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Seu celular pode espionar você

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Com o governo de alguns Estados usando os celulares para saber se as pessoas estão respeitando o distanciamento social, um assunto voltou à mesa: nossos smartphones nos espionam?

Essa informação seria usada pelos gabinetes de crise para tomar diferentes decisões, como planejamentos da área de saúde e até mesmo se medidas restritivas ao deslocamento precisariam ser endurecidas. O Governo Federal se preparava para fazer o mesmo, quando recuou, argumentando que isso violaria a privacidade do cidadão. Os Estados juram que não é arapongagem! Pode até ser, mas o processo poderia ser mais transparente.

Como isso tudo funciona? Dá para se proteger?


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Resposta rápida se o celular pode nos espionar.

Claro que sim!

Isso não é nenhuma novidade e pode ser feito de diferentes maneiras.

No caso do que alguns governos estão adotando, isso é feito com a colaboração das operadoras de telefonia celular, como a Vivo, a TIM, a Oi e a Claro.

Elas fazem a chamada triangulação a partir das estações rádio-base, as antenas das suas redes de celulares. Isso é uma matemática simples: ao medir a distância de um aparelho celular até as três antenas mais próximas a ele, a operadora da linha consegue definir com precisão onde ele está.

Isso não tem nada a ver com o GPS do aparelho, que pode estar até desligado. Não há como impedir essa leitura tecnicamente e ela é bastante precisa.

Isso, entretanto, não seria suficiente para saber se as pessoas estão desrespeitando os pedidos de distanciamento social. Para isso, a empresa precisa saber onde cada pessoa mora. E isso também é fácil de fazer: basta guardar a posição onde o celular fica entre 22h e 2h. Como supostamente é o lugar onde a pessoa dormiu, a empresa assume que é a sua residência. A partir dessa informação, se o celular se afasta mais que 200 metros desse ponto, a empresa considera que a pessoa está “furando” o distanciamento social.

Ao agrupar toda essa informação as operadoras geram as chamadas “nuvens de calor”, manchas coloridas que indicam concentrações de pessoas que se afastaram de suas residências. Esses gráficos seriam sempre enviados aos comitês de crise com informações do dia anterior. Ou seja, não é uma informação em tempo real.

No exemplo acima, temos a região metropolitana do Rio de Janeiro. Dá para ver que há muita gente desrespeitando o distanciamento na Zona Sul e no Centro.

As operadoras de telefonia celular sabem exatamente onde nós estamos, mas afirmam que não entregam ao governo qualquer informação que possa identificar os donos dos celulares. Antes de enviar a informação, ela é agrupada e “anonimizada”: todos os dados de identificação são eliminados antes de criar os mapas.

Especialistas afirmam, entretanto, que, em alguns casos, é possível identificar usuários cruzando diferentes dados “anonimizados”. A privacidade só seria, portanto, garantida se o governo realmente só recebesse os gráficos prontos das operadoras.

Ainda assim, algumas coisas poderiam ser feitas para melhorar o cenário. Uma delas é que as informações geradas pelas operadoras passassem antes por outras empresas, cuja função seria aplicar uma camada adicional de remoção de eventuais identificações remanescentes. Além disso, amostras aleatórias de dados deveriam ser constantemente disponibilizadas para serem verificadas pela comunidade de desenvolvedores. Os algoritmos, os programas envolvidos em todo esse processo também deveriam ter seus códigos publicados, para serem aferidos.

A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) é a legislação que regula o uso dos nossos dados. Ela foi promulgada ainda no governo Temer e deveria começar a valer agora em agosto, mas, com a pandemia, seu início deve ser postergado. Entre suas regras, está que qualquer dado nosso só pode ser coletado se nós autorizarmos explicitamente. E, para isso, temos que ser informados que dados serão coletados e para que serão usados.

De novo, se o que estiver sendo entregue ao governo for apenas o mapa de calor, a LGPD não estaria sendo violada. Mas o problema é que governos não são conhecidos exatamente por respeitarem a privacidade do cidadão.

Por isso, mais transparência seria muito bem-vinda. Por exemplo, falta também uma declaração pública deixando claro quais as decisões poderão ser tomadas a partir desses dados e até quando essa colaboração das operadoras com o governo vai durar. Temos que evitar que se crie um “legado de vigilância” após isso.

Há outras formas de sermos rastreados pelos nossos celulares, que não têm nada a ver com isso que os governos têm feito. E que são muito mais complicadas de se coibir.

Isso porque muitos dos serviços dos nossos smartphones que nós amamos dependem dessa capacidade de geolocalização. O GPS do celular mede continuamente onde nós estamos. Claro que podemos desligar esse recurso, mas aí muitas coisas do celular simplesmente vão parar de funcionar. E não estamos dispostos a ficar sem elas.

O Google e a Apple, fabricantes dos sistemas operacionais Android e iOS, que controlam praticamente todos os smartphones do mundo, têm acesso a essa informação. Eles negam que infrinjam a privacidade de seus usuários. Mas, sim, eles coletam isso o tempo todo.

Por exemplo, o Google vem produzindo relatórios públicos que medem se as pessoas estão respeitando o distanciamento social na maioria dos países. No Brasil, cria relatórios semanais consolidados pelo país e por cada Estado e Distrito Federal.

Aqui vemos que a movimentação de pessoas no varejo, que aparece nos três gráficos de cima, está sendo retomada. Já em casa, nos três gráficos de baixo, as pessoas começaram o período de distanciamento ficando mais tempo lá, mas agora estão saindo mais.

Mas há tantas outras maneiras de os celulares nos espionarem, como naquela história de que eles ouvem o que dizemos para depois nos vender todo tipo de quiquilharia.

Sim, eles nos ouvem mesmo! Até para atender a nossos comandos.

De novo, Apple e Google afirmam que não usam essa informação indevidamente e não a compartilham com terceiros. Por outro lado, você já pensou quantos aplicativos você instalou no seu aparelho? Todos eles podem ter acesso a seu GPS, a sua voz captada pelo microfone, e mais um monte de dados do celular. Quem garante que todos eles sejam éticos? Portanto, escolha com cuidado os aplicativos que você instala!

Temos que entender como isso funciona para, pelo menos, tentar não sermos feitos de bobos. Com relação aos governos, precisamos criar mecanismos de verificação desses processos pela sociedade civil. Ou corremos sério risco de nosso smartphone se transformar em um agente do Grande Irmão, o Big Brother do livro “1984”, de George Orwell.

E isso ninguém quer.

Quais são (ou deveriam ser) os limites da publicidade invasiva?

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Outdoor interativo e com realidade aumentada no filme “Blade Runner 2049”: a realidade já se aproxima da ficção – Foto: divulgação

Outdoor interativo e com realidade aumentada no filme “Blade Runner 2049”: a realidade já se aproxima da ficção

Os meios digitais provocaram uma incrível revolução na publicidade. É verdade que, para alguns casos, uma grande, cara e indiferenciada campanha de marketing de massa, daquelas que passam no break da novela e do Jornal Nacional, ainda faz sentido. Entretanto a publicidade migra continuamente para peças criadas para cada indivíduo, a partir do cruzamento das pegadas digitais que deixamos cada vez mais por toda parte, conscientemente ou não. Isso é bacana para o anunciante e para o consumidor, pois as peças trazem, em tese, produtos do interesse de ambos. Mas você já sentiu que às vezes esse negócio está invadindo a sua privacidade?

Se sentiu, você não está sozinho! E, de certa forma, é isso mesmo que acontece. O fato é que a privacidade, como nós conhecemos há alguns anos, morreu! Mas isso não é necessariamente algo ruim. A novidade é que isso está extrapolando os limites das redes sociais, dos buscadores e dos smartphones, as principais ferramentas para essa arapongagem digital, sobre as quais muita gente já está ciente. A coleta de informações sem aviso prévio vem acontecendo também, por exemplo, em TVs e até em outdoors!


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Peguemos como exemplo o tradicional telão publicitário em Piccadilly Circus. Essa verdadeira atração turística de Londres, lançada em sua primeira versão em 1908, foi reinaugurada na semana passada (como pode ser visto na reportagem no vídeo acima).  Ele agora funciona com uma impressionante tela Ultra HD de 790 metros quadrados, que exibe campanhas de diferentes marcas. O telão ainda oferece WiFi grátis para a região. Mas a grande novidade são câmeras escondidas na estrutura, que continuamente capturam as imagens das pessoas e dos carros que passam a sua frente, assim como as condições climáticas.

Essas imagens são usadas para personalizar as peças exibidas na tela em tempo real. Por exemplo, se um tradicional ônibus londrino de dois andares vermelho passa por ali, todas as peças podem adotar esse tom. Se ele for seguindo por um carro amarelo, as peças passam a ser amarelas. Divertido, né?

As peças também refletem as pessoas que estiverem ali na hora! O sistema continuamente verifica o gênero e a faixa etária dos pedestres. Mais que isso, tenta identificar a emoção dos indivíduos fazendo uma análise de suas expressões. Tudo isso para que a publicidade se adapte ao público.

A Landsec, empresa responsável pelo sistema, afirma que as informações não são armazenadas e nem cruzadas com outros bancos de dados para identificar as pessoas ali. Mas em uma cidade conhecida por ter a maior quantidade de câmeras em ambientes públicos do mundo, usadas, por exemplo, pela polícia para procurar automaticamente suspeitos a partir de algoritmos de reconhecimento facial, a única coisa que a impede de fazer isso é o respeito a questões éticas.

Afinal, ao contrário de redes sociais e smartphones, em que as pessoas ainda precisam aceitar “termos de uso” desses produtos, com os quais autorizam (quase sempre sem ler) o uso de suas informações pessoais para fins comerciais, isso não acontece com o telão.

Para andar na rua, ninguém assina termo algum, certo?

 

“Mi casa, tu casa”

Ninguém assina tampouco termo algum para assistir televisão. Mas as nossas smart TVs também podem estar nos espionando.

Não se enganem: as TVs atuais que compramos para nossas casas são poderosos computadores conectados permanentemente à Internet. E, ao contrário do que parecem, elas nunca estão totalmente desligadas. Tanto que muitos modelos podem ser ligados a partir de comandos de voz. Em outras palavras, mesmo com suas telas apagadas, as TVs com microfones estão nos ouvindo o tempo todo. E as que têm câmeras também podem estar nos vendo.

Acontece que, ao contrário do que é feito em smartphones e especialmente em computadores, não tomamos providências de segurança com nossas TVs. Ou alguém instala antivírus ou firewalls nelas? Os fabricantes tampouco parecem se preocupar muito com isso, pois as informações capturadas pela TV sequer são criptografadas antes de serem transmitidas.

Nada impede que um hacker invada a nossa TV e acione esses recursos para coletar informações pessoais. Muito mais provável é o próprio fabricante coletar informações dos usuários para decisões comerciais. E isso não acontece só em casa.

Por exemplo, as TVs expostas no varejo podem tentar identificar, a partir de sua câmera, o gênero e a faixa etária das pessoas que ficam diante de cada tela. Ou seja, enquanto as pessoas estão analisando a qualidade da imagem do modelo, a TV está analisando a pessoa, tentando identificar que tipo de público é atraído por cada modelo em cada loja específica. Essa informação é muito valiosa para definir o mix ideal de produtos para cada ponto do varejo, e até mesmo o volume de produção nas fábricas.

Portanto, antes de fazer na frente da TV algo que possa se arrepender depois, pense duas vezes: ela pode estar vendo tudinho!

 

O que nos resta?

Não estou pintando aqui nenhum futuro (ou presente) apocalíptico. Quem me conhece sabe que eu sou um entusiasta da tecnologia e do uso criativo de informações pessoais para criar produtos e ofertas que sejam benéficas para todos, especialmente para o dono dessas informações, o consumidor.

Já fui executivo de várias multinacionais que coletam informações de seus consumidores das mais diferentes formas. E sempre notei um uso ético delas.

Aliás, ética é uma palavra que ganha importância a cada dia que passa. Justamente porque as empresas têm, cada vez mais, recursos para coletar tais informações, e tirar conclusões impressionantes sobre cada um de nós, graças a algoritmos mais e mais sofisticados e capacidade de processamento gigantescas e crescentes.

Logo, a tentação para cruzar o limite do razoável é imenso! Até onde podem ir? Até onde disseram que iriam quando iniciaram o relacionamento com cada um de nós. E que tenhamos explicitamente concordado (mesmo não lendo os termos).

Sendo bem sincero, quem tem tanto poder nas mãos só não avança o sinal se não quiser. E se sua ética (e seu “compliance”) não permitir (e for obedecida). Mas honestamente não precisam disso! Os benefícios para as empresas e para o consumidor já serão incríveis fazendo apenas um uso ético do que já têm.

Quanto a cada um de nós, claro que não vamos deixar de usar nenhum desses produtos. Não dá para ser feliz tomado eternamente pela paranoia, e a vida seria praticamente inviável no mundo atual sem todos esses serviços digitais. Mas precisamos, pelo menos, ser conscientes do que estamos entregando e principalmente a quem.

Tem muito picareta por aí.


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