TikTok

Brilhe no TikTok mesmo sem “dancinhas”

By | Jornalismo | No Comments

Com o enorme sucesso do TikTok, muita gente tem me perguntado se precisa estar nele, se tem que ficar “fazendo dancinhas” lá. Afinal foram 315 milhões de novos usuários só no primeiro semestre, um público enorme e voraz por conteúdo, excelente oportunidade para conseguir novos clientes.

Mas sinto uma certa angústia em quem me faz essas perguntas, porque são pessoas que sabem da importância das redes sociais para seus negócios, mas não se identificam em nada com o estilo ultradespojado desses minivídeos.

Claro que não precisam estar lá!

Você não será chutado para fora dos negócios por não entrar no TikTok. Por outro lado, seu conteúdo não é só de “dancinhas”. Talvez exista um caminho interessante e confortável que você possa trilhar ali.


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O fato é que o aplicativo tem atraído muita atenção também de executivos e empreendedores de todos os segmentos e de negócios de todos os tamanhos. Afinal, com tanta gente instalando o aplicativo e o usando diariamente, estar nele pode trazer uma excelente visibilidade para o negócio.

O problema é que o TikTok popularizou um estilo de conteúdo feito de vídeos bastante informais, com música, pessoas dançando, dublando, “bichinhos fofos” e afins. Tem até muitas celebridades lá desse jeito.

Só que muita gente não consegue se ver fazendo nada disso, especialmente quando se trata de negócios. Muitos acham que seus clientes nunca mais os levariam a sério se os vissem fazendo dançando no TikTok.

Antes de ficar sofrendo por antecipação, temos que analisar com mais calma tudo isso.

A primeira coisa que temos que pensar é se precisamos mesmo estar no TikTok. Na verdade, a pergunta serve para qualquer rede social: afinal, temos que estar em todas as redes?

E a resposta é um categórico “não”!

Primeiramente porque isso exigiria uma enorme energia e muito tempo. Também seria um desperdício, por um motivo muito simples: nossos clientes não estão em todas as redes! Isso vale para qualquer negócio e para qualquer rede.

No TikTok, encontramos gente de todo tipo. Mas é inegável que a rede tem um forte apelo entre o público mais jovem. Logo, se seu negócio atende pessoas fora dessa faixa etária, não precisa perder o sono por não estar lá. Poucos negócios viriam para você por participar dela.

Mas digamos que você queira fazer parte desse movimento assim mesmo.

Nesse caso, se as “dancinhas” não são o seu estilo, não precisa ficar angustiado.

É verdade que o TikTok popularizou um estilo de comunicação no mínimo mais despojado, bem descontraído. As pessoas entram lá esperando encontrar algo nessa linha. Então um vídeo muito sério provavelmente não fará sucesso. Ou pior: pode até queimar a imagem do autor junto a esse público.

Então não faça isso!

Escolha o caminho do meio

A saída pode ser encontrar um meio termo entre as dancinhas e o que você costuma publicar em outras redes.

Antes de mais nada -e isso é muito importante- você precisa se sentir à vontade com qualquer publicação que você fizer em qualquer lugar. Se estiver se sentindo incomodado, é melhor repensar.

Há profissionais de vários segmentos dando suas mensagens, digamos “sérias”, no TikTok, mesmo com uma linguagem mais informal, mas não tão informal a ponto de fazerem “dancinhas”. O que importa é que seja divertido, que é a característica dessa plataforma. É o que seu público espera encontrar.

Já vi muitos profissionais de saúde, por exemplo, dando seu recado lá divertidamente, de um jeito que não comprometem sua credibilidade.

Na indústria de mídia, também começo a ver também algumas iniciativas interessantes, inclusive de jornalistas e de grandes veículos de comunicação, como o Estadão, o Washington Post e o New York Times. Isso foi tema de uma interessante palestra no Simpósio Internacional de Jornalismo Online, do Centro Knight, em julho.

Pode-se perguntar se o público desses veículos está no TikTok. Ou o contrário: se o público do TikTok consome o jornalismo desses veículos.

Possivelmente não.

Mas essas iniciativas podem ajudar a reforçar essas marcas justamente nesse público que não costuma frequentar seus aplicativos e suas páginas em outras plataformas normalmente. Tanto que o que esses veículos publicam no TikTok não são noticiário, ou pelo menos não como costumam fazer. Seus vídeos costumam trazer pílulas feitas com takes de acontecimentos do momento, brincadeiras ou releituras do noticiário em um formato bem descontraído.

Um “jornalão” bem tradicional, o Washington Post, com 142 anos de idade, contratou um editor dedicado ao TikTok, Dave Jorgenson. Até agora, ele já fez mais de 500 desses pequenos vídeos.

Pode-se dizer que eles têm pouco ou nada a ver com o estilo do próprio Post. São clipes humorísticos, a maior parte deles sem relação com o noticiário, apesar de ter boas sacadas, como fazer uma paródia com o “Garganta Profunda”, personagem-chave do escândalo de Watergate, revelado pelo Post, que acabou derrubando o presidente americano Richard Nixon. Com o trabalho de Jorgenson, o Post já conta com mais de 640 mil seguidores e 25 milhões de curtidas em seu TikTok.

Há alguns dias, eu conversava sobre isso como meu filho Matheus, que estuda jornalismo. Debatíamos se isso poderia, a longo prazo, transformar a própria linguagem jornalística, especialmente se o público mais jovem se acostumasse a consumir notícias nessas pílulas curtas, rasas e necessariamente divertidas.

Será que isso pioraria o jornalismo como um todo? Será que a notícia teria que ficar cada vez mais parecida com aquilo?

Penso que não!

Sem dúvida, é uma nova linguagem que se apresenta ao jornalismo e a qualquer outro negócio. Mas não quer dizer que, mesmo com sua popularidade, tenha que ser a única linguagem no futuro. Na verdade, acho que desempenha um papel interessante para atender uma parte da população que não consumiria jornalismo nos formatos mais tradicionais. A partir disso, essas pessoas podem migrar para um jornalismo “mais completo”.

Isso me lembra dos jornais sensacionalistas, os chamados “espreme que sai sangue”, como o finado “Notícias Populares”, em São Paulo. A despeito da elite da sociedade normalmente desprezá-los, eles tinham um papel social importante, especialmente em tempos pré-Internet. Eles eram a única maneira que uma parte da população tinha para se informar, pois eles não conseguiam ler ou simplesmente não gostavam dos veículos mais sérios. E, apesar dos títulos fantasiosas, da linguagem no mínimo exagerada e até de mentiras explícitas, eles cumpriam um papel de informar o cidadão no essencial.

Eles foram substituídos hoje pela desinformação que chega pelas redes sociais e pelo WhatsApp. Só que os jornais sensacionalistas eram, por incrível que pareça, melhores, pois eles não mentiam tanto e nem destruíam a sociedade, como as “fake news” fazem.

O TikTok pode, portanto, funcionar muito bem como uma porta de entrada não apenas para o jornalismo, como para qualquer negócio, inclusive o seu. E nem é preciso ficar “fazendo dancinhas” no vídeo.

Não devemos torcer o nariz nem abraçar de maneira deslumbrada a novidade. Basta você encontrar uma linguagem que lhe deixe confortável e que lhe permita passar a sua mensagem de um jeito divertido.

Se não der, sem problemas: a vida continua.

As ameaças à (e da) Internet

By | Jornalismo | No Comments

O aplicativo TikTok, da chinesa ByteDance, vem se destacando nas manchetes nas últimas semanas. E não é só porque ele se tornou o app mais instalado nesses meses de pandemia: de janeiro a junho, foram 315 milhões de instalações, o melhor desempenho de um app na história. O principal motivo foi ter sido alçado à posição de estrela na guerra que o presidente americano, Donald Trump, trava com a China, visando sua reeleição em novembro.

Mas o que um aplicativo de vídeos curtos pode ter de tão importante? Quanto das acusações de Trump são verdadeiras? E principalmente como isso impacta a vida de cada um de nós?


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Shakespeare escreveu: “há mais coisas no Céu e na Terra que foram sonhadas na filosofia”. Esse famoso trecho de Hamlet é muito propício ao momento.

Trump, como sempre, cria uma cortina de fumaça para esconder suas reais intenções. Mas há muito, muito mais em jogo, muito além até dos mesquinhos interesses do mandatário americano.

Algo que nos afeta a todos.

Primeiramente vamos contextualizar a história para quem não sabe do que se trata.

O TikTok vem sendo acusado de coletar muitas informações dos usuários, e de uma maneira mais sorrateira que o normalmente feito pelos aplicativos que instalamos despreocupadamente em nossos celulares. Até a famosa rede de hackers Anonymous chegou a levantar essa bandeira em julho.

Trump enxergou nisso uma oportunidade de fustigar ainda mais a China. Ele começou a afirmar, sem nenhum embasamento, que, além de coletar nossos dados, o TikTok os repassa ao governo chinês, como uma poderosa ferramenta de controle da população mundial.

A empresa e até o governo de Pequim sempre negaram isso. A plataforma até contratou, em maio, o americano Kevin Mayer como seu principal executivo, nunca tentativa de demonstrar que o TikTok é independente de seu país de origem.

Trump então ameaçou banir o TikTok do território americano. Foi quando, na semana passada, apareceu na história a Microsoft. A gigante do software disse que gostaria de comprar as operações do TikTok nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Ainda que relacionado a apenas esses países, isso lhe daria acesso aos códigos do programa.

Trump resolveu interferir na relação comercial entre duas empresas, o que é, no mínimo, inadequado. Em primeiro lugar, deu 45 dias para que a transação acontecesse. Depois disse que a compra deve ser total. E, por fim, o mais bizarro: disse que, qualquer que seja o valor que a Microsoft pague à ByteDance, uma “grande parte” deve ir para os cofres do governo americano: afinal, ele estaria permitindo que o negócio se concretizasse.

Parece que a conhecida liberdade empresarial americana virou fumaça, em uma narrativa digna de um ditador.

Mas, como já dito, essa história esconde um monte de elementos que vão muito além de Trump, do TikTok e da Microsoft. Coisas que nos afetam profundamente como cidadãos e como profissionais.

Quando eu comecei a desenvolver produtos digitais, bem lá no começo da Internet comercial, em 1995, ela despontava como um espaço idílico em que os dados trafegariam livremente, em que pequenos teriam o mesmo espaço dos gigantes, um mundo de oportunidades infinitas e democráticas.

Infelizmente aquela utopia se dissipou em poucos anos.

O tráfego livre dos dados se tornou um negócio de grandes conglomerados que descobriram maneiras cada vez mais eficientes para coletar nossos dados e organizá-los para serem transformados em informações comerciais valiosíssimas. Ou seja, a terra digital do “amor livre dos dados” rapidamente foi dominada por quem tinha muito dinheiro, de uma maneira que transformou profundamente nossas vidas.

O casamento dos smartphones com as redes sociais

O auge disso começou com a combinação de duas coisas. A primeira foram os smartphones, graças ao seu poder computacional imenso, que carregamos conosco o tempo todo. São a máquina perfeita de espionagem, pois nossa vida hoje acontece neles. A segunda foram as redes sociais, que criaram algoritmos e maneiras de convencimento para que compartilhemos alegremente todo tipo de informação pessoal.

Na verdade, essa combinação provocou uma incrível mudança cultural, em que sabemos que estamos sendo rastreados, mas que aceitamos que nossos dados sejam levados e usados, em troca de serviços supostamente gratuitos que essas empresas nos oferecem.

Trump sabe muito bem disso. Sua eleição como presidente dos Estados Unidos é parcialmente creditada a esse controle. Em março de 2018, explodiu o escândalo da empresa de marketing político britânica Cambridge Analytica. Ela foi contratada pela equipe da campanha de Trump para ajudá-los a convencer os americanos a votar no milionário. Para isso, a empresa roubou dados de 87 milhões de usuários do Facebook e os manipulou para, entre outras coisas, uma enxurrada de disparos em massa de fake news favoráveis a Trump.

O Facebook é a grande estrela nesse mundo de captura de informações dos usuários para fins às vezes inconfessáveis. Ninguém está mais bem posicionado que ele para isso.

Tanto que, na semana retrasada, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, foi sabatinado por deputados americanos sobre o poder imenso de sua empresa, em um processo que pode levar à divisão da companhia em empresas menores. E ele não estava sozinho: também foram questionados Sundar Pichai, CEO do Google, Tim Cook, CEO da Apple, e Jeff Bezos, CEO da Amazon.

Ou seja, o TikTok é só a bola da vez, que ganhou destaque pela sua rápida adoção, mas também por causa de Trump.

Ele coleta nossas informações? Com certeza!

Ele faz isso de maneira mais agressiva e mais furtiva que outros aplicativos, como o Facebook? Há suspeitas não confirmadas.

Ele entrega nossas informações ao governo chinês? Não há nada sério que sugira isso.

Apagar o aplicativo vai nos deixar protegidos de ladrões de dados? Claro que não! No máximo, isso nos protegeria da ByteDance, mas não dos desenvolvedores de todos os outros aplicativos em nosso celular.

Não há inocentes nessa história! Talvez os mais inocentes sejamos nós mesmos, os usuários, que entregamos graciosamente a nossa informação para aplicativos que nos dizem como ficaremos mais velhos ou com qual celebridade nos parecemos.

É a versão do século XXI dos índios que, no início da colonização, trocavam toras de pau-brasil que cortavam por espelhinhos presenteados pelos portugueses. Hoje, com nossos dados, sim, governos podem mudar o eixo de influência geopolítica do mundo.

Outra empresa chinesa que vem sendo pesadamente alvejada por Trump é a Huawei, que hoje lidera a tecnologia 5G, próxima geração de transmissão de dados por celular. O presidente americano usa seu poder para que governos do mundo todo impeçam que equipamentos da Huawei sejam adotados por empresas nesses países. Ele sabe que a nação da qual venha a tecnologia 5G dominante terá monstruosa influência política e econômica no mundo na próxima década, no mínimo. Sem falar no oceano de dinheiro que isso vai gerar, pelos royalties, licenças, compras de equipamentos e suportes.

E, no meio de tudo, estamos nós, como pessoas e como empresas.

Não sejamos otários! Não compremos brigas que não são nossas!

A verdade é que, infelizmente, continuaremos sendo colonizados. Enquanto o Brasil não investir seriamente em pesquisa, incluindo aí pesquisa de base, sempre estaremos à mercê de tecnologias de outros países, com tudo que isso traz. E nós, ao invés de avançarmos na ciência, temos dado largos passos para trás nos últimos anos!

É duro dizer isso! Mas é a verdade.

A questão é saber se continuaremos sendo colonizados pelos Estados Unidos ou se passaremos cada vez mais a ser colonizados pelos chineses. Uma vez que não conseguimos declarar até hoje a nossa independência, temos que ver, pelo menos, o que é o melhor para cada um de nós.

Quanto ao TikTok, use por sua conta e risco. Você não irá para o Inferno se continuar dançando na frente da tela com ele.