futuro do trabalho

Para Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, aplicações corporativas passarão a alimentar a inteligência artificial – Foto: divulgação

IA pode se transformar em “interface universal” para computadores e celulares

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A maneira como usamos diferentes programas e aplicativos de produtividade em nossos computadores e celulares pode estar com os dias contados. Com o avanço da inteligência artificial, navegar por muitas telas de sistemas distintos para coletar informações tende a ser substituído por simples conversas com um robô. Mas como tudo que se refere a essa tecnologia, precisamos compreender bem a proposta para que um benefício não se transforme em uma armadilha.

Especialmente no mundo dos negócios, mesmo com a ampla digitalização de processos, obter informações para uma tomada de decisão pode ser uma tarefa morosa e sujeita a falhas. Uma nova geração de assistentes de IA promete resolver isso, entendendo o que o usuário deseja e acessando todos os sistemas necessários para coletar os dados e organizá-los em uma resposta pronta.

Mais do que uma evolução técnica, esse movimento nascente traz uma mudança de paradigma na experiência do usuário e na governança de dados. Essa camada transforma sistemas complexos em “motores de dados” para respostas contextuais.

Os benefícios são evidentes, com ganhos em eficiência e produtividade. Mas alguns riscos não podem ser ignorados, como o aumento da dependência tecnológica e uma potencial exclusão digital entre aqueles que não souberem usar a IA.

Para muita gente, pode parecer um contrassenso alguém não conseguir usar uma tecnologia criada para facilitar processos. Mas precisamos entender que isso depende de habilidades que nem todos têm. Nesse caso, a sociedade precisa se organizar para capacitar essas pessoas, evitando ampliar o abismo digital já existente no país, e as empresas têm um papel fundamental nesse processo.


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No SAP Now AI Tour, evento anual da gigante de software alemã, que aconteceu em São Paulo nos dias 19 e 20, foi possível ver a Joule, assistente de IA da empresa, realizando esse tipo de integração com sistemas e dados da própria SAP e de terceiros. O robô também se ajusta automaticamente ao cargo de cada usuário, exibindo alertas, relatórios e soluções adequadas para cada função.

Para Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, esse é o caminho. “O cliente escolhe se quer ter uma única experiência pela Joule ou se quer conectá-la a outros assistentes, como o Copilot da Microsoft”, disse. Segundo ele, “o futuro é que a gente consiga integrar o máximo possível e que esta camada de aplicações alimente a inteligência artificial, para que ela possa executar melhor as tarefas através dos agentes”.

A democratização da informática sempre foi associada à evolução da interface. Até os anos 1980, usar um computador exigia dominar comandos pouco intuitivos digitados no teclado, o que limitava esses equipamentos a uma parcela reduzida da população.

Isso começou a mudar com as interfaces gráficas, difundidas pelo Apple Macintosh (1984) e pelo Microsoft Windows (1985). Na década seguinte, os hiperlinks da Web mudaram como acessamos documentos. As telas sensíveis a toque, popularizadas há 20 anos pelo iPhone e pelo Android foram a etapa seguinte. Agora a IA contribui com a possibilidade de conversarmos com a máquina, como se fosse uma pessoa.

Isso permite que usuários sem conhecimento técnico operem sistemas complexos, apenas descrevendo suas necessidades, além de reduzir muito a curva de aprendizado para novos funcionários. Com processos mais rápidos e menos tempo em tarefas repetitivas, as decisões se tornam mais assertivas e ágeis.

Mas isso pode ampliar nossa dependência tecnológica, com risco de perda de conhecimento técnico profundo. Empresas também podem se tornar reféns de plataformas que centralizem toda a operação.

Isso se agrava com a falta de transparência das big techs, que normalmente não explicam as decisões e o funcionamento de sua tecnologia. Com isso e com todos os dados passando pela IA, o risco de vieses, vazamentos e erros aumenta.

 

Impacto no trabalho

Esse avanço da IA traz benefícios e dispara alertas também no mundo do trabalho. Se ela potencializa as entregas, como já explicado, pode ampliar a exclusão digital de quem não tiver acesso à tecnologia ou não se adaptar a ela. E a automação de tarefas pode reduzir os empregos de certas funções técnicas, como já se observa.

A SAP divulgou dados da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), que indica que o Brasil forma 53 mil profissionais de tecnologia por ano, mas abre 150 mil vagas de trabalho no mesmo tempo. Isso levará a uma falta de meio milhão de profissionais até o fim da década.

Nos EUA, observa-se inesperadamente o contrário. Segundo o Federal Reserve Bank de Nova York, profissionais de Ciência da Computação e de Engenharia de Computação enfrentam taxas de desemprego de 6,1% e 7,5% respectivamente, contra 3% entre os de Biologia e História da Arte. Isso se deve à demissão de centenas de milhares de profissionais nas empresas de tecnologia, pelo fim do seu crescimento acelerado durante a pandemia e justamente pela adoção de IA em tarefas técnicas.

Botelho não acredita que vejamos algo assim no Brasil. “Eu acho que a IA reduzirá nosso déficit profissional, mas não vai zerá-lo”, afirma. Tanto que a SAP intensificou seus esforços para apoiar a formação e a requalificação de profissionais no Brasil, com a meta de chegar a 10 mil pessoas por ano. “A gente tem essa orientação de que o ser humano precisa estar sempre no processo”, acrescenta.

O Brasil tem uma janela de oportunidade para não cair naquele cenário americano. Precisamos de políticas públicas que democratizem o acesso à alfabetização em IA, regulamentação que incentive a transparência algorítmica e investimentos que garantam que pequenas empresas não fiquem para trás nessa transição.

Seria um erro acreditar que a IA por si só melhorará nossa produtividade e competitividade. Ela pode democratizar os ganhos tecnológicos, mas apenas se nós mesmos fizermos escolhas conscientes sobre como usá-la. O futuro ideal inclui uma sociedade em que máquinas processam, mas humanos decidem, com a automação liberando tempo para criatividade, estratégia e relacionamentos genuínos.

 

IA nos força a questionar como ela colaborará conosco no mundo do trabalho - Foto: Freepik/Creative Commons

Mais do que substituir trabalhadores, IA pode redefinir o conceito de trabalho

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De um lado, temos empresas procurando os melhores profissionais para ocupar suas vagas. Do outro, pessoas buscam seus empregos dos sonhos. No meio disso, a inteligência artificial surge como uma aliada poderosa aos dois grupos. Mas o abuso desses recursos também pode trazer problemas éticos e de confiabilidade.

Segundo o relatório “Agentes de IA na prática: Como a inteligência artificial está transformando a gestão de pessoas”, divulgado na semana passada pela plataforma de recrutamento Gupy, 65% das empresas no mundo e 48% no Brasil já usam a IA em processos seletivos. Além de redução de custos e tempo nas contratações, ele indica que a IA pode reduzir a rotatividade e até aumentar a diversidade nas equipes.

Isso contraria problemas conhecidos da IA no setor, como sistemas enviesados na avaliação de profissionais e falta de transparência nas escolhas. A solução recai no uso de uma IA concebida, desde o princípio, para a mitigação sistêmica desses problemas, com justificativas claras e mantendo humanos nas decisões.

Mas nem todas empresas e candidatos se preocupam com isso. Por exemplo, muitas pessoas usam a tecnologia para alterar seus perfis, fazendo com que pareçam mais alinhados com as vagas do que realmente são. Também utilizam robôs para enviar candidaturas em massa. Segundo o LinkedIn, essas práticas ajudam a explicar o expressivo aumento de 45% nas candidaturas na plataforma no último ano.

Obviamente o impacto da IA no mundo do trabalho vai além de processos de RH e do medo de profissionais de que seus trabalhos sejam “roubados” por uma máquina. Mesmo com os benefícios que a tecnologia traz, ela exige habilidades que nem todos conseguem ter, além de alterar radicalmente a maneira como os trabalhos são feitos.

Não se pode ignorar a natureza substitutiva de funções da IA. Portanto, mais que oferecer ferramentas, sua chegada está redefinindo o que é trabalhar.


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O polido discurso do Vale do Silício que promete “aprimorar” trabalhadores e libertá-los de “tarefas rotineiras” desmorona diante da sinceridade brutal de startups como a americana Mechanize. Sua proposta é clara: automatizar totalmente o trabalho, mesmo que isso provoque demissões em massa. Tudo em nome da eficiência.

Para isso, a empresa usa a técnica de “aprendizado por reforço”, a mesma que as big techs usam para melhorar os resultados de suas plataformas de IA. Mas seus fundadores acreditam que ainda levarão pelo menos 10 anos para atingir seu objetivo.

“Essa expansão está acontecendo em uma velocidade jamais vista, não havendo tempo para as organizações, as escolas, as universidades e as pessoas se prepararem”, afirma Marcelo Graglia, professor da PUC-SP e diretor do Observatório do Futuro do Trabalho da universidade. “Isso vem interferindo na saúde mental e do trabalho das pessoas, gerando um adoecimento coletivo”, acrescenta.

Para ele, há uma romantização da IA, exaltando seus benefícios e ocultando os seus riscos. Não se trata de demonizar a tecnologia ou impedir o seu avanço, mas é preciso avaliar conscientemente os problemas que ela traz e criar mecanismos para minimizá-los. Esse discurso de “aprimoramento profissional” só se sustenta, segundo o pesquisador, porque pouca gente realmente entende a tecnologia.

Além da substituição de profissionais por robôs, um fenômeno que cresce aceleradamente é a dos trabalhos híbridos, em que humanos e a IA dividem tarefas, gerando mais produtividade. Isso é outro ótimo benefício com uma contrapartida negativa, pois a tendência é que, mesmo em funções que não sejam extintas, serão necessários menos profissionais para cumprir seus objetivos.

 

Aumentando desigualdades

Essa reconfiguração aprofunda e diversifica as desigualdades. Elas começam no fosso crescente entre países que dominam a tecnologia e os que não a dominam, que está provocando uma nova Guerra Fria. Até entre cidades de uma mesma região, as que se tornam polos tecnológicos atraem mão de obra qualificada e investimentos.

Empresas que investem nessa transformação digital podem obter ganhos de até 30% em custos operacionais, ampliando sua vantagem competitiva. E a corda arrebenta no nível das pessoas, com estudantes de escolas de elite adotando IA e robótica desde cedo, enquanto os das públicas ficam alijados desse conhecimento, agravando a desigualdade na formação e, consequentemente, na vida profissional desses jovens.

Com tudo isso, uma massa de trabalhadores ficará “do lado de fora” desse novo mercado. Além disso, voltando ao uso da IA em avaliações de desempenho, implantações malfeitas podem levar à dispensa de bons profissionais e à criação de ambientes de trabalho “esquizofrênicos”, onde a meta não será mais “ser bom”, mas “parecer bom” para um algoritmo desprovido de bom senso e de compaixão. Por isso, propostas como as da Gupy, de mitigar vieses, privilegiar a transparência e manter as decisões na mão de humanos são bem-vindas em um mundo de forte automação.

“Alguns dizem que, com a automação, sobrará mais tempo para atividades criativas e descanso, mas a realidade não bate com esse discurso”, afirma Graglia. Segundo ele, os ganhos de produtividade nunca geraram menos trabalho, e agora a digitalização faz com que as tarefas invadam os tempos de descanso, de lazer e de estudo.

O pesquisador explica que o trabalho inventivo deve aumentar apenas para poucas pessoas, que já desempenham funções mais estratégicas e criativas. “Mas a grande massa de trabalhadores no mundo não tem esse perfil, e, para eles, simplesmente não se aplica essa lógica”, conclui.

Mais do que temer a máquina, é preciso, portanto, questionar o modelo de sociedade que estamos moldando a partir dela. A IA pode, sim, ampliar a produtividade e democratizar oportunidades, mas isso só será possível se enfrentarmos com coragem os dilemas éticos, sociais e humanos que ela impõe. Caso contrário, estaremos apenas transferindo velhas desigualdades para um novo ambiente, agora automatizado e ainda mais difícil de contestar.

Talvez a reflexão mais importante não seja, então, quantos empregos a IA eliminará, mas que tipo de trabalho e de trabalhador queremos valorizar. Mais do que uma tecnologia, a inteligência artificial está se tornando o espelho de nossas escolhas coletivas.

 

Jovens prestam vestibular: medo e pressão atrapalham a escolha da carreira na Geração Z – Ilustração: Paulo Silvestre

Custos, retorno menor, desigualdade e inteligência artificial ameaçam valor da universidade

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Historicamente, o diploma de um curso superior era o passaporte para um emprego bem remunerado, que garantia um padrão de vida alto. Porém, mudanças no mercado de trabalho, novos interesses dos jovens e o avanço da inteligência artificial estão provocando questionamentos inéditos sobre dedicar anos à universidade.

Esse é um fenômeno global, mas com nuances locais. No Brasil, a universidade ainda guarda um forte valor simbólico e prático de ascensão social e profissional. Mas uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie revelou que o ensino superior precisa mudar para manter isso diante de jovens que buscam formações alinhadas a seus valores e conectadas às transformações sociais, culturais e tecnológicas.

Nos Estados Unidos, a situação é mais dramática. Um levantamento da plataforma de empregos Indeed indicou que 51% dos jovens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) consideram a universidade um “desperdício de dinheiro”, contra 41% dos millennials (entre 1981 e 1996) e 20% dos baby boomers (entre 1946 e 1964).

Não é para menos. Os custos dos cursos universitários na terra do Tio Sam dobraram desde o ano 2000, enquanto os salários cresceram muito menos. Muitos profissionais precisam trabalhar até 20 anos para pagar pela sua formação. E por lá, a diferença entre a média dos salários das pessoas com e sem ensino superior não para de cair.

A explosão da inteligência artificial generativa ampliou esse dilema. Cada vez mais profissionais acham que saber operar bem essa tecnologia pode dispensá-los de fazer uma faculdade. Por outro lado, empresas estão contratando menos profissionais recém-formados, pois os gestores acreditam que a IA pode fazer tudo que eles fariam.

Essa “tempestade perfeita” pode levar a uma sociedade cada vez menos crítica, com profissionais incapazes de descobrir algo novo e dependentes da IA. Mas há esperança, e ela passa justamente pela transformação das universidades.


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Para Ana Lúcia de Souza Lopes, pesquisadora do programa de Educação, Arte e História da Cultura, que participou da pesquisa do Mackenzie, muitos jovens da geração Z, que cresceram vendo a tecnologia desconstruindo profissões tradicionais, preferem ser influencers ou gamers, que não exigem longas formações. “Uma das coisas que nos chamou muita atenção é a questão do medo, da pressão, da confusão sobre o processo de aquisição de conhecimento e até de pensar em uma carreira”, explica.

A pressão por decidir o futuro ainda no Ensino Médio se choca com uma geração emocionalmente frágil, bombardeada por narrativas instantâneas e espetaculares nas redes sociais. Isso reforça os “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham. No Brasil, esse grupo se amplia em ritmo preocupante, refletindo uma realidade global de desalento profissional precoce.

A reforma do Ensino Médio, já em sua terceira versão, ampliou o abismo entre alunos das redes pública e privada. Enquanto escolas particulares focam no vestibular, a educação pública foi fragmentada em itinerários formativos que deixaram alunos menos preparados para o ensino superior.

Com isso, temos jovens privilegiados que fazem múltiplas graduações, buscando formação interdisciplinar. Por outro lado, cresce uma massa que busca alternativas em cursos técnicos, certificações digitais ou simplesmente desiste.

A substituição de recém-formados pela inteligência artificial cria um perigoso paradoxo profissional. Afinal, para se tirar bom proveito dela, é preciso saber o que e como lhe pedir, algo que se aprende na universidade e com experiência profissional. Mas se as empresas não contratam mais esses jovens, como esperam ter profissionais experientes no futuro, para operar a IA? Ninguém nasce sabendo!

É mais uma miopia que engrossa esse caldo, ameaçando a trajetória das pessoas, a sobrevivência das empresas e o desenvolvimento da sociedade. Com isso, corremos o risco de ter, em alguns anos, não mais uma massa de desempregados, mas de “inempregáveis”, pessoas que não terão habilidades para realizar qualquer trabalho.

 

Para que serve a universidade

Lopes reforça o risco de se olhar para a universidade de forma apenas utilitarista. A sociedade está reduzindo a educação a uma transação comercial, em que se investe tempo e dinheiro para se receber um emprego. Mas quando essa equação não se sustenta, o sistema entra em colapso.

“A universidade tem toda uma dinâmica de vivência que contribui para a formação de quem é esse profissional”, afirma a pesquisadora. Para ela, “isso é muito importante na formação desse humano que pensa e que precisa entender a complexidade do mundo, enxergando os dilemas da sociedade”.

O fenômeno de desvalorização da universidade é, portanto, complexo e multifacetado. Há exagero e desinformação, ampliados por sensacionalismo nas redes sociais e por influenciadores que vendem a falsa ideia de que bastam carisma e um celular para enriquecer. Mas também há falhas reais, como currículos “engessados”, modelos pedagógicos ultrapassados e pouca conexão com os dilemas contemporâneos.

Isso pode nos levar a uma elite cada vez mais poderosa, conectada e formada globalmente, e a uma grande maioria deslocada, desorientada e sem as ferramentas básicas para se posicionar no mundo. E isso cria uma “bomba-relógio social”.

A sociedade precisa se unir para solucionar o problema. As universidades devem flexibilizar seus currículos, sem dispensar a profundidade crítica. Escolas precisam se reconectar com a realidade e formar cidadãos, não apenas candidatos ao vestibular. Empresas devem reavaliar o uso da IA, abrindo espaço para aprendizes e fomentando programas de desenvolvimento de talentos. Por fim, o governo deve garantir equidade no acesso ao ensino de qualidade, especialmente para os mais vulneráveis.

Paradoxalmente, a própria IA reforça a importância das competências desenvolvidas em um bom curso superior. Enquanto algoritmos executam tarefas repetitivas, humanos precisam definir estratégias, tomar decisões éticas e navegar por complexidades que máquinas não compreendem. Profissionais com formação sólida estão mais bem preparados para comandar a IA, e não serem comandados por ela.

A escolha não pode recair, portanto, entre fazer faculdade ou se apoiar na tecnologia, mas entre ser protagonista ou coadjuvante da própria carreira e da vida. Em um mundo em que máquinas fazem cálculos probabilísticos incríveis, humanos bem formados fazem a diferença ao definir quais desses cálculos realmente importam.

 

Christian Klein, CEO da SAP, durante a palestra de abertura do Sapphire 2025, evento global da empresa - Foto: reprodução

IA avança nas empresas, mas dados ruins e falta de preparo atrapalham o processo

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Os gestores precisam que a inteligência artificial finalmente entregue os resultados prometidos. Não faltam investimentos: empresas brasileiras e globais destinam cifras consideráveis a projetos de IA, mas, na prática, o retorno ainda é tímido. E por mais que haja disposição para continuar, já passou da hora desse dinheiro começar a transformar o negócio de verdade.

O problema não é só tecnológico. Falta compreensão sobre as plataformas de IA, e a carência de profissionais qualificados persiste, especialmente em países como o Brasil. Além disso, muitas plataformas de IA não foram desenhadas para a complexidade dos processos empresariais, sendo generalistas, pouco sensíveis ao contexto e, às vezes, mais atrapalham do que ajudam.

Outro gargalo é a qualidade dos dados. Nas empresas, eles costumam ser desatualizados, fragmentados e até conflitantes entre áreas, o que dificulta análises confiáveis e limita o potencial da IA. Sem uma base sólida, qualquer promessa de inteligência artificial se esvazia rapidamente.

Nesse cenário, as novidades apresentadas na semana passada pela SAP no Sapphire, seu evento anual e maior encontro de tecnologia e negócios do mundo, realizado em Orlando (EUA), surgem como uma tentativa concreta de mudar isso. A gigante alemã apresentou uma estratégia para democratizar o uso da IA, integrando-a profundamente aos processos de negócio e, principalmente, aos dados, inclusive os não estruturados e de fontes externas, como a Internet.

As novidades são bem-vindas, mas não dispensam o olhar cuidadoso do ser humano. As decisões devem continuar nas mãos de pessoas, não apenas por uma questão ética, mas também legal. A IA pode preparar o terreno, analisar cenários e fazer recomendações, mas a palavra final precisa ser humana.


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A SAP apostou forte na Joule, sua assistente de IA generativa, que estará presente em toda suíte de soluções, sem implementações complexas. A partir dela, usuários poderão fazer análises de negócios em linguagem natural, inclusive em português, eliminando barreiras técnicas. Ela oferecerá soluções usando, de maneira automática, diversos agentes e aplicações, mas respeitando os limites de acesso de cada usuário.

A empresa também apresentou o Business Data Cloud, que permite integrar e harmonizar dados de múltiplas fontes, estruturados e não estruturados, mesmo de aplicações externas, preservando contexto e governança. É uma tentativa de resolver o caos informacional que assombra a maioria das organizações.

A SAP sempre se orgulhou da confiabilidade de seus sistemas, graças a um forte controle sobre a integridade dos dados. Por isso, um dos anúncios mais interessantes do Sapphire foi a integração de sua IA à Perplexity. Essa plataforma pública de IA generativa, que funciona como um buscador na Internet, passa a ser usada para trazer dados complementares e enriquecer as análises de negócio.

Ainda assim, toda IA generativa pode “alucinar”, ou seja, inventar respostas plausíveis, mas erradas. Questionei Christian Klein, CEO da SAP, sobre como lidar com esse desafio ao integrar a Perplexity. E ele foi taxativo: nos negócios, não dá para trabalhar com precisão abaixo de 100%. Por isso, as garantias do Business Data Cloud asseguram a confiabilidade das informações.

Philipp Herzig, CTO da empresa, acrescentou que, por isso, a IA faz o trabalho pesado, mas não se automatiza totalmente o processo. Além disso, a decisão final precisa ser humana. Por isso, a explicabilidade dos resultados é essencial para que as pessoas possam julgar e decidir se aceitam as recomendações da máquina.

A SAP também anunciou a integração com a plataforma Databricks, que integra e harmoniza dados externos dentro do Business Data Cloud. A parceria permite que empresas conectem seus dados sem necessidade de replicação, mantendo seu contexto e a governança. Isso facilita a consolidação de informações de múltiplas fontes, ampliando a produtividade e a confiabilidade das decisões.

 

Democratizando a IA

Com seus anúncios, a promessa da SAP é que empresas de qualquer porte possam acessar tecnologia de ponta, de forma modular e escalável. Isso é particularmente interessante, especialmente em mercados emergentes como o Brasil.

Mas a desejada democratização da IA só acontecerá se houver preparo das pessoas, e esse contraponto não pode ser ignorado. Muitos profissionais ainda não sabem aproveitar a IA, e a formação técnica deficiente no Brasil limita o aproveitamento pleno da tecnologia.

O futuro pertencerá a quem souber perguntar bem e interpretar corretamente as respostas das máquinas. E essa não é uma habilidade necessariamente de profissionais de tecnologia.

Para isso, as plataformas de inteligência artificial precisam ser transparentes no seu funcionamento, e seus resultados devem ser explicáveis e rastreáveis. Infelizmente poucos desenvolvedores de IA parecem hoje dispostos ou prontos para entregar esse nível de maturidade e de responsabilidade.

A revolução da IA nas empresas só será completa quando a tecnologia for, de fato, compreendida, confiável e, acima de tudo, útil para quem decide. A jornada é longa, mas os primeiros passos rumo a uma IA verdadeiramente empresarial parecem estar sendo dados. Resta saber se as empresas trilharão esse caminho com a sabedoria e o discernimento necessários.

 

Tarefas que exigem criatividade, empatia, crítica e julgamento moral são difíceis de automatizar - Foto: Freepik/Creative Commons

IA avança sobre empregos, mas não quer dizer que você perderá o seu

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Entre as ações bombásticas de Donald Trump em seu primeiro mês como presidente dos EUA, uma das mais emblemáticas visa demitir 2 milhões de servidores federais. Parte dessas vagas será reposta com pessoas mais alinhadas a suas ideias, mas muitas funções passarão a ser desempenhadas por sistemas de inteligência artificial.

Esse movimento vem se acelerando também na iniciativa privada, mas a magnitude sem precedentes daquela iniciativa reacende o debate global sobre o impacto da IA no mercado de trabalho. A substituição de profissionais por máquinas afeta de funções básicas a cargos de alta qualificação, o que é inédito. E isso gera questionamentos sobre o futuro, incluindo o que acontecerá com uma crescente massa de desempregados que não conseguirá se recolocar.

Para muita gente, o que importa é como “não entrar para a estatística das vítimas da automação”. Tarefas que exigem, por exemplo, criatividade, empatia, pensamento crítico e julgamento moral são difíceis de automatizar. Migrar o trabalho para atividades que exijam essas habilidades pode garantir o salário.

Mas, em qualquer caso, a IA já está transformando as mais diversas funções. Sendo assim, a sociedade deve não apenas preservar empregos, como também garantir que os benefícios da automação sejam distribuídos de forma mais equitativa, para que as pessoas desempenhem suas tarefas com IA, para não serem substituídas por ela.

Resistir a essa tecnologia já não faz sentido. O desafio de todos é se apropriar de seu poder com inteligência, criatividade, ética e segurança.


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Recentemente, Jensen Huang, CEO da Nvidia, a fabricante de chips cujo valor de mercado hoje é de US$ 3,3 trilhões graças à IA, disse que essa tecnologia não é uma assassina de empregos. Para ele, todos deveriam usá-la como um tutor pessoal, que lhes ajudaria a coletar qualquer tipo de informação rapidamente, a escrever e até a pensar melhor. Huang ecoa a visão de muitos líderes do setor, que enxergam o futuro do trabalho com as pessoas capacitadas pela IA, e não substituídas por ela.

Claro que ele está “vendendo seu peixe”, por isso sua afirmação deve ser analisada com cautela. É fato que a IA pode ajudar qualquer um em suas tarefas, mas não é verdade que todo mundo sabe como fazer isso! Não é realista esperar que alguém que passou décadas em uma função se torne um “engenheiro de prompt” da noite para o dia.

A verdade nua e crua é que a maioria das pessoas simplesmente não tem habilidades básicas para fazer isso, e não consegue “tirar o atraso”. O problema não é apenas a substituição em si, mas a velocidade com que isso está acontecendo. É a revolução tecnológica mais rápida e abrangente já vista, atropelando muita gente no caminho.

O desafio aumenta com uma requalificação que não acompanha a automação, novas vagas que não repõem as eliminadas, e o consequente aumento da concorrência por trabalho. Isso se agrava pela desigualdade no acesso à educação e à tecnologia e à concentração do mercado em menos setores.

Isso pode levar a um aumento da pobreza e desigualdade social, com crises econômicas causadas por um forte desemprego. Se a IA passar a ser vista como uma vilã pelas massas, isso pode levar a uma resistência à automação maior que a devida.

E isso também esquenta outro debate: o de uma renda básica universal.

 

Garantia de sobrevivência

Ela não surgiu com a inteligência artificial, mas vem sendo apresentada como uma solução caso o desemprego graças às máquinas saia do controle.

Entre os argumentos favoráveis à renda básica universal estão a mitigação dos efeitos de um desemprego em massa, um estímulo ao empreendedorismo e a redução da desigualdade social. Já seus críticos afirmam que não há dinheiro para isso, que ela pode gerar inflação e até desestimular o desejo de trabalhar. Por isso, alguns especialistas sugerem que ela seja apenas parte da solução, garantindo a sobrevivência do indivíduo, mas sem eliminar a necessidade de se trabalhar.

Com ou sem ela, é preciso criar políticas para requalificação de trabalhadores em novas áreas, além da criação de empregos “híbridos” que combinem os benefícios da IA com funções humanas, para evitar a eliminação completa de postos de trabalho. Mas não se pode deixar tudo a cargo do governo: essa responsabilidade deve ser dividida com empresas, instituições educacionais e os próprios trabalhadores.

O que já se observa é que, enquanto profissões inteiras estão sendo eliminadas, as demais não desaparecerão, mas serão transformadas. Quem desenvolver habilidades complementares para usar a IA terá mais oportunidades.

A automação do trabalho é inevitável, mas seu impacto social não precisa ser devastador. Com planejamento adequado, investimento em educação e políticas de proteção social, é possível construir um futuro em que humanos e máquinas não apenas coexistam, mas colaborem para criar uma sociedade mais próspera e equitativa.

Por outro lado, se a implementação for feita sem um planejamento detalhado e sem considerar os impactos sociais, como aparentemente está sendo feito nos EUA, há um grande risco de que os serviços prestados à população percam qualidade, se tornem mais burocráticos e menos acessíveis.

É fundamental considerar as implicações éticas e sociais dessas medidas, garantindo que a implementação da inteligência artificial, seja no setor público ou no privado, aconteça de maneira responsável e equilibrada, aproveitando todos os benefícios que ela traz, mas preservando os direitos dos trabalhadores e a qualidade dos serviços prestados à população.

Precisamos de estratégias que coloquem o ser humano no centro da revolução digital. As lideranças políticas e empresariais devem sair de suas torres de marfim, de onde acham que as oportunidades são as mesmas para todos. Sem isso, corremos o risco de criar uma sociedade ainda mais desigual, onde a tecnologia, em vez de libertar, aprofunda as divisões sociais. E não é para isso que ela está sendo desenvolvida.