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Como a conquista das crianças pelo YouTube pode impactar empresas e a educação

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Foto: Tobyotter/Creative Commons

Pergunte a uma criança onde ela vê seus programas preferidos. Há uma grande chance de o YouTube ser a resposta. Ele caiu de vez no gosto dos pequenos. Ótimo para o Google, dono da plataforma! Mas isso abre algumas interessantes questões educacionais e de negócios.

Um recente levantamento da ESPM Media Lab, conduzido pela pesquisadora Luciana Corrêa, jogou luz sobre isso. Suas observações combinam com o relatório “Children and Internet use: a comparative analysis of Brazil and seven European countries”, produzido a partir de estudos comparáveis dos países participantes. No Brasil, os dados foram levantados pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação).


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Para crianças e adolescentes, o YouTube já é muito mais que uma simples plataforma de vídeos: é a sua principal ferramenta de busca para qualquer assunto, ocupando o espaço que o próprio Google tem para os adultos. Tanto que a empresa lançou o YouTube Kids, um versão do serviço com recursos especiais para crianças (ainda não disponível no Brasil).

Naturalmente os vídeos de entretenimento são o principal atrativo da plataforma. Corrêa identificou que, dos 100 canais com mais audiência do YouTube, 36 abordam conteúdo direcionado a crianças de 0 a 12 anos. E, de 110 canais brasileiros analisados (que já renderam 20 bilhões de visualizações), a categoria mais comum é a de “games”, seguida pela de “programação infantil também disponível na TV”. Apenas um canal era “educativo”.

A segunda categoria me chamou muito a atenção. Para as crianças, não existe diferença entre o conteúdo no YouTube, em serviços pagos de vídeo sob demanda (como Netflix) ou nas TVs por assinatura ou aberta: tudo é vídeo! E isso acende uma grande luz vermelha para o negócio das emissoras de TV.

As crianças estão vendo TV fora da TV!

 

Tela do passado

Acontece que os pequenos cada vez menos usam o aparelho de TV. Para elas, a programação “nativa” na telona é uma coisa anacrônica com três características muito indesejáveis: existência de uma grade de programação (que as obriga a assistir aos programas em horários específicos), programação continuamente interrompida por comerciais e impossibilidade de ver o conteúdo com privacidade. Não é de se estranhar, portanto, que o dispositivo preferido para assistir a vídeos seja o celular, e a plataforma seja o YouTube: a combinação elimina, de uma só vez, esses três incômodos.

Esse comportamento também pôde ser observado em uma outra pesquisa, realizada no ano passado pela comScore e pela IMS, com latino-americanos que veem vídeos online, uma realidade cotidiana para 81% do público pesquisado, contra apenas 70% da TV aberta (no Brasil, os números foram 82% contra 73% respectivamente). E os mais jovens eram os que mais preferiam vídeos online à TV.

Chegamos a debater neste espaço como o lançamento do Globo Play não deve cativar os mais jovens. O produto tem um formato técnico e um modelo de negócios semelhantes aos da Netflix, mas falha ao se manter atrelado à grade de programação da emissora. Não é, portanto, suficiente para estancar a sangria desatada do público.

Os fabricantes de TV, que já perceberam os ventos da mudança há alguns anos, estão transformando os aparelhos em poderosos computadores, capazes de rodar todo tipo de aplicativo, inclusive o YouTube e a Netflix (não por acaso os mais populares em suas plataformas). Resta saber o que as emissoras de TV farão para evitar que seu negócio mingue por falta de público.

Até o momento, não vejo grande coisa.

 

YouTube babá?

Mas há outro aspecto importante a se analisar nesse fenômeno: as crianças estão ficando tempo demais no YouTube?

Curiosamente, há uns 20 anos, essa pergunta recaía sobre a própria TV, chamada pejorativamente então de “babá eletrônica”. As crianças passavam horas a fio assistindo à sua programação, e depois seus pais acusavam-na de “deformar” seus filhos. A bola da vez para esse “cargo” é a tecnologia digital, com o YouTube em destaque.

Quando uma criança deve ter acesso à tecnologia é um debate que parece não ter fim. Existem bons argumentos a favor e contra. Particularmente acho um grande erro querer privá-las disso por princípio, pois vejo falhas conceituais no que diz a “turma do não”. Além disso, vivemos em um mundo em que a tecnologia digital é cada vez mais ubíqua, e, por isso, as crianças devem aprender, desde cedo, a se apropriar dessas ferramentas em seu favor.

O que não quer dizer abandonar as crianças à sua própria sorte com seus gadgets. Pais que acusavam a TV e, depois dela, a Internet, os videogames, os smartphones, o YouTube por problemas com seus filhos estão tentando jogar em outro a culpa que é, na verdade, sua!

Como explica muito bem a psicóloga Katty Zúñiga, do NPPI (Núcleo de Pesquisas da Psicologia e Informática) da PUC-SP, os pais não devem vetar o acesso à tecnologia para seus filhos, pois eles acabarão encontrando maneiras de burlar a proibição, eliminando a chance de os pais construírem algo juntos com os filhos nesse ambiente. Por outro lado, os responsáveis devem oferecer e incentivar outras atividades aos pequenos, como livros, brincadeiras, atividades manuais, passeios, para que as ferramentas digitais sejam apenas “mais uma” das atividades disponíveis para a criança. Pois, se ela não tiver alternativa, usará o que estiver à mão, no caso, literalmente, o smartphone. Além disso, os pais devem se envolver e demonstrar interesse genuíno pelo que seus filhos fazem nos meios digitais. Tudo isso é o que pode ser considerado um uso consciente e construtivo da tecnologia pelas crianças.

Sim, o cotidiano é difícil, todos têm que trabalhar, estão sempre na correria, sobra pouco tempo para lazer. Mas –sinto muito– nada disso serve de desculpa para não dispensar às crianças o tempo e a atenção que elas necessitam e merecem. Isso é ser pai e mãe.

Portanto, antes de o uso intensivo do YouTube pelos pequenos ser a causa de algum problema, ele é um sintoma. A plataforma pode ser muito interessante por si só. Não há nada de errado nas crianças gostarem dele, desde que não seja por falta de alternativas ou orientação. Muito mais que as emissoras de TV, são os pais que devem estar atentos a isso.


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Como a guerra entre Apple e o FBI pode acabar de vez com a sua privacidade

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Composição de imagens de divulgação/Apple e Federal Bureau of Investigation

Tim Cook, CEO da Apple (à esquerda), e agente do FBI:

No dia 16, a Justiça americana determinou que a Apple ajudasse o FBI a invadir um iPhone para recuperar informações nele, mas a empresa se recusou formal e publicamente. Pode parecer um pedido simples e uma recusa tola, mas o desenrolar desse caso pode abrir caminho para questões técnicas e judiciais que afetariam severamente a vida de qualquer pessoa no mundo com um celular, e não apenas iPhones. Isso inclui você!


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Para quem não sabe do que trata o caso, o telefone em questão pertencia a Syed Farook, um dos dois terroristas que mataram 14 pessoas na cidade americana de San Bernardino, no dia 2 de dezembro. O FBI acredita que os terroristas tinham ligações com o grupo Estado Islâmico, e que o telefone pode conter informações importantes para a investigação.

Um pouco de tecnicismo necessário: acontece que o iPhone, modelo 5C, está protegido por senha. E o iOS, sistema operacional dos iPhones e iPads, possui quatro importantes características de segurança a partir da sua versão 8, exatamente a que controla aquele aparelho: ele apaga todo o conteúdo no smartphone após dez tentativas de digitação de senha erradas em seguida, a senha só pode ser digitada manualmente na tela, toda a informação ali guardada é criptografada (ou seja, “embaralhada” a ponto de ficar ilegível sem a senha) e, talvez a mais importante de todas, a Apple afirma não ter nenhuma “chave” que lhe permita abrir um iPhone.

Colocando em termos simples, o FBI está com medo de forçar a fechadura e perder toda a informação do aparelho, e a Apple afirma que ela não tem meios para ajudar.

Na verdade, a coisa não é tão simples: trata-se de uma batalha tecnológica, jurídica e de marketing, com poder para impactar todo mundo.

O FBI exige que a Apple crie uma nova versão do iOS, que funcione apenas naquele iPhone e que derrube todos os entraves descritos acima, para que ele conecte o telefone a um supercomputador e, usando força bruta de processamento, acabe descobrindo a senha, sem correr riscos de perder os dados do aparelho. Especialistas em tecnologia afirmam que a empresa seria capaz de fazer isso. Portanto o FBI tem pontos válidos.

A Apple, por sua vez, diz que não, e que tais recursos de segurança foram incluídos para justamente nunca ser obrigada a atender a pedidos como esse. Mas a empresa vai mais longe! Afirma que não consegue atender ao pedido, mas que, caso conseguisse, isso criaria um “backdoor” (termo técnico para um sistema que permite invasão e controle de um computador à distância), e que não teria como garantir que o sistema não fosse depois usado a bel prazer pelo governo ou por hackers. A empresa também argumenta, com razão, que isso abriria um perigosíssimo precedente legal para que governos de todo o mundo começassem a exigir, de empresas de tecnologia, a invasão da privacidade de seus usuários. Tim, Cook, CEO da Apple, chegou a publicar uma carta aberta, em que termina afirmando que a exigência “poderia prejudicar a independência e a liberdade que nosso governo deve proteger.”

Em um mundo em que todos nós, cada vez mais, usamos nossos smartphones para realizar as mais diversas tarefas e guardar as informações mais íntimas e preciosas, um sistema que potencialmente permitisse a governos ou criminosos invadir qualquer telefone no mundo teria o mesmo efeito devastador da abertura da mitológica Caixa de Pandora.

Segundo a mitologia grega, sua abertura deixou escapar todos os males do mundo, permanecendo guardada nela apenas a esperança.

 

Duelo de titãs

Os dois lados têm, portanto, argumentos sólidos e válidos. A Apple possui, todavia, um supertrunfo que, na minha opinião, liquida todos os demais: o compromisso de manter a privacidade de seus usuários.

Não sejamos inocentes: a própria Apple, o Google, o Facebook e muitas outras empresas de tecnologia nos rastreiam cada vez mais, obtendo informações o tempo todo sobre quem somos e o que fazemos para ganhar dinheiro das mais diferentes formas com tais dados. Ainda assim, a Apple está se posicionando como uma defensora da privacidade de seus consumidores (na verdade, quase que se coloca como uma porta-voz de todas essas companhias) e, de quebra, escancara para o mundo que teria um celular tão seguro que nem o governo dos EUA conseguiria invadir. Jogada de mestre de marketing!

Mas o fato é que qualquer governo adoraria ter uma ferramenta de rastreamento e controle de seus cidadãos. E não me refiro apenas a ditadores, como o norte-coreano Kim Jong-un, ou ao governo chinês. Isso também acontece nas nações que se dizem as mais democráticas, como os próprios Estados Unidos em análise aqui, que sempre se colocam como os bastiões da liberdade e dos direitos civis. Está aí o Edward Snowden que não me deixa mentir!

E se você acha que isso acontece só longe de você, nos EUA, na China ou na Coreia do Norte, saiba que está acontecendo agora bem debaixo dos nossos narizes brasileiros. Como já foi discutido aqui nesse espaço, o Congresso Nacional se esforça continuamente para criar leis para nos rastrear e ampliar os privilégios de políticos, inclusive usando a tecnologia.

E você achando que o Big Brother era o máximo da arapongagem…

Sabemos que aquelas empresas estão o tempo todo ganhando dinheiro com as nossas informações continuamente coletadas, e que ainda não foi inventado nada melhor que os smartphones para essa tarefa. Mas recebemos delas uma infinidade de serviços em troca, que tornam nossas vidas muito mais fáceis e mais divertidas. E por isso, conscientemente ou não, pelo jeito achamos essa uma troca justa. Por isso ninguém vai abandonar seu smartphone.

Mas permitir que governos (sem falar no crime organizado) transformem os smartphones em máquinas de espionagem e controle a seu serviço, isso é inaceitável!

Acalento a esperança, justamente aquela que foi a única coisa que sobrou dentro da Caixa de Pandora, de que eles nunca ponham as mãos nesses códigos, pois sua voracidade faz o uso de nossos dados por empresas parecer coisa de criança.


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A Internet conhece você melhor que sua mãe

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Foto: Adam Mancini / Creative Commons

Nessa semana, fui apresentado a mais um sistema online que parece conhecer meus amigos melhor que eu mesmo, e é capaz de detectar traços da minha personalidade que talvez nem minha própria mãe saiba. Isso tudo sem responder a nenhuma pergunta, em poucos segundos. Quando me deparo com algo assim, sempre penso que vivemos na era do fim da privacidade, liquidada pela combinação de algoritmos astutos, enorme capacidade de processamento e nossa vida cada vez mais online.

Não se trata do primeiro serviço que faz isso. Facebook e Google, só para ficar nos mais óbvios, detêm uma quantidade inimaginável de informações parametrizadas sobre cada um de nós, que sabem como transformar em dinheiro. Nesse mesmo espaço, já discuti também sobre o Apply Magic Sauce, criado pela da Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido), capaz de realizar uma impressionante análise psicológica do usuário, tendo, como base, apenas suas “curtidas” no Facebook.

O que me chamou a atenção sobre o novo serviço, chamado Crystal, é que ele não precisa ter acesso à conta do Facebook, Google, Twitter, LinkedIn ou qualquer outra do indivíduo. Na verdade, você pode saber como a pessoa é sem sequer ser amigo dela. Basta digitar o seu nome e identificá-la entre possíveis homônimos. A “mágica” se dá pela análise de conteúdos públicos na Internet atribuídos ao indivíduo.

O sistema oferece uma estimativa de precisão, que cresce à medida que encontra mais informações na rede sobre o pesquisado. Se encontrar pouca coisa, informa que o relatório pode não ser confiável. Por outro lado, se atinge um patamar mínimo, ele sugerirá como você deve se comportar quando estiver conversando com a pessoa, enviando-lhe um e-mail ou trabalhando com ela. Ainda dirá o que é natural ou não para o pesquisado.

Sobre mim, o Crystal lembra que, ao falar comigo, não se deve perder o foco no todo, enquanto é aceitável usar emoticons em e-mails. Também é bem-vindo, por exemplo, usar tempo para explorar novas ideias quando trabalhar comigo. Acerta quando diz que falo sem rodeios e que não me ofendo com piadas de gosto duvidoso.

Tudo isso só a partir de um nome.

 

Somos livros abertos

Nunca a expressão “minha vida é um livro aberto” foi tão verdadeira. Só não é perfeita porque as informações hoje não são mais tão coletadas dos livros, e sim da Internet.

O problema é que nem sempre o “dono do livro” gostaria que ele estivesse assim escancarado. Mas, verdade seja dita, é um problema cada vez menor, pois as pessoas vivem um momento de deliberadamente se expor ao mundo, especialmente nas redes sociais, muitas vezes de maneira exagerada e até perigosa.

Mais sensível que isso é o fato de que aparentemente falta à população a consciência da amplitude desses seus atos. Embarcamos na superexposição por diferentes motivos: para “fazer parte do grupo”, para nos sentirmos queridos (ou vistos), para expressar nossos sentimentos e crenças (boas e ruins). Há também o compartilhamento de informações, às vezes íntimas, com aplicativos nos celulares ou nas redes sociais: abrimos mão da nossa privacidade pelo simples desejo de usar algo novo, desde uma incrível inovação, até um simplório brinquedinho.

Conscientemente ou não, espalhamos nossas pegadas digitais o tempo todo. Essa é a realidade posta, e não há volta disso. Crystal, Apply Magic Sauce e todos os recursos do Google e do Facebook são exemplos de como alimentamos o sistema, e dele recebemos algo em troca.

Não é tão ruim quanto as ficções distópicas de “1984” ou de “Matrix”, mas estamos sendo sempre vigiados nessa nossa relação simbiótica com o sistema. Mas nem mesmo Neo ou o Grande Irmão pensaria em algo tão complexo e eficiente.

Você é o que você gosta

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Home page do serviço "Apply Magic Sauce" - Imagem: reprodução

Home page do serviço “Apply Magic Sauce”

Seus pais provavelmente lhe falavam: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Mas em tempos de tecnologia ubíqua, o ditado, além de velho, parece ultrapassado. Para saber quem é você, o melhor é prestar atenção no que você gosta ou, mais especificamente, no que você “curte”.

Deixamos, o tempo todo, nossas pegadas digitais por aí, e elas são cada vez mais profundas e reveladoras. Há duas semanas, comentei aqui a crise causada pelo vazamento de informações dos assinantes do Ashley Madison, recomendando que pelo menos tentemos cuidar das informações pessoais que publicamos na Internet. O problema é que inadvertidamente fazemos pequenas ações que dizem muito sobre nós.

Quantas vezes você clica, todos os dias, no botão “curtir” do Facebook, seja nas páginas da própria rede social, seja naqueles que estão espalhados pelos mais diferentes sites? Não se sinta constrangido se a resposta for um número alto: essa ação inocente está tão integrada ao nosso cotidiano, que talvez nem saibamos responder a essa pergunta.

Mas não se engane: de inocente ela não tem nada. Mesmo quando “curtimos” uma pueril foto de gatinho ou uma piada tosca de um amigo, estamos afirmando um pouco do que somos. E a soma disso tudo pode ser surpreendente.

O Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge (Reino Unido) criou, já há algum tempo, uma interessante ferramenta para demonstrar isso. Batizada de Apply Magic Sauce (algo como “Aplique o Molho Mágico”), o site faz, em poucos segundos, uma análise psicológica do usuário, incluindo os principais itens de sua personalidade, gênero, idade percebida, orientação sexual, inteligência, satisfação com a vida, orientação política e religiosa, educação e status marital. Detalhe importante: a única fonte de informação analisada são as suas “curtidas” no Facebook, nada mais. Nem mesmo o que você posta é considerado. E, mesmo o sistema estando calibrado para o idioma inglês, seus resultados têm uma precisão impressionante, quase assustadora.

Não é de se espantar que o nome da versão anterior da ferramenta era “You Are What You Like” (“Você é o que você gosta”).

 

Fazenda de dados

Imagem: reprodução

Se um instituto independente consegue tirar conclusões assim apenas a partir das “curtidas” do sujeito, que dizer então do verdadeiro “dono” da informação: o Facebook?

Mas a rede de Mark Zuckerberg está longe de ser a única empresa com esse poder. Seu maior rival, o Google, conseguiu colocar, no bolso da maioria de nós, um “rastreador” que carregamos alegremente. O Android, sistema operacional que dá vida à maioria dos celulares do mundo, é uma pequena maravilha na coleta de informações pessoais, de maneira quase inconsciente.

O “quase” acontece porque nós, de fato, autorizamos explicitamente essa coleta (e isso vale para qualquer sistema, não apenas o Android). Ao configurar um novo aparelho, respondemos afirmativamente várias perguntas que, na verdade, sequer entendemos do que tratam. E reafirmamos esse nosso “desprendimento” quando baixamos novos aplicativos. Eles invariavelmente listam toda informação pessoal a que terão acesso (muitas delas completamente desnecessárias para seu funcionamento). E nós graciosamente concedemos isso, ao clicar no botão “aceito”, quase sempre sem sequer ler a relação do que lhes repassaremos. A ânsia por baixar o novo aplicativo é tão grande, que o “aceito” do botão poderia ser perfeitamente substituído por um “me dá logo!”

É um fenômeno social maiúsculo o que vivemos. Grupos de proteção à privacidade pressionam governos para tentar limitar o acesso das corporações às informações pessoais. Por outro lado, as pessoas estão cada vez mais lenientes com o compartilhamento de seus dados em troca de serviços que efetivamente tornam suas vidas mais eficientes e divertidas.

Estou absolutamente certo que ninguém deixará de usar seu celular ou o Facebook só pelo que eu disse acima. Eu não deixarei! Mas precisamos estar cientes de que as empresas nos conhecem muito mais que nossas mães, talvez mais que nós mesmos! E, quem sabe, passar a ler a lista do que estamos dando antes de clicar “aceito”.

Deus e o diabo na terra da mídia

By | Jornalismo, Tecnologia | 2 Comments

Montagem de Zuckerberg sobre o cartaz do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol" - Imagens: divulgação e reprodução

Os artigos instantâneos, recurso lançado pelo Facebook na última quarta (13), podem representar uma grande oportunidade para a mídia. Entretanto muitos colegas temem que, ao adotar a novidade, os veículos de comunicação estejam abraçando o diabo.

Para quem não sabe do que se trata, a nova funcionalidade da rede de Mark Zuckerberg permite que os veículos publiquem seu conteúdo efetivamente nas suas linhas do tempo, ao invés de criar posts que remetam aos conteúdos em seus sites. Pode parecer uma sutileza tola, mas não é: a experiência do usuário com o conteúdo começa já na linha do tempo. Ao clicar no post, o conteúdo é aberto diretamente no Facebook, e não no site do veículo, de uma maneira muito mais rápida. Além disso, a plataforma oferece recursos editoriais interessantes, que podem tornar a experiência ainda mais envolvente.

Como o recurso por enquanto está disponível apenas no aplicativo do Facebook para iPhone, você pode ver como ele funciona no vídeo abaixo, do TechCrunch:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yFDT3_7e0Gs]

O conteúdo publicado no novo formato não ganhará nenhuma relevância adicional, portanto a chance de aparecer no seu feed de notícias será a mesma de qualquer outro post do mesmo veículo. Em compensação, por ser mais envolvente, em tese ele será muito mais compartilhado pelos próprios usuários, aumentando consideravelmente sua audiência. Como os veículos ficarão com toda a receita dos anúncios que venderem para os artigos instantâneos (se o Facebook vender, ele fica com 30%), é uma maneira interessante de monetizar o conteúdo promovido na rede, algo de que os veículos de comunicação sempre reclamam por não ter bons resultados.

Parece bacana, não é? Então qual é o problema?

Há alguns pontos importantes a se considerar. Primeiramente, ao colocar o conteúdo efetivamente dentro do Facebook, o veículo de comunicação deve entender que o indivíduo não mais consumirá tal conteúdo em seu site ou aplicativo. Receita e audiência podem ser mantidos (e até ampliados) pelo compartilhamento de números com o Facebook, mas é um fato que o usuário estará fora do “ambiente” do veículo, o que pode limitar sua capacidade de incentivar o indivíduo a consumir mais conteúdo ou outros produtos da casa.

Outro medo é que, ao adotar as novidades, os veículos estejam alimentando um monstro que depois os engolirá. O Facebook hoje já é mais relevante na vida das pessoas que qualquer veículo de comunicação. Mas, apesar de ser um canal de distribuição formidável (para alguns grandes veículos, chega a responder por um terço de sua audiência), ele não produz nenhum conteúdo. Se começarem a publicar diretamente no Facebook, por mais que o material esteja dentro das páginas dos veículos, há um temor de que o usuário diga, cada vez mais, “vi no Facebook” ao invés de “vi no Estadão”, por exemplo. E, nesse caso, quem será o “dono” do conteúdo?

Por fim, mas não menos importante, hoje o modelo de negócios oferecido é francamente favorável aos veículos. Mas qual é a garantia que, lá na frente, quando a mídia estiver despejando toneladas de “artigos instantâneos”, o Facebook não mude as regras do jogo, tornando-o (muito) mais interessante para si? Fazendo um paralelo com jornais e revistas, é como se todos os caminhões da cidade decidissem cobrar o dobro para entregar os impressos.

Apesar de tudo isso, alguns dos principais nomes da mídia abraçaram a novidade em seu lançamento: The New York Times, National Geographic, BuzzFeed, NBC News, The Atlantic, The Guardian, BBC News, Spiegel Online e Bild. Alguns deles, veículos com muita estrada, já têm boas iniciativas online, como The Guardian e The New York Times. E há também o BuzzFeed, digno representante da mídia nativamente digital e que já tem íntima relação com o Facebook. É muita gente boa abraçando o diabo! Será que os truques do Coisa-Ruim enganaram todos eles? Quero crer que não.

Qualquer um poderia dizer: “se o negócio ficar ruim depois, o veículo pode simplesmente abandonar o formato”. Isso é verdade. Mas talvez o Facebook já terá se transformado do jacaré atual em um tiranossauro. E pular fora de seus domínios poderia eventualmente diminuir ainda mais a relevância de qualquer veículo.

Nesse jogo de xadrez, o novo recurso foi uma jogada de mestre de Zuckerberg. Agora é a vez dos veículos jogarem. Talvez o Facebook nunca use esses “lances do mal” descrito acima. Talvez os “artigos instantâneos” não cheguem a fazer sucesso com os usuários. Quem sabe? Isso é tudo especulação afinal.

O que é certo é que os veículos batem cabeça há 20 anos na mídia digital, sem conseguir criar um modelo realmente vencedor que garanta a sua continuidade. Pelo contrário: continuamos vendo veículos, alguns centenários, fechando suas portas. E o culpado por isso não é o Facebook, o Google ou, em um sentido mais amplo, a Internet.

Os culpados são os próprios veículos, que parecem ter esquecido como ser relevantes para seu público. Estão tão preocupados com sua minguante receita publicitária, que não dão tanta importância para ele, sua razão de existir.

A maioria dos veículos que hoje agonizam nasceram nos séculos 19 e 20 para atender a comunidade onde estavam, um grupo social ou um ideal. Cresceram fieis a isso. Mas acabaram se tornando máquinas muito bem azeitadas de fazer dinheiro, que já não vinha tanto de seu público, e sim da publicidade. Não estou condenando a publicidade de forma alguma, mas isso só funcionou (e funcionou por muitas décadas) enquanto esse público não tivesse algo com o que se sentisse mais bem representado.

Isso aconteceu com o fortalecimento da mídia digital. Para desgraça dos veículos, seus concorrentes deixaram de ser os outros veículos, uma batalha que eles conheciam, para ser qualquer site ou aplicativo que lhes roube o tempo que seu antigo público lhes dedicava. Com o declínio da audiência, a publicidade arrumou as malas e os deixou.

Parte da relevância perdida pode estar no conteúdo, que muitas vezes já não atenda mais às expectativas das pessoas, e até mesmo ao alinhamento político e econômico dos veículos. Isso vem ficando cada vez mais claro nos últimos anos, com as crescentes críticas a veículos tradicionais. De todo jeito, isso é um problema editorial, que pode ser resolvido.

Mas outra parte do problema está justamente em como qualquer produto chega a seu público. O veículo pode produzir o conteúdo mais incrível e alinhado a ele, mas de nada adianta se isso não impactar as pessoas. Elas não assinam mais um monte de papel que inexoravelmente chegará a suas portas para ser consumido. Agora, cada pílula de conteúdo precisa trilhar o seu caminho até seu consumidor, de maneira individual. Se for competente, carregará o usuário para outros conteúdos da mesma marca.

Portanto, nada mais burro e anacrônico que ficar brigando com o Google, por causa de seu Google Notícias, como fazem os jornais. Isso só demonstra como eles estão descolados das pessoas, o que nos remete ao problema de relevância acima.

Os veículos têm obrigação de entregar o seu conteúdo de todas as maneiras que conseguirem, principalmente as mais criativas. Isso embute riscos enormes, como os descritos acima? Claro! Mas eles foram –e continuam sendo– absurdamente incompetentes em criar maneiras efetivas de manter seu público e conquistar novos consumidores. Insistem em transpor seus produtos tradicionais e especialmente seus modelos de negócio anacrônicos para uma nova realidade. Mas isso é impossível.

Nesse cenário, o Facebook é outra noiva com um dote gigante demais para ser ignorada. Não sei se essa moça bonita é o diabo como dizem alguns, mas os veículos devem considerar esse abraço. E torcer para isso gerar filhotinhos bonitos e saudáveis.

Mais um round entre a mídia míope e o futuro

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Logos da Rede Globo em 1965 e hoje

Logos da Rede Globo em 1965 e hoje: o grupo está perdendo a capacidade de olhar para o futuro?

Os profissionais dos diferentes veículos das Organizações Globo estão proibidos de colocar links nas fan pages dos próprios veículos no Facebook. Continuam fazendo chamadas, mas nada de link, apenas frases toscas como “Leia a reportagem no site de ÉPOCA”. O G1 radicalizou: usa uma imagem padrão agrupando indiscriminadamente seus títulos, três a três, sem qualquer outra preocupação: uma “antichamada”.

Chega a ser patético o apelo para que os usuários entrem no site do veículo e saia procurando pelo conteúdo que quer ler, uma tentativa medíocre e desesperada de aumentar a audiência valendo-se de um desserviço ao próprio usuário. A iniciativa só não é mais ridícula que a falta de raciocínio que levou a ela: para os executivos da Globo, o Facebook “rouba” audiência de seus portais, assim como agregadores ou leitores de RSS. Segundo essa visão com miopia beirando a cegueira, usuários estariam se “satisfazendo” com as chamadas criadas pelos próprios jornalistas e as três primeiras linhas do texto que o Facebook automaticamente replica na chamada.

Se isso fosse verdade, tiraria algumas conclusões. A primeira seria que o conteúdo de todos os produtos da Globo seria uma porcaria tão rasteira, que ninguém se interessaria em ler nada além daquelas poucas palavras na chamada. Também poderia concluir que os responsáveis pelas fan pages seriam tão incompetentes que nada que eles produzissem convenceria os usuários a visitar suas páginas.

Felizmente não é nada disso: os conteúdos da Globo normalmente são bons, e os únicos incompetentes nessa história são os que propuseram essa iniciativa lamentável. Esse é apenas o mais recente capítulo da briga entre a mídia tradicional, que, apesar de ainda ser capaz de produzir bom jornalismo, tem uma visão de negócios cada vez mais decadente. Diante de sua constatação de ser incapaz de controlar o futuro, tente impedir sua chegada, parando de dar corda no próprio relógio.

Por que o Facebook incomoda tanto esses arautos do ostracismo? Porque ele, assim como o Google, agregadores e outros produtos e serviços que ditam as tendências de distribuir conteúdo de uma maneira inteligente e pensando no usuário, diminui ainda mais a relevância das home pages de portais e sites desses veículos. Até havia alguns anos, quando eles ainda detinham o poder sobre a produção e distribuição do conteúdo jornalístico, a melhor maneira de se informar era entrando nessas home pages. Com elas, as empresas promoviam o conteúdo que consideravam pertinentes e dirigiam os usuários dentro de sua estrutura de navegação. De quebra, geravam dezenas de milhões de page views nesse processo, o que significa dinheiro extra entrando no caixa. E até hoje elas ainda representam uma porcentagem muito considerável no total de page views desses sites. Portanto, para eles, qualquer coisa que ameace essa vaca leiteira deve ser combatido.

Mas o mundo mudou. Desde que “o Facebook se tornou o jornal e seus amigos os editores”, as home pages deixaram de ser importantes. Para as pessoas, é muito mais interessante ler o que seus amigos estão promovendo que as escolhas feitas pelos editores. Por isso, atitudes retrógradas como essa adotada pela Globo só demonstram como os executivos das empresas de mídia estão descolados do mundo que seus veículos cobrem. Não reverterão em nada a linha descendente de sua audiência e ainda desestimularão as pessoas a dar links para seus conteúdos.

Ao invés de continuar combatendo o futuro, os executivos das empresas de mídia precisam aprender a tirar proveito do que ele tem a oferecer, incluindo aí o Facebook, o Google, os agregadores e tantas outras coisas que eles insistem em demonizar. Não é “dar de graça” seu trabalho, e sim apresentá-lo da maneira que seus clientes querem, para assim continuarem sendo seus clientes.

Ah, normalmente eu daria links para fan pages de veículos da Globo. Mas não farei isso.

A eleição que os jornais quase não cobriram

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A home page do Estadão anunciando a vitória de Haddad e a página de resposta do Google sem link para qualquer jornal

Com 100% das urnas apuradas no segundo turno, o Estadão não cobriu a eleição para a prefeitura de São Paulo. Calma, não se trata de uma reação maluca diante da vitória de Fernando Haddad. É apenas a impressão que o internauta teve se procurou pelo assunto no Google, que responde por mais de 90% das buscas no Brasil. Sua resposta a “resultado eleição são paulo” traz um link para o Estadão apenas em sua segunda página, na 17ª posição, atrás de links para o UOL, a Agência Notícias, o R7, o Terra, o Globo.com, o G1, o Yahoo!, a Veja, e até um site oportunista totalmente baseado em SEO, chamado eleicoes2012.info. A primeira menção à Folha surge só na terceira página de respostas. Se o usuário então clicar na seção “notícias” do Google, os jornais desaparecem por completo.

Isso é um resultado péssimo, já que a maioria dos internautas se satisfaz com os resultados da primeira página de respostas do buscador. Graças a esse mau posicionamento, os sites dos jornais perdem milhões de page views ao final do mês, podendo chegar a 10% de sua audiência global, o que certamente tem um impacto muito considerável em sua receita publicitária online.

Esse posicionamento só não foi pior porque as eleições representam o assunto mais importante do ano para os jornais, superando até mesmo as Olimpíadas de Londres. E, ao contrário da provocação do primeiro parágrafo, eles, sim, cobriram  –e muito bem– o pleito municipal. Com isso, subiram na classificação do Google. Mas se o mesmo internauta procurasse por “último capítulo de avenida brasil”, outro tema que causou comoção nacional recentemente, o único grande jornal a aparecer nas cinco primeiras páginas de resposta é a Folha, e timidamente com um link na quarta delas, na 48ª posição, atrás de sites absolutamente inexpressivos.

Em um primeiro momento, pode parecer que o Google está falhando ao trazer as páginas mais relevantes para seus usuários. Mas os resultados são igualmente ruins no Bing e na busca do Yahoo!. E não se trata de uma falha nos algoritmos dos buscadores. Na verdade, os jornais foram praticamente banidos porque explicitamente pediram isso.

A discussão já dura uns oito anos, e começou com os jornais internacionais acusando o Google de estar roubando as reportagens desses veículos para construir seus serviços, especialmente o Google News (ou Notícias). Desde então, muita discussão vem acontecendo. No Brasil, desde o ano passado, a ANJ (Associação Nacional de Jornais) recomenda a seus 154 associados que deixem o serviço, o que vem sendo seguido por todos.

Para isso, basta incluir um simples comando em todas as páginas de seu site, para que o Google deixe de exibi-las no Google Notícias e na seção “notícias” do buscador. O problema é que essa ação também derruba a relevância dessas mesmas páginas na busca orgânica, o que é a causa da situação descrita nos primeiros parágrafos deste post.

Os jornais são os detentores legítimos de seu conteúdo, ninguém questiona isso, nem mesmo os buscadores. Dessa forma, eles têm o direito legítimo de “proteger” seus produtos de quem estiver fazendo uso indevido deles.

Já os buscadores sempre argumentaram que os seus serviços são construídos com base no “uso justo”, ou seja, usariam pequenos trechos do conteúdo dos veículos, retribuindo-lhes com links diretos e crédito. Dessa forma, ninguém deveria nada a ninguém.

Os dois lados têm, portanto, argumentos defensáveis. Mas façamos uma análise meramente monetária. Por ter seguido recomendação da ANJ, é razoável supor que um grande jornal brasileiro tenha “perdido” 10 milhões de page views em um mês, que não vêm mais do Google. Sendo muito conservador, podemos supor que as receitas médias com publicidade, somando todas as inserções, cheguem a R$ 0,05 por página, depois de todos os descontos. Ou seja, esse veículo vem deixando de faturar R$ 500 mil por mês.

Não me parece pouco. Ainda mais porque os jornais estão passando por tempos bicudos, demitindo e até encerrando títulos (o “Jornal da Tarde” parece ser o próximo da lista de defuntos, possivelmente deixando de circular em novembro, segundo o burburinho do mercado).

Mas o mais grave não é a perda financeira: é a incapacidade (ou seria teimosia?) de os jornais aceitarem que seu modelo de negócios, forjado no século 19 e sustentado pela publicidade e pela assinatura de um produto “consolidado” (onde o cliente paga por tudo, mesmo que consuma apenas uma parte), não encontra mais lugar no mundo.

Além de perderem a dinheirama acima, assistem praticamente imobilizados às mudanças da mídia, que os condena cada vez mais ao ostracismo. Sim, porque o Google Notícias é mídia, assim como o Flipboard e os outros agregadores, os blogs e tantas outros. Players que, se não “roubam” seus conteúdos, certamente levam embora seu público (que procura alternativas mais modernas e adequadas), e para os quais as empresas de comunicação tradicionais torcem o nariz e batem o pé, ao invés de aprender algo com eles.

Isso me lembra a fábula “A Raposa e as Uvas”, de La Fontaine. Mas me dá muita pena que, neste caso, as empresas de comunicação tradicionais são raposas que poderiam perfeitamente usar escadas para alcançar suas uvas. Mas se recusam a isso.

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto?

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Imagem: reprodução

No Estadão de ontem, Eugênio Bucci se baseou em uma charge que tem circulado pelo Facebook para fazer uma interessante análise sobre como a atividade jornalística deveria ser financiada. Ele defende algo que já foi tratado aqui no dia 7 de novembro: para uma imprensa realmente livre, o financiamento deve vir de seu público.

Mas não é apenas com dinheiro que esse financiamento pode ser feito, como o próprio jornalista explica. E justamente aí entra a charge, reproduzida acima e publicada originalmente no site Geek and Poke (sem a pertinente crítica ao Facebook). Resumidamente, se você não está pagando em cash pela notícia, está aceitando que o veículo venda uma parcela da sua atenção aos anunciantes. E aí você deixaria de ser o cliente e passaria a ser o produto.

Isso não é nada novo: toda a TV aberta (e não apenas seus produtos jornalísticos), com seus custos de produção altíssimos, sempre foi mantida pela publicidade. Nesse caso, o público sempre foi o produto, consciente disso. A novidade é que esse modelo está extrapolando suas formas tradicionais.

Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto? Temos, por exemplo, o Positivo, fabricante de computadores que se firmou no mercado com uma imagem de equipamentos com preços baixos. Como forma de ampliar os seus ganhos, a empresa agora quer colocar anúncios na área de trabalho do Windows de seus consumidores e até nas caixas de seus computadores.

A gigantesca Microsoft também embarcou nessa onda, inspirada no seu rival Google, que espalha seus microanúncios pelos seus produtos. O Office Starter, versão light do seu pacote de escritórios com apenas o Word e com o Excel, vem pré-instalado em computadores e pode ser usado gratuitamente, desde que o usuário não se importe com os anúncios que exibe.

Aplicativos para smartphones, mesmo os que custam um mísero US$ 1, também costumam oferecer uma versão completamente gratuita, subsidiada pela exibição de anúncios. Pagando pelo produto, os anúncios desaparecem.

O fato: em maior ou menor grau, as pessoas parecem não se importar muito com essa invasão publicitária, principalmente em produtos que foram concebidos com a presença dos anúncios. Dessa forma, se incomodam mais com os anúncios ocupando espaço na sua tela do Word que com anúncios em produtos jornalísticos.

Será esse o caminho que o jornalismo deve seguir para se sustentar?

Separação Igreja-Estado

É uma possibilidade a ser considerada, com serenidade. Outros modelos já discutidos aqui, como o “soft paywall” do The New York Times, também podem render frutos. Mas as empresas de comunicação precisam aceitar o fato de que o público resiste em desembolsar seus cobres pelo noticiário.

Caso decidam ampliar o caminho da publicidade, os publishers precisam reforçar o conceito da “separação Igreja-Estado”. Ou seja, decisões comerciais não podem influenciar o noticiário, e vice-versa. Dessa forma, a Redação deve ter liberdade para criticar uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante.

Bucci explica o motivo em seu artigo: mesmo em um ambiente financiado por publicidade, o público deve ser considerado como o verdadeiro cliente, pois é apenas por causa dele que os anunciantes colocam dinheiro nos veículos. Dessa forma, tem o direito de receber um produto jornalístico isento e focado em seus interesses.

As empresas estão dispostas a fazer isso? No mundo ideal, sim; na prática, poucas são capazes de levar esse conceito até o fim.

Os publishers devem avaliar esses dois conceitos –maneiras criativas de financiamento por publicidade e a garantia da independência editorial– com muita atenção. O mundo quer o público como produto e as próprias pessoas parecem topar essa situação. Mas os jornalistas nunca devem deixar de encará-las como os seus verdadeiros clientes. Qualquer que seja o modelo de financiamento, a essência do jornalismo passa por garantir um noticiário isento.

Olha quem está falando

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Novo recurso do Facebook: "falando sobre isso"

O Facebook lançou há alguns dias o recurso “falando sobre isso” nas “fan pages”, páginas criadas por pessoas e empresas para promover o que fazem e o que gostam. A novidade mostra quantos usuários da rede social se relacionaram com cada página nos últimos sete dias. Por “se relacionar”, entenda-se compartilhar qualquer conteúdo publicado ali, fazer comentários, posts, incluir ou marcar fotos, responder a um evento ou simplesmente clicar no botão “curtir”. Na pratica, o que o Facebook espera é medir o “engajamento” em torno do assunto da “fan page”.

Por trás de mais uma métrica social aparentemente inocente, o “falando sobre isso” esconde a intenção do Facebook de criar um novo modelo comercial com valor um tanto intangível: o relacionamento das pessoas com qualquer marca. A empresa fatura alto com os pequenos anúncios que coloca em todas as suas páginas, alinhados com o perfil de cada usuário. Mas, para isso, depende que esses mesmos usuários cliquem nas peças. Com seu novo lançamento, a rede de Mark Zuckerberg quer tentar minimizar a importância dos cliques nos anúncios e mostrar ao mercado publicitário que é capaz de trazer valor sem eles, algo que, de quebra, ninguém consegue hoje fazer tão bem quanto o próprio Facebook.

Ninguém discute que o engajamento em torno de uma marca tem um enorme valor. Ele é uma das chaves para o que o mercado publicitário chama de “mídia espontânea”, ou seja, a exposição de uma marca em notícias e outros formatos não pagos, em oposição à “mídia paga”, que são os anúncios. Mas quanto o “falando sobre isso” realmente mede disso? Além do mais, o engajamento indicado pela novidade pode incluir pessoas fazendo comentários negativos sobre a marca.

Essa característica “etérea” do engajamento é o principal obstáculo para que o novo modelo seja aceito pelo mercado publicitário. É difícil de medir resultados nisso, ao contrário dos cliques nos banners, claramente identificados, justamente uma das maiores vantagens que a Internet oferece ao mercado publicitário diante de outras mídias, incapazes de dar um retorno tão precisamente identificado.

Dois coelhos

Para o Facebook, conseguir tal convencimento mataria dois coelhos com uma cajadada só. Primeiramente o colocaria em ampla vantagem sobre toda a indústria, pois ninguém conhece os gostos dos usuários como ele, nem mesmo o Google.

O gigante de buscas também faz fortuna entregando pequenos anúncios publicitários espalhados por sites próprios e de terceiros. Os anúncios do Google estão sempre associados ao assunto da página em que aparecem. Segundo seu raciocínio, que tem dado certo, se o usuário se interessa pelo assunto da página, deve se interessar pelo anúncio, se ele tiver assunto semelhante. Ele se foca, portanto, mais na página que no usuário. Já o Facebook segue o caminho contrário. Com seu inigualável banco de dados sobre gostos dos usuários, os anúncios que entrega são focados sempre no próprio usuário, não se importando com o conteúdo da página.

Todo esse conhecimento sobre as pessoas vem justamente das ações e do engajamento de cada um com seja lá o que for. Clicar no botão “curtir” em uma notícia não é só um jeito fácil e bacana de se dizer aos amigos que se gosta daquilo: o usuário também diz o mesmo ao Facebook, que assim constroi o seu perfil de cada um de nós. Dessa forma, ninguém pode oferecer informações sobre engajamento ao mercado publicitário como eles. Se o pessoal do marketing comprar a ideia, eles ficam por cima da carne seca.

O segundo motivo chega a ser quase paradoxal para quem conhece tão bem os usuários. Estudos, como esse, da Webtrends, sugerem que a taxa de cliques nos anúncios do Facebook é muito baixa, mesmo quando comparadas ao que se pratica nessa indústria (especialmente o Google). Pior que isso: ela vem caindo. Pelo estudo, a taxa de cliques (CTR, “click-through rate” ou “taxa de cliques”) caiu de 0,063% para 0,051% de 2009 a 2010. Em direção contrária, o que o Facebook cobra, em média, por clique (CPC, “cost per click” ou “custo por clique”) subiu, no mesmo período, de US$ 0,27 para US$ 0,49. E o quanto cobra por simplesmente exibir os anúncios (CPM, “custo por mil”) também subiu, de US$ 0,17 para US$ 0,25 a cada mil impressões.

Por isso, enfraquecer a importância do CTR enquanto fortalece o engajamento são críticos para o Facebook. Representariam o enfraquecimento da concorrência (especialmente do Google) e o fortalecimento do Facebook. Seus executivos têm uma árdua tarefa junto ao mercado publicitário. Se tiverem sucesso, merecerão gordos bônus por alterar a maneira como as empresas anunciam seus produtos e serviços.

Alguém pode parar o iPad?

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O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP - Foto: divulgação

O TouchPad, que passou de "iPad killer" para "queima de estoque", pela própria HP

No dia 18, a Hewlett-Packard surpreendeu o mercado ao anunciar que estava abandonando o seu recém-lançado tablet, o TouchPad, que chegou a ser anunciado como um “iPad killer” e o primeiro passo de uma longa linha de produtos da empresa. Mas, com seu sistema operacional proprietário, o webOS, ele decepcionou nas vendas e foi sepultado pela companhia depois de míseros 67 dias no mercado.

E então uma coisa inusitada aconteceu: para queimar os estoques encalhados, a HP decidiu derrubar seu preço de US$ 499,99 para US$ 99,99 na versão com 16 GB de armazenamento, e de US$ 599,99 para US$ 149,99, no modelo de 32 GB. Instantaneamente o produto se transformou em um hit, com enormes filas sendo formadas nas lojas. Vendeu tudo! O próprio sistema de e-commerce da HP entrou em colapso com a inesperada enorme procura.

O valor percebido explica essa aparente contradição no comportamento dos usuários. O pessoal não topou pagar pelo TouchPad o mesmo que a Apple cobra pelo iPad 2. O webOS também parece ter jogado contra o tablet da HP, tanto que alguns usuários estão tratando de encontrar uma maneira de instalar o Android no TouchPad adquirido na bacia das almas.

Afinal, alguém pode bater a Apple e seu aclamado iPad? Nos últimos meses, pude experimentar vários concorrentes, todos rodando Android: pela ordem, Samsung Galaxy Tab e Galaxy Tab 2, STI myPad, Motorola Xoom e Lenovo ThinkPad Tablet. Todos eles tinham alguma (ou muita) coisa melhor que o iPad 2, alguns tinham um hardware claramente superior ao da Apple. Por que não conseguem então rivalizar em vendas com o iPad?

O problema está no Android. Não, o sistema operacional do Google é muito bom, em muitos aspectos superior ao iOS da Apple. Mas ele –especialmente a versão 3 (Honeycomb), criada para tablets– demorou a chegar, dando tempo para o iPad abrir uma enorme vantagem de mercado. Como resultado, os aplicativos para iOS estão muito mais maduros que os de Android, além de uma ter oferta mais ampla. Além disso, todos os principais produtores de conteúdo já abraçaram o iPad (muitos até o veem até como a tábua de salvação para uma indústria de mídia em crise), e só agora começam a pensar em produtos para os tablets Android.

Por conta disso, a Apple está sozinha demais nesse jogo. Dita regras draconianas para a comunidade de desenvolvedores de software e de conteúdo. Até mesmo seus usuários são obrigados a fazer as coisas do seu jeito (alguém aí já tentou colocar –sem pagar– sua música preferida como toque em um iPhone, algo ridiculamente simples em qualquer outro celular?).

Por isso, o movimento da HP foi um balde de água fria para aqueles que –como eu– esperam pelo surgimento de concorrentes que enfrentem o iPad de igual para igual. O hardware dos mais recentes tablets Android já chegaram lá. O Android em si também. Falta melhorar a oferta de aplicativos e de conteúdo.

Não podemos esquecer do Google, com Larry Page de novo no timão. Acaba de comprar a divisão de mobile da Motorola pela bagatela de US$ 12,5 bilhões. Não há dúvida que coisa boa sairá disso. A briga dos tablets ainda vai esquentar. Que bom! Tomara que derreta metal!

O Google+ superará o Facebook?

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A nova rede social do Google traz inovações interessantes, mas ainda precisa preencher lacunas antes de ameaçar o Facebook

A nova rede social do Google traz inovações interessantes, mas ainda precisa preencher lacunas antes de ameaçar o Facebook

Você já aderiu ao Google+? Quando ouvi falar da nova rede social do gigante de buscas pensei: “mais uma…” Pois bem: ela ainda não completou seu primeiro mês no ar e nem foi lançada oficialmente -o que está previsto para o dia 31 de julho- mais de 10 milhões de pessoas, inclusive eu, já aderiram a ela.

As comparações com o Facebook aparecem em toda parte e a mais comum é afirmar que a rede de Mark Zuckerberg demorou cerca de dois anos para atingir a mesma marca. Mas elas não são justas, pois o Facebook surgiu a partir de um conceito de exclusivismo elitista, em contraste com o de completa abertura inicial do Google+. Além disso, esse último foi para o ar empurrado pela gigantesca expectativa em torno de um produto dessa natureza na família do Google, enquanto o Facebook nasceu das mentes de um bando de estudantes então desconhecidos.

A pergunta que realmente merece ser feita é: o Google+ superará o Facebook? Por enquanto, a carteira de 10 milhões de usuários do Google+ está longe de ameaçar a de 750 milhões do rival. Pesa contra o Google também um Orkut, que fez sucesso apenas no Brasil e uns poucos países sem muita expressão, e dois fracassos em produtos da mesma natureza: o Google Wave e o Google Buzz.

Mas a turma de Larry Page parece ter aprendido com os seus erros: o Google+ tem recebido muitos elogios da imprensa especializada e de seus entusiasmados primeiros usuários. Soube aproveitar o melhor dos concorrentes: como li por aí, “se o Facebook e o Twitter tivessem um filhote, ele seria o Google+”.

Apesar de boas idéias e uma construção esmerada, a nova rede ainda tem, entretanto, muito pouco a oferecer. O Google está se apressando em integrar todo o seu portfólio ao novo produto: já fez isso muito bem com o Google Talk e com o Picassa (agora Google Photos), além do próprio buscador; na sequência, virão o Blogger (rebatizado de Google Posts) e o Google Docs.

Mas mesmo quando todos os produtos estiverem bem costurados, o problema do Google+ é que ele será “apenas” uma rede social bem concebida e com recursos interessantes. E isso está longe de ser suficiente para ameaçar o Facebook. Isso só acontecerá quando o Google fizer o mesmo que seu concorrente, que se transformou em uma plataforma de desenvolvimento de aplicativos de toda natureza. Desde os aclamados jogos sociais da Zynga, como FarmVille ou CityVille, até inofensivos aplicativos, o Facebook ofereceu a uma legião de milhares de desenvolvedores a possibilidade de terem acesso a informações de seus 750 milhões usuários, que graciosamente as oferecem em troca de funcionalidades que tornam a sua experiência online mais divertida e poderosa. Isso sem falar nos recursos de integração do Facebook aos sites de qualquer pessoa, tornando-os mais funcionais.

Não há nenhuma dúvida que esses são os grandes responsáveis pelo sucesso do Facebook, o que dá mais sabor e cor à rede de Zuckerberg. Sem eles, seria apenas mais uma rede social das “antigas”, como o decadente MySpace ou o finado Friendster. Se o Google+ não seguir essa linha, não superará  o Facebook, ficando restrito a um “nicho” de alguns milhões de usuários.

As revistas querem mostrar que não estão mortas

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No dia 1º de março, cinco dos publishers mais importantes do mundo, Charles Townsend, da Condé Nast, Cathie Black, da Hearst Magazines, Jack Griffin, da Meredith Corporation, Ann Moore, da Time Inc., e Jann Wenner, da Wenner Media, anunciaram um campanha publicitária para mostrar ao seu público –e ao mercado publicitário– que as revistas não morreram e que ainda são um excelente negócio para os anunciantes.

A iniciativa, batizada de Magazines: the power of print, foi lançada durante a conferência da Associação Americana de Agências de Publicidade, que aconteceu em San Francisco (EUA). A um custo de US$ 90 milhões, circulará durante sete meses em cerca de uma centena de revistas desses grupos e seus sites, além de publicações de terceiros. O vídeo acima é parte dessa campanha, estrelado pelos executivos das revistas.

O objetivo da campanha é claro: dizer que as revistas trazem o melhor custo-benefício publicitário. O “inimigo” também está bem definido: a Internet, praticamente materializada em torno do Google. E a mensagem gira em torno do fato de que uma nova tecnologia não mata a anterior. Ou seja, as revistas continuam existindo, apesar da Internet, contrariando os arautos do apocalipse.

Puxa vida, eles descobriram isso sozinhos ou precisaram ajuda? Ok, claro que a ideia é sensibilizar as agências de publicidade, mas o tom da campanha chega a ser revanchista, colocando as revistas em franca defensiva. Apresentam várias métricas (de entidades ligadas à mídia impressa) que indicam aumento do leitorado, mas, em nenhum momento citam que revistas e jornais perdem, ano após ano, fatia do bolo publicitário, enquanto a Internet aumenta a sua. Será que precisa de tudo isso? Além do mais, se a coisa está tão boa assim, por que tanta preocupação em mostrar ao mundo tamanha obviedade?

Todas essas publicações possuem a sua versão online. Mas o fato é que essas empresas têm sido, até agora, incapazes de conter o rombo no budget de suas revistas –a cash cow de todas elas– com os crescentes (porém ainda proporcionalmente minguados) ganhos com suas iniciativas digitais. E isso acontece especialmente porque elas insistem em migrar para uma nova realidade o mesmo modelo de negócio que funcionava tão bem para o papel.

Infelizmente não funciona. A Web desafia a todos a criarem modelos totalmente novos. Ao invés de combater o Google, deveriam aprender algo com ele. E isso significa parar de querer adaptar o que já fazer e pensar MESMO fora da caixa.

Há alguns dias, estava conversando em off com o diretor de uma editora de livros didáticos, e ele disse que esse grupo –que ainda está com um pouco mais de tempo que as editoras de revistas e jornais para cair de cabeça na Internet– precisa agora começar a se aventurar com seriedade em produtos verdadeiramente digitais. Inclusive porque ainda têm fôlego para cometer erros. Na sua análise, se começarem a tentar –e errar– apenas daqui a dez anos, poderão ser postos para fora do negócio, pois então ninguém mais precisará deles. Exatamente a situação em que a indústria fonográfica está hoje: quem precisa deles ainda?

Acho que esses US$ 90 milhões poderiam ser mais bem usados estudando modelos de negócio alternativos. Afinal, a Internet não vai matar as revistas, mas certamente fará com que elas mudem sua forma, em um sentido bastante amplo.

Até onde vai o vale-tudo na China?

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David Drummond, principal executivo jurídico do Google - Foto: divulgação

Drummond botou a boca no trombone, mas o que realmente há por trás da reação do Google?

Pergunte a qualquer grande empresário se ele gostaria de ter uma operação na China e a resposta provavelmente será sim. Entrar no gigante vermelho é quase como uma medalha de mérito, pois representa acesso a um mercado gigantesco e ainda com muito espaço, com custos de produção muito baixos que levam também a exportações para todo mundo de maneira muito competitiva.

Mas, há seis dias, David Drummond, principal executivo jurídico do Google publicou o post “uma nova abordagem para a China” no blog oficial da empresa, informando que a empresa e dezenas de outras foram alvos de ataques de hackers chineses. Até aí, nada demais. Mas o vice-presidente afirmou categoricamente que os ataques tinham, como alvo, contas de e-mail de ativistas de direitos humanos daquele país. Ainda que não tenha dito explicitamente, ficou no ar a ideia de que o governo chinês poderia estar por trás daquelas ações.

O Google afirma que, diante disso, mudará a postura de sua operação local, não mais aceitando a interferência e as regras do governo de Pequim, que obriga a empresa, por exemplo, a censurar os resultados de seu buscador, eliminando links para páginas que o governo considera contrárias a seus interesses. Quando foi anunciada, essa censura causou grande desconforto entre os usuários, inclusive maculando o mote informal do Google, “don’t be evil” (“não seja mau”).

Algumas empresas declararam apoio ao Google –como o Yahoo!– e outras nem tanto –como a Microsoft. E, apesar de a secretária de Estado do EUA, Hillary Clinton, ter dito que as acusações do Google “motivam preocupações e questionamentos muito sérios”, é pouco provável que o incidente provoque alguma crise política entre Washington e Pequim.

Vamos aos fatos! Qualquer empresa que quiser operar no mercado chinês tem que aceitar as regras e a interferência do governo local, e isso não vai mudar. Yao Jian, porta-voz do ministério do Comércio chinês já reiterou isso, após negar que o governo tenha relação com os ataques. Todas as empresas, de qualquer indústria, aceitam essa regra e os computadores vendidos no país vêm com um software-espião, batizado de Green Dam (“barragem verde”).

MAS… será que a China é a única “malvada”? Com toda essa gritaria, alguém se lembrou que as mesmas empresas também colaboram com o governo americano, especialmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001? O próprio CEO do Google, Eric Schmidt, sugeriu publicamente, no fim do ano passado, que ninguém deve colocar na Internet algum tipo de informação da qual possa se arrepender, pois a privacidade total não existe. No final das contas, há mesmo uma diferença nas investidas dos governos dos EUA e da China contra a privacidade? E tem ainda o nosso senador Eduardo Azeredo e seu famigerado projeto de lei, que quer “regular” a Internet brasileira.

Como se pode ver, tá todo mundo com o rabo preso.

Como a maior fusão da história fez água

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Enquanto eu descansava nos Andes, a coisa pegava fogo

Enquanto eu curtia a paisagem (merecidamente), a coisa pegava fogo pelo mundo

Voltei de férias pelo interior dos Andes (vide foto), onde pude realmente me desligar do mundo, e me deparei com um clima enlouquecido, Daniel Dantas livre, tentativas de cerceamento da imprensa e ideia loucas de mexer no vespeiro da anistia. É também o momento em que o Google assume que sofreu ataques de hackers chineses, com seu advogado sugerindo que teriam sido patrocinados pelo próprio governo chinês e ameaçando encerrar a operação local (falarei sobre isso mais tarde).

Mas é também o momento em que a maior fusão -e um dos maiores fracassos- da história acaba de completar dez anos: a compra da Time Warner pela America Online. E desde que eu deixei a operação brasileira, poucos meses antes do seu fechamento, ouço recorrentemente duas perguntas: por que o negócio não deu certo no Brasil e como a fusão acima fracassou.

Realmente a coisa tinha tudo para dar certo… mas deu errado. A explicação extra-oficial da época -e ela realmente explica muito- é que o negócio ruiu devido a diferenças culturais entre as duas empresas e seus respectivos funcionários e a uma crescente animosidade entre os grupos, que não só não foi controlada pela direção do grupo, como foi amplificada por ele.

Mas agora, passada uma década, podemos ver com mais facilidade que havia um outro fator decisivo: a Internet, que era quase como uma concorrente da “velha AOL”, que aglutinava seus assinantes em torno de seu gigantesco serviço proprietário, estava começando a virar de pernas para o ar os modelos de negócios vigentes tanto do lado da AOL quanto da Time Warner. Para piorar tudo, a bolha ponto-com estourou justo naquela época e a AOL ainda se viu envolvida em escândalos financeiros.

Aquilo foi praticamente a semente do tsunami que vem varrendo a mídia tradicional nos últimos anos, destruindo empresas de comunicação centenárias. E pode-se dizer que o epicentro disso é o Google, a empresa que soube mover-se com rapidez e habilidade sobre os escombros do gigantesco fracasso.

O The New York Times publicou uma excelente reportagem sobre os motivos do fracasso da fusão, depois de ouvir praticamente todas as pessoas-chave do acordo. Vale a pena a leitura!

Dos escombros, as duas empresas finalmente se separam em dezembro. A AOL tenta se reinventar para recuperar pelo menos parte do brilho que teve no passado. As empresas da Time Warner têm seus próprios problemas. Em ambos os casos, a Internet, que jogou água na festa de Steve Case e Gerald Levin, é quem agora impõe os desafios para que ambos sigam adiante.

A Microsoft consegue bancar um bloqueio ao Google?

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[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=sewucH3rOPM]

Há cerca de um mês, começaram a pipocar aqui e ali rumores sobre um suposto acordo que, de tão bizarro, parecia mais um daqueles boatos disseminados pela Internet. Mas de boato, eles não tinham nada. O fato é que a Microsoft está em sérias conversações com a News Corp. O objetivo: a turma de Steve Ballmer pensa em pagar para que a de Rupert Murdoch impeça que o conteúdo de suas publicações –o que não é pouca coisa, incluindo aí o The Wall Street Journal– seja indexado pelo Google, passando a ser encontrado apenas no Bing, o novo buscador da Microsoft.

Tirar o seu conteúdo do Google para deixá-lo restrito ao Bing, que mal faz cócegas ao primeiro? Provavelmente todas as pessoas, exceto as envolvidas no acordo, diriam que isso é uma enorme estupidez. Afinal, como apontou recentemente a consultoria Experian Hitwise, 21% de TODO o tráfego de sites de jornais vem do Google, contra míseros 2% do Bing. Essa troca de conteúdo por tráfego seria o “uso justo”, que embasa a defesa do Google no assunto.

Mas, para Rupert Murdoch, a idéia parece fazer sentido. Já há bastante tempo, ele classifica os buscadores –especialmente o Google– como ladrões, com todas as letras e sem aspas. Isso pode ser visto, por exemplo, no vídeo acima. Mas, se agora um buscador quer justamente pagar pelo conteúdo, a coisa muda de figura.

Já a Microsoft parece estar disposta a usar de força monetária bruta para tentar fazer o Bing decolar. No seu raciocínio, se o internauta só encontrar conteúdos relevantes no seu produto, pode deixar de usar o Google. Tanto é assim que a turma de Redmond estaria tendo conversas de teor semelhante com outros grupos de mídia, em uma tentativa de pegar só para si o conteúdo que fosse realmente útil, deixando ao Google os “restos”.

Parece fazer sentido. Onde está a falha nesse conchavo?

Já em 2005, eu dizia aos meus alunos do curso de Jornalismo da Metodista que um dos maiores desafios que eles enfrentariam era o fato de que (já naquela época) o que nós produzimos havia virado commodity.

Do lado da News Corp. aí está a falha. Eles produzem um bom conteúdo? Certamente sim. Eles são os únicos capazes de fazer isso nesse nível? Certamente não. Ainda é preciso ter muito dinheiro para fazer jornalismo de alta qualidade? Certamente NÃO: por isso a News Corp. e a grande mídia concorrem com uma legião de indivíduos e pequenas empresas pela audiência e pelo bolo publicitário.

Já do lado da Microsoft, a falha é: a Internet é grande demais para ser comprada. Essa estratégia teria alguma chance de dar certo se todos os grandes produtores de mídia abraçassem a idéia, mas vários deles já anunciaram que não vão entrar nesse barco furado. Para eles (e para mim), as pessoas não deixarão de usar o Google se o conteúdo da News Corp e de um punhado de outros reacionários não aparecer mais em seus resultados. Se entrassem, eles não apenas não lucrariam com o inexpressivo Bing, como perderiam a chance de monetizar o tráfego que receberiam do Google.

Há ainda uma “continha básica” a ser feita. Apesar da gritaria de Murdoch, suas publicações efetivamente fazem dinheiro com os internautas que o Google lhes envia. Podem ser migalhas individualmente, mas 21% de todo o seu tráfego está longe de ser café pequeno. Perder esse tráfego do Google e o dinheiro associado para migrar ao Bing só faz sentido se a Microsoft bancar essa diferença com vantagens para a News Corp. Mesmo para a gigante de Redmond, até quando eles estarão dispostos a fazer isso, já que seus ganhos não devem ser proporcionalmente expressivos? E ainda querem fazer o mesmo para um grande número de grupos de mídia? Eu chamo isso de dumping.

Honestamente, Murdoch pode até achar o Google uma empresa bandida conduzida por moleques irresponsáveis. E daí? Em uma nova ordem mundial da mídia, onde o conteúdo por si só perdeu completamente o valor (algo que ele, como dono desse império, se recusa a aceitar), provavelmente tem muito a aprender com eles. Isso sim é fazer negócio.