política

Reflexão: o “vilão” é sempre um vilão?

By | Tecnologia | No Comments

Ontem assisti a “Capitã Marvel”, a mais nova aventura da Marvel. Gostei, especialmente dos diálogos espirituosos entre ela e Nick Fury. Não é o melhor do estúdio, mas diversão está garantida (para quem gosta do estilo). Mas algo me chamou bastante a atenção.

No início, os vilões são da raça alienígena skrull, velha conhecida dos fãs de quadrinhos. Mas -surpresa- eles talvez não sejam caras maus de verdade! São apenas o outro lado de uma guerra. E, quando colocados dessa maneira, tudo ganha nova perspectiva.

Lembrei do seriado da HBO “Band of Brothers” (2001), uma obra-prima sobre a Segunda Guerra Mundial. Em uma cena, após feroz batalha, um soldado americano se aproxima de um alemão que havia matado antes. Ao ver de perto o corpo, ele questiona o que afinal fazia dele um “inimigo”. Em outra circunstância, poderiam ser amigos e estar tomando uma cerveja. Mas, pela guerra, havia acabado com ele, sem saber bem por que.

Muito se esperava do feminismo em “Capitã Marvel” (até foi lançado no Dia Internacional da Mulher). Esse tema foi abordado de uma boa maneira. Mas o aspecto político acabou sendo mais interessante.

Para se pensar, ainda mais em tempos de tanta intolerância nas redes sociais.



 

Não entre na onda da fábrica de ódio das redes sociais

By | Tecnologia | 4 Comments
Jovem é ferido na cabeça em conflito durante manifestação - imagem: Rovena Rosa/ Agência Brasil

Jovem é ferido na cabeça em conflito durante manifestação

Você também sente que, de uns tempos para cá, há muito ódio no ar? Ele se manifesta, por exemplo, em um trânsito cada vez mais agressivo e egoísta, no debate político hiperpolarizado, nas brigas irracionais de torcidas, em religiões que pregam a intolerância e nas relações de trabalho, entre colegas, com a chefia e até com clientes. Mas o que tem me chamado muito a atenção é o papel das redes sociais nesse caldeirão de emoções à flor da pele.

Vejo o acirramento do Fla-Flu ideológico em tudo: “se você não está comigo, está contra mim!” Mas o mundo não funciona dessa forma dicotômica, preto e branco: existem incontáveis tons de cinza entre os extremos da vida. Esse comportamento egocêntrico aparece com mais força quando estamos cercados de pessoas que compartilham do que acreditamos em um tema específico. E é aí que entram as redes sociais.

Para que esses negócios prosperem, eles precisam se tornar relevantes em nossas vidas (como, aliás, qualquer outro). A fórmula para se conseguir isso é o fundamento essencial do Facebook: jogar na nossa cara os posts das pessoas mais importantes para cada um de nós, como familiares, amigos mais próximos e aqueles que têm os mesmos gostos que os nossos.

Em tese, a teoria é boa, especialmente se considerarmos que, sem isso, teríamos que passar por centenas de posts diariamente, só para ver o que nossos amigos publicaram, o que é inviável. Portanto, se vemos em nosso feed de notícias as coisas mais importantes que as pessoas de quem mais gostamos disseram, usaremos a ferramenta cada vez mais para termos a sensação de que não perdemos nada importante.

E é aí que mora o perigo!

 

“Diga-me com quem anda…”

Para você ver essas postagens selecionadas, obrigatoriamente você precisa deixar de lado um montão de outras. O Facebook analisa dezenas de variáveis do usuário, dos seus contatos, das publicações que cada um deles faz e todo tipo de interação online dos indivíduos para montar um perfil de cada um, que pode mudar a qualquer momento. Com base nessas informações, seleciona o que será exibido e o que será ignorado para cada usuário. Assim funcionam os chamados algoritmos de relevância.

Isso é ótimo para não deixar de ver as fotos que sua mãe publica. Entretanto, quanto mais se usa o sistema, menos se vê conteúdo de pessoas que pensam diferentemente de você. Em resumo: o mundo se transforma em um lugar de pensamentos únicos, ingrediente essencial para qualquer tipo de intolerância.

O ciberativista Eli Pariser cunhou o termo “bolha de filtro” (ou “filtro bolha”) para explicar esse fenômeno. Pela sua teoria, os algoritmos de relevância acabam impedindo que os usuários vejam a Internet sem discriminação, isolando-os intelectual e culturalmente, o que, em última instância, cria cidadãos piores com o tempo.

Apesar de achar suas conclusões um pouco extremistas (pois também existem usos positivos dessa tecnologia), vejo méritos na sua teoria. Uma pessoa não pode ser exposta apenas àquilo que gosta, sendo “poupada” do que a desagrada, do diferente, do inesperado, do “chato, porém necessário”. Pois justamente com essa pluralidade de ideias o indivíduo cresce intelectualmente e como cidadão.

Não é de se estranhar que qualquer regime totalitário tenta impor um pensamento único.

 

“Narciso acha feio o que não é espelho”

Os algoritmos de relevância estão aí, fazendo o seu trabalho, mostrando para cada um aquilo que se parece com a própria pessoa.

Peguemos o debate político como exemplo. De uns três anos para cá, os discursos nas redes sociais endureceram: amigos de anos se insultam publicamente, relacionamentos são desfeitos, grupos se formam em torno de suas ideologias para combater adversários. Como se dão conta que há muita gente pensando igual, o caldeirão ideológico ferve e acaba virando ódio. Esquecem que é perfeitamente possível conviver com as diferenças, sem a necessidade de eliminá-las. Na verdade, tal convívio é saudável e necessário. Essa é a essência da democracia!

Chegamos a um ponto tão delicado que as agressões deixaram as redes sociais e ganharam as ruas, as escolas, os ambientes de trabalho. Constrangimentos, insultos e até agressões físicas são cada vez mais comuns. E a maior das ironias é que as pessoas estão se matando por indivíduos que, apesar de discursos inflamados, na verdade assistem ao circo pegar fogo com maquiavélica indiferença.

As pessoas chegaram ao cúmulo de ser manipuladas por elas mesmas, por suas crenças! Por isso, é hora de parar e pensar sobre o que acontece a nossa volta, saindo do turbilhão que exige que tomemos decisões na velocidade das redes sociais, sem refletir, caminhando cegamente com o rebanho.

A vida é muito mais que isso, e o que a torna mais bonita é justamente as diferenças que estão em toda parte.  As redes sociais são ferramentas incríveis e ninguém deve deixar de usá-las. Apenas precisamos fazer isso com mais consciência. E mais amor.

 

Artigos relacionados:

Como destruir uma nação usando apenas livros

By | Educação | 6 Comments

Foto: John-Mark Kuznietsov/Creative Commons

O Ministério Público Federal decidiu enfiar o dedo na ferida e investigar se os livros usados nas escolas brasileiras estariam doutrinando politicamente nossas crianças. Apesar do ineditismo da ação, ela toca em um ponto que educadores conhecem como a palma da mão: é claro que sim!

O fato é que poucas coisas são tão incrivelmente eficientes para controlar um povo quanto a educação. E isso acontece de uma maneira tão perversa quanto produtiva. Afinal, crianças e adolescentes não costumam questionar o conhecimento dos professores nas disciplinas que ministram, muito menos quando ele é corroborado pelos livros didáticos. Sem um contraponto de mesmo peso (que seria a família, mas que raramente discute questões acadêmicas com os filhos), ideias bem plantadas na sala de aula florescem viçosas nas cabeças jovens. Mesmo que sejam as mais pestilentas ervas daninhas.


Vídeo relacionado:


A ação do Ministério Público Federal do Mato Grosso foi motivada por artigo do professor Fernando Schüler, publicado na Época, no dia 29 de fevereiro. Nele, o autor transcreve exemplos escandalosos de como livros de História de algumas das principais editoras nacionais se prestam a endeusar o governo federal a partir da eleição de Lula e demonizar o de Fernando Henrique Cardoso.

Quero deixar claro aqui que esse artigo não tem qualquer objetivo partidário. O que quero discutir é a ética de se usar a sala de aula para destruir o senso crítico dos futuros cidadãos em nome de uma visão política. Citei os exemplos acima porque eles estão lá nas páginas, editadas com uma atroz visão maniqueísta do mundo. Nossos alunos são doutrinados a crer que tudo que um fez é lindo e perfeito, e o que o outro deixou é miséria e destruição. Naturalmente isso não é verdade nem para um, nem para o outro, pois isso simplesmente não acontece em governo algum.

Por uma coincidência, a ação do MPF foi aberta na semana passada, no mesmo dia em que fiz aqui uma discussão sobre como o Brasil vive o absurdo paradoxo de conviver com um alto desemprego enquanto as empresas por aqui não conseguem preencher os seus melhores postos de trabalho, por falta de mão de obra qualificada. A responsável por essa triste realidade? A péssima qualidade de nossa educação.

Em outra coincidência, ontem terminou a consulta pública sobre a proposta para a Base Nacional Comum Curricular, diretrizes que determinarão tudo que as quase 200 mil escolas brasileiras deverão ensinar de agora em diante. O documento apresentado pelo MEC foi amplamente criticado por especialistas, por carregar todo seu conteúdo com um pesado viés ideológico, especialmente na disciplina de História, um verdadeiro desrespeito com os fatos que formaram o mundo, como também já discutimos aqui.

O que se pode esperar disso?

 

Coitada da democracia

Somos seres humanos e, como tal, somos movidos por paixões. Entre elas, uma das mais poderosas é a nossa inclinação política. Quando acreditamos em uma corrente, estamos piamente convictos de que ele é o melhor para todos. E, assim sendo, qualquer esforço vale para fazer mais pessoas pensarem da mesma forma.

Mas isso nunca foi verdade e nunca será! Não há regime, filosofia, proposta que seja a melhor para todos os cidadãos, simplesmente porque as pessoas são diferentes, têm desejos e crenças próprias. Dessa forma, tentar impor um pensamento eliminando ou difamando as alternativas é algo, no mínimo, tirano e egoísta.

Nossos líderes políticos adoram encher a boca e ficam com olhares cândidos ao afirmar que defendem a democracia. Mas, na prática, o que se vê, em todos os lados, é uma luta cada vez mais selvagem para eliminar seu opositor. Mas isso é justamente o contrário da democracia, que é, por definição (pelo menos nos termos atuais), a elaboração de uma nação melhor a partir de pontos de vista diferentes e até conflitantes, porém convivendo de maneira organizada e construtiva.

Não é fácil aceitar isso, mas alguns profissionais têm o dever de superar as suas paixões e lutar pela isenção no que fazem.

Aprendi isso, em teoria, na faculdade de Jornalismo, mas coloquei esse conceito à prova no dia a dia da profissão, inclusive vendo muito colegas falhando miseravelmente nessa tarefa. É verdade: a imprensa é imperfeita, mas ela é fundamental para o crescimento de um país. Porque, como jornalista, procuro ouvir todos os lados envolvidos em um fato, duvido sempre de tudo que vejo, e publico com a maior isenção possível, mesmo quando eu não concorde com o tema.

Educadores, autores de livros didáticos e paradidáticos, gestores pedagógicos e os responsáveis pelas políticas educacionais deveriam seguir também essas mesmas três regras de ouro. Mas, com honrosas exceções, não vejo o menor emprenho nisso. Salas de aula e órgãos educacionais vêm se tornando redutos de doutrinação política, e isso é algo que vem se aperfeiçoando ao longo de décadas!

Mas isso não pode continuar assim! Estamos vivendo um vale-tudo ideológico destrutivo, alimentado justamente pelo oportunismo de alguns e pela ignorância dos demais. Se continuarmos entregando nossas crianças e jovens a essa deseducação, eliminando uma visão pluralista e destruindo seu senso crítico, o crescimento do país e a própria democracia correm sérios riscos.


Artigos relacionados:

 

Ativismo digital desperta engajamento e simboliza uma nova geração politizada

By | Tecnologia | No Comments

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nas grandes manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, ficou famosa a hashtag #vemprarua, que conclamava a população a participar das passeatas que estavam acontecendo. Ela vinha de mãos dadas com a ideia crescente de que fazer política só pelas redes sociais não era suficiente. Porém, passados dois anos, percebe-se que esse discurso é enviesado e que o “ativismo digital” representa muito mais que simplesmente alguém que não quer sair do sofá para fazer política.

Na semana passada, a F/Nazca, com o apoio da cRica Consulting e do Datafolha, publicou os resultados da 15ª edição da F/Radar, pesquisa que investiga os impactos da tecnologia na cultura e no consumo. Ela gerou um documentário, batizado de “Democracia Conectada”, que pode ser visto abaixo:

Os resultados demonstram que a combinação da enorme penetração das redes sociais (especialmente o Facebook) e dos smartphones entre os brasileiros criou elementos que permitem o engajamento da população nas mais diferentes causas. Elas vão desde a organização de megamanifestações completamente desvinculadas de grupos políticos, até a defesa de pequenas causas urbanas, como a preservação de uma praça ou um parque.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os números que apontem que, dos quase 30 milhões de ativistas digitais no país, 80% se envolveram com causas pelas redes sociais, e que metade dos que participaram online também o fizeram indo para a rua. E mais: 60% dos internautas acreditam que as redes sociais podem mudar sua opinião sobre algum problema social e 40% afirmam que a mobilização online contribui para que participem presencialmente.

São números que demonstram um comportamento novo.

 

No sofá sim; apático não

Conclusões políticas e comportamentais muito importantes e interessantes podem ser tiradas disso.

A primeira delas é que esse tipo de engajamento está totalmente alinhado com uma nova linguagem urbana, que vem se desenvolvendo em todas as classes sociais: cada vez mais as pessoas conversam pelo meio digital, especialmente pelos smartphones. E, apesar de esse diálogo ser, de alguma forma, empobrecido por não acontecer presencialmente, diante do interlocutor, ele acaba sendo muito amplo. Fala-se sobre mais temas, e com mais gente. E, nesse cenário, fala-se até com desconhecidos de uma maneira inimaginável há alguns anos.

Essa característica essencial das redes sociais parece ter sido definitivamente integrada ao comportamento do brasileiro urbano, especialmente entre os mais jovens. E está na base desse crescimento do ativismo digital reportado pela F/Nazca.

Outra coisa que se observa é o sentimento de que as redes sociais são um palanque tão importante quanto as ruas, talvez até mais. Dezenas de milhares de pessoas em uma passeata certamente causam um grande impacto, mas esses eventos não acontecem sempre, são pontuais. As redes sociais, por outro lado, estão continuamente no ar, e as postagens políticas de cada usuário têm potencial de se propagar rapidamente pela rede, seguindo os seus critérios. Dessa forma, graças à tecnologia, estamos assistindo a uma nova forma de se fazer política, que pode ser profundamente engajada, mesmo sem precisar sair do sofá.

Naturalmente há de se argumentar que possivelmente a maior parte disso tudo seja apenas ruído causado por discursos vazios. Muito se fala, muito se critica, pouco se propõe. Afinal, é divertido bater em quem não gostamos, principalmente quando o alvo já está em situação delicada. O ditado “chutar cachorro morto” ganha nova dimensão nas redes sociais, com os amigos que pensam igual sobre determinado tema surgindo para ajudar no linchamento online.

Sobre isso, faço dois comentários. Sim, esse comportamento existe e está até mesmo criando uma polarização na sociedade nunca vista no Brasil. Mas isso, por mais ocas que sejam as palavras, já é fazer política.

Além disso, quem tem participado das últimas grandes manifestações de rua percebeu que aquilo era um verdadeiro carnaval de ideias completamente dissociadas entre si, até mesmo antagônicas. Tudo debaixo de um mesmo guarda-chuva democrático, que também abrigava aqueles que estavam lá só para curtir. Nada mais natural: a passeata é uma manifestação materializada na rua do discurso nada virtual das redes sociais, que, aliás, foram usadas para organizar o movimento.

Tudo isso passa uma sensação de que temos ainda muito a evoluir na nossa consciência política, para que paremos de chutar o cão moribundo e passemos a criar propostas concretas para o nosso país. Mas vejo com bons olhos como os meios digitais estão promovendo uma mudança maiúscula em mais um elemento da nossa sociedade. Estamos vendo o nascimento de uma nova geração politizada, com linguagem e estilo próprios.