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O filósofo belga Mark Coeckelbergh, uma das maiores autoridades do mundo em ética da IA - Foto: Victor Lopes/Creative Commons

“Ética líquida” normalizada pelo mundo digital ameaça avanços da sociedade

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Em meio a tantas discussões sobre o avanço cognitivo da inteligência artificial, sobre como ela está transformando o trabalho e os negócios, e até como ela parece ser capaz de nos substituir em qualquer coisa, a ética se sobressai como algo que ainda nos separa das máquinas. Por mais que a IA até simule convincentemente emoções, ela não as sente de fato.

A ética fica ainda mais distante dessa tecnologia. O problema é que, de uma década para cá, com as redes sociais, e mais acentuadamente agora, com a IA, cresce o número de pessoas que vivem sob o que chamo de “ética líquida”, que se flexibiliza e até desaparece para atingir objetivos pessoais. Se perdermos a nossa ética, abriremos mão daquele que é nosso maior diferencial frente às máquinas.

Nesta sexta, debati sobre isso com meu ex-professor de ética, o jornalista e escritor Jorge Tarquini. Em um encontro mais rico que qualquer conversa com uma plataforma de IA, analisamos essas transformações que o mundo digital promove em todos nós, em maior ou menor escala, e como isso pode criar problemas bem reais na sociedade.

Isso não pode ser um detalhe em nossas vidas. Nenhuma sociedade avança sem ética, ou as pessoas partiriam rumo à anarquia ou à bestialidade. Infelizmente, vemos o crescimento de ambos no nosso cotidiano, desembocando em violência, intolerância e egoísmo.

A IA pode nos ajudar muito pela sua execução eficiente. Mas não podemos nos comportar como ela, sob o risco de matarmos nossa humanidade.


Veja esse artigo em vídeo:


A ética não se resume a um conjunto de regras aplicadas mecanicamente. Ela nasce da experiência humana, do conflito entre valores, da consciência do outro e da capacidade de assumir responsabilidade por escolhas que afetam vidas reais. Ética envolve intenção, contexto, empatia e, sobretudo, a possibilidade de responder moralmente pelos próprios atos.

A inteligência artificial, por sua vez, calcula, otimiza, prevê e classifica com base em dados, objetivos e restrições definidos por pessoas. Mesmo ao executar padrões complexos, ela não compreende o sentido moral de suas ações. Um algoritmo não sente culpa, não reconhece injustiça e não pode ser responsabilizado pelo que executa.

Portanto, a IA não pode ser ética. Mas ela pode ser eticamente orientada, por desenvolvedores e usuários, esses sim, éticos. E aí mora o grande dilema atual. Com tanto poder que a IA e as redes sociais nos oferecem, pessoas antiéticas sequestraram o ambiente digital para distorcer a moral da sociedade e obter ganho próprio. E a população se deixa manipular por isso.

Como Tarquini disse, “as redes sociais são a nossa cachaça”, pois elas achatam nossos limites morais. Com isso, realizamos no ambiente digital práticas condenáveis que jamais faríamos “olho no olho”.

Ele lembrou também que reproduzir exaustivamente mantras e dogmas nas plataformas online diminuem o pensamento crítico. Esperar pelo contrário disso seria como “esperar que o ovo se transforme em omelete sozinho”, disse o professor.

 

“Liquefação da vida”

Disso tudo, extrapolei os conceitos de vida líquida do filósofo polonês Zygmunt Bauman, criando a ideia da “ética líquida”. Valores que antes eram sólidos em nossas vidas (e precisam continuar sendo) se tornam fluidos, adaptáveis à conveniência de nossos objetivos, mesmo os mais simplórios, moldando-se ao formato do algoritmo para obtermos migalhas de atenção.

Essa dinâmica afeta a todos, mas é devastadora para os jovens, cuja identidade ainda está em formação. Além disso, esse fenômeno não se restringe aos indivíduos, contaminando instituições, empresas e governos.

Vemos isso claramente na Europa, que historicamente liderou a regulação de direitos digitais, mas que agora cede às pressões das big techs e flexibiliza suas leis. O medo de perder a corrida tecnológica está servindo de justificativa para afrouxar a ética do desenvolvimento responsável.

Essa corrida desenfreada ignora o alerta do filósofo belga Mark Coeckelbergh sobre acreditarmos em um “agenciamento moral” da IA. Estamos atribuindo a sistemas automatizados decisões que exigem sensibilidade humana, redefinindo nossa própria vulnerabilidade.

Uma tecnologia que aprende demais sobre nós e é usada sem freios éticos torna-se uma arma de manipulação comportamental sem precedentes. E assim esquecemos da importância da nossa ética.

É uma triste realidade ver líderes políticos e empresariais se tornarem os maiores motores dessa flexibilização moral. Eles utilizam a potência das plataformas digitais não para o bem comum, mas para atingir objetivos mesquinhos, normalizando a violência retórica e a polarização.

Em um mundo onde as redes sociais ensinaram todos a falar demais e a ouvir pouco, a ética termina por se tornar um obstáculo inconveniente. A situação se agrava quando isso extrapola os limites do digital, aumentando e normalizando a violência, a intolerância e outros comportamentos que crescem no noticiário.

Não se trata de demonizar a tecnologia, e sim de reconhecer que eficiência sem limites morais corrói a sociedade. A pergunta mais honesta, portanto, não é se a inteligência artificial pode ser ética, mas se nós estamos sendo, ao colocá-la para decidir temas cada vez mais sensíveis sem governança adequada, sem transparência real e sem debate público consistente.

A IA precisa ser eticamente controlada, o que exige habilidades que nenhuma máquina possui, como consciência moral, compromisso com o outro e coragem para assumir consequências. Somos os responsáveis, portanto, por “tornar a IA mais ética” e por nos cuidar para que sua “eficiência a qualquer custo” não mate esse nosso grande diferencial.

 

A Grécia está prestes a ser varrida da História

By | Educação | 6 Comments

Composição sobre imagem de VisualHunt.com/Creative Commons

Uma proposta que está sendo gestada em Brasília pode apagar a Grécia da História. Ironicamente ela não afetará nenhum cidadão grego, mas pode ser devastadora para os brasileiros.

Não, o Brasil não mandará tropas ao mar Egeu. A proposta se refere a mudanças no que as quase 200 mil escolas brasileiras deverão ensinar aos seus alunos em todas as disciplinas, a chamada Base Nacional Comum Curricular. Uma organização assim é bem-vinda. Entretanto, para ser benéfica, deve ser muito cuidadosa nos conteúdos propostos. E aí está o problema.

A íntegra da proposta está disponível para consulta pública no site do ministério até o dia 15 de março e o documento vem sendo bombardeado por especialistas. Qualquer brasileiro pode deixar lá sua opinião.

Neste artigo, vou me concentrar em História. É importante também deixar claro que este texto trata apenas de aspectos educacionais, fugindo de qualquer discussão política ou partidária. Mas é impossível não mencionar a característica fortemente ideológica e doutrinária do documento do MEC.

Evidentemente a educação é a mais poderosa ferramenta de controle de um povo. E a disciplina de História tem papel crucial nessa tarefa, pois apresenta elementos capazes de moldar a moral do cidadão. Não é de se espantar, portanto, que todos os regimes totalitários lancem mão desse recurso odioso.

No Brasil mesmo, temos o exemplo do currículo imposto pelo governo militar, que distorceu à vontade a história do país para criar uma geração dócil e pouco contestadora. O próprio currículo atual está longe de ser perfeito, sendo resultado de um arremedo do que sobrou do currículo militar com discussões mal-ajambradas da academia desde então, além da ideologia de cada autor.

No século passado, tivemos também outros excelentes exemplos de doutrinação pela escola, na Alemanha nazista, na União Soviética e na China. E atualmente temos o caso da Coreia do Norte, “o país sem cidadãos tristes”.

Claro que podemos afirmar que não há um currículo escolar sem viés político, pois a História nos mostra (pelo menos para aqueles que tiveram a oportunidade de ter uma visão mais ampla dela) que ela é contada sempre pelo vencedor. Seja o vencedor de uma guerra, seja o vencedor das últimas eleições. E nem precisa ser algo de grande monta: estamos cansados de ver prefeitinhos mequetrefes criando “conteúdos pedagógicos” para as escolas de seus municípios que desqualificam seus opositores e o que pensam.

Mas, afinal, o que o MEC está propondo para História?

 

Ameríndios e africanos versus europeus

A proposta do MEC parte de um pressuposto interessante é válido: como os fatos culminaram na atual sociedade brasileira. Mas a situação se deteriora rapidamente quando observamos os conteúdos propostos para se atingir esse objetivo pedagógico.

Pela proposta, o ensino de qualquer coisa anterior às Grandes Navegações foi eliminado, incluindo aí a formação dos povos mesopotâmicos, egípcios, hebreus, gregos, romanos, além de todos os Estados europeus, pedras fundamentais da cultura ocidental, inclusive da brasileira.

O currículo atual, bastante centrado na Europa, daria lugar a uma proposta fortemente focada em civilizações ameríndias e africanas. Todo o estudo da Antiguidade, Idade Média, Renascimento é eliminado, incluindo o surgimento e a disseminação do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo. Em seu lugar, entram o contexto político dos povos indígenas brasileiros e da África subsaariana às vésperas da Conquista. E até temas para lá de questionáveis para a formação do cidadão brasileiro, como a independência do Haiti e a Revolução Boliviana ocupariam as aulas de história.

É inegável a influência dos índios e dos africanos em nossa cultura e elas merecem ser mais bem apresentadas do que são hoje. Mas de forma alguma isso pode acontecer em prejuízo de outros elementos definidores dela, a maioria mais importantes que os agora propostos. Pois, queiram ou não, nossa cultura e nossas organizações social, política, legal tem base europeia.

Pela nova proposta, eventos históricos europeus só são considerados naquilo que, de alguma forma, se relacionem com o Brasil. Mas como entender a independência do nosso país sem entender que a Corte portuguesa só veio ao país fugindo das Guerras Napoleônicas? É como entendê-las sem compreender a formação do Estado francês, que por sua vez está ligado, em suas raízes, ao fim do Império Romano. Esse, por sua vez, construído sobre a cultura de um país por eles dominado militarmente (mas não culturalmente) séculos antes: os mesmos gregos do início deste artigo.

A própria Revolução Francesa, que ajudou a moldar todo o Ocidente -e posteriormente parte do Oriente, por influência de nações como Inglaterra e EUA- fica reduzida a um estudo no 8º ano de como ela influenciou o nosso processo de independência e do pensamento liberal no país. E não há sequer menção à Revolução Industrial, que cristalizou os conceitos do Capitalismo e abriu espaço para a luta de classes e, portanto, do Socialismo. Que dizer então da Guerra Fria e sua influência decisiva na formação geopolítica global? Também não está lá. E estes são apenas alguns exemplos.

Essa proposta, que, a despeito da consulta pública, é completamente desconhecida da população, precisa ser, portanto, discutida e modificada dramaticamente! Entretanto, o pouco tempo disponível (cerca de seis meses) e a falta de divulgação e transparência nos processos me fazem sinceramente temer pelo resultado final.

A História, apresentada de maneira ampla e sem viés ideológico, é uma essencial para a formação, manutenção e evolução de qualquer sociedade. Estamos em um momento precioso para fazer isso direito, mas a proposta atual corre exatamente em sentido contrário.

Afinal, como nós estudamos na escola, conhecendo a história, compreendemos o presente e criamos um futuro melhor para todos. Mas, com a proposta em questão, temo que nossos filhos e netos não terão a mesma oportunidade de desenvolver essa visão crítica do mundo.

 

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