobreza na qualidade da maioria do material publicado. Esse paradoxo pode ser, pelo menos em parte, explicado pela pressa com que os colegas trabalham hoje.

Nas faculdades de jornalismo, a pressa é apresentada como um ingrediente do ofício. A notícia não pode esperar e o furo é quase uma medalha para o jornalista.  As empresas de comunicação adoram isso, pois o furo vende mais. E, desde que o jornalismo aprendeu a usar os recursos digitais cada vez mais abundantes, onipresentes e poderosos, essa pressa se aproxima da instantaneidade. Pois é justamente nesse cenário que o profissional precisa aprender a ter menos pressa.

Quando o furo se torna uma meta histérica, corre-se um enorme risco de se sacrificar a apuração, a confiabilidade da reportagem. Esquece-se que a melhor notícia não é a dada primeiro, mas a publicada com mais precisão. Em muitas vezes, a verdade depende do ponto de vista de cada um, e não raro é surpreendente. Por isso, o jornalista deve ouvir todos os lados possíveis do que está apurando, para ter subsídios para uma análise crítica e ampla dos fatos. Mas como fazer isso estando com pressa de soltar a notícia?

O fechamento da edição é um mecanismo interessante que limita o trabalho do jornalista com um deadline previamente conhecido. Deve-se fazer o melhor trabalho possível até aquele horário. De certa forma, organiza os recursos disponíveis para se conseguir uma boa reportagem.

Mas o jornalismo digital aboliu o fechamento. Apura-se e publica-se. Se for necessário, depois se edita o que já foi publicado, se amplia e –o pior– se corrige, atropelando a ética. Esquece-se que a notícia publicada incorretamente pode ter efeitos desastrosos para quem é a notícia, e que correções posteriores normalmente não reparam o dano causado. Portanto, é uma falácia que o jornalismo digital não tem “erramos”, que a última versão da reportagem é a que vale, que se deve publicar primeiro e corrigir depois. Isso é antijornalismo e a pressa nunca justificou sua prática, por mais que a usem de muleta.

E sejamos francos: esse tipo de desvio moral não é invenção do jornalismo digital, apesar de ele oferecer “ferramentas” e “motivos” para que ele se intensifique. Isso chegou até a ser brilhantemente retratado no filme O Jornal, de Ron Howard, com Micheal Keaton e Glenn Close (trailer abaixo).

 

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Lançado em 1994 (portanto antes do surgimento do jornalismo digital), o filme mostra uma maneira de se fazer jornalismo que esta desaparecendo. O roteiro demonstra como é possível ser ético mesmo em um jornal sensacionalista de Nova York, que falas como “deus nos livre de uma manchete sem ponto de exclamação” podem coexistir com “jamais publicamos uma história errada”. Pois a primeira descreve a forma, e a segunda descreve a essência do bom jornalismo.

Assisti a esse filme no cinema, quando ainda estava nos primeiros anos da minha carreira. Nunca mais esqueci o que aprendi com ele. Ele deveria ser obrigatório no conteúdo dos cursos de Jornalismo. Pois a pressa é mesmo ingrediente do nosso ofício, mas não é para ela que trabalhamos.