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Reconhecimento facial se tornou uma poderosa ferramenta de negócios

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Muita gente já se espantou como o Facebook reconhece instantaneamente todas as pessoas que estão nas fotos que carregamos na plataforma, “marcando” seus rostos. Esse recurso, um dos segredos das “viralizações” das imagens nessa rede social, vem dos algoritmos de reconhecimento facial. Mas esse uso chega a ser um “brinquedo” diante do que essa tecnologia já oferece aos negócios.

Apesar de nunca ter se falado tanto disso, ela existe desde os anos 1960. De maneira simplificada, consiste em se criar uma “assinatura digital” (um “código hash”) composta por uma identificação única calculada a partir de distâncias entre pontos-chave do rosto (como o centro da pupila, a ponta do nariz, os limites da boca e assim sucessivamente). Quanto mais pontos forem avaliados, maior a eficiência no reconhecimento, pois essas distâncias variam de pessoa para pessoa.

“Uma coisa que melhorou muito de uns anos para cá foi a acuracidade do reconhecimento facial”, afirma Edgar Nunes, diretor comercial da Nuntius Tecnologia. De fato, até há poucos anos, existia desconfiança com essa tecnologia, por gerar muitos falsos positivos ou negativos.  “Antes as empresas tinham algoritmos que trabalhavam com 96 pontos do rosto, e hoje falamos de pelo menos 300 pontos, chegando a 1.024”, explica.

Tantos pontos permitem que o reconhecimento aconteça com precisão até quando o rosto está parcialmente coberto, por exemplo por óculos escuros ou, como agora é comum, por uma máscara. Os pontos ainda visíveis são suficientes para se fazer a identificação.


Veja a íntegra da entrevista com Edgar Nunes em vídeo:


Portanto a eficiência do reconhecimento facial está intimamente ligada não apenas a melhorias no software, mas também a avanços exponenciais nos computadores e nas próprias câmeras. Todo esse poder de processamento permite que as plataformas identifiquem mais pontos no rosto, em menor tempo e até de várias pessoas na mesma imagem. “Hoje a tecnologia reconhece 512 pessoas simultaneamente, em uma única câmera”, explica Nunes.

Além disso, os sistemas são capazes de identificar indivíduos mesmo que eles não estejam olhando de frente para a câmera, uma exigência dos sistemas mais antigos. A quantidade de pontos e o poder de processamento identificam também os rostos inclinados. Aliás, esse reconhecimento tridimensional pode ser usado para evitar fraudes, como alguém tentando apresentar uma foto e o sistema achar que se trata de um rosto real diante da câmera.

A qualidade nos reconhecimentos depende também da adaptação do sistema para a região onde ele será usado. Não basta, portanto, um algoritmo de qualidade: a plataforma precisa ser “calibrada” para o tipo de rostos da população local, mesmo em um país miscigenado, como o Brasil. É por isso que, se tentarmos usar um bom sistema preparado para o mercado americano em uma país asiático, ele pode não funcionar muito bem, e vice-versa.

Outro ganho das melhorias dos equipamentos é que sistemas locais podem tomar ações sem exigir uma conexão à Internet de banda larga. Esses equipamentos são capazes de armazenar mais de um milhão de “códigos hash” em sua memória (ou seja, as fotos das pessoas não estão ali, apenas essa sua “assinatura digital”). Dessa forma, se a imagem da pessoa diante da câmera não combinar com o respectivo “código hash”, o sistema pode negar a identificação.

Seguindo a mesma lógica, o sistema local pode gerar um “código hash” e enviar apenas essa informação para um servidor, um arquivo muito menor que o de uma foto ou um vídeo capturados. “A gente está falando de transportar apenas alguns kbytes de informação, o que não vai causar nenhum problema de conectividade, não vai ‘engargalar’ nenhuma rede’, explica Nunes.

Isso é particularmente interessante em locais em que a não há conexão com a rede ou em que ela seja limitada, como em um ônibus. O terminal do Bilhete Único (ou equivalente) pode conter os “códigos-hash” dos donos de bilhetes da cidade. Se alguém tentar usar um documento que não combina com a imagem capturada na hora pela câmera, a catraca pode não ser liberada, e a informação de uma possível fraude ou roubo ser enviada a uma central de controle e ao verdadeiro dono do bilhete.

 

Integração a outros sistemas

As plataformas de reconhecimento facial não trabalham mais de maneira isolada. “Antigamente, o reconhecimento facial entregava algo como ‘a pessoa é o Paulo e foi detectado na câmera 2’ e isso era enviado para o centro de controle”, conta Nunes. Agora a informação captada pela plataforma de reconhecimento vai muito além, identificando coisas como gênero, idade aproximada, raça e até estado de humor da pessoa no momento.

Essa informação fica ainda mais valiosa quando integrada a sistemas de gestão, para ajudar a tomar decisões de negócio. Por exemplo, de uma maneira automática, é possível saber que perfil de consumidor um determinado produto atrai, como o fluxo de visitantes em uma loja se comporta e até tomar ações personalizadas para um usuário específico, baseado em um histórico de relacionamento com a empresa ou combinando com perfis de visitantes semelhantes.

Em tempos de pandemia de Covid-19, os terminais de reconhecimento facial também trazem outras vantagens interessantes. A primeira delas é que, além de identificar a pessoa, consegue medir sua temperatura instantaneamente, sem necessitar de caras câmeras térmicas e evitando as filas provocadas pelas leituras com termômetros do tipo “pistola”, que se popularizaram no varejo. O sistema também é capaz de identificar se a pessoa está usando uma máscara. Em caso negativo ou se estiver com febre, uma ação é disparada, como informar a segurança ou a área de recursos humanos.

Nunes acredita que a evolução natural dessas plataformas envolverá ainda mais confiança e velocidade na identificação dos rostos, além de integrações cada vez mais poderosas com outros sistemas. Em um mundo com uso crescente de aplicações “touchless”, em que o usuário não precise encostar em nada, isso é muito bem-vindo.

A volta dos “Loucos Anos 20”

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Estamos começando não apenas um novo ano, mas uma nova década

Muita gente acha que pode ser uma reedição dos “Loucos Anos 20”, como ficaram conhecidos aqueles que aconteceram há cem anos. Depois de uma pandemia e uma guerra que devastaram o mundo, aquela década foi marcada por grandes avanços culturais, artísticos e científicos. Foi um período de alegria, com muitas festas, muita liberação e muito sexo, quase uma jornada hedonista!

Agora estamos passando por uma pandemia, que já matou quase 2 milhões de pessoas no mundo, 200 mil só no Brasil, e continua implacável. A Covid-19 colocou o mundo de joelhos, provocando muita dor, de diferentes maneiras, mudando nossas vidas.

Será que, quando ela passar, viveremos novamente um período de euforia desmedida? O que podemos aprender com os “Loucos Anos 20” da época do charleston e do jazz?


Veja esse artigo em vídeo:


Os “Loucos Anos 20” –ou os “Roaring Twenties”, como eram chamados nos Estados Unidos– foram uma reação, quase uma libertação das tristezas e das restrições causadas pela Gripe Espanhola e pela Primeira Guerra Mundial.

Na Europa, especialmente Paris (que virou o centro do mundo), em Berlim e em Londres, a alta sociedade e os intelectuais se misturavam ao som do can-can nos cabarés e outros ambientes efervescentes em ideias modernistas. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, o charleston animava festas imensas, regadas a bebida, drogas e sexo. Isso mesmo em um país onde vigorava a Lei Seca, que proibia a fabricação, venda e transporte de bebidas alcoólicas.

Foi nessa época também que surgiu o jazz. Com seus improvisos e suas influências africanas, nasceu em Nova Orleans e ganhou a América, influenciando a música ocidental.

Tudo parecia possível graças à tecnologia, especialmente os automóveis, as imagens em movimento e o rádio. Houve grande popularização do cinema, cuja grande estrela da época foi Charlie Chaplin. Os filmes deixaram de ser um interesse para aficionados para ganhar as massas e levar milhões às salas de exibição. Eles ainda eram em preto e branco e mudos, por isso as salas tinham espaço para uma pequena orquestra ou pelo menos um piano. Os desenhos animados também se popularizaram, com O Gato Felix sendo lançado em 1919, e Mickey Mouse, no curta “Steamboat Willie”, em 1928.

Os “Loucos Anos 20” também foram um grande momento de avanço para as mulheres. Elas deixaram seus espartilhos para trás e passaram a usar vestidos decotados e na altura dos joelhos. Com cabelos curtos, lábios vermelhos, pálpebras escuras, lançaram um novo estilo, que ficou conhecido como “melindrosas” –ou “flappers” em inglês.

A sua libertação foi muito além! Passaram a fumar em público, a dirigir e a ir à praia de maiô inteiriço, além de conversar livremente sobre sexo, atitudes que escandalizaram os conservadores da época. Em alguns países, como os Estados Unidos, foi quando as mulheres também começaram a votar.

 

Os novos “Loucos Anos 20”

Será mesmo que caminharemos para uma nova versão dos “Loucos Anos 20”, quando a epidemia estiver controlada e a economia do mundo recuperada?

Alguns especialistas acreditam que sim. Nicholas Christakis, professor na Universidade de Yale (EUA) é um deles. Ele lançou recentemente o livro “A Flecha de Apolo”, em que debate justamente a vida durante a pandemia e o que pode vir depois dela.

Segundo o pesquisador, essa não é a primeira grande pandemia que a humanidade tem que enfrentar, apenas a primeira que nós estamos vivendo. Ele explica que, durante as epidemias, verifica-se o aumento na religiosidade, as pessoas economizam dinheiro e ficam avessas ao risco. Quando a ameaça acaba, há uma reação natural de resgate do que foi perdido, com todo mundo buscando experiências sociais.

Christakis afirma que isso vai acontecer de novo agora com a Covid-19. Com os países iniciando a vacinação em massa em 2021, a doença deve estar controlada no ano que vem, e a economia recuperada, segundo ele, em 2024, quando teríamos os “Loucos Anos 20” do século XXI.

Naturalmente o mundo de hoje é muito diferente do que era há um século. E, dentro do que estamos discutindo aqui, as redes sociais têm um papel determinante, agindo como um catalizador.

Há cem anos, os meios de comunicação tiveram papel fundamental para disseminar aquele estilo de vida frenético, principalmente o rádio, os jornais e o cinema. Agora, com o meio digital, tudo acontece de maneira mais rápida e mais intensa.

Muita gente, aliás, parece já estar no espírito dos “Loucos Anos 20”.

A atual pandemia é muito menos devastadora que a Gripe Espanhola, que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Estima-se que o vírus H1N1 tenha infectado, naqueles três anos, 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época.

Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram vítimas dele. Os números mais conservadores são de 17 milhões, mas a cifra poder ter chegado a incríveis 100 milhões de mortos. Até o presidente brasileiro da época, Rodrigues Alves, pegou a doença e morreu.

Agora, apesar de a Covid-19 ter travado o mundo, a situação é menos grave, graças aos avanços da ciência e do papel dos meios de comunicação em conscientizar as pessoas. Vale dizer ainda que a tecnologia digital diminuiu –e muito– os estragos na economia, pois muitos negócios continuaram funcionando, mesmo com o distanciamento social.

Também não tivemos recentemente uma guerra absurdamente devastadora, com a Primeira Guerra Mundial, que durou de julho de 1914 a novembro de 1918., matando quase 18 milhões de pessoas, entre civis e militares. Por outro lado, temos a violência disseminada em nossas cidades, deixando os cidadãos em constante estado de alerta.

Não é de se estanhar, portanto, a grande euforia que sucedeu à peste e à guerra, com grandes avanços na cultura, na ciência e nos costumes do século passado.

Apenas para acrescentar alguns feitos além do que já foi dito, na medicina, o médico escocês Alexander Fleming descobriu, em 1928, a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos, que salvam incontáveis vidas desde então. O psiquiatra austríaco Sigmund Freud lançou as bases da psicanálise.

Surgiram também os movimentos artísticos, como o dadaísmo, de Marcel Duchamp e, o surrealismo, de Salvador Dalí. Também floresceram, nesses anos, grandes nomes como Joan Miró e Pablo Picasso. No Brasil, em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, que levou ao Theatro Municipal de São Paulo artistas plásticos, arquitetos, escritores, compositores e intérpretes, os quais foram recebidos, ao mesmo tempo, com aplausos e vaias.

 

Aprendendo com os erros

Mas nem tudo foram flores. Precisamos aprender com o que deu errado, para não repetir um dos períodos mais negros da humanidade, que sucedeu essa época dourada.

A euforia desmedida terminou na chamada “Grande Depressão”. No final de 1929, os Estados Unidos entraram e profunda crise econômica, com a “quebra” da sua Bolsa de Valores, o que provocou inúmeras falências, desemprego gigantesco e muita miséria.

A reboque disso, houve um aumento da intolerância e da xenofobia, além de uma “caça às bruxas” de movimentos conservadores. Isso culminou com o surgimento da Ku Klux Klan, organização racista que pregava a supremacia de brancos e protestantes.

Na Europa, a crise abriu o caminho para o surgimento de aventureiros políticos nacionalistas, que criaram Estados totalitários e ultraconservadores. Seus maiores expoentes foram o nazismo alemão, liderado por Adolf Hitler, e o fascismo italiano, de Benito Mussolini. E, como se sabe, isso tudo deu na Segunda Guerra Mundial, o conflito mais sangrento da história.

Portanto, sim, é possível que estejamos prestar a entrar em novos “Loucos Anos 20”. Talvez mereçamos mesmo essa alegria, depois de tanto sofrimento.

Mas ainda não chegamos lá: temos um caminho a seguir. A pandemia está longe de acabar, especialmente aqui no Brasil, onde sequer começamos a vacinação.

Há uma poesia do genial Carlos Drummond de Andrade, que é muito apropriada a isso tudo. Ela se chama “Receita de Ano Novo”, e termina com a seguinte estrofe:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

 

Portanto, vamos gozar dos nossos “Loucos Anos 20”. Mas temos que, antes, fazer por merecer isso.