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Apesar da lentidão relativa, urna eletrônica reafirma seu valor contra fraudes

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Nesse domingo, aconteceu o primeiro turno das eleições municipais. Apesar de os resultados terem saído no mesmo dia, demoraram mais que o normalmente visto desde que as urnas eletrônicas foram implantadas. Isso deu munição àqueles que visam desmoralizar o sistema.

Ficamos mal acostumados com a velocidade e a segurança delas? Não: é assim que deve ser! O sistema eleitoral eletrônico brasileiro é hoje o mais moderno do mundo, e um exemplo do que toda transformação digital deve ser em qualquer negócio. Afinal, ele redefiniu a percepção do público sobre algo (no caso, a eleição), permitindo que se faça muito melhor o que já existia e que se tenha algo impossível antes.

A demora além da métrica definida pelo próprio sucesso aconteceu, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por uma falha no supercomputador que totaliza as apurações dos Estados. O tribunal sofreu ainda um ataque de hackers durante o dia, que foi contido. Mas, pela eficiência do sistema, nenhum dos dois problemas afetou a segurança do pleito.

Mas, se o sistema funciona tão bem, por que algumas pessoas preferem adorar o passado e querem a volta dos ineficientes e inseguros votos em papel?


Veja esse artigo em vídeo:


Eu acompanho o desenvolvimento da urna eletrônica desde suas primeiras versões, e participei da primeira distribuição em tempo real dos dados da apuração para veículos de comunicação (do lado dos veículos), o que permite a criação dos seus sites que exibem os resultados ao público.

Dizer que o sistema eleitoral eletrônico brasileiro é perfeito e invulnerável seria inocência. Não existe sistema a prova de falhas! Mas dá para criar proteções que praticamente inviabilizam as fraudes, como é o caso aqui. Ele é, sem dúvida nenhuma, bastante seguro do ponto de vista técnico e conceitual, e certamente é muito mais seguro que qualquer votação com células em papel, muitíssimo mais fáceis de se fraudar.

Os críticos argumentam que o software das urnas eletrônicas poderia ser adulterado para beneficiar determinado candidato. Ou seja, o eleitor votaria em um candidato, mas o voto seria contabilizado para outro. Além disso, reclamam que o voto, mesmo que sem qualquer identificação do eleitor, não pode ser checado individualmente no caso de uma auditoria, pois as urnas guardam o resultado consolidado de todos os votos nelas.

Curiosamente, as urnas eletrônicas foram criadas para combater a grande fraude que existia na apuração dos votos em papel, uma verdadeira operação de guerra. Por exemplo, nas eleições de 1994, a última totalmente com votos em papel, a apuração contou com o trabalho de cerca de 170 mil pessoas! Ainda assim, demorou duas semanas para terminar.

 

Sistema antifraude

Não existe registro comprovado de fraude desde a primeira vez em que as urnas eletrônicas foram usadas, em 1996. Para isso, o TSE adota cerca de três dezenas de mecanismos de segurança para impedir fraudes e garantir o sigilo.

Todos os dados das urnas eletrônicas são criptografados e os equipamentos não possuem nenhuma foram de acesso à Internet ou qualquer rede, seja por Wi-Fi, por Bluetooth ou qualquer outra forma de comunicação. Para um hacker invadir uma urna, ele teria que fazer o processo na própria seção eleitoral, durante o horário da votação, na frente dos presentes, pois as urnas confirmam que estão sem nenhum voto quando são ligadas. Além disso, precisaria romper um lacre físico, desenvolvido pela Casa da Moeda, que, se for manipulado, muda de cor.

A fabricação das urnas, por mais que seja feita por empresas privadas, é toda controlada pelo TSE, que é o único capaz de testar os equipamentos. Nem o fabricante consegue fazer isso sozinho.

Além de todas essas proteções físicas, o processo eleitoral eletrônico brasileiro é composto por 94 sistemas exclusivos do TSE. Todos eles ficam disponíveis para que partidos políticos, o Ministério Público, a Controladoria Geral da União e outras entidades possam verificar sua integridade.

Antes de serem instalados nas urnas, os programas passam por um sistema de autenticação. Ele envolve a criação de hashes –uma espécie de garantia de inviolabilidade do código– e as assinaturas digitais do presidente do TSE, do procurador-geral da República e do secretário de tecnologia da informação do TSE. Se for preciso qualquer alteração nos programas, todo esse processo deve ser refeito, ou o novo software não será executado pela urna.

Logo após a votação ser encerrada, a urna automaticamente apura os votos nela e imprime os resultados da seção eleitoral, com o total de votos por partido e por candidato, total de votos nulos e em branco e a hora do encerramento da eleição. O relatório é afixado na seção eleitoral, garantindo que a informação fique imediatamente disponível ao público.

Os resultados consolidados são então criptografados e gravados em uma mídia digital removível. Ela é levada para um cartório eleitoral para ser transmitida por uma rede interna para um sistema totalizador. Os votos são então somados e publicados de uma maneira incrivelmente rápida: cerca de 150 mil votos por segundo!

Foi justamente nesse ponto que o sistema “pipocou” na noite desse domingo, ficando abaixo de sua própria média histórica. Ainda assim, foi muito mais rápido que as eleições observadas no resto do mundo, como a americana. Mesmo com a “demora”, mais de 110 milhões de votos –já descontadas as abstenções– foram computados e publicados em apenas seis horas. Além disso, os votos podem ser auditados, se for necessário.

De novo, dá para garantir que o sistema é infalível? Por uma questão filosófica e técnica, não! Mas, para vencer toda essa combinação de proteções físicas e eletrônicas, os hackers precisariam de um procedimento que provavelmente nunca será feito por ninguém.

 

O ataque dos arautos do atraso

O que nos leva de volta à outra pergunta feita no começo: por que tem gente que deseja a volta do voto em papel, com todas as suas gigantescas desvantagens?

Bom, na melhor das hipóteses, é porque a pessoa desconhece o processo descrito acima, ou é mais uma vítima da guerra de desinformação nas redes sociais. Na pior faz hipóteses, é porque essa pessoa deseja mesmo fraudar as eleições, e o sistema eleitoral eletrônico inviabiliza os seus planos malignos. Até uma eventual contestação dos resultados na Justiça, como vimos no espetáculo grotesco dessa eleição americana, fica praticamente inviável.

Na prática, como também aconteceu nos EUA, isso não mudará em nada o resultado. Apenas atrasará a declaração do vencedor e custará muito dinheiro ao contribuinte.

Há ainda um terceiro tipo de pessoa que pode querer a volta do voto em papel: aquela que tem medo do desconhecido ou do que não tem controle –mesmo que seja um controle ilusório.

O medo é um sentimento necessário. Ele existe para nossa autopreservação e está associado aos momentos mais primitivos da nossa evolução como espécie. Ele pode ser paralisante. Mas como nosso trabalho hoje (felizmente) não envolve mais tomar decisões de caça diante de um tigre de dente de sabre, não podemos deixar que o medo nos controle.

Em tempos de transformação digital, com tantos e tantos benefícios, o medo pode ser, portanto, um fator que impede a inovação dos negócios e –por que não– de nossa vida.

Mas não tem jeito! Como cantava Elis Regina, na belíssima “Como Nossos Pais”, o novo sempre vem! Não dá para continuar amando o passado e insistindo em não ver isso.

 

A boa imprensa tem lado, opinião e age com responsabilidade

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Em uma semana com tantas notícias bombásticas que levaram à esperada vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, um acontecimento pode ter passado despercebido da maioria das pessoas. Na noite de quinta-feira, as três principais redes da TV aberta americana –ABC, CBS e NBC– e plataformas online de vários jornais do país literalmente cortaram no meio a fala ao vivo de Donald Trump. O motivo: para variar, ele estava despejando suas mentiras alucinadas. Dessa vez, atacava o sistema eleitoral americano pelo simples fato que sua derrota nas urnas era iminente.

Na hora, duas perguntas me vieram à cabeça.

A primeira é por que os veículos de imprensa nunca fizeram isso antes? Afinal, Trump é o “profeta do apocalipse das fake news” desde muito antes de ser presidente. E a imprensa sempre deu palco para esse maluco!

A segunda é: a imprensa pode fazer isso? Afinal, mesmo com Biden eleito, Trump ainda é o presidente, até que seu oponente vitorioso assuma o cargo, o que acontecerá apenas no dia 20 de janeiro.


Veja esse artigo em vídeo:


Em um primeiro momento, isso pode parecer só um dilema ético para jornalistas. Mas não é!

Todos nós, e não apenas os jornalistas, somos responsáveis pelo que dizemos, pelo que propagamos. Essa é uma responsabilidade que sempre tivemos, mas da qual estamos esquecendo por influência do falso véu do anonimato das redes sociais e do “efeito manada”.

Portanto, respondemos pelo que dizemos. Mais que isso: o que dizemos tem impacto real em quem está a nossa volta e, por extensão, na sociedade. Dessa forma, entender o papel e o poder da imprensa nos ajuda a entender o nosso.

Mesmo em tempos de domínio do Facebook e afins, a imprensa ocupa um papel de destaque nisso. Dessa forma, o jornalismo sério busca ser imparcial.

Mas, se é assim, as três grandes emissoras de TV americanas agiram certo ao cortar Trump? Isso seria censura?

A NBC, por exemplo, interrompeu a transmissão de Trump, e seu âncora Brian Williams disse “estamos aqui novamente na posição incomum de não só interromper o presidente dos Estados Unidos, mas também de corrigir o presidente dos Estados Unidos”.

E é exatamente isso que aconteceu!

Trump e todas suas cópias mal ajambradas pelo mundo, inclusive no Brasil, costumam bater no que chamam de “grande mídia”, dizendo que ela os censura, “calam o povo”, e que a verdade só existe nas redes sociais. Isso serve para usarem essas plataformas para mentir descaradamente sobre tudo, o tempo todo, para, assim, se manter no poder. E as pessoas que querem acreditar nisso, por qualquer motivo (além de um exército de robôs), legitimam seus crimes.

Ainda assim, se estamos em uma democracia, cortar Trump não é desrespeitar quem votou nele?

Essa é uma pergunta legítima. E eu a respondo com outra pergunta: o que você teria feito ao ver que o presidente da República estava usando você para espalhar mentiras perigosíssimas e ódio para a população, colocando em risco a própria sociedade?

 

O que é verdade?

Nesse ponto, podemos até mesmo questionar o que é a verdade. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse que “não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”

Realmente elas são raras! Estão, por exemplo, em leis da ciência. Mas, para chegar a ser lei, uma teoria científica tem um longo caminho a percorrer.

Em muitos casos, a “verdade” pode ser um ponto de vista, e ainda assim ser apresentada como incontestável, mesmo de boa-fé.

O jornalismo encontrou, há muitos anos, uma maneira de minimizar esse problema, definindo que os profissionais devem ouvir o máximo de lados possível sobre um assunto. A verdade possivelmente será a média de todos eles.

A imprensa sempre foi o gatekeeper, aquele que decide o que deve e o que não deve ser visto, com o poder e o dever de não apenas informar, mas também de formar o cidadão. Isso é um poder gigantesco, que só pode ser exercido com grande responsabilidade.

Com a ascensão das redes sociais, esse poder se diluiu. Portanto a pergunta anterior, sobre o que todos nós devemos fazer diante de uma mentira, é justa.

Devemos escolher muito bem o que publicamos na “pequena mídia” que somos. Como temos observado nos últimos anos, em que todos se tornaram mídia graças às redes sociais, a disseminação de notícias falsas e de ódio tem um amplo poder destrutivo. Ecoar essas ideias irrestritamente, ainda que em nome de democraticamente dar voz a todos, é uma falácia, com consequências potencialmente desastrosas. Temos que entender, portanto, que isenção e independência não podem ser confundidas com irresponsabilidade ou deslumbramento sobre o que se publica, mesmo se quem tenha dito a barbaridade seja um presidente da República democraticamente eleito.

Todos merecem e devem ser ouvidos, desde que não estejam cometendo crimes ou deliberadamente mentindo para atingir seus objetivos. Como disse o cartunista e jornalista Millôr Fernandes, “as pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.

 

Escolha responsável de lado

Ter um lado não significa não ouvir o outro, calar ou censurar. Ter um lado significa defender um ponto de vista dando também bom espaço a quem pensa de maneira diferente, desde que todos os lados sejam legítimos. Afinal crescemos ao sermos confrontados com a diferença. Quem tenta calar a diferença, quem trata o opositor como um inimigo que deve, se possível, ser destruído não é legítimo, pois faz de tudo para tornar quem está a sua volta menor, para se manter no topo com a sua própria pequenez.

Se a verdade absoluta é difícil de ser encontrada, temos que, pelo menos definir o que é legítimo: é o que defende valores inegociáveis, como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e a democracia.

Em sua fala de quinta (e em incontáveis outras), Trump feriu isso. Logo, os veículos de comunicação acertaram ao interromper o que dizia para restaurar os fatos. Escolheram um lado e agiram com responsabilidade.

Deveriam ter feito isso desde quando ele ainda era um pré-candidato à presidência dos EUA. Talvez nunca teria sido eleito, o que causou um dano gigantesco ao mundo todo, pela influência do cargo que ocupou por quatro anos. Em nome da democracia, deram espaço a suas ideias alopradas, talvez por que não achassem que aquele bufão pudesse ganhar qualquer coisa.

Mas ele ganhou! Até porque essa exposição permitiu que suas ideias ressoassem em grande parte da população, que “caíram no canto da sereia” e se viram representadas por ele.

Agora Donald Trump é o que os americanos chamam de “pato manco”: o presidente no período entre o resultado da eleição e a posse de seu sucessor. Ele ainda pode causar enormes danos aos Estados Unidos e ao mundo nesses dois meses e meio. Ficar dando palco a suas mentiras só permitirá que ele faça algo ainda pior.

A imprensa e todos nós devemos evitar isso!

Você pode dizer: “mas eu nem falo da eleição americana!” Correto! Ela foi apenas um gancho para esse debate.

O mesmo raciocínio se aplica ao cotidiano de cada um de nós. Não há nada de errado em escolhermos algo para defender. Muito pelo contrário! Mas devemos também dar espaço a ideias diferentes. Devemos acolhê-las, e não as silenciar! Caso contrário, usaremos esse grande poder que todos temos para nos tornarmos pessoas menores e também piorar a sociedade.

Isso ninguém quer. Precisamos escolher um lado, respeitar o outro e agir com responsabilidade.

 

O ano do “deep fake”

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Hoje o ano se inicia para valer! E faz isso com o alerta de algo que pode “bagunçar o coreto”, especialmente em um ano eleitoral: o “deep fake”. Trata-se de uma tecnologia capaz de criar vídeos absolutamente convincentes com pessoas agindo ou dizendo coisas que nunca fizeram.

Viabilizada pela inteligência artificial e pelas milhões de imagens nas redes sociais, ela chegou a uma tal sofisticação, que nem especialistas conseguem identificar um vídeo verdadeiro de um falso.

Quer entender como ela é feita e ver alguns exemplos? É só assistir ao meu vídeo abaixo:



As fotos e vídeos nas redes sociais são importantes porque servem como base para “calibrar” o sistema de reconhecimento fácil. Todos os rostos têm pontos específicos que servem para os identificar, quase como se fosse uma impressão digital. É assim que, por exemplo, o Facebook consegue saber instantaneamente quem está conosco nas fotos que subimos na rede social.

A inteligência artificial usa essa informação para que o computador aprenda como o rosto de uma pessoa se comporta, como ele fica em cada pose possível. A partir daí, ele consegue sintetizar, com incrível precisão, a imagem de qualquer pessoa realizando movimentos e falando coisas que outra pessoa -um “modelo”- executou em outro vídeo.

Essa tecnologia já é usada há anos por Hollywood em filmes como “Star Wars”, “O Senhor dos Aneis” ou “King Kong”. Mas lá são sistemas caríssimos e extremamente complexos. A diferença é que o “deep fake” pode ser realizado em um computador doméstico, com software gratuito. E qualquer um pode se tornar vítima disso hoje.

Surge a pergunta: como evitar que isso aconteça?

Tudo isso ganha ainda mais relevância se considerarmos que estamos em um ano eleitoral. É só pensar no estrago que as “fake news” vêm fazendo desde antes das eleições anteriores. E, diante do “deep fake”, as infames notícias falsas parecem brinquedo de criança.

O problema é mais grave que muitos podem perceber a princípio. Várias tentativas estão sendo feitas para “separar o joio do trigo”, mas infelizmente elas têm falhado na tarefa. A própria inteligência artificial que viabiliza o “deep fake” virou ferramenta, mas os resultados são frustrantes. Há ainda iniciativas “malucas”, como obrigar que todas as câmeras criem um “selo de autenticidade digital” nas imagens que produzirem ou que ainda as pessoas registrem continuamente o que fizerem, onde e com quem estiverem.

No final das contas, a solução mais razoável é a mesma que a das “fake news”: educar a população. O problema é que, se falhamos miseravelmente nessa tarefa, que dizer agora com o “deep fake”, muito mais convincente que escandalosos postagens falsas distribuídas pelo Facebook e pelo WhatsApp?

Uma vez mais, a responsabilidade para encontrar a verdade no meio de um mar de mentiras recai sobre a boa imprensa. Somente ela, tem esse poder, fazendo investigações reais, no mundo real, indo atrás da informação real.

Muitos podem dizer: “mas a imprensa é vendida e falha!” Há empresas e veículos que infelizmente são mesmo. Mas há também aqueles -e não são poucos- que, se não são infalíveis (pois isso não existe) buscam fazer um trabalho sério.

Quer saber quem está trabalhando bem? Veja quem é mais vítima dos ataques de governantes. Quanto mais atacados, provavelmente melhor o trabalho jornalístico. E, se o mesmo veículo for atacado por adversários políticos, então o trabalho deve estar sendo bem feito mesmo!

Só assim, teremos mais chance de não sermos feitos de bobo!


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A reforma da Previdência é um vespeiro que ninguém coloca a mão de verdade

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Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado/Creative Commons

Estamos às vésperas da eleição mais polarizada da história do Brasil.  Grande parte disso se deve ao uso eficiente das redes sociais por parte dos candidatos, que aproveitaram os recursos dessas plataformas para realizar comunicações incrivelmente assertivas com o público, jogando a TV para escanteio na importância do processo de tomada de decisão, como expliquei no vídeo abaixo. A questão é: quanto do que dizem é verdade e quanto é “encenação eleitoral”?


Vídeo relacionado (de 24 de setembro de 2018):


Pode-se argumentar, com muita tranquilidade, que isso “faz parte do jogo”, que sempre foi assim e sempre será. Mas a combinação de fatos, “fake news”, “bolhas” nas redes sociais e sistemas de coleta de informações de usuário tem sido tão eficiente, que os eleitores de um candidato, qualquer que seja sua linha, estão acreditando que o que diz (e até o que não diz) é a mais pura verdade. Portanto, não se trata de “direita” ou “esquerda”, conservadores ou liberais: todos (ou pelo menos os mais espertos) estão usando os meios digitais para fazer valer seus argumentos e, dessa forma, conseguir votos.

Peguemos, como exemplo, um tema absolutamente espinhoso: a reforma de Previdência, um dos maiores angus de caroço da República. Esse é um tema essencial para o futuro da Nação, mas não vejo nenhum candidato com uma proposta que demonstre seriedade para descascar esse abacaxi. Vejo um monte de “sou a favor” ou “sou contra”, de acordo com seu alinhamento político, e depois um monte de cortinas de fumaça (mais ou menos eficientes, de acordo com o caso), para fazer o eleitorado acreditar naquilo.

Claro! A resolução do problema necessariamente passa por medidas muito impopulares ou aumentar ainda mais o já grotesco rombo nas contas públicas para manter o sistema funcionando. E fazer isso em período de campanha é um verdadeiro suicídio político.

A importância disso se deve ao fato de a aposentadoria ser um direito de todos que está quebrando o país. É uma situação de “se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come”.

Para pagar um aposentado, precisamos de vários trabalhadores na ativa, contribuindo com o sistema. Isso funcionou por décadas, pois a balança sempre pendia fortemente para o lado dos que ainda trabalhavam.

Mas a população brasileira (assim como a da maioria dos países) está envelhecendo: de um lado, as pessoas estão vivendo mais; do outro, a taxa de natalidade vem caindo (às vezes, muito). Ou seja, o sistema começou a falhar lá atrás, quando as contribuições dos que ainda trabalham já não eram suficientes para pagar os aposentados.

Esse saldo negativo gera um rombo nos cofres públicos que o Tesouro precisa cobrir todos os meses. E esse buraco cresce mês a mês.

As soluções para o problema, como disse acima, são impopulares. Criar regras que dificultam a aposentadora, como aumentar a idade mínima para isso, ou aumentar a contribuição de quem está na ativa, diminuir o valor recebido de quem já se aposentou, estão entre elas. Outra possibilidade é o governo continuar bancando essa conta crescente, mas, para isso, precisa de mais dinheiro. E, quando o governo precisa de mais dinheiro (especialmente MUITO dinheiro), dificilmente ele remaneja isso de outras áreas: ele aumenta os impostos. E a experiência mostra que esse dinheiro acaba indo para outro lugar, no final das contas.

Outra forma de conseguir mais dinheiro é combatendo a corrupção. Estima-se que metade do PIB brasileiro “desapareça” nos esgotos da corrupção. É muito dinheiro! Poderia resolver o problema da Previdência.

Mas quem vai mexer verdadeiramente nesse outro vespeiro? É melhor adotar as medidas impopulares!

A reforma da Previdência é só um exemplo. Escolha o seu tema e veja como os candidatos estão usando os meios digitais como um eficientíssimo canto da sereia. Portanto, não se deixe levar cegamente pelo que lê nas redes sociais: procure fazer uma análise crítica e desapaixonada. Isso o ajudará a tomar uma melhor decisão neste domingo.


E aí? Vamos participar do debate? Role até o fim da página e deixe seu comentário. Essa troca é fundamental para a sociedade.


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Fique de olhos nos meus próximos eventos públicos:

Nesse ano, elegeremos o presidente em um videogame

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Mario Bros para presidente do Brasil? Muita calma nessa hora! Imagem: composição com imagens de divulgação

Mario Bros para presidente do Brasil? Muita calma nessa hora!

Esse será o ano da eleição-videogame! Ganhará o pleito o candidato que souber as regras de jogo e como usar os recursos digitais das diferentes plataformas para “coletar moedas”, “vencer os chefes” e “passar as fases”. Não estou brincando, não! Os votos serão conquistados principalmente no meio digital, usando conceitos de jogabilidade. A parte chata é que nós teremos a ilusão de ter algum controle dessa narrativa, mas é grande a chance de acabarmos apenas como personagens secundários desse enredo. Como não sermos então manipulados nesse game?

Não se engane: a campanha já começou para valer, e há bastante tempo! Pré-candidatos de todo o espectro político já estão nas redes sociais coletando os nossos dados, analisando comportamentos de grupos, categorizando os eleitores e fazendo movimentos muito bem calculados, plantando informações de seu interesse nos lugares certos para mover as peças desse tabuleiro.

O mais incrível é que as pessoas não percebem isso, e participam alegremente do jogo. Em grande parte, isso acontece pela disseminação dos smartphones e pelo nosso uso permanente das redes sociais. A combinação desses fatores cria o ambiente perfeito para essa eleição feita de bits em três frentes principais.

A primeira é que o conceito de jogabilidade já foi totalmente assimilado por grande parte da população, mesmo entre pessoas que nunca ouviram esse termo. Graças aos joguinhos casuais nos smartphones e principalmente nas redes sociais –com destaque especial aos infames “brinquedinhos” do tipo “com qual celebridade você se parece” que inundam o Facebook– as pessoas já se acostumaram a ter algum benefício imediato se conseguirem cumprir alguma tarefa proposta pelo sistema. E as tarefas mais comuns consistem em prosaicamente entregar seus dados pessoais e depois compartilhar o resultado do jogo nas redes sociais.

Além disso, por carregarmos os smartphones conosco o tempo todo e aos aplicativos das redes sociais, nós estamos constantemente online. Não saímos nunca da Internet (ou é a Internet que não sai de nós?).

O que nos leva à terceira frente: somos permanentemente rastreados, seja o lugar onde estamos nas 24 horas do dia (e com quem estamos), nossos interesses em todos os campos, nossas ações e qualquer outra coisa que as marcas vejam valor. E muitas dessas informações são coletadas sem que tenhamos que tomar qualquer ação: o sistema se encarrega de tudo, muitas vezes (muitas mesmo!) sem que sequer tenhamos consciência disso.

O “Big Brother”, aquele Grande Irmão do livro “1984”, de George Orwell, era um amador com seu tosco controle da sociedade a partir de câmeras.

 

Criando cabos eleitorais superengajados

Você também sente que, nos últimos anos, as discussões políticas ficaram muito polarizadas e até mesmo radicais? É um tal de “se não estiver comigo, está contra mim”, amizades de muitos anos sendo desfeitas.

Isso é reflexo do game!

Os candidatos mais espertos já perceberam como ajustar o seu discurso para atender aos formadores de opinião nas redes. Transformam-se em personagens que vão de encontro aos anseios desses grupos e, dessa forma, cooptam esses usuários para espalhar suas mensagens, às vezes com grande virulência, radicalização e até agressividade. Graças às dinâmicas das redes sociais, esse comportamento agrupa uma grande quantidade de pessoas que pensam no mesmo, e o sistema vai se retroalimentando. Com isso, a visão do candidato sobre qualquer assunto rapidamente ganha ares de verdade incontestável, mesmo que seja a mais rotunda porcaria.

Uma versão mais sofisticada disso usa sistemas e algoritmos para coletar dados dos incautos usuários para classificá-los em grupos seguindo preferências nos mais diferentes campos. Com isso, a tarefa acima fica ainda mais eficiente!

É exatamente o que a empresa Cambridge Analytica fez para ajudar na eleição de Donald Trump, no escândalo que foi exposto em março. Em primeiro lugar, criou o “joguinho” “This Is Your Digital Life”, que foi baixado por cerca de 270 mil usuários, que compartilharam alegremente, via Facebook, não apenas os seus dados, mas também os de seus amigos. Como resultado, a Cambridge Analytica colocou as mãos em informações pessoais de 87 milhões de pessoas, que foram usadas para conhecer profundamente alguns desejos dessas pessoas. A partir disso, a campanha de Trump conseguiu ajustar seu discurso para se tornar mais convincente, fazendo uso até mesmo de “fake news”, habilmente plantadas seguindo as conclusões do sistema.

Pode-se argumentar que a política sempre foi um jogo, e sempre ganhou quem conseguiu construir uma mensagem mais adequada aos anseios do eleitorado. Mas nunca os candidatos tiveram recursos nem de longe tão poderosos para isso. O ganho de escala, de inteligência e de capacidade de processamento nos últimos anos são quase inacreditáveis!

E tem ainda quem distribua “santinhos”. Coitados!

 

“Política não se discute”

Lembra daquele velho ditado: “política, futebol e religião não se discute”? A sabedoria dos “antigos” estava certa: são temas que naturalmente causam polêmica.

Mas sempre discutimos tudo isso nas mesas de bar, em casa, no trabalho. E, por mais que um fosse Corinthians e o outro fosse Palmeiras, por mais que piadinhas infames fossem comuns, as pessoas não deixavam de ser amigas umas das outras por terem opiniões diferentes. Pelo contrário: as divergências eram construtivas, até aprendíamos com o pensamento do outro, por mais que continuássemos discordando dele.

Entretanto, graças aos algoritmos das redes sociais, às “fake news”, aos “candidatos player 1”, a radicalização está matando essa convivência pacífica. E, com isso, levando embora, a inestimável habilidade de aprender com o outro.

Portanto, deixo aqui um apelo: todos têm o direito de ter sua opinião, sua ideologia, seu alinhamento político, seu candidato preferido. Mas não se radicalize! Além disso, por mais que o seu candidato lhe pareça perfeito (e isso não existe em lugar nenhum), não acredite piamente em tudo que ele disser. Busque informações em diferentes fontes, especialmente em fontes com opiniões divergentes.

Em 11 de novembro de 1947, Winston Churchill, ex-primeiro-ministro do Reino Unido e considerado um dos maiores estadistas da história, proferiu uma de suas célebres frases: “Ninguém espera que a democracia seja perfeita ou infalível. Na verdade, tem sido dito que a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as demais formas.”

Entre muitas outras coisas sobre a democracia, Churchill sabia que ela só funciona bem pela contraposição de ideias. Pois não existe verdade absoluta. O que mais se aproxima disso está no meio das opiniões divergentes.  Quanto mais nos afastarmos do diálogo pluralista, mais nos enfiaremos na escuridão.

Portanto, nesse ano de eleição-videogame, agarre o joystick e seja o “jogador 1” da sua vida. Não se deixe enganar pelo canto da sereia nem dos candidatos, nem dos algoritmos. É o futuro de todos que está em jogo.


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