All posts by Paulo Silvestre

Jogador, gostaria de lhe apresentar George Washington

By | Educação, Tecnologia | No Comments
Cenas de O Patriota e de Assassin's Creed III

Que melhor maneira de estudar sobre a Revolução Americana, que assistindo a um filme como O Patriota, ou -melhor ainda- atuando diretamente nos seus eventos históricos, como em Assassin’s Creed III?

Há alguns dias, tive o prazer de conhecer “pessoalmente” George Washington, quando frustrei uma tentativa de assassiná-lo. Também andei pelas ruas e conversei com os habitantes de Boston e de Nova York do século 18, sentindo o calor de uma população que crescentemente se revoltava contra o domínio britânico sobre o que hoje são os Estados Unidos. Sim, eu estava lá e pude entender, sentir e participar da cadeia de eventos que culminou na Revolução Americana.

Isso tudo aconteceu, mas dentro de Assassin’s Creed III. Para quem não conhece essa séria de games da Ubisoft, seu roteiro se constroi sobre um personagem que consegue reviver as memórias de seus antepassados com o auxílio da tecnologia. Dessa forma, participa de eventos históricos, como as Cruzadas, a Renascimento e a própria Guerra da Independência dos Estados Unidos, como se realmente estivesse naquela época e local. E o jogador é convidado a interagir com esse mundo passado, garantindo que tudo aconteça como deve ser.

Além da impressionante qualidade técnica e de uma cuidadosa recriação de fatos e de ambientes, o que mais me chamou atenção no game foi a possibilidade de se “estudar” história (no caso, americana) com ele. Do que me lembro dos meus tempos de escola, o material didático que tinha disponível sobre o assunto se resumia a uns poucos parágrafos sobre a Festa do Chá de Boston e a própria Declaração da Independência. Agora pude participar ativamente não apenas desses dois eventos, como também de vários outros que os antecederam e sucederam e que, juntos, explicam e justificam a independência dos EUA.

Assassin’s Creed não é o primeiro jogo que coloca o jogador como protagonista de eventos históricos, favorecendo o aprendizado tangencial, já discutido neste blog. Mas é a bola da vez, com rumores de que pode até ser transformado em um longa-metragem hollywoodiano.

É uma maneira inovadora e muito eficiente de se ensinar um conteúdo acadêmico, que serve de fio condutor em um game cuja diversão a princípio não tem nenhum interesse educacional. Mais eficiente até que assistir a um filme como O Patriota, com Mel Gibson interpretando um fazendeiro que se vê forçado a participar da Revolução Americana. Que por sua vez é muito mais eficiente que os parágrafos do livro didático acima citado, pois traz muito mais informação, contexto e –claro– diversão associada ao aprendizado.

A vantagem do game é que o estudante-jogador abandona a posição passiva e participa ativamente dos fatos, algo que nem os filmes podem oferecer. No melhor estilo do “aprender fazendo”, a informação é, mais que decorada, assimilada e entendida por se ter participado dela, ainda que virtualmente.

Sei que é difícil sugerir que um game como esse seja adotado como material didático, pois o custo é elevado e a ação é extremamente violenta, do começo ao fim, como se pode imaginar pelo título. Mas o que proponho aqui é o uso criativo de ferramentas inusitadas e que fazem parte do cotidiano dos alunos para se atingir fins pedagógicos.

Há muito material para isso para história universal e ciências naturais, por exemplo. Infelizmente não há muitos games que retratem o Brasil e sua história, mas há bastante material assim na teledramaturgia, especialmente da Rede Globo. Fica o desafio às equipes pedagógicas de garimpar isso de acordo com seus planos de aula.

As editoras de material didático deveriam também investir nisso, mas elas têm uma enorme dificuldade de ousar nesse sentido. A começar porque a produção de um material como esse é caríssima, e dificilmente se pagaria vendendo às escolas que topassem adotá-lo. Talvez devessem então começar a pensar sob a ótica do aprendizado tangencial, e produzir games para um público muito além do escolar, ao invés de continuar apenas com suas iniciativas bastante… “limitadas” de conteúdo didático digital.

Ou daqui a pouco verão a indústria de games ganhando as licitações do MEC.

A hora e a força das autopublicações

By | Tecnologia | 2 Comments

Foto: Maximilian Schönherr

A combinação de sistemas como o iBooks Author e o Kindle Direct Publishing –que permitem que qualquer pessoa edite e publique sozinho seus e-books– com a chegada oficial no Brasil das grandes livrarias virtuais –no dia 6 de dezembro, a Amazon e o Google Play se juntaram ao iTunes e ao Kobo– pode fazer de 2013 um ano marcante para quem quiser lançar suas obras dispensando editoras, os “autopublicadores”. Mas há algumas pedras no caminho.

Até havia bem pouco tempo, publicar um livro era algo que exigia o apadrinhamento de uma editora ou –na imensa maioria dos casos– o pagamento antecipado de uma tiragem mínima, normalmente 500 exemplares. No primeiro caso, a editora cuidava de tudo, mas ficava com a parte do leão, restando ao autor royalties diminutos. No outro, o investimento na composição e impressão da obra não era pequeno para quem estava começando. Além disso, com os livros nas mãos, cabia ao autor a tarefa de vendê-los, o que muitas vezes terminava em um grande encalhe de exemplares –e consequente prejuízo.

Há poucos anos, surgiram no Brasil empresas especializadas em impressão sob demanda: o exemplar do livro só é impresso depois de ser vendido. Dessa forma, elimina-se o problema do encalhe, mas, em contrapartida, a impressão de cada exemplar fica muito mais cara.

Agora, editar e publicar sua obra são quase tão fáceis quanto escrever o seu texto em um processador eletrônico. E os novos sistemas ainda permitem a inclusão de recursos interativos e de multimídia poderosos, fazendo com que as obras compostas pelos próprios autores não fiquem devendo nada às criadas pelas grandes editoras.

Restava ainda solucionar a questão da distribuição, que normalmente restringia as vendas dos autores-empreendedores a poucas dezenas de exemplares. Grandes livrarias não dão destaque a autores desconhecidos –isso quando sequer reservam algum espaço em suas prateleiras a eles. A Amazon e afins resolvem esse problema com sua capacidade virtualmente infinita de comercializar a quantidade de obras que quiser.

E aí o conceito de “cauda longa”, onde qualquer título, por mais específico que seja, encontra o seu público, ganha força. Uma prova disso aconteceu na própria Amazon brasileira nos primeiros dias de sua operação: durante dois dias, o livro mais vendido foi “Organizando a Vida com o Evernote”, do desconhecido Vladimir Campos. Ok, pode-se argumentar com razão que isso resultou de peculiaridades do início da operação. Mas Campos jamais repetiria o sucesso –em dois meses, vendeu quase 1.500 e-books a R$ 16– na abertura de uma nova loja física de uma grande livraria. Possivelmente não venderia nenhum exemplar no mesmo período.

Outro exemplo interessante é “Frankie for Kids”, uma versão (em português e inglês) de Frankenstein encapsulada dentro de um aplicativo com ilustrações e interatividade para crianças. Primeira iniciativa no mercado de livros do casal de jornalistas Fernando Tangi e Samira Almeida, chegou a encabeçar a lista de mais vendidos da categoria no iTunes logo após seu lançamento.

Por tudo isso, há uma grande chance de experimentarmos no Brasil algo que já se nota em alguns países há alguns anos: a força dos autopublicadores. Erika Leonard James, autora da coqueluche do momento, a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, começou assim. Os três títulos da sequência viraram um sucesso primeiramente como e-books e impressão sob demanda (as versões digitais inclusive garantiam a discrição de suas leitoras na hora da compra e da leitura, importante para muitas delas, pela natureza erótica da obra). Apenas no ano seguinte, uma grande editora comprou os direitos e relançou a obra (já um sucesso), para inundar onipresentemente as vitrines das livrarias físicas.

Turma do contra

A combinação dos sistemas de autoria e as livrarias virtuais democratizam a leitura e facilitam o surgimento de novos autores, que podem lançar obras cobrando menos e ganhando mais, por eliminar custos típicos das obras impressas e das editoras. Isso é uma excelente notícia, especialmente em um país em que as pessoas leem pouco, em parte pelos altos preços dos livros.

Mas nem todo mundo está feliz. Os primeiros a torcer o nariz são as próprias editoras. Há quase um ano, repercuti uma carta aberta do publisher Arnaldo Saraiva, em que ele afirmou categoricamente que as editoras de livros (no caso, didáticos) não têm mais nada a oferecer a seus autores. As reações ao post (e à carta) foram mistas: os leitores concordaram; as editoras estrilaram.

Outros que naturalmente têm a perder são as livrarias. Se os leitores começarem a comprar e-books (ou mesmo livros impressos) das livrarias virtuais, seja pela comodidade, seja pelos preços mais baixos, como fica sua situação?

As editoras brasileiras conseguiram amarrar em contrato que os e-books não sejam vendidos por menos que 70% dos equivalentes em papel, apesar de os custos serem muitíssimo mais baixos nas versões digitais, o que permitiria descontos ainda maiores. Isso já é bastante questionável. Mas o pior mesmo tem sido a reação das livrarias.

No início de dezembro, a ANL (Associação Nacional de Livrarias) divulgou uma carta aberta com quatro propostas para proteger seus afiliados. Além do teto de 30% de desconto para as versões digitais dos livros, Ednilson Xavier, presidente da ANL, que assinou a carta, também quer que esse desconto seja uniforme para todos os canais de venda, duas práticas totalmente contrárias aos interesses do consumidor. Pior que isso: outro ponto propõe que, caso as editoras ou as distribuidoras vendam diretamente ao consumidor, que esse desconto seja de ridículos 5%.

O último ponto é o mais grotesco de todos: a ANL sugere que livros sejam lançados na versão digital apenas depois de 120 dias da versão em papel. Diante de tudo que foi exposto acima, isso é evidentemente uma tentativa de impedir o futuro (na verdade, o presente) para preservar um negócio à custa dos consumidores e dos autores.

Xavier evoca as regras do mercado cinematográfico, em que um filme sai primeiro nos cinemas, para depois seguir a mídias domésticas e só então à TV (fechada e depois aberta). Quanto a esse ponto, vale ressaltar que, na época do surgimento do VHS, quando muitos decretaram a breve morte das salas de cinema, elas eram desconfortáveis, com imagem e som ruins. Diante da ameaça que lhes foi apresentada, os cinemas passaram por uma incrível transformação de infraestrutura e de tecnologia, criando uma nova experiência com a qual nem mesmo os atuais discos blu-ray podem se equiparar. Reinventaram seu negócio e não apenas mantiveram sua relevância, como a ampliaram. E isso foi mais importante que qualquer regulamentação.

Propostas como essa me fazem lembrar da famigerada “Lei da Informática”, que vigorou no Brasil de 1984 a 1992. Em resumo, ela impediu a entrada de fabricantes internacionais de computadores no país, em nome de fortalecer a então recém-criada indústria brasileira de informática. Na prática, o que se viu foi o consumidor brasileiro sendo obrigado a comprar equipamentos nacionais obsoletos e a preços abusivos (ou recorrendo ao contrabando), sem que a indústria se preparasse para a competição internacional. De fato, após o fim da reserva de mercado, o que se viu foram os fabricantes brasileiros abandonando seus projetos para se transformarem em revendas ou montadores dos mesmos produtos estrangeiros até então proibidos.

“Libertas Quae Sera Tamen”

Sou um liberal e, dessa forma, condeno intromissões governamentais que, por mais que ajudem um segmento econômico, sejam contrárias ao interesse da maioria. Isso é típico de países que querem até impedir, por força de lei, que sua língua sofra influência de outros idiomas, um disparate em tempos de Internet onipresente.

É importante ressaltar que os pequenos livreiros já sofrem uma concorrência brutal, quase desleal: a das redes de livrarias, que compram das editoras grandes lotes de obras a preços mais baixos. Para esse pessoal, o drama já está posto há muitos anos, e novas tecnologias e players pouco impactarão em suas vendas já espremidas.

As grandes livrarias –essas sim– podem sofrer mais, pois seus clientes são justamente os consumidores de tablets e de e-readers, e já estão comprando obras digitais. Porém, assim como eles forçaram as pequenas livrarias a se posicionar para sobreviver, devem agora transformar seu negócio para que ele não pereça. Fica o exemplo da Cultura, que já é a representante nacional do Kobo e transformou suas lojas em espaços de convivência cultural.

A única coisa que não se pode admitir ou tolerar são controles contra a liberdade, que impeçam a queda no preço das obras e o surgimento de novas E. L. James. Eles atrapalham que a sociedade evolua e progrida.

Empresas estão em crise; o jornalismo, não

By | Jornalismo, Tecnologia | No Comments
Foto: Notsureifsrs - Creative Commons

Manifestante do Movimento #15M, que rendeu o prêmio Ortega Y Gasset a Carmela Ríos pela sua cobertura pelo Twitter

Nesta quarta, o Grupo Estado anunciou a demissão de 20 pessoas do Estadão.com (uma semana depois de dispensar cerca de 100 profissionais da área administrativa) e a Ejesa fez o mesmo com número semelhante de jornalistas de O Dia e do Meia Hora. No mesmo dia, eu participava do MediaOn, seminário internacional que discute muito bem o futuro da profissão, focando no jornalismo online. E alguns colegas no evento me abordaram com a mesma pergunta: “o jornalismo está em crise?”

Para mim, está muito claro que o jornalismo NÃO está em crise. Na verdade, eu acredito que ele vive um momento notável, com um crescimento incrível no número de publicações e profissionais desafiando com sucesso modelos há muito consolidados. Além disso, nunca se consumiu tanta notícia, de diferentes assuntos e formas (algumas inexistentes há bem poucos anos).

Quem está em crise –e brava– são as empresas de comunicação tradicionais. São elas que vêm promovendo demissões em massa, como as citadas acima, e fechando títulos. E essa crise não está mais restrita ao hemisfério norte (no dia 31 de outubro, perdemos o outrora glorioso Jornal da Tarde) ou a veículos impressos (The Daily deixará de circular no dia 15 de dezembro).

Coincidentemente, o MediaOn deste ano contou com a participação da espanhola Carmela Ríos (@CarmelaRios), editora-geral do Terra Espanha. Durante sua participação, ela contou como passou do jornalismo televisivo para o digital quase que por acaso, quando, do meio de uma reportagem, tuitou de seu Blackberry que a CNN+, canal para o qual trabalhava, havia acabado de encerrar suas operações.

Mal sabia ela que, naquele momento, estava divulgando a notícia em primeiríssima mão, imediatamente após ela ser avisada do fato por seus colegas que estavam na Redação. Experimentou então um resultado imediato e explosivo vindo de seu tuíte, o que a fez encarar o jornalismo digital com outros olhos. Tanto que, alguns meses depois, fez toda a cobertura do Movimento #15M (foto acima) pelo Twitter, o que lhe conferiu o prêmio Ortega Y Gasset de jornalismo. Hoje faz jornalismo digital no Terra, onde diz ter se encontrado.

Esse debate foi um dos maiores ganhos desse MediaOn. De um lado, representantes de empresas de mídia tradicionais tentando sustentar, talvez inconscientemente, talvez vestindo um discurso institucional de seus empregadores, modelos anacrônicos que insistem em transpor para uma nova plataforma. De outro, jornalistas com experiências arrebatadoras, resultado de insights ou simplesmente de não conformismo com o que viviam antes.

Por isso, estou muito confiante com o futuro do jornalismo, por mais que esteja, por outro lado, bastante preocupado com o das empresas de comunicação tradicionais. Mas elas estão no lugar que elas –e apenas elas– se colocaram e de onde aparentemente não querem sair. Quanto aos colegas, o futuro também pode ser brilhante a eles: basta fazer jornalismo de uma maneira que não seja a das velhas empresas.

Por que The Daily não deu certo

By | Jornalismo, Tecnologia | 5 Comments

Já não espanta mais ninguém o anúncio de um jornal centenário deixar de circular: a crise da mídia impressa se arrasta há anos (ontem The New York Times confirmou que iniciará um pacote de demissão voluntária). Mas hoje foi noticiado o encerramento de um jornal totalmente digital, isso sim algo menos comum. E não é um veículo qualquer: trata-se do The Daily, a tentativa de Rupert Murdoch transpor o seu modelo de jornalismo para o mundo digital, cuja última edição circulará no dia 15 de dezembro.

O produto foi lançado com grande exposição em fevereiro de 2011, alardeado como “o primeiro jornal apenas para iPad”. A promessa era interessante: criar um jornal diário de cobertura nacional, leitura fácil, com bons recursos multimídia e conduzido por uma Redação de primeira linha, com mais de cem pessoas. Tudo por uma assinatura de US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por ano. A parte técnica teve apoio da própria Apple e o investimento inicial foi de US$ 30 milhões. A expectativa era chegar a 500 mil assinantes em cinco anos.

Então por que o The Daily fechará suas portas antes de seu segundo aniversário?

A resposta é muito simples, e antecipei o motivo dois meses antes do lançamento do produto.

O problema é que The Daily tentou recriar, em uma plataforma extremamente inovadora, um produto e um modelo de negócios do século 19. Murdoch nunca escondeu sua aversão a produtos digitais moderninhos, que corroíam as margens de lucro dois jornais da sua News Corp. The Daily era sua aposta para demonstrar que podia perpetuar a fórmula nos tablets, que pareciam cair muito bem ao seu propósito.

Muita gente ficou de olho no experimento e até investiu nele. Afinal, se The Daily desse certo, ele poderia indicar um caminho de sobrevivência para uma combalida mídia impressa.

Mas não é isso que os usuários de tablets querem. The Daily poderia ser descrito como um jornal para quem não gostava de jornal em papel. Mas o que essas pessoas rejeitam não é o papel, e sim um produto que se atualiza apenas uma vez por dia, que exige assinatura de todo o seu conteúdo mesmo para quem quer consumir apenas algumas matérias, que não tira proveito das redes sociais, que sequer pode ser indexado pelo Google.

Ou seja, The Daily deu errado porque as pessoas rejeitam sua proposta, a de um jornal tradicional. Nesse caso, o tablet é apenas a mídia, assim como o papel. Portanto, podemos ironicamente explicar a crise dos jornais impressos com a derrocada do The Daily.

Some a isso a ascensão de produtos como agregadores, que são praticamente a negativa do modelo acima: um “veículo” continuamente atualizado, construído com conteúdos de diferentes fontes, organizado por assunto e pelas preferências do próprio usuário e de seus amigos, totalmente integrado a mídias sociais.

Curiosamente, os jornais combatem os agregadores, o Google Notícias, a blogosfera. Tudo em nome de perpetuar seu passado glorioso, rejeitado pelos novos públicos. Os jornais estão morrendo com seus velhos assinantes, literalmente. Não será transpor o passado para um tablet que mudará isso. Já que estavam prestando tanta atenção ao The Daily, deveriam aprender algo com ele afinal, ainda que na hora da morte.

Quando um jornal morre

By | Jornalismo | 4 Comments

Poucas horas depois de meu post anterior, em que mencionei que o JT estava com dias contados, o Grupo Estado confirmou a história. Quase praguejei o que tinha escrito, como se isso tivesse algum efeito sobre o desfecho do Jornal da Tarde.

Hoje fui até a banca em comprei um exemplar da última edição do JT, a de número 15.409. Esperava encontrar algum especial sobre a história do jornal e sobre tudo o que ele já representou. Na verdade, se eu pudesse, eu teria feito a edição interia sobre o próprio JT. Uma maneira digna de encerrar uma trajetória de 46 anos, que marcou o jornalismo brasileiro com tiradas arrojadas e muita inovação, protagonizadas por um veículo que incentivou muita gente boa a abraçar essa profissão apaixonante e incompreensível para quem não faz parte dela.

Mas não encontrei muita coisa nessa linha: apenas uma bonita capa, acima reproduzida, à esquerda (exatamente com a manchete que eu tinha “chutado” que seria), um editorial hermético, que não explicou nada sobre os reais motivos que levaram o JT a seu fim, e quatro páginas de história.

Então eu percebi que o JT tinha mesmo morrido, depois de uma longa agonia. Morreu de cegueira, resultante da “catarata” que acomete as empresas de comunicação, mencionada por Caio Túlio Costa durante o seminário “Os desafios éticos e legais nas empresas jornalísticas”, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), no dia 26 de novembro passado. E foi cego até o fim, até referido o editorial, que resistiu e não contou ao leitor o que realmente aconteceu com o JT (e continua acontecendo com os jornais). Pelo menos não disseram que foi “essa Internet” que acabou com ele. O que realmente encerrou essa história foi a incapacidade empresarial de aceitar as mudanças que a tecnologia e principalmente o público estão impondo aos produtos jornalísticos e seu modelo de negócio.

Negócios mal geridos fecham. Mas jornais não são apenas negócios, não são apenas tinta no papel: eles carregam valores que muitas vezes se misturam com os de sua cidade. Por isso, eles morrem.

Por isso, agora estou de luto. Triste não apenas pelo fim do JT, mas também porque não foram capazes de salvá-lo. Triste porque ainda não entenderam que a única maneira de impedir que outros veículos tenham o mesmo fim em breve é desconstruir esse negócio e esse produto e refazê-los de outra forma.

O jornalismo não vai acabar. Pelo contrário: ele está pujante e hoje há espaço e mecanismos para que ele floresça como nunca! Mas bom jornalismo não é só dinheiro e tecnologia. Antes de tudo, ele é feito por bons jornalistas, tanto na Redação quanto na área de negócios. Sim, os homens de negócios também devem ser “jornalistas”, com ou sem aspas, pois colocar “executivos tradicionais” da indústria de alimentos (ou de qualquer outra) nessas cadeiras talvez não funcione, pois eles podem não entender essa loucura que é fazer notícia.

Lamento a morte do JT. E lamento que, daqui a bem pouco tempo, ninguém mais se lembrará dele. Mas não poderia ser diferente: jornalismo é a arte de sintetizar o mundo em um momento. No momento seguinte, tudo é desfeito e refeito do zero novamente, e novamente.

Nós, jornalistas, costumamos dizer que a nossa obra-prima de hoje amanhã embrulhará peixe. Isso é uma verdade literal, pelo menos para a imensa maioria das páginas. Mas algumas do JT nunca terão esse destino, como suas capas inesquecíveis.

Uma delas, a de 6 de julho de 1982 (no alto, à direita), sobre a desclassificação do Brasil na Copa da Espanha, é a melhor de todas para mim. A foto de Reginaldo Manente, que captou um misto de choro contido e orgulho do pequeno torcedor, representou com maestria o sentimento de toda a nação pela derrota da seleção.

Hoje essa capa representa o que eu sinto pela morte do JT. Que ela não tenha sido em vão!

A eleição que os jornais quase não cobriram

By | Jornalismo | 4 Comments

A home page do Estadão anunciando a vitória de Haddad e a página de resposta do Google sem link para qualquer jornal

Com 100% das urnas apuradas no segundo turno, o Estadão não cobriu a eleição para a prefeitura de São Paulo. Calma, não se trata de uma reação maluca diante da vitória de Fernando Haddad. É apenas a impressão que o internauta teve se procurou pelo assunto no Google, que responde por mais de 90% das buscas no Brasil. Sua resposta a “resultado eleição são paulo” traz um link para o Estadão apenas em sua segunda página, na 17ª posição, atrás de links para o UOL, a Agência Notícias, o R7, o Terra, o Globo.com, o G1, o Yahoo!, a Veja, e até um site oportunista totalmente baseado em SEO, chamado eleicoes2012.info. A primeira menção à Folha surge só na terceira página de respostas. Se o usuário então clicar na seção “notícias” do Google, os jornais desaparecem por completo.

Isso é um resultado péssimo, já que a maioria dos internautas se satisfaz com os resultados da primeira página de respostas do buscador. Graças a esse mau posicionamento, os sites dos jornais perdem milhões de page views ao final do mês, podendo chegar a 10% de sua audiência global, o que certamente tem um impacto muito considerável em sua receita publicitária online.

Esse posicionamento só não foi pior porque as eleições representam o assunto mais importante do ano para os jornais, superando até mesmo as Olimpíadas de Londres. E, ao contrário da provocação do primeiro parágrafo, eles, sim, cobriram  –e muito bem– o pleito municipal. Com isso, subiram na classificação do Google. Mas se o mesmo internauta procurasse por “último capítulo de avenida brasil”, outro tema que causou comoção nacional recentemente, o único grande jornal a aparecer nas cinco primeiras páginas de resposta é a Folha, e timidamente com um link na quarta delas, na 48ª posição, atrás de sites absolutamente inexpressivos.

Em um primeiro momento, pode parecer que o Google está falhando ao trazer as páginas mais relevantes para seus usuários. Mas os resultados são igualmente ruins no Bing e na busca do Yahoo!. E não se trata de uma falha nos algoritmos dos buscadores. Na verdade, os jornais foram praticamente banidos porque explicitamente pediram isso.

A discussão já dura uns oito anos, e começou com os jornais internacionais acusando o Google de estar roubando as reportagens desses veículos para construir seus serviços, especialmente o Google News (ou Notícias). Desde então, muita discussão vem acontecendo. No Brasil, desde o ano passado, a ANJ (Associação Nacional de Jornais) recomenda a seus 154 associados que deixem o serviço, o que vem sendo seguido por todos.

Para isso, basta incluir um simples comando em todas as páginas de seu site, para que o Google deixe de exibi-las no Google Notícias e na seção “notícias” do buscador. O problema é que essa ação também derruba a relevância dessas mesmas páginas na busca orgânica, o que é a causa da situação descrita nos primeiros parágrafos deste post.

Os jornais são os detentores legítimos de seu conteúdo, ninguém questiona isso, nem mesmo os buscadores. Dessa forma, eles têm o direito legítimo de “proteger” seus produtos de quem estiver fazendo uso indevido deles.

Já os buscadores sempre argumentaram que os seus serviços são construídos com base no “uso justo”, ou seja, usariam pequenos trechos do conteúdo dos veículos, retribuindo-lhes com links diretos e crédito. Dessa forma, ninguém deveria nada a ninguém.

Os dois lados têm, portanto, argumentos defensáveis. Mas façamos uma análise meramente monetária. Por ter seguido recomendação da ANJ, é razoável supor que um grande jornal brasileiro tenha “perdido” 10 milhões de page views em um mês, que não vêm mais do Google. Sendo muito conservador, podemos supor que as receitas médias com publicidade, somando todas as inserções, cheguem a R$ 0,05 por página, depois de todos os descontos. Ou seja, esse veículo vem deixando de faturar R$ 500 mil por mês.

Não me parece pouco. Ainda mais porque os jornais estão passando por tempos bicudos, demitindo e até encerrando títulos (o “Jornal da Tarde” parece ser o próximo da lista de defuntos, possivelmente deixando de circular em novembro, segundo o burburinho do mercado).

Mas o mais grave não é a perda financeira: é a incapacidade (ou seria teimosia?) de os jornais aceitarem que seu modelo de negócios, forjado no século 19 e sustentado pela publicidade e pela assinatura de um produto “consolidado” (onde o cliente paga por tudo, mesmo que consuma apenas uma parte), não encontra mais lugar no mundo.

Além de perderem a dinheirama acima, assistem praticamente imobilizados às mudanças da mídia, que os condena cada vez mais ao ostracismo. Sim, porque o Google Notícias é mídia, assim como o Flipboard e os outros agregadores, os blogs e tantas outros. Players que, se não “roubam” seus conteúdos, certamente levam embora seu público (que procura alternativas mais modernas e adequadas), e para os quais as empresas de comunicação tradicionais torcem o nariz e batem o pé, ao invés de aprender algo com eles.

Isso me lembra a fábula “A Raposa e as Uvas”, de La Fontaine. Mas me dá muita pena que, neste caso, as empresas de comunicação tradicionais são raposas que poderiam perfeitamente usar escadas para alcançar suas uvas. Mas se recusam a isso.

Em terra de cego, quem é tolo é rei

By | Jornalismo | No Comments

Precisamos de mais tolos. De idealistas. De jornalistas. Arrisco a dizer que uma pessoa desprovida de idealismo jamais será um jornalista. E a sociedade depende dessas pessoas.

Nesta semana, a série da HBO The Newsroom (sem título em português) chegou ao final de sua primeira temporada com o episódio “The Greater Fool”. Não pretendendo fazer uma sinopse do capítulo, o tolo em questão seria o protagonista Will McAvoy, âncora do telejornal News Night, que, na ficção, foi capa da New York Magazine com essa alcunha.

“Greater fool” é o nome de uma teoria econômica que diz que alguém pode lucrar com algo por que pagou caro, desde que ache um tolo maior (daí o nome) para vender por ainda mais dinheiro. Ou seja, não haveria problema em pagar mais que o devido por algo, desde que se lucrasse em cima de um otário depois. Por conta disso, McAvoy, que lutou uma guerra pessoal ao longo da temporada para fazer jornalismo de qualidade, fica deprimido com a reportagem, pois entende que sua cruzada não foi convincente.

Mas há outra interpretação dessa teoria: o maior tolo seria alguém que equilibre idealismo e confiança para ter sucesso onde outros falharam. Ele percebe então que, de fato é o “greater fool”, mas não como pensava.

Felizmente. Em sua quixotesca jornada, ele não foi perfeito. Mas persistiu com o que acreditava, por mais que aparecessem obstáculos, muitos deles plantados pela própria empresa para a qual trabalha. Ganhou o jornalismo, seu público e seu país. Afinal, como lhe diz sua repórter de economia, “esse país foi criado por ‘maiores tolos’.”

É para se pensar. Há exatos dois meses, também falei da série, na sua estreia, propondo um debate sobre como se pode fazer jornalismo sério e de qualidade mesmo em um momento em que tudo parece jogar contra. Mas não dá para fazer isso ser sem idealista, sem ser tolo, sem insistir em algo em que ninguém mais aposta.

Imagino que esse sentimento impulsione pelo menos parte dos jovens que ainda buscam a faculdade de Jornalismo, mesmo com a queda da exigência do diploma para exercer a profissão. É a tal “síndrome de Clark Kent”. Pena que boa parte deles perde essa chama primordial ainda antes de se formar. Deveriam fazer um favor a si mesmos e à sociedade e procurar outra carreira.

Não quero menos jornalistas: quero mais! Essa é uma profissão apaixonante e que nos consome com nosso consentimento.

Não sou o único a pensar assim: Gabriel García Márquez fez um famoso discurso na 52ª assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa, em 1996, onde descreve aquele que chama de “melhor ofício do mundo” com sua maestria peculiar. Assim conclui:

“O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode se digerir e se humanizar pelo seu confronto gritante com a realidade. Ninguém que não o tenha experimentado pode imaginar essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida. Ninguém que o não tenha vivido pode sequer conceber o que é a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo da primeira página, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir em um ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não dá um momento de paz até que comece novamente com mais ardor que nunca no minuto seguinte”.

García Márquez estava certo. E McAvoy também.

Ainda sobre a cobrança pelo conteúdo

By | Jornalismo, Tecnologia | 4 Comments

Depois de meu post anterior, alguns colegas argumentaram comigo sobre a importância de se cobrar pelo conteúdo jornalístico. Concordo, mas não vejo com bons olhos a maneira como esse debate vem acontecendo. Essa campanha , patrocinada principalmente pelos jornais, é vazia, pois se apoia em uma premissa falsa. Portanto vale a pena retomar o assunto na tentativa de jogar um pouco de luz sobre ele.

A tal premissa é a de que as pessoas não querem mais pagar pelo conteúdo, querem consumir tudo de graça. Desculpem, isso não é verdade. As pessoas consomem hoje conteúdo em volume e em diversidade jamais vistos. E –pasmem!- elas pagam por muitos deles. Um bom exemplo é o cinema, que se recuperou de uma fase ruim, iniciada com a popularização do VHS. Hoje as salas estão cheias, e as pessoas pagam mais caro pelo ingresso para ver as sessões em 3D.

Outro bom exemplo é a Apple. Ela está (também) dominando o mundo sobre os cadáveres de outra indústria que cometeu suicídio por se recusar a aceitar as mudanças no comportamento dos usuários: a fonográfica. Enquanto as vendas de CDs batem no chão e as lojas praticamente os retiraram das prateleiras, o iTunes ultrapassou, em fevereiro de 2010, a incrível marca de 10 bilhões de faixas vendidas, com um modelo que combina qualidade (as músicas tem qualidade superiores às de CD), comodidade (você compra só a faixa que quiser, quando e onde estiver, com um clique) e preço baixo (ninguém pensa muito antes de gastar um único dólar).

Podemos tirar algumas lições desses dois exemplos. A primeira é que a Apple não acabou com a pirataria de músicas: estima-se que cada iPod e similares dos adolescentes americanos tenham cerca de 800 músicas baixadas ilegalmente, em média. Mas a função da Apple não é acabar com a pirataria: é vender. E ela faz isso para uma em cada quatro músicas vendidas nos EUA.

Quanto aos cinemas, ao invés de ficarem chorando sobre o videocassete, investiram na experiência que ofereciam. Quem vai ao cinema hoje, não faz isso apenas para assistir a um filme. Paga para ter isso em uma tela enorme, muitas vezes em 3D, com um som incrível, em salas confortáveis e comendo alegremente uma pipoca que custa quase tanto quanto o ingresso. Trata-se de uma experiência envolvente e positiva, que não existe em outro lugar.

Portanto, caros colegas, as pessoas querem –sim– pagar pelo conteúdo que consomem. Apenas não querem pagar por aquilo que lhes é oferecido pelos jornais, pois sua percepção indica que esse produto não merece ser pago.

Mesmo com a popularização dos tablets, os jornais ainda não perceberam que o problema reside no seu modelo de produto e de negócios, ultrapassados. Querem embarcar nesta plataforma popularizada pela Apple, sem entender o que fez da empresa o sucesso nos negócios, empurrando aos consumidores a mesma coisa que já ofereciam no papel.

E aí ficam se debatendo diante da recusa das pessoas em pagar, e combatendo quem realmente entendeu o novo momento da mídia, como o Google Notícias ou o Flipboard, só para ficar em dois exemplos básicos. Resistem bravamente ao futuro do seu negócio, que passa por “destruir” o seu produto, para recriá-lo com seu elemento primordial: jornalismo de qualidade.

Isso nos leva de volta ao post anterior. The New York Times e The Wall Street Journal vêm colhendo bons frutos com seus paywalls. Mas conseguem isso com um conteúdo que é realmente um diferencial. Além disso, o primeiro, desde que o jornalismo começou a flertar com a Internet, sempre se destacou por iniciativas criativas do uso da tecnologia, nem sempre bem-sucedidas.

O usuário paga pelo conteúdo. É só lhe oferecer algo que valha a pena.

Depois do “paywall”, o “freewall”

By | Jornalismo, Tecnologia | One Comment

Desde que o The New York Times lançou, em março do ano passado, o seu “paywall”, os jornais elegeram esses sistemas de controle de cobrança pelo seu conteúdo digital como a tábua de salvação de sua indústria em forte declínio. Não falam de outra coisa, como uma criança que encontrou antes da hora um presente escondido. Mas Raju Narisetti, vice-editor executivo do The Wall Street Journal, classifica os paywalls como “negativos”.

A declaração foi feita no 9º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) nos dias 20 e 21 de agosto. Ironicamente o WSJ de Narisetti é o melhor exemplo de sucesso conteúdo digital fechado. Se quiser ler, tem que assinar. Muito mais “duro” que o modelo do NYT, que vem habitando os sonhos dos publishers, em que o leitor pode acessar páginas livremente até determinada quantidade, antes de ser convidado a pagar.

Como entender essa aparente contradição do executivo? O próprio Narisetti explica: o WSJ sempre cobrou pelo seu conteúdo, ao contrário de praticamente todos os demais jornais, que acostumaram seus usuários a consumir o conteúdo de graça. Agora precisam convencer seu público a pagar pelo que sempre foi grátis. Além disso, o conteúdo do WSJ é um verdadeiro diferencial, raramente equiparado por outros veículos, o que cria uma justificativa pela cobrança.

“Vocês devem descobrir o que funciona para o seu negócio e encontrar formas de beneficiar seus sites e seu jornalismo”, disse no evento. Traduzindo: não há nenhuma garantia de que os sucessos dos modelos de paywall do NYT e do WSJ possam ser reproduzidos em outros veículos. Mais: para que isso tenha a mínima chance de acontecer, os veículos têm que oferecer um produto que mereça ser pago.

Problema: diferencial é algo que os jornais, os brasileiros com destaque, têm cada vez mais dificuldade de oferecer. Em época de cortes dramáticos de custos, as redações ficam povoadas de “focas”, imaturos e com formação deficiente. E um bom jornalista só aparece ao longo dos anos, forjado na reportagem e na edição. Nossos veículos se tornaram reféns de sua falta de criatividade da inexperiência dos novos colegas, dependendo do denuncismo e do jornalismo palaciano, duas pragas que tentam mascarar essa triste realidade.

Apenas para exemplificar, vejam as primeiras páginas de hoje do Estadão e da Folha:

 

 

Os dois jornais têm a mesma manchete, com o mesmo sujeito, mesmo verbo e mesmo objeto; a foto principal também retrata o mesmo personagem; três das outras principais chamadas também tratam do mesmo assunto.

Caramba: até o anúncio é o mesmo!

Mais dramático ainda: nada, absolutamente nada do material chamado nas duas páginas exigiu grande esforço. É material de assessorias, de agências, de pesquisas. E tudo isso também está disponível igualmente (e muito mais rápido) em portais como Terra, MSN e outros, que não dão a menor pinta de que passarão a cobrar pelo seu conteúdo. Sem falar na televisão aberta.

Fica a pergunta: quem vai pagar por isso? Ou ainda: quanto vale isso? Disse Suzana Singer, ombudsman da Folha, na sua coluna do dia 24 de junho : “para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede.”

Os paywalls mudarão magicamente isso? O próprio Narisetti responde: “paywalls são inerentemente negativos. Estamos dizendo ao leitor que ele tem, por exemplo, 20 matérias grátis e que, quanto mais ele lê, mais perto fica de ter que pagar para nós.”

“Freewall”?

O executivo do WSJ propôs então uma ideia no mínimo curiosa: talvez os jornais devessem considerar a alternativa de um “freewall”, como ele mesmo chamou.

É como um programa de milhagem. Para ver o conteúdo, o usuário precisa pagar. Mas, quanto mais “engajado” esse usuário for com o veículo, menos pagaria, até chegar a uma eventual gratuidade.

A proposta tem seus méritos. Um usuário que participa ativamente do jornal –comentando, compartilhando, sugerindo– traz vários benefícios ao veículo, inclusive novos usuários. Compartilhamentos comentados aos amigos de redes sociais são uma forma complexa e eficiente de marketing, de uma maneira que o próprio veículo não consegue fazer por si só.

Claro, é apenas uma ideia: ninguém falou ainda em como implantar tal coisa, ou quais seriam as regras de descontos, por exemplo. Mas o embrião do paywall poroso também era só uma ideia no NYT há três anos, quando começou a ser discutido internamente. Pode se tornar uma alternativa interessante a jornais que não sejam competentes o suficiente para ter sucesso com o paywall.

E por que então o WSJ não adota o freewall então? Bom, porque seu conteúdo é um diferencial e eles nunca deram isso de graça. Fecha-se o círculo.

O que os números do Ideb realmente revelam

By | Educação | No Comments

No dia 14 de agosto, o MEC (Ministério da Educação) divulgou os resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2011. Apesar de os índices terem apresentado uma ligeira melhora global desde 2009, especialmente nos primeiros anos –no Ensino Fundamental I, passou de 4,6 para 5,0; no Fundamental II, de 4,0 para 4,1; no Ensino Médio, 3,6 para 3,7– não é momento de comemorar, como está fazendo o governo.

É verdade que as metas foram atingidas e até superadas: no EF I, a meta era 4.6; no EF II, 3,9; no EM, os mesmos 3,7 atingidos. As notas do Ideb, criado em 2005 para medir a qualidade do sistema educacional brasileiro, variam de 1 a 10.

Apesar da evolução, precisamos atentar a alguns pontos. Primeiramente, é mais fácil melhorar o desempenho quando se parte de um valor mais baixo. Em segundo lugar, as notas ainda são medíocres. Elas mascaram grandes desigualdades no ensino, seja entre escolas públicas e privadas, seja entre os Estados. Por fim, vão caindo à medida que o aluno progride.

Isso deixa patente como municípios e Estados, responsáveis justamente pelos Ensinos Fundamental e Médio, tratam da educação de maneira desequilibrada. Considerando que os parâmetros curriculares são nacionais, poderíamos ingenuamente esperar que alunos de todo o país tivessem um desempenho pelo menos homogêneo, dentro de uma margem de erro.

Claro que não funciona assim. A educação de qualidade depende de inúmeros fatores, começando pelo professor. Ele precisa ter uma boa formação e trabalhar estimulado e com condições adequadas. Desnecessário “chover no molhado” sobre as deficiências na nossa formação, que começam justamente no Ensino Fundamental e perduram até as universidades. Além disso, cada vez menos os professores optam pela carreira por vocação: muitos ingressam no magistério como um “bico fácil” e acabam se perpetuando na carreira, sem o preparo necessário, inclusive para disciplinas específicas que ministram.

Não é de espantar, já que a sociedade desvaloriza o nobre trabalho desses profissionais. Isso começa pelos baixos salários –que os obrigam a ter jornadas acumuladas em várias escolas– e termina com condições de trabalho muitas vezes péssimas, com flagrantes desrespeitos ao profissional e à pessoa. E, por desrespeitos, me refiro à completa perda de autoridade na sala de aula diante de alunos e de pais, e até mesmo violentas agressões físicas sofridas pelos educadores.

Como resultado, as mentes mais brilhantes de nossa sociedade passam longe do magistério. Situação completamente diferente de países como a Coreia do Sul, onde apenas os melhores podem se candidatar à função de professor, cultuada naquela sociedade. Vale lembrar que a Coreia do Sul, há 50 anos, era um país pobre e eminentemente agrário. Sua transformação em uma das economias mais pujantes do mundo se deve basicamente à valorização do magistério e de todo o sistema educacional do país.

O que as notas do Ideb realmente mostram, apesar de o Governo Federal não querer ver, é o resultado desse caldo de descaso, despreparo e desmotivação: alunos que sabem muito pouco e vão sabendo cada vez menos à medida que crescem. Justamente quando o jovem se prepara para ingressar no mercado de trabalho, ele atinge o auge da sua defasagem. Avaliações internacionais, como o Pisa, colocam nossa Educação atrás da de nossos vizinhos mais pobres, países com condições sociais muito mais graves que as nossas. E isso também aparece em indicadores econômicos, com um Brasil que perde competitividade internacional devido a mão de obra ruim ou simplesmente insuficiente.

Sempre abordo neste blog o uso da tecnologia como um poderoso instrumento para melhorar a educação. E ela vem produzindo frutos bastante interessantes em algumas escolas do nosso país. Mas esses estabelecimentos, antes de ter tecnologia, têm professores que fogem do descrito acima: preparados, motivados e que realmente gostam do que fazem.

Não adianta dar um Ferrari a quem dirige mal: essa pessoa continuará sendo um mau motorista, e ainda corre o risco de provocar acidentes mais graves. Precisamos do óbvio ululante: promover reformas dramáticas em nossa educação, e não as perfumarias que se tem visto.

Jornalismo de verdade na ficção

By | Jornalismo | One Comment
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=9gwSjAWhwqc]

Nesta semana, a série The Newsroom (sem título em português) estreou na HBO. Fiquei bem impressionado com o que vi: uma pequena aula de jornalismo sério em meio à dramaturgia de um seriado que pretende mostrar as histórias e as pessoas por trás de um telejornal. Se você perdeu o primeiro episódio, pode assisti-lo na íntegra online.

Não pretendo fazer aqui uma sinopse, mas devo dizer que, assim como a série In Treatment tinha um óbvio apelo a um público formado por psicólogos, The Newsroom deve agradar em cheio a jornalistas e a qualquer pessoa que se interesse pela indústria da notícia. E isso porque ela desmitifica a imagem criada em torno dos jornais e das pessoas. Mostra que a coisa vai muito além daquela piadinha dos coleguinhas que sugere que o William Bonner fica de cueca por trás da bancada do Jornal Nacional.

A primeira cena da série, reproduzida acima, já é um tapa na cara dado pelo ranzinza âncora Will McAvoy, protagonista da série. Mas o episódio fica bom mesmo a partir do meio, quando Jim, um produtor recém-chegado, recebe uma notícia bombástica de duas fontes. E, apesar da resistência explícita de Don, o produtor executivo que estava deixando o programa, ele vende a pauta para McAvoy, totalmente calcado em fatos. E o âncora compra a ideia e a matéria vai ao ar.

Don representa o que se vê por aí nas redações –de todas as mídias– ultimamente: um profissional acomodado em realizar o seu trabalho com o uso da tecnologia e outros facilitadores, e acovardado de apostar em uma pauta grandiosa. Seu faro jornalístico é limitado por uma forma de atuação aplaudida pelas empresas de mídia preocupadas em cortar custos, em que repórteres ficam presos nas redações, fazendo entrevistas por telefone ou –pior ainda– por e-mail. Mais que isso: amedrontados que um eventual erro lhes custe o pescoço e, dessa forma, preferem a segurança da mesmice e do óbvio. Não é de se admirar que os furos jornalísticos estejam cada vez mais raros e sem graça.

Jornalismo não é isso! Jornalismo é a combinação de inteligência, perspicácia, trabalho duro, relacionamento e –sempre– coragem. Jim Harper e Will McAvoy demonstraram isso no episódio. Isso deveria ser ensinado nas faculdades de jornalismo.

Na verdade, o episódio me lembrou uma aula específica de Ética há uns dez anos, ministrada por Jorge Tarquini (@JorgeTarquini), um dos melhores professores que eu tive (considerando as faculdades de Engenharia e de Jornalismo). Em determinado momento da aula, um colega se posicionou dizendo que “jornalista que quer manter o emprego” escreve apenas e sempre e do jeito que a chefia manda, que a liberdade de imprensa só funciona para o dono do jornal. Essa frase, digna de Assis Chateaubriand, não me passou pela garganta. Afinal, eu já estava no mercado há dez anos, e já tinha passado pela Folha, que os colegas adoram criticar por supostamente ter um jornalismo “pasteurizado”. E nunca fiz isso.

Seguiu-se um acalorado debate na aula. Não sei se consegui convencer o colega que o que ele tinha dito era uma tremenda bobagem: essa visão derrotista infelizmente se espalha como um vírus já entre os alunos de jornalismo. Quase sempre, o vírus mata o jornalista que cada um poderia se tornar. Felizmente, a ética, a moral e a coragem de alguns liquidam o vírus.

As faculdades de jornalismo, que sofrem com o fim da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão, deveriam criar cadeiras de “coragem jornalística”. É possível –sim– fazer excelente jornalismo mesmo em ambientes hostis e competitivos. Precisamos de mais Jim Harpers.

O fim dos jornais

By | Jornalismo, Tecnologia | 4 Comments
Homem olha jornais expostos em uma banca argentina

Os jornais precisam olhar para mundo e encontrar maneiras criativas de cobrar pelo seu conteúdo, ou acabarão sumindo

Há alguns dias, enquanto almoçava com colegas, a decisão da Folha de S.Paulo de restringir, desde o dia 21 de junho, o conteúdo de seu site a assinantes virou assunto. As opiniões eram praticamente unânimes: a novidade representaria um enorme erro, fruto de falta de visão e desespero pela incapacidade de se adaptar às mudanças do mercado, e os resultados seriam negativos. Na verdade, o tom dos comentários chegava a ser jocoso: “quanto vão ganhar com isso, mil reais?”

Argumentei que os colegas da Barão de Limeira estava seguindo uma tendência internacional chamada “paywall poroso”, popularizada pelo The New York Times –que, aliás, vem colhendo frutos interessantes, aumentando consideravelmente a sua base de assinantes digitais e até mesmo do impresso. Mas isso só serviu para aumentar ainda mais a chacota: “é muita pretensão querer se comparar ao The New York Times, que diferenciais eles têm para querer cobrar algo?”

Essa conversa agregou vários pontos que há muito discuto aqui. É um fato que as pessoas só pagam por aquilo em que veem valor. “Para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do ‘mundo B’, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede”, afirmou a própria ombudsman da Folha, Suzana Singer, na sua coluna do dia 24 de junho.

Os jornais estão em posição cada vez mais desfavorável nesse cenário: as tiragens e as receitas dos grandes títulos minguam, sendo substituídas por jornais gratuitos e por outras fontes de informação, mais notadamente a digital. E os colegas acima trabalham justamente em portais. Ironicamente, muita da informação oferecida por esses sites –assim como em redes sociais– vêm desses mesmos jornais. E produzir conteúdo custa e, dessa forma, precisa ser remunerado.

Cobrar de quem vê valor

A Folha reproduziu aqui um dos maiores acertos do NYT: a grande maioria dos usuários do site nem perceberá a existência do paywall, pois eles supostamente consomem menos notícias por mês que o necessário para disparar o mecanismo de cobrança (40, no caso da Folha). Dessa forma, a novidade não afugentaria usuários, mantendo os ganhos com publicidade. Paga apenas quem ultrapassam esse limite, o que, em tese, indica que a pessoa vê valor no produto, justificando assim a cobrança.

Mas as pessoas não querem mais pagar. Não vem de hoje e os culpados por esse conceito são os próprios jornais, que fomentaram isso em nome de construir uma presença online desde meados da década de 1990. Como também escreveu Suzana, “acostumados a se informar de graça na rede e incomodados com um monte de anúncios que saltitam sobre a tela, (as pessoas) não entendem por que devem colocar a mão no bolso.”

Nessa insustentável e aparentemente insolúvel contradição pode residir a saída para essa indústria, crítica para uma sociedade livre. Em setembro de 2010, conduzi um estudo e concluí que, de todos os custos de um grande jornal, apenas 20% se refere, de uma forma ou de outra, ao jornalismo em si, entrando, nessa contabilidade, os salários, equipamentos, suporte a reportagem e o que mais fosse necessário à produção de conteúdo. Os outros 80% vão para comprar papel, manter a gráfica, distribuir os impressos e manter a enorme infraestrutura dessas empresas.

Oras, o que as pessoas efetivamente consomem está nesses 20%. Colocando de outra maneira, é possível continuar fazendo jornalismo com a mesma qualidade gastando apenas vinte de cada cem reais investidos hoje. Claro que essa é uma visão propositalmente simplista, pois as agências publicitárias não querem depositar nas operações digitais dos jornais o que (ainda) colocam em seus impressos. Mas, se a fatia do impresso está diminuindo no bolo publicitário, então esse dinheiro está indo para outro lugar.

“Perderam o barco”

Está indo para jornais gratuitos e mídia digital. A televisão continua nadando de braçada com uma folgada liderança, mas sem mudanças significativas para mais ou para menos em seu share. Rádio e mídia externa consolidaram-se na rabeira. A briga séria está no “pelotão intermediário”, justamente onde está o impresso –jornais e revistas– e o digital.

O impresso vem se sustentando com a ajuda dos jornais gratuitos, como o Metro e o Destak, que puxam as métricas –leitores, tiragem e receita publicitária– para cima, mascarando a queda dos grandes títulos. E a mídia digital, no melhor estilo “de grão em grão, a galinha enche o papo”, aumenta continuamente o seu share, com anúncios infinitos a preços irrisórios.

Sobre meu post “O incômodo charme dos agregadores”, Rodrigo Mesquita, responsável pela Agência Estado ser o que é, e membro da família proprietária do Estadão com uma excelente visão do casamento da mídia com as TIC, comentou no Google+: “Não dá mais tempo, meu caro. Os jornais perderam o barco. Vão ficar com um papel residual.”

A possível solução para o dilema da mídia exige, portanto, abandonar o modelo de negócios que conhecem tão bem. A mídia impressa precisa entender que o papel era apenas um veículo para entregar o conteúdo que produzia. Não apenas não é mais necessário, como se tornou obstáculo a sua sobrevivência. E não me refiro apenas aos altos custos associados a ele, mas também porque engessa o produto em um formato autocontido, unificado e finito, que não encontra mais espaço hoje.

Descentralização

“Nada foi feito em direção a nada na grande maioria dos jornais”, afirmou Mesquita, que concluiu: “caminhamos para uma nova sociedade, que terá uma nova forma de interagir e articular seus interesses, de uma forma muito menos centralizada que a do tempo da indústria.”

As casas editoriais aprenderam o discurso de que são produtoras de conteúdo, que deve ser entregue da forma que o usuário quiser. Mas o discurso não combina com seus atos, que buscam resgatar o velho “jornalão”, esse sim entregue em todas as plataformas, em que o usuário assina tudo ou nada. Tem que levar o caderno de cultura e o de esportes, mesmo que queira apenas ler o de economia.

A Folha deu o primeiro passo para romper esse pensamento tacanho e antiquado, imitando o paywall do NYT. Mas isso não liberta ainda o usuário fiel do conceito de assinatura (ele pode ser fiel sem ser assinante). Nisso, os portais, a indústria de games e, mais recentemente, as lojas de aplicativos mobile estão muito à frente, com formatos de distribuição –e remuneração– completamente pulverizados, fragmentados, “indolores” e sob demanda.

Trata-se de um mundo com ganhos mínimos multiplicados em milhões de microtransações, que transformam definitivamente qualquer conteúdo em serviço. Os players acima aprenderam essa lição e, mesmo que muitos deles não tenham as receitas dos grandes jornais, ostentam operações mais saudáveis e até mais lucrativas. Afinal as suas despesas são muito menores e eles possuem muito mais consumidores que os jornais.

Não é de se admirar, portanto, que empresas de tecnologia liderem hoje os ganhos publicitários e já tenham até se tornado gigantescas –e inovadoras– produtoras de conteúdo. Felizmente o eventual fim dos jornais não significará o fim do jornalismo. Apenas de empresas que se recusaram a se adaptar a uma nova ordem econômica e social, mediada pela tecnologia.

O incômodo charme dos agregadores

By | Jornalismo, Tecnologia | One Comment
Conteúdo do Estadão exibido no Flipboard

Conteúdo do Estadão exibido no Flipboard

Quando o Flipboard foi eleito o aplicativo do ano de 2010 pela própria Apple, muita gente torceu o nariz. Não pelo programa em si, que se transformou em um símbolo do iPad, mas porque é apresentado como um “aplicativo de notícias”. A turma da gritaria são as empresas de comunicação, e o motivo é o fato de o Flipboard não produzir nenhum conteúdo.

Oras, como um produto que apenas exibe material noticioso de outras fontes poderia ser classificado como “aplicativo de notícias”? Daí a dizer que o Flipboard “rouba conteúdo” foi um pulo. E a acusação não é nova: o primeiro grande produto a ser chamado de “ladrão de notícias” foi o Google News.

Mas ninguém está roubando nada de ninguém. O Flipboard é o que se convencionou chamar de “agregador”, ou seja, um programa que agrega conteúdos de diferentes fontes escolhidas pelo usuário, exibindo-as de maneira conveniente para ele. O agregador não “invade” sistemas das fontes de conteúdo para obtê-lo: apenas se vale de recursos oferecidos por elas mesmas, como seu Twitter ou RSS.

Enquanto esses programas exibiam tais conteúdos seguindo os critérios definidos pelos seus autores, estava tudo bem. O que a nova geração de agregadores, que tem no Flipboard a sua estrela mais brilhante, faz –e isso incomoda– é reorganizar esse conteúdo seguindo critérios próprios e com um visual refinado, normalmente muito melhor que produtos dos donos dos conteúdos. Dessa forma, cada usuário ganha uma edição só sua, com os conteúdos organizados conforme o seu interesse e popularidade dentro de sua rede de amigos.

Trocando em miúdos, os agregadores distribuem o conteúdo jornalístico de maneira muito mais eficiente que as fontes desse conteúdo. E assim as pessoas passam a ler tais conteúdos nos agregadores, e não nos sites ou aplicativos dos veículos originais. Isso causa um problema editorial e um problema econômico. O primeiro acontece porque o agregador desmantela toda a estrutura noticiosa e hierarquia definida pelos editores e as recria seguindo seus próprios critérios, normalmente baseados em relevância social. O segundo se deve ao fato de muitas vezes o usuário se bastar com o lide da notícia exibida no próprio agregador, não chegando a clicar no link oferecido pelo programa para a notícia no site de origem, que perde em suas métricas (não conta page views, unique visitors e afins) e no dinheiro, pois seus banners não são exibidos.

E então os veículos batem o pé e posam de vítimas, como velhas cujas bolsas são continuamente levadas por trombadinhas, dia após dia. Reclamam do sintoma, mas se recusam a atuar na causa do problema: alguém faz parte do seu trabalho –a distribuição– melhor.

Com o Google, os grandes jornais fizeram um acordo para que o Google News parasse de usar seu conteúdo. Isso de fato aconteceu, mas tais sites também perderam completamente a sua relevância no buscador da empresa, seu carro-chefe. Ao fazer um busca pelos 18 anos da morte de Ayrton Senna, completados ontem, a página de resultados destaca notícias da “Tribuna do Norte”, “Paraíba.com.br”, “Portal AZ”, “Gazeta de Alagoas”, “Região Noroeste”… Nada de “Estadão”, “Folha”, “O Globo”, por exemplo. Perde o usuário, que não recebe um resultado com conteúdo potencialmente melhor, perde o veículo, que não ganha a audiência oferecida pelo navegador.

As empresas de comunicação sofrem, portanto, do que eu chamo de “síndrome de Vera Cruz”, referência ao estúdio de cinema brasileiro, que brilhou nos anos 1950. Apesar da qualidade de suas produções, com filmes premiados internacionalmente, o estúdio durou míseros quatro anos. Entrou em decadência justamente por não ter uma boa distribuição, que acabava ficando nas mãos das empresas norte-americanas. Produzia um ótimo conteúdo, mas ficava apenas com uma parcela menor da receita.

As empresas de comunicação precisam, portanto, reaprender a distribuir o que produzem. E isso significa subverter uma logística cujas origens remontam ao século XIX. Precisam ser mais Flipboard e menos Vera Cruz.

Isso é um livro ou alguma “outra coisa”?

By | Educação, Tecnologia | No Comments
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=nmxuhGF1yj8]

Como um livro deve ser para ser chamado de “digital”? Há alguns dias, investi US$ 4,99 no download do e-book “The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore” (Moonbot Studios LA), na verdade, um aplicativo para iPad, cujo trailer pode ser visto acima. Eu o conheci em uma discussão se aquilo poderia ainda ser considerado um livro ou se já se tratava de alguma “outra coisa”. E minha experiência com ele foi muito interessante.

A despretensiosa historinha despertou enorme interesse em todas as crianças a quem o mostrei, mesmo com seu texto em inglês. O aplicativo é uma evolução do conceito do livro-brinquedo, em que a criança é convidada a explorar, a cada página, recursos que ampliam a experiência da leitura. Nesse caso, isso se dá por uma belíssima mistura de animação digital, multimídia e interatividade, valendo-se da interface tátil do tablet. E o resultado com os pequenos é muito positivo.

Críticos dessa categoria de produto dizem que tanta riqueza sensorial elimina uma das belezas dos livros, que é a necessidade de o leitor imaginar as cenas que está lendo. Concordo com a importância disso, mas Morris Lessmore não “entrega tudo pronto”, como um filme. Em contrapartida, convida o usuário (que não é mais apenas um “leitor”) a interagir com a história, introduzindo novos elementos cognitivos que um livro tradicional não pode oferecer.

Claramente esse tipo de recurso não serve apenas para diversão ou para ser usado em contos infantis. Qualquer obra pode se valer dessa nova modalidade de publicação. Como exemplo, contarei um caso que me ocorreu hoje.

Enquanto ajudava meu filho com seus estudos, nos deparamos com a seguinte definição, em uma gramática que é best seller absoluta entre livros didáticos: “intencionalidade discursiva são as intenções, implícitas ou explícitas, existentes no discurso.”

Apesar de ele compreender perfeitamente as palavras, do alto dos seus dez anos não conseguiu entender plenamente a definição. Nesse sentido, o livro falhou em algo que explicou poucas páginas antes: “discurso é o processo comunicativo capaz de construir sentido.” Ou seja, o enunciado, por si só, não disse muita coisa a quem o leu. Mas, com uma breve contextualização minha, meu filho finalmente compreendeu tudo o que pregava a definição.

Vale ressaltar que o livro apresentava exemplos que ajudariam na compreensão, mas, para uma criança, eles estavam demasiadamente dissociados do objeto. Fiquei pensando na hora que Morris Lessmore teria feito diferente, e provavelmente o aprendizado teria sido muito mais eficiente. E divertido!

É provável que um “livro digital” de qualidade signifique subverter estruturalmente o conceito do que se conhece por livro. Em tempos em que o MEC pede crescentemente às editoras material didático digital, exemplos como esse deveriam ser considerados para “pensar fora da caixa”. A tecnologia deve ser usada criativamente a favor dos objetos de aprendizagem.

Os livros não devem mais ficar restritos a suas páginas (“páginas?”) ou mesmo ao jardim murado do conteúdo das editoras. Com suas versões digitais, as crianças devem ser estimuladas a ampliar sua aquisição de conhecimento de maneira tão ampla, criativa e divertida quanto possível. É assim que elas já adquirem qualquer conhecimento, e, quando têm esses recursos à mão, o fazem de maneira surpreendente e decisiva. Os professores já sabem disso e muitos tiram proveito disso para ajudar seus alunos.

O que me traz de volta à discussão que tive na semana passada: no final, Morris Lessmore ainda é um livro? Oras, quem se importa com isso?

Treine um dragão e salve seu jornal

By | Jornalismo, Tecnologia | No Comments
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3WsrRFPTNHc]

Nos últimos dias, participei de conversas com vários grupos sobre o assunto mais odiosamente preferido dos executivos de mídia: como salvar o nosso negócio. E me deparei com as mesmas teses de sempre: conteúdo aberto versus conteúdo fechado, paywalls, assinatura ou compras avulsas, veículos organizados em edições ou continuamente atualizados, entre outros. E as conclusões, da mesma forma, acabavam sendo as velhas conhecidas, que, na prática, tentam perpetuar o modelo de negócio de jornais, que se forjou no século 19, se refinou no 20 e não encontra mais espaço no 21.

O que não entendo é: por que ninguém pensa em treinar um dragão para salvar o seu jornal? Claro, treinar um bicho desses não é fácil, mas a animação “Como Treinar Seu Dragão”, do trailer acima (não viu ainda? veja!), mostra que, muito mais difícil que encontrar ou treinar uma enorme besta voadora e cuspidora de fogo é acreditar que isso é possível. Mais difícil ainda é querer fazer isso quando se vive em uma aldeia viking cujo propósito maior é matar dragões.

O fato é que a mídia impressa só pensa em matar os dragões que roubam as suas ovelhas cada vez mais. Existem várias espécies deles, como a publicidade insuficientemente barata, o “jornalismo-cidadão” e a blogosfera, os internautas que se recusam a pagar pelo conteúdo, o Google News e, mais recentemente, os agregadores.

Mas e se tudo que soubermos sobre esses dragões estiver errado? Com essa conclusão, um protótipo de viking salvou a sua aldeia. Mas, para isso, arriscou tudo. Sorte da aldeia, pois, se ninguém pensasse diferente, nunca venceria as feras.

Como é de amplo conhecimento público, o principal dilema da mídia, especialmente a impressa, é que a receita que eles conseguem angariar com a Internet nem de longe compensa as perdas que a mesma lhe provoca. E produzir bom jornalismo custa dinheiro, isso é um fato! E as pessoas devem pagar por isso! Bem… pode ser… mas certamente não da maneira como se quer lhes impor.

Já que estamos fazendo citações cinematográficas, selecionei a cena abaixo, que muitos fãs de Star Wars devem conhecer as falas de cor:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=7YkbgvRMpW0]

Uma sequência de Yoda vale ser retirada dessa cena: “So certain are you. Always with you it cannot be done (…) You must unlearn what you have learned.”

Claro! Estarmos muito certos de algo é uma das piores coisas que pode nos acontecer. Na incerteza, experimentamos as alternativas e tateamos os nossos limites, nos permitindo ser melhores. Já na certeza, nos acomodamos em nossas crenças e tentamos impor aos outros o nosso modelo de mundo “certo”. Se o mundo discorda de nós, desqualificamos os seus argumentos; se se recusa a nos aceitar, tratamos de eliminá-lo. E aí continuamos achando que dragões são malévolos e naves são muito grandes para se levitar.

Enquanto isso, fedelhos nórdicos cavalgam dragões e criaturinhas verdes e enrugadas tiram naves de pântanos. O mundo se move rápido, vivemos em tempos exponenciais, como disse no último post. Quaisquer que sejam as soluções adotadas pela mídia para sair do lamaçal em que se encontra, elas começarão ao aceitar que deve conduzir seu negócio de maneira drasticamente diferente.

Acha tudo isso uma bobagem? Não acredita que possa ser feito? “That’s why you fail!”