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A mentira dita mil vezes

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O governo federal parece ter agora apenas um único objetivo: desacreditar as urnas eletrônicas e instituir o voto impresso. A pandemia, o desemprego e tantas outras mazelas do Brasil parecem ter sumido, pois o ataque ao sistema eleitoral brasileiro se tornou um assunto onipresente nas falas de Bolsonaro. É de se perguntar o porquê dessa insistência insana.

Para quem conhece um pouco da história e da política, esse movimento é facilmente explicável. Ele segue um padrão de convencimento popular formalizado há cerca de 90 anos, mas que foi reforçado pelo advento das redes sociais.

Na quinta, o mandatário não cumpriu a promessa de demonstrar as falhas da urna eletrônica, em uma transmissão recheada de vídeos antigos e argumentos falsos, todos largamente desmentidos por autoridades e especialistas. Ainda assim, insiste na tese e convoca seus apoiadores para lutar por ela.

Essa linha de ação segue o conceito de que “uma mentira dita uma vez é apenas uma mentira; já uma mentira dita mil vezes se torna verdade”.


Veja esse artigo em vídeo:


Essa tese foi organizada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolph Hitler, para legitimar suas atrocidades. Foi dessa maneira que os alemães na década de 1930 apoiaram a política do seu Fürher contra os “inimigos do povo”, com a qual se consolidou no poder, tornou-se ditador, promoveu a Segunda Guerra Mundial e realizou o Holocausto. As ações dos apoiadores do líder nazista podem ser vistas no premiado documentário “Arquitetura da Destruição” (disponível gratuitamente e legendado no YouTube).

Aquilo parece monstruoso a nossos olhos, mas, guardadas as proporções, é exatamente o mecanismo atual, com o agravante de que se espalha mais rapidamente pelas redes sociais. Agora, para se tornar “verdade”, uma mentira não se repete mais mil vezes, e sim um milhão de vezes, o que torna o processo mais eficiente.

Esse modus operandi não tem nada a ver com um governo ser progressista ou conservador, de esquerda ou de direita. Tem a ver com um governo ser autoritário e querer se perpetuar no poder a qualquer custo.

A história é pródiga em demonstrar isso, sendo que alguns de seus mais perfeitos expoentes foram legitimamente eleitos em um primeiro momento, como Donald Trump, Hugo Chávez e Adolph Hitler. Dos três, o único que fracassou em seus objetivos foi o primeiro, mas não sem deixar um grande custo, com os Estados Unidos rachado ao meio, culminando com a grotesca invasão do Capitólio, em que seus apoiadores invadiram violentamente o Congresso para tentar impedir o anúncio da vitória de seu opositor, Joe Biden.

 

“Engana que eu gosto”

Não se trata de uma loucura coletiva. Por uma característica evolutiva de autopreservação da espécie, as pessoas acreditam naquilo que lhes for mais conveniente, mesmo que a manutenção de alguns de seus privilégios prejudique muitas pessoas ou até coloque a democracia em risco.

Quando são expostas a apenas uma narrativa, baseada em fatos, na ciência ou em instituições de grande reputação, acatam mesmo o que não gostam, resignando-se. Mas, na primeira oportunidade de alguém lhes apresentar uma versão contrária e mais palatável, abraçam cegamente o mentiroso, como uma tábua de salvação.

Esse mecanismo de interesse de manada contra a verdade foi descrito em 2016 pelo renomado Dicionário Oxford. Naquele ano, seus organizadores elegeram “pós-verdade” como a “palavra do ano”. Na sua definição, ela é “relativa ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.”

Mas isso precisa ser construído! A narrativa mentirosa, que interessa a esses grupos específicos, precisa fazer frente à realidade, sufocando os fatos e expondo incansavelmente a alternativa por todos os métodos disponíveis.

Por isso, a boa imprensa sempre é uma pedra no sapato de governantes, especialmente dos autoritários. A despeito de suas imperfeições, ela tem a função essencial de fiscalizar todo governo, impedindo-o de extrapolar suas prerrogativas. Se um veículo não fizer isso, não está fazendo bom jornalismo.

Goebbels sabia e censurou a imprensa, classificando as vozes dissonantes de “inimigos do povo”. Os nazistas não viam problema em desqualificar, censurar, prender e até matar quem se opusesse a eles. Por outro lado, como se vê em “Arquitetura da Destruição”, todos os recursos eram usados para reforçar sua visão, como eventos populares, o esporte, a cultura, as artes e até a arquitetura.

 

As redes sociais e a mentira

Em democracias consolidadas, calar a imprensa não é tarefa simples. Como os veículos de comunicação alcançam milhões de pessoas, sua voz tem enorme poder.

Mas ela ganhou um contraponto há cerca de 20 anos, com o surgimento das redes sociais. Pela primeira vez, as ideias de qualquer pessoa poderiam potencialmente atingir uma enorme quantidade de indivíduos, até mesmo em outros países.

Em um primeiro momento, foi incrível, pois a informação parecia ser mais democrática. Mas, de uma década para cá, grupos de poder aprenderam a usar esse recurso para impor a sua “pós-verdade”, travestindo-a de “voz do povo”. Obviamente trata-se de um engodo! Mas, como os algoritmos não têm ética e nem moral, é o suficiente para convencer milhões de pessoas.

Os “robôs” são essenciais nesse cenário para dar o primeiro empurrão e apresentar as mentiras nas redes sociais para quem deseja que aquilo seja verdade. A partir daí, essas pessoas espalharão essas fake news. Mas ainda não é suficiente. É preciso criar um discurso uníssono para consolidar a falcatrua. Exatamente como se faz agora contra as urnas eletrônicas.

Elas são perfeitamente auditáveis, enquanto os votos impressos (mesmo impressos automaticamente) são facilmente fraudáveis. E não é preciso adulterar uma enorme quantidade de votos impressos: apenas o suficiente para criar uma diferença entre essa contagem e o das urnas eletrônicas, para se criar uma insegurança jurídica em torno dos resultados da eleição. A partir daí, pode-se querer impugnar o resultado com o respaldo de uma parcela considerável da população, que acredita na farsa.

As circunstâncias nunca foram tão favoráveis para que uma mentira dita mil vezes se torne verdade. Para que uma democracia sobreviva, as pessoas devem ter acesso a fontes de informação diversas e confiáveis.  Precisam também ser convidadas a pensar e a contestar o que chega para elas, especialmente quando parece ser incrivelmente suculento para os seus valores e os seus desejos.

E isso é bem difícil. Mas é exatamente aí que reside a mentira que quer se tornar verdade!

Pode ter menos pão, desde que tenha muito circo

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Um ano e 250 mil mortos depois do início da pandemia de Covid-19 por aqui, os brasileiros arranham caminhos para continuar tocando a vida. Diante da ausência de um norte consistente e seguro indicado pelas autoridades, buscamos garantir nossas necessidades básicas em meios ao caos.

Tradicionalmente tais necessidades são garantidas pelo Estado, até para sua própria manutenção. Na antiga República e no Império Romano, os governantes descobriram que era preciso garantir às pessoas duas coisas: o pão e o circo. O primeiro atendia parte do sustento, enquanto o segundo garantia a diversão, para diminuir as tensões do cotidiano.

Passados 2.500 anos, o panem et circenses, como era chamada essa política, continua valendo na relação entre governantes e governados, e invadiu também outras áreas, como o mundo do trabalho e até nossas relações pessoais. Além disso, o pão e o circo são representados de maneiras cada vez mais subjetivas e muito ligadas às redes sociais.

Uma coisa, entretanto, não mudou: se o pão diminui, é preciso caprichar no circo!


Veja esse artigo em vídeo:


Políticos jogam muito bem esse jogo, mas eles não estão mais sozinhos nesse tabuleiro. Graças aos meios que as redes sociais oferecem para se ganhar muita visibilidade, empresas e até indivíduos criam seus circos para ganhar o próprio pão.

A princípio, não há nada de errado em usar criativamente os recursos digitais, muito pelo contrário! O problema surge quando se ultrapassa o limite da ética ao se enganar os mais diferentes públicos, em uma espécie de estelionato ideológico.

O circo romano tem um aspecto muito perverso. Ao apresentar ao cidadão alguém que sofre muito mais que ele, seus problemas parecem ficar menores. Por isso, a plateia urrava em êxtase diante de gladiadores obrigados a lutar até a morte ou ao ver inimigos do Estado sendo entregues a leões. Qualquer problema fica menor diante do sangue jorrado na arena, pelo simples fato de quem assiste continuar vivo e estar sentado ao lado do governante, que promove a carnificina.

A lógica permanece até hoje, mas ganha novos recursos e novos promotores do espetáculo.

As autoridades continuam sendo soberanas em momentos de circo sem pão, e o nosso governo atual se destaca nisso. Diante de sua incompetência de solucionar as crises da saúde, do trabalho, da economia estagnada, da educação, entre muitas outras, abusa de bravatas vazias contra inimigos reais ou imaginários, para manter sua base de apoio incendiada. Com isso, cria uma densa cortina de fumaça que tira da população o foco nos problemas verdadeiros, mantendo aqueles que o apoiam anestesiados em uma fantasia grotesca.

Mas os políticos não estão sozinhos: reality shows também são um incrível exemplo de um circo romano moderno.

 

A vilã de uma nação

Sem dúvida, o melhor exemplo para entender esse fenômeno é o “Big Brother Brasil”. E um acontecimento da semana passada foi emblemático: a cantora Karol Conká foi eliminada do programa com uma rejeição recorde do público de 97,17%. Quando isso anunciado, pessoas gritaram nas janelas da minha vizinhança, algo que normalmente só acontece em partidas decisivas de futebol e em recentes manifestações políticas.

Karol foi alçada ao posto de supervilã do BBB 21 porque, segundo o jargão do programa, “jogou mal”. Foi arrogante, preconceituosa, agressiva, o que culminou na inédita saída espontânea de outro participante, Lucas Penteado.

Quando deixou a casa, ela descobriu que tinha perdido algo como 40% de seus seguidores nas redes sociais e contratos de trabalho que chegariam a R$ 5 milhões. Mas será que ela merecia tamanha punição, mesmo diante de seus comportamentos reprováveis no programa? Afinal, aquela casa costuma ser lar de muitas intrigas e muito veneno entre os participantes.

Mas, na lógica do circo, essa pergunta é irrelevante. A partir do momento que recebeu o selo de “pessoa má da história”, a audiência decretou que ela deveria ser imolada publicamente. O fato de ela ser famosa potencializou o sentimento. E a possibilidade de seu destino ser decidido por cada um de nós, impondo uma humilhante votação praticamente unânime pela sua saída, é um dos segredos do sucesso desse tipo de programa.

Cada um de nós se torna um pequeno imperador romano que, com o polegar para baixo, determina a morte do perdedor.

 

O circo nosso de cada dia

No mundo atual, não é preciso ser uma grande emissora de TV ou um presidente da República para armar um circo. Com as redes sociais, qualquer um pode ser dono de um picadeiro, apresentador e artista.

Infelizmente, a maioria dessas apresentações é de baixíssima qualidade. Em uma sociedade cada vez mais dependente de espetáculos, de atos teatrais, de bufões e de fanfarronices, quanto pior, melhor.

Isso explica a ascensão e queda das diferentes redes sociais. Quem aqui se lembra do Orkut, que nasceu como um interessante experimento social e terminou com um nível baixíssimo das publicações? O mesmo aconteceu com o Facebook, que cresceu diante do declínio daquele concorrente, mas, há muitos anos, vem sofrendo com a piora das conversas ali. Criou-se até o neologismo que diz que o Facebook foi “orkutizado”. O mesmo aconteceu com o Twitter, o Instagram e até o LinkedIn, uma rede que até o início de 2018 resistia a esse processo.

Esse raciocínio pode parecer elitista e, de certa forma, é mesmo. Quanto mais sucesso uma plataforma digital faz, mais ela se parece à população que representa. Oras, se essa população aprecia ver o sangue de quem não gosta ou prefere conversas com a profundidade de um pires, para poder esquecer de seus próprios problemas, aos poucos as redes passarão a oferecer isso.

Isso é uma tragédia anunciada! Quando as pessoas não saem do mundo digital, sendo profundamente influenciadas pelo que veem ali, o discurso raso anestesia todo mundo, fazendo com que deixem seus problemas para lá (sem resolvê-los), dedicando-se apenas à “diversão”.

O circo se torna muito mais importante que o pão!

São nessas horas que os grupos de poder deitam e rolam! Enquanto a massa cega se diverte, eles podem fazer o que quiserem, até mesmo se preocupar menos em dar o pão.

Precisamos resgatar o nosso senso crítico, autoestima e coletividade. Sem eles, logo seremos nós mesmos a alimentar os leões, para o deleite dos que sobrarem.

As ameaças à (e da) Internet

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O aplicativo TikTok, da chinesa ByteDance, vem se destacando nas manchetes nas últimas semanas. E não é só porque ele se tornou o app mais instalado nesses meses de pandemia: de janeiro a junho, foram 315 milhões de instalações, o melhor desempenho de um app na história. O principal motivo foi ter sido alçado à posição de estrela na guerra que o presidente americano, Donald Trump, trava com a China, visando sua reeleição em novembro.

Mas o que um aplicativo de vídeos curtos pode ter de tão importante? Quanto das acusações de Trump são verdadeiras? E principalmente como isso impacta a vida de cada um de nós?


Veja esse artigo em vídeo:


Shakespeare escreveu: “há mais coisas no Céu e na Terra que foram sonhadas na filosofia”. Esse famoso trecho de Hamlet é muito propício ao momento.

Trump, como sempre, cria uma cortina de fumaça para esconder suas reais intenções. Mas há muito, muito mais em jogo, muito além até dos mesquinhos interesses do mandatário americano.

Algo que nos afeta a todos.

Primeiramente vamos contextualizar a história para quem não sabe do que se trata.

O TikTok vem sendo acusado de coletar muitas informações dos usuários, e de uma maneira mais sorrateira que o normalmente feito pelos aplicativos que instalamos despreocupadamente em nossos celulares. Até a famosa rede de hackers Anonymous chegou a levantar essa bandeira em julho.

Trump enxergou nisso uma oportunidade de fustigar ainda mais a China. Ele começou a afirmar, sem nenhum embasamento, que, além de coletar nossos dados, o TikTok os repassa ao governo chinês, como uma poderosa ferramenta de controle da população mundial.

A empresa e até o governo de Pequim sempre negaram isso. A plataforma até contratou, em maio, o americano Kevin Mayer como seu principal executivo, nunca tentativa de demonstrar que o TikTok é independente de seu país de origem.

Trump então ameaçou banir o TikTok do território americano. Foi quando, na semana passada, apareceu na história a Microsoft. A gigante do software disse que gostaria de comprar as operações do TikTok nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Ainda que relacionado a apenas esses países, isso lhe daria acesso aos códigos do programa.

Trump resolveu interferir na relação comercial entre duas empresas, o que é, no mínimo, inadequado. Em primeiro lugar, deu 45 dias para que a transação acontecesse. Depois disse que a compra deve ser total. E, por fim, o mais bizarro: disse que, qualquer que seja o valor que a Microsoft pague à ByteDance, uma “grande parte” deve ir para os cofres do governo americano: afinal, ele estaria permitindo que o negócio se concretizasse.

Parece que a conhecida liberdade empresarial americana virou fumaça, em uma narrativa digna de um ditador.

Mas, como já dito, essa história esconde um monte de elementos que vão muito além de Trump, do TikTok e da Microsoft. Coisas que nos afetam profundamente como cidadãos e como profissionais.

Quando eu comecei a desenvolver produtos digitais, bem lá no começo da Internet comercial, em 1995, ela despontava como um espaço idílico em que os dados trafegariam livremente, em que pequenos teriam o mesmo espaço dos gigantes, um mundo de oportunidades infinitas e democráticas.

Infelizmente aquela utopia se dissipou em poucos anos.

O tráfego livre dos dados se tornou um negócio de grandes conglomerados que descobriram maneiras cada vez mais eficientes para coletar nossos dados e organizá-los para serem transformados em informações comerciais valiosíssimas. Ou seja, a terra digital do “amor livre dos dados” rapidamente foi dominada por quem tinha muito dinheiro, de uma maneira que transformou profundamente nossas vidas.

O casamento dos smartphones com as redes sociais

O auge disso começou com a combinação de duas coisas. A primeira foram os smartphones, graças ao seu poder computacional imenso, que carregamos conosco o tempo todo. São a máquina perfeita de espionagem, pois nossa vida hoje acontece neles. A segunda foram as redes sociais, que criaram algoritmos e maneiras de convencimento para que compartilhemos alegremente todo tipo de informação pessoal.

Na verdade, essa combinação provocou uma incrível mudança cultural, em que sabemos que estamos sendo rastreados, mas que aceitamos que nossos dados sejam levados e usados, em troca de serviços supostamente gratuitos que essas empresas nos oferecem.

Trump sabe muito bem disso. Sua eleição como presidente dos Estados Unidos é parcialmente creditada a esse controle. Em março de 2018, explodiu o escândalo da empresa de marketing político britânica Cambridge Analytica. Ela foi contratada pela equipe da campanha de Trump para ajudá-los a convencer os americanos a votar no milionário. Para isso, a empresa roubou dados de 87 milhões de usuários do Facebook e os manipulou para, entre outras coisas, uma enxurrada de disparos em massa de fake news favoráveis a Trump.

O Facebook é a grande estrela nesse mundo de captura de informações dos usuários para fins às vezes inconfessáveis. Ninguém está mais bem posicionado que ele para isso.

Tanto que, na semana retrasada, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, foi sabatinado por deputados americanos sobre o poder imenso de sua empresa, em um processo que pode levar à divisão da companhia em empresas menores. E ele não estava sozinho: também foram questionados Sundar Pichai, CEO do Google, Tim Cook, CEO da Apple, e Jeff Bezos, CEO da Amazon.

Ou seja, o TikTok é só a bola da vez, que ganhou destaque pela sua rápida adoção, mas também por causa de Trump.

Ele coleta nossas informações? Com certeza!

Ele faz isso de maneira mais agressiva e mais furtiva que outros aplicativos, como o Facebook? Há suspeitas não confirmadas.

Ele entrega nossas informações ao governo chinês? Não há nada sério que sugira isso.

Apagar o aplicativo vai nos deixar protegidos de ladrões de dados? Claro que não! No máximo, isso nos protegeria da ByteDance, mas não dos desenvolvedores de todos os outros aplicativos em nosso celular.

Não há inocentes nessa história! Talvez os mais inocentes sejamos nós mesmos, os usuários, que entregamos graciosamente a nossa informação para aplicativos que nos dizem como ficaremos mais velhos ou com qual celebridade nos parecemos.

É a versão do século XXI dos índios que, no início da colonização, trocavam toras de pau-brasil que cortavam por espelhinhos presenteados pelos portugueses. Hoje, com nossos dados, sim, governos podem mudar o eixo de influência geopolítica do mundo.

Outra empresa chinesa que vem sendo pesadamente alvejada por Trump é a Huawei, que hoje lidera a tecnologia 5G, próxima geração de transmissão de dados por celular. O presidente americano usa seu poder para que governos do mundo todo impeçam que equipamentos da Huawei sejam adotados por empresas nesses países. Ele sabe que a nação da qual venha a tecnologia 5G dominante terá monstruosa influência política e econômica no mundo na próxima década, no mínimo. Sem falar no oceano de dinheiro que isso vai gerar, pelos royalties, licenças, compras de equipamentos e suportes.

E, no meio de tudo, estamos nós, como pessoas e como empresas.

Não sejamos otários! Não compremos brigas que não são nossas!

A verdade é que, infelizmente, continuaremos sendo colonizados. Enquanto o Brasil não investir seriamente em pesquisa, incluindo aí pesquisa de base, sempre estaremos à mercê de tecnologias de outros países, com tudo que isso traz. E nós, ao invés de avançarmos na ciência, temos dado largos passos para trás nos últimos anos!

É duro dizer isso! Mas é a verdade.

A questão é saber se continuaremos sendo colonizados pelos Estados Unidos ou se passaremos cada vez mais a ser colonizados pelos chineses. Uma vez que não conseguimos declarar até hoje a nossa independência, temos que ver, pelo menos, o que é o melhor para cada um de nós.

Quanto ao TikTok, use por sua conta e risco. Você não irá para o Inferno se continuar dançando na frente da tela com ele.

A morte da empatia e o fim da humanidade

By | Educação | No Comments

A política é uma atividade nobre e necessária, mas não podemos sucumbir à luta pelo poder e matar a nossa capacidade de sermos empáticos, arrastando a nossa humanidade para a escuridão, como vem acontecendo no mundo todo, e muito fortemente no Brasil.

Negar a política é inócuo: ela faz parte da nossa natureza. Quando debatemos aqui, estamos fazendo política, que foi criada para nos organizarmos em sociedade e construirmos algo com nossos semelhantes.


Saiba mais sobre esse assunto no vídeo abaixo:


Infelizmente, a política também pode se enviesar e criar algo contrário à sua função essencial. Na luta pelo poder, mentimos, roubamos, matamos. E acreditamos em pessoas que fazem isso em seu benefício.

Isso explica o atual cenário, em que aqueles que pensam diferentemente, mesmo quando estão buscando o bem da sociedade, devem ser calados ou até eliminados. Para desgraça geral, isso não vem sendo feito apenas de maneira figurativa.

Os fatos têm me feito pensar muito sobre isso, e já ensaiei alguns debates nas redes para ajudar na compreensão desse fenômeno perverso que estamos vivendo.

Por exemplo, na quarta passada (19), publiquei um post comentando o atual comercial do WhatsApp, uma peça belíssima, que me tocou muito. Ele mostra como o comunicador, que ficou famoso como a ferramenta mais eficiente para disseminar as “fake news”, as infames notícias falsas, também pode ser usado para fazer o bem. Claro, é só uma ferramenta: o bem e o mal vêm de como as pessoas usam esse recurso!

Dois dias depois, fiz outro post comentando um comercial, nesse caso, da companhia aérea Scandinavian Airlines. Outra peça inspiradora e emocionante, que explica que muito do que os escandinavos se orgulham de ter desenvolvido, como a licença paternidade, o movimento pelos direitos das mulheres, o clipe de papel, e muitas outras coisas, são, na verdade, invenções de outros povos. Mas isso não tira o valor da contribuição dos escandinavos, que melhoraram tudo aquilo. Apesar da bela mensagem, grupos conservadores locais não gostaram da peça, por isso atacaram a campanha e a empresa por supostamente estarem “desrespeitando a cultura escandinava”. A agência que criou a peça chegou a receber uma ameaça de bomba!

Honestamente, a opção política de qualquer um diz respeito apenas a si. Mas opção política é muito diferente de negar a verdade, só porque ela incomoda. E, pior, querer impor sua visão de mundo a todos pela força.

Por exemplo, na quinta, assisti estarrecido a um vídeo que viralizou na Internet, que mostrava alguns homens arrastando para longe da água um tubarão que havia encalhado e estava agonizando em Guaratuba, no Paraná. O animal acabou morrendo asfixiado logo depois. Além de não terem chamado especialistas para salvar o animal, ainda o arrastaram para a areia. Quanto sadismo!

Há também o caso da jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha de S.Paulo”, que vem sendo covardemente atacada por autoridades eleitas e hordas que as seguem. Motivo: fazer um trabalho exemplar, mas que vai contra os interesses desses indivíduos. Apesar de ter tudo documentado, de maneira mais que suficiente para desmentir todas as calúnias contra ela, essa turma continua rejeitando os fatos, para continuar a atacando de maneira sórdida!

Sei que, para muitos, a imprensa é como aquele tubarão na praia: se alguém fizer algo de errado e um jornalista descobrir, ele pode “morder”. E deve fazer isso mesmo! Por isso, esse pessoal acredita que jornalista merece “morrer de antemão”!

Mas, se não é perfeita, a imprensa é essencial para fiscalizar o poder político e econômico, impedindo que ele faça o que bem entender. Vale dizer que a imensa maioria do trabalho jornalístico é muito bem feito, essencial para a manutenção da sociedade.

Então, novamente, podemos e devemos ter suas convicções políticas, religiosas, ideológicas. Mas isso não pode fazer com que busquemos a aniquilação dos diferentes a nós.

As diferenças sempre existiram, e somos capazes de conviver em harmonia. Precisamos urgentemente resgatar a nossa capacidade de viver em sociedade de maneira civilizada, de construir com o outro, de demostrar empatia.

Se não fizermos isso logo, pode ser tarde demais e a nossa humanidade terá desaparecido para sempre.


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Cena do filme "Ele Está de Volta", em que Adolf Hitler "acorda" nos dias atuais - Foto: divulgação

Reflexão: somos facilmente manipuláveis?

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A vida imita a arte ou vice-versa?

O filme “Ele Está de Volta” (“Er ist wieder da”, Alemanha, 2015) sugere o que aconteceria se Adolf Hitler magicamente “acordasse” hoje. Depois dos primeiros dias de desorientação, ele passa a ser quem ele é.

Ao andar pelas ruas, conclui que o país está tomado por valores “degenerados”, sob a ótica nazista: imigrantes, liberdade de pensamento, ascensão das mulheres, homossexualismo. Ao propagar suas ideias, vira um fenômeno instantâneo de mídia, no YouTube e na televisão.

Apesar de afirmar que é o próprio Hitler, obviamente ninguém acredita nisso. Os mais próximos acham que é um ator que não consegue sair do papel. Ainda assim, suas ideias ultraconservadoras fazem enorme sucesso, com boa parte da população acreditando que aquilo seria a solução para os problemas atuais. Sua reputação só é manchada quando atira em um cachorro, o que choca a opinião pública. Mas logo todos esqueceram do episódio, e ele voltou com ainda mais força.

Classificado como comédia, o filme faz uma profunda crítica à ascensão de políticos conservadores em todo o mundo. Em determinado momento, o próprio Hitler conclui que o povo alemão é “um bom material de trabalho”.

Será que é isso que todos nós nos tornamos?

Reflexão: o “vilão” é sempre um vilão?

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Ontem assisti a “Capitã Marvel”, a mais nova aventura da Marvel. Gostei, especialmente dos diálogos espirituosos entre ela e Nick Fury. Não é o melhor do estúdio, mas diversão está garantida (para quem gosta do estilo). Mas algo me chamou bastante a atenção.

No início, os vilões são da raça alienígena skrull, velha conhecida dos fãs de quadrinhos. Mas -surpresa- eles talvez não sejam caras maus de verdade! São apenas o outro lado de uma guerra. E, quando colocados dessa maneira, tudo ganha nova perspectiva.

Lembrei do seriado da HBO “Band of Brothers” (2001), uma obra-prima sobre a Segunda Guerra Mundial. Em uma cena, após feroz batalha, um soldado americano se aproxima de um alemão que havia matado antes. Ao ver de perto o corpo, ele questiona o que afinal fazia dele um “inimigo”. Em outra circunstância, poderiam ser amigos e estar tomando uma cerveja. Mas, pela guerra, havia acabado com ele, sem saber bem por que.

Muito se esperava do feminismo em “Capitã Marvel” (até foi lançado no Dia Internacional da Mulher). Esse tema foi abordado de uma boa maneira. Mas o aspecto político acabou sendo mais interessante.

Para se pensar, ainda mais em tempos de tanta intolerância nas redes sociais.



 

Não entre na onda da fábrica de ódio das redes sociais

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Jovem é ferido na cabeça em conflito durante manifestação - imagem: Rovena Rosa/ Agência Brasil

Jovem é ferido na cabeça em conflito durante manifestação

Você também sente que, de uns tempos para cá, há muito ódio no ar? Ele se manifesta, por exemplo, em um trânsito cada vez mais agressivo e egoísta, no debate político hiperpolarizado, nas brigas irracionais de torcidas, em religiões que pregam a intolerância e nas relações de trabalho, entre colegas, com a chefia e até com clientes. Mas o que tem me chamado muito a atenção é o papel das redes sociais nesse caldeirão de emoções à flor da pele.

Vejo o acirramento do Fla-Flu ideológico em tudo: “se você não está comigo, está contra mim!” Mas o mundo não funciona dessa forma dicotômica, preto e branco: existem incontáveis tons de cinza entre os extremos da vida. Esse comportamento egocêntrico aparece com mais força quando estamos cercados de pessoas que compartilham do que acreditamos em um tema específico. E é aí que entram as redes sociais.

Para que esses negócios prosperem, eles precisam se tornar relevantes em nossas vidas (como, aliás, qualquer outro). A fórmula para se conseguir isso é o fundamento essencial do Facebook: jogar na nossa cara os posts das pessoas mais importantes para cada um de nós, como familiares, amigos mais próximos e aqueles que têm os mesmos gostos que os nossos.

Em tese, a teoria é boa, especialmente se considerarmos que, sem isso, teríamos que passar por centenas de posts diariamente, só para ver o que nossos amigos publicaram, o que é inviável. Portanto, se vemos em nosso feed de notícias as coisas mais importantes que as pessoas de quem mais gostamos disseram, usaremos a ferramenta cada vez mais para termos a sensação de que não perdemos nada importante.

E é aí que mora o perigo!

 

“Diga-me com quem anda…”

Para você ver essas postagens selecionadas, obrigatoriamente você precisa deixar de lado um montão de outras. O Facebook analisa dezenas de variáveis do usuário, dos seus contatos, das publicações que cada um deles faz e todo tipo de interação online dos indivíduos para montar um perfil de cada um, que pode mudar a qualquer momento. Com base nessas informações, seleciona o que será exibido e o que será ignorado para cada usuário. Assim funcionam os chamados algoritmos de relevância.

Isso é ótimo para não deixar de ver as fotos que sua mãe publica. Entretanto, quanto mais se usa o sistema, menos se vê conteúdo de pessoas que pensam diferentemente de você. Em resumo: o mundo se transforma em um lugar de pensamentos únicos, ingrediente essencial para qualquer tipo de intolerância.

O ciberativista Eli Pariser cunhou o termo “bolha de filtro” (ou “filtro bolha”) para explicar esse fenômeno. Pela sua teoria, os algoritmos de relevância acabam impedindo que os usuários vejam a Internet sem discriminação, isolando-os intelectual e culturalmente, o que, em última instância, cria cidadãos piores com o tempo.

Apesar de achar suas conclusões um pouco extremistas (pois também existem usos positivos dessa tecnologia), vejo méritos na sua teoria. Uma pessoa não pode ser exposta apenas àquilo que gosta, sendo “poupada” do que a desagrada, do diferente, do inesperado, do “chato, porém necessário”. Pois justamente com essa pluralidade de ideias o indivíduo cresce intelectualmente e como cidadão.

Não é de se estranhar que qualquer regime totalitário tenta impor um pensamento único.

 

“Narciso acha feio o que não é espelho”

Os algoritmos de relevância estão aí, fazendo o seu trabalho, mostrando para cada um aquilo que se parece com a própria pessoa.

Peguemos o debate político como exemplo. De uns três anos para cá, os discursos nas redes sociais endureceram: amigos de anos se insultam publicamente, relacionamentos são desfeitos, grupos se formam em torno de suas ideologias para combater adversários. Como se dão conta que há muita gente pensando igual, o caldeirão ideológico ferve e acaba virando ódio. Esquecem que é perfeitamente possível conviver com as diferenças, sem a necessidade de eliminá-las. Na verdade, tal convívio é saudável e necessário. Essa é a essência da democracia!

Chegamos a um ponto tão delicado que as agressões deixaram as redes sociais e ganharam as ruas, as escolas, os ambientes de trabalho. Constrangimentos, insultos e até agressões físicas são cada vez mais comuns. E a maior das ironias é que as pessoas estão se matando por indivíduos que, apesar de discursos inflamados, na verdade assistem ao circo pegar fogo com maquiavélica indiferença.

As pessoas chegaram ao cúmulo de ser manipuladas por elas mesmas, por suas crenças! Por isso, é hora de parar e pensar sobre o que acontece a nossa volta, saindo do turbilhão que exige que tomemos decisões na velocidade das redes sociais, sem refletir, caminhando cegamente com o rebanho.

A vida é muito mais que isso, e o que a torna mais bonita é justamente as diferenças que estão em toda parte.  As redes sociais são ferramentas incríveis e ninguém deve deixar de usá-las. Apenas precisamos fazer isso com mais consciência. E mais amor.

 

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Como destruir uma nação usando apenas livros

By | Educação | 6 Comments

Foto: John-Mark Kuznietsov/Creative Commons

O Ministério Público Federal decidiu enfiar o dedo na ferida e investigar se os livros usados nas escolas brasileiras estariam doutrinando politicamente nossas crianças. Apesar do ineditismo da ação, ela toca em um ponto que educadores conhecem como a palma da mão: é claro que sim!

O fato é que poucas coisas são tão incrivelmente eficientes para controlar um povo quanto a educação. E isso acontece de uma maneira tão perversa quanto produtiva. Afinal, crianças e adolescentes não costumam questionar o conhecimento dos professores nas disciplinas que ministram, muito menos quando ele é corroborado pelos livros didáticos. Sem um contraponto de mesmo peso (que seria a família, mas que raramente discute questões acadêmicas com os filhos), ideias bem plantadas na sala de aula florescem viçosas nas cabeças jovens. Mesmo que sejam as mais pestilentas ervas daninhas.


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A ação do Ministério Público Federal do Mato Grosso foi motivada por artigo do professor Fernando Schüler, publicado na Época, no dia 29 de fevereiro. Nele, o autor transcreve exemplos escandalosos de como livros de História de algumas das principais editoras nacionais se prestam a endeusar o governo federal a partir da eleição de Lula e demonizar o de Fernando Henrique Cardoso.

Quero deixar claro aqui que esse artigo não tem qualquer objetivo partidário. O que quero discutir é a ética de se usar a sala de aula para destruir o senso crítico dos futuros cidadãos em nome de uma visão política. Citei os exemplos acima porque eles estão lá nas páginas, editadas com uma atroz visão maniqueísta do mundo. Nossos alunos são doutrinados a crer que tudo que um fez é lindo e perfeito, e o que o outro deixou é miséria e destruição. Naturalmente isso não é verdade nem para um, nem para o outro, pois isso simplesmente não acontece em governo algum.

Por uma coincidência, a ação do MPF foi aberta na semana passada, no mesmo dia em que fiz aqui uma discussão sobre como o Brasil vive o absurdo paradoxo de conviver com um alto desemprego enquanto as empresas por aqui não conseguem preencher os seus melhores postos de trabalho, por falta de mão de obra qualificada. A responsável por essa triste realidade? A péssima qualidade de nossa educação.

Em outra coincidência, ontem terminou a consulta pública sobre a proposta para a Base Nacional Comum Curricular, diretrizes que determinarão tudo que as quase 200 mil escolas brasileiras deverão ensinar de agora em diante. O documento apresentado pelo MEC foi amplamente criticado por especialistas, por carregar todo seu conteúdo com um pesado viés ideológico, especialmente na disciplina de História, um verdadeiro desrespeito com os fatos que formaram o mundo, como também já discutimos aqui.

O que se pode esperar disso?

 

Coitada da democracia

Somos seres humanos e, como tal, somos movidos por paixões. Entre elas, uma das mais poderosas é a nossa inclinação política. Quando acreditamos em uma corrente, estamos piamente convictos de que ele é o melhor para todos. E, assim sendo, qualquer esforço vale para fazer mais pessoas pensarem da mesma forma.

Mas isso nunca foi verdade e nunca será! Não há regime, filosofia, proposta que seja a melhor para todos os cidadãos, simplesmente porque as pessoas são diferentes, têm desejos e crenças próprias. Dessa forma, tentar impor um pensamento eliminando ou difamando as alternativas é algo, no mínimo, tirano e egoísta.

Nossos líderes políticos adoram encher a boca e ficam com olhares cândidos ao afirmar que defendem a democracia. Mas, na prática, o que se vê, em todos os lados, é uma luta cada vez mais selvagem para eliminar seu opositor. Mas isso é justamente o contrário da democracia, que é, por definição (pelo menos nos termos atuais), a elaboração de uma nação melhor a partir de pontos de vista diferentes e até conflitantes, porém convivendo de maneira organizada e construtiva.

Não é fácil aceitar isso, mas alguns profissionais têm o dever de superar as suas paixões e lutar pela isenção no que fazem.

Aprendi isso, em teoria, na faculdade de Jornalismo, mas coloquei esse conceito à prova no dia a dia da profissão, inclusive vendo muito colegas falhando miseravelmente nessa tarefa. É verdade: a imprensa é imperfeita, mas ela é fundamental para o crescimento de um país. Porque, como jornalista, procuro ouvir todos os lados envolvidos em um fato, duvido sempre de tudo que vejo, e publico com a maior isenção possível, mesmo quando eu não concorde com o tema.

Educadores, autores de livros didáticos e paradidáticos, gestores pedagógicos e os responsáveis pelas políticas educacionais deveriam seguir também essas mesmas três regras de ouro. Mas, com honrosas exceções, não vejo o menor emprenho nisso. Salas de aula e órgãos educacionais vêm se tornando redutos de doutrinação política, e isso é algo que vem se aperfeiçoando ao longo de décadas!

Mas isso não pode continuar assim! Estamos vivendo um vale-tudo ideológico destrutivo, alimentado justamente pelo oportunismo de alguns e pela ignorância dos demais. Se continuarmos entregando nossas crianças e jovens a essa deseducação, eliminando uma visão pluralista e destruindo seu senso crítico, o crescimento do país e a própria democracia correm sérios riscos.


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Ativismo digital desperta engajamento e simboliza uma nova geração politizada

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nas grandes manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, ficou famosa a hashtag #vemprarua, que conclamava a população a participar das passeatas que estavam acontecendo. Ela vinha de mãos dadas com a ideia crescente de que fazer política só pelas redes sociais não era suficiente. Porém, passados dois anos, percebe-se que esse discurso é enviesado e que o “ativismo digital” representa muito mais que simplesmente alguém que não quer sair do sofá para fazer política.

Na semana passada, a F/Nazca, com o apoio da cRica Consulting e do Datafolha, publicou os resultados da 15ª edição da F/Radar, pesquisa que investiga os impactos da tecnologia na cultura e no consumo. Ela gerou um documentário, batizado de “Democracia Conectada”, que pode ser visto abaixo:

Os resultados demonstram que a combinação da enorme penetração das redes sociais (especialmente o Facebook) e dos smartphones entre os brasileiros criou elementos que permitem o engajamento da população nas mais diferentes causas. Elas vão desde a organização de megamanifestações completamente desvinculadas de grupos políticos, até a defesa de pequenas causas urbanas, como a preservação de uma praça ou um parque.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os números que apontem que, dos quase 30 milhões de ativistas digitais no país, 80% se envolveram com causas pelas redes sociais, e que metade dos que participaram online também o fizeram indo para a rua. E mais: 60% dos internautas acreditam que as redes sociais podem mudar sua opinião sobre algum problema social e 40% afirmam que a mobilização online contribui para que participem presencialmente.

São números que demonstram um comportamento novo.

 

No sofá sim; apático não

Conclusões políticas e comportamentais muito importantes e interessantes podem ser tiradas disso.

A primeira delas é que esse tipo de engajamento está totalmente alinhado com uma nova linguagem urbana, que vem se desenvolvendo em todas as classes sociais: cada vez mais as pessoas conversam pelo meio digital, especialmente pelos smartphones. E, apesar de esse diálogo ser, de alguma forma, empobrecido por não acontecer presencialmente, diante do interlocutor, ele acaba sendo muito amplo. Fala-se sobre mais temas, e com mais gente. E, nesse cenário, fala-se até com desconhecidos de uma maneira inimaginável há alguns anos.

Essa característica essencial das redes sociais parece ter sido definitivamente integrada ao comportamento do brasileiro urbano, especialmente entre os mais jovens. E está na base desse crescimento do ativismo digital reportado pela F/Nazca.

Outra coisa que se observa é o sentimento de que as redes sociais são um palanque tão importante quanto as ruas, talvez até mais. Dezenas de milhares de pessoas em uma passeata certamente causam um grande impacto, mas esses eventos não acontecem sempre, são pontuais. As redes sociais, por outro lado, estão continuamente no ar, e as postagens políticas de cada usuário têm potencial de se propagar rapidamente pela rede, seguindo os seus critérios. Dessa forma, graças à tecnologia, estamos assistindo a uma nova forma de se fazer política, que pode ser profundamente engajada, mesmo sem precisar sair do sofá.

Naturalmente há de se argumentar que possivelmente a maior parte disso tudo seja apenas ruído causado por discursos vazios. Muito se fala, muito se critica, pouco se propõe. Afinal, é divertido bater em quem não gostamos, principalmente quando o alvo já está em situação delicada. O ditado “chutar cachorro morto” ganha nova dimensão nas redes sociais, com os amigos que pensam igual sobre determinado tema surgindo para ajudar no linchamento online.

Sobre isso, faço dois comentários. Sim, esse comportamento existe e está até mesmo criando uma polarização na sociedade nunca vista no Brasil. Mas isso, por mais ocas que sejam as palavras, já é fazer política.

Além disso, quem tem participado das últimas grandes manifestações de rua percebeu que aquilo era um verdadeiro carnaval de ideias completamente dissociadas entre si, até mesmo antagônicas. Tudo debaixo de um mesmo guarda-chuva democrático, que também abrigava aqueles que estavam lá só para curtir. Nada mais natural: a passeata é uma manifestação materializada na rua do discurso nada virtual das redes sociais, que, aliás, foram usadas para organizar o movimento.

Tudo isso passa uma sensação de que temos ainda muito a evoluir na nossa consciência política, para que paremos de chutar o cão moribundo e passemos a criar propostas concretas para o nosso país. Mas vejo com bons olhos como os meios digitais estão promovendo uma mudança maiúscula em mais um elemento da nossa sociedade. Estamos vendo o nascimento de uma nova geração politizada, com linguagem e estilo próprios.